1 Pedro 1: Significado, Explicação e Devocional

1 Pedro 1

1 Pedro 1 aborda temas como salvação, fé, esperança e santidade no contexto da vida cristã. Ele oferece encorajamento e exortações aos crentes que estão enfrentando provações e desafios. O capítulo começa com Pedro dirigindo sua carta aos exilados eleitos espalhados por várias regiões. Ele enfatiza seu status escolhido e sua santificação pelo Espírito Santo para obediência a Jesus Cristo.

Pedro louva a Deus pela viva esperança e herança que os crentes têm através da ressurreição de Jesus Cristo. Apesar de enfrentar provações, sua fé em Cristo leva a uma alegria genuína que supera as circunstâncias temporárias. O autor ressalta o valor da fé em meio às provações, afirmando que a fé é testada para resultar em louvor, glória e honra na revelação de Jesus Cristo. Ele também discute o conceito de salvação, indicando que os profetas e anjos ansiavam por compreender a graça concedida aos crentes.

O capítulo encoraja os crentes a colocarem sua esperança totalmente na graça que será revelada na revelação de Jesus Cristo. Pedro os exorta a viver em santidade, evitando a conformidade com a ignorância anterior e seguindo o exemplo de Deus que é santo. O autor enfatiza a preciosidade do sangue de Cristo, descrevendo-o como um cordeiro sem defeito ou mácula. Através do sacrifício de Cristo, a fé e a esperança dos crentes estão em Deus.

1 Pedro 1 aborda temas de salvação, fé, esperança e santidade. O capítulo encoraja os crentes a suportar as provações com fé, resultando em alegria e na revelação de Jesus Cristo. Enfatiza o valor de viver em santidade e estabelece uma base para os temas que serão desenvolvidos nos capítulos subsequentes da epístola.

I. Esboço de 1 Pedro 1

A. Saudação apostólica aos dispersos (1:1–2)
Remetente e autoridade apostólica (1:1a)
a. Pedro, apóstolo de Jesus Cristo (1:1a)
Destinatários e localização eclesial na diáspora (1:1b)
b. Destinatários: eleitos, peregrinos da dispersão (1:1b)
c. Abrangência geográfica: Ponto, Galácia, Capadócia, Ásia e Bitínia (1:1b)
Fundamento trinitário da eleição e bênção inicial (1:2)
d. Eleição segundo a presciência de Deus Pai (1:2a)
e. Santificação do Espírito como esfera da vocação (1:2b)
f. Finalidade: obediência e aspersão do sangue de Jesus Cristo (1:2c)
g. Bênção: graça e paz multiplicadas (1:2d)

B. Doxologia pela nova vida e pela herança escatológica (1:3–12)
Bênçãos do Deus e Pai na regeneração e esperança (1:3–5)
a. Bendito Deus e Pai por gerar de novo para esperança viva (1:3)
b. Base histórica: ressurreição de Jesus Cristo dentre os mortos (1:3)
c. Herança prometida: incorruptível, imaculada e imarcescível (1:4)
d. Preservação dos destinatários: guardados pelo poder de Deus mediante a fé (1:5)
Provação presente e valor da fé (1:6–9)
e. Alegria em meio a provações por breve tempo (1:6)
f. Finalidade probatória: fé mais preciosa que o ouro, para louvor, glória e honra (1:7)
g. Amor e fé sem visão: alegria indizível e gloriosa (1:8)
h. Meta: salvação das almas como fim da fé (1:9)
Testemunho profético e economia da revelação (1:10–12)
i. Inquérito dos profetas sobre a graça destinada aos destinatários (1:10)
j. Investigação do tempo e das circunstâncias: sofrimentos do Messias e glórias subsequentes (1:11)
k. Revelação do alcance: serviço ao futuro e anúncio atual pelo Espírito Santo enviado do céu (1:12a)
l. Admiração angelical: desejo de perscrutar essas realidades (1:12b)

C. Exortação à sobriedade, esperança e santidade do peregrino (1:13–16)
Preparação interior e vigilância (1:13a)
a. Cingir os lombos do entendimento e ser sóbrio (1:13a)
b. Esperança plena na graça na revelação de Jesus Cristo (1:13b)
Identidade ética como filhos e ruptura com o passado (1:14)
c. Filhos da obediência: não se conformar às paixões anteriores (1:14)
Chamado à santidade fundamentado no caráter de Deus (1:15–16)
d. “Sede santos em todo procedimento” (1:15)
e. Fundamentação escritural: “Sede santos, porque eu sou santo” (1:16)

D. Temor reverente e redenção pelo sangue precioso (1:17–21)
Vida de peregrinação sob juízo paternal (1:17)
a. Invocação do Pai que julga imparcialmente (1:17a)
b. Conduta no tempo da peregrinação: temor (1:17b)
Resgate do modo de vida antigo e custo da redenção (1:18–19)
c. Libertação do viver fútil herdado dos pais (1:18a)
d. Não por prata ou ouro, mas pelo sangue precioso de Cristo (1:18b–19)
Cristo no plano eterno e a fé orientada a Deus (1:20–21)
e. Cristo conhecido antes da fundação do mundo e manifestado no fim dos tempos (1:20)
f. Fé e esperança em Deus mediante a obra do Cristo (1:21)

E. Vida comunitária e nova geração pela palavra que permanece (1:22–25)
Purificação, amor fraternal e intensidade ética (1:22)
a. Purificação das almas pela obediência à verdade (1:22a)
b. Amor fraternal não fingido e amor fervoroso de coração (1:22b)
Novo nascimento e “semente” imperecível (1:23)
c. Nascidos de novo: não de semente corruptível, mas incorruptível (1:23a)
d. Meio: palavra viva e permanente de Deus (1:23b)
Contraste entre fragilidade humana e permanência da palavra (1:24–25)
e. Transitoriedade da carne e da glória humana (1:24)
f. Permanência da palavra do Senhor para sempre (1:25a)
g. Identificação: essa palavra é o evangelho anunciado (1:25b)

II. Versículo-chave

“Por isso, cingindo o vosso entendimento, sede sóbrios e esperai inteiramente na graça que vos está sendo trazida na revelação de Jesus Cristo.” (1 Pedro 1:13)

Este versículo funciona como o eixo retórico de 1 Pedro 1 porque, com o dio (“portanto”), ele recolhe tudo o que foi proclamado em 1 Pedro 1:3–12 e o converte numa convocação integral da pessoa: pensamento, vigilância e esperança. A doxologia anterior descreve uma nova origem (“gerar de novo”), uma herança guardada e uma salvação que se aproxima, confirmada por profetas e anunciada agora de modo manifesto; 1 Pedro 1:13 amarra esse bloco inteiro numa única exigência: já que a graça tem um horizonte e um ritmo, a mente precisa ser “cingida”. O particípio anazōsamenoi (“tendo cingido”) sugere não um lampejo emotivo, mas uma tomada de forma: recolher o que se arrasta no interior, disciplinar o que dispersa, como quem prepara o corpo para marcha; e a sobriedade nēphontes (“sendo sóbrios”) não é mero moralismo, mas lucidez de sentinela, continuidade de atenção. O imperativo elpisate (“esperai”), qualificado por teleiōs (“plenamente”, “de modo completo”), dá a chave: a vida cristã, no capítulo, não é definida pela intensidade do momento, mas pela inteireza do olhar fixado. E esse olhar não se prende a um ideal abstrato; ele se ancora “na graça” como realidade em movimento, a pheromenēn (“trazida”, “conduzida”) que se aproxima no evento final nomeado como apokalypsi (“revelação”) de Jesus Cristo. Para o capítulo, isso explica por que as provações (1 Pedro 1:6–7) não são um desmentido da esperança, mas o seu terreno de prova, e por que a pesquisa profética (1 Pedro 1:10–12) desemboca numa ordem prática: a história da salvação exige uma postura mental e ética à altura do fim que vem ao encontro.

Para a epístola como um todo, 1 Pedro 1:13 é “pilar” porque ele concentra o modo como a carta articula identidade e conduta: a existência dos “peregrinos” não é sustentada por um heroísmo psicológico, mas por esperança escatológica disciplinada, isto é, por uma razão que se deixa governar pela graça futura que já começou a operar no presente. O mesmo vocabulário de vigilância e sobriedade reaparece como tom pastoral recorrente (por exemplo, 1 Pedro 4:7 e 1 Pedro 5:8), e o horizonte da “revelação/manifestação” volta como estrutura da perseverança (por exemplo, 1 Pedro 1:7 e 1 Pedro 5:4), de modo que 1 Pedro 1:13 não é um conselho isolado, mas um princípio organizador: viver agora sob a luz do que está vindo, com a mente reunida e o coração não dividido, para que a santidade exigida adiante (1 Pedro 1:15–16) e o temor filial (1 Pedro 1:17) não sejam entendidos como ascetismo ansioso, mas como coerência com uma esperança que é inteira porque a graça é certa e se aproxima.

I. Explicação de 1 Pedro 1

1 Pedro 1:1

Pedro, apóstolo de Jesus Cristo, aos eleitos peregrinos da Dispersão, no Ponto, Galácia, Capadócia, Ásia e Bitínia (Gr.: “Petros apostolos Iēsou Christou eklektois parepidēmois diasporas Pontou Galatias Kappadokias Asias kai Bithynias” — Tradução literal: “Pedro, apóstolo de Jesus Cristo, aos eleitos, forasteiros residentes da Dispersão: do Ponto, da Galácia, da Capadócia, da Ásia e da Bitínia”.) Na abertura, apostolos (“enviado; comissionado”) carrega, já no próprio corpo da palavra, a ideia de missão derivada do verbo “enviar”, e faz do remetente não um escritor privado, mas uma voz com selo de autoridade; eklektos (“eleito”) nomeia a identidade a partir do ato seletivo de Deus; parepidēmos (“peregrino; residente temporário”) diz a condição de quem habita sem possuir, como quem vive com a mala feita; diaspora (“dispersão”) vem do campo de “espalhar sementes”, e por isso pinta o povo como grãos lançados ao vento, não como ruínas sem sentido, mas como semeadura em lugares diversos.

Na morfologia, não há verbo finito a ser tratado aqui: trata-se de construção nominal típica de abertura epistolar, com elipse da cópula (“Pedro [é] apóstolo...”), em que Petros é substantivo próprio, nominativo, masculino, singular, funcionando como sujeito explícito; apostolos, também nominativo, masculino, singular, opera como predicativo/aposto identificador; Iēsou e Christou são genitivos, masculinos, singulares, amarrando “apóstolo” por genitivo de relação/pertencimento (“apóstolo de...”). O destinatário entra em dativo: eklektois (adjetivo, dativo, masculino, plural, substantivado) e parepidēmois (adjetivo, dativo, masculino, plural, substantivado) funcionam como dativo de endereçamento, isto é, o “a quem” da carta; diasporas é substantivo, genitivo, feminino, singular, qualificando essa condição de peregrinação como pertencente à esfera da “Dispersão”. Os topônimos (Pontou, Galatias, Kappadokias, Asias, Bithynias) aparecem em genitivo e se encadeiam como delimitações geográficas ligadas a diasporas; kai é conjunção coordenativa (“e”), unindo os dois últimos nomes e fechando a cadência regional.

Em 1 Pedro 1:1, a frase é nominal e epistolar, com elipse de cópula: Petros (“Pedro”) vem como nominativo, sujeito explícito; apostolos (“apóstolo”) também em nominativo, funcionando como predicativo/aposto identificador do sujeito, e o vínculo “de” é formalizado por dois genitivos dependentes de apostolos, Iēsou (“Jesus”) e Christou (“Cristo”), formando um genitivo de relação/pertencimento (“apóstolo de...”). O foco então se desloca para os destinatários em dativo: eklektois (“aos eleitos”) e parepidēmois (“aos peregrinos/forasteiros”) são dativos masculinos plurais substantivados, coordenados por justaposição como um único bloco de endereçamento (“aos eleitos, [isto é,] peregrinos”), e esse bloco é qualificado por diasporas (“da dispersão”), genitivo feminino singular que funciona como genitivo de especificação (“peregrinos da Dispersão”). A seguir, a série de genitivos geográficos (Pontou (“do Ponto”), Galatias (“da Galácia”), Kappadokias (“da Capadócia”), Asias (“da Ásia”) kai (“e”) Bithynias (“da Bitínia”) está em relação de aposto/enumeração com diasporas (“da dispersão”), como se “Dispersão” fosse o título e os genitivos regionais fossem as entradas do índice, detalhando onde essa dispersão se dá; a conjunção kai (“e”) fecha a coordenação do último par, mantendo o mesmo regime de genitivo para todos os topônimos.

O autor da epístola se identifica como Pedro, “apóstolo de Jesus Cristo”. A palavra “apóstolo” (apostolos — “mensageiro”) já era usada ocasionalmente antes do Novo Testamento com o sentido geral de “mensageiro”, mas, segundo os evangelhos, Jesus conferiu ao termo um sentido mais rico ao designar doze de seus discípulos como “apóstolos” (Lucas 6:13). Depois de Pentecostes, aqueles que tinham sido discípulos de Jesus (“alunos”) passaram a atuar como seus apóstolos (Atos 1:25). A importância suprema do ofício apostólico é sugerida pelo fato de que a expressão “de Jesus Cristo” não se liga a nenhum outro ofício do Novo Testamento: não se lê “mestres de Jesus Cristo”, nem “profetas de Jesus Cristo”, nem “evangelistas de Jesus Cristo”, mas apenas “apóstolos de Jesus Cristo”. Quem exercia esse ofício possuía autoridade ao menos equivalente à dos profetas do Antigo Testamento, pois os apóstolos podiam falar e escrever as próprias palavras de Deus (Atos 5:3–4; Romanos 2:16; 1 Coríntios 2:13; 1 Coríntios 14:37; 2 Coríntios 13:3; Gálatas 1:8–9; 1 Tessalonicenses 2:13; 1 Tessalonicenses 4:8, 15; 2 Tessalonicenses 3:6, 14; 2 Pedro 3:2) e, assim, podiam escrever as palavras que se tornaram Escritura do Novo Testamento (1 Coríntios 14:37; 2 Pedro 3:16; cf. Apocalipse 22:18–19; 1 Tessalonicenses 5:27; 2 Tessalonicenses 3:14). A frase de abertura, portanto, lembra aos leitores que Pedro escreve na condição de apóstolo de Jesus Cristo: suas palavras são também palavras de Deus e devem ser recebidas como tal.

A expressão seguinte, “aos exilados da Dispersão”, corresponde a uma forma grega compacta que, de maneira bem literal, diria “aos sojourners escolhidos da Dispersão”. (A RSV inclui a palavra “escolhidos” no versículo 2.) O termo traduzido por “exilado”, parepidēmos (“residente temporário”, “forasteiro”), refere-se sempre a alguém que habita provisoriamente em lugar estrangeiro. Abraão chamou a si mesmo de “estrangeiro e residente temporário” (parepidēmos — “residente temporário”) entre os hititas (Gênesis 23:4, LXX). Hebreus 11:13 afirma que todos os heróis da fé, de Abel a Abraão, reconheceram que eram “estrangeiros e residentes temporários” (parepidēmoi — “residentes temporários”) na terra (Hebreus 11:13). O verbo correlato do mesmo radical é citado num decreto do rei do Egito, que ordenava que visitantes não “residissem provisoriamente” (parepidēmed — “residir provisoriamente”) mais de vinte dias em Alexandria, porque muitos se deixavam seduzir pela vida luxuosa da cidade próspera e negligenciavam o trabalho agrícola essencial nas áreas rurais (Epistle of Aristeas, 110; cf. 1 Clement 1:2). Esses exemplos, diz o autor, mostram que “exilados” (RSV) não é a melhor tradução, porque a palavra não carrega a conotação de habitação forçada longe da pátria. Do mesmo modo, traduzir por “estranhos” (AV; a NIV tem “strangers in the world”) sugeriria indevidamente que essas pessoas não eram bem conhecidas pelos vizinhos, algo que não era verdade no caso de Abraão, por exemplo (Gênesis 23:4–5), nem no caso de outros santos do Antigo Testamento (Hebreus 11:13). Melhor seria “os que residem como estrangeiros” (NASB), expressão que, embora longa, preserva a ideia de residência temporária longe da pátria; e a palavra um pouco arcaica “sojourners” também captura essa noção.

