2016/02/26

Abraão na Carta aos Romanos

Abraão na Carta aos Romanos

Abraão na Carta aos Romanos

Por Saul K. Watson
A maior parte da discussão de Abraão encontra-se em Romanos 4, onde Paulo recorre ao patriarca para mostrar como os pagãos e também os judeus são agora justos diante de Deus em virtude da fé em Jesus Cristo. Em Romanos 9-11, Paulo volta a se referir a Abraão, a fim de demonstrar que as promessas de Deus ao povo escolhido não falharam (Romanos 9,6).

3.1. A situação em Roma.

O propósito de Paulo ao escrever Romanos é assunto de debate (Donfried; ver Roma). E provável que as Igrejas domésticas (Rm 16,5.10-11.14-15) às quais Paulo escreve fossem, até certo ponto, influenciadas pela comunidade judaica (Dunn, xlvi, xlvii; Calvert, “Traditions”) e se empenhassem para entender o relacionamento que os cristãos de origem pagã tinham agora com Deus (Rm 4,2.11-12), em especial à luz das práticas relativas à lei judaica (Rm 14,2.5.6.21; Wedderbum, 33-34).

3.2. O texto à luz das tradições abraâmicas.

3.2.1. Rm 1,1-3,26.

Depois da passagem de ação de graças e planos de viagem (Rm 1,8-15; ver Itinerários), Paulo anuncia seu tema, pro clamando que o Evangelho é o “poder de Deus para a salvação de todo aquele que crê”, judeu e também grego (Rm 1,16), e a justiça de Deus se revela pela fé nesse Evangelho (Rm 1,17; Ziesler, 186-187). Em Rm 1,1-3,20, Paulo mostra que pagãos idólatras e imorais (Rm 1,18-32; cf. Jub 22,11-23; lHen 91,7-10; embora os judeus possam ser implicitamente idólatras, ver Hays, 93-94) e judeus que se orgulham do relacionamento com Deus e a lei (Rm 2,1-29, esp. Rm 2,17) estão condenados diante de Deus (Rm 3,9-20). Em Rm 3,21-26, Paulo mostra como Deus continua a ser justo, mas agora independentemente da lei (Rm 3,21; cf. Rm 1,17). A participação no reino da justiça de Deus (Ziesler, 186­ 187) é agora obtida pela fé em Jesus Cristo por judeus e pagãos (Rm 3,22); não há diferença. 

3.2.2. Rm 3,27-4,25. 

Rm 3,27,25 funciona como esclarecimento daquilo que Paulo já discutiu e como introdução ao exemplo de fé dado por Abraão. Paulo usa o princípio do monoteísmo judaico contra uma alegação comum de particularismo judaico. Porque é único, Deus é o Deus dos judeus e também dos pagãos (Rm 3,29). E, visto ser um só, Deus justifica judeus e pagãos com base no mesmo critério — a fé (Rm 3,30). Assim, judeus e pagãos têm acesso igual à salvação. “Este é, com efeito, um argumento contra a lei ser, de algum modo, necessária à salvação” (Sanders 1977, 489). Por meio do exemplo de Abraão, Paulo mostra como sua interpretação realmente confirma a lei (Rm 3,31). Paulo primeiro identifica Abraão em sentido estritamente judaico como “nosso antepassado segundo a carne” (Rm 4,1 [nota c na TEB]) e pergunta o que Abraão “obteve” (o verbo heuriskõ). Diversas tradições de Abraão descrevem-no encontrando o Deus único (ver acima; em especial Fílon, Abr. 68-71, e Josefo, Ant. 1,7,1 154-157, onde ele discerne a existência de Deus a partir da criação). Em geral se afirma que, em Rm 1,18-32, Paulo recorreu ao pensamento judaico helenístico que está por trás de Sb 12-15, se não a esse texto em si (Dunn 56­ 57; Calvert, “Traditions”). Sb 13,6-9 fala de pessoas que buscam encontrar (heuriskõ) Deus. Outros textos que se referem a pessoas “que encontram” (heuriskõ) Deus por meio da descoberta intelectual também estão presentes na LXX (Is 55,6; 65,1), nas obras de Fílon (Spec. Leg. 1,36; Leg. Ali. 3,47) e no NT (At 17,26-27; Rm 10,20). Em Rm 4,17, Paulo também diz que Abraão acreditou em Deus Criador (ver abaixo). 

