2015/10/18

Jesus Como Filho de Deus

Capítulo 1

JESUS COMO FILHO DE DEUS

I. O Logion Mt. 11:25-27, Lc. 10:21-22, e seus Paralelos.
N
Jesus Como Filho de Deusenhuma passagem dos evangelhos sinóticos lança tanta luz sobre o sentido de Jesus a respeito de sua própria missão como aquela que lida com Conhecer o Pai e Ser Conhecido por Ele em Mt. 11:25-27, Lc. 10:21-22. Pertence ao elemento comum de Mateus e Lucas, desconhecido em Marcos e, no julgamento da grande maioria dos críticos, deve ser encaminhado a uma fonte comum da alta antiguidade. Em suma, no que diz respeito ao testemunho, as suas reivindicações de autenticidade são insuperáveis​​. No que diz respeito ao conteúdo, trata-se de matéria de toda importância da doutrina da filiação divina de Jesus, ainda parece estar sozinho entre os ditos sinóticos, além de ser comparado apenas por declarações atribuídas a Jesus pelo quarto evangelista.
       No entanto, os discursos joaninos dão todas as indicações de terem sido compostos pelo próprio evangelista, a fim de expor, em forma de diálogo, sua própria Cristologia deutero-paulina. O único caso em toda a tradição sinótica de qualquer coisa comparável a esta aposição de “o Filho... o Pai”, é Mc. 13:32, Mt. 24:36: “Mas a respeito daquele dia ou daquela hora ninguém sabe; nem os anjos no céu, nem o Filho, senão o Pai.”
       Mas esse dito marcano não pode ser empregado para provar a consciência sobre-humana de Jesus, pois, na versão de Lucas do mesmo dito, em Atos 1:7, “não vos compete conhecer tempos ou épocas que o Pai reservou pela sua exclusiva autoridade”, a aposição desaparece, e, tendo em conta a liberdade de Marcos na composição do capítulo escatológico (Mc. 13), e da sua Cristologia individual, como refletida no início e no final do seu evangelho (Mc. 1:1 e 15:39),[1] é mais razoável atribuir ao evangelista a referência ao “Filho”, em Mc. 13:32.
       O dito original não tinha, então, nenhum paralelo com o nosso logion, e o último permanece único. É a única expressão inabalável de Jesus para a qual a doutrina de Sua filiação divina pode ser referida. E, no entanto, mesmo após a aplicação mais drástica, tanto textual como da alta crítica, ainda permanece inabalável; e bem merece a sua descrição como “a passagem de João”, pois constitui, embora interpretada, um verdadeiro elo entre a Cristologia dos Sinóticos e Joanina.
       Somos obrigados, no entanto, por todos os sãos princípios da crítica, bem como da exegese, a preferir essa forma de texto e interpretação que deixam o dito em harmonia com o resto da tradição sinótica, em vez de um texto e interpretação cujas semelhanças estão todas com o Quarto Evangelho. Essa forma e interpretação podem revelar uma raiz a partir da qual a Cristologia, desenvolvida posteriormente, poderia surgir; qualquer outra poderia nos dar nada mais do que um bloco errático, em que o geólogo vê o deslocamento violento do seu menor estrato original. Harnack[2] apresentou recentemente a evidência textual para um exame de pesquisa. Como não é o nosso presente objeto testar seus resultados, mas sim, apresentar uma interpretação aplicável se esses resultados devem ou não ser aceitos, será suficiente apenas indicar por colchetes o material que ele omite e pôr sinais de parênteses nas leituras alteradas que introduz.

Mateus 11:25-27
25 Por aquele tempo, exclamou Jesus: Graças te dou, ó Pai, Senhor do céu e da terra, porque ocultaste estas coisas aos sábios e instruídos e as revelaste aos pequeninos. 26 Sim, ó Pai, porque assim foi do teu agrado. 27 Tudo me foi entregue por [meu] Pai. Ninguém conhece o Filho, senão o Pai; e ninguém conhece o Pai, senão o Filho e aquele a quem o Filho o quiser revelar.

Lucas 10:21-22
21 Naquela hora, exultou Jesus no Espírito Santo e exclamou: Graças te dou, ó Pai, Senhor do céu e da terra, porque ocultaste estas coisas aos sábios e instruídos e as revelaste aos pequeninos. Sim, ó Pai, porque assim foi do teu agrado. 22 Tudo me foi entregue por [meu] Pai. Ninguém (sabe) [quem é o Filho, senão o Pai; e] também ninguém sabe quem é o Pai, senão o Filho, e aquele a quem o Filho o[3] [quiser] revelar.

A partir de uma comparação destes textos emendados de Mt. e Lc. Harnack conclui que a fonte comum (Q), representada pelo material coincidente, tem a seguinte leitura:

Naquele tempo, respondendo Jesus, disse: Graças te dou, ó Pai, Senhor do céu e da terra, que tu ocultaste estas coisas dos sábios e entendidos, e revelastes aos pequeninos, sim, Pai, porque assim foi do teu agrado. Todas as coisas me foram entregues pelo Pai, e ninguém jamais conheceu o Pai [ou quem é o Pai] senão o Filho, e aquele a quem o Filho faz a revelação.

Nós mesmos não estamos muito preocupados com o sentido dado à passagem pelo primeiro e o terceiro evangelistas, como com o sentido que tem em sua fonte comum, agora comumente designada Q.[4] Pode muito bem ser que, como foi recentemente declarado pela não menos importante e imparcial autoridade de Jülicher:

O evangelista que faz Jesus exclamar: “ninguém conhece o Filho senão o Pai e da mesma forma ninguém conhece o Pai senão o Filho” (Mt. 11:27; cf. Lc. 10:22), certamente pressupõe nele a consciência derivada de um outro mundo e período.[5]

Um evangelista comprovadamente dependente de Marcos, alguém que assume o comando e melhora a “alta” Cristologia de seu antecessor e que parece mesmo ter adaptado esse mesmo logion para a forma de uma comissão de pós-ressurreição aos apóstolos para fazerem conversões de todas as nações (Mt. 28:18), pode muito bem ter aceitado a Cristologia paulina com todas as suas implicações de preexistência.
Mas, o investigador das concepções pré-paulinas, o historiador da doutrina, alguém que saberia o que o próprio Jesus sentiu estar implícito em Sua “filiação”, não se permitirá demorar mais em informações secundárias e derivadas quando fontes primárias estão acessíveis. Marcos e o primeiro evangelista mostram a forma de tradição corrente no período 70-90 A.D., pois somos capazes de usar o período de 40-60 A.D. como padrão de comparação das epístolas paulinas e das declarações do próprio Jesus relatadas no material elaborado a partir de Q e comum em Mateus e Lucas.[6]
Neste material mais antigo, não somos, felizmente, privados de paralelos para qualquer parte do logion. Mesmo se admitirmos a irrefutabilidade do argumento textual de Harnack em atribuir ao nosso primeiro evangelista, e não a Q, a cláusula “ninguém conhece o Filho, senão o Pai”; ainda assim, as epístolas paulinas vão apresentar provas, como esperamos mostrar, de que essa suposta adição não é invenção do evangelista, mas é, em si, uma expressão do espírito de Jesus. Além de Q e das epístolas paulinas, temos mais uma fonte na literatura judaica contemporânea. Devemos nos valer de todas essas ajudas a fim de determinar que expressões de sentido a respeito do “Filho” e do “Pai” seriam entendidas pelos ouvintes de Jesus, e devem, portanto, serem entendidas, uma vez que não tinham nenhum propósito de enganar, pois foram intencionadas por Ele mesmo.
Harnack[7], muito justamente, endossa o julgamento de Pfleiderer em encontrar em 1 Cor. 1:19-21 um paralelo paulino ao nosso logion tão perto em pensamento e, em certa medida, até mesmo na linguagem, a sugerir dependência literária direta:

Pois está escrito:
Destruirei a sabedoria dos sábios
E aniquilarei a inteligência dos instruídos.
...Visto como, na sabedoria de Deus, o mundo não o conheceu por sua própria sabedoria, aprouve a Deus salvar aqueles que crêem pela loucura da pregação.

Sobre a questão se Paulo é dependente do logion ou o Q influenciado por Paulo, há discordâncias. Harnack rejeita a decisão da Pfleiderer em favor da segunda alternativa, porque “crianças” (νηπιος) “não é paulino”.[8] E, ainda no mesmo contexto, pouco mais de uma vintena de versículos mais adiante (1 Co. 3:1), Paulo aplica este próprio termo “crianças” (νηπιος) aos seus convertidos coríntios como destinatários da revelação.
Importante quanto esta questão da relação de Paulo com Q possa, sem dúvida, ser, ainda podemos deixar a questão da prioridade incerta. O ponto essencial para o intérprete é a existência da relação, e isso se torna mais evidente, quanto mais perto se examinam os dois contextos.
Quanto à colocação do logion em Q, aceitando os resultados textuais de Harnack, não podemos ir mais longe do que a coincidência de Mateus e Lucas permite. Como esse abrange, no entanto, todas as evidências que temos, e como todos convergem na mesma direção, não existe risco de contradição para a conclusão de Harnack[9] de que na fonte ela ficava entre as Desgraças nas Cidades Impenitentes da Galileia e Denúncia dos Escribas que Blasfemaram contra o Espírito e exigiram um sinal do céu.
Perseguindo a sequência um pouco mais para trás, pareceria que as Desgraças contra as Cidades Impenitentes seguidas da Queixa contra a Geração que não estava satisfeita nem com o “choro” dos discípulos de Batista, nem o “canto” dos seguidores de Jesus, e isso, por sua vez, viria depois da Missão dos Doze, que foi precedida pelo incidente do Centurião, cuja fé envergonhou a in­credulidade de Israel. Certamente, não se pode deixar de perceber o motivo dominante nesta sequência, particular­mente ao passo que reaparece tão fortemente em Paulo (Rm. 9-11) e em todos os nossos evangelistas canônicos (Mat. 4:1-25, 1-12, 13:1-23, 21:33-43, Lc. 4:16-30, 24:44-49, At. passim, Jo. 12:20-43). O autor de Q tratou o logion como uma repreensão dos ouvidos surdos e olhos cegos do Israel descrente, a esse respeito, seguindo o exemplo de Paulo e sendo seguido por todos os evangelistas.
Em 1 Co. 1:18, 2:16 a carne que “glorifica diante de Deus” (1:29), não é, de fato, como em Rm. 2:17-20, o judeu que afirma “conhecer Deus” e ser “um mestre de crianças,” mas sábios na sua própria estima em geral. No logion, como inicialmente previsto, é, de forma clara, aos “sábios e entendidos de Israel”, os escribas, que são mencionados, e seu jugo opressivo é contrastado com o de Jesus no convite enquadrado por Mateus como um apêndice a partir de Eclesiásticos 6:28, 51:26ff.[10] Apenas o compilador, a quem é devido o contexto da sequência de Q, parece ter levado em conta as pretensões peculiares e a rejeição sinal de Israel como um todo. Com os evangelistas, bem como Paulo, nós temos aqui uma aplicação, agora mais ampla, mais estreita, da passagem de Is. 29:9-24, uma passagem favorita de Paulo[11] e também usada mais de uma vez em Q.[12] Ao representar as “crianças” como a escolha da “boa vontade” de Deus para receber revelação, Paulo está apenas estendendo-se até o mundo gentio espiritual­mente deserdado, a certeza que Jesus tinha dado a Seu “pequeno rebanho” de pecadores arrependidos e expulsos da sinagoga. Ele baseia-se explicitamente na passagem de Isaías que tacitamente salienta o logion.

