2015/11/03

Gênesis 27 — Estudo Bíblico

Estudo Bíblico sobre Gênesis




Gênesis 27

O filósofo George Santayana chamou a família de “uma das obras-primas da natureza”. Se isso é verdade, então muitas dessas obras-primas tornaram-se apenas obras arruinadas, pois se esqueceram do Mestre. Gênesis 27 descreve uma família dessas. Se eu tivesse vivido no tempo dos patriarcas, provavelmente teria dito que o casamento de Isaque e Rebeca seria muito bem-sucedido. Afinal, Isaque era um homem dedicado que se colocou no altar em obediência ao Senhor (Gn 22; Rm 12:1,2). Ele confiou em Deus para escolher uma esposa para ele (Gn 24) e amou a mulher que Deus lhe enviou (v. 67). Tanto Isaque quanto Rebeca sabiam como orar e buscar a vontade de Deus para seu lar (Gn 25:19-23). O que mais um casal poderia querer? No entanto, apesar dessas vantagens, a família se desintegrou rapidamente quando Isaque envelheceu. Isso porque seus membros colocaram as próprias tramas e intrigas no lugar da fé, cada um procurando conseguir o que queria. Ao observar as cenas dessa tragédia, vamos estudar cada um dos membros da família de Isaque e ver qual foi sua contribuição para o problema ou para a solução.

Isaque: declínio (Gn 27:1-4)
Durante os vinte e três anos em que foi presidente do Instituto Bíblico Moody, em Chicago, o Dr. William Culbertson, com freqüência, terminava suas orações dizen do: “Senhor, ajuda-nos a terminar bem”. Deus ouviu suas orações, e o Dr. Culbertson 27 completou sua corrida vitorioso, mas não é o que acontece com todos os cristãos. Um bom começo não é garantia de um bom final. Essa é uma das lições que as Escrituras ensinam repetidamente, confirmada de maneira trágica na vida de Ló, Gideão, Sansão, Saul, Salomão, Demas e muitos outros. Acrescentemos Isaque a essa lista. Se já houve um homem abençoado com um começo extraordinário, esse homem foi Isaque. No entanto, terminou a vida envolto em som bras. Considere alguns de seus pecados. Colocou a si mesmo antes do Senhor. Isaque estava certo de que ia morrer1 e, ainda assim, seu maior desejo era desfrutar uma boa refeição feita pelo filho e cozinheiro favorito, Esaú (Gn 25:28).2 Quando Abraão, o pai de Isaque, estava se preparando para morrer, sua preocupação foi encontrar uma noiva para o filho e manter a promessa da aliança. Quando o rei Davi estava chegando ao fim de sua vida, organizou os preparativos para a construção do templo, e a preocupação de Paulo antes de seu martírio era que Timóteo fosse fiel em pregar a Palavra e guardar a fé. Alguém disse bem: “O fim da vida revela os fins para os quais foi vivida”. Quando P. T. Barnum, promotor de eventos, estava mor rendo, perguntou: — Quanto foi a arrecadação de hoje? Napoleão gritou em seu leito de morte: — Exército! General do exército! O naturalista David Thoreau disse apenas duas palavras: — Alce... índio. Porém Isaque, o homem que havia meditado e orado nos campos ao cair da tarde (Gn 24:63) e que havia intercedido junto ao Senhor por sua esposa (Gn 25:21), queria apenas uma coisa: uma saborosa refeição de carne de caça. Em vez de procurar pacificar a contenda em sua família, causada pelo favoritismo egoísta dele e de sua esposa, Isaque perpetuou a rixa e destruiu a própria família. Desobedeceu o mandamento de Deus. Antes de os meninos nascerem, Deus havia dito a Isaque e Rebeca que Jacó, o filho mais novo, receberia a bênção da aliança (Gn 27:19-23). No entanto, Isaque planejava dar a bênção a Esaú. Certamente Isaque sabia que Esaú havia desprezado seu direito de primogenitura vendendo-o a Jacó e que havia se tornado indigno da bênção ao casar-se com mulheres pagãs. Será que Isaque não se lembrava de que seu pai havia mandado um servo percorrer quase oitocentos quilômetros até Harã para encontrar uma esposa adequada para ele? Isaque pensava mesmo que poderia enganar a Deus e dar a bênção ao profano e incrédulo Esaú? Viveu de acordo com seus sentimentos. Isaque estava cego e, ao que parece, não podia mais se levantar (Gn 27:1 9, 31). É de se pensar que, numa situação dessas, ele confiaria em Deus e buscaria seu auxílio. Em vez disso, Isaque rejeitou o caminho da fé e confiou em seus próprios sentidos: pala dar (vv. 4, 9, 25), tato (v. 21), audição (v. 22) e olfato (v. 27). Ele usou a “abordagem científica”, e ela o decepcionou. “Muitos propósitos há no coração do homem, mas o desígnio do S e n h o r permanecerá” (Pv 19:21). Um personagem do romance de Ernest Hemingway, Morte na tarde, provavelmente expressa uma das convicções do próprio Hemingway ao dizer: “Tudo o que sei é que, depois de fazer coisas morais, você se sente bem, e depois de fazer coisas imorais, você se sente mal”. Hoje em dia, a maior parte das pessoas apoiaria essa filosofia de vida, tomando decisões com base apenas no senti mento e não no que se encontra na Palavra de Deus. “Se eu me sinto bem, então é bom!” Isaque era um crente em declínio, vivendo de acordo com as coisas naturais em vez das sobrenaturais, confiando em seus próprios sentidos em lugar de crer na Palavra de Deus e de lhe obedecer. Estava cego, preso ao leito e afirmando que ia morrer, mas, ainda assim, tinha um ótimo apetite. Com um pai desses como cabeça do lar, não é de causar espanto que a família se desintegrasse.

