sexta-feira, 3 de julho de 2009

Estudo do Evangelho de Mateus

MATEUS, EVANGELHO DE.

1. Introdução
2. Título
3. Autor
4. Estrutura e esboço
5. Tema e propósito teológico
6. Características e aspectos especiais
7. 0 uso do AT por Mateus
8. Relação com Marcos e Lucas
9. Época e lugar onde foi escrito
10. Leitores e destinatários
11. 0 texto de Mateus

§1 . Introdução. 

O Evangelho segundo Mateus sempre ocupou uma posição de elevada estima na fé e na vida da Igreja cristã. Isso, em parte, pode ser devido ao fato de que ele lidera os Evangelhos e é o primeiro livro do Novo Testamento, formando uma ponte entre a Antiga e a Nova Aliança; ao contrário, porém, parece que a Igreja Primitiva o colocou na primeira posição, no cânon do NT, exatamente por causa da profunda influência do seu conteúdo sobre a Igreja e sobre o mundo; por isso, muitas pessoas o consideram como o maior livro que já foi escrito. William Barclay escreveu: “Quando nos voltamos para Mateus, vemos o livro que pode bem ser considerado como o mais importante documento isolado da fé cristã, pois temos o relato mais completo e mais sistemático da vida e dos ensinos de Jesus” (The First Three Gospels, pág. 197). Os escritos dos Pais da Igreja Primitiva revelam que Mateus era o livro citado com maior freqüência e talvez o mais lido durante os dois primeiros séculos da história eclesiástica. Em particular, trata-se do mais completo registro d i vida, obras e palavras de Jesus Cristo existente. Depois da morte e ressurreição do Senhor, 1 ouve um aumento no interesse de saber quem ;le realmente era e o que tinha dito e feito. De fato, muitos acreditam que o Evangelho foi escrito para suprir essa necessidade. Por esta razão, as lições ou perícopes de Mateus recebem preferência nas liturgias das igrejas. A maioria das ’ições é escolhida do Evangelho de Mateus, comparativamente a qualquer outro livro.

Este Evangelho também tem grande influência sobre a literatura, música e outras artes, dentro e fora da Igreja. As exposições de Mateus, em textos favoritos, tais como as Bem-aventuranças, a üração do Pai ISosso e a narrativa da Paixão, são amplamente usadas na literatura cristã e na pregação e ensino eclesiástico. J. S. Bach usou a versão de Mateus, da Paixão do Senhor, para o seu grande oratório conhecido em todo mundo como a Paixão de São Mateus. A teologia de Mateus, particularmente o conteúdo ético, dominou o ensino da Igreja, talvez até mais do que a teologia do Evangelho de João. Outra razão para sua ampla aceitação é a autoridade apostólica associada ao nome de Mateus, testemunha ocular e apóstolo do Senhor. Nos anos anteriores e posteriores à redação do Evangelho, a Igreja tinha grande necessidade da Palavra, do Senhor, investida de autoridade para instruir os fiéis e refutar aqueles que queriam causar divisões. O Evangelho de Mateus também se tomou popular devido à forma plena e ordenada com que descreve os eventos e registros dos pronunciamentos e ensinamentos do Senhor. A combinação singular da vida e ensino do Senhor, e o tema teológico de Jesus como Messias, tomou-se a base fundamental para seu uso e autoridade na Igreja. O primeiro Evangelho tomou-se o favorito da Igreja devido ao seu íntimo relacionamento com o AT. Os convertidos facilmente viam que ele interpreta o AT como uni livro cristão. Quer Mateus tenha ou não tenha sido o primeiro Evangelho a ser escrito, sua posição no NT testifica sobre sua importância e influência aos olhos dos cristãos através dos anos, principalmente durante os dois primeiros séculos. Além disso, era um evangelho ecumênico, sustentando o cristianismo judaico e gentio. Considerando tudo isso, o primeiro Evangelho talvez seja o mais poderoso documento já escrito.

O Evangelho de Mateus continua fazendo pela Igreja o que sempre fez. Devido ao fato de estabelecer
uma ponte entre o Antigo e o Novo Testamento, continua sendo básico para a Igreja e para o mundo, para o entendimento dos ensinos de Jesus Cristo e do cristianismo histórico. A quantidade de literatura produzida com base no Evangelho de Mateus, durante as últimas décadas, indica que este Evangelho ainda comanda a atenção da Igreja e dos estudiosos da Bíblia. Todos aceitam bem as novas revelações sobre sua preciosa mensagem. O Evangelho contido em Mateus certamente era proclamado em grandes detalhes pelos profetas e apóstolos do NT (Ef 2.20; 3.5), muito tempo antes de ele ser escrito e, aqueles que aprendiam o que era pregado e ensinado durante a era apostólica, em geral se voltavam para o primeiro Evangelho. Por estar por trás de todas as formulações e sistemas posteriores do Cristianismo, o Evangelho de Mateus merece a atenção dos cristãos de toda parte. Em nossa época, com sua turbulência social similar à experimentada pela Igreja Primitiva, o primeiro Evangelho poderia restaurar corpos e espíritos quebrantados, como nos dias de Jesus e dos apóstolos. Ao ser questionado, por um membro de uma classe de estudo bíblico, qual dos quatro Evangelhos devia ser lido primeiro, para um melhor entendimento da fé cristã, um bem conhecido pregador e estudioso da Bíblia respondeu: “Naturalmente, devemos ler os quatro Evangelhos. Qual deles primeiro? Durante muitos anos eu indiquei Lucas, mas na nossa época creio que devo sugerir que Mateus seja lido em primeiro lugar e depois o restante dos Evangelhos, na ordem em que aparecem no cânon do NT”. Veja e v a n g e lh o s .

2. Título. O título desse Evangelho, na maioria das Bíblia modernas, é: “O Evangelho segundo Mateus” . Trata-se de uma tradução exata do título em muitos manuscritos em grego, que dizem EúavvéAaov Kccxa Ma0aiov, “O Evangelho segundo Mateus”. No entanto, as mais antigas cópias do Evangelho apresentam uma forma reduzida, K a t a MaBaiov, “Segundo Mateus”. Muitos estudiosos acreditam que o texto original não tinha nenhum título. Quando os primeiros cristãos quiseram fazer distinção entre os Evangelhos, chamaram o primeiro, não de “Evangelho de Mateus”, como muitas vezes nós dizemos, mas de “O evangelho segundo Mateus”, para distingui-lo das outras versões de Marcos, Lucas e João. Há somente um Evangelho, mas quatro versões ou relatos. O termo “Evangelho de acordo com Mateus”, portanto, não é “As Boas Novas de Mateus”, a versão de Mateus das “Boas Novas de Deus”. O Evangelho é a “história de Deus”, de salvação e vida, a melhor história que o mundo já ouviu. Os mais antigos Pais da Igreja (como Irineu) mencionavam assim o cânon quádruplo do Evangelho; quer dizer, que há somente um Evangelho, explicado de acordo com quatro autores diferentes (Against the Heresies III, 11,8). Os Pais da Igreja identificavam os quatro escritores dos Evangelhos com os quatro seres vivos ou animais citados em Apocalipse 4.6,7; cp. Ezequiel 1.10 — o leão era Marcos, o boi era Lucas, a águia era João e a criatura com o rosto de homem era Mateus. Esta identificação simbólica é feita também na arte e na literatura cristã.

3. Autor. Todos os quatro Evangelhos canônicos são anônimos. Nenhum deles começa com
palavras como essas: “Mateus, o apóstolo, para os judeus cristãos da Palestina...”, como Paulo introduz suas cartas apostólicas (cp. Rm 1.1-4). Assim, paradoxalmente, o título “Segundo Mateus” não significa que Mateus pessoalmente tenha escrito o tradicional primeiro Evangelho. A passagem dos anos não deixou claro que ele escreveu. Há uma grande discussão e muito material literário sobre
este assunto. A questão, porém, não perturba demais os cristãos, porque sabem que possuem um
Evangelho inspirado e investido de autoridade. E claro que o fato de que alguns questionam a
autoria de Mateus não significa, por outro lado, que ele não escreveu.
Desde os primórdios, a Igreja tem sido clara, unânime e consistente em atribuir o primeiro
Evangelho ao Apóstolo Mateus. Naquela época não havia evidência de que algum outro autor
tivesse reivindicado a autoria do livro, e ele jamais foi atribuído a outrem, além de Mateus. Sem dúvida, a antiga visão de Mateus como autor cresceu a partir da afirmação: “Partindo Jesus dali, viu um homem, chamado Mateus, sentado na coletoria e disse-lhe: Segue-me! Ele se levantou e o seguiu”
(Mt 9.9). O registro do chamado de Mateus em todos os três sinópticos reforçou esse conceito.
Os eruditos acreditam que a identificação tomouse mais positiva a partir do fato de que Marcos
e Lucas o chamam pelo nome de Levi, filho de Alfeu, o publicano e coletor de impostos.
A identificação foi facilitada pelo fato de que Jesus participou de um jantar na casa de Levi e
explicou o Evangelho aos fariseus com as palavras: “Os sãos não precisam de médico, e sim os
doentes; não vim chamar justos, e sim pecadores” (Mc 2.14-17; Lc 5.27-32). O argumento decisivo
encontra-se em Mateus 10.3, onde “Mateus, o cobrador de impostos (o publicano)r’ é citado
entre os doze apóstolos (cp. Mc 3.18; At 1.13).

E interessante que depois de seu nome aparecer nas listas dos apóstolos, Mateus desaparece da
história da Igreja conforme registrada no NT. Provavelmente os incidentes posteriores atribuídos
a ele são lendas. Ele é conhecido principalmente por ter escrito o primeiro Evangelho — de outra
forma seria quase desconhecido. Os dois nomes de Mateus são hebraicos. Ele
poderia ser filho de um homem chamado Levi, sendo “Mateus ben Levi”, sendo levita? Talvez,
como no caso de Pedro, Jesus lhe deu o nome de Mateus como um nome judaico cristão, porque
significa “presente de Yahweh". Certamente ele era judeu porque, o Evangelho que tem o seu nome
tem característica judaica e foi escrito principalmente para cristãos judeus. Se assim for, ele foi
um vaso escolhido, “feito sob medida” para sua audiência. Lucas o chama de Levi (Lc 5.27) e Marcos acrescenta “o filho de Alfeu” (Mc 2.14). Já foi destacado que o chamado de Mateus-Levi não foi somente ousado da parte de Jesus, pois havia um ódio inerente entre os judeus contra os cobradores de impostos, mas também porque foi um evento na
vida do novo Reino, visto que foi um símbolo do poder da graça de Deus e do amor de Jesus pelos
pecadores. Somente Deus podia transformar um cobrador de impostos chamado Levi, num apóstolo
cristão chamado Mateus. Cobradores de impostos, oupublicani, eram numerosos e desonestos. Além
disso, estavam a serviço do governo estrangeiro que dominava a terra e enviavam os impostos
tirados dos ricos e dos pobres para a distante Roma. Os cobradores de impostos colaboravam
com o inimigo; de fato, tomaram-se o inimigo real, porque as pessoas de fato não viam o govemo de
Herodes e de Roma. Viam, com mais freqüência, os cobradores de impostos. Roma não cobrava
suas próprias taxas. O sistema era “terceirizar” a captação de impostos e permitir que os publicanos
cobrassem o máximo que conseguissem.