A Revelação Dada aos Pequeninos
A comparação da rapsódia de Paulo sobre “a palavra da cruz”, “a loucura da pregação”, com exultação de Jesus sobre a revelação dada aos seus “pequenos”, e a conexão de ambos com sua base comum do Antigo Testamento é muito mais do que uma mera reivindicação da autenticidade do dito. Já se vai longe ao determinar o seu sentido, e esse, por sua vez, ao passo que se torna mais claro, vai nos permitir detectar paralelos talvez até então insuspeitos.
O ponto fundamental de acordo entre todas as três testemunhas, o logion, a passagem isaiana e a paulina, é a vindicação da revelação dada ao inculto, o humilde, o povo simples, contra as usurpações de autoridade eclesiástica. No tempo de Amós, Deus escolheu como portador de Sua mensagem um pastor, colhedor de sicômoros, em preferência ao profeta por vocação, se assim Lhe agradou (Am. 7:14, 15). Isaías já sentiu a pressão da usurpação hierocrática, e seguiu o exemplo de Amós em derramar desprezo sobre os profetas, “cujos olhos estão fechados”; os videntes, “cujas cabeças estão cobertas”, e o erudito, para quem “toda a visão tornou-se como as palavras de um livro que está selado”, para que Deus se volte para “o manso” e os “pobres”, fazendo com que os filhos santifiquem Seu nome, e os espíritos errantes e os ‘lábios estranhos pronunciem paz’.[13] Desde a extinção da voz da profecia, o estabelecimento da autoridade exclusiva da sinagoga e a lei escrita, as usurpações do religioso profissional tinham se tornado, no tempo de Jesus, infinita­mente mais insuportáveis ainda.
A confraria dos escribas, com alguns milhares de seguidores fariseus, tinha arrogado para si só a herança espiritual de Israel. Sentados na cadeira de Moisés com sua prerrogativa da interpretação da lei escrita, tinham eles as chaves do reino dos céus. Eles mesmos não entravam e as massas que iriam entrar pela porta larga do batismo de João, e a proclamação do perdão, bem como da adoção por Jesus, eles as impediam. Fizeram com que fosse impossível para o filho ou a filha comum de Abraão esperar qualquer “parte no mundo vindouro”, pois esta frase veio a ser a expressão corrente para uma parte da herança nacional comum, a primogenitura dos filhos de Abraão, a esperança messiânica. Assim, como os Gracos em Roma se tornaram os defensores dos humildes contra a usurpação do domínio comum pela aristocracia, da mesma forma, João Batista e Jesus resistiram à usurpação da herança espiritual comum em Israel. Para Jesus, o batismo de João era um sinal do céu (Mt. 21:23-25). O próprio João havia sido um Elias, alguém para “restabelecer as tribos de Jacó” (Eccl. 48:10 BJ), tendo como sua missão não apenas o Grande Arrependimento (Ml. 4:5, 6), mas a volta dos pais para filhos e os filhos para seus pais; no sentido de restaurar aqueles que haviam sido excluídos pela violência e injustiça, excluindo aqueles que usurparam o lugar dos filhos e filhas de Abraão.[14] Tal sinal de advertência de João Batista acerca da “ira vindoura” foi “uma questão maior” do que a pregação de Jonas para os ninivitas, e a geração que rejeitou-a estava trazendo sobre si mesma maior condenação (Mt. 12:41).[15]
A base do nosso logion isaiano, o paralelo paulino, as afinidades do evangelho, o contexto e a evidência interna do próprio logion, combinam-se para mostrar que devemos interpretá-lo à luz dessa defesa por Jesus da causa da ovelha perdida e do filho perdido contra o irmão mais velho invejoso. Os “cansados ​​e oprimidos”, a quem é dado o convite “tomai meu jugo sobre vós e aprendei de mim”, que Mateus adequadamente anexa, são aqueles que têm ido aprender dos escribas no lugar de Moisés; os escribas que fazem o jugo da lei cada vez mais pesado e intolerável​, “Atam fardos pesados [e difíceis de carregar] e os põem sobre os ombros dos homens; entretanto, eles mesmos nem com o dedo querem movê-los.” A Revelação aos Pequeninos para o qual o Senhor Supremo é agradecido, é a visão e o conhecimento concedido para os puros de coração (Mat. 5:8), muito mais do que a “chave do conhecimento” utilizada na mão do expoente profissional do Mosaísmo (Mt. 23:13, Lc. 11:​​52). O espírito do contexto é o da promessa de Jr. 31:34, dos dias da Nova Aliança, quando eles não ensinarão mais cada um a seu próximo, nem cada um a seu irmão, dizendo: “Conhece ao SENHOR, porque todos me conhecerão, desde o menor até ao maior deles, diz o SENHOR. Pois perdoarei as suas iniquidades e dos seus pecados jamais me lembrarei.”
À luz dessas passagens conectadas, é manifesto que os expositores estão certos quando apontam que a palavra aqui traduzida como “entregue” (παρεδοθη) não é a mesma que é utilizada na expressão de Mt. 28:18, “toda a autoridade me foi dada (εδοθη) no céu e na terra”. Na verdade, é o termo técnico para comunicação da doutrina autoritária (παραδοσις). Se a comissão pós-ressurreição (Mt. 28:18) está enquadrada, como parece provável em nosso logion, o evangelista ampliou o sentido para além da intenção origi­nal. Na realidade, o logion está mais justamente em paralelo com Jo. 7:16-17, “o meu ensino não é meu, e sim daquele que me enviou.” Contra as “tradições (παραδοσις) dos escribas”, Jesus define a tradição de Seu Pai, que está “escondida aos sábios e entendidos, mas revelada (pelo Pai) aos pequeninos.” Somos lembrados como, em uma passagem lucana intimamente ligada, foram denunciados como líderes cegos dos cegos, os escribas e fariseus, que exigiram-Lhe um sinal do céu; Ele disse a seus ouvintes sobre “a luz que há em ti”, como um guia que nenhum outro pode substituir (Lc. 11:34-35). Se penetrarmos através da definição, até o sentido intrínseco da parábola do Bom Samaritano, vamos perceber lá também uma demons­tra­ção da lei interna contra a escrita. O samaritano permanecia em contraste com o sacerdote e o levita porque em sua simples obediência à “justiça de Deus”, ele envergonha os expositores profissionais do Mosaísmo. É em nome de si mesmo e seus “pequeninos”, então, que Jesus “se alegra com o Espírito Santo”, quando agradece ao “Senhor do céu e da terra”, de que o escriba não tem o monopólio do conhecimento de Deus. O título de “Senhor do céu e da terra” é escolhido, como Amós tinha escolhido títulos equivalentes (Am. 9:5, 6), em protesto contra a camarilha de eclesiásticos que se imaginavam capazes de monopolizar o conhecimento do Infinito. Paulo delineia para nós essa suposta monopolização do “Senhor do céu e da terra”. Para Paulo, é claro que não apenas o escriba, mas o judeu em geral, em contraste com os gentios ignorantes, que...:
                             
Descansam na lei e nas glórias em Deus, tendo o conhecimento de sua vontade, discriminando em assuntos de casuística, sendo instruído a partir da lei, certo de que ele mesmo é um guia de cego, uma luz deles que está na escuridão, um instrutor da tolice, um professor de “crianças”, tendo na lei o padrão de conhecimento e da verdade.

Mas, as expressões de Paulo pertencem a uma época em que a questão sobre a herança do Reino havia se ampliado. A exultação de Jesus é a declaração de independência do velho espírito profético há tanto tempo escravizado. É uma reafirmação dos direitos da espiritual­mente deserdada de Israel. Paulo é o herói dos gentios, que sem a lei, são uma lei para si mesmos. Ambos descansam, finalmente, sobre a mesma base. Em ambos os casos, o apelo é para o despertar do Espírito de adoção que testifica com o nosso espírito de que somos nascidos de Deus, ensinando-nos a clamar, Abba, Pai.

