2015/11/10

Interpretação de João 14

Interpretação de João 14

Interpretação de João 14 




João 14

O capítulo 14 trata principalmente do encorajamento específico para contrabalançar a partida de Jesus, a deserção de Judas, e a predita queda de Pedro. E são: a provisão final da casa do Pai; a volta de Cristo para os Seus; a perspectiva de fazer coisas maiores; as possibilidades ilimitadas da oração; o dom do Espírito Santo; e a provisão da paz de Cristo.
1.   Se Pedro, o líder do grupo apostólico, falharia, é claro que os corações estivessem turbados. Essa palavra foi usada em relação do próprio Jesus em Jo. 11:33; 12:27; 13:21. "Ele experimentou aquilo que poderia confortar e controlar em nós" (T.D. Bernard, The Central Teaching of Jesus Christ).
Credes é, provavelmente, um imperativo em ambos os casos. Tudo parecia estar às margens de um colapso. Era necessário uma renovada fé em Deus. A causa de Jesus parecia estar diante da derrota; portanto a fé nEle era mais necessária do que nunca. Cada nova provação como cada nova revelação é uma chamada para a fé.
2.   Casa de meu Pai (cons. 2:16). O Templo em Jerusalém, com seus vastos pátios e numerosos gabinetes, sugere o antítipo do Céu. Muitas moradas. Lugares de habitação. A mesma palavra de 14:23. Eu vo-lo teria dito. O discípulo tem o direito de supor que tem uma provisão divina adequada mesmo quando não foi declarado. Vou preparar-vos. Como Pedro e João foram à frente preparar o recinto para a ceia, Jesus precedia os demais na glória para preparar "o cenáculo" para os Seus.

3.  Voltarei. Gramaticalmente, é um presente do futuro, enfatizando ambos, a certeza da vinda e a natureza iminente do acontecimento. A vinda não enfatiza o Céu como tal, mas antes a reunião de Cristo e o Seu povo. Onde eu estou – a mais satisfatória definição do Céu. Esta linguagem espacial torna difícil interpretar o versículo como sendo uma provisão da contínua presença de Cristo com o Seu povo enquanto Este ainda se encontra na terra. A aplicação das palavras à morte do crente também não é apropriada, pois nessa experiência os santos de Deus partem para ir ter com Cristo (Fl. 1:23).
4.    Os melhores textos traduzem assim: Vocês sabem o caminho para onde vou.
5.  Tomé viu um problema duplo no pronunciamento de Jesus. Uma vez que ele como também os outros, não conheciam o destino, como poderiam conhecer o caminho?
6.      O caminho. Isto tem um destaque especial por causa do contexto. Foi um tanto antecipado no ensino sobre a porta (10:9). A verdade. Cristo como verdade torna o caminho digno de confiança e infalível (cons. 1:14; 8:32, 36; Ef. 4:20, 21). A vida (cons. 1:4; 11:25).
Ninguém vem. O verbo coloca Jesus ao lado de Deus e não ao lado do homem (Ele não disse "vai"). "Nenhum homem pode alcançar o Pai a não ser que compreenda a Verdade e participe da Vida que foi revelada aos homens por Seu Filho. Assim, apesar de ser o guia, Ele não nos guia a algo além de Si mesmo. O conhecimento do Filho é o conhecimento de Deus" (Hoskyns).
7.   As palavras sugerem o fracasso dos discípulos em conhecer Cristo como Ele realmente era. À vista desta última revelação, entretanto, não poderia haver justificativa para o fracasso em conhecer o Pai tão bem quanto o Filho. Alguns manuscritos dão uma tradução diferente. "Se vocês me conhecessem (como me conhecem), conheceriam também o meu Pai".

