Zebedeu — Enciclopédia da Bíblia Online
O nome “Zebedeu” entra nos Evangelhos como um fio discreto, mas firme: não por feitos narrados, e sim por laços — pai, ponto de origem, moldura doméstica que ajuda o texto a identificar Tiago e João. No grego do Novo Testamento, a forma recorrente aparece no genitivo, Ζεβεδαίου, isto é, como marca de pertença e identificação: Zebedaiou (“de Zebedeu”), e também no nominativo Ζεβεδαῖος, Zebedaios (“Zebedeu”).
Em Mateus 4:21-22, o retrato é quase cinematográfico: “Tiago, filho de Zebedeu, e João, seu irmão, num barco com seu pai, Zebedeu, consertando as redes;... deixando imediatamente o barco e seu pai, seguiram-no”. O grego costura a identidade em duas costuras, uma patronímica e outra familiar: “Ἰάκωβον τὸν τοῦ Ζεβεδαίου” (Iakōbon ton tou Zebedaiou — “Tiago, o [filho] de Zebedeu”) e “μετὰ Ζεβεδαίου τοῦ πατρὸς αὐτῶν” (meta Zebedaiou tou patros autōn — “com Zebedeu, o pai deles”): o texto não apenas nomeia o pai, mas o coloca presente, ao lado das redes e do chamado.
Em Mateus 10:2, Zebedeu reaparece como referência formal na lista apostólica: “Tiago, filho de Zebedeu, e João, seu irmão”. Aqui, a gramática faz o serviço da memória: “Ἰάκωβος ὁ τοῦ Ζεβεδαίου” (Iakōbos ho tou Zebedaiou — “Tiago, o [filho] de Zebedeu”) e “Ἰωάννης ὁ ἀδελφὸς αὐτοῦ” (Iōannēs ho adelphos autou — “João, o irmão dele”); Zebedeu funciona como “marco” que separa, identifica e mantém os dois irmãos juntos, como se o nome do pai fosse uma amarra de pertença no meio da enumeração.
Em Mateus 26:37, o texto não nomeia Tiago e João, mas os reconhece pelo vínculo: “levando consigo Pedro e os dois filhos de Zebedeu”. O grego explicita a forma: “τοὺς δύο υἱοὺς Ζεβεδαίου” (tous duo huious Zebedaiou — “os dois filhos de Zebedeu”); é como se, na hora mais sombria do Getsêmani, a narrativa ainda os chamasse pela raiz familiar, lembrando que, antes de serem “colunas” do círculo íntimo, são “filhos” com um nome de casa atrás deles.
Em João 21:2, depois da ressurreição, o mesmo traço permanece: “os filhos de Zebedeu” estão entre os que se reúnem junto ao mar. O grego usa uma forma elíptica e elegante: “οἱ τοῦ Ζεβεδαίου” (hoi tou Zebedaiou — “os [filhos] de Zebedeu”): Zebedeu não precisa aparecer em cena para continuar funcionando como referência identitária, como se o texto dissesse, sem explicar: “você sabe quem são”.
Quando o foco se desloca para a mãe, Mateus preserva o mesmo modo de identificar: “a mãe dos filhos de Zebedeu” aproxima-se de Jesus (Mateus 20:20) e, mais tarde, na cena da cruz, aparece “a mãe dos filhos de Zebedeu” entre as mulheres que observam (Mateus 27:56). O grego, em ambos os contextos, mantém a mesma construção: “ἡ μήτηρ τῶν υἱῶν Ζεβεδαίου” (hē mētēr tōn huiōn Zebedaiou — “a mãe dos filhos de Zebedeu”).
Marcos, nesses mesmos quadros finais, não diz “mãe dos filhos de Zebedeu”; ele nomeia “Salomé” entre as mulheres: “Maria Madalena… e Salomé” (Marcos 15:40) e novamente “Salomé” no ir ao sepulcro (Marcos 16:1). O grego confirma o nome próprio: “Σαλώμη” (Salōmē — “Salomé”). Da aproximação entre Mateus (“a mãe dos filhos de Zebedeu”) e Marcos (“Salomé”) nasce a identificação tradicional de Salomé como essa mãe — e, por consequência, como esposa de Zebedeu; mas essa última passagem (“logo, esposa”) é uma inferência histórica a partir do cruzamento dos relatos, não uma frase explícita do texto bíblico.