A Relação do Dito com Marcos 4:11
Com este reconhecimento da produção da parte mais tardia do nosso logion, deve-se seguir um reconhecimento de certas afinidades insuspeitas até então. Na superfície, há pouco para indicar a afinidade desse dito com aquele atri­bu­ído a Jesus em Mc. 4:11, onde lemos: “A vós outros vos é dado conhecer o mistério do reino de Deus; mas aos de fora, tudo se ensina por meio de parábolas.”
Acreditamos que este dito marcano, no entanto, é uma verdadeira variante do nosso logion. Nosso segundo evangelista é notavelmente livre em suas citações da logia, adaptando-as aos seus próprios fins, e muitas vezes, como em Mc. 1:15, dando-lhes uma tintura através de fraseologia paulina.
O uso aqui do termo paulino “mistério” para a “revelação” e a adaptação do logion para uma teoria do ensino por meio de parábolas, que é, obviamente, uma criação do evangelista, mas também com base em Paulo,[16] obscureceu a relação. Não obstante, Clemente de Alexan­dria felizmente preservou para nós, a partir de um evangelho desconhecido, uma ligação central. Em seu Stromata, v. 10, 69, ele declara que foi encontrado “em certo evangelho” o dito: “meu mistério pertence a mim e aos filhos de minha casa”.
Nas Homilias Clementinas 19.20, o mesmo logion é citado em uma forma lembrando-nos do espírito exclusivo de Mt. 7:6, “Guardai os mistérios para mim e para os filhos (υἱός) da minha família”. Nesse ágrafo, estamos manifesta­mente lidando com o mesmo logion que aparece em Mc. 4:11 numa forma adaptada para a teoria do método parabólico de Marcos. A reserva do “meu mistério” é um ponto inconfundível de conexão com o Marcos, mas a limitação na segunda metade do ágrafo, “para mim e os filhos de minha casa”, como a antítese de “forasteiros”, mostra igualmente a estreita ligação com o nosso logion, indicando que Marcos apenas a adaptou, a exemplo de Paulo, para a questão mais ampla de seu próprio tempo, e incorporou isso no mesmo protesto sobre a semente espiritual de Abraão contra as pretensões judaicas. Marcos abriu o caminho para essa adaptação, introduzindo-a imedi­a­ta­mente antes do ensino em parábolas, e entre ele e a escolha dos Doze, o dito em que Jesus declara que estes são os “filhos de sua casa”:

E, correndo o olhar pelos que estavam assentados ao redor, disse: Eis minha mãe e meus irmãos. Portanto, qualquer que fizer a vontade de Deus, esse é meu irmão, irmã e mãe.

É uma questão de pouca importância que o nosso segundo evangelho, em flagrante contraste com os outros dois sinóticos, excluía inteiramente a grande exposição do ensinamento de Jesus entregue às massas, o Sermão da Montanha, e no ponto correspondente apresente uma libertação do “mistério do reino de Deus” para o círculo íntimo de parentesco espiritual de Jesus, enquanto que “para aqueles que estão de fora, todas as coisas são feitas em enigmas.” Confundiríamos muito a intenção desse mais democrático de todos os evangelistas, se concebêssemos que ele está sugerindo uma nova aristocracia espiritual, com os apóstolos como administradores do “mistério”. Devemos entender o círculo interno da forma como ele o define (Mc. 3:31-35). O “mistério” é dado ao crente e obediente (cf. Jo. 7:3-5,17 com Mc. 3:31-35); a pregação ao povo judeu, em geral, é para ele uma mera “semeadura sobre os espinhos.”[17]
Por outro lado, Marcos não deixa totalmente de justificar sua teoria drástica da ocultação da revelação dos judeus incrédulos “forasteiros” a quem ele se recusa a chamar de “sábios e entendidos”.
No final de sua discussão parentética da razão para o ensinamento de Jesus em parábolas, ele volta ao dito do qual havia se desviado e disse: “Quem tem ouvidos para ouvir, ouça” (Mc. 4:9 e 23), e introduz outro logion[18] para qualificar a dureza aparente de sua doutrina, pois ele (o mistério), não é escondido, exceto para que se torne conhecido, nem foi ocultado, exceto para venha à luz.
Na verdade, este parágrafo inteiro, Mc. 4:21-25, a partir da comparação da lâmpada que “vem”, não para ser escondida, mas para ser exibida,[19] e terminando com o aviso para a não receptividade da qual serão privados de sua prerrogativa, só pode ser apreciada quando se lê com referência a esta grande questão do século, entre o particularismo judaico e o universalismo cristão.
Seja qual for o sentido original, para Marcos, a parábola do solo bom e ruim e os ditos anexados constituem um protesto contra as reivindicações judaicas de monopolizar o conhecimento de Deus e a esperança messi­â­nica.
Há pouca dúvida em vista dessas várias linhas de conexão, de que o nosso segundo evangelista (Romano), em sua seção sobre a escolha e treinamento dos Doze, que se estende de Mc. 3:7 a 13, adaptou nosso logion sobre a Ocultação da Revelação aos sábios e entendidos e a entrega dela aos pequeninos, para o caso especial do endu­reci­mento de Israel, o caso tão vividamente trazido para o primeiro plano na grande epístola de Paulo aos Romanos.
Felizmente, temos em 1 Co. 1:18-31 e, especialmente com base isaiana comum, Is. 29:9-24, um padrão para medir o grau de afastamento do sentido original. Como um guia para a ocasião original do enunciado, a colocação de Marcos tem pouco valor. É verdade que Mateus também coloca na mesma relação com as parábolas um dito que Lucas une ao nosso logion como parte da congratulação dirigida “aos discípulos em particular”:

Bem-aventurados os olhos que veem o que vós vedes. Pois eu vos digo que muitos profetas e reis (Mat. “homens justos”) desejaram ver o que vós vedes e não o viram, e ouvir o que ouvis e não ouviram.

Em Mt. 13:16-17 este enunciado é separado do logion sobre a Ocultação da Revelação anexada a digressão marcana nas parábolas como a Ocultação do Mistério. Isso ilustra o dito, “quem tem ouvidos, ouça” (Mt. 13:9, Mc. 4:9). Mas esse deslocamento é quase certamente devido à influência de Marcos. Provavelmente, então, o conteúdo completo do dito, uma vez que estava na fonte comum de Mateus e Lucas (Q), foi dado em Lc. 10:21-24, que nós damos mais uma vez na reconstrução de Harnack:

Naquela ocasião, ele disse: Graças te dou, ó Pai, Senhor do céu e da terra, que tu ocultaste essas coisas aos sábios e entendidos, e revelastes aos pequeninos. Sim, ó Pai, porque assim foi do teu agrado. Todas as coisas (assuntos de revelação) foram entregues a mim pelo Pai, e ninguém reconheceu (εγνω) [o filho senão o Pai, ninguém tem reconhecido] o Pai senão o Filho e aquele a quem o Filho o quiser dar a revelação. Bem-aventurados os vossos olhos, porque veem, e [seus] ouvidos, porque ouvem; [em verdade] eu vos digo, muitos profetas [e reis] desejaram ver o que vós vedes e não o viram, e ouvir o que vós ouvis, e não ouviram.

A nossa discussão anterior sobre o contexto em Q indicou uma tendência já visível mesmo nessa compilação primitiva para aplicar o dito à questão mais ampla entre judeus e gentios.

Conhecer e Ser Conhecido por Deus
Aquilo que interessa, principalmente ao estudante moderno, neste chamado dito “joanino”, é sua relação com a consciência messiânica de Jesus, e é altamente significativo que todas as semelhanças da passagem, seja no Antigo Testamento, ou no Novo, tornam-na um protesto contra a deserdação espiritual das pessoas comuns nas mãos do religioso profissional. À luz dessa circunstância, é impossível supor que Jesus está falando ou de uma “revelação”, ou de uma “filiação”, que é sua em um sentido exclusivo. Ele fala de si mesmo simplesmente como o líder e herói das pessoas que não têm direito à filiação, mas a ética, cuja única pretensão de ser “filhos do Pai que está nos céus” e “filhos do Altíssimo” repousa sobre a exposição deles daquele espírito divino de ilimitada e altruísta bondade, que “é bom até mesmo para com os ingratos e maus” (Mt. 5:43-48, Lc. 6:27-36), que “conhece a vontade”, como o bom samaritano conhecia. Mas, era a antiga prerrogativa de Israel, como um povo considerado “filho amado” de Deus, “o primeiro nascido e unigênito” e que Deus havia dito “das outras nações que também vêm de Adão, que são nada,” e tinha os comparado a uma gota que cai a partir de um vaso”.[20] De acordo com os rabinos, a evidência da prerrogativa especial de Israel era que Israel tinha “conhecimento da lei”.[21] A quem entre a humanidade, de fato, o Criador destina a herdar o Seu mundo, se não aqueles a quem fez a Revelação de como e por que Ele a criou,[22] e de como quer que os homens devam viver nele?
Não é de se admirar se, aos olhos dos escribas e fariseus, o povo da terra, que “não conhecia a lei”, e não se presta a orientação dos seus expositores oficiais, eram “amaldiçoados” e indignos de qualquer “participação no mundo por vir.” O privilégio dos “publicanos e pecadores” só poderia ser o que Paulo mais tarde havia atribuído aos “pecadores dentre os gentios,” e não “uma justiça própria, mesmo aquela da lei”, mas o direito de ‘tornar-se imitado­res de Deus como filhos amados e andando em amor, como Cristo os amou e se entregou por eles’ (Ef. 5:1).
Aqui ninguém pensa em escrever com letra maiúscula, porque o sentido é, obviamente, “qualquer um que é filho”. O quarto evangelista está reproduzindo Gl. 4:30, e só temos de recorrer a essa passagem para encontrar Paulo usando ambos os elementos do dito sobre conhecer a Deus e ser conhecido (reconhecido, reconhecido como um filho) de Deus, e, em seguida, um pouco mais adiante, referindo-se à lei como um “jugo de escravidão.” Se, além disso, encontramos esse uso do termo “filho” para ser justificado pela aplicação judaica contemporânea dessas ideias com­ple­menta­res de conhecer a Deus e ser conhecido dEle, parecerá que tal é certamente a intenção do próprio logion, o que quer que os evangelistas tardios possam ter feito dele.
Se aceitarmos a forma mateana de Fuller, que também é a de Lucas em todas as formas do texto, exceto no Códex Vercellensis,[23] a combinação dos ditos recíprocos é acom­pa­nhada por Paulo em sua própria reivindicação da filiação e herdeiros dos “pecadores dentre os gentios” sem o “jugo da escravidão”. A disposição de seus gálatas conversos em assumir o jugo mosaico das ordenanças é recebida com uma apelação apaixonada para lembrar o Espírito de ado­ção que tinham recebido:

...porque sois filhos, enviou Deus ao nosso coração o Espírito de seu Filho, que clama, Aba, Pai! De sorte que não és escravo, porém filho; e, sendo filho, também herdeiro por Deus. ...mas agora que conheceis a Deus ou, antes, sendo conhecido (reconhecido, reconhecidos como filhos) por Deus, como estais voltando, outra vez, aos rudimentos fracos e pobres, aos quais, de novo, quereis ainda escravizar-vos?

