2014/10/14

Comentário de Apocalipse 2:1-28 (J. W. Scott)

Comentário de Apocalipse 2

APOCALIPSE 2, COMENTÁRIO, ESTUDO, LIVROÉ da opinião de alguns que estas cartas foram escritas antes do corpo principal do livro e foram enviadas separadamente às diferentes igrejas; mais tarde foram ampliadas e compiladas a fim de todas as igrejas tirarem proveito. A teoria não é impossível, porém é duvidosa, pois as cartas estão intimamente relacionadas com o início e o fim do livro; e, se eliminarem as passagens em apreço, o que restar constituirá mensagens bem abrutas. Cada carta se endereça ao "anjo" da igreja e começa com uma descrição de Cristo, tirada da visão introdutória, tendo os pormenores que se mencionam especial relevância à igreja sob consideração. A designação de Cristo na carta aos Laodicenses constitui uma exceção, sendo uma reminiscência da saudação com que o começa. Semelhantemente, cada carta conclui com uma promessa no tocante a galardões a serem distribuídos no segundo advento; de modo geral, estas promessas têm uma especial aptidão para cada igreja individualmente-e é-lhes dada uma encarnação visionária nos capítulos finais do livro.

Éfeso era a maior cidade da Ásia e o centro da administração romana daquela província. Tomou o título de "Guardiã do Templo", originalmente em referência ao famoso templo de Ártemis, posteriormente, porém estende-se aos dois ou três templos devotados ao culto dos imperadores. Paulo fundou aqui a igreja que se tornou o centro para a evangelização do resto da província e aqui residia o apóstolo João. A igreja em Éfeso, consequentemente, deve ter-se tornado a principal do leste, com a possível exceção de Antioquia. Kiddle sugere que esta carta foi colocada em primeiro lugar, não tanto pela importância da igreja, como pela advertência que lhe foi entregue. (Por semelhante razão, a carta aos Laodicenses foi colocada por último). A designação de Cristo em vers. 1, tanto é um encorajamento como é uma advertência. As sete estrelas estão na sua mão (isto é, Ele mantém a vida espiritual delas), e a sua presença é coextensiva a todas as igrejas. Mas o poder que sustêm é também competente para a remoção judicial; assim o título prepara o ouvinte para o vers. 5. Eu sei (2) declara uma verdade de semelhante importância dupla. A frase encabeça cada uma das sete cartas, ora proporcionando conforto (Ap 2.9; Ap 2.13, etc.), ora envergonhando (Ap 3.1-15). Aqui ela precede uma recomendação. As obras dos efésios são trabalho e paciência (2); aquela se manifesta nos esforços para vencer os falsos mestres (2), esta na resignação paciente frente à oposição, quer dos falsos apóstolos, quer de outras fontes (3). Os maus são aqueles que se chamam profetas e não o são. Comparar predições de Paulo em At 20.29-30; 1Tm 4.1-3. É possível que os principais ofensores sejam os nicolaítas mencionados no vers. 6. A falta dos efésios é talvez a perversão de sua principal virtude; sua oposição aos falsos irmãos os conduzia a repreensão e dissensão dentro da igreja, levando-as assim a deixar o seu primeiro amor. Isto interpretaria o "amor" a que se faz referência como sendo o amor fraternal. Pode, contudo, se referir ao amor a Deus; compare Tg 2.2-5, visto que uma manifestação deste amor é impossível sem a outra, podemos talvez incluir ambas em nosso texto (cfr. Mc 12.30-31 com 1Jo 4.20). Brevemente a ti virei (5) significa que o Senhor "virá" numa visitação de juízo. Ver também Ap 2.16. Um exemplo da sua "vinda" em bênção se acha em Ap 3.20. Tais afirmações de maneira nenhuma entram em choque com a verdade de sua vinda final, fato este que os teólogos não têm sempre reconhecido quando falam da "vinda" de Cristo ao crente e dos seus "adventos" na história, como se o reconhecimento desses aparecimentos secundários de algum modo-invalidassem a verdade do aparecimento supremo. Os nicolaítas eram julgados logo cedo como adeptos de Nicolau de Antioquia, um dos sete (At 6.5). Deduzimos de Ap 2.14-15 que eles mantinham o mesmo erro que os balaamitas, a saber: ensinar a comer coisas sacrificadas aos ídolos e a adulterar. Foram estas as principais matérias condenadas por decreto do concílio apostólico (At 15.29). É notável que os nomes de Balaão e Nicolau são cognatos (Balaão-"Ele tem consumido o povo"; Nicolau - "Ele vence o povo"). Se este ensino foi tão energicamente repelido pelos efésios (vers. 2), concluímos que se espalhava muito. A injunção: Quem tem ouvidos... (7) repete-se em conexão com as promessas ao vencedor em todas as sete cartas. Está freqüentemente nos lábios do nosso Senhor através dos quatro Evangelhos (Mt 13.9-43, etc.).