Roma se satisfazia com sua cota — o cobrador podia guardar o que cobrava a mais, como uma
espécie de comissão. Sob tal sistema, um homem sem consciência podia enriquecer facilmente,
explorando as pessoas além da medida. Além disso, havia vários tipos de taxas e as cobradas
nas alfândegas, sobre produtos estrangeiros que entravam no país, ou que eram transportados através
dele, eram as mais lucrativas. As pessoas não tinham informação sobre os valores alfandegários
e o cobrador podia cobrar o máximo que pudesse de cada caravana ou indivíduo. Sem dúvida esse
é o tipo de cobrança de imposto no qual Mateus-Levi estava envolvido em Cafamaum, na Galiléia.
Portanto, não é de surpreender que os cobradores de impostos entre os judeus — principalmente
os judeus que cobravam dos seus próprios conterrâneos — eram contados com as prostitutas,
ladrões e assassinos, não somente pelos escritores bíblicos, mas também pelos escritores seculares
(Mt 21.31,32; Mc 2.15,16; Lc 5.30; Cícero, De Officiis, I. 42). O fato de tais pessoas entrarem no
Reino demonstrava bem o poder do Evangelho, de reconciliar os homens com Deus e uns com os
outros. O fato de um judeu, cobrador de impostos convertido, escrever um Evangelho para judeus e
gentios, como o Evangelho demonstra, daria ao Evangelho um apelo especial e aceitação dentre
os “pecadores”. De fato, é mais verdadeiro afirmar que somente uma pessoa assim poderia escrever
um Evangelho como o de Mateas-Levi. E por ele ser também um apóstolo do Senhor, era natural
que a Igreja Primitiva atribuísse este Evangelho a Mateus, o publicano; a Igreja poderia simplesmente
“saber” que ele o escreveu.

Esta é a explicação mais plausível quanto à autoria do primeiro Evangelho, uma vez que as
evidências do próprio NT para a autoria de Mateus são um pouco indiretas. Sem dúvida, é por esta
t a p e i a qual a evidência patrística, em especial depois dos primeiros dois séculos da Era Cristã,
ainda persiste. Orígenes afirma que “o primeiro Evangelho foi escrito por Mateus, que antes era
cobrador de impostos, mas depois tomou-se apóstolo de Jesus Cristo, e que foi elaborado para os
convertidos do Judaísmo e publicado em língua hebraica” (Eccl. Hist., VI. 14.5). Irineu escreveu:
“Mateus também publicou um livro do Evangelho entre os hebreus, no dialeto deles, enquanto Pedro
e Paulo estavam pregando o Evangelho em Roma e fundando a Igreja” (Against Heresies, III, 1.1).
Eusébio registra um conceito similar: “Mateus, que pregou primeiro aos hebreus, dedicou seu
Evangelho à escrita em sua língua nativa, e assim compensou por meio do seu escrito a perda de sua
presença” (Eccl. Hist., III, 24.5). Mais tarde, Jerônimo falou da mesma maneira em seu Prologue
to the Gospels: “Mateus, o cobrador de impostos cognominado Levi, é o primeiro de todos que
publicaram um Evangelho, na Judéia, em língua hebraica. Ele foi elaborado em favor daqueles
judeus que tinham crido em Jesus e que estavam servindo o verdadeiro evangelho numa época em
que a sombra da Lei não tinha desaparecido”.

Jerônimo também escreveu: “Mateus, também chamado Levi, e que foi transformado de cobrador
de impostos em apóstolo, foi o primeiro na Judéia a compor um Evangelho de Cristo em hebraico,
para os circuncisos que creram. Mas não se sabe quem mais tarde traduziu esta obra para o grego”
(Illus. Men., 36). No entanto, muitos estudiosos acreditam que a visão tradicional da autoria de Mateus baseia-se totalmente numa dupla citação de Eusébio, em seu famoso Chitrch History (III, 39.16), que cita outro Pai da Igreja, chamado Papias, o qual diz: “Mateus compilou (ou organizou) a logia (oráculos) na linguagem hebraica, e os interpretou (ou traduziu) o melhor que póde^. Dizem que o Evangelho foi intitulado “Segundo Mateus”, porque contém a tradução de sua coleção das palavras de Jesus, a Logia. Acredita-se que, ao usar o termo logia, Papias não se referia à vida de Cristo ou a um Evangelho, mas a um registro completo das palavras de Jesus. Os estudiosos deram a
este documento desconhecido o nome de “Q” ou “Fonte”. Atualmente, porém, muitos acreditam
que tal conceito é altamente improvável, desde que o termo logion durante muitos anos foi um termo
técnico grego usado para designar um oráculo divino, ou um pronunciamento inspirado (como
os oráculos de Delfos) e que há uma diferença entre logia e Iogoi (palavras). Outros eruditos,
como E. J. Goodspeed, acreditam que o termo “oráculos”, como usado em Romanos 3.2; Hebreus
5.12 e 1 Pedro 4.11, refere-se não a um conjunto de passagens do AT, citações sobre o Messias
compiladas por Mateus, ou profecias cumpridas por Cristo, mas a um evangelho hebraico anterior,
contendo as palavras e obras de Jesus, que Mateus tinha escrito com base numa tradição oral fixa, em
Jerusalém ou Antioquia. Supõe-se que Mateus, sendo apóstolo e tendo interesse nas palavras e
obras de Jesus, deve ter sido o primeiro evangelista a escrever. Muitas vezes os homens não levam em conta que, na passagem citada, o próprio Papias argumenta que Marcos vem antes de Mateus. Essas afirmações foram ampliadas numa teoria de que Mateus escreveu o primeiro Evangelho, mas que o escreveu numa forma mais curta, em hebraico ou aramaico, a qual então foi utilizada quando o
Evangelho canônico de Mateus foi composto. Por essas razões os eruditos modernos em sua maior
parte abandonaram a autoria tradicional de Mateus e passaram a crer que o primeiro Evangelho foi
atribuído a Mateus somente porque ele foi o autor de uma de suas fontes, e não o autor do Evangelho
em si. Esses eruditos, porém, acreditam que esta situação explica por que o primeiro Evangelho
passou a ter o nome de Mateus.

Embora o conceito de que Mateus originalmente tenha escrito um evangelho aos judeus,
em língua hebraica, como os estudiosos deduzem a partir das afirmações dos Pais da Igreja como
Papias e Eusébio, pode ser aceitável para alguns, este conceito também tem sido repudiada por muitos eruditos modernos. Mesmo estudiosos antigos, mais conservadores, tinham dúvidas quanto a esta teoria. Diziam que era melhor acreditar que Mateus escreveu um evangelho em hebraico e outro
em grego. A teoria da “tradução por inspiração^’ tambem tem pouca aceitação hoje em dia. Atradição
do evangelho deve ter circulado na Igreja Primitiva em aramaico, mas os Evangelhos escritos,
que conhecemos, são livros gregos. Os defensores da teoria do evangelho aramaico foram compelidos
a desenvolver uma complicada hipótese, para a qual não há evidência real, dentro ou fora dos
próprios Evangelhos. Se evangelhos em hebraico, ou informações escritas sobre a vida e as palavras
de Jesus, existissem nos primeiros dias da Igreja, e se as igrejas missionárias de Paulo cresceram mais
rapidamente do que as igrejas aramaicas, qualquer original hebraico pode ter desaparecido cedo. Uma
autoridade recente escreveu: “a tese, que tem sido defendida repetidamente, de que Mateus era o autor de uma fonte principal do Evangelho de Mateus (a Fonte-Logia, ou um Mateus em aramaico) e que a partir daí todo o Evangelho recebeu o nome de Mateus é, portanto, uma hipótese totalmente sem fundamento. Temos de admitir que o relato sobre Mateus, composto por Mateus na língua hebraica, é falso, qualquer que tenha sido sua origem” (Feine — Behm — Kuemmel, pág. 85). Muitos eruditos do NT hoje acreditam que a evidência interna de todos os quatro Evangelhos indica que foram elaborados em grego, mas contêm material em aramaico, alguns extraídos de fontes orais e
outros, de fontes escritas.

O método de interpretação conhecido como “crítica da forma” também foi empregado para
estabelecer a autoria e explicar a natureza do primeiro Evangelho. Seguindo o conceito de G. A.
Kilpatrick (1946), de que o primeiro Evangelho é um produto da comunidade cristã e que o autor na
verdade é um editor, o Dr. Rrister Stendahl (The School ofSt. Matthew, 1954), proeminente erudito
do NT e teólogo, recentemente desenvolveu uma teoria que diz que o autor ou editor do primeiro
Evangelho era um rabino cristão interessado em criar um material para o ensino na Igreja. Este
rabino não trabalhou sozinho; toda uma escola de escribas e mestres trabalhava na igreja de Mateus,
uma escola que era a contrapartida dos anciãos do Judaísmo. O autor não é um indivíduo, nem uma
comunidade, mas um grupo. O Evangelho não é caracterizado por um mestre chamado de “Rabi”
pelos discípulos ao seu redor? O propósito da escola de Mateus era escrever uma polêmica para
convencer os incrédulos da validade de Jesus como o Messias. A estrutura do Evangelho, em seções
organizadas de discursos e narrativas, indica que a escola tentava criar um manual ou livro texto
para o ensino e administração na Igreja. Dizem que a escola influenciou não somente a forma,
mas também o próprio conteúdo do Evangelho.

Embora esta teoria lance muita luz interessante sobre o primeiro Evangelho, ainda resulta num
autor desconhecido, e não oferece uma explicação válida sobre o caráter e propósito do Evangelho,
mais do que as outras teorias. Os estudos e críticas do Novo Testamento durante os últimos 150 anos, principalmente no estudo dos sinópticos, deveriam ser mais apreciados e não denegridos, pois muita luz tem sido lançada sobre o NT; mas, uma avaliação penetrante de todas as teorias, hipóteses e conclusões, às vezes oferecidas sem evidências sólidas, dão origem ao pensamento de que o conceito tradicional da autoria de Mateus, do primeiro Evangelho, não deve ser totalmente descartada. As seguintes considerações devem ser levadas em conta:

(a) As citações dos Pais da Igreja, concernentes à autoria de Mateus, podem ser usadas em ambos
os lados da questão. E possível que Mateus tenha escrito um Evangelho em algum tipo de hebraico
para cristãos e convertidos judeus, e depois tenha escrito o mesmo material em grego — o Evangelho
que leva seu nome no cânon. Pelo menos ele pode ter compilado um grupo de ditos em aramaico, ou
profecias do AT que se aplicavam ao nosso Senhor, para a instrução de cristãos judeus. Os estudiosos
acreditam que se ele escreveu um evangelho em grego (aqueles que nós temos); então, ele pode
ter usado Marcos e por meio desse material ter incluído elementos do evangelho de Pedro, principalmente os eventos da região de Antioquia, que teriam reunido os elementos hebraicos e gregos da Igreja. Este aspecto coincidiria com um dos propósitos do Evangelho de Mateus.
(b) Deve-se admitir, porém, que jamais foi encontrado nenhum fragmento de um Evangelho de Mateus em aramaico e uma edição grega é mais plausível do que uma tradução. O Evangelho de Mateus não apresenta nenhuma evidência de ser tradução, o que é uma dos indícios mais frágeis da
teoria aramaica. A discussão de “Papias por meio de Eusébio” não deve ofuscar a declaração de Irineu, que foi escrita antes da afirmação de Eusébio: “Mateus também publicou um livro do Evangelho entre os hebreus, no dialeto deles, enquanto Pedro e Paulo estavam pregando o Evangelho em Roma e fundando a Igreja” (Against Heresies, III, 1.1).