Podemos deixar a questão por resolver, se é Paulo que deu o exemplo dessa antítese ao nosso canônico Mateus, ou o logion que o sugere para Paulo. A decisão irá depender da solução do problema do texto. Mais importante do que a questão de saber se o dito sobre Ser Conhecido (ou seja, reconhecido, reconhecido como um filho) por Deus, era ou não era originalmente ligado com o que está no Conhecimento de Deus, é a questão do significado que o primeiro dito tencionava transmitir. Qual foi aplicação atual da expressão “ser conhecido (γνωθηναι) por Deus”?
Sobre esse ponto, temos o testemunho de uma coleção da logia ainda mais antiga, aparentemente, do que a mencionada por Papias. As Epístolas Pastorais, atribuídas a Paulo, e em algumas partes reconhecidamente paulinas, fazem referência repetida a “ditos fiéis”, e especialmente “as sãs palavras (λoγoι), mesmo as palavras de nosso Senhor Jesus Cristo”, como o padrão de doutrina (1 Tm. 6:3). Entre as palavras citadas dessas epístolas estão duas que, juntas, são ditas como constituindo o “selo” da fundação de Deus, a Igreja,...

O Senhor reconheceu (εγνω) aqueles que são seus, e que todos que proferem o nome do Senhor desviem-se da iniquidade (2 Tim. 2:19, cf. Mat. 7:21-23).

O contexto mostra que o escritor tem em mente os mesmos princípios complementares como são ilustrados na parábola da grande ceia com seu apêndice mateano do convidado desprovido da roupa de casamento.[24] O edifício espiritual de Deus tem esta base dupla: De um lado, sem nenhuma exclusão daqueles a quem o próprio Deus aprova, “tantos quanto são guiados pelo Espírito de Deus são filhos”; por outro lado, nenhuma inclusão dos moralmente reprovados, “pelos seus frutos os conhecereis.” Porque...

Como ele próprio disse: Habitarei e andarei entre eles; serei o seu Deus, e eles serão o meu povo.
Por isso, retirai-vos do meio deles, separai-vos, diz o Senhor; não toqueis em coisas impuras; e eu vos receberei.
Serei vosso Pai, e vós sereis para mim filhos e filhas, diz o Senhor Todo-Poderoso.
(2 Coríntios 6:16-18)

Estes princípios complementares do paulinismo mais antigo estão consagrados no “selo” do “fundamento de Deus”, que acabamos de citar. Os exemplos anteriores dos escritos paulinos, que mostram qual foi o tratamento primitivo dos princípios complementares de “conhecer” e “ser conhecido” por Deus, devem ser o nosso guia para o sentido histórico do logion ou logia, de Mt. 11:25-27, 13:16-17 = Lc. 10:21-24. Para a controvérsia dos escribas, de que ninguém pode pretender ser um filho se não “conhece” o Deus a quem reivindica como seu Pai, e que não tem a revelação de Sua vontade (Rm. 2:18), a resposta é dada por Jesus em palavras que repousam sobre Is. 29:14, que os pequeninos, a quem acolhe como seu irmão, irmã e mãe, porque ouvem a vontade de Deus e executam-na, têm um melhor e mais completo “conhecimento” do que “os sábios e entendidos”.
Essa é a boa vontade (εὐδοκία) do “Senhor do céu e da terra” e cabe a nós ficarmos felizes e nos alegrarmos de que o conhecimento mais profundo de Deus não é intelectual, mas moralmente condicionado. Aqueles que ‘conhecem a sua vontade’ percebem e imitam Seu espírito de irrestrita e universal bondade, “mesmo para com os ingratos e maus.” Esses, e não os escribas, nem sacerdotes e levitas, guardas e intérpretes oficiais da lei, são os que estão qualificados em “fazer a revelação” para os outros, tanto quanto o farão.
Jesus exprime isso na significante e epigráfica frase tão característica dele:

...é o filho que é competente em dar a revelação do Pai, mas esse conhecimento não é do sábio e entendido, é dado para aqueles que são simples de coração como bebês.

Relação do Dito das Chaves do Reino
em Mt. 16:19
Visto que a ideia complementar de ser conhecido de Deus não é, certamente, encontrada em ambos os evangelhos, não podemos ter certeza de que não é um reflexo daquela grande experiência da igreja da qual Paulo tem nos dado o termo “o testemunho do Espírito de adoção”.
Dos lábios estranhos de pessoas que oraram, conforme o Espírito lhes concedia que falassem, Paulo reduz o clamor “Abba, Abba”,[25] apelando para ele como um testemunho sobre-humano de que, através da fé, somos feitos filhos e herdeiros de Deus. Apenas isso precisa ser conhecido, caso surgisse disputa do direito dos gentios para serem contados como herdeiros da promessa. Receberam eles o Espírito? Se Deus já reconheceu como filho, quem se atreve a disputar o título? Neste sentido do reconhecimento, o princípio foi admitido como decisivo em todos os ramos da igreja. Desde o Pentecostes, que tinha sido um “selo da fundação”, pois “o Senhor reconhece os que são seus”. Mas, a primeira luta contra o espírito judaico de exclu­sividade foi antes do Pentecostes. Para Jesus, também, a própria essência de Sua missão tinha sido quebrar as barreiras artificiais que haviam excluído os publicanos e pecadores da herança dos filhos e resistir à prerrogativa usurpada ao “poder das chaves”.
Os escribas reivindicavam autoridade para “atar e desatar”. Em virtude da ocupação do assento de Moisés, eles possuíam “a chave do conhecimento”, e usavam-na para impedir a entrada das massas arrependidas no Reino. Embora preservadas em formas tardias e variantes, a expressão atribuída a Jesus que concede esse poder usurpado das chaves a fraternidade dos Seus discípulos, ou ao líder e representante, é um verdadeiro eco da Sua luta pela causa do povo, e o paralelo semelhante ao dito, “o Senhor reconhece os que são seus”, deve ser encontrado em Mt. 18:18:

Em verdade vos digo que tudo que ligares na terra terá sido ligado nos céus, e tudo que o que desligares na terra terá sido desligado nos céus.

E em Mt. 16:17-19 temos:

Sobre esta pedra edificarei a minha igreja... . Dar-te-ei (Pedro) as chaves do reino dos céus; o que ligares na terra terá sido ligado nos céus; e o que ligares na terra terá sido ligado nos céus.

Essas palavras relatadas de Jesus, antes que fossem pervertidas em decretos de um novo despotismo eclesiástico, eram elas mesmas a declaração da liberdade e da independência do “pequeno rebanho”. Em vez de fazer com que os pequeninos fossem excluídos da sinagoga por aqueles que possuíam as chaves, reivindicando o poder de atar e desatar, fazendo do filho ou filha de Abraão que re­sis­tiu a sua tirania “como gentio e publicano”, Aquele que tem a chave de Davi restaurou-a para si mesmo. A chave do conhecimento, a chave de autoridade, a chave de admis­são ou exclusão, as chaves do reino dos céus são dadas para a própria igreja, ou para igreja, na pessoa de Pedro como seu líder. A igreja repetiu, apenas com o nome de Pedro, a mesma tirania dos velhos tempos dos escribas! Esses vários apelos para a frase de Jesus desse tipo mostram que Ele foi entendido como tendo protestado contra a usurpação desse poder dos escribas, e que as referências nos escritos paulinos a Deus como o único reconhecedor de Seus próprios filhos têm uma base autêntica. Mesmo que a referência do filho sendo conhecido do Pai fosse conside­rada emprestada de Paulo, ainda assim o próprio Jesus tinha, em substância, a estabelecido como um “selo da fundação de Deus” de que, não o homem, mas a Senhor reconhece os que são Seus.
Na verdade, a comissão de Pedro em Mt. 16:17-19, com sua referência significativa para “as portas do inferno”, que tinham sido fechadas sobre o líder crucifi­cado, está intimamente relacionada com a comissão de “Pedro e os doze”, que constitui o elemento central em todas as formas da história da Ressurreição. Deus deu Jesus com o objetivo de se fazer manifesto a eles, a fim de que o perdão dos pecados através do arrependimento e da fé em Seu nome pudesse ser pregado a todas as nações, come­çando por Jerusalém (Lc. 24:47-49). A autoridade da Sua comissão é a autoridade para “soltar” os pecados. Seu símbolo é o batismo. Seu selo é o Espírito derramado. Cf. Mt. 28:18, 19; Jo. 20:21-23.

