2019/09/18

Estudo sobre Atos 1

Estudo sobre Atos 1



I. O ELO COM O EVANGELHO (1.1-26)
1) Teófilo e o “livro anterior” (1.1)
Teófilo: O título “excelentíssimo” dado a Teófilo (= “amigo de Deus”) em Lc 1.3 o destaca como um alto oficial a serviço de Roma, ou um membro da ordem equestre. Também confirma a nossa impressão de que era uma pessoa real, já convertida, talvez, ou ao menos muito interessada em Cristo e na sua mensagem. Lucas, sem dúvida, esperava atingir um amplo círculo por meio de seu correspondente. A ausência do título em 1.1 pode indicar que a relação era menos formal e mais fraternal do que quando o “livro anterior” havia sido escrito, embora as datas provavelmente tenham sido próximas (v. Introdução, p. 1753). A dedicação do livro a Teófilo indica que o evangelho estava começando a se espalhar entre pessoas cultas do mundo greco-romano.
A continuação da obra divina (1.1). Lucas, provavelmente, teria concordado por completo com o breve resumo do ministério apostólico em Mc 16.20: “Então, os discípulos saíram e pregaram por toda parte; e o Senhor cooperava com eles...”. O mesmo Senhor que começou a fazer e a ensinar, como está registrado no Evangelho, continuou a sua obra poderosa pelo Espírito por meio dos apóstolos no período que seguiu a consumação da cruz e a ressurreição. Todo o processo é contínuo ao longo das fases históricas, e o centro é o grande Servo que declara: “Meu Pai continua trabalhando até hoje, e eu também Roma (28.30,31) continuo trabalhando”. O trabalho tem precedência sobre o ensino que está fundamentado nele.
2) A ordem dada aos apóstolos (1.2-5)
A necessidade do ensino. A obra redentora do Senhor foi concluída, e assim nada separava a sua pessoa das esferas celestiais. Mas, mesmo assim, ele passou um período histórico e definido de 40 dias com os apóstolos antes do dia em que foi elevado. As expressões aqui e nos Evangelhos indicam que o período foi da maior importância para o testemunho apostólico, pois os seus servos necessitavam de uma continuação do seu treinamento depois do fato tremendo da crucificação, à luz da ressurreição e sob a direção pessoal do mesmo Mestre. No entanto, a menção do Espírito Santo em relação a essas ordens não enfraquece a autoridade do Mestre, mas destaca mais uma vez que a obra toda foi uma “operação combinada” do Deus trino. A verdade “O Espírito do Senhor está sobre mim, porque me ungiu para pregar...” (Lc 4.18; cf. Is 61.1,2) era tão real depois da ressurreição quanto antes.
Os apóstolos. Os Doze eram as testemunhas autorizadas e comissionadas tanto em relação à pessoa quanto à obra de Cristo, os depositários da verdade relacionada ao grande evento da intervenção de Deus na história, na pessoa do seu Filho, para a redenção da humanidade. Tantas coisas dependiam da exatidão do seu ministério que o Senhor ressurreto continuou a instruí-los até a sua ascensão. Em 1.21,22, vamos voltar às características do ministério dos Doze em contraste com o de Paulo, mas observe aqui o testemunho conjunto do Espírito Santo e os apóstolos (Jo 14.25; 15.26,27; At 5.32). Esses homens não eram tagarelas autodesignados, mas apóstolos que [ele] havia escolhido falando com palavras que eram inspiradas e confirmadas pelo Espírito Santo.
O conteúdo da ordem (1.3,4,8). A ordem mencionada talvez incluía os diversos aspectos da Grande Comissão detalhada em Mt 28.19,20; Lc 24.44-49; Jo 20.21; 21.1517. No nosso contexto, o Senhor fala do Reino de Deus, com que podemos entender todas as esferas que reconhecem a soberania de Deus, com referência especial aqui a crentes que entrariam no reino por meio da pregação do evangelho em todo o mundo. O “reino” e a “igreja” não devem ser colocados em oposição, mas a igreja deve ser entendida como a província central do reino em virtude de sua relação mais íntima com o Rei. (V. uma apresentação equilibrada desse tema em G. E. Ladd, The Gospel of the Kingdom, London, 1959.) A ordem para esperar pela promessa de meu Pai em Jerusalém (v. 4) remete à profecia de João Batista (v. 5; cf. Mt 3.11) e, mais atrás ainda, às promessas de derramamento do Espírito Santo feitas pelos profetas do AT (J1 2.28,29; Is 32.15 etc.). Os conselhos do Pai direcionam as diferentes fases da obra da redenção, de modo que a promessa de meu Pai é uma expressão que descreve de forma apropriada o dom do Espírito Santo, o complemento necessário da encarnação e da expiação.
