Absalão — Enciclopédia Bíblica Online
Absalão é um personagem bíblico cujo nome significa “Pai [isto é, Deus] É Paz” (Hb.: אַבְשָלוֹם ʾaḇšālōm; Gr.: Αβεσσαλώμ, Abessalōm). Ele é um dos filhos do rei Davi, figura ao mesmo tempo carismática e trágica do relato histórico de Israel, cuja trajetória se desenha sobretudo em 2 Samuel 13–2 Samuel 19 e 1 Reis 1: ele emerge como príncipe de presença marcante, irmão de Tamar e homem de forte senso de honra familiar, mas também como alguém que deixa a justiça pessoal crescer até virar vingança, quando mata seu meio-irmão Amnom e foge para Gesur (2 Samuel 13). Depois de um retorno tenso a Jerusalém e de uma reconciliação incompleta com Davi (2 Samuel 14), Absalão conquista corações “à porta” da cidade, constrói apoio político e lidera uma revolta contra o próprio pai (2Sm 15–18), transformando o palácio em campo de disputa e o afeto paterno em ferida aberta. A narrativa o retrata com beleza e simbolismo — inclusive a fama de seus cabelos (2Sm 14:25–26) — e culmina numa queda amarga: derrotado, morre durante a guerra, apesar da ordem de Davi para poupá-lo, e o lamento do rei (“meu filho Absalão!”) ecoa como um cântico de dor que atravessa o texto (2Sm 18:33), fazendo dele um retrato vívido de como a ambição, quando se veste de justiça, pode desagregar família, reino e consciência.
I. Linhagem, descendência e conexões dinásticas
Absalão é o terceiro dentre seis filhos varões de Davi, nascidos em Hébron, filho de Maacá, filha de Talmai, rei de Gesur (2Sm 3:3-5; = 2 Sm 3:3; 1Cr 3:2). Tornou-se pai de três filhos e uma filha (2Sm 14:27), cuja beleza — “aparência muitíssimo bela” — evoca a da tia Tamar (2Sm 14:25-27; 13:1). Presume-se ser antepassado de Maacá, esposa de Roboão e mãe de Abias (1Rs 15:2, 10). Se Abishalom de 1Rs 15:2, 10 for o mesmo personagem, então, além da filha homônima de sua irmã, há ainda laços dinásticos via Maacá (contra a OG de 2Sm 14:27b). — Nota dinástica: A promessa de Deus a Davi sobre um futuro “descendente” para herdar o trono foi feita depois do nascimento de Absalão, de modo que ele sabia não ser o escolhido de Yahweh para a realeza (2Sm 7:12).
II. Beleza física, carisma e simbolismo do cabelo
“Todo Israel” louvava a formosura de Absalão: “não havia nele defeito, da planta do pé ao alto da cabeça” (2Sm 14:21–27). Sua cabeleira crescia profusamente; quando cortada anualmente, pesava cerca de 200 siclos (cerca de 2,3 kg), peso possivelmente acentuado pelo óleo/unguentos. As Escrituras o apresenta como belo e carismático (1Sm 16:12; 2Sm 14:25), persuasivo (3:36; 15:1–6) e astuto no trato com inimigos (2Sm 13; 1Rs 2:5–6), traçando um “negativo” do próprio Davi.
III. O caso Tamar–Amnom e o homicídio premeditado
A beleza de Tamar, irmã de Absalão, inflamou Amnom, meio-irmão mais velho (2Sm 13:1). Com o ardil de Jonadabe e o pretexto de enfermidade, Amnom a violentou (2Sm 13:1–6, 15–19). Rechaçada e humilhada, Tamar rasgou a veste listrada das filhas virgens do rei e cobriu-se de cinzas (2Sm 13:19). Absalão “rapidamente avaliou a situação”, intuiu o papel de Amnom, acolheu a irmã em sua casa e guardou silêncio — ódio homicida por dentro, contenção por fora —, à espera do momento (2Sm 13:1-20, 21-22; A; cf. Pv 26:24-26; Lv 19:17). Segundo John Kitto, em famílias polígamas os irmãos uterinos são mais coesos, e as filhas ficam “sob o cuidado e a proteção especiais de seu irmão (...) mais procurado do que o próprio pai” (Daily Bible Illustrations, Samuel, Saul e Davi, 1857, p. 384). A moldura remete a Levi e Simeão vingando a desonra de Diná (Gn 34:25).