8. O desejo de uma experiência objetiva era forte – mostra-nos o Pai (cons. Êx. 33:17). Filipe sentia que conhecia Deus, mas não como Pai no sentido máximo que Jesus tinha em mente quando falou dEle. 
9. Há tanto tempo. Era pateticamente tarde para o pedido. O Filho estivera revelando o Pai o tempo todo (10:30). Isto estava no fundo de sua missão (1:18).
10.   É claro que Filipe tinha de crer que havia comunhão de vida entre o Pai e o Filho. Da união entre o Filho e o Pai vinham as palavras que Jesus falava. Das obras que Ele realizava vinha a demonstração de que o Pai habitava nEle e agia por intermédio dEle.
11.   A exortação transferiu-se de Filipe para os Onze. Crede-me. Isto é, aceitem meu testemunho sobre o meu relacionamento com o Pai. Uma opinião suficientemente elevada de Cristo torna sua auto-revelação em evidência final. Para aqueles que precisam de outra evidência, as obras estão lá para sustentarem a reivindicação.
12.  Obras... maiores. Não devem se restringir aos sinais que Jesus operou nos dias da sua carne. As obras não poderiam ser maiores do que as Suas em qualidade, mas maiores em extensão.
Porque eu vou para junto do meu Pai. Esta é a razão das obras maiores. As restrições impostas a Jesus pela encarnação podiam ser removidas, sua posição com o Pai podia ser relacionada às obras maiores de duas maneiras: respondendo às orações dos Seus, e enviando o Parácleto como fonte infalível de sabedoria e força. As obras, então, não seriam feitas independentemente de Cristo. Ele responderia as orações; ele enviaria o Espírito.
13, 14. Tudo quanto. O alcance da oração. Pedirdes. A condição da oração. Em meu nome. O terreno da oração. Isto envolve duas coisas pelo menos: orar com a autoridade deferida por Cristo (cons. Mt. 28:19; Atos 3:6) e orar em união com Ele, para que não se ore fora de Sua vontade. Isso farei. A certeza da oração. A fim de que o Pai seja glorificado no Filho. O propósito da oração. Se pedirdes. O se está do lado daquele que ora, não do lado de Cristo.
15.   Se me amais. Esta é a atmosfera na qual serão honradas por Seus servos não somente a ordem relativa à oração, mas todas as outras ordens do Senhor.
Guardareis está no imperativo, mas boas fontes documentárias pedem a forma futura "guardareis". O amor não é em primeiro lugar um predicado sentimental; é a dinâmica da obediência.
Meus mandamentos. Basicamente, só Deus pode mandar. A Divindade estava falando.
16.     Esses mandamentos só podem ser guardados no poder do Espírito Santo, chamado aqui o outro Consolador. Uma tradução melhor neste ponto seria Ajudador. A palavra outro coloca o Espírito em pé de igualdade com Jesus (cons. Fl. 4:13). No Espírito temos mais do que um ajudador ocasional – a fim de que fique convosco para sempre.
17.  O Espírito da verdade (cons. 15:26; 16:13). Ele é iluminador além de ajudador. Seu grande tema é Cristo, a Verdade (14:6; 15:26). Que o mundo não pode receber. O mundo é governado pelos sentidos. Uma vez que o Espírito não pode ser visto nem compreendido pela razão, Ele fica de fora da experiência consciente do mundo (cons. I Co. 2:9-14). Habita convosco. Uma presença constante, compensando o afastamento do Senhor. Em vós. Não apenas com eles na qualidade de uma presença permeando o corpo físico, mas habitando neles individualmente.
18.      O mesmo assunto prossegue. Órfãos. Desamparados. A necessidade dos discípulos seria atendida quando Cristo viesse na bênção da ressurreição. Isto traria com Ele a pessoa do Espírito (20:22). Assim como o Espírito estaria com eles e neles, também Cristo. Seria impossível diferenciar os dois, tal como o Filho e o Pai são indivisíveis (cons. II Co. 3:17). Cristo não estava falando de sua vinda futura, como no versículo 3, mas de uma vinda que atenderia uma necessidade imediata.
19.  Cristo seria objeto de vista para o mundo por apenas um tempo limitado. Então viria a morte, e ainda que seguida da ressurreição, isto não o restauraria aos olhos dos homens (Mt. 23:39). Os discípulos seriam capazes de vê-lo e de participarem de sua vida ressurreta porque estavam espiritualmente vivos.
20.      Naquele dia esses homens seriam capazes de captar o significado daquilo que Jesus estivera tentando lhes dizer sobre a Sua vida com o Pai, que era uma vida de interpenetração e comunhão, e também sobre Sua própria vida, que fora agora da mesma maneira elevada ao divino e impregnada dEle. ConhecereisGnôsesthe fala de descoberta. Nem é necessário dizer, isto não dá ao crente o direito de dizer que ele é Deus ou o Filho de Deus. A união não tem sentido separadamente da existência individual daqueles que a compõem.