Em nenhum outro lugar da literatura judaica ou cristã antiga, um escritor qualifica “peregrinos” com o adjetivo “eleitos” (eklektos — “escolhido”), como Pedro faz aqui (traduzido “chosen” na RSV e deslocado para o versículo 2). No Novo Testamento, a palavra (vinte e duas ocorrências) sempre se refere a pessoas escolhidas por Deus dentre outras que não foram escolhidas, eleitas para integrar o povo de Deus como recipientes de grande privilégio e bênção (Mateus 20:16; Mateus 24:31; Romanos 8:33; etc.). Muitos leitores de Pedro, ao ouvirem o termo, perceberiam ecos do uso na LXX para designar Israel como povo “escolhido” (Salmos 89:3 [LXX 88:4]; Salmos 105:6, 43 [LXX 104:6, 43]; Salmos 106:5 [LXX 105:5]; Isaías 42:1; Isaías 43:20; Isaías 45:4; Isaías 65:9, 15, 22 [LXX 23]) e concluiriam que Pedro os via como detentores de um status privilegiado diante de Deus ao menos equivalente ao do povo escolhido, que Deus protegera, preservara e abençoara no Antigo Testamento (cf. 1 Pedro 2:4–10). Desse modo, a expressão “forasteiros escolhidos” se torna, por assim dizer, um sermão em duas palavras: são “sojourners” não num sentido meramente terreno (pois muitos, sem dúvida, viveram a vida inteira numa só cidade), mas num sentido espiritual, porque sua verdadeira pátria é o céu (cf. Filipenses 3:20) e toda residência terrena é, portanto, temporária; e, ainda assim, são “escolhidos”, isto é, pessoas que o Rei do universo escolheu para serem seu povo, beneficiárias de sua proteção e destinadas a habitar seu reino celestial (GRUDEM, The first epistle of Peter: an introduction and commentary, 1988, p. 48).

A “Dispersão” (diaspora — “dispersão”) era um termo usado por judeus de fala grega para se referir ao povo judeu “espalhado” entre as nações, “disperso” de sua pátria, Israel (ver João 7:35). Aqui e em Tiago 1:1, “Dispersão” se refere a cristãos, mas isso não implica que Pedro estivesse escrevendo somente a cristãos judeus (ver Introdução sobre “Destino e leitores”). O termo recebe aqui um sentido espiritual novo: cristãos “dispersos” pelo mundo e vivendo longe de sua pátria celestial (ainda que esperando alcançá-la). Assim, a palavra reforça o significado de “sojourners” e acrescenta a ideia de que fazem parte de uma dispersão cristã “mundial”.

Os destinatários viviam no Ponto, Galácia, Capadócia, Ásia e Bitínia, cinco nomes que descrevem quatro províncias romanas ao sul do Mar Negro, na região hoje chamada Ásia Menor, em grande parte a atual Turquia (ver mapa na p. 19). (“Ásia”, então, muitas vezes não significava o continente, mas uma província a leste do Mar Egeu.) Três dos nomes (Galácia, Capadócia e Ásia) designam províncias romanas individuais, ao passo que “Ponto” e “Bitínia” eram duas regiões que compunham uma única província chamada “Bitínia e Ponto”. O fato de Pedro separá-las, colocando uma no começo e outra no fim da lista, é melhor explicado — afirma o autor — pela sugestão de Hort, segundo a qual a lista descreve a rota a ser seguida pelo portador da carta (provavelmente Silvano, 1 Pedro 5:12; ver Introdução, pp. 23s.). A teoria de Hort foi corrigida em seus detalhes por Colin Hemer (‘The Address of 1 Peter’, ExpT 89 (1978), pp. 239-243), que defende de modo convincente a seguinte rota: o portador da carta aportaria num porto do Ponto (Hemer argumenta que somente Amiso, a atual Samsun, permitiria uma rota viável para o interior), seguiria para a Galácia (parando em Amasia, no leste da Galácia), depois, passando por Zela, iria a Cesareia na Capadócia, e então rumaria para o oeste pela grande rota comercial que atravessava o sul da Galácia (passando pelas igrejas paulinas de Icônio e Antioquia da Pisídia), depois para Laodiceia na Ásia, e talvez para outras igrejas da Ásia (Colossos?, até Éfeso?), e por fim atravessaria os principais centros cristãos da Bitínia (Niceia, Nicomédia e Calcedônia). De Calcedônia ou Bizâncio, no Bósforo, ele poderia embarcar num navio que o levaria diretamente de volta a Roma. Desse modo, conclui o autor, todos os principais centros de influência cristã na Ásia Menor seriam alcançados.

1 Pedro 1:2

...segundo a presciência de Deus Pai, em santificação do Espírito, para obediência e aspersão do sangue de Jesus Cristo; graça e paz vos sejam multiplicadas! (Gr.: “kata prognōsin Theou Patros, en hagiasmō Pneumatos, eis hypakoēn kai rhantismon haimatos Iēsou Christou; charis hymin kai eirēnē plēthyntheiē” — Tradução literal: “segundo a presciência de Deus Pai, em santificação do Espírito, para obediência e aspersão do sangue de Jesus Cristo; graça a vós e paz sejam multiplicadas”.) Na etimologia, prognōsis (“presciência; preordenamento”) é “conhecimento de antemão”, não como curiosidade, mas como direção intencional; hagiasmos (“santificação; consagração”) traz a ideia de separar para Deus e formar uma vida marcada por essa separação; hypakoē (“obediência”) nasce do verbo “ouvir” com o prefixo que sugere “ouvir sob”, isto é, escuta que se curva; rhantismos (“aspersão”) remete ao gesto ritual de borrifar, e por isso carrega memórias do culto: sangue não como ornamento do discurso, mas como sinal de aliança; charis (“graça; favor”) e eirēnē (“paz; inteireza”) são o par de bênção que não deseja apenas ausência de conflito, mas integridade restaurada, e plēthynō (“multiplicar”) pede abundância que cresce como colheita.

A morfologia grega aqui se organiza ao redor de um único gesto verbal e de três colunas preposicionais. O período corre sem verbo finito até o fecho, e é ali que aparece o pulso da frase: plēthyntheiē (“seja multiplicada”) é verbo, aoristo, optativo, voz passiva, terceira pessoa do singular, e por ser optativo ele não descreve um fato, mas formula um voto, uma bênção desejada sobre os destinatários; por isso o sujeito dessa forma verbal vem em nominativo como duas dádivas emparelhadas, charis (“graça”), substantivo, feminino, singular, nominativo, e eirēnē (“paz”), substantivo, feminino, singular, nominativo, ligadas por kai (“e”), conjunção coordenativa, enquanto hymin (“a vós”) é pronome pessoal, segunda pessoa do plural, dativo, funcionando como dativo de destinatário, o lugar humano onde essa multiplicação deve cair como chuva. Antes desse fecho votivo, a frase se sustenta em três preposições que não apenas “traduzem”, mas governam casos e amarram funções: kata (“segundo”) rege prognōsin (“presciência”), substantivo, feminino, singular, acusativo, e estabelece critério/fundamento; essa “presciência” é determinada por um genitivo duplo, theou (“de Deus”), substantivo, masculino, singular, genitivo, e patros (“Pai”), substantivo, masculino, singular, genitivo, que funcionam como genitivo de relação/pertencimento (“presciência de Deus Pai”), sem precisar de verbo, porque o genitivo já cola a ideia ao seu autor.

Em seguida, en (“em”) rege hagiasmō (“santificação”), substantivo, masculino, singular, dativo, e marca esfera/meio, isto é, o “ambiente efetivo” onde a eleição se realiza; o termo é qualificado por pneumatos (“Espírito”), substantivo, neutro, singular, genitivo, que funciona como genitivo de origem/agente (“santificação do Espírito”), mantendo a santificação como obra que vem dele. Por fim, eis (“para”) rege dois acusativos coordenados e declara finalidade: hypakoēn (“obediência”), substantivo, feminino, singular, acusativo, e rhantismon (“aspersão”), substantivo, masculino, singular, acusativo, unidos por kai (“e”); esse segundo fim é imediatamente especificado por uma cadeia genitiva que cola o rito ao seu conteúdo e ao seu portador, haimatos (“sangue”), substantivo, neutro, singular, genitivo, determinado por Iēsou (“Jesus”) e Christou (“Cristo”), ambos nomes próprios, masculinos, singulares, genitivos, de modo que “aspersão” não paira no ar: ela está gramaticalmente presa ao “sangue de Jesus Cristo”. Assim, a morfologia inteira funciona como carpintaria: critério (kata + acusativo) → esfera (en + dativo) → finalidade (eis + acusativo) → bênção (plēthyntheiē optativo) sobre “graça e paz” como sujeito e “a vós” como alvo.

A sintaxe do v. 2 é uma cadeia preposicional rigorosa, em que cada preposição determina o caso e, com ele, a função. Kata (“segundo”) governa o acusativo prognōsin (“presciência”), e Theou (“de Deus”) Patros (“Pai”) em genitivo especificam o conteúdo dessa presciência, de modo que “segundo” não é comentário solto, mas padrão/fundamento do endereçamento; en (“em”) governa o dativo hagiasmō (“santificação”), e o genitivo Pneumatos (“Espírito”) determina a origem/agente dessa santificação, marcando esfera/meio em que os destinatários se encontram; eis (“para”) governa dois acusativos coordenados, hypakoēn (“obediência”) kai (“e”) rhantismon (“aspersão”), declarando finalidade/resultado, e o genitivo haimatos (“sangue”) com o genitivo composto Iēsou (“Jesus”) Christou (“Cristo”) prende “aspersão” ao seu referente cultual. Então vem a bênção em forma de voto: charis (“graça”) hymin (“a vós”) kai (“e”) eirēnē (“paz”) organizam-se com charis e eirēnē em nominativo como sujeito do desejo e hymin em dativo como destinatário, e o verbo plēthyntheiē (“seja multiplicada”) em aoristo, optativo, voz passiva, terceira pessoa do singular, dá à frase a modalidade de súplica/benção (não mandamento), deixando “graça e paz” como aquilo que se deseja ver crescer sobre os leitores.

A abertura “segundo a presciência” traduz o núcleo de prognōsin (“presciência”), e com isso indica que a condição de “eleitos” (retomando a ideia do versículo anterior) não nasce de um acaso sociológico da diáspora, mas de um horizonte anterior, deliberado, no qual o Pai conhece e determina em fidelidade ao seu propósito; a noção de “conhecer de antemão” tem parentesco natural com o emprego do mesmo campo em Atos 2:23 e Romanos 8:29, e ganha eco interno na própria carta quando o Cristo é dito “conhecido antes” (1 Pedro 1:20), de modo que “presciência” aqui opera menos como curiosidade sobre o futuro e mais como linguagem de aliança: Deus conhece, escolhe e assume compromisso com um povo, como o “conhecer” pactual do Antigo Testamento sugere em passagens como Amós 3:2. Para o valor semântico básico do termo, ver o verbete grego “percepção prévia” em recursos lexicais abertos.

Quando Pedro acrescenta “em santificação do Espírito”, ele desloca o olhar do decreto para a execução histórica: hagiastmō (“santificação”), substantivo masculino, singular, dativo, descreve o âmbito em que a eleição se torna realidade experienciada, e o genitivo “do Espírito” qualifica o agente dessa separação, aproximando esta fórmula da linguagem de 2 Tessalonicenses 2:13, onde a “santificação do Espírito” marca o modo pelo qual Deus efetiva a salvação no tempo. A sintaxe é elegantemente direcional: a primeira relação estabelece o padrão (“segundo a presciência”); a segunda, o meio/ambiente (“em santificação”); a terceira, a finalidade (“para...”). Assim, “para a obediência e a aspersão” é a cláusula teleológica: hypakoēn (“obediência”), substantivo feminino, singular, acusativo, e rhantismon (“aspersão”), substantivo masculino, singular, acusativo, são colocados como destinos da obra santificadora, e o genitivo “de sangue” amarra o segundo termo ao mundo ritual do Antigo Testamento, onde a aspersão é ato sacerdotal de consagração e purificação. Para os campos semânticos de “santificação” e “aspersão”, com registro explícito do uso em 1 Pedro 1:2, ver os verbetes lexicais correspondentes.

Nesse ponto, a hermenêutica se ilumina quando a imagem deixa de ser abstrata: “aspersão do sangue” não é metáfora genérica de perdão, mas cena de aliança, como em Êxodo 24:8, quando Moisés asperge o sangue do pacto sobre o povo, selando pertença e obrigação. Pedro toma essa gramática do Sinai e a reinscreve em Jesus Cristo: a comunidade é marcada, não por sangue animal, mas pelo sangue do Messias; e a obediência que segue não é condição para entrar na aliança, mas fruto de ter sido alcançado por ela, o que coincide com o uso petrino posterior ao falar de “filhos da obediência” e de “obediência à verdade” (1 Pedro 1:14, 22). Ao ler Êxodo 24:8, comentaristas judaicos clássicos preservam precisamente a ideia de que o gesto é “aspersão” ritual (não mero arremesso), reforçando a densidade cultual do pano de fundo que torna a escolha de Pedro teologicamente carregada: a nova comunidade do pacto é “salpicada” para pertencer e, por pertencer, obedecer.

A comparação de versões deixa claro como esse encadeamento trinitário e pactual é percebido na tradução. Na YLT lê-se: “according to a foreknowledge of God the Father, in sanctification of the Spirit, to obedience and sprinkling of the blood of Jesus Christ: Grace to you and peace be multiplied!”; na KJV: “Elect according to the foreknowledge of God the Father, through sanctification of the Spirit, unto obedience and sprinkling of the blood of Jesus Christ: Grace unto you, and peace, be multiplied”; na ARA: “eleitos, segundo a presciência de Deus Pai, em santificação do Espírito, para a obediência e a aspersão do sangue de Jesus Cristo, graça e paz vos sejam multiplicadas”; na ACF: “Eleitos segundo a presciência de Deus Pai, em santificação do Espírito, para a obediência e aspersão do sangue de Jesus Cristo: Graça e paz vos sejam multiplicadas”; na NVI: “escolhidos de acordo com a presciência de Deus Pai, pela obra santificadora do Espírito, para a obediência a Jesus Cristo e a aspersão do seu sangue: Graça e paz sejam multiplicadas a vocês.”; e na NVT: “Deus, o Pai, os conhecia de antemão e os escolheu, e o Espírito os santificou para a obediência e a purificação pelo sangue de Jesus Cristo. Que vocês tenham cada vez mais graça e paz.” Repare como NVI e NVT explicitam com mais força o valor direcional (“para a obediência a Jesus Cristo”) e como a NVT verte “aspersão” por “purificação”, decisão interpretativa que aproxima rhantismon (“aspersão”) do seu efeito cultual, enquanto ARA/ACF preservam a imagem sacrificial em sua concretude.)

Deus no v. 2 é caracterizado, nesta eulogia, como aquele que concedeu “novo nascimento” segundo a sua abundante misericórdia. A presciência divina desemboca na eleição dos cristãos aos quais Pedro escreve; aqui, soma-se um segundo traço do caráter de Deus — sua misericórdia abundante — como fundamento da própria existência cristã. O termo grego vertido por “misericórdia”, eleos (“misericórdia”), aparece nas antigas traduções gregas de Êxodo 20:6 e Deuteronômio 5:10 para verter o hebraico ḥesed (“misericórdia graciosa”), palavra intimamente associada ao nome pactual de Deus. Quando a idolatria é proibida no segundo mandamento, promete-se um Deus que mostra ḥesed (“misericórdia graciosa”) até mil gerações aos que o amam e guardam os seus mandamentos, e o fracasso da aliança com Israel é ligado precisamente à violação desse mandamento, no episódio do bezerro de ouro.