Essa crença no Deus único como sendo o Criador era fundamental no monoteísmo judaico. Somente sendo o Criador, o Deus dos judeus era o Deus único e verdadeiro (cf. Sib Fr. 1,7). No contexto da discussão paulina da idolatria em Rm 1, no uso de “um só Deus” para provar que judeus e gentios estão justificados pela fé (Rm 3,29-30) e na introdução do exemplo de Abraão, talvez Paulo espere que os leitores presumam que ele fala de Abraão que “encontrou” o Deus Criador único e verdadeiro. Uma segunda resposta natural de alguém familiarizado com as tradições de Abraão seria que ele não só foi o primeiro monoteísta, mas também que ele obedeceu à lei (ver 1.2 acima), antes mesmo que ela fosse promulgada. Paulo pressupõe essa interpretação na afirmação de Rm 4,2: “Se Abraão foi justificado por suas obras, tem algo de que se orgulhar, não porém diante de Deus!”. Paulo já usou o termo orgulhar-se para descrever o orgulho dos judeus em referência a sua aparente posição privilegiada (Rm 2,17.23; 3,27). Abraão, que se entendia ter sido obediente à lei antes que ela fosse promulgada e que representava o judeu ideal, tinha realmente de que se orgulhar — mas não diante de Deus (Rm 4,2). Se Abraão não podia se orgulhar de suas obras, quem entre os judeu-cristãos seria tão atrevido a ponto de se orgulhar da obediência à lei? Paulo prova por que Abraão não tem de se orgulhar de suas obras diante de Deus citando Gênesis 15,6: “Abraão teve fé em Deus e isto lhe foi levado em conta de justiça”. 

Abraão é o paradigma de como Deus faz os seres humanos serem justos (Sanders, 1983,33). Para esclarecer o que ele quer dizer com “foi levado em conta”, Paulo usa a analogia de alguém que trabalha e a quem o salário é pago, não como dádiva, mas como débito (Rm 4,4), em contraste com alguém que crê naquele que justifica o ímpio (Rm 4,5). Tudo isso é explicado para que Paulo responda a sua primeira pergunta sobre o que Abraão obteve. Pela fé, Abraão encontrou a graça (Rm 4,4; cf. Gn 18,3; 30,27; 32,5; 33,8.10.15; 34,11; 39,4; 47,25.29; 50,4). Em Rm 4,9-12, Paulo mostra como Abraão é o pai dos judeus (circuncisos) e dos gentios (incircuncisos). A figura de Abraão era ligada à circuncisão no mundo judaico porque Abraão foi o primeiro a participar da aliança da circuncisão (Gn 17,9-14; Sr 44,20). Referindo-se aos “felizes” cujas ofensas são perdoadas (Rm 4,7­ 8; cf. SI 32,1-2), Paulo pergunta se essa declaração de felicidade “só concerne aos circuncisos ou também aos incircuncisos?” (Rm 4,9). Para responder à pergunta, Paulo começa parafraseando Gênesis 15,6: foi a fé de Abraão que resultou no perdão de Deus, pois Abraão foi considerado justo por causa de sua fé. 