A partir dessa afirmação, parece que Mateus era considerado o autor, pelo menos de um evangelho
para os cristãos que falavam hebraico, e que o surgimento de um Mateus em grego seria
rapidamente aceito, embora deva-se admitir isso como conjectura. Pelo menos há alguma tradição
histórica que diz que Mateus de fato escreveu o material do Evangelho.
(c) Não é difícil crer que Mateus, ao escrever um evangeiho em grego, tenha usado um evangelho
como o de Marcos, o qual, caso desejasse incorporar o material petrino de Roma, harmonizar-
se-ia bem com um dos seus propósitos, o de reunir as igrejas hebraicas e gregas. Deve-se,
porém, encarar abertamente as profundas dúvidas de alguns estudiosos modernos (as quais os levam
a abandonar a autoria de Mateus) de que uma testemunha ocular das palavras e vida do Senhor
apoiar-se-ia numa pessoa não apostólica como Marcos para escrever seu Evangelho. (d) Deve-se considerar a tradição antiga e unânime, que afirma a autoria de Mateus do
primeiro Evangelho. Certamente Mateus tinha algo a ver diretamente com o Evangelho que leva
o seu nome. Embora possa ser verdade que, nos tempos antigos, livros e documentos estavam
relacionados a nomes famosos para alcançar reconhecimento e autoridade, permanece o fato de
que Mateus não era uma das grandes figuras da Igreja Primitiva — não se sabe quase nada sobre
ele e ele ocupa pouquíssimo espaço na história do NT. Se ele não escreveu o primeiro Evangelho, é
muito difícil explicar a ligação e por que tem o seu nome. Podemos perguntar por que Mateus é o
único sinóptico cuja autoria é questionada. O título Kctxcx MaGaíov é muito antigo, talvez anterior
a 125 d.C. e deve implicar uma autoria e não o contrário. Os eruditos podem chegar à conclusão
geral de que a Igreja Primitiva atribuiu o primeiro Evangelho a Mateus, não porque ele foi o autor de
uma de suas fontes, mas porque de fato o escreveu. Devemos lembrar que muitas teorias que explicam a origem dos Evangelhos foram elaboradas, não para estabelecer a autoria, mas para explicar suas similaridades e diferenças.

(e) Embora possa não ser considerado o argumento mais forte para a autoria, vale a pena notar
a sugestão do Dr. E. J. Goodspeed, conhecido erudito do NT. Ele acreditava que a ocupação de
Mateus, como cobrador de impostos, o qualificava para ser o redator oficial das obras e palavras
de Jesus, sendo esta a razão prática para o seu chamado para ser discípulo. Era um homem
acostumado a manter livros de registro no dia a dia. Todo o conteúdo do Evangelho tem a marca
de um cobrador de impostos, os quais tinham fama de anotar tudo. “Sem dúvida havia algo especiai
que Mateus levava consigo. Os outros discípulos, homens acostumados a trabalhar nos barcos de pesca, não estavam familiarizados com pena e livros; mas o trabalho de Mateus tomava-o uma pessoa
acostumada a escrever e a registrar. Ele deixou tudo, mas levou consigo um talento que um dia,
de alguma forma, usaria para o seu novo Mestre” (Barclay, pág. 208). O caráter do Evangelho revela
o pano de fundo e o pensamento de um cobrador de impostos. A história do credor incompassivel
lida com grandes somas de dinheiro. Lançar um homem na prisão por causa de uma pequena dívida,
era parte do vocabulário de um publicano. Além disso, este arranjo harmonizar-se-ia com a prática
dos antigos profetas, como Isaías e Jeremias, que tinham tais escritos e registros (Is 8.16,17). Um
homem como Mateus dificilmente deixaria de anotar tudo, de forma completa e precisa.
(f) Se o apóstolo Mateus, um dos Doze, não é o autor de nosso Mateus canônico, então o autor
é desconhecido. Neste aspecto, temos de encarar duas questões. Como o verdadeiro autor pôde ser
esquecido tão rapidamente? A outra questão é: Como Mateus passou a ser visto como o autor? Se
a tradição que atribui o Evangelho a Mateus não pode ser totalmente explicada ou aceita, o autor
(ou autores) alternativo teria a mesma dificuldade para ser determinado. Embora Mateus 13.52
possa ser uma pista de um autor isolado, que era um rabino ou escriba com boa formação, “todo
escriba versado no reino dos céus é semelhante a um pai de família que tira do seu depósito coisas
novas e coisas velhas”, sua identidade continua desconhecida. Embora, um autor desconhecido
do primeiro Evangelho não possa perturbar um cristão fiel, visto que isso não afeta sua inspiração
e autoridade, não há razão para duvidar que uma testemunha ocular e um apóstolo possa ter
escrito. Outra conclusão, ao que parece, formaria o paradoxo de que o primeiro Evangelho é um dos
maiores tratados cristãos do mundo, o qual não foi escrito por ninguém. Veja M a t e u s .

4. Estrutura e esboço. Um exame do esboço e da estrutura do Evangelho de Mateus revela que foi organizado de forma ordenada e artística. Embora tenha certos propósitos teológicos
e didáticos, Mateus emprega o mesmo esquema geral, histórico e cronológico, de Marcos e Lucas
(especialmente Marcos). Mesmo assim, ele organiza seu material em forma de tópicos e não em
um registro diário exato. No primeiro Evangelho, não vemos uma cronologia exata dos eventos,
mas os acontecimentos na vida do Senhor escritos de forma a ensinar certas lições. Mateus era um
evangelista e não um historiador. Ele sempre teve a Igreja em mente. No entanto, pode-se discernir
um arranjo artístico deliberado do material, em grupos ou unidades de três, cinco e sete. Alguns
eruditos, como o Dr. Goodspeed, acreditam que o Evangelho é organizado de acordo com o padrão
de muitas obras judaicas antigas, como os cinco “livros” ou principais divisões do Pentateuco, os
Salmos e o Magilloth.

Em Mateus, cada um dos cinco “livros” contém uma seção narrativa (Jesus ministrando), seguida
por uma “seção didática” (Jesus ensinando). Alguns já observaram que, por meio de seu arranjo
sistemático, Mateus estava tentando criar um “Pentateuco do Novo Testamento”.

A idéia é a de que, assim como os cinco livros do Pentateuco contêm a Lei para o povo do AT, os
cinco discursos estabelecem a ética que deve guiar a vida do cristão. Cada uma das divisões é concluída poruma fórmula repetida: “Quando Jesus acabou de proferir estas palavras...” (7.28; 11.1; 13.53; 19.1; 26.1). Alguns acreditam que o objetivo era que essas seções fossem lidas nas reuniões cristãs. A fórmula deve ser interpretada assim: “Aqui termina o primeiro, o segundo, o terceiro, o quarto e o quinto livro dos ensinos de Jesus, o Messias”. No entanto, ao tentarmos esta divisão simplificada do primeiro Evangelho, devemos lembrar que, em certas situações, o material é dividido
desse modo apenas em termos gerais, e não se pode esperar encontrar seções rígidas e claras. O arranjo não é superficial e nem forçado, mas permanece mais ou menos em forma de tópico. Por exemplo, alguns discursos mais curtos de Jesus são anexados em seções narrativas. Também parece estranho designar a narrativa da infância como mero prólogo e a importante seção da paixão, morte e Ressurreição como conclusão ou epílogo. É preciso destacar que o primeiro Evangelho, em si, não diz nada sobre tal arranjo. A seqüência inspirada em Marcos e o esquema geográfico, parecem ser a base do Evangelho. Nenhuma divergência pode ser encontrada em relação a Mateus 13.35. Não há nenhuma evidência de que Mateus desejava ser um “novo Moisés”.

Para facilitar o estudo e até a memorização, como um manual eclesiástico de discipulado, Mateus
parece ter tendência de agrupar seu material também em grupos de três e sete. Os milagres dos
capítulos 8 e 9 são divididos em grupos de três. O capítulo 13 tem sete parábolas. A genealogia que
inicia o Evangelho tem uma divisão dupla de três grupos de catorze. Visto que os primeiros cristãos
não possuíam livros como nós os conhecemos, se alguém desejava uma “cópia”, tinha de memorizar
(sem dúvida tais divisões serviam para facilitar a memorização). Outros exemplos são encontrados
facilmente: há três eventos principais na infância de Jesus (cap. 2); três tentações (4.1-11); sete estrofes na Oração do Pai Nosso (duas a mais do que Lucas, 6.9-15); três proibições (6.19—7.6); três mandamentos (7.7-20); três milagres de cura (8.1-15); três orações no Getsêmani (26.39-44); três negações de Pedro (26.69-75); sete “ais” (23); três perguntas feitas por Pilatos (27.11-17); sete demônios (12.45); sete pães e cestos (15.34,37); perdoar sete vezes e setenta vezes sete (18.22); sete irmãos (22.25). Já foi aito que o apelo do Evangelho baseia-se, não no seu poder literário ou na narrativa, mas em sua habilidade prática de moldar a vida da Igreja. Trata-se de um Evangelho fácil de ser lembrado e usado como referência. O arranjo aritmético parece proeminente demais para ser ignorado.

Este Evangelho também já foi dividido em três
partes principais, em tomo das quais o material
tópico pode ser organizado. Neste esboço, como
já foi destacado acima, as narrativas da infância,
e a morte e Ressurreição, formam o prólogo e o
epílogo:

TRIPLA DIVISÃO
DO EVANGELHO DE MATEUS
Prólogo: Narrativas da infância (caps. 1,2)
Primeira parte principal: Jesus na Galiléia
(4.12—13.58)
Segunda parte principal: Jesus, o Messias
(caps. 14—20)
Terceira parte principal: Jesus em Jerusalém
(caps. 21—25)

Epílogo: Morte e ressurreição (caps. 26—28).

Outros vêem, no esquema de Mateus, um esboço duplo, ou linha de pensamento que pode
ser detectado pela fórmula: “Daí em diante Jesus começou...”. A primeira parte do esboço duplo
é primariamente biográfico, similar àquele encontrado em Marcos e Lucas, com dois pontos
principais de divergência. Ponto um: Mateus 4.17, “Daí por diante passou Jesus a pregar...”,
atividade que levou ao seu grande ministério de pregação e o colocou em evidência. Ponto dois:
Mateus 16.21: “Desde esse tempo, começou Jesus Cristo a mostrar a seus discípulos que lhe era
necessário seguir para Jerusalém...”, seção que mostra o declínio de sua popularidade e sua morte
na cmz. Parece que, com esses dois pólos, o autor desejava enfatizar que toda a vida de Jesus, bem
como suas obras, devem ser vistas como tendo um propósito divino.

Dentro dessa primeira estrutura, a segunda parte do esboço duplo deve ser encontrado nas
representações tópicas das palavras e atividades de Jesus, divididas em vários blocos de material,
em grupos de cinco, três ou sete, como já vimos. Cada uma dessas seções conclui com a frase:
“Tendo acabado Jesus...” (11.1), e se incluirmos a narrativa introdutória e a história da paixão, há
sete divisões ao todo. Um esboço aceitável e útil do conteúdo do Evangelho de Mateus, que leva em consideração um tema dominante — o cumprimento messiânico (veja a seção sobre Propósito teológico) é apresentado abaixo:

J e su s o c um p r id o r m e s s iâ n ic o
I. Introdução (1.1—4.16). Genealogia. Sete
cumprimentos de profecias.
5. Tema e propódto teológico. O tema
do primeiro Evangelho é declarado na sentença
inicial do livro: “Livro da genealogia de Jesus
Cristo, filho de Davi, filho de Abraão” (1.1). Levanos
a lembrar do livro de Gênesis, que é dividido
em seções pelo uso de uma frase similar, “as gerações
de” ou “livro das gerações de” (Gn 2.4; 5.1;
6.9; etc.) No AT, a frase marca um novo estágio
no desenvolvimento das promessas do Messias,
cumpridas até Davi, onde a linha termina. Mateus
começa sua genealogia neste ponto e mostra em
detalhes como Jesus de Nazaré cumpre as profecias
do AT. Desta maneira, ele imita a estrutura do
AT e, talvez de mais de uma maneira, proporciona
uma ponte definida entre os profetas e o cumprimento
no NT. Considerando-se tudo isso, este é
o tema dominante do Evangelho: o cumprimento
das profecias do Antigo Testamento. Ao mesmo
tempo, isso forma o principal propósito teológico
de Mateus. Este propósito é indicado pela própria
genealogia; Mateus começa a linhagem com
Abraão para mostrar que Jesus era um verdadeiro
judeu, enquanto Lucas o conecta com Adão, como
o verdadeiro Filho do homem (Lc 3.38). Se a
linhagem de Jesus pode ser traçada até Abraão,
passando por Davi, então ele é o Messias, o divino
.pilho de Deus (Mt 22.42). Se não, teologicamente
falando ele não podia ser Aquele que morreu e
ressuscitou, sendo assim o “Enviado”.
O primeiro Evangelho testifica que Deus é o
Senhor de toda a história e de toda salvação, e
que Jesus Cristo é o seu Filho. A obra e a Palavra
de Yahweh estão tão intimamente relacionadas,
tanto no Antigo como no Novo Testamento, que
as maiores obras dele são descritas simplesmente
como a ação de sua Palavra (o Logos), seu
único Filho. Em nenhum outro lugar este tema
é tão claramente ilustrado como no Evangelho
segundo Mateus, o Evangelho do cumprimento.
A promessa de Deus, na Aliança do Messias e
Salvador, no AT, cumpre-se nas palavras e obras
de Jesus Cristo no NT. Um exemplo excelente é
Jesus diante do sumo sacerdote: “Jesus, porém,
guardou silêncio. E o sumo sacerdote lhe disse:
Eu te conjuro pelo Deus vivo que nos digas se
tu es o Cristo, o Filho de Deus. Respondeu-lhe
Jesus: Tu o disseste; entretanto, eu vos declaro que
desde agora vereis o Filho do homem assentado à
direita do Todo-poderoso e vindo sobre as nuvens
do céu” (Mt 26.63,64).
Para ilustrar seu tema, Mateus literalmente lota
seu Evangelho com todos os aspectos cristológicos
e messiânicos do AT, até ter citado praticamente
todos os liv ra do AT, mais de cinqüenta citações
ao todo, sem contar os muitos ecos e alusões.
Sua polêmica sobre o AT não se limita a algumas
referências esparsas, mas é de longe a mais
completa coletânea de passagens relacionadas
ao tema “Cristo no Antigo Testamento” dentre
todos os escritores, inclusive Paulo, no NT. Ele
cita principalmente Isaías, o profeta messiânico
e evangélico, e os Salmos. Um quinto de suas
citações são de Isaías. Talvez nenhum outro livro
do AT tenha influenciado tanto Mateus como
Isaías. Um estudo do uso do AT, em Mateus, dá
alguma base para a crença daqueles que acham que
a afirmação de Papias, sobre a Logia de Mateus,
refere-se a uma coleção de citações do AT sobre
Cristo, o Messias.
Depois de sua famosa genealogia, ele se volta
para o nascimento humilde do Servo Sofredor,
citando o cumprimento de Isaías: “Ora, tudo isto
aconteceu, para que se cumprisse o que fora dito
pelo Senhor por intermédio do profeta: Eis que a
virgem conceberá e dará à luz um filho, e ele será
chamado pelo nome de Emanuel (que quer dizer:
Deus conosco)” (Mt 1.22,23). Depois disso, um
profeta após o outro, e um livro após o outro, são
citados por Mateus, para ilustrar que Jesus é o
Messias predito pela Palavra do AT. A glória do
Messias, o ministério do Messias, a crucificação
do Messias, a ressurreição do Messias e a exaltação
do Messias recebem a devida atenção em Mateus,
de modo que seu propósito é inegável. O Filho do
homem veio para salvação e juízo e, nele, o presente
é a substância do passado e do futuro. Nenhum
livro do NT apresenta a pessoa de Jesus, sua vida
e seus ensinamentos tão claramente como cumprimento
da lei e dos profetas, como Mateus. Cerca
de onze vezes, em seu Evangelho, ele introduz a
profecia com uma fórmula impressionante: “Para
que se cumprisse o que foi dito por intermédio do
profeta...”; o efeito cumulativo disso é notável.
Em todo esse processo de profecia e cumprimento,
a Palavra nenhuma vez perde seu caráter
de história. O cristianismo é retratado como uma
religião histórica. Os eventos são registrados
como ocorrendo da maneira que Deus desejou
que fosse. Mesmo eventos isolados, aquilo que
parecia inexplicável, aconteceu “segundo as Escrituras”.
Assim, a Palavra tem uma história, sendo a
culminação das promessas e atos poderosos anteriores
de Deus. É história, porque o Homem real
entrou na história, para tratar com homens reais,
no tempo e tratar da condenação deles, por causa
do pecado; cria história no fato de que a Palavra
é forte e poderosa, ainda cumprindo a vontade
divina na Terra.
O Evangelho de Mateus também representa
uma completa expansão do kerygina apostólico.
De acordo com o conceito de que Mateus utilizou,
como fonte, material da tradição oral aramaica, seu
Evangelho indica que ele seguiu o esboço dessa
pregação oral 'Qceiygma). A primeira geração de
cristãos, entre a Ressurreição e a redação dos Evangelhos,
não tinham um material escrito completo; a
única Escritura que tinham era o AT. A mensagem
indicada nos discursos de Pedro em Atos (3.11-26;
10.36-43) e em certas seções das epístolas de Paulo
(ICo 15.3s.), seguia um esboço como este:
K e r ig m a a po s t ó l ic o
1. As promessas de Deus no AT se cumpriram.
2. O Messias há muito esperado, nascido da
linhagem de Davi, está aqui com o Reino.
3. Ele é Jesus de Nazaré.
4. Em seu ministério na Terra, ele saiu pregando
e fazendo o bem por meio de poderosos
atos de cura e de poder.
5. Ele foi crucificado de acordo com a promessa
e vontade de Deus o Pai.
6. Ele ressuscitou dentre os mortos e foi exaltado
à direita de Deus.
7. Ele voltará em glória para julgar os vivos e
os mortos.
8. Portanto, todos devem ouvir sua mensagem,
se arrepender e ser batizados para o perdão
dos pecados.
Este kerigma ou “mensagem” foi o primeiro
Evangelho. O Evangelho de Mateus apresenta
uma versão ampliada dele, com grandes detalhes.
Nota-se quanto espaço ele dedica à narrativa da
paixão. Por isso o Evangelho era tão popular
na Igreja Primitiva. O mais antigo evangelho,
portanto, não foi o Sermão da Montanha. Esta foi
uma das contribuições especiais de Mateus para o
ensino e a vida da Igreja— o ensino ético de Jesus.
Devemos lembrar que isso, ou o cumprimento do
interesse histórico, não era o objetivo primário
de Mateus, mas um meio para alcançar um fim.
O Evangelho não é uma biografia. E impossível
esciever a história da vida de Cristo. Pouquíssimos
eventos sobrevivem e somente dois ou três
anos de sua vida, no máximo, são retratados pelos
quatro Evangelhos. O interesse primário não era
totalidade histórica, mas revelação e teologia.
Neste aspecto, Mateus parece excluir quase todo
o material que não fosse teologicamente essencial
para a apresentação de Jesus como o Messias. O
propósito era a totalidade da revelação divina e a
culminação de todos os escritos anteriores do AT.
Portanto, não é de surpreender que os primeiros
cristãos consideravam o AT como uma verdadeira
fonte da vida e obras de Jesus e, assim, colocaram
o cânon do AT antes das Escrituras gregas. O NT
tem uma continuidade definida por meio de Jesus
Cristo com o Messias e o Israel do AT.
A fórmula de cumprimento de Mateus segue
dois princípios: ( 1) todo evento registrado, de
Jesus, foi predito no AT; (2) todas as profecias
do Messias devem encontrar um evento correspondente
na vida de Jesus. Mateus aplica esses
princípios muitas vezes em seu Evangelho. Ele
demonstra que o Messias era descendente de
Abraão, nasceu como rei dos judeus (2.2), entrou
na Cidade Santa em triunfo como Rei (21.4),
nasceu de uma virgem conforme predito pelo
profeta Isaías (1.22), foi concebido pelo Espírito
Santo (1.20), foi chamado Filho de Deus (14.33).
Como o Messias na Terra, ele cumpriu todas as
profecias da Antiga Aliança; seu ministério, o
uso de parábolas, a traição, os milagres, a cura,
sofrimentos, morte, vinda em glória com os anjos
(24.30), e o assentar em seu trono em glória
(25.31), tudo foi predito no AT. Mateus cobre
todas as escalas do Messias no AT, como se o
NT fosse (como realmente é) uma reapresentação
do AT. Talvez o ponto central dessa tese seja a
confissão, de Pedro, de Jesus como Messias em
Cesaréia de Filipe (Mt 16.13-20). Tudo era parte
do plano messiânico divino e, talvez por isso, o
Evangelho de Mateus tenha sido mais usado e
lido pelos primeiros cristãos do que os outros
Evangelhos. No final do seu Evangelho, Mateus
olha, tanto para o passado como para o futuro
quando cita estas palavras do Senhor: “ensinando-
os a guardar todas as coisas que vos ténho
ordenado. E eis que estou convosco todos os dias
até à consumação do século” (Mt 28.20).
Um propósito secundário do Evangelho de
Mateus, como já foi mencionado na seção sobre
Estrutura e Esboço, foi prover a jovem Igreja com
uma manual de instruções sobre doutrina e prática
eclesiástica. Muitos acreditam que ele não foi
escrito para leitura e estudo individual, mas sim
para orientar os professores, no ensino dos novos
convertidos. E um Evangelho didático, fácil de
lembrar e de memorizar. Talvflt tenha sido o primeiro
livro texto de educação cristã a ser usado na
Igreja. Também foi designado para ser lido em voz
alta nos cultos. Além da ênfase no cumprimento
messiânico, a instrução contida nele apresentaria
os ensinos éticos de Jesus e o ensino do amor e
do perdão, os quais estavam incluídos nas obras
e ensinamentos de Jesus, o Messias.
6. Ca rac te rís tica s e aspectos espec
iais. O Evangelho de Mateus é, em primeiro
lugar, um Evangelho tipo missão, ou Evangelho
pregação. O propósito geral é informar, convencer
e evangelizar os leitores, judeus e gentios,
concernente ao Messias. O tema messiânico é
responsável pela sua unidade. Alguns já disseram
que este Evangelho é uma defesa contra toda a
incredulidade judaica. Ele apela para as crenças
messiânicas judaicas profundamente arraigadas,
a fim de convencer todos de que Jesus de Nazaré
é o Messias prometido. Mateus argumenta com
base no AT, como muitos pregadores da Igreja
Primitiva faziam.
O tema messiânico de Mateus pode ser esboçado
da seguinte forma:
1. As profecias do Messias, cumpridas — o
Advento (1.1—4.11).
2. Os ensinos do Messias — grandes discursos
(4.12—7.29).
3. A Divindade do Messias revelada — os
milagres (8.1—11.1).
4. O Reino do Messias revelado — as parábolas
(11.2-13.53).
5. A redenção do Messias proclamada — a
cruz (13.54—19.2).
6. A oposição dos inimigos — debates com os
oponentes (19.3—26.2).
7. A paixão do Messias — sofrimento, morte
e ressurreição (26.3—28.10).
8. Conclusão: A Grande Comissão (28.11-20).
Se Mateus escreveu numa época em que
cristãos judeus e gentios estavam separados e em
oposição, seu Evangelho mostra que há unidade
e ecumenismo no Senhor Jesus Cristo. Para Mateus,
o cristianismo não era uma seita que estava
inventando um cristo ou interpretando errado o
AT; pelo contrário, ele mostra que o propósito
divino de salvação para todos os homens foi
cumprido em Jesus Cristo, o Messias. Mateus é
universal e particular. Portanto, é um Evangelho
que ensina a graça universal. Trata-se de um
Evangelho ecumênico (Mt 9.12,13). O primeiro
Evangelho também ensina muito sobre o poder
do Evangelho. O chamado do Messias é intenso,
drástico e movido pela graça. Toda a teologia básica
ensinada nele, certamente tinha sua referência
pessoal no próprio Mateus. A forma como ele
registra seu próprio chamado (Mt 9.9-13) mostra
o apreço que tinha pelo amor do Salvador por todos
os homens. Certamente pensou em si próprio
quando escreveu a parábola dos trabalhadores na
vinha (Mt 20.1-16). Seus concidadãos o consideravam
um judeu renegado que virara as costas para
Israel, para tirar proveito de um sistema sombrio de
cobrança de impostos dos romanos e do governo
provinciano. Sem dúvida era materialista e egoísta.
Para ele, o chamado do Senhor significava uma
quebra aguda com o passado. A experiência de
ser totalmente odiado por seu povo e, depois, ser
completamente aceito pela graça, deixou marca
indelével em Mateus, o publicano. Por um lado,
ele sabia como o pecado podia separar um homem
de Deus e de seus semelhantes e, por outro lado,
reconhecia como era gracioso o chamado para o
arrependimento e serviço. Embora fosse um candidato
extremamente improvável a autor de um
Evangelho, tinha um preparo único para exortar
judeus e gentios a terem fé e compromisso com o
Messias do Antigo Testamento.
O Evangelho de Mateus enfatiza o chamado
ao arrependimento e ministério. E sempre um
chamado absoluto e exigente. Envolve o homem
totalmente com seu Deus. O Evangelho de Mateus