Ainda assim, a glória é revelada a Moisés quando Deus se identifica nos termos: “O SENHOR, o SENHOR, Deus compassivo e misericordioso, tardio em irar-se, abundante em amor e fidelidade.” (Êxodo 34:6 NIV). A linguagem aqui permanece pactual, retomando o vocabulário de atributos característicos da aliança, de modo semelhante ao que ocorre em 1 Pedro 1:2. A forma traduzida por “concedeu novo nascimento” corresponde ao particípio masculino, nominativo, singular, com artigo, do verbo anagennaō (“gerar de novo”), vocábulo que não ocorre em outros livros do Novo Testamento nem no Antigo Testamento grego. Fora daqui, aparece apenas em 1 Pedro 1:23: “Pois vocês foram regenerados (Gr.: anagegennēmenoi), não de semente perecível, mas de semente imperecível, por meio da palavra de Deus, viva e permanente.” Assim, Deus é louvado não como o grande Criador de tudo, mas como aquele que escolhe redimir concedendo “novo nascimento”.

Durante algum tempo, sustentou-se que 1 Pedro teria tomado a ideia de novo nascimento das religiões de mistério, nas quais se dizia que o iniciado experimentava um novo nascimento como resultado dos ritos de iniciação (PERDELWITZ, Die Mysterienreligion und das Problem des I, 1911; SELWYN, The First Epistle of St. Peter, 1958, pp. 305–9 para uma refutação). Contudo, as declarações sobre novo nascimento nesses cultos são consideravelmente posteriores ao Novo Testamento (GOPPELT, A Commentary on I Peter. 1993, p. 82, n16), e a imagem do nascimento como início de vida nova é símbolo religioso demasiado disseminado para, por si só, estabelecer dependências históricas. Por isso, faz mais sentido procurar a fonte histórica religiosa mais próxima — aqui, o judaísmo — para o emprego desse conceito em 1 Pedro.

Nessa direção, observa-se que, embora não haja um único vocábulo aramaico correspondente a “novo nascimento”, a literatura rabínica pode usar a noção para falar de conversão; como exemplo, registra-se: “A newly converted proselyte is like a new-born child” (SELWYN, ibid., 1958, p. 306). Ao mesmo tempo, a dificuldade de datar esse material torna incerto se tal uso rabínico é contemporâneo dos escritores do Novo Testamento. Mesmo assim, permanece a ponderação: “Even Rabbinic ideas which meet us first in the second century are more easily assigned to sources within their own consistent and tenacious tradition than to any borrowing from the Gentile world” (SELWYN, ibid., p. 306). Com maior segurança, propõe-se buscar o pano de fundo judaico não no rabinismo, mas em Qumran: 1QH 3.19–23 é tomado como indício de que os essênios entendiam a entrada pessoal na comunidade como aceitação de uma nova aliança e de uma nova criação escatológica, e o conceito de 1 Pedro 1:3 é rastreado ao “context of motifs emerging from the selfunderstanding of the Qumran community” (Goppelt, ibid., 1993, pp. 82–83). Nesse enquadramento, a transposição ao meio helenístico teria ocorrido pela substituição de “nova criação” por “novo nascimento”, por ser esta expressão mais corrente, ainda que se deva notar 2 Coríntios 5:17, certamente pensado para ser entendido em contexto helenístico.

A fonte mais imediata do conceito de novo nascimento, porém, é situada na tradição cristã do primeiro século que remonta aos ensinamentos do próprio Jesus. Gundry (1966–67 “‘Verba Christi’ in I Peter: Their Implications concerning the Authorship of I Peter and the Authenticity of the Gospel Tradition.” New Testament Studies 13:336–50.) defende de modo persuasivo que 1 Pedro contém muitas alusões a ditos de Jesus, além de algumas alusões às suas ações, em episódios em que Pedro estava presente ou tinha forte interesse pessoal (ver também uma refutação em Best, 1969–70 “I Peter and the Gospel Tradition.” New Testament Studies 16:95–113). Nesse ponto específico, 1 Pedro 1:3, 1:23 e 2:2 giram em torno da mesma ideia de renascimento que aparece em João 3:3, 7, onde Jesus declara: “Very truly I tell you, no one can see the kingdom of God without being born again” (TNIV). Dada a variedade de alusões apontadas, os ensinamentos de Jesus figuram como fonte provável para esse eixo temático. Nessa mesma linha, Schutter (Hermeneutic and Composition in 1 Peter, 1989, p. 35) conclui que 1 Pedro depende mais de fontes cristãs orais do que escritas, o que se harmoniza com a observação de Gundry. A concepção de novo nascimento, por sua vez, envolve “entrance into a new order of existence”, mas, junto disso, inclui a ideia de filiação divina: os seres humanos entram nessa vida nova como filhos daquele que a origina (HORT, The First Epistle of St. Peter. I.1–II.17, 1899, p. 33). Assim, em 1 Pedro, Deus não é Pai em virtude do papel de Criador, mas por sua função singular no novo nascimento daqueles que escolheu para serem separados para a nova aliança em Cristo.

A benção final confirma que o foco é obra divina do começo ao fim: charis (“graça”) e eirēnē (“paz”) aparecem como sujeitos desejados, e plēthyntheiē (“seja multiplicada”), verbo aoristo, optativo, passivo, terceira pessoa do singular, funciona como fórmula de voto — não simples constatação —, ecoando o tom de saudações apostólicas paralelas (como 2 Pedro 1:2) e deixando a comunidade sob um pedido de incremento contínuo. No conjunto, o versículo é uma miniatura de teologia bíblica trinitária com linguagem de aliança: o Pai enquadra a história pela “presciência” pactual, o Espírito realiza a separação eficaz que torna o povo santo no mundo, e o Filho é o centro sacrificial do novo pacto cujo sangue aspergido inaugura uma obediência de pertença; assim, a igreja exilada no Império aprende a ler sua identidade não como acidente da dispersão, mas como cumprimento de um padrão antigo — Deus forma um povo por aliança e o marca com sangue — agora transfigurado e consumado em Jesus Cristo, em diálogo direto com o Sinai e em continuidade com a lógica do Novo Testamento que liga “sangue aspergido” à mediação do pacto e à purificação da consciência (Hebreus 9:19–22; 12:24).

1 Pedro 1:3

Bendito seja o Deus e Pai de nosso Senhor Jesus Cristo, que, segundo a grandeza da sua misericórdia, nos gerou de novo para uma esperança viva, pela ressurreição de Jesus Cristo dentre os mortos, ... (Gr.: Eulogētos ho theos kai patēr tou kyriou hēmōn Iēsou Christou ho kata to poly autou eleos anagennēsas hēmas eis elpida zōsan di’ anastaseōs Iēsou Christou ek nekrōn — Tradução literal: “Bendito [seja] o Deus e Pai do nosso Senhor Jesus Cristo, o qual, segundo a grandeza da sua misericórdia, tendo-nos gerado de novo, [nos levou] para esperança viva, por meio da ressurreição de Jesus Cristo dentre mortos.”). Em anagennaō (“gerar de novo”), a etimologia é transparente na própria composição: o verbo é formado por ana- (“de novo; para cima/para trás”, como prefixo produtivo em grego) + gennaō (“gerar, dar à luz”). Essa decomposição aparece explicitamente em léxicos bíblicos que registram a origem do termo como combinação de ana- e gennaō, e é também reconhecida em literatura acadêmica especializada em 1 Pedro ao descrever o verbo como composto por esses dois elementos.

O substantivo anastasis (“ressurreição”) deriva do verbo anistēmi (“levantar-se”) com o sufixo nominal -sis (formador de nomes de ação/processo), resultando na ideia de “ato de levantar/erguer”. Essa formação “verbo + -sis” é indicada diretamente em recursos lexicais voltados à morfologia histórica da palavra. Em elpis (“esperança”), o que pode ser afirmado com segurança é a derivação interna grega: elpis está ligada ao verbo primário elpō (“esperar/antever”), como registram dicionários de base bíblica ao explicarem a família lexical (elpis a partir de elpō). Sobre uma raiz indo-europeia específica, há propostas em repertórios abertos, mas isso já entra no terreno do “possivelmente”, e só deve ser dito como hipótese, não como fato duro.

Já o termo eulogētos (“bendito”), a própria família lexical aponta a construção: ela se relaciona ao verbo eulogeō (“falar bem de; abençoar”), e este é explicado por léxicos como composto de elementos equivalentes a “bem” + “dizer/falar”, isto é, a base de “elogiar/abençoar” como “falar bem”. O ponto etimológico seguro aqui é essa pertença à família eu- + log- que os léxicos explicitam ao descrever eulogeō e derivar eulogētos dele. A palavra eleos (“misericórdia”) se registra no campo semântico e nos usos clássicos/áticos, mas nem sempre com uma etimologia “quebrável” em prefixo+raiz como ocorre com anagennaō e anastasis é fácil de encontrar. O que dá para ancorar, com honestidade, é o valor antigo de “piedade/compaixão” bem atestado em uso e a continuidade desse valor no grego posterior; quando um recurso declara “origem incerta” (ou não oferece etimologia), isso é, por si, um dado: não se deve fabricar uma raiz só para preencher o espaço.

Não há verbo finito expresso no v. 3. O período começa com uma predicação nominal, com elipse da cópula (“[é/seja]”), em que eulogētos (“bendito”), adjetivo, nominativo, masculino, singular, ocupa a posição de predicativo e abre a cláusula como louvor. O sujeito desse predicativo vem articulado por ho (“o”), artigo, nominativo, masculino, singular, que determina theos (“Deus”), substantivo, nominativo, masculino, singular, e este núcleo é coordenado por kai (“e”), conjunção coordenativa copulativa, com patēr (“pai”), substantivo, nominativo, masculino, singular, formando um único referente (“Deus e Pai”) sob o mesmo predicativo, de modo que a coordenação não sugere dois sujeitos distintos, mas um sujeito único com dois títulos.

A especificação de quem é esse “Pai” é feita por uma cadeia genitiva dependente de patēr (“pai”), marcada formalmente pelo genitivo: tou (“do”), artigo, genitivo, masculino, singular, introduz kyriou (“Senhor”), substantivo, genitivo, masculino, singular, funcionando como genitivo de relação/pertencimento (“Pai do Senhor”), leitura exigida pelo encaixe “pai de X” e pelo fato de o genitivo aqui não ser regido por preposição, mas pelo substantivo relacional patēr (“pai”). Dentro desse sintagma, hēmōn (“nosso”), pronome pessoal, primeira pessoa do plural, genitivo, atua como genitivo possessivo dependente de kyriou (“Senhor”), restringindo “Senhor” a “nosso Senhor”. Em seguida, Iēsou (“Jesus”), substantivo próprio, genitivo, masculino, singular, e Christou (“Cristo”), substantivo próprio, genitivo, masculino, singular, unem-se ao mesmo bloco genitivo como genitivos em aposição/epexegese a kyriou (“Senhor”), porque, sem novo artigo e em continuidade imediata, eles não introduzem um segundo “senhor” nem um segundo regente, mas identificam quem é “o nosso Senhor”, isto é, “Jesus Cristo”, mantendo a concordância de caso como marca formal de apposição.

O louvor então é expandido por uma caracterização do sujeito por meio de um artigo com particípio, com valor de oração relativa/atributiva: ho (“o qual”), artigo, nominativo, masculino, singular, retoma formalmente o sujeito em nominativo e introduz o bloco participial. A primeira dependência interna desse bloco é preposicional: kata (“segundo”), preposição que rege acusativo, expressa norma/medida (“de acordo com”), e governa o complemento to (“o”), artigo, acusativo, neutro, singular, com poly (“muito”, “grande”), adjetivo, acusativo, neutro, singular, formando a expressão “segundo o grande/abundante...”. O termo que dá conteúdo a essa medida aparece em seguida como eleos (“misericórdia”), substantivo, acusativo, neutro, singular, ligado ao complexo to (“o”) + poly (“muito”, “grande”) como núcleo semântico que esse “muito” qualifica; a ausência de artigo com eleos (“misericórdia”) não enfraquece a ligação, porque a marca formal de caso (acusativo) permanece alinhada ao regime de kata (“segundo”), e a ordem “artigo + adjetivo + substantivo anártrico” funciona aqui como construção atributiva que enfatiza a grandeza da misericórdia. Essa misericórdia é ainda determinada por autou (“dele”), pronome pessoal, terceira pessoa do singular, genitivo, que funciona como genitivo possessivo dependente de eleos (“misericórdia”), fixando a fonte da misericórdia no próprio sujeito retomado por ho (“o qual”).

O núcleo verbal do bloco atributivo é o particípio anagennēsas (“tendo gerado de novo”), verbo em forma de particípio, aoristo (aspecto perfeito/global), voz ativa, nominativo, masculino, singular, sem marca de pessoa por ser não finito, concordando em caso, gênero e número com ho (“o qual”) e, por consequência, com o sujeito “Deus e Pai”; essa concordância é a marca formal que liga a ação ao mesmo referente do louvor. O complemento direto dessa ação é hēmas (“a nós”), pronome pessoal, primeira pessoa do plural, acusativo, funcionando como objeto direto do particípio anagennēsas (“tendo gerado de novo”), porque o acusativo aqui não é regido por preposição, mas exigido pelo verbo de “gerar”.

A finalidade/destino do ato de “gerar de novo” é expresso por eis (“para”), preposição que rege acusativo e tem valor semântico de direção final/propósito (“para”, “a fim de”), governando elpida (“esperança”), substantivo, acusativo, feminino, singular, como alvo do movimento (“para esperança”). Essa esperança é qualificada por zōsan (“viva”), verbo em forma de particípio presente (aspecto imperfectivo/processual), voz ativa, acusativo, feminino, singular, usado com valor adjetival e concordando com elpida (“esperança”) por marca formal de caso, gênero e número, de modo que a “esperança” não é apenas definida, mas descrita como portadora de vida.

O meio instrumental pelo qual essa finalidade é mediada vem por outra dependência preposicional: di’ (“por meio de”), preposição (forma elidida de dia), que aqui rege genitivo e tem valor semântico de meio/instrumento (“por meio de”), governando anastaseōs (“ressurreição”), substantivo, genitivo, feminino, singular, como complemento de meio. Esse substantivo verbal é especificado por Iēsou (“Jesus”), substantivo próprio, genitivo, masculino, singular, e Christou (“Cristo”), substantivo próprio, genitivo, masculino, singular, que dependem de anastaseōs (“ressurreição”) como genitivo de referência; como “ressurreição” é um nome de evento, esse genitivo pode ser descrito com mais precisão como genitivo “objetivo” no sentido semântico (a ressurreição que tem Jesus Cristo como aquele que é ressuscitado), e essa leitura é favorecida pelo encaixe que segue. Esse encaixe final é ek (“dentre”, “de”), preposição que rege genitivo e exprime origem/proveniência (“para fora de”, “dentre”), governando nekrōn (“mortos”), adjetivo, genitivo, masculino, plural, substantivado (“os mortos”), funcionando como complemento de origem e especificando o âmbito de onde se dá a anastaseōs (“ressurreição”); por estar imediatamente após o sintagma de “ressurreição” e por se ajustar semanticamente a ele, ek (“dentre”) + nekrōn (“mortos”) liga-se preferencialmente a anastaseōs (“ressurreição”) como sua determinação (“ressurreição dentre os mortos”), mantendo o encadeamento formal: preposição de meio (di’ + genitivo) → núcleo do meio (anastaseōs) → genitivo de referência (Iēsou Christou) → preposição de origem (ek + genitivo) que completa a natureza dessa ressurreição.

O primeiro ponto em que as versões já “comentam” o grego sem dizer que estão comentando é a própria forma do louvor, porque o NA28 abre com eulogētos (“bendito”), um predicativo adjetival em predicação nominal (cópula elíptica), e não com um verbo de ação; por isso a YLT, ao escrever “Blessed [is] the God and Father...” (PT: “Bendito [é] o Deus e Pai...”), deixa o leitor enxergar a lógica nominal com mais transparência, enquanto a KJV, ao preferir “Blessed be the God and Father...” (PT: “Bendito seja o Deus e Pai...”), transforma o predicativo em fórmula optativa/devocional, muito tradicional, mas um pouco menos “visível” quanto à elipse. A ESV mantém a mesma moldura de louvor (“Blessed be...”, PT: “Bendito seja...”), mas pontua como frase exclamativa independente, o que ajuda o ouvido moderno e, ao mesmo tempo, separa mais do que o grego separa o louvor do restante do período.

