2015/09/21

Significado de Lucas 1

Significado de Lucas 1

Significado de Lucas 10


Lucas 1

1.1,2 — Tendo, pois, muitos empreendido pôr em ordem a narração dos fatos que entre nós se cumpriram. Por meio desta expressão, Lucas deixa claro que ele não foi o primeiro a escrever um relato do ministério de Jesus. Estes versículos sugerem que Lucas não foi uma testemunha dos acontecimentos do ministério de Jesus, mas ele teve acesso às declarações daqueles que foram. As fontes das histórias foram os que presenciaram e transmitiram os fatos à Igreja. O verbo transmitir alude à comunicação de uma passagem oficial.

1.3 — Pareceu-me também a mim conveniente. Lucas não expressou nenhuma insatisfação com os relatos anteriores do ministério de Jesus, e identificou-se com aqueles que o registraram antes dele.

Havendo-me já informado minuciosamente. Esta expressão representa duas das quatro características que descrevem o trabalho de Lucas neste versículo: (1) Ele investigou o tópico e fez isso com cuidado; (2) Lucas não declarou saber tudo sobre Jesus, mas o que escreveu foi fruto de estudo e de um tratamento apurado.

De tudo. Esta expressão mostra que a terceira particularidade da obra de Lucas foi sua meticulosidade. Desde o princípio. Aqui vemos que o quarto aspecto de Lucas foi seu interesse pelos acontecimentos mais remotos ligados à vida de Jesus Cristo.

Por sua ordem. Nesta expressão vemos que Lucas deu à sua narrativa uma estrutura básica. Nem todas as partes estão em ordem cronológica, mas o registro mais amplo é o ministério de Cristo na Galiléia, Sua viagem para Jerusalém, e Suas lutas lá. A disposição dos acontecimentos mostra como Jesus se revelou gradualmente e como a oposição a Ele cresceu proporcionalmente.

1.4 — A certeza. O propósito desta expressão foi dar uma garantia a Teófilo, que possivelmente era um novo fiel e alguém muito interessado na mensagem cristã.

É provável que Teófilo fosse um gentio, considerando que muito de Lucas e Atos tem ligação com a relação entre gentios e judeus (At 10; 11; 15). Ele não precisava apenas saber a verdade e a exatidão do que a Igreja ensinava, mas também necessitava que isto fosse reafirmado. Teófilo deve ter se perguntado o que ele, na condição de gentio, estava fazendo em um movimento que era originalmente judeu, especialmente quando muitos israelitas estavam rejeitando a mensagem.

Um Messias morto poderia realmente ser o centro da promessa de Deus? A perseguição da Igreja é um sinal do julgamento de Deus sobre um movimento que fez a Sua graça tão generosa, incluindo diretamente nela os gentios sem que estes precisassem tomar-se judeus primeiro? Lucas desejava garantir a Teófilo (e aos outros leitores deste trabalho) que Jesus de fato cumpriu a promessa do Senhor, que Seu ministério e, especialmente, Sua ressurreição mostram que Deus está por trás, e que qualquer gentio pertence a este movimento. Além disso, como demonstra Atos, a perseguição da Igreja é como aquela com a qual Cristo se deparou, e deu a oportunidade de que a Palavra de Deus fosse espalhada por toda região, até mesmo por lugares tão distantes como Roma.

1.5 — Lucas é muito preciso ao dar a exata informação histórica e cronológica. Tal fato pode ser observado nas palavras deste versículo, bem como em outras referências a importantes personagens históricos, eventos e datas, como acontece em Lucas 2.1-3; 3.1,2,19,23. Este Herodes, conhecido como Herodes, o Grande, era descendente de Esaú (compare com Gn 27.39-40). Nascido em 73 a.C., ele foi designado rei dos judeus pelo senado romano em 40 a.C. Reinou até sua morte, em 4 a.C. Arquelau (Mt 2.22), Filipe (Lc3.1) e Herodes Antipas (Lc 23.7- 12,15) eram seus filhos. Herodes Agripa I, em Atos 12.1-6,19-23, foi seu neto, e Herodes Agripa II, em Atos 25— 26, seu bisneto. O sacerdócio de Israel estava separado em 24 divisões, e um dos grupos sacerdotais pertencia à família de Abias (1 Cr 24.10; Ne 12.17).