é uma oposição inabalável a qualquer acomodação
ao mal que apareça no caminho de volta para
Deus. Sem dúvida, é por isso que a disciplina de
ganhar o irmão pecador, uma tarefa evangélica
que a Igreja tem seguido através dos séculos, é
encontrada somente no poderdSo Evangelho de
Mateus (Mt 18.15-35).
Outro aspecto proeminente do Evangelho de
Mateus é a ênfase na obediência da fé. Deus inicia
todo o trato com seu povo com base na graça de
Cristo. Somente Deus é bom. O cristão se entrega
totalmente ao seu Salvador, em fé e serviço. O
pecado dos fariseus era a justiça própria e a tibieza.
Mateus, que do ponto de vista humano deveria
ser o último a condenar pessoas justas aos olhos
dos homens, dirige a mais severa das repreensões
contra os escribas e fariseus no NT, por causa da
hipocrisia. Aquele que uma vez abandonou o AT e
seus ensinamentos, agora se toma seu mais ardente
apoiador e intérprete. Os homens que receberam a
graça de Deus e entraram no discipulado, aprenderam
com Mateus o verdadeiro significado do
Evangelho e do Reino. Tal discipulado é ensinado
na parabola do servo impiedoso (Mt 18). Um
homem é libertado para perdoar e libertar outros.
Mateus ensina que, não somente o Senhor chama
o pecador ao arrependimento, mas também os que
se tomaram seus discípulos devem se arrepender
na vida cotidiana (18.1-4). Todas as limitações do
amor são deixadas de lado quando o Senhor pede
aos discípulos que amem seus inimigos (5.44). O
impetuoso e teimoso Pedro, o impaciente homem
da Galiléia, é solicitado a perdoar seu irmão
não somente sete vezes, mas setenta vezes sete
(18.21,22). Finalmente, nosso Senhor pede aos
discípulos para fazerem de sua cruz a maneira de
vida deles no ministério e no sacrifício (10.38).
O Messias traz à existência uma nova Igreja
universal, o novo Israel. Judeus e gentios encontram
refúgio nela. Mateus é o único evangelista
queusaapalavrazgrejfir(16.18; 18.17). Ele fala da
permanência da Igreja, da disciplina e do perdão
dentro dela. O Evangelho inicia com a promessa
de que o Messias é o Emanuel que estará com seu
povo e termina com a promessa de que o mesmo
Jesus, agora o Cristo ressuscitado, estará com seus
discípulos de todas as nações “até à consumação
do século”. A visita dos magos^o menino Jesus, no
início do Evangelho, e o longo ministério de Jesus
na “Galiléia dos gentios” (4.15) falam de uma
Igreja universal. Mesmo assim, esta Igreja cristã,
universal, com seus membros, nã<y£ nova — é o
antigo Israel transformado e expandido (10.5).
O primeiro Evangelho é conhecido também
pela forma üxtensa e detalhada que apresenta os
ensinamentos éticos de Jesus. Para o evangelista
Mateus, bem como para Paulo, há uma “lei de
Cristo”, um princípio de amor cristão que se torna
imperativo para a vida ética. Jesus é o grande
mestre que proclama uma lei revisada para o novo
Israel do alto da montanha (no Sermão da Montanha),
assim como Moisés proclamou a lei divina
no Monte Sinai. O Messias chama sua Igreja não
somente ao arrependimento, mas também para as
boas obras. A justiça dos discípulos deve exceder
a dos fariseus. A vida cristã é livre, mas é também
moral e responsÉtel, motivada pelo amor. Mesmo
que a instituição existente tenha corrompido e
pervertido a lei, mesmo assim era revelação divina.
O Messias veio, não para destruir, mas para
cumprir a lei e suprir suas carências. Assim, uma
grande parte do Sermão da Montanha é repleta
de explicações da lei, na qual Jesus estabelece os
padrões morais de amor pelos quais a conduta dos
cristãos será julgada.
Do ponto de vista prático ou metodológico, o
Evangelho segundo Mateus é Evangelho do ensino.
Ele é caracterizado pelos extensos discursos.
Ele expande o evangelho da ação de Marcos, o
qual tinha maior interesse no que T^ s a fez, do que
no aquilo que disse. A relação abaixo é uma lista
dos discursos mais extensos de Mateus:
3.1-12 — Apregação de João
5.1-7.29 — O Sermão da Montanha
10.1 -42 — A comissão apostólica
13.1-52 — As parábolas
18.1-35 — O significado do perdão
23.1-25.46 — Denúncia e profecia
28.18-20 — A Grande Comissão
O Evangelho de Mateus apresenta um grande
número de parábolas. O maior grupo isolado de
parábolas está no capítulo 13. As ilustrações são
extraídas da vida cotidiana e retratam a natureza e
demandas do Reino. Muitas delas são proféticas.
Mateus diz que as parábolas tinham como objetivo
revelar e esconder a verdade (13.10-13). Dez
parábolas em Mateus não são encontradas nos
outros Evangelhos: o joio, o tesouro escondido,
a rede, a pérola de grande valor, o servo impiedoso,
os trabalhadores na vinha, os dois filhos,
o casamento do filho do rei, as dez virgens, e a
parábola dos talentos (há dois milagres que só são
encontrados em Mateus: os dois cegos e a moeda
na boca do peixe).
Somente Mateus emprega a frase “o Reino dos
céus” (31 vezes ARA). Quatro vezes ele fala no
“Reino de Deus”. Mateus também é um Evangelho
real. O Messias é retratado repetidamente como o
grande Rei. Sua linhagem é traçada até o Rei Davi;
os Magos perguntaram pelo Rei dos judeus; ele foi
chamado de “Filho de Davi”; entrou triunfalmente
em Jerusalém; Pilatos lhe perguntou se ele era o
Rei dos judeus; sobre sua cruz foram pregadas
as palavras: “Este é Jesus, o Rei dos judeus”; no
clímax do Evangelho ele afirma possuir todo o
poder no céu e na Terra. Devemos concluir que
o autor do Evangelho deliberadamente apresenta
Jesus como o Rei.
O retrato de Mateus, de Jesus Cristo como o
Messias, pode seguir o padrão das experiências do
povo de Israel. O relacionamento do Senhor com o
Egito é particularmente significativo. Assim como
os filhos de Israel desceram ao Egito na infância
e saíram de lá no Êxodo, Mateus retrata Jesus
indo para o Egito na infância e voltando de lá em
cumprimento à profecia de Oséias 11.1: “Do Egito
chamei o meu Filho” (Mt 2.15). Outro paralelo é
a tentação e o jejum de Jesus no deserto, quarenta
dias e quarenta noites, e a peregrinação de Israel
no deserto, durante quarenta anos (4.1,2).
O Evangelho de Mateus pode ser caracterizado
como um Evangelho eclesiástico. Seu interesse
centraliza-se na Igreja mais do que os outros
Evangelhos. A Igreja é retratada como um corpo
vivo e verdadeiro de adoradores e servos de Cristo.
O Sermão da Montanha e as parábolas retratam os
ideais e a vida da congregação cristã. Esta Igreja
se interessa em ganhar todos os membros desgarrados
(Mt 18) e nosso Senhor disse que as portas
do inferno não prevalecerão contra ela (Mt 16). O
Evangelho fala de oração, doação, regras cristãs
para o casamento e divórcio, os sacramentos, o
ministério de ensino e pregação. De fato, Mateus
tem muito a dizer sobre toda a vida e práticas da
Igreja cristã.
Embora o Evangelho de Mateus seja conhecido
por seus extensos discursos ou episódios de
ensino, um aspecto principal, pelo qual também
é conhecido, é sua versão completa do Sermão da
Montanha. Ele contém os princípios espirituais e
morais do novo Israel. A ética exposta por Jesus
baseava-se no espírito interior, no amor abnegado
e na vida evangélica responsável. Também é uma
interpretação da antiga Lei mosaica, mas não
uma ab-rogação dela (5.17). Todos os cristãos
conhecem a fórmula e autoridade do ensino ético
do Senhor: “Ouvistes que foi dito aos antigos...
Eu, porém, vos digo...” (5.21,22).
O Evangelho de Mateus definitivamente
também é um evangelho judaico. A aparência e o
sabor são judaicos, escritos por um judeu cristão
para guiar o pensamento e a adoração dos judeus
cristãos na Palestina e Síria. Os outros evangelistas
tendem a explicar as palavras e frases judaicas
(Mc 7.1-13), mas Mateus supõe que seus leitores
entendem os termos e costumes judaicos.
Outro aspecto específico e único de Mateus,
é a maneira de ensinar o Evangelho por meio do
que tem sido chamado de método caso crítico ou
extremo. Por exemplo, ele ilustra o Evangelho
selecionando aquelas situações nas quais Jesus
foi ao limite extremo, para ilustrar, por meio de
palavras e ações, a graça de Deus. No Sermão da
Montanha, o pobre herdará a Terra e as bênçãos
do Reino são prometidas aos pobres de espírito
(Mt 5.3). Que ensino sublime para destacar que
a graça infinita de Deus é tão ampla e profunda
quanto a necessidade humana! Os milagres são
selecionados da mesma maneira. Três deles ilustram
a compaixão ilimitada de Jesus. Ele cura o
leproso que ninguém mais podia ajudar (8.1-4); ele
auxilia o gentio que não faz parte da comunidade
judaica (Mt 8.5-13); restaura a saúde da mulher,
que a cultura da época havia colocado em segunda
categoria como criatura de Deus (9.18-22). Através
dos séculos, cristãos preocupados acreditam na
mensagem do Evangelho porque Jesus chamou um
odioso cobrador de impostos, um homem que as
autoridades judaicas sempre consideraram como
pecador e excluíam da graça de Yahweh, para ser
seu discípulo e apóstolo (9.9-13).
Mateus mostra que nosso Senhor ensinou por
meio de métodos extremos na área da ética. Não
há limites para o amor, porque Jesus exorta seus
discípulos a amarem seus inimigos, o que implica
que nenhum homem pode considerar outro homem
como seu inimigo (5.44). Um exemplo clássico é
a instrução de Jesus para Pedro, a qual foi muito
além da idéia do próprio apóstolo sobre o amor,
quando disse que devia perdoar seu irmão setenta
vezes sete (18.21,22).
Outra faceta interessante do Evangelho de
Mateus é o uso dos opostos exfremos no ensino.
Por um lado, Jesus, o Messias, é filho de Abraão
e filho de Davi, figuras culminantes na história de
Israel (1.1 -17); no entanto, imediatamente Mateus
registra que o Messias não é produto da história de
Israel em si, mas foi concebido pelo próprio Deus,
fora da história (1.18). Novamente, o Messias é o
Senhor dos céus e da terra (28.18) e mesmo assim
fica angustiado até a morte em seu sofrimento e
morre de forma vergonhosa, como criminoso, na
cruz (27.32-54). Ele se senta no trono de Deus e
volta para julgar todo o mundo (25.31-33), mas
na cruz ele é abandonado por seu Pai (27.46). E
claro que a declaração mais extrema de opostos,
no Evangelho de Mateus, é a de que o Messias é
Jesus de Nazaré, nascido de uma donzela amável,
filho de um carpinteiro, que se reduz à forma de
servo, sofre e morre por todos os homens; mesmo
assim ele é o Cristo, o Filho de Deus, que reinará
sobre todas as coisas, de todas as formas (28.18).
Este contraste é o âmago do Evangelho. O Messias
é divino e ao mesmo tempo humano. Ele é um
homem inserido na história e ao mesmo tempo é
o Filho de Deus por toda a eternidade. Ele procede
de uma nação da Terra, mas mesmo assim morreu
por todas as pessoas e deve ser pregado em todas as
nações para que todos sejam salvos (28.19,20).
Somente Mateus registra certos eventos na
vida de Jesus: a visão de José (1.20-24), a visita
dos Magos (2.1-12), a fuga para o Egito (2.1315);
a morte dos bebês em Belém (2.16), o sonho
da esposa de Pilatos (27.19), o suicídio de Judas
(27.3-10); a ressurreição dos mortos na hora
da crucificação (27.52), a história do suborno
dos guardas (28.12-15) e a Grande Comissão
(28.19,20). Esses elementos não são encontrados
nos outros Evangelhos. O mesmo ocorre com
algumas parábolas. Mateus usa os milagres de
Jesus, mais para provar seu poder messiânico, do
que como parte da narrativa de sua vida, ilustrando
mais uma vez seu interesse teológico. Um aspecto
único do Evangelho de Mateus, que em geral não
é mencionado, é o texto eclesiástico: “Também eu
te digo que tu és Pedro, e sobre esta pedra edificarei
a minha igreja...” (16.18). A passagem tem
influenciado a história da Igreja na Terra mais do
que qualquer outra. No domo de São Pedro, em
Roma, há a seguinte inscrição: “Tif es petrus et
super hanc petram aedificabo ecclesiam meam”.
Nenhum outro Evangelho apresenta essas palavras,
nem mesmo em formato diferente.
Uma leitura atenta do primeiro Evangelho revela
uma grande ênfase nos discípulos de Jesus e no
discipulado. Mateus dedica mais espaço ao ensino
do Senhor aos discípulos e apóstolos. LJb dos seus
primeiros atos, depois do batismo e da tentação,
foi o chamado dos discípulos para o ministério.
Imediatamente o ensino deixa claro que a salvação
não procede da estrutura institucional do Judaísmo,
mas da profunda comunhão e fé entre o Senhor e
seus discípulos, a Igreja. Muitos dos discursos do
Senhor, que formam a espinha dorsal do Evangelho,
são dirigidos aos discípulos. E interessante
notar que Mateus registra muito do chamado deles,
o treinamento, as falhas e o perdão e reconciliação.
As revelações mais notáveis do Messias
— a Transfiguração, os milagres, a ressurreição, a
paixão — são mostradas somente aos discípulos.
Até mesmo as últimas palavras do Messias, no registro
de Mateus, exortam os discípulos a fazerem
discípulos de todas as nações (28.19).
O Evangelho de Mateus também tem um forte
conteúdo escatológico. Mateus tem interesse pela
Segunda Vinda de Jesus. Em geral, ele expande
as palavras de Marcos ou Lucas sobre o assunto
(16.28; 24.30,32; 26.64). Ele até emprega linguagem
apocalíptica da época, como parousia (Mt
24.3). Mateus inclui um grupo de parábolas que
ensina e interpreta a Segunda Vinda de Jesus. Os
outros Evangelhos não apresentam as seguintes

