2016/09/12

Estudo sobre João 3

Estudo sobre João 3


Jesus e Nicodemos (3.1-21)
O elo com o que precedeu esse incidente parece ser que o nosso Senhor agora demonstra aquela compreensão divina dos homens por meio da sua entrevista com Nicodemos. Mas a mensagem que Jesus leva a ele, embora dirigida ao bem pessoal dele, tem aplicação universal. Os comentários do evangelista (v. 16-21), que colocam a obra de Cristo no seu contexto universal, têm o propósito de ser uma continuação desse desafio apresentado ao indivíduo,
v. 1. Havia um fariseu (v. artigo “Pano de fundo religioso do NT” e verbete “Fariseu” em NBD): Os fariseus estavam representados no Sinédrio. Como um todo, eles não eram tão hipócritas como as pessoas pensam, visto que muitos deles preservaram grande parte do que era o melhor do judaísmo a partir do tempo dos macabeus. 
v. 2. à noite-. Que isso foi para manter a conversa em segredo, está quase além de qualquer dúvida. Isso é lembrado mais tarde (cf. 19.49) quando Nicodemos embalsama o corpo do Senhor. E suas observações cautelosas no Sinédrio (cf. 7.50ss) são dignas de reflexão. Mestre. Cf. 1.49. sabemos-. Parece referir-se àqueles que tinham visto os “sinais” de Jesus (cf. 2.23). Por isso, Nicodemos representa os judeus que são confrontados pela singularidade inescapável do ministério de Jesus, ensinas da parte de Deus: Nicodemos ao menos crê que a pregação de Jesus é de origem divina, se Deus não estiver com ele-. Embora verdadeira, essa expressão é insuficiente como uma declaração de fé (cf. At 10.38; Ex 3.12).
 v. 3. Digo-lhe a verdade. Essa fórmula, com frequência repetida por Jesus (cf. 1.51; 3.5,11; 5.19,24,25; 6.26,32,47,53; 8.34,51,58; 10.1,7; 12.24; 13.16,20,21,38; 14.12; 16.20,23; 21.18), é uma forma do hebraico amm, amm, de uma raiz que significa “ser verdadeiro”, ”estar fundamentado”. O amém duplo nos lábios de Jesus é peculiar a João. Por isso, acrescenta contundência às palavras que seguem em cada caso; embora devesse ser observado também que Jesus usou essas palavras em referência a algo que ocorreu antes, sugerindo: “Na verdade, há nisso um significado muito mais profundo do que vocês imaginam”. Se não nascer de novo, ou “de cima” (gr. genmthê anõthen')-. A experiência cristã começa com o nascimento, pois é uma nova existência — uma nova criação (cf. 2Co 5.17; IPe 2.2). Mas o ato da concepção pertence a Deus. R. V. G. Tasker diz que esse ato deve “ser comparado ao nascimento físico, pois é uma emergência da escuridão para a luz, quando o preso e confinado é finalmente posto em liberdade” (p. 67). A palavra anõthen pode ser traduzida por “novamente” ou “de cima”, embora “de novo” seja melhor, visto que deixa mais claro que o segundo nascimento é, de fato, um novo nascimento tanto em qualidade quanto em essência. Ninguém pode ver. Não se deve fazer distinção acentuada entre essa afirmação e a semelhante no v. 5: Ninguém pode entrar. “Ver” pode sugerir prazer, e “entrar”, possivelmente, denota tornar-se cidadão. A declaração do Senhor, no entanto, corrige a ideia no judaísmo segundo a qual vínculos nacionais eram suficientes para a aceitação no reino, e que esse Reino de Deus, mencionado aqui somente por João, embora seja uma das ideias principais nos Sinópticos, tenha que ver com o mundo material, isto é, para os judeus significa principalmente a derrota do exército romano de ocupação. O Reino de Deus é o domínio de Deus, em que sua vontade é suprema, seja no coração individual, seja na comunidade do seu povo, nesta vida ou na vida vindoura. Somente os filhos de Deus entendem o que é a vontade dele — e aí está a conexão entre a “nova vida” e o Reino de Deus.
v. 4. não pode entrar [...] e renascer. Nicodemos presumivelmente compreendeu somente um lado da referência do Senhor ao novo nascimento (cf. v. 3). v. 5. da água e do Espírito'. Isso está conectado imediatamente com o novo nascimento. Não tem muito fundamento a ideia de que a “água” se refere ao nascimento físico e “o Espírito” à regeneração espiritual, embora o batismo de João e/ou o batismo de prosélitos possa ter provido um pano de fundo dessa ideia, particularmente as predições de João acerca da relação entre a água e o Espírito em 1.33,34. Parece melhor aplicar o significado primário de Ez 36.25ss, em que água e Espírito denotam purificação e regeneração respectivamente. Uma aplicação de água pode ser, de fato, o ato do batismo de João para o arrependimento, embora o batismo cristão não esteja totalmente excluído, visto que no NT está estreitamente ligado com a concessão do Espírito ao indivíduo (cf. At 2.38). v. 6. carne [...] Espírito'. Há um abismo entre o que é básico para toda natureza humana, a carne, e o que é especialmente divino em sua origem, o espírito. Ambos produzem os seus respectivos frutos (cf. 6.52-55).
