Mateus 10:1-42 — Comentário Católico

Mateus 10:1-42 — Comentário Católico

O Discurso a Respeito da Missão (10,1-42) 




(A) A missão dos doze apóstolos (10,1-4). 

Esta perícope serve, junto com 9,36-38, para introduzir o segundo grande discurso do Evangelho, o discurso missionário aos doze apóstolos. S. Brown prefere chamá-lo de “a parte central” porque ele inclui também narrativa (9,36; 10,1-5a) e não é missionário no sentido moderno. Como o Sermão da Montanha, a seção é compilada de trechos de Marcos e Q, boa parte dos quais foi muito retrabalhada pelo próprio Mateus. Peculiares a Mateus são os vv. 5a-8.16b.41.0 toque mais ousado é a transferência dos vv. 17-25 do discurso apocalíptico no cap. 24 (= Mc 13). Na edição de Mateus, o texto dirige-se aos discípulos do tempo de Jesus, mas também inclui a comunidade do autor.

 

10:1. os doze discípulos: Normalmente os discípulos são um grupo maior, mas aqui e em outros lugares (cap. 18?) Mateus os restringe aos doze. Este recurso tanto mantém os Doze junto com os outros discípulos quanto os separa como discípulos especiais, deu-lhes autoridade: Todos os evangelistas sinóticos enfatizam a importância de os emissários de Jesus receberem poder e autoridade reais deles. Ao chamá-los, Jesus toma a iniciativa. O número doze vem do número das tribos de Israel (Mt 19,28) e é símbolo da restaura­ ção de todo o Israel. Mateus pressupõe que todos eles foram chamados anteriormente, embora descreva somente o chamado de quatro (4,18-22).

 

10:2. os nomes dos doze apóstolos: A palavra “apóstolo” ocorre somente aqui em Mateus. Sobre a origem e o significado de apostolos, —» Pensamento do NT, 81:149­52. O caráter religioso desta função às vezes secular de emissário se deriva, no Evangelho, da natureza de quem dá a comissão (Jesus) e do conteúdo da mensagem (v. 7). Os rabinos e o NT conhecem emissários da congregação (2Cor 8,23) e de indivíduos (ICor 1,1). A concepção funcional muito simples de Mateus e de Mc 6,30 recebe um desenvolvimento mais complexo e mais pleno em Lucas e em Paulo. A lista dos apóstolos ocorre, com leves variações, também em Mc 3,16-19; Lc 6,12-16; At 1,13. primeiro, Simão: Para esta primazia, veja 16,17-19. Mateus apresenta também André com seu irmão.

 

10:3. Mateus: chamado de “publicano”; cf. 9,9.

 

10:4. Judas Iscariotes: O sobrenome pode significar o “homem de Queriote” ou “mentiroso”. 68 (B) O comissionamento dos Doze (10,5-16). Veja Mc 6,7-13; Lc 9,1-6.

10:5. não tomeis o caminho dos gentios: Essa ordem de evitar a evangelização de gentios e samaritanos segue a prática do próprio Jesus, descrita em 15,24. Há dificuldade em reconciliar estes versículos com a grande comissão em 28,19. Não há resposta fácil, mas uma abertura para os gentios é perceptível em outras partes de Mateus (10,18; 3,9; 8,lls.; 21,43; 22,1-14; 23,38-39). Talvez Mateus tenha incluído esta ordem aqui porque era importante para os membros de sua comunidade e expressava a consciência fortemente judaica de sua própria tradição especial. Contudo, o v. 18 sugere a existência de uma missão aos gentios por parte de outros; o estágio de G12,9.28,19 permanece um surpreendente deus ex machina, apesar dos preparativos sutis anteriores. Para bibliografia, —» 72 abaixo.