I. Zebedeu e o momento do chamado: quando o barco fica para trás
Em Mateus 4:21-22 a cena é descrita com a simplicidade cortante de um gesto que divide a vida em “antes” e “depois”: Jesus vê “Tiago, filho de Zebedeu, e João, seu irmão, num barco com seu pai, Zebedeu, consertando as redes” e, ao chamá-los, “eles, deixando imediatamente o barco e seu pai, seguiram-no”.
O texto grego de Mateus 4:21 coloca o foco numa ação em curso, quase como um quadro congelado: “Καὶ προβὰς ἐκεῖθεν … ἐν τῷ πλοίῳ μετὰ Ζεβεδαίου … καταρτίζοντας τὰ δίκτυα … καὶ ἐκάλεσεν αὐτούς” (Kai probas ekeithen … en tō ploiō meta Zebedaiou … katartizontas ta diktya … kai ekalesen autous — “E, avançando dali… no barco com Zebedeu… consertando as redes… e os chamou”). Aqui, katartizontas (“consertando/ajustando”) é um particípio presente, ativo, que funciona como moldura verbal do quadro: não é apenas “estar no barco”, mas estar no barco em trabalho contínuo; en tō ploiō (“no barco”) é uma locução preposicional com artigo e dativo, que localiza a ação; meta Zebedaiou (“com Zebedeu”) introduz a presença do pai como companhia imediata, não como referência distante. O chamado não interrompe um descanso, interrompe uma rotina produtiva — e é nessa interrupção que nasce a força da narrativa: o discipulado começa quando a mão ainda cheira a corda, e a rede ainda pede o último nó.
Em Mateus 4:22, a resposta é marcada pelo advérbio da pressa obediente: “οἱ δὲ εὐθέως ἀφέντες τὸ πλοῖον καὶ τὸν πατέρα αὐτῶν ἠκολούθησαν αὐτῷ” (hoi de eutheōs aphentes to ploion kai ton patera autōn ēkolouthēsan autō — “e eles, imediatamente, deixando o barco e o pai deles, seguiram-no”). O peso recai em eutheōs (“imediatamente”), que não descreve só rapidez, mas prioridade; e em aphentes (“tendo deixado”), particípio aoristo, ativo, que apresenta o abandono como ato completo, fechado, inteiro — como se a narrativa dissesse que, naquele ponto, o barco não fica “quase” para trás: fica para trás de uma vez. O objeto do deixar é duplo e inseparável no texto: to ploion (“o barco”) e ton patera (“o pai”); a renúncia não é apenas profissional, é também familiar, e por isso mesmo se torna teologicamente densa sem precisar de discursos.
Marcos 1:19-20 repete a mesma lâmina de cena, mas acrescenta um detalhe que muda a iluminação: “viu Tiago, filho de Zebedeu, e João, seu irmão, que estavam no barco consertando as redes” e, quando os chama, “eles, deixando o seu pai Zebedeu no barco com os empregados, foram após ele”. No grego, Marcos 1:20 explicita essa nota: “καὶ εὐθὺς ἐκάλεσεν αὐτούς· καὶ ἀφέντες τὸν πατέρα αὐτῶν Ζεβεδαῖον ἐν τῷ πλοίῳ μετὰ τῶν μισθωτῶν ἀπῆλθον ὀπίσω αὐτοῦ” (kai euthys ekalesen autous; kai aphentes ton patera autōn Zebedaion en tō ploiō meta tōn misthōtōn apēlthon opisō autou — “e imediatamente os chamou; e, deixando seu pai Zebedeu no barco com os empregados, foram após ele”). O termo decisivo é misthōtōn (“empregados/assalariados”), um genitivo plural introduzido por meta (“com”), que descreve com quem Zebedeu permanece. O relato sugere que a atividade não dependia apenas dos filhos naquele instante, pois havia trabalhadores; mas a própria pesquisa histórica sobre economia galileia e sobre o lugar social de pescadores no século I discute com cuidado o quanto se pode concluir apenas desse traço narrativo, razão pela qual convém manter o juízo contido e documentado (HAKOLA, Galilean Economy Reexamined, 2017).