8. Relação com Marcos e Lucas. Em
vista da natureza dos estudos do NT durante os
últimos 150 anos, qualquer discussão sobre um dos
sinópticos (Mateus, Marcos e Lucas), rapidamente
envolve os outros dois. Estudiosos modernos têm
tanta certeza que Marcos escreveu seu Evangelho
primeiro, que o assunto nem é mais questionado.
Eles têm certeza de que o escritor de Mateus (e
também Lucas) usou o Evangelho de Marcos como
forma básica e fonte. Como já vimos (veja 3. O
A u t o r ) , os estudiosos também concluíram que o
apóstolo Mateus poderia não ter escrito o primeiro
Evangelho, porque é altamente improvável que um
apóstolo fosse se basear nos escritos de alguém que
não fez parte do grupo dos Doze. Por que Mateus
tomaria emprestado de Marcos aquilo que ele
próprio testemunhou? No entanto, se Mateus não
usou Marcos, por que os dois Evangelhos são tão
similares? Todos os estudantes sérios da Bíblia
sabem que 606 dos 661 versículos de Marcos são
encontrados em Mateus. De fato, praticamente todo
o Evangelho de Marcos, com exceção de cerca de
50 versículos, é encontrado em Mateus e Lucas.
A relação de Mateus e Marcos (e também Lucas)
nos coloca imediatamente diante da célebre questão
do estudo moderno do NT, o problema sinóptico
— um problema com o qual os eruditos devem
conviver, porque ninguém conseguiu apresentar
uma resposta definitiva. Como se pode explicar as
similaridades e as diferenças entre os três Evangelhos?
Se finalmente alguém acha que tem a resposta
para as similaridades, tropeça nas diferenças e viceversa.
Mateus e Lucas concordam com Marcos nas
passagens paralelas. Há também muitas passagens
comuns em Mateus e Lucas, as quais Marcos não
tem — geralmente ditos ou parábolas de Jesus.
Qual foi a fonte desse material? Supondo, por um
momento, que todos os sinópticos foram escritos
de forma independente, como podemos expiicar,
por exemplo, as semelhanças verbais entre Mateus
e Marcos? E possível que um Evangelho como o
de Mateus tenha surgido e circulado independente,
livre de outras fontes, e que Marcos tenha copiado
grande parte do seu material, de Mateus? Qual
teoria isolada explicaria todas as relações entre
os três primeiros Evangelhos?
Neste ponto, os estudiosos dos Evangelhos
começaram a desenvolver teorias para explicar o
problema sinóptico. Os três Evangelhos dão um
esboço comum da história de Jesus. Há um notável
paralelismo entre eles; os mesmos incidentes
sobre Jesus são contados praticamente na mesma
linguagem. Deve-se inferir que os três Evangelhos
devem ter extraído material de uma fonte (ou
fontes) comum. A tarefa apresentada pelo problema
sinóptico é descobrir essa fonte. Uma velha
solução (que não deve ser descartada, visto que
todas as teorias se apóiam nela, de uma forma ou
de outra) é a teoria do evangelho oral. Por causa
da concordância entre os três Evangelhos, dizem
que deve haver uma fonte comum, de tradição
oral a respeito de Jesus, entre eles. Todos eles parecem
ter sido cortados da mesma peça de tecido.
A tradição oral, incorporando a antiga pregação
e o ensino da nova Igreja, estava à disposição de
todos os evangelistas. Por outro lado, cada um dos
escritores usou a fonte oral à sua própria maneira
e segundo seu propósito pessoal; isso explicaria
as diferenças. De acordo com esta teoria da origem
dos Evangelhos, deve-se estudar Mateus
como Mateus, sem se preocupar com os outros
Evangelhos. Cada um deles deve ser estudado à
sua própria luz. Esta visão parece bem aceitável,
mas na verdade a Igreja, em toda a sua história,
jamais deixou de harmonizar os Evangelhos e de
estudá-los juntos, porque são muito parecidos e
também porque eles são diferentes, porque os três
sinópticos tratam do mesmo Senhor e todo o seu
povo deseja conhecer toda a história. Além disso,
os estudantes dos Evangelhos logo descobriram
que a visão da tradição oral não poderia explicar
os paralelos da linguagem dos sinópticos. A relação
de Mateus com Marcos e Lucas (ou qualquer
combinação entre os três) é melhor explicada se
atribuirmos as similaridades e diferenças ao uso
comum de uma (ou mais) fonte escrita. Quando
os cristãos judeus começaram a se espalhar a
partir de Jerusalém e os cristãos gentios foram
aderindo à Igreja mediante o trabalho missionário
dos apostolos e começaram a surgir muitas
perguntas sobre Jesus, naturalmente haveria uma
demanda por um evangelho em forma escrita.
Talvez o próprio Mateus, como aprendemos com
Papias, tenha publicado esse primeiro Evangelho
ou Logia de Jesus. Os estudiosos então começaram
a investigar as possíveis fontes escritas por
detrás dos Evangelhos. O padrão de pensamento
geralmente se desenvolve como segue: a velha
visão de que Mateus era o mais antigo Evangelho
e Marcos simplesmente fez um resumo dele é
bem improvável, ou o conceito mais recente, do
“evangelho aramaico”, pelo qual Mateus foi escrito
primeiro em hebraico e depois traduzido para o
grego (pelo próprio Mateus ou algum outro autor
judeu), depois que Marcos foi escrito. Se Marcos
fosse um resumo de Mateus, deveria ser também
um resumo de Lucas, visto que os dois estão intimamente
ligados. O conceito mais simples e mais
natural do problema é a que vê Mateus e Lucas
como obras independentes, mas ambos baseados
em Marcos, o qual escreveu primeiro (visto que é o
mais curto e básico), como uma dentre duas fontes.
Uma vez que Mateus e Lucas contêm material que
Marcos não possui, então os dois devem ter usado
uma outra fonte para o material comum a ambos.
Pelo fato de o material comum a Mateus e Lucas
se centralizar em grande parte nos discursos e
pregações de Jesus, os estudiosos chamam esta
fonte comum de “Q”, a partir do termo alemão
“Quellé", que significa fonte.
Dessa forma, surgiu a assim chamada hipótese
“Dois documentos” ou “Duas fontes”. Os
eruditos afirmam que isso explica o fato de que
o conteúdo de Marcos está totalmente dentro dos
outros dois sinópticos, que ele foi escrito primeiro
e os outros são expansões dele. A teoria explica
o material comum — Mateus usou praticamente
todo o material de Marcos e Lucas usou metade
dele; os paralelos lingüísticos (dizem que Mateus
repete cerca de 50% e Lucas 55% da fraseologia de
Marcos) e a ordem comum dos eventos. A segunda
fonte, conhecida como “Q”, explica o material que
Mateus e Lucas possuem e que não se encontra
em Marcos. Mateus e Lucas têm em comum cerca
de 200 versículos, muitas vezes quase que na
mesma linguagem, que Marcos não possui. Por
este material comum ser, na maioria, palavras de
Jesus, poderia ter sido (e provavelmente foi) algo
como a Logia atribuída a Mateus. Embora a teoria
das duas fontes seja aceitável e muitos estudiosos
conservadores a tenham adotado, deve-se admitir
que se trata de uma teoria e não um fato, desde
que nenhum documento intitulado “Q” jamais foi
encontrado. Ele tem de ser “construído” a partir
do material comum de Mateus e Lucas. Mateus
também inseriu algum material não encontrado
em nenhuma das fontes mencionadas. O mesmo é
verdade em relação a Lucas. Quando os materiais
que Mateus e Lucas usam extraídos de Marcos e
de “O” são isolados, cada um deles ainda contém
muitos assuntos exclusivos. Mateus tem mais
de 300 versículos que ninguém mais tem. Além
disso, o documento “Q” (se for identificado com a
Logia de Mateus) pode significar coisas diferentes.
Trata-se de um evangelho hebraico? Um catálogo
de testemunhos do AT, ou provas textuais de que
Jesus é o Messias? Uma coletânea de “profecias
e oráculos”? Discursos de Jesus? As debilidades
da teoria dos dois documentos sempre foram não
somente o documento “Q”, mas também o fato
de que não responde a pergunta que se propõe a
responder; pelo contrário, suscita outras.
Por causa dessas dificuldades, os eruditos,
principalmente Burnett Streeter, expandiram a
teoria da fonte escrita numa hipótese de “quatro
documentos”, incluindo a fonte separada “L”,
que somente Lucas usou, e uma fonte especial
conhecida como “M”, usada por Mateus. Esta
teoria expandida também afirma que as quatro
fontes vieram de diferentes centros da Igreja Primitiva:
Marcos de Roma, “M” de Jerusalém, “L”
de Cesaréia e “Q” de Antioquia. Fica bem evidente
que a teoria de quatro fontes, sendo que três delas
jamais foram encontradas, é mais especulativa do
qut a teoria de duas fontes. Há também a questão
se o relacionamento entre os sinópticos é ou não
apegas documentário. Também é possível que Mateus
não conhecesse Marcos como um documento
completo, mas tenha se apoiado na tradição oral
da Igreja Primitivaj tais como aquelas encontradas
na pregação apostólica, como o discurso de Pedro
no Dia de Pentecostes (At 2.22-36) e o discurso
de Paulo em Antioquia (13.23-41).
A insatisfação com as teorias das fontes, nos
anos recentes, levou ao desenvolvimento da
critica de forma. Trata-se de uma tentativa de
colocar por trás de todas as fontes escritas a pregação
oral e o ensino da Igreja, os quais, dizem,
se desenvolveu de acordo com certos padrões ou
formas, que podem ser determinados, aplicandose
ao texto dos quatro evangelhos certos critérios
pré-determinados de crítica literária. Um segundo
propósito da abordagem da “forma”ç descobrir
o formato do texto na tradição oral, antes de ter
se tomado “evangelho”. A partir da tradição oral,
foi preciso apenas um curto passo para a crítica da
forma chegar a uma análise do contexto cultural
ou histórico no qual as formas se desenvolveram.
Esta abordagem em geral é chamada de Sitz im
Leben (“situação na vida”) e a partir dela pode-se
entender a mentalidade da comunidade que produziu
a forma. A partir desse processo complexo
e bem subjetivo, chegou-se à conclusão de que
os Evangelhos, iu as fontes escritas usadas neles,
na verdade eram uma coleção de peças isoladas
(parábolas, milagres, discursos, etc.), que circulavam
nas primeiras comunidades cristãs, antes de
serem compiladas. Uma característica especial da