1.6 — E eram ambos justos perante Deus. Esta expressão indica que o sacerdote e sua mulher foram reconhecidos por Deus como cristãos. Eles andaram em fé junto ao Senhor e cumpriram Sua Lei (Dt 6.24,25). Isso não indica a impecabilidade, visto que cumprir a Lei também significava levar sacrifícios pelo pecado e responder apropriadamente a sua presença. Simeão (Lc 2.25), Cornélio (At 10.22) e José (Mt 1.19) são descritos desta forma.

1.7 — Ser estéril era um infortúnio muito grande no antigo Israel (1 Sm 1). As Escrituras registram um vasto número de mulheres inférteis que foram abençoadas por Deus e conceberam filhos (Gn 18.11; 21.2,3; 1 Sm 1.2). Este ato de Deus indica que Ele estava em ação, considerando também que Isabel e Zacarias eram de idade avançada.

1.8,9 — Duas vezes por ano, Zacarias servia durante uma semana no templo do Senhor, e era um dos talvez 18 mil sacerdotes que serviam lá. Os deveres sacerdotais eram designados por sorte, e oferecer o incenso era algo que o sacerdote poderia fazer apenas uma vez em sua vida — e, algumas vezes, nunca. Zacarias foi um dos contemplados com a permissão de fazer esta oferta ao Senhor, o que representou um grande momento para ele, sobretudo por causa do soberano plano de Deus para a vida dele e de sua família.

1.10,11 — A hora do incenso acontecia duas vezes por dia, provavelmente na parte da manhã e no meio da tarde. Não se sabe ao certo se Zacarias ofertou o incenso na hora matinal ou na vespertina.

1.12 — O temor diante da presença de Deus ou de Seu mensageiro (v. 11) é muito comum nas Escrituras (Lc 1.29,65; 2.9; 5.8-10,26; 7.16; 8.37; 9.34; Êx 15.16; Dn 8.16,17; At 5.5,11; 19.17).

1.13 — Os anjos geralmente acalmam os temores daqueles aos quais aparecem (Lc 1.30; 2.10; Gn 15.1; Dn 10.12; Mt 1.20; At 18.9; 27.24; Ap 1.17).

A tua oração foi ouvida. Com esta expressão, o anjo provavelmente estava fazendo referência ao clamor de Zacarias pela redenção de Israel, ou às suas preces anteriores por um filho. Na verdade, a ação de Deus começa um processo que responde aos dois pedidos de uma vez só. Possivelmente ele não estava orando por um filho, visto que o versículo 18 indica que Zacarias não tinha mais esperança quanto a isso.

E lhe porás o nome de João. Quando Deus nomeia uma pessoa, esta geralmente se toma em alguém grandioso (Gn 16.11; 1 Rs 13.2; Is 7.14).

1.14 — Alegria é um tema importante ao longo dos escritos de Lucas (Lc 1.44,47,58; 2.10; 10.20; 13.17; 15.5-7; 19.6; 24.52; At 5.41).

1.15 — João possuía um lugar de destaque nos desígnios de Deus, mas sua função era inferior ao papel singular de Jesus. João era um profeta, e como tal ele foi cheio com o Espírito Santo desde o ventre de sua mãe (Is 49.1; Jr 1.5). Estar cheio do Espírito Santo significa ser dirigido por e obediente a Ele (Ef 5.18).

E não beberá vinho, nem bebida forte. Como aconteceu com Samuel e Sansão, um voto foi estabelecido para a criança, o qual indicava sua consagração especial ao Senhor. João seria preparado para sua missão por meio de uma vida consagrada. Não fica claro se este foi um voto de nazireado, visto que nada é dito acerca da proibição do corte de cabelo (Nm 6.1-4; Jz 13.5,7).

1.16 — João Batista prometeu a reconciliação com Deus àqueles que responderam ao seu chamado ao arrependimento (Lc 3.1-14). Converter é um termo que indica uma mudança de orientação, a libertação do pecado e o olhar voltado para Deus (1 Ts 1.9,10). A missão do profeta João Batista foi preparar Israel para a vinda do Messias.

1.17 — Irá adiante dele no espírito e virtude de Elias. Esta descrição faz lembrar Malaquias 3.1 e 4-5, pois João era o precursor do Messias. O ministério de João Batista possuiu um paralelo com o de Elias, pois ambos os profetas chamaram Israel a arrepender-se (1 Rs 17.18).