II. O trabalho no lago: pesca, redes, sociedade e rotina de sustento
Em Marcos 1:16, a Bíblia não introduz Zebedeu diretamente, mas abre a lente para o “chão” do ofício que sustentava sua casa e, ao mesmo tempo, sustentava a rede social em que seus filhos circulavam: “andando junto do mar da Galileia, viu Simão, e André… que lançavam a rede ao mar, pois eram pescadores”. No grego, essa moldura aparece com termos concretos e quase táteis: “Περιπατῶν… παρὰ τὴν θάλασσαν τῆς Γαλιλαίας… βάλλοντας ἀμφίβληστρον ἐν τῇ θαλάσσῃ· ἦσαν γὰρ ἁλιεῖς” (Peripatōn… para tēn thalassan tēs Galilaias… ballontas amphiblēstron en tē thalassē; ēsan gar halieis — “caminhando… junto ao mar da Galileia… lançando uma rede de arremesso no mar; pois eram pescadores”). O texto, aqui, não “romantiza” a pesca: ele a descreve como ação repetida, pública, exposta à beira d’água; e, ao fazê-lo, faz o leitor sentir que o chamado acontece no meio de uma economia diária, onde braços trabalham, redes se lançam, e o verbo do cotidiano ainda está no ar quando o verbo do seguimento chega.
É Lucas 5:10, porém, que torna explícita a ligação de Tiago e João com uma estrutura de parceria que inclui Simão: “Tiago e João, filhos de Zebedeu, que eram companheiros de Simão”. O grego é ainda mais preciso ao amarrar relação e função: “υἱοὺς Ζεβεδαίου, οἳ ἦσαν κοινωνοὶ τῷ Σίμωνι” (huious Zebedaiou, hoi ēsan koinōnoi tō Simōni — “filhos de Zebedeu, os quais eram parceiros de Simão”). A palavra-chave é koinōnoi (“parceiros/associados”), e o dativo tō Simōni (“a Simão”) marca a quem essa parceria se refere: não se trata apenas de dois irmãos que pescam, mas de dois irmãos inseridos num arranjo cooperativo reconhecível, em que trabalho e risco são compartilhados. É nesse detalhe, discreto e documental, que Zebedeu começa a ser “lido” pela Bíblia como algo mais do que um nome de genealogia: ele é o pai de homens cuja identidade social, antes de ser apostólica, foi também profissional e relacional, costurada por laços de parceria.
Quando Marcos informa que os filhos deixam Zebedeu “no barco com os empregados” (Marcos 1:20) o texto adiciona um traço organizacional que combina com a parceria de Lucas sem precisar repeti-la: redes, barcos, irmãos, associados e trabalhadores compõem uma pequena constelação econômica. O ponto metodológico é manter o limite: a Bíblia afirma “companheiros de Simão” e afirma “com os empregados”; todo o restante — “quão grande era o negócio”, “quão rico era Zebedeu”, “que mercado atendia” — já pertence ao campo das reconstruções e debates, não ao enunciado do texto.
III. Sinais de estrutura econômica: empregados e a escala do ofício
Marcos 1:20 registra o único dado “material” que o texto oferece para ler Zebedeu por dentro da cena, sem adivinhar o que não foi dito: “deixando Zebedeu, seu pai, com os empregados no barco” (NVI). A imagem não é a de um pai largado no vazio, mas a de um chefe de casa e de ofício que permanece no barco “com os empregados”, isto é, cercado de continuidade de trabalho e de gente sob sua coordenação — e esse detalhe, colocado bem no momento em que os filhos partem, impede que a narrativa seja lida como ruptura irresponsável dos dois discípulos, porque Zebedeu não fica sozinho, nem o ofício fica sem mãos. Esse mesmo núcleo aparece de modo convergente em traduções distintas (“com os empregados” na NVI/NVT/NTLH; “com os empregados” também na ARA, com mudança de ordem sintática).
