Boca — Enciclopédia da Bíblia Online
1. Delimitação lexical e frequência dos termos
No hebraico bíblico, a palavra central para “boca” é פֶּה peh (“boca”), indicada como ocorrendo em torno de “cerca de quatrocentas e quarenta vezes” e exemplificada em Gn 4:11; Êx 4:11; Nm 12:8; Dt 8:3; Js 1:8; Jz 7:6; 1Sm 1:12; 2Sm 1:16; 1Rs 7:31; Jó 3:1; Sl 5:9; Sl 145:21; Pv 2:6; Pv 4:5; Pv 31:36; Is 1:20; Jr 1:9; Ez 2:8; Zc 5:8; Ml 2:6–7. Em outra contagem apresentada no próprio material, “peh (פֶּה) 6310, 6366 (7023) 498x, n.” é descrito com amplitude semântica como “boca; fala; comando; abertura”, com a observação de que essa palavra pode nomear tanto o orifício corporal quanto, por extensão, “fala”, “ordem” e “abertura”.
No grego do Novo Testamento, o termo correspondente é στόμα/στόμα stoma (“boca”), que aparece por cerca de setenta e cinco vezes, desde Mt 4:4 até Ap 19:21, mas também como stóma, 71 vezes em um quadro lexical, e ainda como stoma (στόμα) 4750 (5125) 78x, n., boca; (meton.) discurso, palavras; (met.) ponta de uma arma (espada), com a nota de que, embora apareça em dezessete livros do Novo Testamento, cerca de dois terços de suas ocorrências concentram-se em Mt, em Lc–At e em Ap. No mesmo inventário lexical, registra-se ainda uma ocorrência de λόγος/λόγος logos (“palavra”, aqui com sentido de “fala/mensagem oral”: “palavra da boca”, “discurso”) em At 15:27, bem como o verbo ἐπιστομίζω/ἐπιστομίζω epistomizō (“silenciar”, “tapar a boca”) em Tt 1:11.
2. Boca em sentido literal: anatomia, fisiologia e um paradoxo higiênico
A boca é apresentada como a cavidade inicial do aparelho digestivo, situada entre os maxilares superior e inferior e comunicando-se diretamente com a faringe (garganta). Nela se encontram dentes, gengivas e língua, e nela se derramam as secreções das glândulas salivares — parótidas, submaxilares e sublinguais — cujas enzimas iniciam a digestão dos alimentos. O sentido do gosto localiza-se nesse espaço, e os dentes exercem a função de triturar o alimento e favorecê-lo à impregnação pela saliva. A boca também participa de processos que atravessam o corpo como uma ponte: respiração, articulação da fala, expectoração e o ato de chupar.
No entanto, o texto conserva uma observação deliberadamente chocante: a boca é dita “sem dúvida alguma” como “a porção mais suja do corpo humano”, e essa afirmação é sustentada por quatro proposições em sequência lógica. Primeiro, declara-se que não existe líquido bucal capaz de esterilizar a boca, exceto aqueles tão potentes que destruiriam os tecidos que a revestem internamente. Segundo, afirma-se que nem mesmo o ato mais cuidadoso de escovar os dentes seria capaz de esterilizar a boca de fato. Terceiro, diz-se que os nutrientes colocados na boca se tornam meio de cultura para toda espécie de bactérias, que ali crescem e se reproduzem. Quarto, acrescenta-se o paradoxo decisivo: a saliva tenderia a desencorajar a multiplicação das demais bactérias, excetuando precisamente aquelas que produzem enfermidades no ser humano; por isso, “os germens que podem causar doenças” seriam justamente os que são favorecidos pela saliva. A consequência prática, no fechamento desse bloco, é enunciada de modo lapidar: a mordida humana figura entre os ferimentos de mais difícil cura para médicos, e ainda assim, mesmo conhecendo esses fatos, as pessoas continuam beijando-se.
3. Extensão semântica de “boca” no Antigo Testamento: órgão, fala, comando e abertura
O quadro lexical descreve פֶּה/פּה peh (“boca”) como termo que pode nomear o orifício corporal associado a comer e falar, aplicado a seres humanos (com exemplos como Jz 7:6; 1Sm 1:12) e a animais (Gn 8:11; Nm 22:28; 1Sm 17:35; Sl 22:21). Entre os usos corpóreos, aparecem contextos ligados ao consumo (Êx 12:4; Ne 9:20; Dn 10:3), mas também ao riso (Jó 8:21; Sl 126:2) e à fala como emissão que se torna ato no mundo (Êx 4:12; Jz 9:38; Ed 8:17; Jó 15:13), incluindo o caso emblemático de um animal “mudo” que recebe fala (Nm 22:28).