3) Os “tempos” e as “datas” (1.6,7)
A pergunta dos discípulos (1.6). Essa pergunta é mais uma prova da lentidão dos apóstolos em entender a natureza espiritual do reino, ou pode ser entendida com referência ao ponto específico a que haviam chegado na instrução apresentada pelo Mestre? Observemos os seguintes fatores: (a) Os apóstolos estavam imersos em profecias do AT nas quais o tema constantemente repetido é a restauração e volta de Israel para o coração de um reino universal na terra. Todos os israelitas piedosos meditavam acerca desse tema (Lc 1.33,55,68-75). O nacionalismo militante e não-espiritual da maioria dos judeus não anulava essas profecias, embora as distorcesse. (b) O Cristo ressurreto ensinou que era necessário que o Messias sofresse e depois entrasse na sua glória (Lc 24.26,27), assim abrindo a mente deles para entender as Escrituras proféticas a respeito do seu sofrimento e ressurreição (Lc 24.44-46). (c) Os discípulos, tendo entendido o significado de Is 53, naturalmente meditavam na possibilidade da manifestação do reino, visto que nada havia sido revelado que pudesse anular as predições.
A resposta (1.7). Não há censura expressa ou insinuada na resposta do Mestre, o que reforça a ideia de que há “tempos” e “datas”, mas submete a ordem da sua manifestação à autoridade do Pai (cf. lTs 5.1). Nesse ínterim, eles tinham uma tarefa a realizar no poder do Espírito Santo e precisavam esperar por mais luz acerca do tempo do reino messiânico (1.7,8). Os tempos são chronoi, e as datas são kairoi\ embora os significados desses termos se sobreponham em parte, chronoi destaca mais a duração do período, e kairoi destaca as crises que marcam a sua consumação.
4) O testemunho apostólico (1.8)
O seu poder. Mas receberão poder quando o Espírito Santo descer sobre vocês, pois essa nova época seria a era do Espírito Santo, que era o único que poderia capacitá-los para o testemunho e complementar a obra exterior e histórica do Filho por meio daquela energia interior e subjetiva que iria regenerar e santificar todos os verdadeiros crentes (cf. ICo 2.4,5).
As testemunhas. Em primeiro lugar, precisamos entender as testemunhas apostólicas que iriam falar de Cristo e de sua obra como aqueles que haviam sido escolhidos para depositários da verdade (cf. comentário de 1.2), declarando o que haviam visto e ouvido como é adequado a boas testemunhas oculares (ljo 1.1-3). Mas conquanto, nesse sentido, os apóstolos não poderiam ter sucessores, todos os cristãos verdadeiros sentem — ou deveriam sentir — a obrigação pessoal transmitida por esta ordem: serão minhas testemunhas.
A esfera. A expressão em Jerusalém, em toda a Judeia e Samaria, e até os confins da terra denota uma esfera universal de testemunho a ser alcançada em estágios. Parecia impossível começar em Jerusalém, onde o próprio Senhor havia sido rejeitado e crucificado, mas essa era a ordem, e os caps. 2—7 revelam os meios pelos quais foi implementada. O estágio seguinte seria toda a Judeia, que, com a menção de Samaria e a inclusão implícita da Galileia, coincidia com a Palestina. Os caps. 8—12 narram o cumprimento dessa comissão. Pedro foi o que abriu as portas da esfera do mundo dos gentios, e Paulo seria o apóstolo desse mundo. Lucas conta a história desse último estágio nos caps. 13— 28. Temos aqui, portanto, o programa dos estágios iniciais da evangelização mundial e a estrutura principal da história de Lucas.
5) A ascensão (1.9-11)
O fato e o propósito. Foi da boa vontade do Senhor que o seu ministério na terra tivesse um final definido e visível como cumprimento de Jo 16.28: “Eu vim do Pai e entrei no mundo; agora deixo o mundo e volto para o Pai”. Lucas 24.50 e At 1.12 estabelecem o lugar como sendo o monte das Oliveiras, próximo de Betânia — um lugar reverenciado por tantas lembranças. O corpo da ressurreição do nosso Senhor foi elevado à vista dos olhos dos discípulos até que uma nuvem — provavelmente um fenômeno celestial, a nuvem que envolve a presença divina (cf. Lc 9.34,35) — o retirou da vista deles. Além de marcar o final do ministério de Cristo na terra, a ascensão inaugurou a sua posição à direita de Deus (At 2.36; 5.31; Rm 8.34; Hb 1.3; IPe 3.22 etc.) e coincidiu com a glorificação, sem a qual o Espírito Santo não podia ser enviado (Jo 7.39; cf. Jo 15.26; Lc 24.49). Tanto o Pai quanto o Filho são mencionados como os que enviam o Espírito Santo.