v. 7. E necessário que vocês nasçam de novo: A resposta de Jesus, endereçada agora não a uma pessoa mas a muitas, abarca todos os que precisam do novo nascimento, v. 8. 0 vento (gr. pneumá) sopra onde quer. Jesus quer se referir aqui a ambos, ao vento e ao espírito. Assim como o vento é imprevisível, assim no mundo espiritual o homem não pode prever a obra do Espírito. Você o escuta-, Pode ser uma referência tanto ao “barulho” quanto à “voz”, assim levando adiante a analogia, v. 11. nós falamos do que conhecemos'. Nicodemos, embora sendo representante dos estudados e piedosos em Israel, não tinha conseguido compreender o significado da obra de Deus. Jesus agora se identifica {nós) com todos aqueles (não importa se judeus como um todo ou os seus discípulos) que de alguma forma tinham compreendido a ação do Espírito. Eles o haviam visto, isto é, ele lhes tinha sido mediado por experiência pela fé. E o plural (vocês) novamente reflete a generosidade quando falou, por meio de Nicodemos, a todos aqueles judeus que, por qualquer razão, tinham rejeitado o ministério dele.
v. 12. coisas terrenas [...] coisas celestiais'. O primeiro termo (gr. ta epigeia) significa o ensino de Cristo na terra acerca do novo nascimento. As “coisas terrenas” são, portanto, aquelas que de fato se originam em Deus mas têm o seu lugar na terra, algumas vezes compreendidas por meio de analogia humana. As “coisas celestiais” (gr. ta epouranid) não são compreendias por nenhuma analogia terrena. Elas dizem respeito à suprema revelação de Deus em Cristo, e nisso ao mistério do relacionamento do Filho com o Pai. Isso é ampliado no versículo seguinte, v. 13. Ninguém jamais subiu ao céu, a não ser aquele que veio do céw. O Filho do homem (cf. 1.51) é o elo entre o céu e a terra. Por meio da encarnação, são mostradas as coisas celestiais. O que, no entanto, é somente parte da história. Ele ainda está para ser exaltado em poder, embora isso (cf. versículo seguinte) vá ocorrer por meio do sofrimento. (A expressão “que está no céu” [nota textual da NVI], embora omitida por uma série de manuscritos antigos, provavelmente deveria ser deixada no texto. Jesus revelou a vida de Deus, que existe no céu, enquanto estava na terra. O seu lugar de moradia permanente é lá; ele somente “viveu entre nós” (cf. 1.14).) v. 14. Da mesma forma que Moisés levantou a serpente-, Cf. 8.28; 12.32,34. Nessas referências a “levantar”, com a possível exceção de 8.28, duas ideias são conjugadas: Em primeiro lugar, a morte do Senhor na cruz é levantada; mas depois, em João, o Filho do homem retorna ao Pai para ser levantado em exaltação, quando ele vai atrair todas as pessoas para si (cf. versículo seguinte). O levantar é no seu todo uma grande obra dramática; é a obra do Pai quando, desde o momento do levantar na cruz, recebe o Filho de volta para si. v. 15. vida eterna-, Cf. 3.16,36; 4.14,36; 5.24,39; 6.27,40,47,54,68; 10.28; 12.25,50; 17.2,3. Essa vida traz consigo a qualidade da era nova de Deus (cf. Dn 12.2); mas é um presente atual de Deus. A duração não é a ideia principal, embota esteja presente. Cristo é ele mesmo tanto a personificação quanto a garantia dessa vida (cf. ljo 5.12), e o Pai, ao levantar o Filho, concede a ele a autoridade de garantir essa vida a outros (cf. 5.26,27; 17.2,3).
v. 16. Porque Deus tanto amou o mundo-. Passamos agora ao comentário inspirado do autor do evangelho. A obra de Cristo tem a sua origem no amor do Pai; essa é a única “razão” por trás da sua auto-revelação. O amor não é meramente uma ação contínua de Deus. Ele agiu. Em Cristo, ele deu o seu único Filho, a exata imagem de si mesmo. Seu amor é recíproco. Somente aqueles que respondem e recebem o presente de Deus em Cristo podem desfrutá-lo. E, quando o recebem, sua resposta inevitavelmente é a de retribuir com o seu amor a Deus (cf. 14.21,24,25). Isso é novo para os ouvintes judeus. Suas ideias particulares da preferência de Deus por Israel agora abrem caminho para o amor dele revelado por toda a humanidade, o seu Filho Unigê-nito: Cf. 1.18. não pereça (gr. mê apolêtai): Outra palavra característica em João (cf. 6.12,27,39; 10.28; 11.50). Aqui o verbo é usado de forma intransitiva, na voz média, para significar “estar perdido” ou “sofrer destruição”. Essa é a única alternativa para a vida eterna, pois é separação de Cristo e de Deus. Não há sentido concreto de julgamento ainda (cf. versículo seguinte). Isso segue ipso facto, pois a condenação cai sobre todos os que negam a vida em Cristo (cf. v. 18). v. 17. Deus enviou o seu Filho [...] não para condenar. Cf. 5.27; 9.39ss. O nosso texto traduz de forma sábia o grego krinô por “condenar” (Cf. 12.47,48). v. 19. Cristo, como a verdadeira luz do mundo, mostra aos homens quem eles são na sua essência, v. 21. quem pratica a verdade sabe que não pode haver bondade à parte da Fonte de todo o bem. A fé precisa ser acompanhada de uma nova qualidade de vida que certamente dará crédito a ela (cf. Tg 2.14, 17,24).  

