terça-feira, agosto 07, 2018

Mateus 7:13-29 — Comentário Católico

Mateus 7:13-29 — Comentário Católico

A porta estreita (7,13-14)

Estes versí­culos expressam a teologia pactuai dos dois caminhos, um que conduz à vida, o outro à morte (Dt 28; 30,15; Did. 1,1; Barn. 18,1; 1QS 3,18-25); veja K. Baltzer, The Covenant Formulary (Philadelphia, 1971 [tradução para o português O formulário da Aliança, Loyola]); e, sobre Mateus, Frankemõlle, Jahwebund. 49 (b) Dar frutos (7,15-20). Cf. Lc 6,43­ 44; esta e a unidade seguinte (vv. 21-23) têm um relacionamento complexo com a fonte Q, pois foram consideravelmente reelaboradas pelo redator, que introduz o novo tema da falsa profecia, pelos seus frutos os reconhecereis: Este parêntese nos vv. 16.20 identifica o tema desta unidade. Os “frutos” são a fé vivida ou a conduta ética, o teste de uma pessoa boa. 15. falsos profetas: A profecia é uma atividade relacionada ao Espírito ou uma atividade carismática. Alguns pensam que Mateus era anticarismático e minimizou o papel do Espírito em seu evangelho. Outros salientam que ele acrescentou a menção da profecia e dos profetas, que não estava em sua fonte; isso mostra que ele estava interessado no tema e leva à conclusão de que havia profetas em sua comunidade. Mateus provavelmente estava mais preocupado em regular a profecia e em coibir abusos mantendo a profecia dentro de limites morais do que em suprimi-la completamente. Há, sem dúvida, um tom sóbrio e moral em Mateus e uma concentração da atenção no ensino de Jesus. Mas Mateus era também um mestre e estava por demais interessado na criatividade (veja comentário sobre 13,52) para opor-se completamente à profecia ou à obra do Espírito. Ele permanece sendo o pastor capaz, interessado, não um inquisidor.

Um episódio no juízo final (7,21­ 23)

Deus é o juiz, Jesus o advogado (em contraposição a Mt 25,31-46). O versículo 22 é influenciado por Jr 14,14 e 27,15 (34,15 da LXX). 23. apartai-vos de mim, vós que praticais a iniquidade: Isto é derivado do SI 6,9. A única fonte sinótica é Q (ver Lc 6,46). Os paralelos incluem Mt 10,32-33; 25,1-13.31-46; Lc 13,23­ 30; Mc 8,38; Ap 3,5; 2 Ciem. 3-4; Justino, Apol 1.16.9-11; Dial. 76.5. O aspecto dominante do v. 13 ao v. 23 é que ninguém sairá vitorioso no último juí­zo com base somente nas palavras corretas ou ações espetaculares de poder espiritual. Somente uma vida de amor e de justiça terá valor. Este aspecto reflete a característica ligação mateana da ética com a escatologia e sua concepção da igreja como um corpo misto de santos e pecadores até a separação final feita por Deus (em contraposição a uma doutrina da igreja como comunhão invisível dos santos). A concepção de Mateus contesta a complacência cristã e a arrogante garantia da salvação. Esta concepção pode parecer oposta à de Paulo, mas Paulo também se esforçou para impedir seus seguidores de extrair conclusões imorais ou amorais de seu evangelho e alertou os cristãos que eles também seriam julgados (p.ex., ICor 3,13-15). Ainda assim pode haver ênfases pastorais diferentes, uma para os excessivamente escrupulosos e outra para os lassos.

Interpretação: Mateus 1 Mateus 2 Mateus 3 Mateus 4 Mateus 5 Mateus 6 Mateus 7 Mateus 8 Mateus 9 Mateus 10 Mateus 11 Mateus 12 Mateus 13 Mateus 14 Mateus 15 Mateus 16 Mateus 17 Mateus 18 Mateus 19 Mateus 20 Mateus 21 Mateus 22 Mateus 23 Mateus 24 Mateus 25 Mateus 26 Mateus 27 Mateus 28


Casas construídas sobre a rocha e sobre a areia (7,24-29) 

Esta parábola, que Mateus transforma em uma parábola sobre o homem sábio e o insensato, conclui o sermão, retornando ao tema dos dois caminhos da teologia da aliança (veja o comentário sobre 7,13-14). E habitual na Mishnáh terminar um tratado jurídico com breve relato ou uma parábola. O contraste, aqui, desenvolvido em um rigoroso paralelismo antitético, é entre o “ouvir” e “fazer”e “ouvir” e “não fazer”, enquanto nos vv. 21-23, o contraste estava entre “dizer” e “fazer” ou “não fazer”. 24. essas minhas palavras: Esta expressão aponta de volta ao sermão em si como um tipo de Torá. Para Mateus, seguir a palavra de Jesus é sabedoria de vida. (Esta ênfase sapiencial está ausente em Lucas). 25. caiu a chuva: A situação natural reflete o tipo de inundações comuns na terra santa durante a estação chuvosa do inverno. 28-29. O efeito do sermão. 28a. aconteceu que ao terminar Jesus essas palavras: Esta é uma fórmula de Mateus (repetida em 11,1; 13,53; 19,1; 26,1), que ocorre no fim de cada um dos cinco grandes blocos de material catequético que ajudam estruturar este evangelho. 28b-29. Mateus retorna aqui à sua fonte Marcos (1,21.22). Acrescenta o adjetivo possessivo “seus” a “escribas” porque em sua igreja havia escribas (13,52; 23,34), um ofício consagrado em Israel desde a época de Esdras, bem como profetas, sábios, apóstolos e justos (pessoas que tinham sofrido pela fé, 10,41). autoridade: Na Antiguidade, a autoridade derivava da fidelidade à tradição. Tanto Jesus quanto os escribas judaicos ensinavam com uma certa autoridade (rêsut) baseada na tradição. Mas os escribas não se apresentavam nesta época como figuras reveladoras com acesso direto à vontade do pai (7,21). Para as multidões, os primeiros cristãos e Mateus, Jesus era uma figura assim, que possuía um acesso mais imediato ao pai e à realidade vivida e a uma gama mais ampla da tradição bíblica do que os escribas primordialmente haláquicos. E desta combinação singular que vinha a autoridade de Jesus.