Criação do Dito sobre a Consciência
Messiânica de Jesus
Entretanto, nós estamos mais preocupados com aquela porção do logion que é, sem dúvidas, atestada tanto por Mateus como por Lucas, que sustenta a reivindicação de que as “crianças” têm o verdadeiro conhecimento de Deus, sem o qual ninguém pode ser considerado filho de Deus.
Aqui, mais do que qualquer lugar, se pode descobrir o segredo da consciência messiânica de Jesus. O título “Filho do homem”, que tem sido chamado de sua “autodesignação favorita” e à qual muitos se voltam como a principal fonte de conhecimento de primeira mão sobre esse ponto vital, é duplamente aberto a questão. Por razões filológicas, é duvidoso se a frase poderia ter existência no aramaico falado por Jesus. Se existisse, essa mesma existência era devido a conotações mais externas para a qualidade sã e bem equilibrada do caráter e os ensinamentos de Jesus. A concepção fundamental da Sua vocação não é apocalíptica, e não aparece nos ditos escatológicos, mas sim no Sermão da Montanha. As noções apocalípticas de Sua missão e destino podem facilmente ter sido sobrepostas sobre a Sua concepção na atmosfera superaquecida da igreja primitiva, enquanto que o contrário é inconcebível. Jesus não era um visionário. A figura danílica se agiganta com a visão dos profetas e videntes da pós-ressurreição, mas não na mente horizontal e espiritual do carpinteiro de Nazaré, muito menos em oferecer uma carreira para si mesmo. A frase que é real e comprovadamente característica dEle, o título que nos documentos mais antigos do Cristianismo é universalmente difundido, contra quase nenhuma uma única ocorrência do termo “Filho do homem”, é o de “Filho de Deus.” Em todo o caso, podemos dizer que tão certo quanto a concepção de Êxodo e Oseias de que Israel é filho de Deus (para não dizer nada da ideia não etnizada semita comum) é antecedente à figura apocalíptica de Daniel, Enoque, e 2 Esdras, assim como tão certamente é a concepção de filiação com Deus na mente de Jesus antecedente daquela de Filho do homem, quaisquer que tenham sido os sonhos apocalípticos para os quais Ele se voltou sob a crescente certeza de martírio. É verdade que mal notamos esse título humilde de “filho de Deus”, exceto quando os tradutores ajudam a nossa visão com uma letra maiúscula, ou quando, de alguma forma, o seu sentido ético simples é transcendido, mas o que realmente diz respeito a Jesus e Paulo é “a herança dos filhos”, pela qual ambos significam “filhos do Altíssimo”, “filhos e filhas do Senhor Todo-Poderoso”.[26]
Também, é verdade que um evangelho romano, reconhecidamente da segunda geração, dá algo mais do que um sentido ético para essa designação de “filho de Deus”, que em nosso logion Jesus aplicou a Si mesmo apenas como representante, líder e herói, cuja filiação precisou ser vindicada. Em Marcos, o título “Filho de Deus” já tem um sentido especial e peculiar aliado à metafísica paulina. O resultado desse processo de transcendentalização apo­calíptica aparece na visão da Transfiguração, um apocalipse típico, em que o dispositivo rabínico do banh qol, ou voz do céu, é empregado para expor juntamente com o imaginário característico desse tipo de literatura paulina do autor, ou Cristologia quase Paulina. Para o autor dessa visão-história, o verdadeiro ser de Jesus foi revelado quando os olhos de Seus amigos íntimos tinham sido iluminados para rasgar o véu de sua carne e contemplar o Filho de Deus, não no sentido ético, mas apocalíptico, até mesmo o Amado, de glória pré-existente. O mesmo ins­trumento da voz do céu e a mesma fraseologia são empregados na narrativa preliminar que Marcos prefixa ao seu evangelho. Sua doutrina de Jesus, o Filho preexistente de Deus, é inteligível para nós e era aceitável para os seus próprios e as gerações posteriores.
O Evangelho de Marcos tornou-se o próprio quadro da tradição evangélica. Apesar disso, se olharmos para as referências à filiação divina que permeiam essa outra fonte, que quase todos os críticos admitem ser uma autoridade maior e melhor, vamos encontrar o termo “filho de Deus” tendo um sentido bem diferente. Jesus ainda é o “filho”, mas apenas como “o primogênito de muitos irmãos”. Esse sentimento é tão pouco “teocrático” como é metafísico. É histórico, ético e religioso. Ele encontra suas afiliações não com a metafísica bruta do evangelho romano, nem com as especulações mais profundas e mais sutis de Éfeso, mas no assunto familiar de disputa nas epístolas paulinas, na demanda para a admissão à herança abraâmica de quem tem nenhum título nos termos da lei, a questão de saber se o nosso clamor inspirado de Abba, Pai, é ou não é, sério e suficiente de nossa filiação. Acima de tudo, ele encontra a sua confirmação no contexto comum da interpretação judaica atual da esperança messiânica.

A Esperança Messiânica dos Profetas
aos Fariseus
É um equívoco absoluto dessa expectativa nacional em sua origem considerá-la como tendo a ver, acima de tudo, com a realeza. A passagem que nos tempos modernos é comumente tomada como sua própria base, a promessa a Davi de um sucessor para o trono,[27] dificilmente encontra um eco em todo o Novo Testamento. Na realidade, a esperança é muito mais antiga, muito mais ampla, muito mais fundamental. Não é nenhum sucessor de Davi principalmente, mas Israel em si, que é o filho de Deus. A passagem base é Êx. 4:22, 23, onde lemos:

Então dirás a Faraó: Assim diz o Senhor: Israel é meu filho, meu primogênito. Digo-te, pois: deixa ir meu filho, para que me sirva; mas se recusares deixá-lo ir; eis que eu matarei o teu filho, o teu primogênito.

Deus primeiro adotou seu povo:

Quando Israel era menino, eu o amei, e do Egito chamei a meu filho. (Os. 11:1).

Se, nos últimos tempos, Ele tornou-se um Pai para o rei deles, isso foi para o bem do povo. O professor F.C. Porter nos lembrou muito bem que os profetas não representam a si mesmos como criadores, mas, como críticos da esperança messiânica. A esperança em si era tão antiga quanto Israel. Ela participou de sua primeira forma pura da concepção semita comum da divindade de uma terra como progenitora da sua população.
Javé, porém, ao contrário das divindades vizinhas, não tinha gerado Israel, mas “adotado”, quando ainda era um escravo no Egito. Isso criou a relação ética e espiritual.[28] “Apenas vós tenho conhecido (reconhecido)”, é a palavra de Javé através de Amós, mas esse reconhecimento foi de livre escolha do “Senhor do céu e da terra” que dirige todas as nações e rege sobre elas pela lei da justiça. Amós se tornou o primeiro grande crítico dessa esperança nacional, submetendo-a a condições éticas. Ele etnizou a doutrina da eleição.
No tempo de Jesus, a esperança messiânica, apesar de todas as suas transformações e aperfeiçoamentos, não perdeu, de forma alguma, seu significado fundamental. As experiências da monarquia tinham cristalizado em torno da figura teocrática do filho de Davi as experiências de desintegração nacional e a mistura com o mundo tinha vestido essa figura com atributos mitológicos e ampliado o programa de sua atividade. Acima de tudo, a vida sob a lei não modificou profundamente a concepção de suas con­dições. Mas, mesmo no tempo de Jesus, a esperança messiânica permaneceu fundamentalmente o que sempre tinha sido. Israel é filho e herdeiro de Deus, Israel deve possuir a terra de Deus, que é o mundo. A destruição de Jerusalém por Tito só provoca gemido em um patriota e clamor em um crente:

Ó Senhor, disseste que por nossa causa fizeste neste mundo... . E agora, ó Senhor, olha para estas nações que são reputados como nada, sendo senhores sobre nós e nos devorando. Mas nós, o teu povo, que chamas de primogênito, teu unigênito e teu amante (amado?) fervoroso, são dados nas mãos deles. Se o mundo agora for feito por nós, por que não possuímos por herança nosso mundo? Quanto tempo deve durar isso?
(2 Esdras. 6 56-59).

Muitas eram as formas sob as quais a antiga crença na adoção e a herança sobreviveu, a partir do clamor dos Zealotes pela hegemonia nacional até a demonstração acadêmica do filósofo de que o homem verdadeiramente sábio é o “herdeiro das coisas que pertencem a Deus”.[29] Desses muitos desenvolvimentos, estamos preocupados com apenas um, o religioso. O Farisaísmo tinha se retirado do movimento nacionalista contra a helenização forçada de Antíoco Epifânio, tão logo esse movimento degenerou-se em uma mera luta pelo autoengrandecimento por parte dos sucessores de Simão, o Macabeu. Os fariseus se tornaram os puritanos do primeiro século a.C., eliminando a ambição mundana do programa messiânico. O chamado de Israel era para ser o povo da lei.
A justiça, “até mesmo aquela que é da lei”, era para ser sua obra e ambição no mundo. Sua recompensa era estar em um novo céu e uma nova terra, onde habita a justiça. Esse foi o movimento mais profundo e frutífero dos tempos no seio de um povo cujo gênio nunca tinha sido religioso. Sua mais pura expressão aparece no chamado Salmos dos Fariseus, mais próximo do sentimento de todos os escritos não canônicos aos cânticos de Lucas.
No verdadeiro farisaísmo, do tipo que produziu os mais nobres e maiores dos seguidores de Jesus, a filiação no sentido religioso tornou-se a essência da esperança mes­siânica e a verdadeira prerrogativa de Israel. Pois, ser o filho de Deus por conhecer e fazer a Sua vontade é o ideal do fariseu para o seu povo. O Cristo, quando vier, “deve tomar conhecimento deles que todos eles serão os filhos de seu Deus.” (Sal. de Salom. 17:30). Em muitas gerações mais tardias, nós temos o mesmo ideal na mesma frase­ologia do filho de Sirach.
O Grande Arrependimento de Mal. 4:6 tornou-se aqui uma volta em reconciliação mútua, não de meras famílias terrenas, mas “do Pai (Deus) com o filho (Israel), e do Filho para o Pai”, restaurando, assim, as tribos de Israel (Eccl. 48:10). Um século mais tarde do que o Sirach, o autor de Sabedoria de Salomão delineia “o homem justo”, em traços que reconhecem nenhuma limitação étnica, mas tem, na realidade, Israel – o Israel farisaico – a se encaixar na descrição.