crítica da forma é a crença de que essas peças, ou
formas literárias, foram criadas para a adoração e
ensino na Igreja e foram “reunidas” por editores
ou redatores, e não pelos autores que escreveram
sob a influência do Espírito Santo. Outros eruditos,
como Kilpatrick e Stendahl, chegaram à conclusão
de que os responsáveis pela criação e pelo formato
das obras não foram as comunidades cristãs, mas
sim, certos grupos de mestres e eruditos. O método
também suscitou profundas dúvidas quanto
à historicidade de algumas das formas e histórias
que formam os Evangelhos. Os redatores estavam
mais interessados em certos aspectos teológicos
do que no contexto histórico da forma. Nas mãos
de eruditos radicais, o método da crítica da forma
muitas vezes assumiu elementos tão negativos e
destrutivos, que caiu em desuso em alguns grupos
nos últimos anos, afetando mais seus amigos do
que seus inimigos. Trata-se de um terreno escorregadio,
como método aceitável de explicar a origem
de Mateus e dos outros Evangelhos. Deixa para
trás certas respostas para a conhecida questão do
problema sinóptico (as similaridades e diferenças
entre qs Evangelhos se devem ao uso das formas,
de acordo com o interesse teológico), mas suscita
outros problemas de igual significado, ex., que
papel as testemunhas oculares apostólicas, como
Mateus, ou o próprio Jesus, desempenharam na
criação das formas? Se a resposta for “nenhum”,
ou “muito pouco”, então a questão inevitável é:
“Por que o material dos Evangelhos foi criado em
primeiro lugar?” e voltamos ao ponto de partida.
Alguns estudiosos acreditam que a questão da
relação de Mateus com Marcos e Lucas é um
problema de autoria e não de documentos. Se
pudéssemos descobrir, de alguma forma, o contato
e interação entre os escritores dos três primeiros
Evangelhos, talvez a resposta correta pudesse
ser encontrada. Que alterações eles fizeram nas
fontes escritas, reescrevendo e reorganizando? E
possível, de qualquer modo, que os três autores
tenham tido contato entre si e organizaram suas
anotações para incluir o novo material que ouviram
uns dos outros?
Temos de admitir que nenhuma das teorias
realmente explica todo o problema sinóptico.
No entanto, o propósito teológico dos dois Evangelistas
é útil para explicar o relacionamento
entre Mateus e Marcos. Embora tenham usado
o mesmo material, empregaram-no de formas
diferentes, organizando-o de modo diferente
e, sob a direção do Espírito Santo, escreveram
um Evangelho para um propósito teológico e
histórico específico. O Evangelho de Marcos, de
ação e movimento, certamente tinha um objetivo
diferente do Evangelho didático, de cumprimento,
de Mateus. Os leitores, ou a audiência de cada
Evangelho, também determinaram a natureza deles.
Por isso quatro versões de um Evangelho são
um presente de Deus para um povo diversificado
hoje, como na antiguidade. Cada Evangelho deve
ser aceito como é e estudado como a Palavra de
Deus à sua própria maneira, relevante “agora”
como era “então”.
9. Época e lugar onde fo i escrito. A
data da composição do Evangelho de Mateus é
desconhecida, e os eruditos determinaram uma
época entre 50 e 115 d.C. Alguns estudiosos acreditam
que qualquer data antes de 70 d.C. é inaceitável,
porque a afirmação, na parábola da festa de
casamento (22.7), sobre um rei irado destruindo
uma cidade, refere-se à queda de Jerusalém: “O rei
ficou irado e, enviando as suas tropas, exterminou
aqueles assassinos e lhes incendiou a cidade”. Tal
conclusão parece taxativa demais, para uma evidência
tão frágil quanto uma afirmação incidental
numa parábola. Visto que o Evangelho de maneira
nenhuma indica a queda de Jerusalém, e o fato de
que sua destruição é predita em Mateus 24, uma
data anterior a 70 d.C. é mais provável. Devemos
acreditar que a profecia em Mateus 24.1-28 é
história escrita de antemão para selecionar uma
data posterior.
Por outro lado, Feine acredita que o oposto é
verdade: qualquer data antes de 70 d.C. é excluída
por causa da dependência de Mateus em relação
a Marcos, o qual, segundo ele, foi escrito depois
do que geralmente se supõe; se Mateus usou e
reeditou Marcos na elaboração do seu Evangelho,
isso colocaria a data bem depois de 70 d.C. Além
disso, Mateus, revela em sua reedição de Marcos,
que a situação eclesiástica estava mais plenamente
desenvolvida quando ele escreveu (cp. Mt 18.1520;
28.19s.) tomando uma data éntre 80 e 100 d.C.
muito mais provável. Estudiosos modernos acrescentam,
a esta linha de evidências, a crença de que
Mateus escreveu para cristãos que falavam grego
fora da Palestina (embora a maioria dos leitores
fosse de origem judaica) e isso também favorece
uma data posterior. Eles também acreditam que
o Judaísmo explícito no primeiro Evangelho é
característico do período posterior à destruição
do Templo. Alguns eruditos estabeleceram data
próxima a 115 d.C., período em que se acredita
que Inácio de Antioquia cita o Evangelho, ou pelo
menos demonstra familiaridade com as tradições
de Mateus. No entanto, tais argumentos favorecem
uma data pelo menos anterior a 96 d.C., visto que
aparentemente Clemente de Roma conhecia o
primeiro Evangelho. O emprego desse Evangelho
por Clemente e Inácio não significa que ele tenha
sido escrito naquela época; Mateus poderia ter
escrito muito anteífe eles o terem citado muito
tempo depois.
Uma data mais confiável da composição do
Evangelho de Mateus, deveria ser procurada em
conexão com o local da redação. Não é provável
que tenha sido escrito antes da primeira dispersão
dos cristãos de Jerusalém (At 8.4), pois então a
Igreja de Jerusalém não teria necessidade de um
evangelho escrito. Os apóstolos estavam presentes
para responder qualquer pergunta e para compartilhar
os ensinamentos do Senhor com autoridade.
Se o testemunho de Irineu, que coloca a redação
de Mateus na época de Nero, enquanto Paulo e
Pedro estavam em Roma, tiver qualquer validade,
é possível que Mateus possa ter elaborado um
evangelho originalmente para convertidos não
palestinos, que não tinham acesso aos apóstolos
e cujo conhecimento dependia das palavras e
obras de Jesus registradas num documento escrito.
Embora o testemunho de Papias possa ser
questionado, visto que não há evidência de um
original aramaico, ainda é possível que tais peças
do evangelho sobrevivessem e que o escritor tenha
feito uma tradução ou escrito uma edição grega
para as igrejas gentias. Qualquer original hebraico
teria desaparecido muito cedo e o evangelho grego
teria se tomado o evangelho tradicional do povo.
Eruditos esclarecidos acreditam que o local de
composição de Mateus deve ser encontrado em
alguma área do Oriente Próximo, onde Judaísmo
e o cristianismo inicial coexistiam e estavam
em íntimo contato, possivelmente nos estágios
iniciais de união. Eles acreditam que a área que
melhor preenche os requisitos é o território norte
da Palestina, entre os judeus da Diáspora e os
convertidos gentios das primeiras igrejas missionárias.
Visto que Antioquia da Síria era um
centro do antigo cristianismo judaico-gentio, esta
área é a escolha lógica para o local de redação do
primeiro Evangelho. Inácio estava em Antioquia e
seus escritos revelam que era afeiçoado ao Evangelho.
Em Antioquia, judeus e gentios falariam
grego e entenderiam o AT. Eles usavam a versão
LXX do AT e Mateus cita o AT grandemente por
meio da LXX.
O antigo conceito tradicional de época e local
de redação, é que Mateus foi o primeiro evangelista
a escrever um Evangelho e que escreveu na
Palestina, possivelmente em Jerusalém, pouco
depois dos eventos de 27.8 e 28.15, por volta de 60
d.C. Atualmente parece mais plausível estabelecer
a data na mesma época, mas num local diferente.
Antioquia da Síria, onde a Igreja judaica-gentia
floresceu por volta de 60 d.C., não somente
responde à preocupação concernente á profecia
da destruição de Jerusalém, como também leva
em consideração o particularismo judaico e o
universalismo gentio do primeiro Evangelho.
Temos de lembrar que o Evangelho de Mateus
foi escrito em grego, para judeus de fala grega,
por um judeu de fala grega, mas também tem um
forte apelo para os cristãos gentios, assim como
o Evangelho de Lucas. Portanto, o Evangelho de
Mateus deve ter sido escrito para um grupo misto
de cristãos fora da Palestina. A Igreja à qual foi
dirigido é descrita por Lucas em Atos 11.19-26.
Embora falte uma evidência absoluta, Antioquia
da Síria, por volta de 60 d.C., são local e data
plausíveis e prováveis.
10. Leitores e des tin a tá rio s . É quase
certo que Mateus escreveu para cristãos judeus,
a fim de estabelecê-los na fé em Jesus de Nazaré,
como o Cristo prometido no AT. Onde esses cristãos
viviam? As citações do primeiro Evangelho,
em escritos patrísticos, indicam que sem dúvida
ele era o fáVorito na Igreja judaica síria. Se Mateus
foi escrito em Antioquia, como muitos acreditam,
confirmaria este testemunho. Seria um erro, porém,
pensar que este segundo propósito excluía
os gentios. Sem dúvida Mateus tinha em mente
judeus convertidos, mas gentios convertidos e
não convertidos seriam igualmente beneficiados e
fortalecidos na fé. Nomes e conceitos judaicos não
são explicados em Mateus, visto que seriam facilmente
compreendidos. Por um lado, isso reflete a
incredulidade de Israel na época de Jesus, e por
outro lado, enfatiza os gentios sobrepondo-se aos
judeus, porque estes tinham rejeitado o Messias.
Os judeus nacionais precisavam de arrependimento
e do testemunho do Messias, mas a posição de
Mateus não é de um nacionalismo estreito. Jesus,
o Messias, é Salvador dos judeus, mas é também
Salvador de todo o mundo. Para ilustrar que seu
Evangelho de forma algum é particularista, Mateus
encerra sua mensagem com a ordem de que
os apóstolos deviam fazer discípulos de todas as
nações (28.19). O evangelho não é anti-semita
e nem antigentio. No passado, homens dos dois
grupos creram.
O conteúdo de Mateus indica que, embora sua