Dois anos depois, em Baal-Hazor (c. 22 km ao NNE de Jerusalém), por ocasião da tosquia (festa pastoral), Absalão promoveu um banquete, obteve de Davi a presença de Amnom (2Sm 13:23-38; cf. o paralelo festivo com Nabal em 1Sm 25:1–8) e, quando o rival “se estava sentindo bem por causa do vinho”, deu a ordem: morte. Os príncipes montaram os mulos (insígnia nobre) e fugiram. Absalão correu para o exílio junto ao avô sírio, em Gesur, a leste do mar da Galileia (2Sm 13:23-38). Nesse desfecho, a “espada” profetizada por Natã entrou na “casa” de Davi (2Sm 12:10).
IV. Exílio em Gesur e saudades de Davi
O exílio de Absalão em Gesur é apresentado como um intervalo prolongado que reconfigura, sem resolver, a crise doméstica instaurada na casa real: passados três anos, a dor de Davi pela perda do primogênito é atenuada e emergem saudades paternais dirigidas a Absalão, sinalizando a passagem do choque punitivo para uma disposição afetiva de reaproximação (2Sm 13:39). Ainda assim, a caracterização do rei sugere um padrão de resposta assimétrico — “nobre porém passivo” —, pois, embora reaja com ira diante do ocorrido (2Sm 13:21), não traduz a indignação em ação judicativa efetiva, criando um vácuo de justiça que contrasta com exigências de procedimento e testemunho que, em outros contextos normativos, demandariam decisão formal e apuração adequada (cf. Dt 19:15). Nesse período, Absalão permanece três anos na casa de Talmai, em Gesur, sob proteção política e familiar, enquanto a distância territorial funciona como contenção do conflito e, simultaneamente, como fermento de tensões futuras que não foram disciplinadas por resolução jurídica clara (2Sm 13:37–39).
V. Retorno, reconciliação parcial e o incêndio no campo de Joabe
Joabe, sobrinho e general de Davi, conduz de forma calculada a reaproximação com Absalão ao “engenheirar” o retorno por meio de um expediente retórico-jurídico: convoca uma “mulher sábia de Tecoa” e, pela via de uma parábola com tonalidade forense, produz um espelhamento narrativo que remete ao procedimento empregado por Natã, isto é, levar o rei a pronunciar um juízo que, depois, recai sobre a própria casa real (2Sm 14). O movimento resulta em perdão condicional e politicamente controlado: Davi, ratificando a decisão com juramento em nome de Yahweh (2Sm 14:11), autoriza a repatriação, mas mantém a restrição de acesso à corte, instituindo uma espécie de reintegração sem plena restauração de status, que prolonga a tensão doméstica sob aparência de solução (2Sm 14:1–24). Após dois anos de banimento interno, Absalão força uma definição, recusando a ambiguidade como normalidade e formulando a exigência em termos de responsabilidade extrema — “se houver em mim qualquer erro, então terá de entregar-me à morte” —, o que transforma o impasse em desafio direto ao rei e ao seu círculo de comando (2Sm 14:28–33). Diante da negligência de Joabe, Absalão recorre à coerção simbólica e material ao incendiar o campo de cevada do general, gesto que converte conflito familiar em pressão pública e torna inevitável a mediação (2Sm 14:28–33). Constrangido pelo dano e pelo recado implícito, Joabe promove o encontro: Absalão prostra-se e Davi finaliza o episódio com o beijo do perdão, selando uma reconciliação que, embora formalizada, permanece marcada pela memória da ruptura e pela fragilidade do pacto restaurado (2Sm 14:28–33).