Por meio de outras perguntas retóricas em Rm 4,10-12, Paulo prova que Abraão foi considerado justo enquanto ainda era incircunciso (Rm 4,11). Assim, Abraão é o pai de todos os crentes incircuncisos e que são considerados justos (gentios, Rm 4,11) e dos que não só são circuncisos, mas também seguem o exemplo da fé de Abraão enquanto ele ainda era incircunciso (judeus; Rm 4,12). Enquanto outrora a circuncisão marcava o descendente de Abraão (Gn 17,9-14), Paulo mostra que, em virtude da fé comum em Cristo, gentios e judeus têm Abraão como pai. Em Rm 4,13-17, a preocupação de Paulo é a promessa a Abraão e sua descendência. Ele declara que a promessa não foi feita em virtude da lei, mas em virtude da “justiça da fé” (Rm 4,13). O que Abraão devia herdar aqui, como em outras obras da literatura judaica, não era apenas a terra da promessa, mas o mundo (Rm 4,14; Sr 44,21 ;Jub 17,3; 22,14; 32,19; Fílon,Som. 1,175; Dunn, 213). A necessidade da lei para o povo judaico era parte importante de sua identidade. Paulo refuta a ideia de que, a fim de ser herdeiro da promessa de Abraão, é preciso ser judeu nos termos de obediência à lei mosaica. 

Paulo também declara que se “os herdeiros o são em virtude da lei” (hoi ek nomou), então “a fé não tem mais sentido e a promessa fica anulada” (Rm 4,14). Segundo Dunn, a frase deve significar os que consideravam sua existência contínua como judeus originária da lei, que determinava o que era característico e distinto em tudo que eram e faziam como povo de Deus (Dunn, 213­ 214). Se os que se identificam como povo de Deus pela obediência à lei são herdeiros, então a fé não tem sentido, pois não é a base para a herança. Além disso, a lei produz a cólera e revela a transgressão (Rm 4,15). Muitos judeus viam a função da lei sob uma luz positiva como o que os identificava e ao mesmo tempo os separava das outras nações. Em vez disso, aqui Paulo indica funções negativas da lei. Paulo dá mais uma razão pela qual a promessa precisa estar de acordo com a fé: a promessa precisa estar de acordo com a graça para que seja garantida a todos os descendentes de Abraão. Ela não é apenas para os cristãos que se identificam como o povo de Deus em virtude de sua obediência à lei (Rm 4,16), mas também para os cristãos que compartilham a fé de Abraão, que é o “pai de um grande número de povos” (Rm 4,17; Gn 12,3; 22,18). Abraão não é somente o pai do povo escolhido de Israel. A fé de Abraão é descrita por duas frases conhecidas da literatura judaica (Rm 4,17). A fé de Abraão estava na capacidade criativa de Deus para do nada dar vida ao que existia (2ApBr 21,4; 48,8; Fílon, Rer. Div. Her. 36; Spec. Leg. 4,187; 2Mc 7,28;). E Abraão tinha fé no Deus “que faz viver os mortos” (Rm 4,17). 

Essa descrição de Deus também era popular no judaísmo, como atesta seu uso para descrever a conversão dos gentios (.José&As. 27,10). Entretanto, em Rm 4,18-22, Paulo explica a fé de Abraão no Deus que dava vida aos mortos, referindo-se à narrativa do Gênesis. A fé de Abraão na promessa de Deus de que ele se tomaria pai de um grande número de povos (Rm 4,18; Gn 15,5) não enfraqueceu, mesmo sabendo “que seu corpo estava sem vigor” (impotente; Rm 4,19, BMD) e o seio de Sara estava “igualmente decrépito” (Rm 4,19, BMD). Paulo descreve a fé de Abraão em Deus (Rm 4,21) e sua promessa de descendência (Rm 4,20) apesar da incapacidade física do casal, ele mesmo e Sara. Portanto, estava escrito que a fé de Abraão lhe foi levada “em conta de justiça” (Rm 4,22; cf. Gn 15,6 e acima), não só em favor de Abraão, mas também de Paulo e seus leitores (Rm 4,23-24). A fé será levada em conta de justiça para os que crêem naquele que ressuscitou Jesus Cristo dentre os mortos, que foi entregue pelas faltas deles e ressuscitado para sua justificação (Rm 4,25). A fé monoteísta de Abraão, tão fundamental na tradição judaica, foi transformada por Paulo. A fé dos crentes que seguem a fé de Abraão está agora no Deus criador único que ressuscitou Jesus Cristo dentre os mortos para que também eles fossem justificados.