A seguir, o grego marca a medida do agir divino com kata (“segundo”) + acusativo, em kata (“segundo”) to poly (“a grandeza”, literalmente “o muito”) autou (“dele”) eleos (“misericórdia”): aqui as versões se distinguem sobretudo por como interpretam to poly (“o muito”) e por como nomeiam eleos (“misericórdia”). A KJV escolhe “according to his abundant mercy” (PT: “segundo a sua misericórdia abundante”), e a ESV escolhe “According to his great mercy” (PT: “segundo a sua grande misericórdia”), duas opções igualmente compatíveis com to poly (“o muito”), embora “abundant” e “great” destaquem imagens diferentes (quantidade vs. grandeza). A ASV segue a linha da ESV com “according to his great mercy” (PT: “segundo a sua grande misericórdia”). Já a YLT diverge de modo relevante ao verter eleos (“misericórdia”) por “kindness” (“bondade”), em “according to the abundance of His kindness” (PT: “segundo a abundância da sua bondade”): isso suaviza o tom de compaixão/clemência que eleos (“misericórdia”) normalmente carrega e aproxima a frase de um campo semântico que, no grego do Novo Testamento, costuma ser expresso por outros vocábulos.

O verbo/ação central do período está em anagennēsas (“tendo gerado de novo”), particípio aoristo ativo, e aqui as versões “explicam” o particípio por estratégias diferentes: a KJV usa forma verbal finita forte e imagética, “hath begotten us again” (PT: “nos gerou de novo”), e a ASV vai na mesma direção com “begat us again” (PT: “nos gerou de novo”), preservando o verbo de geração que combina bem com o campo de gennaō (“gerar”). A YLT intensifica a literalidade formal ao manter “did beget us again” (PT: “gerou-nos de novo”), ainda que seu “did” tenda a dar um colorido temporal de passado pontual que o particípio, no grego, amarra mais como ação atributiva do sujeito (“o Deus... que, tendo...”) do que como simples sequência narrativa. A ESV, em contraste, desloca para uma formulação causativa: “he has caused us to be born again” (PT: “ele nos fez nascer de novo / ele nos causou nascer de novo”), que ajuda o leitor moderno a não tropeçar no verbo “beget”, mas, por trocar o verbo de geração por um giro causativo, pode atenuar a metáfora paterna que o particípio sugere quando está tão perto de patēr (“pai”) no início do período.

Quando o grego diz eis (“para”) elpida (“esperança”) zōsan (“viva”), o ponto fino é que eis (“para”) tem valor direcional/final (“para dentro de”, finalidade), e “esperança viva” é o alvo da nova geração; por isso KJV, ASV, YLT e ESV convergem no núcleo (“to/unto a living hope”, PT: “para uma esperança viva”), com a KJV guardando a forma arcaica “unto a lively hope” (PT: “para uma esperança viva”), em que “lively” aqui significa “viva”, não “animada”. O contraste mais instrutivo, quando se traz o português, aparece porque a ARC preserva muito de perto o desenho de eis (“para”) ao dizer “nos gerou de novo para uma viva esperança” (o “para” segue o eis), enquanto a NVT reordena e reinterpreta o encaixe: “ele nos fez nascer de novo, por meio da ressurreição... Agora temos uma viva esperança”, isto é, a esperança passa a soar como consequência discursiva posterior (“agora temos...”) mais do que como finalidade gramatical imediata do eis (“para”) no grego.

O grego aqui amarra o meio e a proveniência com duas preposições distintas: di’ (“por meio de”) + genitivo em di’ (“por meio de”) anastaseōs (“ressurreição”) e ek (“dentre”) + genitivo em ek (“dentre”) nekrōn (“mortos”). A ESV capta bem o valor instrumental de di’ (“por meio de”) ao escolher “through the resurrection... from the dead” (PT: “por meio da ressurreição... dentre os mortos”), enquanto KJV e ASV usam “by the resurrection... from the dead” (PT: “pela ressurreição... dentre os mortos”), que pode soar levemente mais causal em português (“pela”), mas ainda transmite meio. A YLT é a que mais faz o leitor “ver” ek (“dentre”), ao dizer “through the rising again... out of the dead” (PT: “por meio do levantar-se de novo... para fora dos mortos”), aproximando-se da ideia de saída “de dentro” que ek (“dentre”) sugere. No português, a NVI é quase um espelho do trilho preposicional: “por meio da ressurreição... dentre os mortos”, alinhando-se ao valor de di’ (“por meio de”) e ek (“dentre”) com nitidez; a ARC, ao dizer “pela ressurreição... dentre os mortos”, fica um pouco mais tradicional (como KJV/ASV), mas mantém a arquitetura; a NVT preserva “por meio da ressurreição... dentre os mortos”, porém, como já deslocou “esperança viva” para um “agora temos”, acaba por reconfigurar a sequência lógica que o grego mantém compacta: no NA28, o “meio” (di’ — “por meio de”) está gramaticalmente subordinado ao movimento para a esperança (eis — “para”), não apresentado como etapa anterior a um “agora”.

Em 1 Pedro 1:3, o “bendito” não é um enfeite devocional, mas a moldura gramatical e teológica que obriga o leitor a começar pela doxologia: Deus é nomeado como eulogētos (“bendito”) antes de ser explicado, e isso conversa diretamente com a fórmula paulina “Bendito seja o Deus e Pai...” em 2 Coríntios 1:3 e Efésios 1:3, onde o louvor vem primeiro porque o agir de Deus é anterior a qualquer resposta humana. A expressão “Deus e Pai de nosso Senhor Jesus Cristo” faz a paternidade aparecer não como abstração, mas como relação definida cristologicamente, em harmonia com João 14:9–11, onde conhecer o Pai passa pela relação com o Filho, e com Romanos 15:6, onde a igreja glorifica “o Deus e Pai de nosso Senhor Jesus Cristo” com unidade de voz.

Quando Pedro diz que esse agir vem “segundo a grandeza da sua misericórdia”, ele está colocando a causa fora do homem, e o Antigo Testamento dá a gramática dessa misericórdia como restauração que recria: Ezequiel 36:25–27 descreve purificação (“aspergirei água pura...”) e renovação interior (“dar-vos-ei coração novo... porei dentro de vós o meu Espírito”), e esse par purificação + vida nova é a sombra antiga do que Pedro chama “gerar de novo”. O mesmo eixo aparece em Jeremias 31:33–34, onde a aliança nova é escrita “no coração”, e em Salmos 51:10–12, onde o pedido é por um “coração puro” e um “espírito reto” renovado; assim, “misericórdia” não é mero sentimento, é o impulso de Deus que refaz o interior para que a vida recomece. No Novo Testamento, a mesma imagem é dita com outro vocabulário em Tito 3:5 (“lavar da regeneração e renovação do Espírito Santo”) e é dramatizada por Jesus em João 3:3–5, onde “nascer de novo” não é polimento moral, mas entrada numa vida que procede “do Espírito”.

O alvo desse novo nascimento é “para uma esperança viva”, e isso impede que esperança seja confundida com probabilidade ou autoengano, porque a esperança, no Novo Testamento, é uma força que se prova no atrito: Romanos 5:3–5 descreve a esperança nascendo e se fortalecendo em meio a tribulação, e Hebreus 6:18–20 a chama de âncora lançada para além do véu, isto é, esperança com lastro no futuro de Deus, não no humor do presente. Em 1 Pedro 1:6–7, o próprio contexto imediato confirma que essa esperança não elimina a provação, mas a atravessa com sentido, e em 1 Pedro 1:13 a esperança é ordenada como postura da mente (“esperai inteiramente”), mostrando que “viva” não é adjetivo ornamental, é qualidade operativa: esperança que respira e sustenta.

O meio dessa regeneração é “por meio da ressurreição de Jesus Cristo dentre os mortos”, e aqui a hermenêutica precisa ser implacável: a esperança é viva porque o fundamento é um evento, não uma sensação. Paulo faz o mesmo ponto com contundência em 1 Coríntios 15:20–23, chamando a ressurreição de Cristo de “primícias”, isto é, começo real de uma colheita, e em Romanos 6:4–5 ele liga a vida nova diretamente ao fato de Cristo ter sido ressuscitado, de modo que a regeneração não é metáfora solta, mas participação numa realidade inaugurada. Colossenses 3:1–4 insiste na mesma lógica: se o Cristo ressuscitou, a vida do crente é reorientada para onde ele está; e o próprio Pedro, mais adiante, amarra o nó em 1 Pedro 1:21 ao dizer que, por meio de Cristo, os crentes têm fé e esperança em Deus “o qual o ressuscitou dentre os mortos”. Aqui “dentre os mortos” não é redundância poética: é a afirmação de saída objetiva do domínio da morte (Atos 2:24), que transforma o “novo nascimento” em realidade histórica com consequência existencial.

1 Pedro 1:4

para uma herança incorruptível, incontaminada e imarcescível, guardada nos céus para vós (Gr.: eis klēronomian aphtharton kai amianton kai amaranton tetērēmenēn en ouranois eis hymas — Tradução literal: “para uma herança incorruptível e incontaminada e imarcescível, guardada nos céus para vós”.) Na etimologia de klēronomia (“herança”), o termo nasce como palavra de “quinhão recebido”: ele se liga ao campo de klēronomos (“herdeiro”), e a forma abstrata em “-ia” transforma a pessoa que recebe em “realidade de herdar”, isto é, a herança como porção e direito transmitido. A raiz de fundo, indicada no próprio desmembramento antigo, toca klēros (“sorte; quinhão; lote”), linguagem de “distribuição” que carrega a ideia de porção atribuída, não fabricada pela mão do herdeiro.

A tríade de adjetivos é uma pequena arquitetura etimológica construída com a negação inicial: em aphthartos (“incorruptível”), o “a-” privativo recusa a ruína de phtheirō (“corromper”), como quem diz “não sujeito à decomposição”. Em amiantos (“incontaminado”), o mesmo “a-” recusa a mancha de miainō (“manchar, macular”), de modo que a herança é descrita como não tocada pela sujeira que rebaixa e deforma. Em amarantos (“imarcescível”), a negação se volta contra marainō (“murchar, perder o viço”), e o efeito é o de uma vitalidade que não se apaga, como flor que não cede ao tempo.

O particípio perfeito passivo tetērēmenēn (“guardada; mantida em reserva”) pertence à família de tēreō (“guardar, vigiar”), cujo próprio campo etimológico é descrito como “vigília”, um olhar que conserva do dano e da perda. O lugar dessa guarda aparece em ouranos (“céu”), palavra que no grego antigo já nomeia o “céu” como abóbada e região superior; no horizonte homérico, o termo funciona precisamente como no inglês “heaven”, e em léxicos do grego do Novo Testamento aparece com o valor de “sky/heaven” (rudimente vertido como “céu/lugar celeste”), com propostas etimológicas apresentadas com cautela ligando-o à ideia de elevação.

A expressão não traz verbo finito: ela é um bloco preposicional que depende de um verbo anterior implícito no fluxo da frase maior, e por isso o seu “pulso verbal” aparece apenas como forma não finita, isto é, como particípio. A entrada se faz por eis (“para”), preposição que rege acusativo e indica direção/finalidade, conduzindo imediatamente ao núcleo nominal klēronomian (“herança”), substantivo, feminino, singular, acusativo, que funciona como o alvo semântico desse eis (“para”). A partir desse núcleo, tudo o que vem colado a ele se organiza como qualificação da herança: aphtharton (“incorruptível”), adjetivo, feminino, singular, acusativo, concorda com klēronomian (“herança”) por caso, gênero e número, e é ligado por kai (“e”), conjunção coordenativa copulativa, a amianton (“incontaminada”), adjetivo, feminino, singular, acusativo, que por sua vez é ligado por outro kai (“e”) a amaranton (“imarcescível”), adjetivo, feminino, singular, acusativo; a repetição de kai (“e”) não acrescenta novos regentes, apenas costura uma série de predicações adjetivais paralelas, todas penduradas no mesmo substantivo, como três selos colocados na mesma porta.

O núcleo verbal, agora, surge como qualificador final dessa mesma “herança”, e é ele que dá à frase a ideia de estado garantido: tetērēmenēn (“guardada”, “reservada”), particípio, perfeito, voz passiva, feminino, singular, acusativo, deriva de um verbo de “guardar” e, por estar no perfeito, descreve uma ação completada cujos efeitos permanecem, como algo que foi posto sob custódia e permanece sob custódia; por estar na voz passiva, indica que a herança não “se guarda” a si mesma, mas é mantida por um agente implícito. Morfologicamente, a marca decisiva é a concordância: tetērēmenēn (“guardada”) acompanha klēronomian (“herança”) no acusativo feminino singular, e por isso funciona como particípio atributivo, quase adjetival, acrescentando ao trio de adjetivos uma quarta qualidade, agora de natureza verbal, que transforma “qualidade” em “situação”: não apenas incorruptível, incontaminada e imarcescível, mas efetivamente mantida em segurança.

Esse estado é então localizado e direcionado por duas preposições que fecham o circuito do sentido. Primeiro, en (“em”), preposição que rege dativo e indica esfera/localização (“em, dentro de”), governa ouranois (“céus”), substantivo, masculino, plural, dativo, estabelecendo o “lugar” onde essa guarda está situada. Depois, a frase retorna a eis (“para”), novamente preposição que rege acusativo e indica direção/benefício, e governa hymas (“vós”), pronome pessoal, segunda pessoa do plural, acusativo, fixando o destinatário final: a herança é descrita como voltada “para vós”, não como posse já manuseada, mas como realidade orientada ao beneficiário, guardada em esfera celestial e destinada ao povo a quem a carta se dirige.

A sequência se trata de um sintagma preposicional completo, dependente de um núcleo verbal anterior no período maior, e por isso sua função sintática principal é de complemento direcional/télico, não de predicação autônoma. A abertura com eis (“para”) é preposição que rege acusativo e marca finalidade/direção; ela governa diretamente klēronomian (“herança”) que funciona como núcleo nominal do alvo para o qual o movimento semântico é orientado. Esse núcleo é imediatamente qualificado por uma série de adjetivos em concordância formal com klēronomian (“herança”): o adjetivo aphtharton (“incorruptível”) depende de klēronomian (“herança”) por concordância de caso, gênero e número; kai (“e”), conjunção coordenativa copulativa, liga esse primeiro adjetivo ao segundo; o adjetivo amianton (“incontaminada”), também depende de klēronomian (“herança”) pela mesma concordância; kai (“e”) coordena novamente; amaranton (“imarcescível”) fecha a tríade como terceiro predicador adjetival do mesmo substantivo, de modo que a coordenação por kai (“e”) não cria novas relações de regência, apenas empilha qualificações paralelas sob o mesmo núcleo.

A seguir, o estado dessa “herança” é explicitado por um qualificador verbal em forma de particípio: tetērēmenēn (“guardada”) depende de klēronomian (“herança”) por concordância (mesmo caso, gênero e número), funcionando como particípio atributivo, isto é, como predicação verbal anexada ao substantivo. O valor do perfeito aqui é aspectual: apresenta a guarda como ação já efetivada com resultado vigente, e a voz passiva fixa a herança como paciente da ação (ela “foi guardada” e permanece “em estado de guardada”), sem explicitar o agente no próprio sintagma.

Esse particípio recebe dois complementos preposicionais que delimitam esfera e destinatário. Primeiro, en (“em”) é preposição que rege dativo e indica esfera/localização; ela governa ouranois (“céus”), substantivo, masculino, plural, dativo, que funciona como complemento locativo do particípio tetērēmenēn (“guardada”), especificando o âmbito em que a herança se encontra mantida. Em seguida, reaparece eis (“para”), novamente preposição que rege acusativo, mas agora com valor semântico de direção orientada ao beneficiário/destinatário; ela governa hymas (“vós”), pronome pessoal, segunda pessoa do plural, acusativo, que funciona como complemento de referência/destinação do estado “guardada nos céus”, indicando para quem a herança é preservada e para quem ela é dirigida no horizonte do período.