VI. A campanha política, a conspiração em Hébron e a questão dos “quarenta/quatro anos”
Restituído ao status real, Absalão inicia campanha sub-reptícia: cavalos, carros e cinquenta homens abrem caminho; ele madruga aos portões, abraça e beija suplicantes, afirma reconhecer causas justas que a corte não atende, e assim “roubou o coração dos homens de Israel” (2Sm 15:1–6). Reivindica ser homem do povo, com ênfase nos de outras tribos além de Judá. Crux cronológica (2Sm 15:7): o TM traz “quarenta anos”; Septuaginta (edição de Lagarde), Peshita e Vulgata: “quatro anos”. Conroy propõe “40 dias ou 4 anos” (CONROY, Absalom, Absalom!: Narrative and Language in 2 Sam 13–20, 1978, 106–7, n. 40). “A maioria das autoridades (...) concorda” com “after four years” desde o retorno de Gesur. Com o pretexto de um voto, viaja a Hébron — antiga capital de Judá e local da aclamação de Davi —, instala agentes por todo o reino para proclamar sua coroação ao som de trombetas (2Sm 15:7-12). Oferece sacrifícios, convoca Aitofel, conselheiro máximo de Davi. Muitos migram para seu lado (2Sm 15:7-12).
VII. A fuga de Davi, aliados e opositores a caminho do Jordão
Diante da crise sucessória e da ameaça imediata, Davi abandona o palácio e inicia a retirada, acompanhado por um núcleo de leais que inclui queretitas, peletitas e geteus, compondo uma guarda de elite e uma moldura de fidelidade em meio ao colapso político (2Sm 15:13–18). Ao mesmo tempo, a narrativa explicita uma decisão estratégica que articula culto e inteligência: Abiatar e Zadoque aparecem como pivôs de ligação ao permanecerem em Jerusalém, levando a arca apenas até certo ponto e retornando à cidade, não para acompanhar o rei na fuga, mas para operar como sustentação institucional e canal de informação no centro ocupado (2Sm 15:24–29). Na mesma lógica, Husai, descrito como “companheiro” do rei, é enviado de volta a Jerusalém para atuar como agente duplo, com a finalidade de frustrar o conselho de Aitofel e produzir tempo político e militar para a reorganização davídica (2Sm 15:13–37). Ao longo do caminho, o cortejo encontra hostilidade interna, e o episódio de Simei é narrado como teste de autocontenção régia: Davi recusa “arrancar a cabeça” do adversário e interpreta a afronta sob a disciplina da providência, assumindo que “meu próprio filho (...) procura a minha alma; quanto mais agora um benjaminita!”, e acrescentando a expectativa de reversão graciosa — “Talvez Yahweh veja (...) e me restitua a bondade” —, deslocando a resposta do impulso vingativo para a esperança de juízo e misericórdia divinos (2Sm 16:1–14). A fuga culmina numa imagem ritualizada de lamento e humilhação: Davi sobe o Monte das Oliveiras descalço, com a cabeça coberta e chorando, gesto que traduz a perda de estabilidade política em linguagem corporal de penitência e dor pública (2Sm 15:30).
VIII. Jerusalém ocupada, concubinas do rei e o duelo de conselhos (Aitofel vs. Husai)
Absalão entra em Jerusalém sem resistência, e a tomada da capital funciona como sinal de transferência simbólica de poder, ainda que a legitimidade permaneça em disputa no campo moral e teológico (2Sm 16:15). Nesse cenário, Aitofel aconselha que Absalão tome as concubinas de seu pai, não como ato privado, mas como gesto público de ruptura irreversível e de reivindicação de soberania, produzindo uma encenação política de “apropriação” do antigo rei diante de todo o Israel (2Sm 16:15–23). A narrativa ancora esse gesto no horizonte profético, apresentando-o como cumprimento da palavra anunciada por Natã, segundo a qual o mal se levantaria “de dentro” da casa de Davi e a exposição se daria “à vista” do povo (2Sm 12:11). Em seguida, Aitofel propõe um golpe seletivo e imediato, com o objetivo de matar apenas Davi naquela mesma noite, estratégia que busca reduzir custo humano e neutralizar o centro de gravidade do conflito com máxima eficácia (2Sm 17:1–4). Husai, por sua vez, opera a contramedida pelo atraso: recomenda mobilização ampla e adiada, sob comando do próprio Absalão, estruturando o conselho de modo a lisonjear a vaidade do pretendente e diluir a chance de um ataque cirúrgico bem-sucedido (2Sm 17:1–14). O texto interpreta o desfecho do duelo como ato soberano da providência — “Pela direção de Yahweh” prevalece o conselho de Husai —, deslocando a causalidade última do cálculo humano para a determinação divina (2Sm 17:14). Aitofel, antecipando o fracasso e a reversão do movimento, encerra a própria vida, e o suicídio funciona como sinal narrativo de que a insurgência perdeu seu instrumento estratégico mais eficaz (2Sm 17:23; cf. 2Sm 17:1–14).