O Espírito é o Espírito Santo, se bem que o orador seja Cristo. Para semelhante fenômeno comparar Rm 8.9-11 e 2Co 3.17. "Vencedor" retrata o cristão como fiel batalhador de Cristo, "membro da igreja militante, vitorioso, não obstante as circunstâncias" (Swete). Parece haver pouca justificativa em limitar o termo, como quereriam alguns, somente aos mártires, ainda que seja verdade que o vencedor só pode demonstrar sua vitória absoluta sendo fiel até a morte.

Comer da árvore da vida (7) é participar da plenitude da vida eterna; a árvore se encontra "no meio do paraíso de Deus", a Jerusalém celestial, que deverá manifestar-se na terra para o homem redimido (ver Ap 21.10-22.2). As bênçãos da primeira criação, perdidas pelo homem, serão restauradas em escala ainda maior na "regeneração" (Mt 19.28).

Esta cidade era uma das mais prósperas na Ásia Menor e tomou o nome de "Metrópole". Ali os judeus constituam uma colônia excepcionalmente numerosa e próspera; seu antagonismo à igreja cristã, aparece, não somente nesta carta, mas também na de Inácio aos esmirnenses. O título dado a Cristo (8) reaparece em Ap 1.17. Esta igreja, prestes a ser severamente provada, necessitava relembrar que o seu Salvador era o Senhor da história e conquistador da morte (cfr. vers. 10). Contrastar a condição dos cristãos em Esmirna com a riqueza material e a pobreza espiritual dos laodicenses (Ap 3.17). A blasfêmia dos judeus (9) seria dirigida principalmente contra Jesus, mas eram capazes de blasfemar mesmo contra o Deus que eles confessavam. Os cristãos de Esmirna mais tarde relataram como os judeus se aliaram aos pagãos em reivindicarem a morte de Policarpo, Bispo de Esmirna, na base de sua oposição à religião estatal. Desse modo, em vez de constituírem uma assembleia de Deus, eles haviam-se tornado a sinagoga de Satanás (9; ver também Ap 3.9). Uma vez que se nega que os judeus tivessem o direito de manter o seu nome nacional, torna-se evidente que os cristãos se consideram os legítimos herdeiros de Abraão, como em Rm 2.28.

As coisas que esses crentes brevemente têm de sofrer podem ter relação com a oposição dos judeus. Tal aflição terá a duração de dez dias (10), isto é; um período abreviado. Às vezes acredita-se ser idêntico à "grande tribulação" de Ap 7.14, mas parece mais provável ser alusão a uma perseguição local. O diabo ("caluniador") será então o agente utilizado para provar os cristãos; tal provação por meio de perseguição se distingue da que se menciona em Ap 3.10, onde lemos da hora da tentação que deverá vir sobre o mundo inteiro, pois desta última os cristãos serão preservados (cfr. Ap 7.2-12.6) . A coroa da vida (10) alude-se à grinalda conferida ao vencedor nos jogos, "a coroa que consiste de vida". Swete lembra que a coroa não é diadema, mas o emblema de festividade, nesse caso a grinalda é um apto símbolo de vida, pois esta última tem que ser compreendida à luz das descrições finais do livro, uma vida de sagrado privilégio, gozo e de galardões destinguidos (1Co 9.25-27). A segunda morte (11). Em Ap 21.8 define-se como "o lago que arde com fogo e enxofre". É uma frase rabínica; comparar o muito citado Targum de Jerusalém sobre Dt 33.6, "Que viva Rúben nesta época e não morra a segunda morte de que morrem os injustos no mundo vindouro". Charles aptamente compara I Enoque 99.11, "Ai de vós que propagas o mal para o vosso próximo, pois perecereis em seol", conceito este que não implicava em aniquilamento, como torna claro I Enoque 109.3.