Rebeca: dissimulação (Gn 27:5-17)
Sir Walter Scott escreveu em seu poema “Marmion”: “Oh! que teias emaranhadas tecemos! Quando pela primeira vez a arte de enganar praticamos.” Lembre-se de que crer é viver sem tra mar. Crer significa obedecer a Deus independentemente da forma como nos sentimos, daquilo que pensamos ou daquilo que pode acontecer. A obediência resultante da fé foi o segredo da vida de Abraão'(Hb 11:8), mas a falta dessa obediência pela fé gerou problemas no lar de Isaque e Rebeca. Ouvindo furtivamente (v. 5). Rebeca percebeu quando Isaque chamou Esaú para ir à sua tenda e ficou por perto para saber o que estava acontecendo. Mais tarde, quando Esaú revelou que planejava matar o irmão, Rebeca também o ouviu (v. 42), de modo que devia ter o hábito de ouvir furtivamente e de ficar a par do que acontecia na família. Entretanto, que tragédia quando um marido e sua esposa, antes tão dedicados ao Senhor e um ao outro, deixam de se relacionar, não conversam mais sobre a Palavra de Deus e nem oram juntos. Armando intrigas (vv. 6-10). Sabendo que Jacó havia sido escolhido para receber a bênção da aliança, Rebeca imediatamente encarregou-se de garantir que o filho pre dileto não perderia o que o Senhor lhe havia prometido. Se ela e Jacó tivessem conversado com Isaque enquanto Esaú estivesse fora, talvez o patriarca reconhecesse o que estava acontecendo e concordasse com eles. Em vez disso, porém, Rebeca decidiu manipular Jacó e enganar o marido. O comentário do Novo Testamento sobre essa cena encontra-se em Tiago 3:13-18. Isaque confiava em seus próprios sentidos, mas Rebeca dependia de sua sabedoria terrena. Contudo, a sabedoria terrena sempre termina mal. “Pois, onde há inveja e senti mento faccioso, aí há confusão e toda espécie de coisas ruins” (Tg 3:16). A rapidez com que Rebeca elaborou seu plano nos leva a suspeitar de que ela já havia pensado nisso de antemão. Ela sabia que Esaú era o filho predileto do marido e que Isaque não era mais o homem espiritual de outrora. Rebeca estava até com a receita pronta e devia mesmo ser uma excelente cozinheira para fazer com que carne de cabrito ficasse com gosto de carne de caça! Jurando (w. 11-17). A preocupação de Jacó não era: “Será que isso é certo?”, mas sim: “Será que vai dar certo?”. Estava preocupado com o décimo primeiro mandamento: “Não serás pego em flagrante”. No entanto, Rebeca não planejava usar apenas a carne do cabrito, mas também a pele, de modo a fazer com que Jacó, um rapaz de pele lisa, ficasse parecido com Esaú, que era coberto de pêlos. Ela também vestiu Jacó com as roupas de Esaú para que ele ficasse com o cheiro do irmão, que vivia ao ar livre. Para encorajar seu filho, Jacó, Rebeca disse: “Caia sobre mim essa maldição” (v. 13), mas não fazia ideia do que estava falando. Depois que Jacó partiu para Harã, Rebeca nunca mais viu o filho predileto. A filosofia de Isaque era: “Se faz com que eu me sinta bem, então é bom”, mas a filosofia de Rebeca era: “Os fins justificam os meios”. Ela não pôde confiar que Deus cumpriria seu plano e teve de ajudar o Senhor... afinal, era por uma boa causa. Contudo, não há lugar para a dissimulação na vida do cristão, pois Satanás é o enganador (2 Co 11:3), mas Jesus Cristo é a verdade (Jo 14:6). “Bem aventurado o homem [...] em cujo espírito não há dolo” (Sl 32:2).