IX. Rede de inteligência e logística do contragolpe
Zadoque e Abiatar permanecem em Jerusalém como ponto de apoio estratégico, enquanto seus filhos, Aimaás e Jônatas, atuam como mensageiros, configurando uma rede de comunicação que integra sacerdócio, informação e mobilidade em meio à crise sucessória (2Sm 15:32–37; 17:11–24). Apesar das tentativas de captura e bloqueio, a mensagem chega a Davi em tempo hábil, permitindo-lhe atravessar o Jordão e deslocar-se para o norte-transjordano, subindo a Gileade até Maanaim/Mahanaim, onde o contragolpe encontra base territorial mais segura e defensável (2Sm 17:15–22). Nesse ponto de reorganização, o rei recebe apoio material e hospitalidade, e transforma a acolhida em plataforma de comando, reestruturando suas forças em três divisões sob Joabe, Abisai/Abishai e Itai/Ittai, o geteu, numa disposição que combina veterania, cadeia de comando clara e capacidade de manobra (2Sm 17:15–18:5; 2Sm 18:1–2). Embora permaneça na cidade, Davi publica uma ordem que revela a tensão entre estratégia militar e vínculo paterno, determinando diante das tropas: “Tratai suavemente o moço Absalão, por minha causa” (2Sm 18:5).
X. A Batalha na Floresta de Efraim e a morte de Absalão
As forças de Absalão são derrotadas pelos veteranos de Davi, e o narrador descreve a Floresta de Efraim como um agente que “devora” grande número de combatentes, sublinhando o papel do terreno na catástrofe militar (2Sm 18:1–8). No movimento de retirada, Absalão, montado em um mulo, fica suspenso e imobilizado quando sua cabeça se prende nos ramos de um carvalho, tornando-se alvo vulnerável no próprio cenário da fuga (2Sm 18:6–17; 18:9–14). A tradição narrativa enfatiza a tensão entre lealdade ao rei e oportunidade de execução: um homem se recusa a feri-lo mesmo diante da promessa de recompensa — “mil moedas de prata [se forem siclos, c. US$ 2.200]” —, preservando a ordem régia de não tocar no filho (2Sm 18:6–17). Joabe, contudo, ignora o pedido de Davi e executa Absalão com três dardos/lanças, enquanto dez escudeiros concluem o ato, selando a morte como decisão de comando e não como impulso individual (2Sm 18:6–17). O desfecho funerário reforça a nota de desonra pública: o corpo é lançado em um barranco e coberto por um montão de pedras, gesto que ecoa práticas punitivas associadas à memória do juízo comunitário (2Sm 18:6–17; cf. Js 7:26; 8:29).