Cerquemos o justo, porque ele nos incomoda; é contrário às nossas ações; ele nos censura por violar a lei e nos acusa de contrariar a nossa educação. Ele se gaba de conhecer a Deus, e se chama a si mesmo filho do Senhor! Sua existência é uma censura às nossas ideias; basta sua vista para nos importunar. Sua vida, com efeito, não se parece com as outras, e os seus caminhos são muito diferentes. Ele nos tem por uma moeda de mau quilate, e afasta-se de nossos caminhos como de manchas. Julga feliz a morte do justo, e gloria-se de ter Deus por pai. Vejamos, pois, se suas palavras são verdadeiras, e experimentemos o que acontecerá quando da sua morte, porque, se o justo é filho de Deus, Deus o defenderá, e o tirará das mãos dos seus adversários. (Sab. de Salom. 2:12-18)

Um anterior contemporâneo da mesma escola de Alexandria afirma como testemunho dos sábios sacerdotes egípcios que os judeus...

...são homens de Deus, nome que não pertence aos outros, mas apenas para quem adora o verdadeiro Deus. Pois esses outros são homens de comida, bebida e vestuário, uma vez que todo o seu pensamento é levado para essas coisas. Mas, aqueles que são da nossa fé, não dão ouvidos a essas coisas, mas em toda a sua longa vida estão preocupados com a busca das obras de Deus. (Aristeu 140, ca. 90 a.C.)

Esses escritores judeus de Alexandria do século I a.C. parecem, de fato, não estar “longe do reino de Deus”, com o seu ideal de destino e prerrogativa de Israel. Mas, temos que descer para o escrito de um fariseu palestino quase contemporâneo com o próprio Jesus para uma maior aproximação do Sermão da Montanha, em uma expressão da esperança messiânica. Ele espera por nada menos do que o derramamento de um espírito de justiça, o Espírito de Deus que, comunicando a Sua natureza, faz com que Israel, de fato, Seu filho assim exaltado, como nos escritos paulinos, esteja “sobre todos os anjos e espíritos”.

E Moisés prostrou-se com rosto ao chão orou e disse: O Senhor meu Deus, não abandone seu povo e sua herança de modo que eles andem no erro de seus corações, e não os entregue nas mãos dos seus inimigos, os Gentios, para que estes os governem e os façam pecar contra ti. Permita que tua misericórdia alcance teu povo, e crie neles um espírito justo, e não permita que o espírito de Beliar os governe para os acusar diante  de ti, e desviá-los de todos os caminhos da justiça, de modo que eles pereçam diante de tua face. Mas eles são teu povo e tua herança, os quais tu tiraste, com grande poder, das mãos dos egípcios. “Crie neles um coração limpo e um espírito santo e não permita que eles sejam enredados em seus pecados de agora até a eternidade.” E o Senhor disse a Moisés: “Eu conheço a obstinação deles e os seus pensamentos e sua teimosia. Eles não serão obedientes até que confessem seus próprios pecados e os pecados de seus pais. E depois disso, eles se tornarão a mim em toda a justiça e com todo o coração e com toda alma, e eu circuncidarei o prepúcio do coração deles e o prepúcio do coração de seus descendentes. Eu criarei neles um espírito santo e os purificarei de modo que eles não devem se afastar de mim daquele dia até a eternidade. E as almas deles se unirão a minha e aos meus mandamentos, e eles cumprirão os meus mandamentos, e eu serei o Pai deles e eles serão meus filhos. E eles serão chamados filhos do Deus vivo. E cada anjo e cada espírito deverá saber, sim, eles deverão saber que eles são meus filhos, e que Eu sou o Pai deles em retidão e justiça e que Eu os amo. 
(Jubileus 1:19-25)

É um puritanismo deste tipo nobre que é representado em sua degeneração pelo sistema-sinagoga de escriba e fariseu no tempo de Jesus. Após a queda da reação dos Macabeus contra o fanatismo nacionalista dos Zelotes, de um lado, e do mundanismo dos saduceus, do outro, havia voltado o espírito religioso sobre a ortodoxia da lei escrita. O fariseu tornou-se um seguidor cego do escriba, o seu guia de cego. A insistência na letra da lei deificada, cujo ideal era a separação do impuro,[30] levou a exclusividade a um grau inigualável até mesmo pelo puritanismo da Escócia ou da Nova Inglaterra.
Para o “povo da terra”, os “publicanos e pecadores”, o camponês comum, ou pescador, ou artesão galileu meio-pagão, o ideal mosaico de separação era totalmente inviável, suas prescrições eram “um jugo que nem nossos pais puderam suportar, nem nós” (At. 15:10), as interpretações dos escribas de suas exigências eram “fardos pesados ​​e difíceis de suportar que eles mesmos não to­cavam com seus dedos”. O pobre homem, o analfabeto, o artesão comum e o pai de família viam-se sob esta tirania odiosa e hipócrita, gradualmente excluídos de compartilhar o mundo vindouro.
Ele também era filho de Abraão, mas por decreto dos escribas, viu-se privado de sua herança de Abraão em favor do pequeno círculo dos fariseus (os “separados”), cuja justiça legalista era muitas vezes mercenária e externa. Havia apenas duas classes, a chaberim, ou devotos consistentes da lei, uma casta religiosa que se ​​retirava do contato profano, até mesmo de seus parentes e cor­religionários de menos rigorosa observância, e os am ha-aretz, os excluídos que não tinham “parte do mundo por vir.”
O centro religioso de importância não pode permanentemente oscilar esse extremo social. A reação, quando veio, foi correspondentemente completa e pro­funda. João Batista e Jesus reviveram o antigo espírito profético da democracia religiosa. Eles lideraram uma rebelião do israelita simples contra a usurpação da herança de Abraão pelos escribas e fariseus. Como outro Elias, João levou a um “grande arrependimento”,[31] o sinal que era o novo rito do batismo, autoevidente em significado, des­conhecido para a prescrição legal. Os publicanos e os pecadores se reuniram com ele, os escribas e fariseus permaneceram indiferentes. Seu martírio não poderia restringir o movimento. No carpinteiro de Nazaré, ele encontrou um novo e maior líder, que buscou as ovelhas perdidas da casa de Israel, na Galileia, e defendeu o filho perdido contra o irmão mais velho de má vontade.
Aos seus seguidores pescadores, ele ensinou a lançar as redes para os andarilhos espalhados do reino.[32] Como um administrador para um órfão defraudado de sua herança, Jesus exigiu restauração para os “pequeninos” de sua parte legítima na herança espiritual de Israel. Ele insistiu sobre o conteúdo completo desta herança e sobre o que é de primordial importância, as espiritualidades, antes das tem­poralidades.
O conflito com o poder enraizado dos escribas e fariseus era uma guerra violenta. Desde os dias de João Batista – o Elias que devia vir como um “restaurador das tribos” para “admitir aqueles que tinham sido injustamente excluídos e excluir aqueles injustamente admitidos” a herança de Israel[33] – o reino dos céus havia sofrido violência e os homens estavam preparados para levá-lo à força. Jesus foi implacável em Sua injúria contra esta classe e essa apenas, e não se esqueceu de nos dizer o porquê. Disse-lhes que a lei e os profetas, como a carta de seu monopólio, podiam durar apenas “até João”. Ele previu (Mt. 23) que eles não iriam poupá-lo, e não o fizeram.
Foi sua defesa neste conflito que deu primeiro a Jesus o direito de ser chamado de Filho de Deus. Foi por causa de seu pequeno rebanho que Ele exigiu isso, e foi por eles que o defendeu com a própria vida. A filiação com Deus era o elemento vital daquela herança religiosa do qual o sistema-sinagoga, o legalismo do escriba e fariseu, procurou roubar o israelita simples pela sua usurpação da chave do conhecimento e sua pretensão de fazer a vontade do Pai. Por isso é que Jesus agradece ao Senhor infinito do céu e da terra, de que o conhecimento dEle não é monopólio do sábio e entendido, que não é o erudito da lei que O conhece, mas os pequeninos, as crianças; estes têm o espírito dos filhos da bondade, até mesmo para com os ingratos e os maus. Esse conhecimento, essa luz interior, Ele afirma ter em sua própria pessoa, a tradição, não das autoridades mortas, mas do Pai, e ele afirma que os que são qualificados para dar “revelação” são aqueles que são filhos neste sentido.
Um bom samaritano é um professor melhor do que um sacerdote ou levita egoísta e covarde. Mais do que isso, Jesus também contesta a usurpação dos escribas do poder de “ligar e desligar”, de admitir e excluir. Quem é o filho? João Batista havia dito, “Deus é capaz de destas pedras suscitar filhos a Abraão”, e os publicanos, assim como os pecadores, se arrependeram com as suas palavras. Ninguém negou o direito dos fariseus ao nome. Mas Jesus prometeu a salvação do publicano arrependido, “porquanto também este é filho de Abraão”. Qual tem o melhor título para a herança dos filhos de Deus? Jesus coloca a questão na forma de parábola dos dois filhos.

