terça-feira, agosto 07, 2018

Mateus 6:16-34 — Comentário Católico

Riquezas, Luz e Trevas, Ansiedade (6,16-34)

Riquezas, Luz e Trevas, Ansiedade (6,16-34)

O jejum é uma prática religiosa comum e pode ser público ou privado. O sermão pressupõe sua legitimidade. Em Mc 2,18-20 (= Mt 9,14-15), os discípulos são aconselhados a não jejuar enquanto Jesus estivesse vivo, mas sua legitimidade subsequente é reafirmada. Os judeus não têm uma época de jejum como a quaresma, mas têm alguns dias de jejum comunitário, especialmente o Yom Kippur, o dia da expiação; e o nono dia de Abib. Segundo Did 8,1, os judeus jejuavam em segredo às segundas e quintas-feiras, ao passo que os cristãos escolheram as quartas e sextas-feiras (esta última em memória do sofrimento de Jesus). O jejum era compreendido como a humilhação da pessoa diante de Deus (Is 58,3-9), como uma oração de fortalecimento (Tb 12,8; 2Cr 20,3), como relacionado ao dar esmolas (“O mérito de um jejum é proporcional à caridade dispensada”, b. Ber 6b), como uma expressão de pesar (Mt 9,14-15). 16. eles desfiguram seu rosto: Há um jogo de palavras no grego entre aphanizousin, “desfigurar”, e phanõsin, “percebido”. 17. lava teu rosto: Este versículo é construído quiasticamente e parece contradizer m. Yoma 8,1, que diz que não se deve lavar o rosto nem ungir a cabeça no dia da expiação. 18. para que os homens não percebam: Os detalhes não são importantes desde que o essencial seja sustentado, a saber, que o jejum se dirige verdadeiramente a Deus, não aos seres humanos. Ele requer fé (veja Moore, Judaism 2. 55-69,257-66; TDNT 4.924-35). Esta parte do sermão contém instruções adicionais sobre como amar a Deus de todo o coração (v. 21), sobre os dois yèsãrím (v. 24), sobre a alma (i.e., vida, v. 25) e sobre a força (riqueza, nos vv. 19-34); cf. Dt 6,5. Também é compreendida como uma lista de ações de amor e bondade (m. ‘Abot 1,2), ou como um comentário à segunda parte da oração do Pai-Nosso: pão (6,19-34), perdão (7,1-12), tentação (7,13-20), libertação do mal (7,21-27) (Grundmann, Bornkamm, Lambrecht). As primeiras duas unidades menores, os vv. 19-21 e os vv. 22-23, contêm um ensinamento sapiencial sobre os verdadeiros valores, expressos por meio de duas imagens.

Um dito de Q consideravelmente retrabalhado a partir da forma preservada em Lc 12,33-34. Formalmente a unidade consiste de uma ordem negativa e uma positiva, seguidas por um provérbio que justifica as ordens. O todo é organizado quiasticamente em Mateus. 19. tesouros: Um interesse de Mateus; cf. 13,44. Nos vv. 19-20, a contraposição é entre tesouros corruptíveis e incorruptíveis. Este ensinamento não deveria ser espiritualizado excessivamente de uma maneira platônica e exclusivamente extramundana. E melhor compreender o texto como se referindo aos tesouros que são experimentados nesta vida, mas continuam sendo valiosos na eternidade. Cf. m. Pe’a 1,1: “Estas são coisas cujo fruto apreciamos neste mundo, enquanto um lugar nos é preparado no mundo que está por vir: honrar o pai e a mãe, fazer as ações de bondade e de amor e promover a paz entre um homem e seu próximo; e o estudo da lei conduz todos a tudo isso”. Cf. Eclo 20,30 e 41,14. 43 (b) O olho é a lâmpada do corpo (6,22­ 23). Derivada de Q, esta forma é mais breve e talvez mais original que Lc 11,34-36. Há uma estrutura quadripartida: uma definição, seguida por duas sentenças condicionais num paralelismo antitético, e então uma oração condicional final que termina com uma ominosa pergunta aberta. Para o pano de fundo do AT, veja Pv 22,3; Eclo 13,25s.;14,8.10; também T. Benj. 4; m. ‘Abot 2,8-9 diz: “O rabino Yohanan ben Zakkai disse a seus cinco discípulos: ‘Vão e vejam o melhor caminho que o homem deve seguir’. O rabino Eliezer disse: ‘Um olho bom’. O rabino Eleazar disse: ‘Um coração bom’.” Eleazar é quem vence. Mateus e o provérbio de ‘Abot, embora usem terminologia diferente, concordam no ponto principal: o fundamento da existência pessoal deve ser íntegro. Se a orientação básica de sua vida, sua opção fundamental, é íntegra, os resultados em sua totalidade serão positivos. Este ensinamento pode ser abusado, mas, ao ser usado de uma maneira correta, pode poupar o crente de escrúpulos falsos ou desnecessários, se o teu olho estiver são: O termo grego para “são” poderia também ser traduzido como “único”, “íntegro”, “indiviso”, “perfeito” (ver 5,48). O termo aponta para a unicidade de propósito, pureza de coração (5,8), lealdade indivisa. Mas frequentemente temos uma alma ambígua (Tg 1,7-8). Devemos receber esta integridade e harmonia da alma como um dom. (Para o pano de fundo helenístico, veja H. D. Betz, Essays on the Sermon on the Mount [Philadelphia, 1985] 71-87).

