2019/08/13

Estudo sobre Gênesis 1

Estudo sobre Gênesis 1

Gênesis 1
I. OS PRIMÓRDIOS DA HUMANIDADE (1.1—11.32)
Não importa o ponto de vista que se defenda acerca da relação entre os dois relatos da criação (Introdução, Os problemas principais de Gênesis, A 1), é claro que o primeiro é escrito do ponto de observação de Deus, enquanto o homem é o centro do segundo relato. Enquanto o primeiro conduz à criação do homem, o seu clímax é a satisfação de Deus como é expresso no sábado. No segundo, o clímax é a satisfação do homem quando ele encontra a sua complementação na mulher. Só mesmo considerações a priori vão nos levar a duvidar de que o segundo relato veio a nós em sua essência diretamente do próprio Adão; o primeiro é obviamente revelação direta.
1) a) A criação do ponto de vista de Deus (1.1—2.3)
A sugestão de que Gênesis provém da mitologia acadiana ou sumeriana mostra somente como a recusa de aceitar a revelação leva o ser humano à insensatez. Não se faz sugestão alguma acerca de como todo o politeísmo grosseiro foi eliminado de poemas como Enumaelish (DOTT, p. 5-13, ou A. Heidel, The Babylonian Genesis) e de como, no processo, foi estabelecida uma ordem de criação, singular na literatura antiga e não imaginada por ninguém fora da tradição hebraica até tempos modernos. Não sabemos a quem a revelação foi dada. Se preenchemos a lacuna com o nome de Moisés é porque não sabemos de nenhum outro mais adequado. Também é impossível dizer se a revelação foi puramente verbal ou principalmente visual. Há muito a favor do segundo ponto de vista, o que poderia significar que os sete dias foram dias de revelação, mas precisamos insistir em que esse ponto de vista, como qualquer outro, não pode ser provado.
O capítulo começa com a simples afirmação: “No princípio Deus criou (bãrã’) os céus e a terra”. Como em Jo 1.1, não há artigo definido antes de “princípio”; a revelação se ocupa somente com este mundo e com todo o espaço que está estreitamente ligado a ele, “os céus e a terra”. Embora obviamente devamos deduzir que tudo o que foi criado antes, como os seres angelicais, foi igualmente obra exclusiva de Deus, a história, como toda a Bíblia, se limita à área da experiência e atividade humanas (cf. Dt 32.8).
A tradução proposta pela NEB, GNB, RSVmg, Speiser e muitas outras versões modernas remonta aos comentaristas judeus medievais e é gramaticalmente possível. Mas é pouco provável que um capítulo escrito num estilo tão bem elaborado como o de Gn 1 começasse com uma frase tão confusa.
O verbo traduzido por bãrã que ocorre 44 vezes no AT, é usado somente para a atividade de Deus e denota “a produção de algo fundamentalmente novo, por meio da ação de um poder criador soberano, transcendendo completamente o poder que o homem possui” (Driver); ele contém “tanto a idéia de total falta de esforço quanto a de creatio ex nihilo, visto que nunca está relacionado a nenhuma menção do material” (Von Rad). Esse verbo é usado em 1.21,27 acerca da introdução de um novo princípio na obra da criação. Embora o versículo de abertura possa ter a intenção de introduzir a narrativa como um todo, é mais provável que se refira ao começo do processo criativo.