O grego torna isso ainda mais nítido ao amarrar Zebedeu como “o pai deles” em aposição nominal, e ao situá-lo “no barco” acompanhado pelos “assalariados”: “εὐθὺς ἐκάλεσεν αὐτούς. καὶ ἀφέντες τὸν πατέρα αὐτῶν Ζεβεδαῖον ἐν τῷ πλοίῳ μετὰ τῶν μισθωτῶν ἀπῆλθον ὀπίσω αὐτοῦ” (euthys ekalesen autous. kai aphentes ton patera autōn Zebedaion en tō ploiō meta tōn misthōtōn apēlthon opisō autou) — “e imediatamente os chamou; e, deixando o pai deles, Zebedeu, no barco com os assalariados, foram após ele”. Sintaticamente, a forma participial “ἀφέντες” (aphentes) (“deixando”) governa diretamente “τὸν πατέρα αὐτῶν Ζεβεδαῖον” (ton patera autōn Zebedaion) (“o pai deles, Zebedeu”): Zebedeu é o objeto explícito do “deixar”, não como descarte, mas como ponto fixo da cena; e o bloco preposicional “ἐν τῷ πλοίῳ” (en tō ploiō) (“no barco”) com “μετὰ τῶν μισθωτῶν” (meta tōn misthōtōn) (“com os assalariados”) desenha a moldura social mínima em torno dele: há barco, há trabalhadores contratados, há permanência de operação.
A palavra decisiva aí é “μισθωτῶν” (misthōtōn), genitivo plural de “μισθωτός” (misthōtos), termo que, no uso grego, pode funcionar como adjetivo (“contratado, assalariado”) e, substantivado, como “trabalhador contratado”. Esse traço lexical, por si só, não autoriza concluir “riqueza” nem “pobreza” de Zebedeu; ele apenas fixa que a unidade econômica do barco incluía mão de obra paga, e isso já é informação sobre o personagem, porque o texto poderia ter omitido inteiramente qualquer referência a terceiros. Aqui cabe uma marcação explícita do que é inferência e do que é dado: dado textual → Zebedeu é deixado “no barco” e não está sozinho, pois há “empregados/assalariados”; inferência (minha, limitada ao que o detalhe permite) → a presença de trabalhadores contratados sugere uma operação familiar com alguma escala além do trabalho estritamente doméstico, mas não define automaticamente o nível de renda, nem o tipo de contrato, nem o alcance de mercado.
A literatura acadêmica usa exatamente esse detalhe (“no barco com os empregados”) como um dos indícios para discutir o lugar socioeconômico de Zebedeu e de seus filhos no universo do trabalho na Galileia; e, mesmo quando os modelos divergem, o ponto em comum é que Marcos 1:20 não apresenta “jornaleiros sem lastro”, mas uma casa-ofício com estrutura mínima reconhecível. (HANSON, The Galilean Fishing Economy and the Jesus Tradition, 1997, pp. 99-111) Ele entra na narrativa como pai nomeado e como homem situado num trabalho real, com gente ao redor e com continuidade após a partida dos filhos; seu “silêncio” posterior nos Evangelhos não o apaga, antes o define como um personagem delimitado por um traço: permanece no barco — e esse barco, no texto, não é só madeira sobre água, é a linha de vida do seu cotidiano.
IV. Salomé e a órbita do discipulado: a família em torno de Jesus
O retrato bíblico de Zebedeu, quando se aproxima do fim do ministério terreno de Jesus, ganha uma moldura doméstica: ele não entra em cena como agente direto, mas como o nome que identifica a mãe de dois discípulos e, assim, liga a “casa” ao círculo do discipulado. Mateus registra “a mãe dos filhos de Zebedeu” entre as mulheres presentes na crucificação (Mateus 27:56). Marcos, no mesmo horizonte narrativo, nomeia “Salomé” no grupo que observa “de longe” (Marcos 15:40) e logo explicita o papel desse grupo: “As quais também o seguiam, e o serviam, quando estava na Galileia; e muitas outras, que tinham subido com ele a Jerusalém” (Marcos 15:41). A ligação entre “Salomé” e “a mãe dos filhos de Zebedeu” não é dita com todas as letras nesses textos (isso é uma inferência tradicional por paralelismo de listas), mas, mesmo quando se mantém a cautela, o dado decisivo permanece: o nome “Zebedeu” reaparece, aqui, como marcador de uma rede familiar que tocou a órbita de Jesus, e essa rede é descrita com o verbo “servir”, não apenas com o verbo “ver de longe”.