Jacó: defesa (Gn 27:18-29)
Ao cooperar com a intriga, Jacó estava apenas obedecendo à sua mãe, mas poderia ter se recusado e sugerido que encarassem a situação de forma honesta e confrontassem Isaque. No entanto, uma vez que Jacó vestiu-se com as roupas de Esaú e tomou aquela saborosa refeição em suas mãos, a sorte estava lançada, e ele precisava desempenhar seu papel com sucesso. Mentiu sobre seu nome (vv. 18, 19). Isaque pediu que ele se identificasse porque não podia ouvir bem? Provavelmente não (v. 22). É possível que estivesse desconfiado, pois não esperava que Esaú voltasse tão rapidamente da sua caçada (v. 20). Além disso, a voz que ouviu não soava como a de seu filho mais velho. Foi, então, que Jacó contou a primeira mentira: afirmou que era Esaú. Mentiu sobre a comida e sobre o Senhor (w. 19, 20). Disse ter atendido os desejos de seu pai (a segunda mentira) e, em seguida, chamou a carne de cabrito de “minha caça” (terceira mentira). Chegou até a dar crédito ao Senhor por tê-lo ajudado a encontrar a caça tão rapidamente (quarta mentira). Não apenas mentiu sobre si mesmo, mas também sobre o Senhor! Usar o Senhor para encobrir um pecado é um passo rumo à blasfêmia. Mentiu novamente sobre sua identidade e sobre seu amor (w. 21-27). Não querendo confiar em seus ouvidos, Isaque sentiu as mãos de Jacó e confundiu a pele de cabrito com os pêlos de homem, e Jacó garantiu-lhe, novamente, que era, de fato, Esaú (quinta mentira). Como é trágico ver um filho desonrar o pai dessa maneira! Depois que Isaque havia terminado a refeição, pediu a Jacó que o beijasse, e esse beijo foi a sexta mentira, pois foi um beijo hipócrita (Lc 22:48). Como Jacó podia afirmar que amava o pai exata mente enquanto o enganava? Uma vez que o cheiro das roupas finalmente convenceu Isaque de que era Esaú quem estava lá, tudo estava pronto para que fosse dada a bênção. Isaque abençoou Jacó com bênçãos naturais e materiais, tão importantes para aqueles que vivem da terra, mas acrescentou ainda autoridade política com referência a seu próprio povo e a outras nações (Gn 27:29). Isaque reafirmou o que Deus havia dito sobre os meninos (Gn 25:23) e, ao usar substantivos no plural (“irmãos” e “filhos”), foi além dos dias de Jacó, pensando no tempo em que a descendência de Jacó se multiplicaria. Durante o reinado de Davi e, depois, no de Salomão, outras nações se sujeitaram ao governo de Israel. Isaque garantiu a Jacó não apenas as bênçãos de Deus, mas também a proteção divina e citou a primeira promessa feita pelo Senhor a Abraão (Gn 12:3). Estava feito. Isaque não podia revogar a bênção, e ninguém da família conseguiria alterar as consequências.