No grego crítico, a herança é descrita por uma tríplice negação que soa como metal que não oxida: aphtharton (“incorruptível”), amianton (“incontaminada”), amaranton (“imarcescível”), três adjetivos que se encadeiam e depois recebem o particípio tetērēmenēn (“guardada”). A KJV e a ASV espelham essa cadência quase palavra por palavra com “incorruptible, and undefiled, and that fadeth not away” (PT: “incorruptível, e incontaminada, e que não se desvanece/murcha”) e mantêm o fechamento “reserved in heaven for you” (PT: “reservada no céu para vós/vocês”), preservando a sequência adjectival do grego (ainda que troquem o terceiro adjetivo por uma oração relativa “that fadeth not away”). A YLT é a que mais “deixa ver” o grego, porque conserva a série como três qualidades e mantém o plural de en ouranois (“nos céus”) ao escrever “incorruptible, and undefiled, and unfading, reserved in the heavens for you” (PT: “incorruptível, e incontaminada, e imarcescível, reservada nos céus para vós”). A ESV segue a mesma linha com léxico mais contemporâneo: “imperishable, undefiled, and unfading, kept in heaven for you” (PT: “imperecível, incontaminada, e imarcescível, guardada no céu para vós”), e aqui a troca de “reserved” por “kept” aproxima o particípio tetērēmenēn (“guardada”) de um sentido mais direto de preservação.

Nas versões em português, a ARC reproduz a natureza “adjetival” do grego com rara docilidade: “incorruptível, incontaminável e que se não pode murchar” (o terceiro termo vira perífrase, como na KJV), e conclui “guardada nos céus para vós”, conservando o plural de en ouranois (“nos céus”) e o alvo eis hymas (“para vós”). A NVI escolhe uma equivalência mais dinâmica e verbal: “jamais poderá perecer, macular-se ou desvanecer. Essa herança está guardada nos céus para vocês” — aqui o trio grego vira três possibilidades de perda (perecer/manchar/desvanecer), o que comunica bem o efeito, mas afasta a textura formal dos três adjetivos negativos. A NVT amplia e reinterpreta: “imperecível, pura e imaculada, que não muda nem se deteriora, guardada para vocês no céu”, substituindo o terceiro adjetivo por uma dupla (“não muda / não se deteriora”) e mudando “nos céus” para “no céu”, o que é idiomático, mas já não reflete de perto o plural de ouranois (“céus”) no grego.

O ponto em que as versões mais se diferenciam, apesar de concordarem no sentido geral, é a escolha do verbo de preservação: o particípio tetērēmenēn (“guardada”) admite, em português, tanto “guardada” quanto “reservada”; em inglês, “reserved” (KJV/ASV/YLT) sugere algo posto em custódia e “separado” para um destinatário, enquanto “kept” (ESV) sugere algo protegido e mantido seguro. E há ainda a nuance espacial que o próprio grego carrega com en (“em”) + dativo, en ouranois (“nos céus”): a YLT faz questão de “the heavens”, a ARC mantém “nos céus”, a NVI também, ao passo que ESV, KJV/ASV e a NVT preferem o idiomático “in heaven / no céu”, que não nega o grego, mas o normaliza no uso corrente.

Em 1 Pedro 1:4, o sintagma começa com eis (“para”), e essa direção já é exegese em forma gramatical: a regeneração do versículo anterior não termina em um sentimento, mas se abre “para” um destino objetivo, klēronomia (“herança”), palavra que no horizonte bíblico evoca o quinhão recebido por promessa, como nas partilhas do território “por sorte” em Números 26:52–56 e na adjudicação da terra em Josué 14:1–2; Pedro toma essa memória de chão e a eleva, porque a herança agora é descrita com três negações que a retiram do ciclo natural de decomposição. Ao dizer aphthartos (“incorruptível”), ele fala como Paulo quando contrapõe o que apodrece ao que não apodrece, como a “coroa incorruptível” em 1 Coríntios 9:25 e a transformação em “incorruptível” em 1 Coríntios 15:52; ao dizer amiantos (“incontaminada”), ele usa o mesmo vocabulário com que Tiago descreve a “religião pura e incontaminada” em Tiago 1:27, e com que Hebreus caracteriza o Sumo Sacerdote como “incontaminado” em Hebreus 7:26, sugerindo que a herança não apenas dura, mas permanece moralmente intocada, sem mancha de violência, fraude ou idolatria; ao dizer amarantos (“imarcescível”), ele põe na herança a qualidade que mais tarde reaparece como “coroa... imarcescível” em 1 Pedro 5:4, como flor que não perde o viço, de modo que o leitor exilado entenda: aquilo que Deus promete não envelhece como as posses que os impérios podem confiscar.

O particípio tetērēmenēn (“guardada”) dá ao verso o seu tom de segurança: perfeito passivo, ele descreve uma herança já posta sob custódia e permanecendo sob custódia, como documento selado e preservado fora do alcance das mãos que saqueiam. O lugar dessa guarda é marcado por en (“em”) + dativo: ouranois (“céus”), e o plural não precisa ser lido como mapa astronômico, mas como o registro bíblico da esfera divina, onde nada apodrece e ninguém corrompe, como o “tesouro nos céus” de Mateus 6:20 e a “esperança reservada nos céus” de Colossenses 1:5; por isso a herança é ao mesmo tempo prometida e inacessível aos poderes do tempo. E eis (“para”) + acusativo, hymas (“vós”), impede que isso seja abstração: não é “herança em geral”, mas herança direcionada ao povo concreto, como quando Jesus promete “herdar o Reino” preparado “para vós” em Mateus 25:34, e como quando Pedro, logo adiante, fala dos crentes como “guardados” para a salvação em 1 Pedro 1:5: a herança está guardada, e os herdeiros também estão guardados, como dois lados do mesmo cuidado.

A hermenêutica do verso nasce do contraste entre a velha imagem de herança (terra, estabilidade, fronteiras) e a nova condição dos destinatários (peregrinos e dispersos): o texto não anula a gramática do Antigo Testamento, mas a cumpre de modo escatológico. Israel conheceu a herança como dom de Deus e também como risco de perdê-la por infidelidade; por isso o Antigo Testamento aprende a dizer que, mais fundo que a terra, o próprio Deus é a porção do seu povo, como em Salmos 16:5–6 (“o Senhor é a porção da minha herança”), em Deuteronômio 10:9 (o Senhor como herança) e em Salmos 73:26 (Deus como “porção” eterna). Pedro fala a comunidades sem garantias políticas e sem solo próprio, e desloca o centro de gravidade: a herança definitiva não é vulnerável ao exílio, porque está em Deus e na esfera de Deus, e é garantida “por meio” do Cristo ressuscitado, como Paulo descreve quando chama os crentes de “herdeiros” com Cristo em Romanos 8:17 e quando fala da “herança” ligada ao selo do Espírito em Efésios 1:13–14; assim, o que era promessa territorial vira promessa de reino e vida, e o que era lote no mapa vira pertença no futuro de Deus, já antecipada no presente por uma esperança que não murcha.

1 Pedro 1:5

...os quais sois guardados, mediante a fé, pelo poder de Deus, para uma salvação pronta para ser revelada em tempo derradeiro... (Gr.: tous en dynamei theou phrouroumenous dia pisteōs eis sōtērian hetoimēn apokalyphthēnai en kairō eschatō — Tradução literal: “os que, em poder de Deus, sendo guardados por meio da fé, para salvação pronta para ser revelada em tempo último”). A coluna dorsal etimológica da frase está no particípio phrouroumenous (“guardados”), que remete ao verbo phroureō (“vigiar/guardar”), palavra militar, própria de sentinelas e de cidade posta sob guarda: no uso clássico, ela descreve a guarda por guarnição, tanto para impedir invasão quanto para impedir fuga; a tradição lexical registra esse tom “tático” e a sua difusão desde Tucídides (História da Guerra do Peloponeso 1.93.3) em diante, isto é, em registro grego plenamente histórico e não apenas religioso. Esse guardar acontece “em” dynamis (“poder”), e aqui a etimologia ajuda a ver que não se trata primeiro de “autoridade abstrata”, mas de capacidade efetiva: dynamis (“poder/capacidade”) deriva de dynamai (“poder/ser capaz”), como família de palavras que nomeia força, potência, aptidão para agir. O genitivo theou (“de Deus”) prende esse poder ao próprio theos (“Deus”).

O meio humano nomeado não nasce de um “salto no escuro”, mas de pistis (“fé”), e sua etimologia mostra por que, no grego, fé e persuasão se tocam: pistis (“fé”) é derivada de peithō (“persuadir”), de modo que o vocábulo carrega, na própria formação, a ideia de confiança fundada em convicção e persuasão, antes de ser apenas um rótulo confessional. Desse modo, quando o texto combina phroureō (“guardar com vigilância”) com pistis (“fé como confiança persuadida”), a história das palavras impede que “fé” vire mero sentimento e que “guarda” vire mero conforto: a primeira tem nervo cognitivo e volitivo; a segunda tem densidade de proteção ativa.

O alvo dessa guarda é sōtēria (“salvação”), termo cuja história não começa em “céu”, mas em chão: no grego mais amplo, sōtēria (“salvação”) é “segurança, preservação, meio de segurança”, e se ancora na família de sōtēr (“salvador/libertador”), isto é, alguém que livra de perigo e garante preservação. Essa salvação é qualificada por hetoimēn (“pronta/preparada”), da família de hetoimos (“pronto, ao alcance, preparado”); e a própria tradição lexicográfica preserva o eco épico dessa família ao registrar a forma verbal correlata hetoimazō (“preparar”) em Homero (por exemplo, em Ilíada 1.118), lembrando que “pronto” em grego não é “vago”: é aquilo que foi preparado e está disponível.

A salvação “pronta” não é ainda exibida em praça pública: ela está hetoimēn (“pronta”) apokalyphthēnai (“ser revelada”), e a etimologia aqui é quase uma cena: apokalyptō (“revelar”) é “tirar a cobertura”, formada “de” apo (“para fora/para longe de”) + kalyptō (“cobrir”), de modo que revelar é literalmente “remover o véu”. Essa remoção do véu ocorre en kairō (“em tempo oportuno/estação decisiva”): kairos (“tempo oportuno”) é palavra que, segundo a tradição lexical, não aparece em Homero, e desponta cedo com o sentido de “medida devida, proporção, adequação”, chegando a ser proverbial já em Hesíodo (Op. 694), como se a língua dissesse: há um tipo de tempo que não é relógio, mas ocasião. E esse kairos (“tempo oportuno”) é chamado eschatos (“último”), superlativo que marca o extremo, o derradeiro; a cor homérica do termo é registrada também no grego épico, e a ideia de “os últimos” pode ser vista, por exemplo, na Ilíada (Ilíada 10.421–10.434), onde o vocábulo delimita a ponta extrema.

O segmento não contém verbo finito: trata-se de uma construção em acusativo, cujo centro sintático interno é um artigo substantivado que funciona como cabeça nominal, ao qual se acopla um particípio atributivo e, depois, uma cadeia de complementos preposicionais e qualificadores. Tous (“os”) é artigo, masculino, plural, acusativo, e aqui não “apenas determina” um substantivo expresso, mas o supre, funcionando como substantivador (“os que...”), de modo que tudo o que segue se prende a esse referente por marcas formais de concordância. Esse referente é qualificado por phrouroumenous (“sendo guardados”), verbo em forma de particípio, presente (aspecto imperfectivo: guarda em curso, contínua), voz passiva (o referente recebe a ação), masculino, plural, acusativo, concordando com tous (“os”) em caso, gênero e número, o que estabelece a dependência sintática: o particípio depende do artigo substantivado e lhe atribui a predicação verbal (“os [que estão] sendo guardados”).

A esfera/meio dessa guarda é marcada por en (“em”), preposição que rege dativo e, aqui, traz valor de esfera instrumental (“em/na esfera de; mediante”), governando dynamei (“poder”), substantivo, feminino, singular, dativo, que funciona como complemento preposicional adverbial do particípio phrouroumenous (“sendo guardados”), especificando o âmbito em que a guarda se dá. O substantivo dynamei (“poder”) recebe o determinante theou (“de Deus”), substantivo, masculino, singular, genitivo, dependente de dynamei (“poder”) por marca de caso e encaixe semântico: é um genitivo de relação/pertencimento (mais exatamente, genitivo que especifica a fonte/possuidor do “poder”), porque não é regido por preposição, mas por um nome abstrato que pede especificação (“poder de Deus”), e assim restringe e define que poder é esse.

O meio pelo qual essa guarda é apropriada ou atravessada é marcado por dia (“por meio de”), preposição que rege genitivo e tem valor semântico instrumental (“mediante”), governando pisteōs (“fé”), substantivo, feminino, singular, genitivo, que funciona como complemento instrumental do particípio phrouroumenous (“sendo guardados”); aqui o genitivo é formalmente exigido pela preposição, e por isso sua leitura sintática é “genitivo regido por preposição”, não um genitivo de posse. A direção/télos do estado descrito pelo particípio é indicada por eis (“para”), preposição que rege acusativo e tem valor de finalidade/destino (“para, em direção a”), governando sōtērian (“salvação”), substantivo, feminino, singular, acusativo, que funciona como alvo final do guardar (“guardados → para salvação”). Esse alvo é qualificado por hetoimēn (“pronta”), adjetivo, feminino, singular, acusativo, dependente de sōtērian (“salvação”) por concordância (mesmo caso, gênero e número), descrevendo a salvação como já preparada/disponível.

A noção de prontidão é completada por apokalyphthēnai (“ser revelada”), verbo em forma de infinitivo, aoristo (aspecto global: o evento de revelar visto como um todo, não como processo), voz passiva (a salvação é o paciente da revelação), sem pessoa e sem número por ser forma não finita, dependente de hetoimēn (“pronta”) como infinitivo complementar de conteúdo (“pronta para ser revelada”), amarrando o adjetivo a um evento futuro de manifestação. Esse evento é delimitado temporalmente por en (“em”), preposição que rege dativo e aqui tem valor temporal de esfera (“em, no tempo de”), governando kairō (“tempo oportuno”), substantivo, masculino, singular, dativo, que funciona como adjunto adverbial de tempo do infinitivo apokalyphthēnai (“ser revelada”); e kairō (“tempo oportuno”) é qualificado por eschatō (“último”), adjetivo, masculino, singular, dativo, dependente de kairō (“tempo oportuno”) por concordância, restringindo o tempo como derradeiro.

O primeiro eixo onde as traduções se revelam — e onde o grego respira com mais nitidez — é o verbo-particípio phrouroumenous (“guardados / vigiados sob proteção”), que no NA28 vem como proteção em curso (particípio presente, voz passiva). A YLT deixa isso quase “à vista”: “who, in the power of God are being guarded” (isto é, “que... estão sendo guardados”), com a progressividade explícita; a ESV segue o mesmo caminho: “who by God's power are being guarded” (“que... estão sendo guardados”). KJV e ASV optam por “are kept / are guarded” (“são guardados”), que ainda cabe bem ao aspecto do particípio, mas perde um pouco do “presente contínuo” que o grego sugere. Entre as portuguesas, a ARA mantém a sobriedade e a estrutura: “que sois guardados”; a NVI troca o verbo por “protegidos”, o que é semântico e pastoralmente claro, mas já interpreta o campo imagético militar de phroureō (“guarnecer, pôr sentinela”) como “proteção” genérica; e a NVT faz o mesmo, com “Deus os protege”.

O segundo eixo é a preposição en (“em”) com dativo em en dynamei theou (“em/pelo poder de Deus”), que pode ser lida como esfera (“dentro do âmbito do poder”) ou como meio/instrumento (“por meio do poder”). A YLT traduz quase palavra por palavra e preserva a imagem espacial: “in the power of God” (“no poder de Deus”); a ARC segue essa intuição com seu português mais antigo: “guardados na virtude de Deus” — “virtude” aqui como “força eficaz”, ecoando dynamis (“poder”). Já KJV/ASV/ESV deslocam para um tom mais instrumental: “kept by the power of God / guarded by God's power” (“guardados pelo poder de Deus”), e a ARA faz o mesmo: “guardados pelo poder de Deus”. Nenhuma dessas opções é “errada” em si; o que muda é a pintura: “no poder” coloca o crente como quem habita um recinto forte; “pelo poder” põe Deus como agente que sustenta a guarda.