É importante olhar de perto o que Marcos chama de “serviam”, porque isso dá conteúdo ao modo como a família de Zebedeu é lembrada. No grego de Marcos 15:41, a ideia central está em “διηκόνουν” (eles serviam), forma verbal que, no contexto, descreve assistência concreta aos passos de Jesus: “διηκόνουν” (diēkonoun — “serviam/assistiam”). A mesma raiz verbal reaparece em Lucas 8:3, agora com um complemento que explicita o âmbito do serviço: “καὶ … πολλαὶ ἕτεραι αἵτινες διηκόνουν αὐτοῖς ἐκ τῶν ὑπαρχόντων αὐταῖς” (kai … pollai heterai haitines diēkonoun autois ek tōn hyparchontōn autais — “e muitas outras, as quais os assistiam a partir do que lhes pertencia / de seus recursos”). Quando se lê Lucas ao lado de Marcos, a palavra “serviam” deixa de soar genérica: ela pode incluir sustento, provisão e suporte de missão, sem reduzir-se necessariamente a “dinheiro na mão”, porque o genitivo “ἐκ τῶν ὑπαρχόντων” (“a partir do que possuem”) abre um leque de possibilidades reais de apoio.
Esse ponto aparece com clareza quando se compara a forma como as versões em português recortam a mesma frase de Lucas 8:3. A ACF mantém “muitas outras que o serviam com seus bens” (Lucas 8:3), preservando a imagem de “bens” como algo pertencente às mulheres. A NVI explicita o objeto plural do sustento: “Essas mulheres ajudavam a sustentá-los com os seus bens” (Lucas 8:3), o que torna ainda mais visível que o serviço podia alcançar também a comitiva, não apenas Jesus isoladamente. Essa nuance é útil para Zebedeu porque mantém o foco onde a Bíblia o coloca: ele é lembrado não por um discurso próprio, mas por uma identidade familiar que toca o discipulado e por um vocabulário (“servir”) que, nos Evangelhos, é suficientemente concreto para carregar a ideia de suporte real à missão, ainda que o texto não afirme nominalmente que Zebedeu, como indivíduo, tenha participado disso.
Quando se volta ao chamado dos filhos, o Evangelho de Marcos acrescenta um detalhe curto, mas revelador sobre o “mundo” em que Zebedeu existia: Tiago e João “deixando o seu pai Zebedeu no barco com os empregados, foram após ele” (Marcos 1:20). O grego nomeia esses “empregados” como “μισθωτῶν” (misthōtōn — “assalariados”), o que sugere uma estrutura de trabalho que vai além de uma pesca estritamente doméstica. Isso não prova, por si só, riqueza nem patrocínio (e não deve ser inflado), mas harmoniza o quadro: o nome “Zebedeu”, na narrativa, fica como a sombra de um pai deixado no barco e, mais tarde, como o vínculo pelo qual a mãe de seus filhos é vista entre aquelas que “seguiam” e “serviam” — e, em Lucas, esse “servir” é descrito como algo que brota “do que possuíam”.
V. O “pai de dois do círculo íntimo”: Zebedeu conhecido pelo caminho dos filhos
Mateus 10:2 fixa Zebedeu no texto não como protagonista, mas como “ponto de referência” para identificar Tiago: “Tiago, filho de Zebedeu, e João, seu irmão”. No grego, essa identificação aparece na forma patronímica “Ἰάκωβος ὁ τοῦ Ζεβεδαίου” (Iakōbos ho tou Zebedaiou — “Tiago, o de Zebedeu”, isto é, “Tiago, filho de Zebedeu”), onde o genitivo “τοῦ Ζεβεδαίου” (tou Zebedaiou — “de Zebedeu”) funciona como selo de distinção dentro da lista apostólica: o pai se torna o “nome-âncora” que separa este Tiago de outros Tiagos e, por consequência, faz com que Zebedeu exista na narrativa como identidade refletida, não como voz própria.
Mateus 17:1 descreve a subida ao monte com “Pedro, e a Tiago, e a João, seu irmão”. Aqui o pai não é nomeado, mas o efeito literário é precisamente esse: o texto pode silenciar “Zebedeu” porque ele já foi gravado como marca identitária do par fraterno em Mateus 10:2. O grego de Mateus 17:1 registra o trio com a mesma sobriedade: “Καὶ … παραλαμβάνει ὁ Ἰησοῦς τὸν Πέτρον καὶ Ἰάκωβον καὶ Ἰωάννην τὸν ἀδελφὸν αὐτοῦ” (Kai … paralambanei ho Iēsous ton Petron kai Iakōbon kai Iōannēn ton adelphon autou — “E … Jesus toma consigo Pedro e Tiago e João, seu irmão”), de modo que, no coração de um dos momentos mais altos da revelação de Cristo, a presença do “filho de Zebedeu” é real, mas o pai aparece apenas como sombra genealógica que identifica o discípulo.