A mensagem de reconciliação pregada por João Batista envolve tanto o relacionamento das pessoas com Deus (voltar à prudência dos justos) como o relacionamento dos indivíduos uns com os outros (converter o coração dos pais aos filhos). O fato de que João Batista agiria no mesmo poder e Espírito de Elias não significa que a esperança da vinda de um novo profeta como Elias esgota-se em João Batista. Este profeta e Jesus sugeriram o retorno de um indivíduo parecido com Elias no fim dos tempos (Mt 17.11-13; Jo 1.21). Como muitos elementos do plano de Deus, há um cumprimento inicial e um posterior, que é diferente, mas relacionado.

Preparar ao Senhor um povo. Esta expressão descreve o propósito do ministério de João Batista, que visava apresentar a Cristo um povo preparado, arrependido, convertido, justo e sincero, a fim de cumprir os propósitos especiais do S e nhor. O paralelo mais próximo disso no Antigo Testamento está em 2 Samuel 7.24, onde o povo preparado alegrou-se na esperança da promessa davídica. Conexões com esperança davídica reaparecerão em Lucas 1.31,32.

1.18 — Como saberei isso? Esta expressão mostra a dúvida de Zacarias, uma falta de fé que foi sanada nos versículos 64 e 65. Zacarias ignorou completamente a origem divina da promessa e o mensageiro angelical que a comunicou. A fim de que as palavras do anjo se tornassem realidade, seria necessário que Deus agisse sobre o processo natural de envelhecimento de Zacarias e que corrigisse a infertilidade do útero de Isabel. Este líder religioso não se lembrou de que uma situação similar aconteceu com Abraão, o pai do povo judeu?

Como David Gooding, em seu livro Conforme Lucas, disse pungentemente: “um milagre, de fato. Mas, se tal maravilha é impossível, como Zacarias pensou a princípio, toda a conversa sobre redenção é inútil, ou, na melhor das hipóteses, possui uma designação incorreta. Um novo corpo que não teve nada a ver com o velho, um novo mundo que não teve nada a ver com o antigo, isso certamente seria uma coisa maravilhosa — mas não seria redenção. A redenção deve significar abandonar a natureza corruptível, renovando corpos desfalecidos, ressuscitando os mortos e restaurando os espíritos caídos”.

1.19 — Gabriel, um dos dois anjos nomeados na Bíblia, foi o mensageiro frequente dos planos de Deus (Dn 8.16; 9.21). Miguel é o outro anjo cujo nome é mencionado (Dn 10.13,21; Jd 9; Ap 12.7).

1.20 — Todavia ficarás mudo. Este sinal também foi uma oportunidade para refletir sobre a falta de fé. Ao que tudo indica, Zacarias estava apenas incapacitado de falar (v. 62,63). A chegada do filho quebraria o silêncio de Zacarias. O sacerdote seria preenchido com alegria, louvando a Deus por Sua fidelidade (veja o cântico de Zacarias nos v. 68-79).

1.21,22 — O povo no templo esperava a bênção araônica do sacerdote (Nm 6.24-26). O término da oferta ocorria apenas quando os sacerdotes saíam do lugar santo.

1.23 — A casa de Zacarias estava localizada na área montanhosa ao sul de Jerusalém (v. 39).

1.24 — O motivo pelo qual Isabel se ocultou não fica claro. A sugestão mais aceita é que ela se retirou para louvar a Deus, como sugere o versículo 25, e para se preparar privativamente para a chegada de sua criança especial.

1.25 — No antigo Israel, a infertilidade era vista como opróbrio [humilhação, na NVI]. O fato de uma mulher estéril engravidar indicava a graça de Deus (Gn 21.6; 30.23; 1 Sm 1; 2; SI 128.3). Neste versículo, Isabel louva ao Senhor por tê-la abençoado misericordiosamente.

1.26-38 — O anúncio feito a Maria apresenta a concepção virginal de Jesus (v. 27,34,35), mas relaciona-se ao Antigo Testamento pois, em Mateus 1.23, de fato é citado Isaías 7.14. A passagem de Lucas conta a história do ponto de vista de Maria, enquanto Mateus 1.18-25 foca em José. A narrativa traça um paralelo com mensagens similares do Antigo Testamento (Isaque: Gn 16.7-14; 17.15-22; 18.9-15; Gideão: Jz 6.11-17; Sansão: Jz 13.3-23; Samuel: 1 Sm 1.9-20). O anúncio do anjo Gabriel enfatiza a magnífica condição de Jesus, bem como Sua origem singular. Lucas deixa claro que Maria não percebeu a importância teológica deste nascimento, algo que constatamos na resposta dela no capítulo 2, versículo 48. Lucas prefere mostrar como Jesus se revelou gradualmente e como as pessoas travaram contendas por Ele ser quem era.