 

10:6. às ovelhas perdidas da casa de Israel: Esta expressão (Ez 34,2-6) refere-se primeiramente a Israel como um todo, incluindo as “tribos perdidas”, mas refere-se também a um grupo dentro de Israel, o ‘am hã’ãres, lit., “povo da terra”, pessoas que, por alguma razão (precisam sustentar-se, profissão mal-afamada, falta de interesse ou instrução), foram marginalizadas, alienadas dos principais círculos de liderança e zelo religioso. Para com essas pessoas, Jesus tinha uma preocupação particular, mas não exclusiva. Seu objetivo não era enfraquecer o povo de Deus, mas uni-lo. Estas “ovelhas perdidas” responderam a seus cuidados.

 

10:7. O Reino dos Céus está próximo: A mensagem dos apóstolos deve ser a mesma de João Batista e de Jesus (Ver 3,2; 4,17).

 

10:8. de graça recebestes: Uma expressão surpreendentemente paulina (Rm 3,24; 2Cor 11,7), cujo acento é que as verdades divinas da salvação são tão importantes para todos que devem ser ensinadas sem preocupação quanto à capacidade de pagamento dos ouvintes. Esse ideal era compartilhado pelos rabinos; por exemplo, Hillel disse: “Quem faz uso mundano da coroa perecerá” (m. ‘Abot 1,13; 2,20; 3,18; 4,5). Esse ideal é moderado pela realidade no v. 10b: o trabalhador é digno de seu alimento (Nm 18,31). O missionário precisa viver. A tensão entre esses dois princípios não é absoluta, mas o equilíbrio é delicado.

 

10:9. não leveis ouro: A lista consiste de roupas de viagem. Em m. Ber 9,5, é proibido entrar no átrio do Templo com estas roupas. O paralelo de Marcos (6,8-11) permite sandálias e um cajado (para afastar animais selvagens e assaltantes). A regra mais dura enfatiza a urgência sagrada da missão.

 

10:11. numa cidade: Os missionários devem depender da hospitalidade local, compartilhar da vida das pessoas a quem são enviados - com todos os riscos e inconveniências que isso acarreta.

 

10:16. prudentes como serpentes: Esse é um ensinamento peculiar de Mateus (cf. Rm 16,19; ICor 14,20; Midr. Cant. 2,14: “Deus diz a respeito dos israelitas: para comigo eles são sinceros como as pombas, mas para com os gentios, prudentes como serpentes”, um texto tardio que pode mostrar que Mateus era conhecido ou que o dito é proverbial). O dito é importante ao distinguir a inocência da credulidade ingênua. Cf. Lc 16,8. 69 (C) Como enfrentar perseguições futuras (10,17-25). Sobre este assunto, veja D. R. A. Hare, The theme of Jewish Persecution. Grande parte desta seção é tirada de Mc 13.9-13 e é repetida com variações em Mt 24.9-14.

 

10:17. suas sinagogas: Talvez em contraposição às sinagogas judaico-cristãs (Tg 2,2), mas talvez sugerindo que a comunidade de Mateus já havia sido banida da sinagoga. Sobre os procedimentos do sinédrio, veja m. Sank.; sobre flagelação, veja m. Mak.

 

10:18. conduzidos à presença de governadores e de reis: “Governadores” são os governadores das províncias romanas; os “reis” seriam soberanos vassalos como Herodes Agripa I (At 12,2) sob o imperador, ou os próprios imperadores, para dar testemunho perante eles: Não necessariamente a pregação missionária (cf. v. 5), mas a afirmação feita ao suportar a perseguição (28,19).

 

10:19. vos será indicado o que deveis falar: Este versículo é, às vezes, usado como desculpa para não preparar sermões, mas o contexto indica somente situações de emergência.

 

10:20. o Espírito de vosso Pai: Em contraposição ao paralelo de Lucas, Mateus enfatiza que o Espírito Santo é o Espírito de Deus Pai. 21b. Veja Mq 7,6.

 

10:22. aquele, porém, que perseverar até o fim: esta paciência persistente em face ao sofrimento escatológico (ao fim) é fé salvífica para Mateus.