Pessoas de perspectivas muito diferentes têm argumentado que não podemos conceber a criação a partir do caos — “sem forma e vazia” —, apelo que muitas vezes é feito com base em Is 45.18. Muitos têm usado esse argumento para justificar a tradução “e a terra se tomou sem forma e vazia”, implicando com isso a destruição da criação original, mas essa versão é diretamente contrária à sintaxe hebraica. Aliás, o uso de “caos” prejulga o argumento. Quando o material para a formação do mundo veio à existência, somente o olho de Deus era capaz de discernir o seu propósito final. Por seu Espírito, ele estava separando o material (v. 2). Há pouco a favor da tradução “um forte vento” (NEB, Speiser, von Rad); nas relativamente poucas passagens poéticas em que “Deus” é usado como um superlativo, o contexto normalmente deixa isso claro. O sentido é transmitido de forma excelente na expressão “o poder de Deus” (nota de rodapé da BLH). A palavra para “abismo” {fhôrri) é associada pela maioria dos estudiosos a Tiamat, a deusa do caos na mitologia babilónica. Isso é provável, mas os profetas de Israel estavam tão convictos da onipotência de Javé que eles nunca hesitavam em usar antigos termos mitológicos como metáforas mortas.
O primeiro dia (1.3-5)
A luz é um dos atributos extraordinários de Deus (Jo 1.4,5; ljo 1.5; 2Co 4.6). Não há indicação alguma de onde possa ter vindo a luz ou de como a escuridão podia coexistir com ela (cf. Jo 1.5). A escuridão persiste na área delimitada a ela por Deus, até que na consumação a noite desaparecerá (Ap 21.25; 22.5). O fato de que a luz é louvada, e não a escuridão, mostra que o método que Deus utiliza na criação inclui a eliminação gradual do que é imperfeito. Isso também é indicado pela seqüência “noite [...] manhã” (v. 5), apontando para o desenvolvimento crescente do menos perfeito para o mais perfeito. O método judaico posterior de contar o dia a partir do pôr-do-sol deve ter sido deduzido de Gn 1, e não o contrário.
v. 3. E Deus disse: o que é dito deve expressar o pensamento e a vontade de quem fala (cf. Jo 1.1 ss). Isso é especialmente verdadeiro em relação ao hebraico, em que dabar significa tanto a palavra quanto a coisa citada. Para Deus, não há lacuna entre pensamento, palavra e resultado.
v. 4. a luz era boa (heb. tôb): nós usamos “bom” para expressar a nossa aceitação; quando esse termo se aplica à opinião de Deus, significa conformidade com a sua vontade. A luz era exatamente como ele queria que ela fosse.
O segundo dia (1.6-9)
A separação entre a atmosfera e o mundo. Para uma compreensão apropriada, precisamos lembrar que o hebraico não tem uma palavra para “gás”, um termo relativamente recente, v. 6. firmamento (no sentido de “espaço, vastidão”) é uma boa tradução para rãqia‘\ essa versão vem por meio da VA, vindo do latim da Vulgata. “Abóbada”, como aparece em algumas versões, é apenas interpretação. Is 40.22 mostra que o AT não está necessariamente pensando em uma abóbada sólida. Aqui (v. 7) e nos v. 16,21,25 (“fez”, “criou”, “fez”), vemos o ato criativo de Deus junto com o seu falar. A explanação mais natural seria que essa ligação se refere à atividade contínua de Deus trabalhando em algo que viera à existência por meio de sua ordem. Isso daria espaço para o desenvolvimento desejado e orientado por Deus daquilo que ele tinha chamado à existência.
Não há elogio ao trabalho do segundo dia, provavelmente porque foi concluído no terceiro dia.
O terceiro dia (1.9-13)
O aparecimento de terra seca. v. 11. vegetação: “relva” (ARA) inclui as formas mais primitivas de plantas em crescimento; por isso Speiser: “Que a terra irrompa em crescimento”.