1.26,27 — O anúncio do anjo Gabriel ocorreu no sexto mês após João Batista ter sido concebido. Nazaré era uma pequena vila na Galileia, uma região da parte norte de Jerusalém.

1.28-31 — Bendita és tu entre as mulheres. Maria, como todos os mortais, foi alvo da graça de Deus, e não uma concessora desta. Ela desempenhou um papel fundamental, da mesma forma que João Batista recebeu um chamado especial. Maria foi simplesmente agraciada por Deus (v. 30).

1.32,33 — Grande [...] Filho do Altíssimo. Ao compararmos com Lucas 1.15, Jesus é simplesmente chamado de grande (talvez haja uma alusão a Mq 5.3 aqui). A referência ao Altíssimo é outra forma de falar da majestade de Deus com a qual Jesus possui uma relação singular como Filho. Sua grandeza e Sua qualidade de filho são definidas pelo que se segue no versículo 32. Ele cumpre promessas, feitas a Davi, de um domínio eterno (isto é, Ele é o Messias). O Antigo Testamento apresenta e desenvolve esta promessa em detalhes (2 Sm 7.8-17, especialmente os v. 13,16; 1 Rs 2.24,25; SI 2.1-12; 89.14,19-29,35-37; 110.1-7; 132.11,12; Is 9.6,7; 11.1-5,10; Jr 23.5,6). Já o Novo Testamento exibe as manifestações mais visíveis dessa promessa apontando para a segunda vinda de Jesus (Ap 19 e 20).

Lucas expõe aspectos que evidenciam Cristo como Rei, Filho de Deus. Contudo, seus elementos serão expostos mais claramente no futuro (Lc 18.39; 19.38; 22.69; At 2.30-36). Lucas ainda enfatiza a conexão da aliança davídica com a promessa da vinda de Jesus (Lc 1.27,32,69; 2.4,11).

1.34 — Como se fará isso? Maria não pediu um sinal. Logo, essa pergunta não reflete uma descrença. Ela aceitou sua função sem questionar (v. 38) e deste modo se tornou um modelo de fé, mesmo que não possuísse a total compreensão do acontecimento. A obra de Deus em Maria apresentou algo inédito: o nascimento, por intermédio da raça humana, daquele que é Deus e homem.

1.35,36 — Descerá sobre ti o Espírito Santo. Esta é uma declaração direta da concepção divina de Jesus. A associação do Espírito com a virtude [poder, naNVI] é constante para Lucas (Lc 1.17; 4.14; At 1.8; 6.8-10; 10.38). A concepção virginal de Jesus indica que Ele é singularmente separado, o Santo, expressão que aqui é mais do que um título, é uma descrição da natureza sem pecado de Jesus. O nascimento ímpar é outra razão pela qual o menino pode ser chamado de Filho de Deus.

1.37 — Porque para Deus nada é impossível. O Senhor manteve a Sua promessa, independente de quão difícil as circunstâncias poderiam parecer. A declaração de fé de Gabriel a respeito de Deus deveria também ser a nossa afirmação de confiança: para Deus nada é impossível. A demonstração máxima do poder do Altíssimo foi o infinito Criador encarnar como criatura.

1.38 — A palavra serva indica a humildade de Maria perante o Senhor, a prontidão da fé e o serviço obediente, coisas que deveriam caracterizar todo aquele que crê. Paulo usa a mesma expressão para definir a si mesmo (Rm 1.1).

1.39-41 — Ao ouvir Isabel a saudação de Maria, a criancinha saltou no seu ventre. A chegada de Maria causou uma reação em João, que estava na barriga de Isabel. O precursor do Messias deu testemunho de Jesus mesmo antes de nascer. O anjo tinha dito a Zacarias que esse bebê seria preenchido com o Espírito Santo desde o ventre (v. 15).

1.42-44 — E de onde me provém isso a mim, que venha visitar-me a mão do meu Senhor? Isabel maravilhou- se com a graça concedida a ela de fazer parte do grande plano divino. Ela sabia que Deus não lhe devia nada, mas também estava convicta de que Ele lhe tinha dado misericordiosamente muita coisa.

1.45 — A confiança de Maria contrasta com a dúvida de Zacarias. Bem-aventurada a que creu. Esta resposta de fé de Maria foi exemplar. Ela estava somente servindo a Deus para que Ele fizesse cumprir Suas promessas.