 

10:23. as cidades de Israel: Strecker (Weg 41-42) defende que o termo se refere a qualquer lugar onde vivam judeus em todo o mundo, mas isso força o texto. Este versículo, juntamente com Mc 9,1; 13,30, levou A. Schweitzer a pensar que Jesus predisse a vinda do Filho do Homem dentro do período de vida dos apóstolos e que ele errou nisso (veja ainda M. Künzi, Das Naherwartungslogion Matt 10,23 [2 vols.; BGBE 9, 21; Tübingen, 1970, 1977]). Sobre o conhecimento de Jesus, veja R. E. Brown, fesus God and Man (New York, 1967) 39-102. A solução mais simples é que Jesus esperava a vinda após um intervalo que ele deixou indeterminado (Mc 13,32). Historicamente, os judeus cristãos fugiram para Pela na Decápole (Eusébio, HE 3.5.3).

 

10:24. o discípulo não está acima do mestre: Este versículo e o seguinte são importantes para compreender o discipulado nos evangelhos (veja Viviano, Study 158-71). “Discípulo” significa aprendiz ou aluno. O seguidor de Jesus deve ser um aluno de Jesus por toda a vida, porque ele ensina a sabedoria sobre a própria vida. No pano de fundo, encontra-se a relação escolar judaica da época, mas justamente isso representa um perigo. No relacionamento escolar normal, depois que o discípulo aprendeu o que o mestre tem a ensinar, ele vai a outro mestre ou se torna um mestre. Isso é o que os gnósticos fizeram - fizeram de Jesus somente um entre muitos mestres. Foi para impedir a possibilidade de deturpar a afirmação original simples de Jesus (que ainda se pode encontrar em Lc 6,40) em um sentido gnóstico que Mateus a remodelou para incluir as palavras “nem o servo acima do seu senhor”. Isso significa que, para o crente, Jesus não é somente um mestre, mas também um Senhor permanente. (Para a concepção gnóstica, veja Ev. Tomé 13). 70 (D) O temor correto e o incorreto (10,26-31). Veja o paralelo de Q, Lc 12,2-7. Mateus modelou cuidadosamente sua fonte, para que não somente termine com, mas também inicie com temor; portanto, ele une o material criando uma inclusio. Ele também mudou sua fonte de modo que houvesse um contraste entre o ministério secreto de Jesus e o ministério (mais) público dos discípulos no v. 27. Compare as passivas teológicas de Lucas (ZBG § 236), que visam a uma manifestação divina no futuro. Mateus mantém as passivas no v. 26 como base para a proclamação ousada no v. 27.

 

10:26. não tenhais medo deles: O ministério da pregação é intrinsecamente assustador. Somente a fé em um Deus revelador e juiz pode superar esse temor.

 

10:28. temei antes aquele que pode destruir a alma e o corpo: A psicologia pressuposta parece helenística, ou seja, que a alma é intrinsecamente imortal (cf. lTm 6,16). A força do verbo “destruir” é incerta. Significa que Deus aniquilará o corpo e a alma e que, assim, o inferno significaria aniquilação? Ou significa “atribular”, “atormentar”?

 

10:29. dois pardais: A vida mais barata no mercado é citada; contudo, o cuidado providencial de Deus estende-se também a ela.


Veja também: Resumo de Mateus 10

 