O quarto dia (1.14-19)
E aqui que em geral os leitores atuais se afastam de Gênesis. Para eles, é absurdo que o sol e a lua tenham vindo a existir depois do aparecimento da terra. As respostas conservadoras mais comuns, e.g., que o sol não tinha se tornado visível até então porque as nuvens encobriam a terra, ou que na verdade o v. 16 é retrospectivo (Leupold), têm a desvantagem de não serem demonstráveis e de serem inaceitáveis para o cético. Devemos observar que “luminares” (v. 14,16) é uma melhor tradução do que “luzes”, como também “lâmpadas” (Von Rad) seria uma boa opção. Ou seja, esses objetos devem ser considerados transmissores, e não geradores de luz. Isso e o fato de o sol e a lua não serem citados pelo nome mostra que há uma diminuição intencional da sua importância numa época em que eram adorados quase no mundo todo. Eles são mencionados em virtude da função que realizariam como guias para os grandes e cruciais ritmos de vida, que têm maior importância para os animais do que para os vegetais. Esse ponto de vista não contradiz a afirmação freqüente de que a obra do quarto dia é paralela à do primeiro (e.g., Kidner).
O quinto dia (1.20-23)
Gn 1 não discute o problema de onde exatamente a vida começa. Para Gênesis, como para o AT em geral, a vida implica a possibilidade de ação e de escolha. Assim, temos o termo “seres vivos” (ARC, “alma vivente”— nephes hayyãh), usado expressamente para se referir ao homem em 2.7, aplicado a toda a criação animal, com a sua habilidade de criar vida nova (cf. 2.7; 7.22).
Assim, estamos tratando com uma evolução totalmente nova na história da atividade de Deus, e por isso temos a palavra criar (bãrã) mais uma vez, embora não haja indicação alguma da natureza exata da ação de Deus. v. 20. aves: lit. coisas com asas; o termo inclui tanto os dinossauros alados que precederam as verdadeiras aves quanto os insetos.
O sexto dia (1.24-31)
No sexto dia, o trabalho do quinto é continuado em nível mais elevado. A classificação dos animais é funcional, e não científica, ou seja, os que seriam domesticados (rebanhos domésticos), animais selvagens e animais menores (os demais seres vivos da terra). Aí há uma interrupção brusca. Em vez da ordem divina e a associação com o que já existe, e.g., “produza a terra”, há um ato de Deus para o qual ele chama a atenção: façamos o homem (v. 26). Leupold ainda defende com veemência o ponto de vista tradicional cristão de que o plural faz menção da Trindade. Isso não deveria ser completamente rejeitado, mas nesse contexto não é convincente. A interpretação rabínica de que Deus está falando com os anjos é mais interessante, pois a criação do homem os afeta (SI 8.5; ICo 6.3), cf. Jó 38.7. Mas não há sugestão aqui de que tenha havido cooperação dos anjos. O plural provavelmente tem a intenção de chamar a atenção para a importância e a solenidade da decisão de Deus.
O elemento novo na criação do homem foi que ele seria formado “à sua imagem, à imagem de Deus”, o que seria demonstrado acima de tudo no seu domínio sobre a criação animal (v. 26). No contexto imediato, isso foi demonstrado na sua habilidade de ter comunhão com Deus; em última análise, e talvez o aspecto mais importante, isso fez possível a encarnação da Palavra de Deus. Outras implicações se tornaram claras à medida que a revelação continuou.
Há uma tendência bem difundida de considerar o homem como, em certo sentido, intrinsecamente superior à mulher. Acerca dos efeitos da Queda sobre o relacionamento entre o homem e a mulher, v. o comentário de 3.16. No propósito de Deus, no entanto, o masculino e o feminino são parte da imagem de Deus no ser humano. A parceria, a igualdade e a subordinação voluntária resultantes são em certa medida a revelação da natureza trina de Deus.
A conclusão divina tudo havia ficado muito bom (v. 31) leva muitas pessoas a imaginar condições paradisíacas em toda a terra. Mas isso não significa nada mais do que conformidade com o plano de Deus; cf. o comentário do v. 4. Deveriamos dar o devido valor aos termos usados no v. 28 subjuguem (kãbas), lit. “pisar em”, e dominem sobre (rãdãh), lit. “esmagar com os pés”. Esses termos mostram que Deus estava incumbindo o homem de uma grande tarefa. Não podemos pressupor com base no v. 30 que na criação original não houvesse carnívoros (embora isso seja defendido por Leupold).



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