Lucas 8:51 repete o mesmo desenho de intimidade: “a ninguém deixou entrar, senão a Pedro, e a Tiago, e a João”. O grego preserva o detalhe de exclusão (“não deixou entrar ninguém”) e a lista curta dos admitidos: “ἐλθὼν … οὐκ ἀφῆκεν … εἰ μὴ Πέτρον καὶ Ἰωάννην καὶ Ἰάκωβον” (elthōn … ouk aphēken … ei mē Petron kai Iōannēn kai Iakōbon — “tendo chegado … não permitiu … senão Pedro e João e Tiago”). Para o retrato de Zebedeu, isso é decisivo porque mostra que o nome do pai, quando aparece na narrativa, não serve para iluminar uma biografia independente, mas para fixar a identidade daquele Tiago que, repetidas vezes, é contado entre os poucos que “entram” onde a multidão não entra; é por esse caminho — o caminho dos filhos — que Zebedeu se torna um personagem textual.
Mateus 26:37 é o ponto em que o pai volta a ser dito com todas as letras já no limiar da paixão: “Pedro e os dois filhos de Zebedeu”. O grego traz a expressão de forma cristalina: “Καὶ παραλαβὼν τὸν Πέτρον καὶ τοὺς δύο υἱοὺς Ζεβεδαίου, ἤρξατο λυπεῖσθαι καὶ ἀδημονεῖν” (Kai paralabōn ton Petron kai tous duo huious Zebedaiou, ērxato lypeisthai kai adēmonein — “E, tomando consigo Pedro e os dois filhos de Zebedeu, começou a entristecer-se e a angustiar-se”). A fórmula “τοὺς δύο υἱοὺς Ζεβεδαίου” (tous duo huious Zebedaiou — “os dois filhos de Zebedeu”) não acrescenta um feito do pai; ela acrescenta uma moldura: identifica os dois como par, como irmãos, como unidade reconhecível, e faz com que Zebedeu reapareça precisamente quando o evangelista quer prender Tiago e João ao mesmo nó familiar — não para deslocar o foco do Cristo sofredor, mas para nomear, com rigor, quem são os poucos que foram “tomados consigo” naquele trecho do caminho.
Se for útil lastrear em pesquisa acadêmica o fato de que Tiago e João (explicitamente “filhos de Zebedeu” em Marcos 1:19–20) aparecem recorrentemente nesse “trio” de episódios decisivos, há estudos de leitura narrativa e discipulado em Marcos que assinalam a proeminência desse grupo — com Tiago e João, filhos de Zebedeu, no centro de cenas-chave como a filha de Jairo, a transfiguração e Getsêmani — como parte do modo como o evangelho organiza a compreensão do discipulado. (KGATLE, Discipleship understandings and misunderstandings in Mark 10:35-42, 2017, pp.185-204)
VI. Depois do chamado: o que o texto permite supor sobre a continuidade da pesca
No epílogo de João, Zebedeu reaparece do modo mais característico de todo o seu retrato bíblico: não como agente narrativo, mas como o nome que ancora a identidade dos filhos dentro do grupo reunido após a ressurreição. A ACF registra, entre os discípulos presentes, “os filhos de Zebedeu” (João 21:2). O texto grego correspondente é: “Ἦσαν ὁμοῦ Σίμων Πέτρος… καὶ οἱ τοῦ Ζεβεδαίου…” (Ēsan homou Simōn Petros… kai hoi tou Zebedaiou… — “Estavam juntos Simão Pedro… e os de Zebedeu…”, isto é, os seus filhos). O ponto fino aqui é que João não precisa dizer “Tiago e João” para fazer Zebedeu funcionar como marca de identificação: a expressão elíptica “οἱ τοῦ Ζεβεδαίου” (hoi tou Zebedaiou — “os de Zebedeu”) conserva o pai como referência viva na memória comunitária, como se o nome dele fosse, por si, suficiente para localizar aqueles dois no mapa da narrativa.