A mesma fonte amplia o campo: a “boca” torna-se figura para a fala como conteúdo, como recipiente e como vetor de autoridade. A lei ou assunto é dito estar “sobre” ou “na” boca (Êx 23:13; Dt 30:14), como se a boca fosse um vaso no qual o discurso pode permanecer, do qual pode sair e no qual pode ser “colocado” (Nm 22:38; Dt 18:18; 2Sm 14:19). Nessa deriva metonímica, peh (“boca”) passa a significar “fala” (Êx 4:10; Jó 15:6; Jr 36:6) e, em contextos hierárquicos, “ordem/comando” (Nm 14:41; Dt 1:26; 1Rs 13:26; Ec 8:2). Daí a relevância do idiomatismo hebraico עַל־פִּי ʿal-pî (“conforme a boca de”, isto é, “conforme a ordem/decisão”), referido como “sobre a boca” (Gn 41:40; Lv 24:12; Êx 38:21), com a nuance de diretriz vinculante (“command”/“decision”). O que sai da boca, portanto, pode ser juridicamente e moralmente “obrigante” (Dt 17:6; Jz 11:36; 2Sm 1:16), mas também depreciativo (1Sm 2:3), maldizente (Jó 3:1; Sl 10:7) e, por isso, exigente de disciplina e guarda (Pv 13:3; Mq 7:5; cf. negativamente Jó 15:5).
4. “Bocas” não humanas: topografia, objetos e a metáfora da abertura
O material preserva um conjunto de aplicações em que “boca” deixa de ser apenas anatomia e passa a nomear aberturas no mundo. Entre exemplos mais concretos, estão: “boca de um saco” (Gn 42:27), “boca da terra” (Gn 4:11; Nm 26:10; e, em outro bloco, também Nm 16:30; Dt 11:6), “boca de um poço” (Gn 29:10; e também “of a well” com as referências Nm 29:2–3; Nm 29:8; Nm 29:10), “boca de uma caverna” (Js 10:18; Js 10:22; Js 10:27), “boca de um sepulcro/Sheol” (Sl 141:7), “boca do abismo” (Jr 48:28), além de “boca de ídolos” que têm boca, mas não falam (Sl 115:5; Sl 135:16–17). Também aparece “boca da fornalha”, no aramaico תְּרַע/תּרע teraʿ (“porta/abertura”), com referência a Dn 3:26, e o aramaico פֻּם/פּם pûm (“boca”) como forma correlata.
Nessa mesma linha, o texto bíblico registra um uso militar-metafórico no qual a “lâmina” é dita “boca” da espada, com referências Nm 21:24 e Js 10:32, explicada como provável prolongamento da imagem de destruição como “devorar” o adversário (Dt 32:42; 2Sm 2:26; Jr 46:10). Esse uso prepara, por analogia, a linguagem apocalíptica na qual a “boca” não apenas engole, mas também profere juízo.
5. Fraseologia idiomática hebraica: expressões, sentidos e conjuntos de referências
A expressão “pesado de boca” é definida como falar lentamente, com referência indicada em Êx 4:10 e também, em um registro paralelo, Êx 4:1. A “boca macia” e a “boca de engano” são apresentadas como linguagem lisonjeadora e enganosa, com referências Sl 55:21 e Sl 109:2. “Falar boca a boca” é explicado como comunicar-se pessoalmente, sem intervenção de intérprete, com Nm 12:8 e comparações adicionais em 1Rs 8:15; Jr 32:4. “Com uma boca” é dado como “com uma só voz” ou “com um só consentimento”, com Js 9:2; 1Rs 22:13; 2Cr 18:12. “Com a boca toda” é definido como falar com a máxima força da voz, com Jó 19:16 e Sl 66:17.