E que vos parece? Um homem tinha dois filhos. Chegando-se ao primeiro, disse: Filho, vai trabalhar hoje na vinha. Ele respondeu: Sim, senhor; porém não foi. Dirigindo-se ao segundo, falou-lhe a mesma coisa. Mas este respondeu-lhe: Não quero; depois, arrependido, foi. Qual dos dois fez a vontade do pai? Disseram eles: O segundo. Declarou-lhes Jesus: Em verdade vos digo que os publicanos e as meretrizes vos precedem no reino de Deus.
(Mateus 21:28-31)

Quando Paulo coloca isso como sinal de filiação, de que a pessoa deve ser “guiada pelo Espírito de Deus” (Rm. 8:14), ele está adaptando o antigo princípio da fundação da igreja, de que “o Senhor (pelo selo do Espírito) confessa os que são seus”, para o teste mais estritamente ético de Jesus, “todo aquele que faz a vontade de meu Pai, esse é meu irmão, irmã e mãe”. Em um escrito anterior, Ele enuncia o Seu princípio de uma forma mais primária. No paralelo de Gálatas com Rm. 8:15,[34] ele define o divino “reco­nhecimento” como sendo o ato de enviar aos nossos corações o Espírito de Seu Filho, nos ensinando como filhos o clamor Abba, Pai. Aquele que receber o Espírito Santo é um filho. De acordo com Jesus, “todo aquele que faz a vontade,” seja publicano, prostituta, ou samaritano, é “conhecido de Deus”, e “fazer a vontade” é exemplificado, não nos fariseus com o seu jugo de escravidão, mas naqueles cuja disposição interior é parecida com o Pai. Paulo não estava entre os primeiros, mas era um seguidor de Jesus, como dizia ser, na satisfação das pretensões de autoridade enraizadas e tradicionais pela autoevidenciação do testemunho do Espírito, o que torna louca a sabedoria dos sábios e dá a sua revelação às crianças. Por nenhum outro curso concebível era possível atender a autoridade dos escribas, pois, para eles, os conhecimentos de grau preeminente eram, de fato, o poder. A menos que Ele estivesse pronto a abandonar a causa dos deserdados “pequeninos”, cujo líder e herói tinha se tornado desde que João foi trancado na prisão, Jesus não tinha alternativa a não ser manter que “ninguém conhece o Pai, senão o Filho”. Em oposição à “violência” que fez da chave do conhecimento um instrumento para a exclusão do reino dos arrependidos “publicanos e as meretrizes”, enquanto nin­guém, exceto portadores submissos do jugo da lei, tal como interpretada por eles mesmos, foram reconhecidos como filhos, Jesus não tinha alternativa senão apelar para o ato de atar e desatar, para o que tem validade no céu. Este é o princípio implícito, se não diretamente expresso, no dito “ninguém sabe quem é o Filho (quem é um filho), senão o Pai”.

Desenvolvimento Tardio
Nossa fonte mais antiga e confiável tem este único caso em que Jesus parece reivindicar honras messiânicas para si mesmo. Nós concordamos que este pode muito bem ser chamado de “a passagem joanina”, pois constitui um ponto de partida para manifestar as interpretações teológicas posteriores e metafísicas do título “Filho de Deus” que atingem o seu ponto culminante no Quarto Evangelho. Mas, a metafísica não é de Jesus. Na passagem do Q, historicamente interpretada, não existe um traço disso. Não há sequer o sentido exclusivo em que o nosso segundo evangelista em dois ou três casos empregou o título. Jesus está simplesmente defendendo a causa dos deserdados filhos e filhas de Abraão, quando afirma que se alguém...

Professa ter conhecimento de Deus,
e se chama filho (παις) do Senhor,...
e se vangloria de que Deus é seu pai,

Ele deve ser “filho do Altíssimo” porque tem esse tipo de espírito que o Pai se manifesta. Ele continua o trabalho daquele que havia dito: “destas pedras Deus pode suscitar filhos a Abraão”, ao passo que o próprio João conscientemente continuou a mensagem de Amós, o profeta da eleição ética. Jesus fala simplesmente como líder, defensor e representante dos “pequeninos”, quando agradece ao “Senhor do céu e da terra” pela revelação que é “entregue” para aqueles que têm olhos para ver e ouvidos para ouvir, ainda que esteja “escondido aos sábios e entendidos”. Não há nenhuma pretensão nisso a uma dignidade sobrehumana, ou mesmo messiânica, de Sua pessoa, e a expressão não foi assim entendida por Seus ouvintes. No entanto, logi­camente que levaria a isso, caso o conflito com a oligarquia dos escribas e fariseus fosse mantida. E assim se deu.

Relação à Reivindicação de Messias
Um ponto fundamental da tradição petrina incorporada em nosso segundo evangelho (Mc. 8:29) é a apresentação de Jesus por Pedro, com o apoio dos onze discípulos, do título “o Cristo”. Isso foi durante uma pausa temporária no conflito. A grande colisão em Cafarnaum com “os escribas que tinham descido de Jerusalém” havia surgido na saída de Jesus da cena de sua popularidade inicial e na interrupção permanente de seu ensino público na Galileia.
Restava, além de Samaria, da qual Ele não sentiu a chamada para evangelizar, apenas Judeia além do Jordão e Jerusalém. Em direção a esses, voltou o rosto, tendo Jerusalém como Sua meta. As chances contra Ele e Seu pequeno rebanho seriam agora dobradas. Se Jesus propôs reivindicar para eles plenos direitos no templo, bem como na sinagoga, então teria que fazer um desafio à aliança da hierarquia sacerdotal com a oligarquia dos escribas já hostis.
Não é à toa que Jesus previu para si um destino como o de João. Mas, a consistência permitiu outra alternativa. Ele tinha, ou que abandonar a causa dos filhos deserdados, ou apresentar Suas reivindicações às portas do templo em si, protestar contra os abusos da camarilha dos sumo-sacer­dotes e exigir uma restauração do templo para os usos de uma casa de oração por todas as pessoas. Em que outro papel poderia se tornar um herói das ovelhas perdidas da casa de Israel, contra os pastores infieis que se serviram do rebanho, e não como o verdadeiro Pastor da visão de Ezequiel?

...suscitarei sobre elas um só pastor, e ele as apascentará; o meu servo Davi é que as apascentará, ele lhes servirá de pastor. Eu, o Senhor, serei príncipe no meio delas; eu, o Senhor, o disse. 
(Ezequiel 34:23-24)

Se os fariseus não haviam liderado o caminho no que diz respeito ao cancelamento de todo o significado político da esperança messiânica, Jesus nunca poderia ter consentido em ser chamado de Cristo. De fato, o título é, para Ele, o mínimo aceitável de todas as descrições possíveis de Sua missão. Apesar de Seu maior empenho para evitar ser forçado à falsa posição de um líder Zelote da agitação nacionalista, é fornecida aos seus inimigos a sua melhor oportunidade para a deturpação, ou melhor, a própria armadilha em que eles realmente planejaram Sua morte.
Palpável, manifestamente, era a coroa de espinhos que Pedro estava, ignorantemente, oferecendo-lhe em Cesareia de Filipe. E, no entanto, em certo sentido, ele deve aceitá-la ou ser infiel à confiança que o Deus dessas ovelhas perdidas e filhos perdidos tinha imposto sobre Ele. Sua herança era a herança de filhos. Jesus não tinha a liberdade de combinar com os usurpadores uma peça. Eles não tinham nenhum outro líder ou representante. O conhecimento da filiação tinha sido entregue a Ele. Agora, para esses “pequeninos”, também tinha chegado algo mais do que a Revelação do Pai, e de sua própria filiação que Ele tinha despertado neles. Eles receberam agora uma re­velação por sua própria conta. Jesus veio, não de carne e sangue, mas do próprio Pai, quando já perceberam que a vindicação de sua filiação dependia dEle como “o Filho”, o Cristo.
O movimento do farisaísmo tinha tido este grande mérito, de que havia mudado a perspectiva da esperança messiânica. Israel foi o primeiro a tornar-se filho de Deus, conhecendo e fazendo a Sua vontade revelada. Posteriormente, receberia sua herança. O espírito de exclusividade, admitindo a participação na herança, não aqueles cuja filiação foi evidenciada por um espírito semelhante ao do Pai, mas apenas aqueles que se submeteram ao jugo das prescrições legais, tinham mos­trado a incapacidade fatal do método de obtenção dos fariseus da esperança messiânica, mas tinham deixado o próprio ideal em formas mais amplas e em proporções mais nobres do que nunca. O método dos fariseus era o mesmo dos puritanos de todas as gerações.

Pelo que, saí vós do meio deles e separai-vos, diz o Senhor; e não toqueis coisa imunda, e eu vos receberei; e eu serei para vós Pai, e vós sereis para mim filhos e filhas, diz o Senhor Todo-Poderoso.
(2 Coríntios 6:17-18)

Este ideal da esperança messiânica não é apenas um título que pode ser aplicado adequadamente para a personalidade que se torna seu líder. Tal líder deve designar-se “o Cristo, o Filho do Deus vivo”.
R. H. Charles chamou a nossa atenção para um fenômeno que confirma a observação de longo alcance do professor Porter, de que os profetas não são criadores, mas críticos da esperança messiânica. É que os títulos múltiplos aplicados ao Messias na literatura desse período, particularmente a literatura apocalíptica, onde a figura do Messias desempenha uma parte tão importante, títulos como “o Eleito”, “o Justo”, “O Santo”, o “Amado”, “o Servo”, “Herdeiro” são, em quase todos os casos, derivados dos títulos conferidos a Israel como o povo de Deus. O Messias é o “eleito” como representante e cabeça do povo eleito; “o Justo”, como cabeça e representante do “justo”; o “Santo” como representando do “povo dos santos do Altíssimo”; “o amado” — e podemos legitimamente adicionar, tendo em vista a passagem citada acima, Se­gundo Esdras, “o unigênito” — como representando o povo a quem Deus “chamou sua amada, seu unigênito”; “herdeiro”, como representando sua reivindicação à he­rança da criação de Deus. É assim também com o título “o Filho”. Pois para alguém cujo ideal da esperança messiânica vem de passagens citadas do Eclesiástico, Aristeu, Sabedoria, o Saltério de Salomão, e Jubileus, que compartilha o ideal profético tão alargado e aperfeiçoado pelas experiências do exílio, o retorno, a revolta dos Macabeus, e a reação farisaica contra os Asmoneus posteriores, não há título tão expressivo da obra a ser alcançada por esse amigo de publicanos e pecadores como “o Filho”. Não é porque em algum sentido peculiar e metafísico ele usurpe a natureza de Deus, mas porque “ele assume a descendência de Abraão” para trazê-los para a sua herança, porque ele é “feito em todos os pontos semelhante aos irmãos” porque é “o primogênito de muitos irmãos”.
É neste sentido que Jesus, o Filho de Deus, estava disposto também a tornar-se o Cristo pelo bem dos Seus irmãos e companheiros. Quando nos voltamos para Suas próprias palavras, a reivindicação aparece em sua verdadeira luz histórica como um sacrifício de Sua vida para ganhar de volta para os deserdados “pequeninos” de Israel seu “direito de serem chamados filhos de Deus”. A lógica invencível de Paulo aplicou o princípio aos filhos deserdados de toda a humanidade e fez Jesus conhecido como “o Salvador do mundo”. Quando, uma geração depois, o discípulo romano de um discípulo se compromete a se relacionar com “o evangelho de Jesus, o Cristo, o Filho de Deus”, ele manifesta a disposição que devemos esperar.
O que ele está ansioso para provar é que Jesus foi dotado com esta distinção em Seu próprio direito por uma voz do céu, que ele contendeu por isso e foi vindicado nisso por uma vida de milagroso poder e bondade, e uma Ressurreição sobrenatural dos mortos. Felizmente, mesmo Paulo, ansioso para exaltar a divindade de seu Redentor, e pronto com uma doutrina de sua descendência de glória messiânica pré-existente, não perverte a doutrina da “filiação” em algo que se refere a Cristo em distinção a nós, mas lealmente apresenta aquilo pelo qual ele possui em nosso benefício, e como nosso representante:

Mas, vindo a plenitude dos tempos, Deus enviou seu Filho, nascido de mulher, nascido sob a lei, para remir os que estavam debaixo da lei, a fim de recebermos a adoção de filhos. E, porque sois filhos, Deus enviou aos vossos corações o Espírito de seu Filho, que clama: Aba, Pai. Assim que já não és mais servo, mas filho; e, se és filho, és também herdeiro de Deus por Cristo. Mas, quando não conhecíeis a Deus, servíeis aos que por natureza não são deuses. Mas agora, conhecendo a Deus, ou, antes, sendo conhecidos por Deus, como tornais outra vez a esses rudimentos fracos e pobres, aos quais de novo quereis servir? Estai, pois, firmes na liberdade com que Cristo nos libertou, e não torneis a colocar-vos debaixo do jugo da servidão.
(Gálatas 4:4-9, 5:1)



[1] A paráfrase de Is. 5:1-7 em Mc. 12:1-9 reflete o mesmo ponto de vista e é melhor compreendida como composição alegórica do evangelista do que como parábola autêntica de Jesus, embora uma parábola que, de alguma maneira, semelhante a essa seja inserida por Mat. bem antes dela. (Mt. 21:28-32).
[2] Sprüche und Reden Jesu, 1907, Exkurs I, pp. 189-211.
[3] No extrato, apenas os resultados positivos de Harnack são exibidos. Ele deixa em dúvida, por exemplo, se a ordem em Mt. 11:27 não deve ser “o Pai, o Filho... ... o Filho... o Pai...”, e, se na última cláusula não deve ser “revelado”, como na emenda de Lc., em vez de “disposto a revelar.” Como estas são apenas possíveis mudanças e não fazem diferença prática para o sentido, elas não são indicadas..
[4] Assim pensam os alemães em geral, e Salmon (The Human Element in the Gospels, 1907). A designação é melhor do que L (W. C. Allen, Internacional Critical Comm., 1907) ou A (H. J, Holtzmann, Synoptische Evangelien, 1863), por isso, não prejudica a questão da relação desta fonte Mt-Lc para a mateana “Logia do Senhor” mencionada por Papias. Burton e Sharman, da Universidade de Chicago, empregam as letras G (documento galileu) e P (documento pereiano) para as respectivos intercalações de Lc. 6:20-8, 8 e 9:51-18 e 14, que outros críticos designam juntos como Q.
[5] Paulus und Jesus, 1907, p. 31.
[6] O fato de este material comum de Mt-Lc do discurso (Q) não ser derivado de um desses evangelistas diretamente do outro foi conclusivamente demonstrado por Wernle (Synoptische Frage, 1899, pp 40-80), e é um resultado aceitável da ciência do Novo Testamento. Até Allen fala apenas de uma “influência” de Mateus sobre Lucas. Os defensores da tradição oral (A. Wright) fazem da sua fonte oral o equivalente a um documento, uma vez que sua forma é tão estereotipada a ponto de tornar a semelhança de Mt. e Lc. mais próxima nas porções que não são partilhadas por Mc. do que nas partes tiradas por cada um a partir desta fonte reconhecidamente escrita.
[7] Sprüche und Reden Jesu, p. 210, nota 1.
[8] No entanto, a nossa passagem fornece a única ocorrência da palavra nos evangelhos (exceto a citação de Sl. 8:3 em Mt. 21:16) contra onze ocorrências nas epístolas paulinas.
[9] Sprüche und Reden Jesu, p. 126.
[10] Mt. 11:28-30, que deixa de aparecer em Lucas, parece, linda como é, ser de composição do evangelista a partir de frases derivadas da literatura sapiencial. Veja W. C. Allen, ad loc. em Internat. Crit. Commentary, 1907, e Bousset, Religion des Judentums, p, 338, para os paralelos.
[11] Rm. 11:8, Cl. 2:2, 1 Co. 1:29, 30, 3:19, Rm. 9:20, 21; 2 Tm. 2:20, 21, 2 Co. 1:3-4, 7:6, 1 Tes. 3:7, 4:18, 5:14.
[12] Cf. apesar da passagem presente Mt. 11:5, Lc. 4:18, 7:22.
[13] Is. 29:9-24 (LXX).
[14] Mt. 11:12-15. Esta passagem obscura é iluminada pela tradição rabínica, Edujoth 8.7, onde na autoridade de Johanan ben Zakkai a função de Elias como restaurador das tribos é declarada sendo, “não de pronúncia limpa ou suja, para excluir ou receber em geral, mas apenas para receber aqueles que haviam sido excluídos pela violência, e para excluir aqueles que tinham sido recebidos pela violência”. Veja Bacon, “Elias and the men of Violence”, Expositor, sexta série, 31 (Julho de 1902), e W. C. Allen, Intern. Crit. Comm. sobre Mt., ad loc.
[15] Sobre a referência ao “batismo de João” nesta resposta de Jesus à demanda por um sinal do céu, que Mateus e Lucas, de maneira contraditória, se esforçam para aplicar ao próprio Jesus, ver Bacon, Sermon on the Mount, p. 232, e cf. a demanda paralela do sinal e sua resposta, Mt. 21:23-25​​; também a combinação dos dois em Jo. 2:18-21.
[16] Mc. 4:11, 12 é uma inserção editorial completamente fora de sintonia com o contexto, o que pressupõe não apenas a parábola do semeador, mas “todas as parábolas” que precederam (vs. 13), e manifesta surpresa que uma explicação deva ser necessária (vs. 13). Nos vss. 10 e 13, o sentido da pergunta sobre as parábolas não é, como assumido nos vss. 11 e 12, “por que usar este método?”, mas, “qual é o significado do simbolismo?” Os vss. 11 e 12 com o seu texto-prova isaiano aplicam a doutrina paulina das dificuldades de Israel (Rm. 11:7, 8) ao fato de que Jesus havia ensinado em “parábolas”, a “parábola” sendo erroneamente considerada um enigma, mistério, ou dito obscuro. Marcos, sem dúvida, aplicou a parábola do semeador ao endurecimento de Israel tanto quanto a Ep. Barn. 9:5 (cf. Hb. 6:8) aplica o protótipo comum de Jr. 4:3, “lavrai para vós outros campo novo e não semeeis entre espinhos”. Mas, Marcos não inventou um logion para justificar sua teoria das parábolas como uma pregação de julgamento. Ele adaptou isso agora, sob consideração, para se adequar a sua teoria paulina.
[17] Para a estimativa de Marcos do povo judeu em geral e seu caráter religioso, ver Mc. 7:3, 4, 6, 7.
[18]  Mc. 4:22 é dado duas vezes em Lucas. Lc. 8:17=Mc. 4:22; Lc. 12:2=Mt. 10:26.
[19] Comentaristas divergem quanto a se, na aplicação do evangelista, “a lâmpada” representa o Messias, que está destinado a ocupar o trono da glória (cf. Ap. 21:23), ou, como se pretendia inicialmente, a mensagem do evangelho. Qualquer interpretação serviria para nossa afirmação.
[20] 2 Es. 6:55-59, referindo-se a Gn. 1:26, 27 e Is. 40:15. Cf. Salmos de Salomão 17:30: “Ele obterá conhecimento deles, de que são filhos de seu Deus”.
[21] Cf. Dt. 4:6-8.
[22] Asc. Mo. 1:14.
[23] Cód. Vercell. dá em Lc. (não em Mt.), Omnia mihi tradita sunt a patre, et nemo nobit quis est pater nisi Alius, et cuicumque voluerit filius revelavit.
[24] Cf. Os dois paralelos relacionados, também peculiares a Mateus, sobre o joio e a rede cheia de peixes: Mt. 13:24-30; 36-43; 47-50.
[25] O paralelo com a passagem acima citada (Gl. 4:6, 7), em Rm. 8:14-16; 26-27 mostra que a referência é ao carisma das línguas. Aqueles que “oravam em uma língua”, em meio a seus gemidos inarticulados e declarações inteligíveis somente a Deus (Rm. 8:26, 1 Co. 14:14-17), balbuciavam como bebê, Abba, Abba.
[26] Mt. 5:45 = Lc. 6:35, 2 Co. 6:18.
[27] 2 Sam. 7:13, Sl. 132:11, mencionados em At. 2:30.
[28] Budde, Israel before the Exile, 1897.
[29] Filo, Quis rerum divinarum heres?
[30] Êx. 33:16, Jr. 51:45, Ez. 20:34, 41 Is. 52:11, 2 Co. 6:17.
[31] Essa era a função de Elias redivivus na lenda contemporânea, cf. Ml. 4:6 baseando-se em 1 Rs. 18:37. Veja Bacon, Elias and the Men of Violence, Expositor, sexta série, xxxi (Júlio, 1902).
[32] Mc. 1:17, baseando-se em Jr. 16:16.
[33] Assim, Edujoth viii, 7, baseando-se em Eccl. 48:10.
[34] Gl. 4:6.

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