mensagem seja dirigida ajudeus de fala grega, que
tinham se convertido ao cristianismo, também tinha
uma mensagem para os gentios. Embora a missão
do Messias enfatizasse a primazia do povo judeu
(“Não fui enviado senão às ovelhas perdidas da casa
de Israel” [15.24]; “de preferência, procurai as ovelhas
perdidas da casa de Israel” [10.6]) e indicasse o
sabor do judaico do Evangelho, é claro que o Reino
também é destinado aos gentios, porque algumas
parábolas condenavam os fariseus e abriam a porta
para os gentios pobres e oprimidos. Tudo isso indica
a situação histórica, do primeiro Evangelho, como
a época de transição e amalgamação dos elementos
judaicos e gentios na Igreja Primitiva. Talvez se
possa dizer que a Igreja judaico-cristã estava sendo
absorvida pela Igreja gentia. O principal tema de
Mateus, “Jesus é o Messias”, é seguido de perto
por uma segunda ênfase, “o Reino Messiânico
para o mundo”.
O Evangelho de Mateus é admiravelmente
adequado para uma igreja que ainda era hebraica,
mas que ao mesmo tempo se alinhava cada vez
mais com o mundo gentio. Mateus exala uma
atmosfera de messianismo, mas mesmo assim
tem uma mensagem para o mundo todo. A aliança
é cumprida em Abraão e sua descendência, mas
nele todas as famílias da Terra serão abençoadas
(Gn 12.3). De acordo com esta linha, os primeiros
leitores de Mateus eram um amálgama da Igreja
judaico-gentia do norte da Palestina, Antioquia da
Síria e circunvizinhanças. Embora seja possível
que muitos leitores fossem de origem judaica,
familiarizados com o AT e com a ênfase judaica,
os gentios também receberiam bem tal Evangelho,
porque também aceitavam o AT. Pode-se imaginar
que, entre judeus e gentios, a vívida proclamação
do Evangelho não iria muito longe sem algum
tipo de prova escrita de que Jesus era o Messias,
prova extraída das Escrituras do AT. Se Jesus era
o Messias, seria predito no Antigo Testamento.
A pregação cederia lugar à prova do Evangelho
escrito (At 9.22).
O conceito de que os leitores de Mateus viviam
na Palestina e que ele escreveu de Jerusalém,
baseava-se na premissa de que ele escrevera
em hebraico; atualmente, porém, os estudiosos
estão certos de que ele escreveu em grego e que
seus leitores não estavam limitados à Palestina.
Levando-se tudo em conta, Antioquia da Síria é
o local mais plausível de redação (veja acima)
e a audiência Sfcria a igreja síria, composta de
judeus e gentios. Não era uma doutrina básica,
de Jesus e dos apóstolos, que todos os homens
são salvos pela graça? Que Deus não faz acepção
de pessoas? P q i esta razão, os leitores de Mateus
eram a Igreja descrita em Atos: “Os que foram
dispersos, por causa da tribulação que sobreveio
a Estêvão, se espalharam até à Fenícia, Chipre e
Antioquia, não anunciando a ninguém a palavra,
^enãí) somente aos judeus. Alguns deles, porém,
que eram de Chipre e de Cirene, e que foram até
Antioquia, falavam também aos gregos, anunciando-
lhes o evangelho do Senhor Jesus. A mão
do Senhor estava com eles, e muitos, crendo, se
converteram ao Senhor” (At 11.19-21). A Igreja
Primitiva judaico-gentia é claramente definida
também pelo apóstolo Paulo. Sua declaração aos
Gálatas indica que o Reino chama todos os homens
e que é uma continuação e culminação do Reino
de Deus no AT (todos os cristãos são descendentes
de Abraão): “todos quantos fostes batizados em
Cristo, de Cristo vos revestistes. Dessarte não pode
haver judeu nem grego; nem escravo nem liberto;
nem homem nem mulher; porque todos vós sois
um em Cristo Jfesus. E, se sois de Cristo, também
sois descendentes de Abraão, e herdeiros segundo
a promessa” (G1 3.27-29; cp. Ef 2.11-22).
11 . 0 te x to de Mateus. Mateus escreveu
em grego Koiné ou comum, que era falado no
mundo Mediterrâneo durante o l s séc. Este grego
ático koiné não era literário, mas uma linguagem
falada pelas pessoas comuns. O Evangelho de
Mateus deve ter sido facilmente compreendido
pelos primeiros cristãos, muitos dos quais eram
pessoas comuns. O evangelista transformou o
koiné num veículo literário, quando decidiram
colocar o Evangelho oral em forma escrita. O
estilo de Mateus é bem elegante, claro e fluído.
Seu grego não é nem o koiné pobre e nem o grego
altamente polido. Se ele usou Marcos, parece que
com freqüência melhorou o estilo e a linguagem.
A linguagem de Mateus não tem traços distintivos.
É mais plana do que a linguagem de Marcos, mas
menos variada do que o estilo de Lucas.
Por “texto” nos referimos aos antigos manuscritos
escritos em grego, os quais são cópias do
autógrafo original do Evangelho. Não se sabe
da existência de nem um único autógrafo (texto
escrito originalmente pelo autor) de qualquer um
dos Evangelhos, somente cópias de cópias. Desde
que já foram encontrados milhares de manuscritos
gregos do NT, com datas a partir do 3e séc., além
de lecionários, citações dos Pais da Igreja e muitas
traduções ou versões diferer.tes — o texto do NT
pode ser estabelecido de forma confiável. Existem,
é claro, muitas traduções variantes (diferenças nas
traduções, de vários tipos de versões ou famílias de
manuscritos), surgidas através dos séculos na cópia
dos textos, mas o Evangelho de Mateus foi pouco
afetado. Quase sem exceção, seu texto exato pode
ser determinado sem grandes dificuldades. Seu
texto está em excelentes condições. Embora possa
haver diferenças na tradução de certas passagens
(simplesmente porque as traduções foram feitas
a partir de manuscritos diferentes, mais antigos
ou mais novos), as versões mais recentes são
uniformes e representam com bastante exatidão o
texto original. Isso se deve aos resultados fundamentalmente
aceitáveis da moderna crítica textual
(julgamento ou avaliação das melhores traduções).
Descobertas surpreendentes de textos gregos ainda
mais antigos (mais próximo do original), durante
os últimos cem anos, ajudaram a estabelecer o
texto dos Evangelhos.
Nem mesmo as variações do texto de Mateus
são extensas, como uma olhada no bem conhecido
Texto Nestle-Aland do NT grego (onde todas
as diferenças de tradução nos manuscritos são
relacionadas no rodapé de cada página) revela.
As versões modernas utilizam os mais antigos
manuscritos e as traduções mais corretas, sendo
que suas traduções são consideradas mais exatas
do que as traduções mais antigas, desde que o texto
seja traduzido sem preconceitos.
Um exemplo disso é o final da Oração do Pai
Nosso (Mt 6.13); os textos gregos mais antigos
terminam com o pedido “livra-nos do mal”; a
ARA, porém, acrescenta as palavras da conhecida
doxologia: “Pois teu é o reino, o poder e a glória
para sempre. Amém!”. A razão para isso é que a
ARA foi traduzida de cópias gregas mais recentes
dos originais, conhecidas como koiné (comum) ou
Texto Bizantino, procedentes do 4“ séc. O texto
koiné é conhecido como um texto combinado,
quer dizer, ele acrescenta as variantes em vez de
escolher uma delas, de modo que nada se perde
do texto sagrado. Críticos textuais acreditam que
a doxologia da Oração do Pai Nosso foi acrescentada
por causa das considerações litúrgicas de 1
Crônicas 29.11-13. Esta é outra indicação de que
o primeiro Evangelho era usado nos cultos da
Igreja Primitiva.
Outro exemplo é a tradução de Mateus 5.44:
“Eu, porém, vos digo: Amai a vossos inimigos,
bendizei os que vos maldizem, fazei bem aos que
vos odeiam e orai pelos que vos maltratam e vos
perseguem...” (ARC). Os melhores textos antigos
dizem: “Amai os vossos inimigos e orai pelos que
vos perseguem...”, omitindo a frase “bendizei
os que vos maldizem...” (adicionada a partir de
Lc 6.28) e “fazei bem aos que vos odeiam” (de
Lc 6.27). Pode-se ver facilmente, a partir de tal
comparação, que, embora todas as palavras da
ARC, em Mateus 5.44, sejam Escritura, nem
todas foram escritas por Mateus. Há muitos
exemplos de tais combinações nos Evangelhos,
resultado das tentativas de harmonizá-los em
passagens paralelas, deixando-as mais uniformes
(mesmo nas palavras exatas). Tal preocupação é
fonte de muitas variantes inofensivas nos textos.
A descoberta de um antigo manuscrito, tal como
o Códice Vaticanus (B), Códice Sinaíticus (Aleph)
e Códico Bezae (D) e Papiro 46 (Beatty Papyri),
tem trazido luz sobre tais combinações. O texto
é tão bem atestado pelos manuscritos antigos que
estão por trás das variantes, que nenhum ensino
fundamental da fé e da moral cristã depende de
textos controvertidos. Embora a Igreja possa
debater questões na teologia bíblica, é raro que
alguém possa afirmar que a tradução de um texto
obscurece a questão.
Todo estudante interessado doNT achará muito
estimulante e compensador fazer um estudo da
história do texto e dos métodos de crítica textual,
principalmente para descobrir as razões das varia
ções (não erros). É evidente que algumas variações
são resultado de se copiar ou repetir de memória,
e do acréscimo de frases de outros Evangelhos,
de mudanças deliberadas para clarificar o texto
para os leitores, de mudanças intencionais para
satisfazer interesses doutrinários e, como já mencionamos
acima, harmonizar os Evangelhos. Além
dos exemplos citados, variações importantes no
texto de Mateus são 1.16, que trata do nascimento
virginal de Jesus (que sem dúvida foi causado por
interesses doutrinários); 5.32 e 19.9, que tratam
do ensino do Senhor sobre divórcio; 5.22, onde a
frase “sem causa” é omitida nos textos mais antigos;
e vários outros textos que tratam de assuntos
menos disputados. O assunto fascinante do estudo
textual resolveu essas e muitas outras variações no
NT, para a satisfação dos cristãos interessados. O
resultado dos estudos textuais tem levantado mais
evidências de que a ‘"palavra do Senhor permanece
para sempre” (IPe 1.25).
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Acts (1965); W. Barclay, The First Three Gospels (1966);
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L. M. P e t e r s e n

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