Em seguida, a cena avança com a decisão de Pedro — “Vou pescar” (João 21:3) — e com a resposta do grupo: “Também nós vamos contigo.” O grego resume a fala de Pedro numa fórmula curta e quase seca: “ὑπάγω ἁλιεύειν” (hypagō halieuein — “vou pescar”). O texto, porém, não declara por que os “filhos de Zebedeu” estão ali, nem o que essa pescaria significa em termos de “retorno definitivo” à antiga vida; isso seria inferência. O que ele realmente fixa é outra coisa, mais direta e mais fiel ao personagem: mesmo numa aparição do Ressuscitado, o pai continua sendo o modo de nomear os filhos, e isso faz Zebedeu permanecer “presente” na narrativa como identidade transmitida — um pai cuja biografia não é contada em atos, mas cuja memória é carregada no nome dos que o seguem.
Essa escolha joanina de mencionar “os filhos de Zebedeu” em João 21:2, sem ter usado essa designação antes no próprio Evangelho, é frequentemente notada em discussões acadêmicas sobre o capítulo 21 como epílogo e sobre como ele se conecta a tradições externas ao Quarto Evangelho. (NEIRYNCK, John 21, 1990, pp. 321-336) Nessa perspectiva, o nome “Zebedeu” funciona como um ponto de contato inter-evangélico: ele não “cresce” em detalhes biográficos novos, mas opera como uma assinatura reconhecível que amarra aqueles discípulos ao seu pai, mantendo-o como referência mesmo quando o texto não o traz para a cena.
VII. O que a Bíblia não diz sobre Zebedeu: limites e honestidade exegética
Nos textos onde Zebedeu de fato aparece como personagem “no quadro”, ele é apresentado em silêncio e em repouso narrativo: Jesus “viu… Tiago, filho de Zebedeu, e João… num barco com seu pai, Zebedeu” (Mateus 4:21–22) e, logo depois, os dois “deixando imediatamente o barco e seu pai, seguiram-no”. No grego, a cena prende Zebedeu numa moldura simples: “μετὰ Ζεβεδαίου τοῦ πατρὸς αὐτῶν” (meta Zebedaiou tou patros autōn — “com Zebedeu, o pai deles”) e, na partida, “ἀφέντες… τὸν πατέρα αὐτῶν” (aphentes… ton patera autōn — “deixando… o pai deles”). Marcos reforça a mesma economia de informação: “deixando o seu pai Zebedeu no barco com os empregados” (Marcos 1:19–20). No grego, a frase é direta e fechada: “ἀφέντες τὸν πατέρα αὐτῶν Ζεβεδαῖον… ἀπῆλθον” (aphentes ton patera autōn Zebedaion… apēlthon — “deixando o pai deles, Zebedeu… foram”), sem qualquer verbo que descreva reação dele, sem fala atribuída, sem gesto, sem juízo. É precisamente aí que se percebe o limite: a Bíblia não diz que Zebedeu protestou, aprovou, compreendeu, resistiu, se converteu, passou a seguir Jesus, financiou o grupo, rompeu com os filhos, ou renegociou o futuro da casa; tudo isso seria preencher o silêncio com imaginação. O texto só deixa ver Zebedeu como pai presente no momento do chamado, e depois como pai “deixado”, sem comentário.
Fora desse instante, Zebedeu continua existindo quase sempre como nome de identificação familiar, e isso também impõe fronteiras. João, no epílogo, não apresenta Zebedeu como alguém “na praia” nem como membro do círculo; ele apenas lista “os filhos de Zebedeu” entre os discípulos reunidos (João 21:2). No grego, a elipse é ainda mais forte: “οἱ τοῦ Ζεβεδαίου” (hoi tou Zebedaiou — “os de Zebedeu”). Isso não acrescenta um novo dado biográfico sobre o pai; preserva apenas o valor do seu nome como “marca” reconhecível dos filhos. A Bíblia, portanto, não oferece idade, trajetória espiritual, local de sepultamento, descendência além de Tiago e João, nem qualquer participação direta dele nos acontecimentos da paixão, ressurreição ou missão apostólica; ela o deixa como contorno paterno, e o contorno, por definição, não autoriza pintura de detalhes.