A ascensão e a vinda (1.10,11). Os homens [...] de branco certamente eram mensageiros angelicais, enviados para advertir os discípulos contra o desejo sentimentalista pelos dias maravilhosos de comunhão com o Mestre na terra e para encorajá-los por meio da predição da volta pessoal e visível do Senhor da mesma forma que o viram subir. O período de testemunho conduziu a um alvo definido.
A volta para Jerusalém (1.12). Lucas 24.52,53 fala da “grande alegria” dos discípulos ao voltarem ao cenáculo, o que indica a compreensão completa das últimas instruções do Senhor e da mensagem dos anjos. Eles esperavam a vinda do poder com expectativa intensa, expressa em oração e súplicas. cerca de um quilômetro-, no grego, “à distância da caminhada de um sábado”; era a distância que um judeu piedoso podia percorrer sem transgredir o descanso do sétimo dia. O termo não indica que a ascensão ocorreu no sábado.
6) Esperando pela promessa (1.12-14)
Zahn e outros sugerem a probabilidade de os discípulos terem retornado ao mesmo cenáculo (NVI: “ampla sala no andar superior”) que havia sido colocado à disposição do Senhor para a celebração da Páscoa (Lc 22.7-13).
Os Onze (1.13). E natural que houvesse uma “chamada” dos apóstolos antes de ser inaugurado o novo estágio da obra. Os nomes são dados em Lc 6.14ss. V. as considerações acerca das diferenças entre essa lista e a de Mateus e Marcos em F. F. Bruce, The Acts of the Apostles, p. 43. O fato importante a ser observado nesse contexto é que um membro do grupo original de apóstolos, Judas Iscariotes, estava faltando, o que nos leva diretamente à nomeação de Matias.
O grupo dos que estavam esperando
(1.14,15). Um grupo grande de 120 pessoas cabia numa sala ampla de um andar superior. Onze eram apóstolos, e os outros, discípulos fiéis. A presença de Maria é destacada antes de ela desaparecer das páginas das Escrituras Sagradas, e era apropriado que ela participasse da experiência do nascimento do corpo espiritual de Cristo. A expressão e com os irmãos dele revéla o segredo da conversão desses homens antes antagonistas (Jo 7.5). Cada linha de alguma forma nos prepara para o grande evento, e a expectativa em geral era expressa naturalmente por um espírito de oração que identificava os anseios do grupo pela realização dos propósitos declarados de Deus.
7) A escolha de Matias (1.15-26)
O décimo segundo apóstolo. A ideia repetida com frequência de que os Onze deveriam ter esperado para que o Senhor deixasse claro que Paulo deveria ser o décimo segundo apóstolo não leva em consideração os seguintes aspectos: (a) A escolha de Matias é apresentada por Lucas como parte da introdução ao Pentecoste; 12 testemunhas, representantes do verdadeiro Israel, deveriam estar unidos naquele dia (2.14). (b) Pedro não poderia estar errado na sua compreensão da situação e ao mesmo tempo ser inspirado nas citações dos Salmos e na sua avaliação de Judas, (c) Os Doze eram testemunhas apostólicas do ministério, morte e ressurreição de Cristo (1.21,22), e isso Paulo nunca poderia ter sido. Ele destaca o ministério específico deles em 13.31. O seu ministério foi para o Senhor ressurreto como Cabeça da Igreja (Ef 3.1-12; Cl 1.24-29 etc.).
O sermão de Pedro (1.16-22). Precisamos observar que 1.18,19 constitui um interlúdio explicativo apresentado por Lucas para o benefício dos seus leitores, que resume as lembranças do fim de Judas em Jerusalém quando o autor reuniu as suas evidências em (digamos) 57-59 d.C. No restante, o sermão tem duas partes: (a) Pedro enxerga em Aitofel o tipo do arquitraidor, Judas, e aplica os salmos do “traidor” a este discípulo (2Sm 17.23; SI 69.25; 109.8). Judas tinha de fato sido um dos que estiveram conosco, por maior que fosse esse mistério, e a sua vaga precisava ser preenchida. (b) A segunda parte (v. 21,22) é de grande importância, visto que mostra que os Doze tinham de ser necessariamente testemunhas oculares de todo o ministério terreno de Cristo para que fossem testemunhas confiáveis do grande fato da ressurreição.
A escolha. Os Onze não conseguiram discernir diferença alguma nos critérios de elegibilidade entre José Barsabás e Matias e, assim, recorreram ao método de lançar sortes (como entre duas opções) sancionado no AT. O Urim e o Tumim parecem ter sido usados em circunstâncias semelhantes. O momento era singular, pois o Mestre não estava lá em pessoa para designar a sua testemunha, e o Espírito Santo não tinha sido dado ainda da forma especial do Pentecoste. Os Onze lembraram de Pv 16.33 e agiram de acordo com isso. O silêncio das Escrituras acerca do futuro ministério de Matias não é mais significativo do que o silêncio que cerca a obra da maioria dos apóstolos.

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