O terceiro eixo é dia pisteōs (“mediante/por meio da fé”), onde o grego marca o canal (meio) pelo qual essa guarda é experienciada. Aqui há ampla convergência: KJV “through faith” (“por meio da fé”); ESV “through faith”; ASV idem; YLT idem; ARA “mediante a fé”; ARC também “mediante a fé”; NVI mantém “mediante a fé”. A NVT desloca a locução para a frente e a “explica” dentro da frase (“Por meio da fé que vocês têm...”), o que ajuda o leitor, mas já mexe no peso sintático do grego, que deixa a fé como meio dentro do fluxo, não como tópico inicial.

O quarto eixo é eis sōtērian (“para salvação”), com eis (“para”) + acusativo, marcando direção/propósito: a guarda tende para um alvo. KJV e YLT preservam essa seta com “unto salvation” (“para salvação”); ESV “for a salvation” (“para uma salvação”); ARA “para a salvação”. A CEV, por ser mais interpretativa, quebra o arco teleológico do eis em sequência temporal explícita: “whose power will protect you until the last day. Then he will save you” (“cujo poder os protegerá até o último dia; então ele os salvará”). Isso pode ser catequeticamente útil, mas não é uma equivalência formal: o grego aponta “para salvação” como finalidade, sem necessariamente explicitar “até... então...”.

O quinto eixo é a dupla hetoimēn apokalyphthēnai (“pronta/preparada para ser revelada”), onde hetoimos (“pronto, preparado”) pode significar “já preparado” sem obrigar a nuance de “iminente”, e o infinitivo aoristo passivo apokalyphthēnai (“ser revelada”) deixa o agente implícito (Deus), como é comum no passivo. ESV mantém a literalidade: “ready to be revealed in the last time” (“pronta para ser revelada no último tempo”); KJV/ASV/YLT vão na mesma direção. ARA é particularmente fiel e elegante: “a salvação preparada para revelar-se no último tempo”. ARC e NVI acrescentam “já prestes / está prestes”, puxando hetoimēn para a ideia de iminência; a NVT escolhe “pronta”, mas também altera o contorno temporal (“até que recebam essa salvação”) e pluraliza “tempos” (“nos últimos tempos”), quando o grego tem en kairō eschatō (“em tempo último”) no singular. GW traduz a mesma ideia com outra moldura: “ready to be revealed at the end of time” (“pronta para ser revelada no fim do tempo”), que é interpretativamente equivalente a “no último tempo”, mas troca o léxico de kairos (“tempo oportuno, estação”) por um “fim do tempo” mais totalizante.

A imagem central do versículo nasce de phrouroumenous (“sendo guardados”): não é o verbo suave de quem apenas “conserva”, mas o termo de sentinela, de guarnição que cerca um ponto sensível e o mantém fora do alcance do inimigo; o Novo Testamento o usa tanto no concreto de uma cidade “guardada” para prender alguém (2 Coríntios 11:32; Atos 9:24) quanto no figurado de um coração “guardado” como cidadela pela paz de Deus (Filipenses 4:7), e até no sentido ambíguo de “custódia” sob a Lei (Gálatas 3:23), de modo que, aqui, a fé não é retratada como passeio em campo aberto, mas como vida protegida sob vigilância ativa: a comunidade é o “ponto estratégico”, e a guarda não é intermitente, porque o particípio presente mantém a ação em andamento, como uma ronda que não abandona o posto.

Essa guarda acontece en (“em”) dynamei (“poder”) theou (“de Deus”): a preposição não pinta primeiro um “sentimento de segurança”, mas uma esfera, como se o povo estivesse dentro de um recinto de força, um campo de energia que não pertence a si mesmo, porque o genitivo amarra o “poder” ao próprio Deus; e, no entanto, essa mesma guarda não é descrita como mecânica, pois passa dia (“por meio de”) pistis (“fé”), isto é, por um meio humano real, não como causa autônoma, mas como canal de apropriação. O Antigo Testamento já sabe cantar essa gramática de guarda que vem de fora — “o Senhor te guardará... guardará a tua saída e a tua entrada” (Salmos 121:7–8) — e o Novo Testamento ecoa a mesma mão firme quando afirma que “o Senhor é fiel” e “vos guardará do Maligno” (2 Tessalonicenses 3:3), ou quando Jesus descreve o rebanho como inalcançável à força predatória (“ninguém as arrebatará da minha mão”) (João 10:28–29); por isso, a fé não é apresentada como o braço que segura Deus, mas como a mão estendida que recebe a custódia divina, enquanto o “poder” permanece do lado de Deus.

O alvo dessa guarda é eis (“para”) sōtērian (“salvação”), e o eis impede que a proteção vire um fim em si: ela aponta para uma chegada. Essa salvação é chamada hetoimēn (“pronta”) apokalyphthēnai (“para ser revelada”), e o verbo de revelar conserva sua cena originária: o que está guardado não ficará sempre coberto; no tempo de Deus, a cobertura será retirada, e aquilo que era seguro, mas ainda não exposto, aparecerá à vista. Essa tensão entre “já em guarda” e “ainda por revelar” conversa com o modo como Paulo fala de uma salvação cuja proximidade cresce no horizonte (“agora está mais perto... do que quando no princípio cremos”) (Romanos 13:11) e com a expectativa de uma manifestação final ligada à obra consumada de Cristo (Hebreus 9:28); e, dentro da própria carta, a revelação não é um detalhe periférico, porque o mesmo campo verbal reaparece quando o autor fala da “revelação de Jesus Cristo” como cenário da fé provada (1 Pedro 1:7) e como foco de esperança vigilante (1 Pedro 1:13).

Tudo isso é situado en (“em”) kairō (“tempo oportuno”) eschatō (“último”): não um “tempo” como relógio que apenas corre, mas como estação designada, momento decisivo em que o que foi preservado se torna manifesto. O Novo Testamento nomeia essa borda do calendário moral como “últimos tempos” (1 Pedro 1:20), “últimos dias” (2 Timóteo 3:1) e “última hora” (1 João 2:18), e Pedro, ao usar esse vocabulário, ensina a ler a experiência da igreja como vida em fronteira: por fora, dispersão e fragilidade; por dentro, guarda contínua; à frente, não um vago “melhorar”, mas revelação. A hermenêutica do versículo, então, não permite duas fugas simétricas: nem a fuga do medo (como se a história tivesse a palavra final), nem a fuga do triunfalismo (como se a revelação já estivesse plenamente à vista); ele pede a sobriedade de quem caminha sob sentinela e aguarda o levantar do véu, sabendo que a mesma mão que guarda também revelará.

1 Pedro 1:6

...em que vocês exultam, por pouco tempo agora, se é necessário, tendo sido entristecidos em variadas provações... (Gr.: en hō agalliasthe, oligon arti, ei deon estin, lypēthentas en poikilois peirasmois, — Literalmente: “em que exultais, por pouco agora, se é necessário, tendo sido entristecidos em provações variadas,”). Quando o grego escolhe agalliaō (“exultar”), ele escolhe uma palavra que já nasce “montada” por composição: as tradições lexicais a explicam como formada a partir de agan (“muito”, “intensamente”) + hallomai (“saltar”), isto é, a alegria como salto interior, não mera satisfação discreta; por isso, o verbo tende a soar como júbilo que transborda, e não como simples contentamento. Esse “salto” semântico é importante porque o contexto não descreve ausência de dor, mas coexistência paradoxal: exultação que permanece enquanto a tristeza atravessa o presente.

O advérbio oligos (“pouco”) tem história de medida: ele é o “pouco” que delimita extensão (tempo, quantidade, intensidade), e aqui funciona como marca de brevidade; seu parentesco semântico com a ideia de “pequenez/escassez” faz o leitor ouvir não só “agora”, mas “agora por um intervalo reduzido”, quase como um parêntese no caminho. Já arti (“agora”, “neste momento”) fixa o ponto do relógio: não é o “agora” vago, mas o “agora” do instante presente, contraste natural com o horizonte de esperança que domina o parágrafo anterior.

Para a tristeza, o texto recorre a lypeō (“entristecer”, “afligir”), verbo de dor moral que atravessa a língua grega com amplitude, como registram os léxicos do corpus antigo; a família lexical aponta para sofrimento que pesa no ânimo, não para dano físico. E note que a tristeza não aparece como essência final do fiel, mas como acontecimento sofrido no tempo: “tendo sido entristecidos” (o particípio do verso deriva dessa base verbal), uma dor real, porém enquadrada.

Por fim, peirasmos (“provação”, “teste”) carrega na própria forma a ideia de “processo de testar”: a tradição lexicográfica o relaciona ao verbo “pôr à prova” (família de peiraō), e aqui vale perceber a história: o verbo peiraō (“tentar”, “pôr à prova”) já é atestado em Homero, por exemplo em Ilíada 1.302, onde aparece a forma “tenta!”; assim, mesmo que o substantivo peirasmos seja típico do vocabulário de “teste” em registros posteriores (incluindo o Novo Testamento), ele cresce de um tronco verbal bem antigo da língua. A expressão poikilos (“variado”, “multiforme”) dá cor a essas provações: elas não são uma única lâmina repetida, mas muitas faces; e o adjetivo já vive em Homero, como em Ilíada 10.30, onde ocorre a forma feminina dativa “variada”, confirmando que esse “multiforme” é herança antiga do grego, não criação tardia.

O encadeamento morfológico começa com o pequeno arco preposicional en (“em”), preposição que rege dativo e abre a moldura de referência; ela governa (“o qual”), pronome relativo, dativo, singular (masculino/neutro), que retoma um antecedente anterior no período e funciona como termo regido pela preposição, formando en hō (“em que”). A oração relativa assim introduzida encontra seu núcleo verbal em agalliasthe (“exultais”), verbo, presente (aspecto imperfectivo: ação em curso), indicativo, voz média/passiva (com sentido deponente no uso: “exultar”), segunda pessoa do plural; esse verbo carrega a predicação principal do segmento, e tudo o que se segue se encaixa como delimitação circunstancial da exultação. Logo depois, oligon (“pouco”) é formalmente adjetivo no neutro, singular, acusativo, mas aqui funciona adverbialmente como acusativo de extensão/duração (“por pouco [tempo]”), e arti (“agora”) é advérbio temporal que fixa o ponto do presente (“agora, neste momento”), estreitando a alegria a uma faixa curta do relógio.

Em seguida, a condição entra com ei (“se”), partícula condicional que abre um inciso, e o núcleo desse inciso é a expressão impessoal deon (“sendo necessário”), particípio presente, ativo, neutro, singular, usado de modo impessoal (“se for necessário”), frequentemente acompanhado pela cópula estin (“é”), verbo, presente, indicativo, ativo, terceira pessoa do singular, que explicita o “ser” da necessidade (a presença de estin varia por tradição textual, mas a leitura com a cópula é atestada em testemunhos e aparatos). A tensão do versículo é carregada pelo particípio lypēthentes (“tendo sido entristecidos”), particípio aoristo, passivo (ação recebida), masculino, plural, nominativo, que se encaixa como circunstância concomitante/concessiva ao lado de agalliasthe (“exultais”): eles exultam, embora tenham sido atingidos por tristeza; e aqui vale notar que o texto crítico e os alinhamentos interlineares registram a forma nominativa lypēthentes (“tendo sido entristecidos”), não a acusativa, justamente para concordar com o sujeito implícito de segunda pessoa plural de agalliasthe (“exultais”). Essa tristeza é localizada por en (“em”), novamente preposição com dativo, que governa peirasmois (“provações”), substantivo, masculino, plural, dativo, e recebe o adjetivo poikilois (“variadas”), masculino, plural, dativo, em concordância, formando en poikilois peirasmois (“em variadas provações”), como o cenário múltiplo dentro do qual a tristeza os alcança.

O segmento começa por um genitivo articulado que depende do antecedente imediato do versículo anterior, tou (“do”) artigo, genitivo, neutro, singular, que substantiva e ancora o particípio parontos (“que está presente/que chegou”), de modo que tou parontos (“do que chegou/está presente”) funciona como qualificativo do referente em genitivo (isto é, do “evangelho”), marcando por concordância formal (genitivo neutro singular) que se trata do mesmo termo retomado. Em seguida, eis (“para”) preposição que rege acusativo e exprime direção/alcance governa hymas (“vós”), estabelecendo o alvo do “chegar”: “para vós”. A comparação é introduzida por kathōs (“assim como”), advérbio/conjunção comparativa que prende o que vem ao modo do que já foi dito, e kai (“também”) conjunção coordenativa aditiva reforça a equivalência; então en (“em”) preposição que rege dativo e marca esfera/localização governa panti (“todo”) que depende do núcleo nominal seguinte por concordância, e este núcleo é (“no”) artigo que determina kosmō (“mundo”), formando en panti tō kosmō (“em todo o mundo”) como adjunto adverbial de esfera.

O predicado verbal explícito surge em estin (“é/está”) cujo sujeito é o mesmo referente retomado pelo genitivo inicial (o “evangelho”), e esse verbo copulativo recebe dois particípios coordenados como predicativos: karpophoroumenon (“dando fruto”) e auxanomenon (“crescendo”); ambos concordam em caso, gênero e número com o sujeito implícito do estin (“é/está”), e são ligados por kai (“e”), conjunção coordenativa, de modo que a ligação sintática é: estin (“é/está”) → predicação por particípios (“dando fruto e crescendo”). A comparação é retomada por novo kathōs (“assim como”) com novo kai (“também”), e então aparece a segunda moldura local: en (“em”) preposição com dativo de esfera governa hymin (“vós”), pronome pessoal, segunda pessoa do plural, dativo, funcionando como adjunto adverbial de localização relacional (“entre vós / em vós”), o que estabelece paralelismo formal com en panti tō kosmō (“em todo o mundo”).

A partir daí, a frase fixa o ponto de início temporal com aph’ (“desde”), forma elidida de apo (“de, desde”), preposição que rege genitivo e aqui tem valor temporal de ponto de partida (“desde”); ela governa hēs (“a qual/da qual”), pronome relativo, genitivo, feminino, singular, que por sua vez depende do substantivo hēmeras (“dia”), substantivo, genitivo, feminino, singular, formando a expressão idiomática aph’ hēs hēmeras (“desde o dia em que”), em que o genitivo é exigido pela preposição e a relativa serve para ligar o “dia” ao conteúdo verbal que segue. O conteúdo desse “dia” é expresso por dois verbos finitos coordenados: ēkousate (“ouvistes”), verbo, aoristo (aspecto global: evento tomado como um todo) ligado a epegnōte (“conhecestes plenamente/reconhecestes”) por kai (“e”); ambos os verbos compartilham o mesmo complemento direto expresso em acusativo: tēn (“a”) determina charin (“graça”) que funciona como objeto direto de ēkousate (“ouvistes”) e, por coordenação, também de epegnōte (“conhecestes plenamente”). Esse objeto é especificado por tou (“de”) artigo que determina theou (“Deus”) funcionando como genitivo de relação/pertencimento que restringe charin (“graça”) (“a graça de Deus”), porque se encaixa como determinante nominal sem preposição interveniente. Por fim, en (“em”) preposição que rege dativo e aqui marca esfera/modo governa alētheia (“verdade”), compondo en alētheia (“em verdade”) como adjunto adverbial que qualifica o modo/esfera em que essa graça foi ouvida e reconhecida, fechando a frase com um dativo de quadro que não cria novo referente, mas colore o ato cognitivo (“em verdade”, isto é, no âmbito da verdade).

O eixo grego que precisa governar as escolhas de tradução aqui é a sequência en hō (“em que”) → agalliasthe (“exultais”) → oligon arti (“por pouco agora”) → ei deon estin (“se é necessário”) → lypēthentes (“tendo sido entristecidos”) → en poikilois peirasmois (“em variadas provações”). Quando uma versão preserva esse encadeamento, ela deixa o leitor “pisar” nas mesmas pedras do texto: a alegria não flutua no vazio, mas está amarrada a um referente (“em que”); ela é intensa (“exultais”); ela convive com um intervalo curto (“por pouco agora”); ela atravessa uma necessidade condicionada (“se é necessário”); ela passa por uma aflição real (particípio passivo: “tendo sido entristecidos”); e ela acontece “dentro” de um campo de testes (“em variadas provações”).

