2015/12/30

Andar sobre as águas

Andar sobre as águas
Andar sobre as águas


Ver Mat. 14:22-27, Mar. 6:45,46 e João 6:15-21. As diversidades contidas nos relatos provavelmente indicam que a história foi preservada em mais do que uma fonte na tradição primitiva evangélica, antes da formação dos Evangelhos canônicos. Tanto em Marcos quanto em João, a história está vinculada na sequência com a multiplicação miraculosa; e disso obtemos a impressão de que o grande Cristo, que pode multiplicar pães, também pode vencer a força da gravidade, e andar por sobre a água. Não há motivo para duvidarmos disso, pois até hoje, entre os fenômenos psíquicos, tal fenômeno não é de todo desconhecido.

O homem Jesus, por ser altamente espiritualizado, devido às operações do Espírito Santo, na realidade prática nem pertencia a este mundo, tão grande era o seu desenvolvimento, que ele demonstrou ocasionalmente. Interpretações céticas também são apresentadas neste ponto, por aqueles que ignoram o que pode ser feito mediante o desenvolvimento espiritual, ou por aqueles que estão cegos para a significação de tal desenvolvimento. Jesus teria andado “através” da água e não “sobre” a água; mas os discípulos se equivocaram sobre o que sucedeu. Tais ideias não merecem nossa consideração, e refletem a ignorância do ceticismo quanto às realidades espirituais. Agostinho dizia que somente na “fé”, é que uma mente está em condição de acolher a verdade espiritual, pois o ceticismo resulta do fato de que a verdade espiritual foi amortecida para os céticos. Por isso é que ele dizia: Creio, para que possa entender. Sem dúvida temos nisso grande verdade espiritual. A experiência humana demonstra tal coisa. Os místicos que podem ver a aura humana (a qual atualmente pode ser fotografada por um tipo de radiografia) dizem-nos que as auras dos céticos são manchadas com máculas negras e sem cor, ilustrando o fato de que suas faculdades espirituais foram prejudicadas. Quão certo estava Agostinho, mesmo sem qualquer prova científica.

Este milagre, tal como o da multiplicação dos pães, tem atraído muita atenção, bem como grande número de interpretações. As principais são representadas pelas seguintes ideias:

1. Interpretação às vezes denominada monofisista, porque os monofisistas ensinavam que Cristo possuía apenas um a natureza, com posta da divina e da humana. Parte da igreja cóptica manteve essa crença. Essa interpretação diz que o Filho de Deus exercia controle sobre os elementos da natureza por ser Deus e homem. Essa doutrina não dá muita importância à natureza humana de Jesus, e pode incluir a ideia de docetismo (palavra que vem do verbo grego que significa “perecer”), que indica que o corpo de Cristo, nessa aparição, era apenas uma miragem, e não um autêntico corpo humano. Mas o texto indica, aqui, que Jesus não somente tinha poder sobre as forças da natureza, mas também sobre o seu próprio corpo. As Escrituras ensinam que Jesus foi homem verdadeiro, dotado de um corpo humano.

2. Alguns interpretam que Jesus realmente não andou sobre a superfície do mar, mas que somente dava aos discípulos a impressão de andar sobre o mar, quando a realidade é que andava sobre a terra, à beira-mar, ou então em água muito rasa. Mas o próprio texto impossibilita essa interpretação. O grego diz que ele andou “sobre” o mar, e seria impossível fazer isso significar sobre a terra ou em água de pouca profundidade. Por semelhante modo, o incidente da tentativa de Pedro em fazer a mesma coisa, e o fato de que eles conversaram, ilustra a impossibilidade de se crer que essa conversa, e a atitude de Pedro, tivessem lugar enquanto Jesus ficava em terra, ao passo que Pedro estava a “muitos estádios” da terra.