3) O testemunho final de João Batista (3.22-36)
v. 22. terra da Judeia-, Essas palavras não ocorrem em nenhum outro lugar no NT. v. 23. João também estava batizando-, Pode parecer conflitante com a tradição sinóptica (cf. Mc 1.14). Mas João deixa claro que João Batista ainda não estava na prisão, enquanto Marcos (1.14) mostra que Jesus não começou o seu ministério na Galileia antes de João ser preso. O evangelista está registrando aqui um ministério anterior de Jesus na Judeia e em Samaria, entre o seu batismo e sua aparição na Galileia, dos quais os Sinópticos não têm nada a dizer. Enom e Salim estavam situados no território samaritano (cf. W. F. Albright, Archaeologj of Palestine, 1960, p. 247; NBD, p. 1.125). Nesse estágio, João e Jesus trabalham juntos. O contexto serve para destacar o significado do v. 30. v. 25. urna discussão [...] a respeito da purificação cerimonial-, Isso é (intencionalmente) não especificado. O trecho conduz para a remoção de João como o predecessor de Jesus e como o último representante do judaísmo expectante, v. 27. Uma pessoa só pode receber o que lhe é dado-, Não há um mínimo sinal de amargura diante da notícia do sucesso de Jesus. Que essa autoridade foi divinamente concedida, João crê que seja algo auto-evidente,
v. 29. O amigo que presta serviço ao noivo-, Uma parábola ilustrativa que mostra o lugar central a ser ocupado por Cristo e, mesmo assim, a posição singular que é concedida a João Batista como “amigo do noivo”, como seu amigo íntimo. A “noiva” pode ser uma referência a Israel (cf. Is 62.4; Ez 16.8; Os 2.19,20) e à Igreja como o novo Israel (2Co 11.2; Ef 5.25ss; Ap 21.2; 22.17), mas essa interpretação não pode ser forçada. Poderia haver aqui alguma alusão à festa de casamento em Caná (cf. v. 25; 2.1-11). Esta é a minha alegria: O cumprimento é associado à alegria diversas vezes em João (cf. 15.11; 16.24; 17.13). A alegria de João Batista é a que vem com a conclusão de sua missão, v. 30. E necessário que ele cresça e eu diminua:.O significado do ministério de João só durou enquanto ele abriu o caminho para a obra mais ampla e eterna de Cristo. Os v. 31-36 quase certamente não foram pronunciados por João Batista. O tema da entrevista com Nicodemos e o da confissão de João Batista são fundidos em um pelo evangelista para resumir a verdade manifesta até aqui em Jesus. v. 31. Aquele que vem do alto (gr. anõtheri) é a designação de Cristo que confirma a natureza da sua obra (cf. 13.1). Nos Sinópticos, “aquele que vem” (cf. Mc 11.9; Mt 11.3 etc.) é um título messiânico, v. 34. sem limitações: A plenitude do Espírito caracterizou o ministério do Senhor na terra, ao passo que os profetas da época do AT receberam o Espírito sob medida, v. 36. a ira de Deus: No NT, em sua maior parte, a ira de Deus é tratada em termos escatológicos. Somente aqui em João, como a vida eterna, ela é colocada no presente à medida que os homens se encontram aí para serem julgados aqui e agora de acordo com o seu relacionamento com Cristo, e, assim, como em Rm 1.18, são colocados numa posição escatológica.

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