21.    Jesus voltou ao assunto do amor e da obediência aos Seus mandamentos (cons. v. 15), mas à vista dos ensinamentos do verso 20, incluía agora a menção do Pai. Guardar os mandamentos de Cristo é prova de amor a Cristo. Este amor desperta o amor correspondente do Pai, cujo amor ao Filho é tal que Ele tem de amar a todos os que o amam. Produz também a manifestação do Filho ao crente. O que os discípulos desfrutaram através da manifestação física do Senhor ressuscitado após a Ressurreição, desfrutariam também no sentido espiritual através de todo o restante de sua peregrinação terrena.
22.  Judas, não o Iscariotes. A reputação do traidor era tão má que João toma o cuidado de não permitir qualquer confusão na identificação, apesar de que o outro Judas tivesse deixado o recinto. Este Judas não podia entender uma manifestação restrita aos poucos escolhidos, não que fosse impossível (ela estava acontecendo naquele momento) mas não parecia de acordo com a glória do ofício messiânico. Se Cristo tinha de voltar novamente, por que não ao mundo? Ficou perplexo com a declaração de Jesus no versículo 19.
23.  "A resposta a Judas é que a manifestação mencionada tinha de ser limitada, porque só podia ser feita onde houvesse comunhão de amor que se autenticasse pelo espírito de auto-negação e submissão às ordens de Jesus" (William Milligan e W.F. Moulton. Commentary on the Gospel of St. John). Esta manifestação além de ser muito pessoal, conduz também a um relacionamento permanente – faremos nele morada. Observe que o Filho tem a liberdade de empenhar o Pai em um certo curso de ação, outra indicação clara de divindade.
24. Eis aqui o corolário do lado negativo da verdade do último versículo. Mais uma vez Cristo confirmou a unidade da palavra do Filho com a do Pai.
25, 26. Isto... todas as coisas. Os ensinamentos de Cristo no tocante às novas condições da era vindoura era mais sugestiva do que completa (cons. 16:12). Essa deficiência tinha de ser vencida pela vinda do Espírito Santo. Seu ministério aos crentes tinha de ser, principalmente, ensinar-lhes (um dos grandes ofícios de cristo também; os dois estão combinados por implicação em Atos 1:1). Todas as coisas (cons. I Co. 2:13-15). Esses assuntos presumivelmente seriam baseados na pessoa e na obra de Cristo, proporcionando, assim, uma continuação dos ensinamentos de Jesus. Uma parte da obra do Espírito, na realidade, seria a de recordar o que Cristo tinha falado (cons. 2:22; 12:16).
27.      A paz. Uma palavra frequentemente relacionada com as despedidas (cons. Ef. 6:23. I Pe. 5:14). Mas isto é mais um legado do que um toque convencional. Deixo-vos (aphiêmi) é raramente usado neste sentido. Outro exemplo ocorre na Septuaginta, no Salmo 17:14. A minha paz, uma qualidade diferente de paz, diferente da paz do mundo, que seria abalada numa hora como esta quando a morte se encontrava tão perto. O dom de sua paz tornaria destemidos seus seguidores, assim como Ele (cons. 16:33).
28.    O Senhor não tinha a intenção de esconder o fato de Sua partida, mas Ele os lembrou que a tristeza da partida era aliviada pela promessa de voltar novamente.
Se me amásseis. Seu amor era ainda incompleto. O amor deseja o melhor para aquele que é amado. Os discípulos se regozijariam com a Sua volta ao Pai.
O Pai é maior do que eu. Isto nada tem a ver com o ser essencial, e não contradiz também João 10:30 e outras passagens. O Pai estava em posição de recompensar o Filho pela obediência até à morte. Aqui temos indicações de que a volta de Cristo ao Pai resultaria em bênçãos em benefício de Seus seguidores; por isso Sua alegria não seria inteiramente desinteressada.
29.  Todas as bênçãos derramadas no futuro corroborariam a palavra de Cristo e aumentariam a confiança e a fé dos discípulos nEle.
30.  O príncipe do mundo (cons, 12:31). Uma referência a Satanás. Aqui a significação imediata parece ser à traição de Judas, instrumento de Satanás, e a prisão de Jesus (cons. Lc. 22:53).
Nada tem em mim. Nenhuma participação na pessoa ou causa de Cristo (cons. 13:8). Aqui pode haver uma sugestão da verdade que Satanás nada tem em Cristo que seja seu de direito, que ele possa reclamar ou se apropriar para seus próprios interesses. Cristo é sem pecado e vitorioso sobre o mal.
31.   Exatamente aquilo que Satanás estava para realizar, isto é, a morte de Cristo na cruz, era aquilo que o Salvador tinha urgência de realizar. Mas Ele não o fez como vítima indefesa de Satanás, fê-lo por amor ao pai, sabendo que era mandamento do pai (sua vontade expressa). Levantai-vos, vamo-nos daqui. De modo algum parece certo que a ordem foi imediatamente obedecida. Há uma dificuldade em supor que o restante do discurso fosse pronunciado em um lugar público, até mesmo no Templo.

Um comentário:

  1. No versículo 1, 'credes' é tempo presente afirmativo, ou seja, como já acreditam em Deus (o Pai), agora sim, usando o tempo imperativo, 'crede' também em mim (o Filho). Grato.

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