Significado: Mateus 1 Mateus 2 Mateus 3 Mateus 4 Mateus 5 Mateus 6 Mateus 7 Mateus 8 Mateus 9 Mateus 10 Mateus 11 Mateus 12 Mateus 13 Mateus 14 Mateus 15 Mateus 16 Mateus 17 Mateus 18 Mateus 19 Mateus 20 Mateus 21 Mateus 22 Mateus 23 Mateus 24 Mateus 25 Mateus 26 Mateus 27 Mateus 28

Este é um outro dito de Q (veja Lc 16,13). Ensina novamente a impossibilidade de servir a Deus com um coração dividido ou, positivamente, a necessidade de tomar a decisão fundamental de amar a Deus sobre todas as coisas e todas as outras coisas somente na medida em que se ajustam a este amor fundamental. O “senhor” rival pode ser qualquer coisa ou qualquer pessoa, mas no final do versículo é dado um exemplo, “mamon”, uma palavra semítica para designar dinheiro ou riqueza. Este versículo oferece um comentário sobre Dt 6,5; cf. Mt 19,22.23; m, Git. 4,5. 45 (d) Cuidado e ansiedade (6,25-34). Esta seção consiste de material que procede de Q, com exceção do v. 34 e alguns toques redacionais. Este ensinamento pressupõe uma situação de prosperidade na Galileia e seria insensível em lugares ou situações de indigência. Talvez reflita o interesse de um jovem em descobrir os limites da existência humana, as reais necessidades e os verdadeiros valores da vida. Comenta sobre necessidades humanas básicas, como comer, beber, vestir-se (menos o abrigo, que não era tão urgente no Oriente Próximo) na medida em que podem se transformar em ídolos ou fetiches. (Calvino definiu um ídolo como qualquer coisa que se interponha entre nós e Deus; neste sentido, a mente humana é uma fábrica de ídolos). Um termo-chave perpassa todo o texto, merimnaõ, “ser ansioso”. De acordo com N. Baumert (Ehelosigkeit und Ehe im Herrn [FB 47; Würzburg, 1984] 479-504), este termo não significa “ser ansioso”, mas “considerar”, “pensar sobre”, aqui no sentido de “estar preocupado com” ou “absorvido por”. Os versículos 25 e 34 formam uma inclusio. H. D. Betz acredita que toda a passagem é uma apologia da providência divina em face de uma crise de fé na providência. A passagem é uma combinação de teologia sapiencial e escatologia. A ordem natural é boa, mas esta perspectiva não se baseia em Gn 1 e sim na experiência diária. A natureza não é romantizada; há perigos, como a chuva, a inundação, a tempestade. Mas a paternidade de Deus faz o mundo resistir e dá a possibilidade da conversão da tolice humana e do pecado. A fé na providência está arraigada em um relacionamento especial com Deus, de filhos (e filhas) do Pai celestial. O comportamento ético consiste em aprender a maneira com que Deus ama e preserva sua criação. 28. não trabalham nem fiam: Talvez aqui os dois verbos reflitam o trabalho do campo para os homens e o trabalho doméstico para as mulheres. Embora não seja óbvio que tal distinção fosse observada no Oriente Próximo, o texto trata ambos os tipos de trabalho de maneira igual. 33. em primeiro lugar, seu Reino e sua justiça: Este verso é o clímax do capítulo. O objetivo final de todas as nossas ações deve ser o valor supremo, o reino de Deus, que aqui é definido como justiça (cf. Rm 14,17 e Mt 6,10). A função literária do versículo é ligar os vv. 19-34 ao restante do sermão, uma função semelhante à de 5,20 e 6,1. “Em Mateus, buscar o reino e buscar a justiça não são duas buscas distintas; ele quer dizer que não há busca autêntica do reino exceto numa busca cujo objetivo imediato seja a justiça” (Dupont, Béatituães 3. 297). A justiça visada não é só uma justiça em Deus, mas uma justiça que nós mesmos devemos produzir na terra.