Esaú: desespero (Gn 27:30-40 ; Hb 12:16, 17)

Por pouco Jacó não se encontrou com Esaú voltando da caçada. Que mentira Jacó teria contado para explicar por que estava vestindo as roupas de seu irmão? Não demorou para que Isaque e Esaú descobrissem a conspiração, mas cada um deles reagiu de forma diferente. Isaque estremeceu de violenta comoção (w. 30-33). Um estudioso de hebraico traduziu esse versículo por: “ele tremeu de estremecimento sobremodo excessivo”.3 Por que Isaque ficou tão agitado? Pois sabia que o Senhor havia prevalecido sobre seu plano egoísta de modo que seu filho predileto não recebeu a bênção. Isaque havia mentido para Abimeleque em Gerar (Gn 26) e havia tentado mentir para Deus ao desobedecer à Palavra (Gn 25:23), mas suas mentiras o ha viam alcançado. Esaú chorou e implorou pela bênção (w. 34-40). O homem que desprezou seu direito de primogenitura e casou-se com duas mulheres pagãs chorou e clamou para que o pai o abençoasse. É claro que a culpa não era dele e sim do irmão ardiloso.4 Quando estiver em dúvida, jogue a culpa sobre outra pessoa. Hebreus 12:16, 17 é o comentário de Deus sobre esse acontecimento. Esaú tentou arrepender-se, mas seu próprio coração estava endurecido demais, e não conseguiu fazer o pai mudar de ideia. As lágrimas de Esaú não eram de arrependimento por ser um homem profano, mas sim de desgosto, pois havia perdido a bênção da aliança. Esaú queria a bênção, mas não desejava ser o tipo de homem que Deus poderia abençoar! Podemos nos esquecer de nossas decisões, mas elas não se esquecem de nós. A “bênção” de Isaque (Gn 27:39, 40) mandou Esaú para “longe” das bênçãos da terra e do céu concedidas a Jacó. Em vez de governar, Esaú viveria pela espada. Os edomitas - descendentes de Esaú (Edom) - construíram sua nação no monte Seir (Gn 36:5-8), na extremidade sudeste do mar Morto, e foram inimigos constantes dos israelitas. Durante o reinado de Davi, os edomitas eram súditos de Israel, mas quando Jorão era rei de Judá, rebelaram-se e conquistaram sua liberdade 2 Rs 8:20-22). 

Índice: Gênesis 1 Gênesis 2 Gênesis 3 Gênesis 4 Gênesis 5 Gênesis 6 Gênesis 7 Gênesis 8 Gênesis 9 Gênesis 10 Gênesis 11 Gênesis 12 Gênesis 13 Gênesis 14 Gênesis 15 Gênesis 16 Gênesis 17 Gênesis 18 Gênesis 19 Gênesis 20 Gênesis 21 Gênesis 22 Gênesis 23 Gênesis 24 Gênesis 25 Gênesis 26 Gênesis 27 Gênesis 28 Gênesis 29 Gênesis 30 Gênesis 31 Gênesis 32 Gênesis 33 Gênesis 34 Gênesis 35 Gênesis 36 Gênesis 37 Gênesis 38 Gênesis 39 Gênesis 40 Gênesis 41 Gênesis 42 Gênesis 43 Gênesis 44 Gênesis 45 Gênesis 46 Gênesis 47 Gênesis 48 Gênesis 49 Gênesis 50

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