3. Outros pensam que a ocorrência foi modificada pelo autor do evangelho, e que representa um acontecimento comum, onde não houve qualquer milagre, mas que a tradição floreou o incidente. Parece que seria melhor dizer (pelo menos haveria mais razão nisso) que a ocorrência foi invenção do autor (ou dos três autores, ou pelo menos que isso foi aceito por três pessoas, Mateus, Marcos e João), pois é difícil entender como é que um acontecimento sem qualquer elemento fora do comum poderia provocar tantas modificações ao ponto de transformar-se em um dos milagres notáveis de Jesus.

4. Um intérprete sugere que Jesus apenas nadou! Mas essa interpretação refuta a si mesma.

5. Outros oferecem a interpretação mitológica,  uma história marinha, como muitas outras, com possíveis reflexos de II Reis 2:14; 6:6 e Jó. 9:8, além de certos mitos estrangeiros.

6. Alguns pensam que Cristo manifestou poderes especiais, inerentes à natureza superior de sua corporalidade.  Mas as Escrituras nunca indicam que Jesus tivesse um corpo diferente do homem comum, e a sua morte parece deixar isso bem patente.

7. Alguns expositores interpretam a história como se fora uma alegoria que apenas anota certas lições espirituais, sem aceitar a narrativa como acontecimento histórico.

8. Sabemos, por incidentes modernos de pessoas chamadas sonâmbulas que andam pelas vizinhanças, em estado de sono ou transe, que andar sobre a água não é algo impossível p ara a natureza humana. Outros, mesmo não estando em estado de transe', têm demonstrado essa habilidade, e isso deve ser incluído nas manifestações psíquicas, sobre as quais até hoje não sabem os muito. Pelo menos parece que essa façanha não é impossível à natureza humana, sob determinadas condições.

Alguns expositores não aceitam essa ação como algo possível à natureza humana, mas pensam que tais pessoas devem contar com a ajuda de algum poder externo,  como o dos demônios, etc. Mas, quando entram os nessas discussões, entram os na esfera das especulações, porque simplesmente não temos conhecimento suficiente sobre a questão para afirmar muitas coisas. Porém, é errôneo atribuir ao diabo tudo quanto não entendemos. Lembremo-nos que os antigos atribuíam o relâmpago e o trovão a deuses bons ou maus. Em geral, os estudos psíquicos ilustram o fato de que a personalidade humana é muito mais poderosa do que se tem pensado até hoje e que parecem quase não ter limites as possibilidades da personalidade humana. Isso seria ainda mais evidente não fora o peso e os efeitos do pecado, dos quais Jesus estava isento. E quem pode negar que, na transformação à imagem de Cristo, o homem adquirirá muito maior poder do que a capacidade de caminhar sobre a água? Também precisamos lembrar que o Cristo estava em processo de transformação espiritual, sendo homem, e assim ia adquirindo maior poder, dia-a-dia. Não nos olvidemos, ainda, que os poderes por ele adquiridos tornavam-se expressões permanentes de sua personalidade. (Ver Heb. 5:8,9).

Por outro lado, a verdade é que esse desenvolvimento era espiritual, mediante a participação no poder do Espírito Santo. Através do conhecimento que tem os até o presente, talvez possamos asseverar que o milagre aqui realizado por Jesus foi resultado direto da influência divina sobre ele (talvez o uso direto desses poderes de sua própria natureza como Deus), mas é verdade, igualmente, que a transformação do ser humano, pelo poder de Deus, enquanto o homem está no processo do retomo a ele, fará com que o homem se tome mais e mais uma pessoa capaz de fazer tais maravilhas. Ler notas sobre Romanos 8:29 no NTI. Ver comentários sobre a nossa participação na divindade em II Ped. 1:4 no NTI. Também notamos que dois dos evangelhos sinóticos, Mateus e Marcos, têm a mesma história em conjunto com o evangelho de João. Assim sendo, a suposição de alguns intérpretes, que dizem que somente João exagerou os elementos miraculosos na vida de Jesus, não têm base. Talvez a diferença entre os evangelhos, nesse sentido, não seja tão grande como alguns têm imaginado.

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