3.2.3. Rm 9-11.

Em Rm 9-11, Paulo passa a mostrar, de modo geral, como a palavra de Deus a Israel não falhou (Rm 9,6). O patriarca fundador ao qual Paulo recorre em sua análise é Abraão (Rm 9,3-9; 11,1). O primeiro ponto na argumentação de Paulo é que a palavra de Deus não falhou porque “embora sejam descendência de Abraão, nem todos são seus filhos” (Rm 9,7). Como prova, ele cita Gn 21,12: “É a posteridade de Isaac que será chamada a tua descendência”. Paulo também esclarece em Rm 9,8 que os filhos da carne (todos os judeus étnicos) não são filhos de Deus, mas os filhos da promessa são considerados descendentes de Abraão (ver Israel). Ao recorrer a Gênesis 21,12, Paulo considera que os judeu-cristãos de Roma já sabem que ser descendente étnico de Abraão não é o mesmo que ser seu descendente verdadeiro. Foi por meio de Isaac que foram designados os verdadeiros descendentes de Abraão (cf. Rm 9,10.13). Nem Ismael nem os filhos de Qeturá (Gn 25,1­ 4) foram contados entre os verdadeiros descendentes de Abraão. Segundo a prova de Paulo, isso se deve ao fato de Isaac ser o descendente da promessa de Deus. 

Para dar mais apoio a seu argumento, Paulo inclui a promessa do anjo a Abraão: “Pela mesma época eu voltarei, e Sara terá um filho” (Rm 9,9; Gn 18,10). Nem Hagar nem Qeturá eram a mulher por intermédio da qual a promessa foi cumprida. Somente Sara, que havia muito dera à luz (Rm 4,19), era a mulher por meio da qual Deus cumpriu sua promessa de uma descendência para Abraão. A última vez que Paulo recorre a Abraão em Romanos é em 11,1, onde ele afirma ser “israelita, da descendência de Abraão”. Em vista da discussão paulina anterior a respeito da definição da verdadeira descendência de Abraão (Rm 4,13-18; 9,7-8), é razoável supor que aqui Paulo não se refere simplesmente a sua herança judaica étnica. Paulo continua a argumentar que a palavra de Deus não falhou (Rm 9,6), mostrando que o tropeço de Israel trouxe a salvação aos pagãos (Rm 11,11-13), que foram enxertados no povo de Deus por causa de sua fé (Rm 11,20). No argumento de Paulo, houve “endurecimento” de uma parte de Israel, e em sua descrença atual (Rm 11,29) os judeus étnicos foram cortados (Rm 11,20). Entretanto, os judeus podem ser enxertados de volta na oliveira (Rm 11,24). Isso leva Paulo a afirmar que, com relação ao evangelho, os judeus étnicos são inimigos , mas com relação à eleição são amados “por causa dos pais” (Rm 11,28). Neste caso, Paulo dá mostras de conhecer a tradição que atribuía consideração especial aos descendentes étnicos de Abraão (AntBíb 30,7; 35,3). A palavra original de Deus não falhou (Rm 9,6). Os judeus étnicos também estarão entre os descendentes de Abraão mais uma vez, não em virtude de sua identidade fundamentada na obediência à lei, mas em razão de sua fé. Essa fé segue o exemplo da fé de Abraão (Rm 4,17-25), uma fé que foi aprofundada a partir de seu início no monoteísmo judaico para incorporar a fé em Jesus Cristo (ver Deus).

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