Nas versões em inglês, a KJV faz soar a intensidade de agalliasthe ao dizer “Wherein ye greatly rejoice” (PT, tradução minha do inglês: “Em que vós grandemente vos alegrais”), e preserva a condição de ei deon estin (“if need be”), mas seu “for a season” (PT: “por um tempo/por uma estação”) não explicita tão bem o arti (“agora”), e “in heaviness through manifold temptations” (PT: “em tristeza/peso por múltiplas ‘temptations’”) traz “temptations”, que no inglês antigo podia significar “provações”, mas hoje tende a ser ouvido como “tentações” no sentido moral. A ESV é quase “didática” no paralelismo com o grego: “In this you rejoice, though now for a little while, if necessary, you have been grieved by various trials” (PT: “Nisto/em isso vocês se alegram; embora agora, por um pouco, se necessário, vocês tenham sido entristecidos por várias provações”), preservando “now... for a little while”, mantendo o “if necessary” e traduzindo peirasmois como “trials”, que evita a ambiguidade moderna de “temptations”. A YLT, por sua literalidade, ajuda a enxergar as travas do texto: “in which ye are glad, a little now, if it be necessary, being made to sorrow in manifold trials” (PT: “em que estais contentes; um pouco agora; se for necessário; sendo levados à tristeza em múltiplas provações”); ela mostra bem en hō (“in which”) e oligon arti (“a little now”), mas “are glad” pode soar mais fraco do que a carga jubilosa de agalliasthe. A ASV fica num meio-termo valioso: retém a intensidade (“greatly rejoice”), explicita “for a little while” e preserva o passivo (“ye have been put to grief”), o que conversa bem com lypēthentes.

Nas versões em português, a ARA espelha com sobriedade o relevo do grego: “Nisso exultais, embora, no presente, por breve tempo, se necessário, sejais contristados por várias provações,” mantendo (i) a ideia de referente, (ii) a força de “exultais”, (iii) o “agora” (“no presente”) com o “pouco” (“breve tempo”), (iv) o condicional “se necessário”, (v) o passivo (“sejais contristados”), e (vi) peirasmois como “provações”. A ARC preserva bem en hō ao dizer “em que”, e também guarda a intensidade (“grandemente vos alegrais”), mas é aqui que aparece o ponto sensível: “várias tentações” pode deslocar peirasmois para um sentido predominantemente moral, quando o contexto imediato é sofrimento que contrista; além disso, “ainda que agora importa” introduz uma moldura idiomática antiga (“importa”) que não está explicitada da mesma forma no grego, embora tente capturar o dei/deon (“é necessário”). A NVI-PT mantém o eixo temporal (“agora, por um pouco de tempo”) e traduz peirasmois por “provação”, mas altera uma engrenagem: “devam ser entristecidos” transforma o condicional ei deon estin (“se é necessário”) numa necessidade mais direta (“devam”), o que pode reduzir a nuance de contingência (a tristeza vem “se” houver tal necessidade). A NVT simplifica o verso para legibilidade (“Portanto, alegrem-se com isso, ainda que agora, por algum tempo, vocês precisem suportar muitas provações.”), mas paga um preço: (i) troca a dor passiva (“ser entristecido”) por uma ação de resistência (“suportar”), (ii) afrouxa oligon (“por algum tempo”, sem “pouco”), e (iii) não preserva tão claramente o “se é necessário”. Quanto à BLH, a sigla é usada para “Bíblia na Linguagem de Hoje”, e o texto correspondente (hoje mais conhecido como NTLH) explicita o tom pastoral: “Alegrem-se por isso, se bem que agora é possível que vocês fiquem tristes por algum tempo, por causa dos muitos tipos de provações que vocês estão sofrendo.”; aqui, “é possível” suaviza a necessidade (deon), e a versão acrescenta uma explicação causal (“por causa...”) que não está formalmente marcada no grego deste segmento, funcionando mais como interpretação para o leitor.

O en hō (“em que”) não deixa a exultação pairar no ar; ele a prende a um referente anterior, como âncora cravada no que já foi dito sobre esperança e herança (1 Pedro 1:3–5). Assim, quando o texto diz agalliasthe (“exultais”), ele descreve uma alegria que não nasce da ausência de dor, mas do chão objetivo da promessa, do mesmo tipo de alegria que pode coexistir com lágrimas sem se dissolver nelas, como em 2 Coríntios 6:10 (“entristecidos, mas sempre alegres”) e em Romanos 5:3–5, onde a tribulação não anula a esperança, antes a prova e a encorpa. O oligon arti (“por pouco agora”) funciona como contraste escatológico: a dor pertence ao “agora” e é “por pouco”, enquanto a herança e a salvação pertencem ao horizonte que Deus guarda e revelará; esse “pouco tempo” ecoa o mesmo idioma de brevidade em 2 Coríntios 4:17 (“leve e momentânea tribulação”) e em Hebreus 10:37 (“ainda dentro de pouco tempo”), e o próprio Pedro repete a mesma cadência em 1 Pedro 5:10 (“havendo padecido um pouco”). A frase ei deon estin (“se é necessário”) não transforma o sofrimento em fatalismo, mas o coloca sob uma régua de propósito: não é dor “à solta”, é dor medida, como em 1 Pedro 4:19 (“segundo a vontade de Deus”) e como na lógica antiga do refino, onde Deus prova e purifica sem abandonar: Salmos 66:10 (“tu nos provaste... como se prova a prata”) e Isaías 48:10 (“eu te provei na fornalha da aflição”).

O particípio lypēthentes (“tendo sido entristecidos”) preserva a realidade da ferida: a Escritura não pede que o fiel finja que não dói, e por isso a tristeza não é censurada como “falta de fé”; ela é nomeada como experiência real dentro da peregrinação. A tensão é que essa tristeza ocorre en poikilois peirasmois (“em variadas provações”), isto é, dentro de uma multiplicidade de testes, e a variedade não é apenas quantidade, mas forma: provações mudam de face como o deserto muda de vento. Essa pluralidade conversa com Tiago 1:2–3, que usa o mesmo eixo de “provações” e “provação” para descrever o teste que produz perseverança, e conversa com a imagem do ouro provado que o próprio contexto imediato explicita em 1 Pedro 1:7, onde a fé é mostrada como algo que passa pelo fogo para ser achada genuína; por isso, a “tristeza” aqui não é o ponto final do versículo, é o instrumento pelo qual o “agora” é atravessado sem que a esperança morra. E, no fundo, o texto retoma uma lei antiga do coração bíblico: “o choro pode durar uma noite, mas a alegria vem pela manhã” (Salmos 30:5), não como promessa de euforia instantânea, mas como promessa de que a noite não governa o calendário de Deus; Jesus mesmo dá a imagem quando fala de tristeza que se converte em alegria e não pode ser tirada (João 16:20–22), e Pedro, ao falar a gente provada, coloca essa mesma dinâmica no corpo da fé: exultação não é negar a noite, é caminhar nela com uma manhã já jurada.

1 Pedro 1:7

...para que a prova da vossa fé — muito mais preciosa do que o ouro perecível, embora provado pelo fogo — seja achada para louvor, glória e honra, na revelação de Jesus Cristo (Gr.: hina to dokimion hymōn tēs pisteōs polytimoteron chrysiou tou apollymenou, dia pyros de dokimazomenou heurethē eis epainon kai doxan kai timēn en apokalypsei Iēsou Christou — Literalmente: “a fim de que a prova da vossa fé, mais preciosa que ouro que perece, mas sendo provado através de fogo, seja achada para louvor e glória e honra, na revelação de Jesus Cristo.”) A espinha etimológica do enunciado começa em dokimion (“prova; teste”), um substantivo de família verbal ligado a dokimazō (“provar; examinar; aprovar”) e ao adjetivo dokimos (“aprovado; genuíno”), descrevendo “prova” não como curiosidade intelectual, mas como crivo que demonstra qualidade; essa rede lexical é bem atestada em léxicos do grego antigo e do grego do Novo Testamento, e a própria ideia de “examinar/aprovar” aparece já no uso historiográfico clássico, por exemplo em Tucídides, quando o verbo ocorre em contexto avaliativo (dokimazō), mostrando que o campo semântico de “testar” não nasce tardiamente, mas circula como linguagem pública de verificação. Tucídides, História da Guerra do Peloponeso 2.35.3 diz:

“...ἐπειδὴ δὲ τοῖς πάλαι οὕτως ἐδοκιμάσθη ταῦτα καλῶς ἔχειν.”
Transliteração: “...epeidē de tois palai houtōs edokimasthē tauta kalōs echein.”
Tradução: “visto que, para os antigos, assim foi provado que estas coisas estavam bem (que era bom que fosse assim)”.

O complemento “da fé” vem de pistis (“fé”), cujo relevo etimológico se vê quando se observa sua família: o substantivo se liga ao verbo peithō (“persuadir; convencer”) e, por essa via, carrega a ideia de confiança fundada, de assentimento que “se deixa persuadir” por uma realidade considerada firme; por isso, mesmo quando a palavra se desloca para a esfera religiosa, ela não perde o cheiro antigo de adesão confiável.

Quando o texto diz polytimoteron (“mais precioso”), ele acopla polys (“muito”) ao eixo de timē (“valor; honra”), e a etimologia aqui é quase transparente: “muito valioso” é literalmente “de muita timē”; e timē (“honra; valor”) não é um termo tardio, pois aparece com vigor no épico homérico em cenas em que honra e reconhecimento são disputados como parte do próprio tecido social, de modo que, ao dizer “mais precioso”, a frase aciona um vocabulário antigo de estima pública e valor reconhecido.

Em chrysiou (“de ouro”), o substantivo chrysion (“ouro”) tem história que se deixa rastrear na prosa clássica: Xenofonte usa chrysion em contexto econômico e material, o que mostra que o termo circula como nome concreto do metal/riqueza, e não apenas como símbolo religioso; já apollymenou (“que perece”) pertence ao verbo apollymi (“destruir; perder; perecer”), cuja própria forma sugere composição com o prefixo apo (“para longe”) sobre o velho núcleo verbal de “arruinar/perder”, e a família verbal é antiga o bastante para comparecer na épica (com formas de apollymi) quando se narra perda e ruína. O fogo, em pyros (“fogo”), entra como palavra primordial do grego, e sua ocorrência homérica é abundante; assim, quando o texto fala em “provar através do fogo” (dia pyros), ele une uma imagem elementar (fogo) a um vocabulário técnico de verificação (provar), fazendo o metal e o crivo se tocarem num mesmo gesto semântico.

O verbo final, heurethē (“seja achado”), vem de heuriskō (“achar; encontrar”), cuja linhagem aparece com naturalidade na narrativa e na historiografia, inclusive na prosa clássica, onde formas do verbo servem para “encontrar” tanto pessoas quanto fatos, decisões e oportunidades; e, quando o texto desemboca em epainon (“louvor”), doxan (“glória”) e timēn (“honra”), ele acumula três palavras com história própria: epainos (“louvor”) se explica pela intensificação com epi (“sobre”) do núcleo de ainos (“elogio”), descrevendo “louvor apropriado/ajustado”; doxa (“glória”) nasce do mundo de dokeō (“parecer; opinar”) e, já em Homero, pode carregar a nuance de “expectativa/opinião”, antes de se expandir para “reputação” e então “glória”; e apokalypsei (“revelação”) preserva, em sua forma, a imagem de “tirar o véu” (apo + kalyp-), isto é, tornar manifesto o que estava coberto.

O núcleo verbal explícito da construção é heurethē (“seja achada”), verbo no aoristo (aspecto global: o “achamento” como evento inteiro), modo subjuntivo (valor teleológico por depender de hina), voz passiva (o sujeito é “encontrado”, não “encontra”), terceira pessoa do singular; ele é puxado por hina (“para que”), conjunção que abre uma oração final e, por essa marca formal, exige precisamente esse subjuntivo como eixo do propósito. O sujeito que será “achado” vem logo no início e se apresenta como um bloco nominal: to (“o”), artigo, nominativo, neutro, singular, substantiva e determina dokimion (“prova; ensaio comprovador”), substantivo, nominativo, neutro, singular, e esse núcleo nominal recebe dois genitivos em cascata que o amarram por relação: primeiro hymōn (“de vós”), pronome pessoal, genitivo, plural, que marca posse/relação (“de vocês”); depois tēs (“da”), artigo, genitivo, feminino, singular, que determina pisteōs (“fé”), substantivo, genitivo, feminino, singular, funcionando como genitivo de especificação (“a prova... da fé”), de modo que o bloco inteiro to dokimion hymōn tēs pisteōs (“a prova de vossa fé”) é a unidade que ocupa a função sintática de sujeito de heurethē (“seja achada”).

Esse sujeito é qualificado por um predicativo comparativo que concorda formalmente com ele: polytimoteron (“mais precioso”), adjetivo no grau comparativo, nominativo, neutro, singular, ligado a dokimion (“prova”) por concordância de caso, gênero e número, e pedindo por sua própria natureza um termo de comparação expresso em genitivo: chrysiou (“de ouro”), substantivo, genitivo, neutro, singular, que funciona como genitivo de comparação (“mais precioso do que ouro”). Esse “ouro” não fica nu: ele é restringido por tou (“do”), artigo, genitivo, neutro, singular, que substantiva e prende a ele o particípio apollymenou (“que perece”), particípio presente (aspecto imperfectivo: processo de perecer), voz média/passiva na forma, genitivo, neutro, singular, concordando com chrysiou (“ouro”) e funcionando como modificador atributivo do termo de comparação (“ouro perecível”). A concessão é então costurada sem quebrar a dependência do genitivo: dia (“através de”), preposição que rege genitivo e aqui marca meio/instrumento, governa pyros (“fogo”), substantivo, genitivo, neutro, singular; a partícula de (“mas/porém”) introduz o contraste leve, e o particípio dokimazomenou (“sendo provado”), particípio presente (processo em curso), voz média/passiva na forma, genitivo, neutro, singular, permanece no mesmo caso e concordância de chrysiou (“ouro”), mostrando que ele não é um “rótulo solto”, mas um predicador dependente do termo de comparação: é o “ouro” que, embora pereça, ainda assim é “provado através de fogo”, e essa qualificação concessiva reforça a força do comparativo (se até o ouro passa por fogo, quanto mais o dokimion é precioso).

O destino do “ser achado” é expresso por uma sequência preposicional que se encadeia diretamente ao verbo: eis (“para”), preposição que rege acusativo e indica finalidade/direção de resultado, governa epainon (“louvor”), substantivo, acusativo, masculino, singular, e a coordenação por kai (“e”), conjunção coordenativa aditiva, liga a ele doxan (“glória”), substantivo, acusativo, feminino, singular, e timēn (“honra”), substantivo, acusativo, feminino, singular, formando um tríplice complemento final (“para louvor e glória e honra”). A moldura temporal/ocasião é então marcada por en (“em”), preposição que rege dativo e aqui indica esfera/tempo, governando apokalypsei (“revelação”), substantivo, dativo, feminino, singular; esse nome recebe o determinante genitivo duplo Iēsou (“de Jesus”) e Christou (“de Cristo”), ambos substantivos próprios, genitivo, masculino, singular, dependentes de apokalypsei (“revelação”) como genitivos de relação/conteúdo, completando a cena: o dokimion (“prova”) — sujeito do subjuntivo passivo — é orientado, por marcas formais transparentes, a “ser achado” com finalidade tríplice, no horizonte definido da “revelação de Jesus Cristo”.