A fórmula “pôr palavras na boca de alguém” é apresentada como sugerir ou instruir o que alguém deve dizer, e o corpo de referências preservado inclui Êx 4:15; Nm 22:38; Nm 23:5; Nm 23:12; 2Sm 14:19, além do registro Et 4:15 (com a nota de que a figura não transparece em português nesse caso) e ainda Dt 31:19; 2Sm 14:3; Jr 19:1–15; Êx 4:11–16, onde a mesma ideia é enunciada como “ter palavras colocadas na boca”. A expressão “estar na boca” aparece como “ser frequentemente falado”, inclusive “como lei”, com Êx 13:9, e, por comparação, Sl 5:10; Sl 38:15.
A ação “pôr a mão sobre a boca” é interpretada como guardar silêncio, com Jz 18:19; Jó 21:5; Jó 40:4; e as referências adicionais Pv 30:32; Jó 29:9; Mq 7:16. A mesma prática aparece como paralela ao gesto de “pôr o dedo sobre a boca” para impor silêncio, explicitado como correspondência cultural, assim como colocamos o dedo nos lábios para pedir silêncio.
A expressão “pedir conselho na boca de Yahweh” é definida como consultar a divindade, com referências Js 9:14 e também Js 19:14. A fórmula “desandar a boca contra os céus” é explicada como falar arrogante, insolente e blasfemamente contra Deus, com Sl 73:9. Finalmente, preserva-se o uso no qual “boca” pode nomear “o que alguém diz”, isto é, o conteúdo do pronunciamento, com Nm 3:16 e, num quadro mais amplo de equivalências, Gn 45:12; Jó 39:27; Ec 8:2.
6. “Por boca de…”, testemunhas, porta-voz e ditado: boca como mediação formal do discurso
No eixo da mediação, “pela boca de” é explicitado como “por meio de” ou “na declaração de”, com Lc 1:70 e At 1:16. A “boca” atua como critério jurídico quando a morte do homicida é condicionada ao testemunho (cf. Nm 35:30 e paralelos Dt 17:6; Mt 18:16; Hb 10:28). O mesmo movimento aparece como promessa de capacitação retórica: “Eu vos darei boca e sabedoria” (Lc 21:15), e como formulação proverbial negativa: “boca do tolo” (Pv 18:7).
No plano de representação, “boca” também pode significar “porta-voz”: “Ele te será por boca” (Êx 4:16). Em registro contíguo, “boca” pode nomear o próprio falante (“Não apenas… as palavras, mas… o orador”), com Êx 4:16 e Jr 15:19, e é comparado ao equivalente pragmático “bocal”. Ainda no eixo da mediação formal, “escrever da boca de alguém” é definido como escrever por ditado, com Jr 36:4; Jr 36:27; Jr 36:32; Jr 45:1.
7. Palavra divina, providência e juízo: vara da boca, espada da boca e poder messiânico
O material conecta explicitamente a “boca” de Deus à comunicação e à história: a fonte do discurso divino é descrita como “boca” porque Deus falou diretamente ao seu povo (Dt 8:3; Is 1:20; Lm 3:38). Nesse mesmo horizonte, afirma-se que as palavras que saem da boca divina — “a palavra que sai da sua boca” — significam “as ações da providência de Deus” e seus mandamentos, pelos quais governa o mundo e leva tudo ao seu propósito, com referência indicada como Is 4:11.
No campo do juízo e da autoridade, há expressões que condensam poder em imagem. A “vara da boca” é apresentada como figura da Palavra divina (Is 11:4), e é ligada a uma formulação messiânica: “Ele ferirá a terra com a vara da sua boca, e com o sopro dos seus lábios matará o ímpio”, descrita como expressão de “autoridade soberana e poder absoluto do Messias”, com Is 10:4. Em paralelo, a linguagem profética preserva: “Ele fez da minha boca uma espada afiada” (Is 49:2), associada a Ap 2:16 e à imagética apocalíptica na qual a espada sai da boca. Nessa moldura, é mantida a referência explícita ao juízo severo como espada que sai da boca de Deus, com Ap 19:15, e também a extensão: “uma espada …” em Ap 19:21.