Pérgamo era descrita por Aretas como "dada à idolatria mais do que toda a Ásia". Atrás da cidade situava-se uma colina, mais de 300 metros de altitude, coberta de templos pagãos. Entre eles o mais destacado de todos era o grande altar de Zeus, colocado sobre uma plataforma, esculpido na rocha, dominando a cidade. O culto ao imperador foi estabelecido ali primeiro que em Éfeso ou Esmirna, de sorte que posteriormente, Pérgamo se tornou o reconhecido centro do culto na Ásia. Daí dizia-se desta igreja, que habitava onde está o trono de Satanás (13). Este fator explicava a causa das dificuldades peculiares dos cristãos de Pérgamo.

O título no vers. 12 tem eco em Ap 1.16 e antecipa Ap 2.16. A minha fé (13) abrevia "fé em mim". A informação dada sobre o ensino de Balaão é tirada dos dois trechos, Nm 25.1-2 e Nm 31.16. O cristão que correspondia a Balaão provavelmente desprezava a carne, e deste modo descontava a importância da pureza física, justificando suas ações talvez, pela perversão do ensino de Paulo (repudiado por este em Rm 3.8 e Rm 6.1). "Permaneçamos no pecado, para que abunde a graça". O sentido de vers. 15 é ou, "Vós também tendes entre vós os nicolaítas, que vos ensinam assim como Balaão ensinava a Israel", ou "Vós também, como os efésios (6), tendes convosco os nicolaítas", sendo implícita a comparação com Balaão. Parece preferível aquele sentido. O vers. 16 apresenta a "vinda preliminar" de Cristo para o juízo se os pergamenses não se arrependerem. Ver 2.5 n. A promessa ao vencedor (17) alude à corrente expectação judaica de que desceria novamente do céu o maná quando se manifestasse o Messias. Ver II Baruque 29.8. Aqui o maná tipifica a vida espiritual, assim como "água da vida" e "fruto da árvore da vida" (Ap 22.17-19). A promessa é especialmente apta para os que eram tentados a participar de festividades em que se comiam alimentos sacrificados aos ídolos. Abstendo-se dessas iguarias, os cristãos podiam antecipar um banquete mais farto no reino de Deus.