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| Pintura a óleo Morte de Absalão (em italiano: Morte di Absalom) do artista italiano Corrado Giaquinto. |
XI. Lamento de Davi, correção de Joabe e a leitura teológica
Ao receber as notícias do desfecho da batalha (2Sm 18:24–32), Davi formula antes de tudo uma pergunta centrada no destino do filho, e, ao tomar conhecimento de sua morte, expressa luto de forma pública e reiterada, caminhando e clamando: “Meu filho Absalão (...) que eu, eu mesmo, tivesse morrido em teu lugar” (2Sm 18:24–33; cf. 18:33; 19:4). A cena não é apenas um retrato afetivo, mas um ponto de tensão política: a dor do rei, ao ocupar o espaço que deveria ser de acolhimento aos vencedores, ameaça deslegitimar os leais e converter a vitória em desmoralização. É nesse quadro que Joabe intervém com franqueza corretiva, exigindo que Davi reassuma a função régia, apareça ao povo e restaure o ânimo daqueles que o sustentaram (2Sm 19:1–8). Em chave teológica, o episódio explicita o conflito entre vínculos pessoais e responsabilidades públicas, podendo ser lido como dramatização do princípio sapiencial de Provérbios 24:21–22, ao insistir que a estabilidade do reino exige temor devidamente ordenado e rejeição de alianças com a sedição; além disso, fornece um horizonte narrativo que sustenta a rubrica do Salmo 3, associado à “revolta de Absalão”, ao inscrever a crise política no registro da oração régia.
XII. Monumentos, túmulo e memória posterior
Absalão erigiu uma coluna na “Baixada do Rei”/Baixada de Savé (próx. Jerusalém; Gn 14:17), “Monumento de Absalão”, por “não ter filhos varões” (2Sm 18:18; King’s Valley, cf. Jos. Ant. 7.10.3). Seus três filhos (2Sm 14:27) parecem ter morrido jovens (A, D). O monumento não coincide com o chamado “Túmulo de Absalão” no vale do Cédron/Kidron — obra greco-romana, talvez dos dias de Herodes. Absalão foi sepultado na floresta de Efraim, não junto à coluna (2Sm 18:6, 17).
XIII. Outros personagens chamados Absalom/Abessalōm/Apsalōmos
(2) Absalom (também grafado Abishalom) aparece como o ancestral masculino de Maacá, mulher de Roboão, mãe de Abias e avó de Asa, segundo a tradição historiográfica deuteronomista e a releitura cronística. Em 1 Reis 15:2, 10, 13, Maacá é identificada como “filha de Abishalom”, ao passo que 2 Crônicas 11:20–22 a descreve como “filha de Absalão”, o que, em termos genealógicos, pode refletir tanto filiação direta quanto descendência (uso amplo de “filha”) no registro dinástico.
(3) Abessalōm designa um dos dois emissários enviados por Judas Macabeu a Lísias no contexto das negociações de 164 a.C. (2Mc 11:17). Em literatura secundária, registra-se a hipótese de relação com a expressão “Casa de Absalão” mencionada em 1QpHab, proposta que permanece conjectural por depender de correlações onomásticas e histórico-sociais não explicitadas pelo texto bíblico deuterocanônico.
(4) Apsalōmos (Absalom) é o pai de Matatias, comandante associado ao exército de Jônatas Macabeu em 145 a.C. (1Mc 11:70). O mesmo nome pode estar por trás de Jônatas, enviado por Simão a Jope em 143 a.C. (1Mc 13:11), frequentemente considerado o mesmo núcleo familiar, embora a identificação permaneça apenas provável, já que os textos não oferecem dados adicionais que eliminem a possibilidade de homonímia.
XIV. Perfil e avaliação de caráter
As narrativas compõem um retrato ambivalente: terno, zeloso e feroz no zelo por Tamar; ardiloso, falso, sinistro ao manipular Davi e Amnom; ousado, temerário no homicídio; ambicioso, cobiçoso, impetuoso na pretensão ao trono. Sua estada por três anos com realeza pagã pode ter fomentado a ambição. Considerou-se talvez herdeiro por sangue real paterno e materno; Quileabe (Daniel), segundo na linha, desaparece após o nascimento (2Sm 3:3; 1Cr 3:1), possivelmente falecido. Ainda que “moço” (2Sm 18:5), encarna um príncipe moderno: propaganda, populismo, rede de espiões, sinalização sonora com trombetas, teatro político (concubinas; 2Sm 16:15-23), e comando militar que subavalia o adversário.
