2011/03/31

FILHO DO HOMEM — Contexto Histórico

FILHO DO HOMEM — Contexto Histórico

FILHO DO HOMEM — Contexto Histórico

Já observamos que “filho do homem” não é uma expressão incomum no Antigo Testamento, utilizada simplesmente para designar a humanidade. Apela-se muitas vezes para esse uso no Antigo Testamento para explicar algumas expressões dos Evangelhos. A expressão ocorre no livro de Ezequiel como o nome particular pelo qual Deus se dirige ao profeta. Alguns intérpretes concluíram que o contexto para o uso que Jesus fez da expressão encontra-se em Ezequiel.(W. A. Curtis, Jesus Christ the Teacher (1943), 135-43; G. S. Duncan, Jesus, Son of Man (1947), 145 e ss.; A. Richardson, Theology of the NT (1958), 20 e ss., 128 e ss.; E. M. Sidebottom, The Christ of the Fourth Gospel (1961), 73-78) Entretanto, esta tentativa é insatisfatória para explicar o uso escatológico da expressão “Filho do Homem” nos Evangelhos.

O contexto provável do Antigo Testamento encontra-se na visão de Daniel, na qual observa quatro animais selvagens, surgindo um após outro do mar. Eles simbolizam quatro impérios mundiais sucessivos. Depois disto “Eu estava olhando... eis que vinha nas nuvens do céu um como o filho do homem; e dirigiu-se ao ancião de dias, e o fizeram chegar até ele. E foi-lhe dado o domínio, e a honra, e o reino, para que todos os povos, nações e línguas o servissem; o seu domínio é um domínio eterno, que não passará, e o seu reino, o único que não será destruído” (Daniel 7:13-14). Nos versículos seguintes que interpretam esta visão, aquele semelhante ao filho do homem não é mencionado. Em seu lugar apareceram “os santos do Altíssimo” (Dn. 7:22), que inicialmente são oprimidos e afligidos pelo quarto animal, mas que recebem um reino eterno e reinam sobre toda a terra (Dn. 7:21-27).

Fica claro que em Daniel, a frase “filho do homem” é menos do que o título messiânico. É uma forma semelhante a um homem em contraste aos quatro animais que já haviam surgido nas visões. Além disso, as interpretações diferem,(Veja M. Black, “The Son of Man in the Old Biblical Literature,” ET 60 (1948-49), 11-15; T. W. Manson, “The Son of Man in Daniel, Enoch, and the Gospels,” BJRL 32 (1950), 171-93; S. Mowinckel, He That Cometh (1956), 346 e ss.; O. Cullmann, Christology, 137 e ss) particularmente em três pontos: Será que a figura semelhante ao filho do homem deve ser compreendida como uma pessoa individual, ou seria somente um símbolo para representar os santos do Altíssimo? Será que aquele semelhante a um filho do homem veio à terra, ou sua “vinda” foi somente à presença de Deus? Será que aquele semelhante ao filho do homem é somente uma figura divina, ou combina o sofrimento com a vindicação? O fato do indivíduo semelhante ao filho do homem estar identificado com os santos e os representar é claro; mas isto não nega a possibilidade de que ele seja também um personagem individual. (I. H. Marshall em EQ 42 (1970), 72; F. F. Bruce, NT Development of OT Themes (1968), 26. Mowinckel (He That Cometh, 352 e ss.) expressa o pensamento de que um conceito individual repousa por trás da passagem em Dn. 7.) Apesar de o texto não afirmar que a figura semelhante à do homem desça à terra, parece que este fato está claramente implícito. De fato, ele comparece à presença de Deus nas nuvens, mas quando o reino é dado aos santos para reinar sobre todos os domínios da terra, podemos assumir que isto acontece porque a figura semelhante ao homem, que recebeu o reino nos céus, o traz aos santos na terra.

Embora muitos estudiosos insistam que a figura mencionada em Daniel combina o sofrimento e a vindicação, em virtude dos santos serem primeiramente oprimidos e depois vindicados, isto não está tão claro assim, pois os santos sofrem na terra, enquanto o filho do homem recebe o reino nos céus, e a seguir, presumivelmente, o traz aos santos afligidos sobre a terra. (Não precisamos nos preocupar com a questão relacionada à origem do conceito em Daniel. Veja os trabalhos de Mowinckel, Cullmann, e Borsch.) Concluímos que o filho do homem mencionado em Daniel é uma figura escatológica messiânica divina que traz o reino aos santos afligidos sobre a terra.

Nas Similitudes de Enoque (1 Enoque 37-71), o Filho do Homem tornara-se um título messiânico de uma figura divina preexistente, que desce à terra para sentar-se sobre o trono do juízo, para destruir os ímpios da terra, para libertar os justos e para reinar em um reino de glória, quando os justos serão revestidos dos paramentos de glória e de vida e entrarão em uma abençoada relação de comunhão com o Filho do Homem para todo o sempre)

Não está completamente claro que tipo de uso pode ser feito desse Filho do Homem divino no contexto do Novo Testamento. Enoque obviamente consiste de cinco partes Os fragmentos de quatro partes foram encontrados entre os escritos de Qumran, mas nenhum fragmento das Similitudes foi encontrado. Isto leva muitos estudiosos a concluírem que as Similitudes não podem ser pré-cristãs e não podem ser usadas para interpretar o conceito do Filho do Homem encontrado no Novo Testamento. (Veja J. T. Milik, Ten Years of Discovery in the Wilderness of Judea (1959), 33 e ss.; F. M. Cross, Jr., The Ancient Library of Qumran (1957), 150 e ss.; R. N. Longenecker, Christology, 83 e ss.) Mesmo que este argumento seja persuasivo, parece impossível aceitar as Similitudes como um escrito judaico-cristão, pois não encontramos ali, de forma alguma, elementos caracteristicamente cristãos. (Veja J. Jeremias, NT Theology, 269.) Portanto, devemos concluir que a data das Similitudes é posterior à do restante de Enoque, e que aquele livro é um escrito judaico que reflete o modo pelo qual certos círculos judaicos interpretaram, na época do Novo Testamento, o filho do homem mencionado em Daniel. Entretanto, não há evidência de que Jesus conheceu as Similitudes.

Na melhor das hipóteses, podemos usá-las somente para compreender o pensamento judaico contemporâneo, no qual o Filho do Homem havia se tornado um título messiânico para designar um ser divino preexistente, que desce á terra com o glorioso Reino de Deus.(Há muitas questões debatidas a respeito de Enoque que não podemos discutir aqui. Veja M. Black, “The Son of Man in the Old Biblical Literature,” ET 60 (1948-49), 11-15; idem, “The Eschatology of the Similitudes of Enoch,” JTS 3 (1952), 1-10; T. W. Manson, “The Son of Man in Daniel, Enoch and the Gospels,” BJRL 32 (1950), 171-93; S. Mowinckel, He That Cometh, pg. 358 e ss.; R. H. Fuller, NT Christology, pgs.34-41. O conceito do Filho do Homem também aparece em 4 Esdras 13:3, 26, 37-38.)



FONTE: Teologia Do Novo Testamento de George Eldon Ladd.

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