1.46 — O termo engrandece deu origem ao nome do hino Magnificat, que vem da tradução em latim, a Vulgata. Este cântico é pessoal nos versículos 46 a 49, enquanto nos versículos 50 a 55 se volta para os princípios pelos quais Deus age. E um salmo de louvor, visto que Maria louva a Deus recitando o que Ele fizera. O cântico é um dos quatro hinos em Lucas 1 e 2. Os outros estão em Lucas 1.67-79; 2.14 e 2.29-32.

1.47 — Deus, meu Salvador. A ação de Deus como Salvador é destacada neste hino (v. 46-55). Maria considerou uma honra participar do desígnio divino. Deus, o Pai, é o foco deste cântico, pois Ele é a origem e o executor do plano. O atributo do Senhor (Salvador) não é declarado como abstração, mas relacionado ao Seu plano redentor. As expressões engrandece e se alegra sugerem a contínua presença do louvor.

1.48 — Desde agora. Esta expressão também pode ser traduzida como “de agora em diante”. Ou seja, as coisas não seriam mais as mesmas (Lc 5.10; 12.52; 22.69; At 18.6).

Todas as gerações me chamarão bem-aventurada. Maria deixou de ser uma pobre e desconhecida moça hebreia para se tornar a mulher mais honrada da história mundial.

1.49 — O Poderoso. Esta expressão realça que Deus é Aquele que protege Seus filhos e luta por eles (SI 45.3; 89.8; S f 3.17). Santo é seu nome. Deus é único e distinto dos outros seres (Lv 11.44,45; SI 99.3; Is 57.15).

1.50 — O termo misericórdia expressa os conceitos de lealdade, graça e amor fiel do Antigo Testamento (SI 103).

Sobre os que o temem. Estas são as palavras-chave no cântico, pois mostram que Deus não está tratando de classes sociais nem dos humildes sem considerar sua orientação espiritual. O cântico reflete os comprometimentos da aliança (v. 54,55) bem como a orgulhosa resposta a Deus. A misericórdia é dada àqueles que procuram respeitosamente por Ele. Portanto, o uso do hino para demonstrar apenas pontos político-sociais não é apropriado.

1.51-53 — Estes versículos demonstram uma “reversão” no final dos tempos, quando aqueles que abusaram do poder serão julgados e os que sofreram perseguição serão exaltados. Embora seja usado o tempo verbal passado, os versículos vislumbram o futuro, visto que eles carregam os princípios pelos quais Deus age e são expressos com a certeza de um evento passado. Maria olhava adiante, para o dia em que o povo de Deus não seria mais oprimido, mas sim abençoado por Deus. Com o seu braço, agiu valorosamente. Esta expressão descreve, de forma figurada, a ação e o poder de Deus como Salvador de Seu povo (Lc 1.47; Dt 4.34; SI 89.13; 118.15).

1.54-56 — E auxiliou a Israel, seu servo. A ideia de Israel como servo de Deus é frequentemente encontrada no livro de Isaías (Is 41.8,9; 44.1,2,21; 48.20; 49.3). Israel desempenhou um papel especial no serviço e na revelação do Senhor. Maria vê o dia em que Israel será liberto, e ela poderá concluir sua incumbência.

Como falou a nossos pais. As ações de Deus na vida de Maria foram baseadas nos compromissos que Ele fez séculos antes (Gn 12.1-3; 22.16-18). Ele manterá Sua promessa, por isso Maria pôde ser tão confiante.

1.57-59 — E lhe chamavam Zacarias. E descrito aqui o antigo costume de dar o nome de um membro da família ao recém-nascido.

1.60,61 — O fato de Isabel não ter seguido os costumes — ao colocar em seu filho um nome que ninguém possuía em sua parentela — mostra a obediência dela e seu marido ao Senhor, que anunciara previamente o nome a ser posto na criança a Zacarias (v. 13).

1.62,63 — E perguntaram, por aceno. Isto pode indicar que Zacarias também ficou surdo, além de mudo (v. 20).

Tabuinha de escrever era uma placa de madeira coberta com cera.

1.64 — Zacarias aprendeu sua lição de fé, como o versículo 63 indica. Assim, sua punição chegou imediatamente ao fim.

1.65,66 — Temor. Esta é uma resposta natural à presença de Deus. O fato de Zacarias voltar a falar, louvando a Deus, gerou duas reações: temor e uma discussão reflexiva.