XV. Notas literárias: “Narrativa da Sucessão” e cautelas críticas
A história de Absalão é frequentemente inserida na “Succession Narrative” (2Sm 9–20; 1Rs 1–2; ROST, 1982; WHYBRAY, 1968), que privilegia a disputa pela sucessão. Contudo, tal hipótese não faz jus ao apêndice de 2 Samuel (21–24) e, dentro de 2Sm 13–18 [ou 20], o tema sucessório é meager; cautela é recomendada para não subordinar demais a leitura a esse único eixo (CONROY, 1978, pp. 101–5). Ainda assim, as fontes destacam como Yahweh dirige o enredo (2Sm 17:14), como conselhos divergentes (Aitofel/Husai) definem tempos e desfechos, e como o pathos do lamento de Davi reorienta a moral do leitor.
XVI. Salmo 3 como moldura litúrgica
O Salmo 3 apresenta um cabeçalho que o vincula “por ocasião da revolta de Absalão”, conectando a linguagem da oração ao trauma político da narrativa davídica. No uso litúrgico, essa inscrição funciona como chave de leitura: o conflito dinástico deixa de ser apenas crônica de poder e se torna matéria de súplica, em que o rei perseguido declara confiança em Deus como “escudo” e sustentação. A lembrança do filho insurgente, assim, adquire valor pedagógico para comunidades de fé, oferecendo uma gramática espiritual para pensar autoridade, culpa, misericórdia, perdão e justiça, não como conceitos abstratos, mas como experiências atravessadas pela fragilidade humana e julgadas diante de Deus.
XVII. Apêndice: cronologia e geografia em nota
A frase “ao fim de quarenta anos” (2Sm 15:7) tem aplicação incerta; LXX (Lagarde), Peshita e Vulgata trazem “quatro anos”; Conroy admite “40 dias ou 4 anos”. Para alguns, o marco de “40” contaria a partir da primeira unção de Davi por Samuel, o que manteria Absalão como “moço” (2Sm 18:5), nascido entre 1077 e 1070 a.C. Baal-Hazor situa-se c. 22 km ao NNE de Jerusalém. Absalão possuía terras ao norte (território de Benjamim). Maanaim/Mahanaim, a leste do Jordão, serviu-lhe de refúgio. Kidron/Cédron abriga o chamado “Túmulo de Absalão”, mas de período greco-romano.
Bibliografia
CONROY, Charles. Absalom, Absalom!: Narrative and Language in 2 Sam 13–20. (Analecta Biblica 81). Rome: Biblical Institute Press, 1978.
KITTO, John. Daily Bible Illustrations. v. 3: Samuel, Saul, and David. Edinburgh: William Oliphant and Sons, 1857.
ROST, Leonhard. The Succession to the Throne of David. (Historic Texts and Interpreters in Biblical Scholarship 1). Trad. M. D. Rutter; D. M. Gunn. Sheffield: The Almond Press, 1982.
KITTO, John. Daily Bible illustrations: being original readings for a year, on subjects from sacred history, biography, geography, antiquities, and theology. New York: Robert Carter & Brothers, 1850. v. 1.
WHYBRAY, R. N. The Succession Narrative: A Study of II Samuel 9–20; I Kings 1 and 2. (Studies in Biblical Theology, 2d ser., 9). Naperville, IL: A. R. Allenson, 1968.
Abreviações
1Sm = 1 Samuel
2Sm = 2 Samuel
1Cr = 1 Crônicas
1Rs = 1 Reis
Pv = Provérbios
Lv = Levítico
1Mc = 1 Macabeus
Gn = Gênesis
Dt = Deuteronômio
p. = Página
cf. = Conferir
TM = Texto Massorético
Js = Josué
c. = Cerca de
a.C = Antes de Cristo
kg = quilograma
n. = número
LXX = Septuaginta
NNE = Norte-Nordeste
Citação acadêmica:
GALVÃO, Eduardo. Absalão. In: Enciclopédia Bíblica Online. [S. l.], ago. 2009. Disponível em: [Cole o link sem colchetes]. Acesso em: [Coloque a data que você acessou este estudo, com dia, mês abreviado, e ano].