A pedra branca (17) é de difícil interpretação devido aos diversos fins para os quais seixos foram empregados pelo mundo da antigüidade, cada um dos quais dava um excelente sentido simbólico. Assim uma pedra branca entregue por um júri significava ao réu sua absolvição, uma preta, culpabilidade. O seixo do vencedor outorgava-lhe ingresso a todas as festividades públicas. O tessern hospitalis estava em duas partes, inscritas com dois nomes cujos donos trocaram partes de maneira que cada pessoa tinha um convite aberto para a casa da outra. O Sumo Sacerdote levava doze pedras no seu peitoril inscritas com os nomes das doze tribos de Israel. Isto de modo nenhum exaure todas as possíveis interpretações. A nossa interpretação será em parte condicionada na nossa compreensão do novo nome escrito na pedra. Se o nome é de Cristo ou de Deus (cfr. Ap 3.12 e Ap 19.12), então pode haver uma alusão ao conceito do poder inerente ao nome de Deus; o cristão participa do poder de Deus e apropria para si de um modo que nenhum outro o pode fazer. Se o nome é um novo nome conferido ao crente, então a alusão é ao hábito de conferir novos nomes às pessoas que atingiram um novo estado, como Abrão e Jacó se tornaram Abraão e Israel; a pedra branca então significa o direito do vencedor de entrar no reino de Deus em um caráter todo próprio, moldado nele pela graça de Deus.
Tiatira era a menor das sete cidades. Não tinha nenhum templo devotado ao culto dos imperadores, de sorte que os cristãos não eram tão perturbados por aquele culto como as igrejas precedentes. O problema desta igreja centralizava-se nas situações comprometedoras criadas pelos interesses comerciais. Tiatira era uma cidade industrial, célebre pelos seus muitos grêmios comerciais. Era tão necessário unir-se a essas sociedades como é para o artesão hodierno, ser membro do seu determinado sindicato comercial; de outra forma, envolvia um ostracismo que tornaria quase impossível seu negócio. A dificuldade no caminho do cristão que se unia a tais grêmios era a necessidade de participar das periódicas refeições comuns quando se comia carne que fora dedicada à deidade pagã (talvez o padroeiro do seu grêmio). Pode-se entender que certos cristãos liberais não hesitariam em participar de tais festividades, alegando que "um ídolo não é nada" (1Co 8.4). Logo, a desculpa podia achar-se pela licenciosidade em que muitas vezes estas refeições culminavam; e o próximo passo seria participar da devassidão geral. Isto era geralmente aconselhado pelos nicolaítas, e pode-se entender como isto encontrava fácil aceitação em Tiatira, onde a frase "negócio é negócio" seria bem aceita. O título provém de Ap 1.14-15, Filho de Deus (18) sendo talvez sugerido por Sl 2.7, uma vez que este salmo posteriormente é muito citado. Note-se que os olhos como chama de fogo antecipam o vers. 23, e os pés reluzentes, o vers. 27. Charles alega que as tuas obras (19) são definidas pelas qualidades que se seguem, "o teu amor, o teu serviço, a tua fé e a tua paciência" se esta interpretação é correta, é importante no esclarecimento do que o escritor quer significar com a expressão "julgado segundo as obras" (Ap 20.12-14). A profetiza que propaga o ensino dos nicolaítas é simbolicamente chamada Jezabel, pois a rainha daquele nome tentou estabelecer um culto idólatra em lugar do culto a Jeová e ela mesma foi acusada de prostituição e feitiçaria (2Rs 9.22). Note-se a inserção curiosa em alguns manuscritos de "tua mulher Jezabel" que implica ser o "anjo" da igreja, o seu administrador. No vers. 21 deduzimos que "Jezabel" anteriormente tinha sido advertida, sem resultado, ou por João ou por algum outro líder cristão. A "cama" em que Jezabel seria prostrada corresponde à grande tribulação (22), de sorte que é uma cama de sofrimento que está em mente aqui. O idiotismo é hebraico e ocorre em 1Mac 1.5 e Judite 8.3. É possível que aqueles que com ela adulteram (22) devem ser distintos dos seus filhos (23), no sentido que aqueles foram suficientemente influenciados por Jezabel, a ponto de comprometerem a sua lealdade cristã, enquanto estes abraçaram inteiramente a sua doutrina; aqueles deveriam ser castigados, estes exterminados. Por tais juízos as igrejas reconhecerão que Cristo sonda os rins e os corações (23). No uso hebraico, os rins são a sede das emoções, enquanto o coração é a sede do intelecto. As profundezas de Satanás (24) podem ser uma alusão satírica à pretensão gnóstica de conhecer exclusivamente as profundezas de Deus. Tal sabedoria não é divina, mas satanicamente inspirada. De outra forma, reflete o ensino nicolaíta que o cristão deve participar afoitamente dos excessos do paganismo e demonstrar que é imunizado de sua poluição. Os cristãos que assim procederam gabaram-se do seu conhecimento das profundezas de Satanás e, assim, desdenharam os seus irmãos mais escrupulosos. Para outra carga comparar At 15.28-29; os dois preceitos principais do concílio apostólico foram abstenção de coisas sacrificadas aos ídolos e ao adultério. O vencedor aqui se define como o que guardar até ao fim as minhas obras (26). Ele deverá receber uma delegação da autoridade de Cristo sobre as nações (26) e participar do seu triunfo sobre os povos rebeldes (27); esta função faz parte daquela autoridade e antecipa a vinda de Cristo para o juízo (Ap 19.11) e não o reino milenário, propriamente dito (Ap 20.4-6). O verbo traduzido "regerá" no vers. 27 deve ser "destruirá". A estrela da manhã (28) parece ser o próprio Cristo (como em Ap 22.16); maior do que o privilégio de reinar por Cristo será o irrestrito gozo de plena comunhão com Ele.





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Parábolas do Livro de Apocalipse
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Interpretação de Apocalipse 1
Interpretação de Apocalipse 2-3
Interpretação de Apocalipse 4-5
Interpretação de Apocalipse 6
Interpretação de Apocalipse 7 e 8
Interpretação de Apocalipse 9, 10 e 11
Interpretação de Apocalipse 12 e 13
Interpretação de Apocalipse 14, 15 e 16
Interpretação de Apocalipse 17, 18 e 19
Interpretação de Apocalipse 20 e 21
Interpretação de Apocalipse 22

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