2011/03/12

Evangelho de João — O Gnosticismo

Gnosticismo no Evangelho de João

Gnosticismo no Evangelho de João

Talvez o ponto de maior controvérsia nos estudos do quarto Evangelho seja o relacionado a uma heresia denominada gnosticismo. Há pouca dúvida de que o gnosticismo de alguma maneira tenha tido uma influência sobre o quarto Evangelho, mas é difícil de se determinar até que ponto. Alguns estudiosos diriam que esta é a única chave para a interpretação deste Evangelho. Outros diriam que a influência é apenas indireta. Provavelmente, a maior controvérsia entre os escritores modernos seja definir os estágios de desenvolvimento do gnosticismo, os problemas da origem e graus de desenvolvimento durante o primeiro século. Deve ser lembrado que as conquistas de Alexandre ocasionaram uma miscigenação de culturas, que dantes não fora possível. Desde o quarto século antes de Cristo e pelo tempo inteiro do Império Romano, estava ocorrendo uma amalgamação de pensamento religioso. As religiões exóticas orientais entram em contato com as religiões pastorais e filosofias do mundo ocidental, ocorrendo uma mistura. Foi durante esses séculos também que as crueldades políticas e sociais se tornaram comuns. Foi estimado que acima de sessenta por-cento da população do Império Romano do primeiro século era de escravos. Com uma mistura de religiões ocorrendo, parece como se o gnosticismo tivesse seus primórdios nas tentativas de explicar as origens do mal e do sofrimento: tentativas de se dar sentido àqueles que estavam vivendo sob as pressões quase impossíveis daquela era. Emergiu uma visão geral do mundo, que começou a enfatizar um dualismo entre o mundo dos sentidos físicos e o mundo eterno do espiritual, o não-físico.

Deve ser entendido que isto foi uma espécie de consenso da opinião mundial, e não de algum grupo nem de uma área geográfica. Esta idéia de dualismo, que encontrou pronta aceitação entre os povos sofredores, desenvolveu-se de uma idéia muito simples para uma doutrina estabelecida, do segundo século depois de Cristo. O grau de desenvolvimento durante o primeiro século é de grande importância para o estudante do Novo Testamento. Por esta razão, os estudos recentes acentuaram a necessidade de se distinguir entre a doutrina no início de seu desenvolvimento e a doutrina final já desenvolvida. A maior parte da literatura do gnosticismo é preservada no Mandaísmo. Os documentos desse grupo remonta ao oitavo século e podem ser de bem pouco uso na comparação com os documentos do Novo Testamento. Os documentos de Qumran mostraram que muitos dos conceitos básicos mais simples eram conhecidos naquela comunidade pré-cristã. O quarto Evangelho parece ter estado familiarizado com algumas das idéias mais elementares do gnosticismo em suas formas nascentes ou incipientes. Pode-se também ver que algumas das epístolas de Paulo (especialmente a Epístola aos Colossenses e talvez Efésios) refletem quase que a mesma espécie de gnosticismo que João. A grande preocupação de João parece ser a de corrigir a ênfase gnóstica em desenvolvimento, sobre as coisas concernentes ao outro mundo, demonstrando o papel do Lógos na criação e na salvação, esta sendo feita através da encarnação do Lógos no Jesus histórico. O conhecimento de Deus não leva a uma fuga do mundo (João 17:15), mas leva a uma vida de serviço no mundo (João 13:1-20). É melhor concluir que algumas das idéias que definitivamente iriam formar uma parte integrante do gnosticismo existiam quando João escreveu. Falta completamente a evidência de que o gnosticismo era um conceito filosófico ou religião desenvolvida antes do final do primeiro século, ou que seja encontrado como desenvolvido em João.

A literatura Hermética foi sugerida como uma das influências havidas sobre o autor do quarto Evangelho. Embora seja reconhecido que essa literatura veio a existir somente no terceiro século, os conceitos nela contidos são ditos serem um tanto paralelos ao pensamento joanino. Essa literatura é uma compilação dos tratados religiosos, feita por certo Hermes Trismegisto de Alexandria. Como o fez Filo, essa literatura mostra uma grande quantidade de assimilação de muitos dos filósofos e religiões gregas. Embora existam algumas idéias e vocabulário paralelos ao quarto Evangelho, muitas das idéias básicas da Hermética estão ausentes em João. Os aspectos característicos de João não são encontrados nessa literatura. A afinidade entre João e a Hermética encontra-se, provavelmente, na ligação que cada uma dessas obras tem com a Septuaginta.

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