2011/02/18

João Batista no Quarto Evangelho

João Batista no Quarto EvangelhoJoão Batista no Quarto Evangelho
(Enciclopédia Bíblica Online)

A narrativa do ministério de João no quarto Evangelho é bem diferente da encontrada nos Sinópticos, pois João descreve o Messias como o Cordeiro de Deus que tira o pecado do mundo (Jo. 1:29). Tornou-se habitual para a crítica moderna encarar a narrativa joanina como uma reinterpretação radical do ministério de João feita pela igreja cristã à luz do verdadeiro ministério de Jesus. A proclamação apocalíptica é colocada de lado em favor da soteriologia. Para a crítica moderna, portanto, a narrativa do Evangelho de João não é histórica, mas uma reinterpretação teológica. (Cf, por exemplo, C. J. Wright, Jesus the Revelation of God (1950), 112-13) Contudo, essa conclusão é bem desnecessária, além de ignorar certos fatos importantes. O registro, tal como se encontra em nossos textos, é historicamente consistente e demonstra uma perspectiva psicológica correta. A narrativa encontrada no Evangelho de João pressupõe os eventos descritos nos Evangelhos Sinópticos. Isto é claramente indicado em João 1:32-33, em que o batismo de Jesus já havia acontecido, e pelo fato de que o grupo comissionado pelos sacerdotes e levitas, para argüir João quanto à sua autoridade para fazer o que estava fazendo, deve ter sido ocasionado por eventos como os que são descritos nos Evangelhos Sinópticos.

O quarto Evangelho não pretende fornecer uma história diferente daquela que é narrada pelos Sinópticos, mas representa uma tradição independente. Esta proclamação complementar do ministério messiânico de Jesus feita por João Batista, deve ser entendida como a própria interpretação que João fez de sua experiência no batismo de Jesus, iluminada por uma inspiração profética posterior. Deve ser lembrado que, embora haja vários pontos de contato entre o ministério de João Batista, como narrado nos Sinópticos, e o pensamento escatológico e apocalíptico contemporâneo aos seus dias, os elementos de divergência são ainda mais destacados. “O mistério essencial do discernimento e inspiração profética” não pode ser explicado pelas limitações de uma metodologia naturalista. (Cf. C. H. Kraeling, John the Baptist, 50. “Aquilo que João sabia a respeito de Cristo, soube por revelação” L. Morris, John (1971), 149) O historiador cristão, conseqüentemente, não irá negar essa realidade, pois é um dos fatos básicos da história bíblica.

A mesma inspiração profética que impulsionou João a proclamar a iminência da atividade divina para a salvação messiânica agora, à luz de sua experiência com Jesus, o impele a acrescentar uma outra palavra. Quando Jesus apresentou-se a João para ser batizado, João reconheceu que estava na presença de uma pessoa que diferia em qualidade dos outros seres humanos. Jesus não tinha pecados a confessar e tampouco tinha algum sentimento de culpa que o levasse ao arrependimento. Não podemos dizer se o reconhecimento de João a respeito da impecabilidade de Jesus foi baseado em um diálogo em que ele lhe tenha feito algumas perguntas, ou somente pela iluminação profética. Provavelmente, houve a atuação de ambos os elementos. De qualquer forma, João estava convencido de sua própria pecaminosidade em comparação com a impecabilidade de Jesus.

Apesar disso, Jesus insistiu na realização do batismo para que Ele, desse modo, pudesse “cumprir toda a justiça” (Mt. 3:15). No ato do batismo, Deus mostrou a João que Jesus não era simplesmente um homem sem pecado, mas era, na verdade, Aquele que havia de vir, a quem João havia proclamado (Jo. 1:31-33). Posteriormente, quando João meditou sobre o significado desses eventos, foi orientado pelo Espírito profético a acrescentar um novo elemento à sua mensagem de que “Aquele que havia de vir” é o Cordeiro de Deus que tira o pecado do mundo. [1]

Um outro elemento na descrição de João em relação a “Aquele que há de vir”, de acordo com a tradução da RC e NVI, é que Ele é o Filho de Deus (1:34). Entretanto, a BJ traduz essa expressão da seguinte maneira: “Ele é o Eleito de Deus”, a tradução que é aceita por Brown e Morris. (R. E. Brown, John, 55; L. Morris, John, 153-54) Esta tradução é baseada em uma variante textual muito válida, encontrada possivelmente em um papiro do terceiro século e, definitivamente, na cópia original do Sinaítico, nas antigas versões Latina e Siriaca, e em referências de vários patriarcas da Igreja. Como Brown e Morris assinalam, é fácil aceitarmos a mudança do texto de “o Eleito de Deus” para “O Filho de Deus”, mas não é tão fácil aceitar esse processo em sentido reverso. Se aceitarmos essa leitura, João está dizendo que Jesus é o objeto da chamada divina, e isso não apresenta problema teológico algum.


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Notas

[1] Se essa linguagem fosse resultante da reinterpretação cristã, deveríamos esperar que fosse ainda mais explícita ao referir-se à morte de Jesus. O verbo air não enfatiza o meio de remoção dos pecados, como pher teria feito (1 Pe. 2:24; cf. Is. 54:4); pois significa “tirar” e não “carregar”. Para mais detalhes a respeito do Cordeiro de Deus, veja o capítulo 19. Existe uma notável tendência na crítica erudita recente de reconhecer a possível historicidade do quarto Evangelho nesse ponto. J.A.T. Robinson, Twelve NT Studies (1962), 25. R.E. Brown pensa que João Batista pronunciou essas palavras com um significado diferente daquele como interpretado pelo evangelista. Cf. CBQ 22 (1960), 292-98.


FONTE: Teologia do Novo Testamento - Ladd, George Eldon.

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