8. Do coração à boca: moralidade do discurso e a boca como fonte de males
Ao lado de usos normativos e litúrgicos, preserva-se uma linha moral segundo a qual “toda a espécie de maldade procede da boca”, vista como “fonte de grandes males”, com Mt 15:18 e Rm 3:14. Essa afirmação é reforçada no inventário neotestamentário pelo princípio: “A boca fala do que o coração está cheio” (Mt 12:34 ESV; cf. Lc 6:45). A boca pode estar “cheia de maldição e amargura” (Rm 3:14, citado como citação da LXX Sl 9:28 [ET 10:7]), e palavras que saem da boca podem “contaminar” (Mt 15:11). O material ainda registra que, numa parábola, o juízo pode ser pronunciado “pelo que sai da boca” (Lc 19:22), e que, em alguns lugares, “boca” funciona como metonímia direta para “o que é dito” (Mt 18:16; Lc 21:15; 2Co 13:1).
9. Léxico e usos de στόμα/στόμα no Novo Testamento: boca, fala, silêncio e “fio da espada”
A descrição lexical afirma que στόμα/στόμα stoma (“boca”) ocorre em dezessete livros do Novo Testamento, com forte concentração em Mt, Lc–At e Ap. Sua aplicação mais frequente é literal, como boca humana, e em alguns casos como órgão de ingestão: Mt 15:11; Jo 19:29; At 11:8; Ap 10:9. Mais frequentemente, porém, “boca” aparece como fonte de fala: Mt 21:16; Rm 10:8; Cl 3:8; Tg 3:10. O conjunto inclui a fala de Jesus (Mt 5:2; Lc 22:71; At 22:14), descrita como sempre verdadeira, com 1Pe 2:22, assim como a fala dos 144.000, em cujo “boca” não há mentira (Ap 14:5). Também se preserva a linguagem segundo a qual palavras procedem “da boca de Deus” (Mt 4:4), e que Deus falou “pela boca de seus santos profetas” (Lc 1:70; cf. At 3:21) ou “por meio do Espírito Santo, pela boca de nosso pai Davi” (At 4:25). Outros sujeitos que “abrem a boca” no quadro narrativo incluem “o profeta” (Mt 13:35), testemunhas (Mt 18:16), Filipe (At 8:35), Pedro (At 10:34) e Paulo (Ef 6:19). Há ainda o episódio em que a “boca” de Zacarias “foi aberta” e ele voltou a falar (Lc 1:64), e o caso jurídico-político em que o sumo sacerdote ordena que Paulo seja ferido “na boca” (At 23:2).
Em chave idiomática, preserva-se o paralelo entre “falar boca-a-boca” e “face-a-face”, com 2Jo 12 e 3Jo 14, bem como a ideia de informação “da boca” de alguém como acesso direto à fonte (Lc 22:71; At 22:14). A noção de silêncio aparece como “não abrir a boca” (At 8:32; Rm 3:19), e, no plano lexical, a tradição também registra o verbo ἐπιστομίζω epistomizō (“silenciar”, “tapar a boca”) em Tt 1:11.
Por fim, preserva-se um uso metafórico específico de στόμα/στόμα stoma (“boca”) como “fio/borda”, particularmente “o fio da espada”, com Lc 21:24 NASB; Hb 11:34. Esse emprego se entrelaça de modo dramático com a imagética do Apocalipse, em que uma espada emerge da boca daquele semelhante ao Filho do Homem (Ap 1:16; cf. Ap 2:16; Ap 19:15; Ap 19:21).
10. Animais, monstros e a terra com boca: a imaginação do julgamento e do engolir
O inventário neotestamentário inclui bocas de animais e figuras apocalípticas: cavalos (Tg 3:3), leões (2Tm 4:17; Hb 11:33; Ap 13:2), cavalos leoninos (Ap 9:17–19), monstros sob forma de dragões, serpentes ou bestas (Ap 12:15–16; Ap 16:13) e peixes (Mt 17:27). Nesse quadro, a própria terra é descrita como tendo “boca” e “engolindo o rio” (Ap 12:16), retomando e transpondo o antigo motivo da “boca da terra” (Gn 4:11; Nm 16:30; Dt 11:6). Assim, “boca” percorre o arco inteiro: começa como cavidade corporal onde o alimento e a fala se encontram, transforma-se em abertura do mundo e, por fim, torna-se órgão simbólico do juízo — ora pelo que profere, ora pelo que devora.
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Citação acadêmica:
GALVÃO, Eduardo. Boca. In: Enciclopédia da Bíblia Online. [S. l.], 15 set. 2016. Disponível em: [Cole o link sem colchetes]. Acesso em: [Coloque a data que você acessou este estudo, com dia, mês abreviado, e ano].