1.67 — A presença do Espírito aqui capacitou Zacarias para anunciar a promessa de Deus. Além disso, embora ele fosse um sacerdote, o Espírito o habilitou para profetizar. Há três tipos de profecias na Bíblia: a que prediz o futuro, a que proclama a Palavra de Deus e a que louva a Deus. A profecia de Zacarias inclui os três tipos. O cântico de louvor a Deus entoado por Zacarias é chamado de Benedictus [Bendito], por causa da primeira frase do trecho na tradução da Bíblia em latim, a Vulgata.

1.68 — Como também aconteceu no cântico de Maria, Deus, o Salvador, é o objeto do louvor de Zacarias. A salvação à qual Zacarias se refere é o livramento dos inimigos (v. 71) e a salvação espiritual (v. 75,77,79).

1.69,70 — Uma salvação. O original em grego diz “um chifre de salvação”. O chifre de carneiro representa o guerreiro e o poder (1 Sm 2.10; 2 Sm 22.3; SI 75.4,5,10; 132.17; Ez 29.21). Davi. O ancestral real de Jesus é destacado aqui por Zacarias e vinculado à promessa de Deus (v. 70).

1.71 — Deus prometera libertar os israelitas de seus inimigos. Em Lucas, tais opositores incluem forças humanas e espirituais (Lc 4.16-30; 11.14-26).

1.72,73 — E para manifestar misericórdia, e para lembrar-se do seu santo concerto. Estas ações de Deus representaram Seu compromisso de amor fiel aos israelitas (v. 50) e o cumprimento de Suas promessas aos ancestrais deles (v. 54,73; Lv 26.42).

1.74,75— Zacarias ansiava por servir a Deus em santidade e em justiça. Lucas mostra que o sacerdote aprendeu muito com o nascimento de seu filho. Cristo veio para nos dar a liberdade de servir ao Senhor sem medo [nvi] da perseguição de nossos inimigos, para viver em santidade de coração diante de Deus e em justiça na conduta perante os outros.

1.76 — Hás de ir ante a face do Senhor. Embora seja discutido se a alusão aqui é feita a Deus, o Pai, ou a Jesus, o objeto do louvor e da ação de graças é Deus, o Pai. Este comentário feito por Zacarias repete as referências de Lucas 1.16,17, onde fica claro que há a menção ao Pai. De forma bastante consistente, Lucas exibe a salvação e os benefícios do Senhor por intermédio de Jesus (At 2.30-36). Por outro lado, João Batista deve preparar o caminho para Yahweh, uma referência à condição de precursor do Messias.

1.77 — Dar ao seu povo conhecimento da salvação. Esta também era a tarefa de João Batista como profeta — preparar as pessoas informando as da necessidade do arrependimento (Lc 3.1-14) e da esperança que viria por intermédio daquele que se seguiria após ele (Lc 3.15-18). Um dos motivos para esta observação não se referir a Jesus é que o sujeito da frase encontrado no versículo 76 é João Batista.

O ministério de João Batista foi de suma importância para preparar o povo para a vinda de Jesus. A salvação, porém, viria pela remissão dos pecados, pois uma não poderia acontecer sem a outra. João Batista, com seus batismos, ilustrou esta possibilidade, enquanto o “grande batismo”, que Jesus trouxe com Espírito (Lc 3.15 -18), reflete a presença da salvação.

1.78,79 — O oriente é uma referência ao Messias vindouro (Nm 24.17; Ml 4.2). A mesma palavra grega também foi usada para traduzir o termo hebraico que corresponde a ramificar ou brotar, um conceito com nuanças messiânicas (Is 11.1-10; Jr 23.5; 33.15; Zc 3.8; 6.12).

Para alumiar [...] dirigir os nossos pés. Como o raiar do dia ou a alvorada, o Messias proverá a luz da verdade e o perdão àqueles cegos pela escuridão de seus pecados.

A palavra paz descreve a relação harmoniosa com Deus.

1.80 — E o menino crescia. Esta expressão finaliza a história do nascimento de João Batista. Dois reffões similares saúdam a passagem de Jesus (Lc 2.39,52), sendo que a duplicidade é outro toque estilístico que enfatiza a superioridade de Jesus em relação a João Batista, assim como a diferença do fraseado entre os versículos. João Batista esperou 30 anos para que o Messias se manifestasse a Israel. Não teve apenas uma imensa humildade, mas também uma grande paciência.


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