10:31. valeis mais do que muitos pardais: Um argumento rabínico (qal wã-hõmer, comparando uma matéria leve com uma pesada) é usado para superar o temor e incentivar os discípulos a confiar em Deus. 71 (E) Confessar Jesus publicamente (10,32-39). Cf. Lc 1 2 ,8 -9 . Dois versículos paralelos que falam de confessar ou de negar a Jesus diante dos seres humanos e dos respectivos resultados diante de Deus; cf. Mc 8,38; Lc 9,26. Estes versículos podem representar uma sobreposição de Marcos Q e são, assim, de grande antiguidade e importância; em sua forma original, talvez sejam melhor representados por Mc 8,38. Ali se pressupõe uma distinção entre Jesus e o futuro Filho do Homem vindouro. Contudo, esta distinção é somente implícita a fim de ser limitada pela afirmação principal: a maneira como você reage a Jesus determinará seu destino futuro no que se refere à salvação. A forma de Mateus pressupõe que Jesus é identificado como o Filho do Homem, uma ligação feita já em Q. Semelhantemente, embora Mateus se refira com frequência aos anjos, aqui ele prefere concentrar-se no Pai celestial. O padrão desses dois versículos se encontra primeiramente em ISm 2,30, onde é Deus quem fala (veja R. Pesch, “Über die Autorität Jesu”, Die Kirche des Anfangs [Fest. H. Schürmann; ed. R. Schnackenburg et al.; Leipzig, 19 7 7 ]’25-55). Aqui ele trata da angústia do discipulado (10,34-39). Veja Lc 12,51-53; 14,25-27; 17,33; esses são ditos de Q. Observe também a introdução de Lucas (12,49.50). Na organização de Mateus, temos primeiramente os resultados paradoxais de obediência à vontade divina na vida de Jesus, depois na dos discípulos.

 

10:34. vim: Esta fórmula importante (3 vezes aqui e no v. 35) enfatiza a missão de Jesus (veja E. Arens, The êlthon-Sayings in the Synoptic Tradition [OBO 10; Friburg, 1976] 64-89). não vim trazer paz, mas espada: A espada não deve ser compreendida como sugestão de uma insurreição zelote, mas como um efeito colateral lamentável da tensão e divisão resultante da proclamação intransigente do reino. Em outra parte, Jesus declara bem-aventurados os pacificadores (5,9).

 

10:35. contrapor o homem ao seu pai: Mateus torna a citação de Mq 7,6, mais exata e completa do que em Lucas, omitindo somente “filho.”

 

10:36. seus próprios familiares: Embora faça parte da alusão ao AT, estas palavras expressam bem a dolorosa luta fraternal entre os membros da comunidade de Mateus e seus compatriotas judeus no movimento rival pela herança do AT. A luta não é um fim em si mesma, mas uma consequência inevitável do compromisso absoluto que Jesus reivindica de seus discípulos.

 

10:37. aquele que ama pai ou mãe mais do que a mim: Veja os paralelos internos em 16,24-25; 19,29; cf. Mc 8,34-35; 10,29-30. Podemos ter aqui um outro caso de sobreposição de Marcos-Q, duas antigas fontes independentes da tradição de Jesus. Assim, a probabilidade histórica de que Jesus disse algo parecido e que chamou alguns ao discipulado radical é muito grande. Mas a formulação precisa é mais difícil de determinar nos detalhes. Mateus parece ter simplificado e esclarecido o v. 37 em comparação com a forma de Lucas, substituindo a expressão semítica facilmente mal-entendida, mas autêntica, “ódio” pela expressão inteiramente correta “amar mais”, e, de uma maneira menos sábia, substituindo “não digno” por “não pode ser meu discípulo”. E mais difícil decidir qual evangelista é mais fiel no tocante à lista de membros da família. Lucas inclui a esposa, os irmãos e as irmãs. Isso implicaria o celibato como um elemento no discipulado (7,15-16; 23,34; Did. 11,3-6). quem recebe um justo: Várias identificações foram propostas: O cristão fiel, o mestre, aquele que sofreu perseguição por causa da fé e permanece na comunidade como testemunha honrada.

 

10:42. destes pequeninos: O “pequenino” poderia referir-se aos apóstolos/discípulos, mas muito provavelmente se refere aos membros não instruídos da comunidade (veja 18,6.10.14). Neste caso, teríamos nos vv. 40-42 um esboço da estrutura da comunidade de Mateus (veja 23,34). Observou-se que, se Deus recompensará quem der um copo de água fria a um discípulo, quanto mais ele recompensará quem instalar todo um sistema de água numa cidade.