A oração neste versículo, como vimos, abre-se com hina (“para que”), conjunção final que governa toda a construção e, pela sua força teleológica, prepara o terreno para um verbo no modo subjuntivo; logo em seguida, to (“o”), artigo, nominativo, neutro, singular, determina dokimion (“prova; ensaio”), formando o sintagma to dokimion (“a prova”) que funciona como sujeito formal do verbo principal da oração. Esse sujeito é imediatamente qualificado por dois genitivos encadeados: hymōn (“de vós”), pronome pessoal, genitivo, plural, liga-se a dokimion como genitivo de relação/pertencimento (“a prova pertencente a vocês”), e o artigo tēs (“da”) determina pisteōs (“fé”) que se encaixa como genitivo de especificação (“a prova relativa à fé”), de modo que to dokimion hymōn tēs pisteōs (“a prova de vós da fé”) é a unidade nominal completa que permanece em posição de sujeito.

A seguir, polytimoteron (“mais precioso”) concorda com dokimion (“prova”) em caso, gênero e número e funciona como predicativo do sujeito dentro da oração final, descrevendo o “caráter” do sujeito enquanto se caminha para o verbo; esse comparativo pede o termo de comparação em genitivo, e ele vem em chrysiou (“de ouro”) genitivo de comparação (“mais precioso do que ouro”), sendo esse chrysiou (“ouro”) especificado por um particípio atributivo em genitivo: tou (“do”), artigo, genitivo, neutro, singular, substantiva apollymenou (“que perece”) concordando com chrysiou (“ouro”) e funcionando como genitivo atributivo (“ouro perecível”), de modo que a relação formal aqui é chrysiou (“ouro”) ← tou apollymenou (“do que perece”) por concordância genitiva.

Depois do inciso descritivo do “ouro”, entra a expressão preposicional dia (“através de”), preposição que rege genitivo e aqui marca meio/instrumento; ela governa pyros (“fogo”), formando dia pyros (“através de fogo”), e a partícula pós-positiva de (“mas/porém”) introduz contraste leve com o ouro “perecível”: mesmo assim, ele é “provado”; essa ideia vem no particípio dokimazomenou (“sendo provado”) que concorda com chrysiou (“ouro”) e depende dele como modificador: a amarração sintática é chrysiou (“ouro”) ← dokimazomenou (“sendo provado”), e o meio desse provar fica explicitado pelo adjunto dia pyros (“através de fogo”), dependente do particípio por valor semântico (meio/instrumento), sem precisar de nova marca de concordância além da regência preposicional.

O verbo que cumpre a finalidade anunciada por hina (“para que”) é heurethē (“seja achado”), verbo no aoristo (aspecto global, evento visto como um todo), modo subjuntivo (exigido por hina); ele toma como seu sujeito o sintagma já construído to dokimion hymōn tēs pisteōs (“a prova da vossa fé”) e abre, por regência, a expressão de finalidade/resultando com eis (“para”), preposição que rege acusativo e aqui marca finalidade/direção do resultado. Eis (“para”) governa epainon (“louvor”), primeiro termo do alvo, e a coordenação é tecida por kai (“e”) ligando doxan (“glória”), e novamente kai (“e”) ligando timēn (“honra”); assim, eis epainon kai doxan kai timēn (“para louvor e glória e honra”) funciona como complemento preposicional de finalidade dependente diretamente de heurethē (“seja achado”).

A esfera/ocasião em que esse “ser achado” se dá é marcada por en (“em”), preposição que rege dativo e aqui delimita quadro temporal/esférico; ela governa apokalypsei (“revelação”), formando en apokalypsei (“em revelação”), e esse nome recebe dois genitivos em sequência como determinantes: Iēsou (“de Jesus”) e Christou (“de Cristo”) que dependem de apokalypsei (“revelação”) como genitivo de relação/conteúdo (“revelação de Jesus Cristo”), fechando a cadeia: hina (“para que”) → sujeito to dokimion hymōn tēs pisteōs (“a prova da vossa fé”) com predicativo polytimoteron (“mais precioso”) em comparação com chrysiou (“de ouro”) qualificado por tou apollymenou (“do que perece”) e por dia pyros de dokimazomenou (“mas sendo provado através de fogo”) → verbo heurethē (“seja achado”) → finalidade eis epainon kai doxan kai timēn (“para louvor e glória e honra”) → esfera en apokalypsei Iēsou Christou (“na revelação de Jesus Cristo”).

Quando o grego escreve dokimion (“prova”, “resultado provado”) ligado ao genitivo pisteōs (“fé”), ele nomeia menos o “evento” da aflição e mais o “estado comprovado” que emerge dela. É por isso que a KJV escolhe “the trial of your faith” (PT: “a prova/ensaio da sua fé”), deslocando o foco para a provação como experiência; já a ESV prefere “the tested genuineness of your faith” (PT: “a genuinidade testada da sua fé”), e a NET formula “the proven character of your faith” (PT: “o caráter comprovado da sua fé”), ambas puxando para o valor demonstrado, não apenas para a crise que o produz. A YLT, ao dizer “the proof of your faith” (PT: “a comprovação da sua fé”), fica quase colada à ideia nominal de dokimion (“prova”), enquanto a ASV também retém “the proof of your faith” (PT: “a prova da sua fé”), conservando a secura do termo e deixando o leitor fazer a ponte entre “prova” e “provação”.

Entre as versões em português, há um contraste bem instrutivo sobre esse mesmo ponto. A ARA explicita o aspecto “resultado” ao dizer “confirmado o valor da vossa fé”, que aproxima bem dokimion (“prova”) de um veredito, como se a fé saísse do forno com selo de autenticidade. A ARC mantém a formulação mais direta e ambígua — “a prova da vossa fé” — que pode ser lida tanto como “o teste” quanto como “a comprovação”, e por isso é fiel ao grego justamente por não fechar cedo demais a nuance. A NVI reorganiza a frase para tornar o processo transparente: “a fé de vocês... seja provada e resulte”, isto é, transforma o substantivo dokimion (“prova”) num caminho verbal (“ser provada”) e deixa mais claro para o leitor moderno como o “provar” se converte em “resultado”. A NVT vai pelo mesmo atalho pedagógico — “quando sua fé for provada” — abrindo a porta do sentido para quem não percebe naturalmente que dokimion (“prova”) já carrega o “comprovado” no próprio substantivo. A NTLH expande ainda mais e praticamente reescreve a lógica: “Essas provações são para mostrar que a fé... é verdadeira”, convertendo dokimion (“prova”) em uma explicação causal inteira; o ganho é clareza imediata, o custo é perder a elegância concentrada do grego, onde uma só palavra já condensa o “mostrar-se verdadeiro”.

No bloco do ouro, o grego amarra duas coisas: chrysiou (“ouro”) com o particípio apollymenou (“que perece”, “perecível”), e depois acrescenta dia + genitivo, dia pyros (“por meio de fogo”), com o particípio dokimazomenou (“sendo provado/testado”). Aqui as versões revelam o quanto ouviram a costura: a KJV mantém a tensão paradoxal (“gold that perisheth, though it be tried with fire”, PT: “ouro que perece, embora seja provado com fogo”), deixando o leitor sentir o choque entre perecível e refinado; a ARA faz uma escolha interpretativa tradicional ao dizer “mesmo apurado por fogo”, lendo dokimazomenou (“sendo provado”) como refino metalúrgico; a ARC fica mais literal e mais “dura”: “é provado pelo fogo”; a NVI incorpora o fogo como instrumento do próprio perecer (“perece ao ser provado pelo fogo”), o que simplifica a sintaxe mas pode suavizar o “embora” implícito na justaposição grega.

O grego neste versículo usa o aoristo subjuntivo passivo heurethē (“seja encontrado”) com eis + acusativo epainon... doxan... timēn (“para louvor... glória... honra”), e fecha com en apokalypsei (“na revelação”) de Jesus Cristo. Algumas versões deixam heurethē (“seja encontrado”) aparecer com seu sabor de “veredito”: a ARC diz “se ache em louvor...”, e a ESV conserva “may be found to result in...” (PT: “seja encontrado resultando em...”), enquanto a NVI opta por “resulte em”, trocando a imagem de “ser achado” pela de “desaguar” — mais fácil, menos formalmente próximo. No fecho, a KJV verte “at the appearing of Jesus Christ” (PT: “na manifestação/aparecimento”), e a NTLH diz “no dia em que Jesus Cristo for revelado”; ambas explicam apokalypsei (“revelação”) como evento público, mas a primeira usa “aparecimento” e a segunda marca “dia”, fazendo o tempo soar no relógio do leitor.

Quando Pedro escreve dokimion (“prova”, “comprovação”) de pistis (“fé”), ele não descreve um enfeite emocional, mas o “selo” que fica depois do fogo: a fé não é apenas algo que se tem, é algo que, atravessando dokimazomenou (“sendo provado”), se torna publicamente reconhecível como genuína. Essa imagem não nasce no vazio; ela caminha pela Escritura como o passo de um ourives: o crisol separa, não para destruir, mas para revelar. Por isso, o Antigo Testamento fala do Senhor como quem refina prata e prova o coração (Provérbios 17:3; Salmos 66:10; Zacarias 13:9), e até quando a “fornalha” é aflição, ela tem a função paradoxal de purificar e manifestar (Isaías 48:10; Malaquias 3:2–3). O ponto de Pedro é que o que o fogo não consegue fazer com o ouro — torná-lo imperecível — Deus faz com a fé: o ouro, mesmo “apurado”, permanece apollymenou (“perecível”), enquanto a fé provada se prende ao que não perece, porque se prende ao próprio Deus (1 Pedro 1:4–5).

A comparação “mais preciosa do que o ouro” não é poesia solta; é uma hierarquia teológica. O ouro é valioso porque passa por dia pyros (“através de fogo”) e sai com brilho reconhecido; mas o brilho ainda está condenado ao tempo, ao furto, ao desgaste, ao túmulo. A fé provada, ao contrário, atravessa provações e sai carregando um valor que não depende do mercado, mas do veredito divino: ela é “mais preciosa” porque sua matéria-prima é a confiança no Deus que ressuscita mortos, e por isso seu resultado não termina no presente. Aqui o Novo Testamento ecoa como uma única corda: a tribulação não é celebrada, mas é tomada como oficina de esperança (Romanos 5:3–5); as provações não são desejadas, mas são reconhecidas como caminho de perseverança que conduz à vida (Tiago 1:2–4, 12); e o “fogo” que testa expõe o que é palha e o que é ouro, para que permaneça apenas o que tem peso real (1 Coríntios 3:13). Em Pedro, essa oficina não é abstrata: ela prepara o crente para o encontro.

Por isso o verbo heurethē (“seja achado”) tem o sabor de julgamento e descoberta: não é só “resultar”, é ser encontrado, como quem é examinado e então reconhecido; e o alvo é eis epainon kai doxan kai timēn (“para louvor, glória e honra”). A tensão interpretativa aqui não empobrece o texto: de um lado, toda glória pertence a Deus e a Cristo, e o horizonte é a apokalypsis (“revelação”) de Jesus Cristo (1 Pedro 4:13; 2 Tessalonicenses 1:7–10; Apocalipse 1:7); de outro, há textos que falam explicitamente de “louvor” que vem de Deus ao seu povo no dia do desvelamento, como quando se diz que, no juízo, “então cada um receberá o seu louvor da parte de Deus” (1 Coríntios 4:5) e que o verdadeiro reconhecimento não é o dos homens, mas o de Deus (Romanos 2:29). Pedro mantém as duas luzes acesas: a fé provada termina em honra porque termina em Cristo; e termina em louvor porque Deus não é avaro em reconhecer aquilo que sua própria graça produziu no crente (1 Pedro 5:4; 2 Timóteo 4:8).

Assim, o versículo não romantiza sofrimento; ele dá ao sofrimento um lugar e uma medida. A provação é fogo “emprestado” ao ourives, não fogo soberano: serve ao propósito de revelar o que é real, como a chama que lambe a escória para que o metal apareça. O presente pode parecer um laboratório de perdas, mas Pedro o descreve como oficina de autenticidade, porque o que será manifestado na apokalypsis (“revelação”) é também a verdade da fé — não apenas diante do mundo, mas diante do próprio Deus. E quando o texto fala de “louvor, glória e honra”, ele põe o coração do fiel na direção certa: não na vitrine do agora, mas no dia em que o que está oculto será trazido à luz, e o Cristo revelado será também o Cristo que confirma, diante de todos, a realidade daqueles que nele esperaram (1 Pedro 1:6–7; Colossenses 3:3–4; 1 João 3:2).

1 Pedro 1:8

...a quem, não o tendo visto, amais; e em quem, não vendo agora, mas crendo, exultais com alegria indizível e glorificada (Gr.: hon ouk idontes agapate, eis hon arti mē horōntes, pisteuontes de agalliasthe chara aneklalētō kai dedoxasmenē — Tradução literal: “a quem, não tendo visto, amais; e para quem, agora não vendo, mas crendo, exultais com alegria inexprimível e glorificada”.) Aqui, a etimologia começa pelo nervo do amor: agapaō (“amar”) — o verbo por trás de agapate (“amais”) — já circula no grego homérico como linguagem de estima/valoração, como se vê em Homero com a forma “οὐκ ἀγαπᾷς”, isto é, ouk agapās (“não estimas / não dás valor”), mostrando que o campo semântico não nasce “pronto” como termo exclusivamente religioso, mas carrega história antes de ser consagrado pelo uso cristão. A ocorrência homérica que sustenta, de modo direto, a ideia de agapaō (“ter apreço/estimar”, aqui muito próximo de “contentar-se, dar-se por satisfeito”) está em Homero, Odisseia 21.289–291, onde aparece a forma οὐκ ἀγαπᾷς.

οὐκ ἀγαπᾷς ὃ ἕκηλος ὑπερφιάλοισι μεθ’ ἡμῖν
δαίνυσαι, οὐδέ τι δαιτὸς ἀμέρδεαι, αὐτὰρ ἀκούεις
μύθων ἡμετέρων καὶ ῥήσιος;

Transliteração: ouk agapās ho hekēlos hyperphialoisi meth’ hēmin
/dainysai, oudé ti daitos amerdeai, autar akoueis
/ mythōn hēmeterōn kai rhēsios.

Tradução:Não te agradas em banquetear tranquilamente conosco, entre insolentes — sem que te falte a refeição — mas escutas as nossas palavras e fala?”

O par ver–crer se ilumina por contraste: horaō (“ver”) — aqui em horōntes (“vendo”) — aponta para o olhar presente; e ideō (“ver”) — por trás do particípio idontes (“tendo visto”) — conserva a memória do contato direto, o “eu vi”, que o texto nega para então exaltar um amor que não depende de retina, mas de fidelidade. A alegria é dita com uma palavra que já traz, na própria forma, a sua fronteira: aneklalētos (“indizível / inexprimível”) não é só “muito grande”, mas “não-falável”, formada com o privativo an- (“não”) somado ao núcleo de “falar para fora” (ek- + laleō, “falar”), como quem coloca um selo na boca da linguagem: é alegria que transborda o dicionário. E quando ela é chamada de dedoxasmenē (“glorificada”), a história do termo caminha de doxa (“glória”, também “reputação/opinião”) para doxazō (“glorificar”), sugerindo que essa alegria não é apenas sentida, mas “revestida” de reconhecimento — como se a honra viesse de fora, confirmando por luz aquilo que a fé abraça no escuro.

O enunciado tem dois núcleos verbais finitos (portanto, não é um verso nominal): primeiro, agapate (“amais”) é verbo no tempo presente, modo indicativo, voz ativa, segunda pessoa do plural, e já traz o sujeito elíptico (“vós”) como sujeito gramatical implícito; a esse verbo se prende o objeto direto hon (“a quem”), pronome relativo, acusativo, masculino, singular, cujo antecedente vem do contexto imediato (Cristo). Antes do núcleo, a frase abre um véu concessivo com ouk (“não”) como partícula negativa e com idontes (“tendo visto”), particípio aoristo, voz ativa, nominativo, masculino, plural: não é verbo principal, mas dependência do sujeito (“vós”), descrevendo a condição “sem visão” sob a qual o amor acontece; o particípio, por estar no nominativo masculino plural, encaixa-se morfologicamente no mesmo referente do verbo finito, como uma moldura circunstancial que circunda o ato de amar.

Em seguida, o foco se desloca para o segundo núcleo: agalliasthe (“exultais”) é verbo no tempo presente, modo indicativo, voz média, segunda pessoa do plural, novamente com sujeito elíptico (“vós”), mas agora com a alegria como “campo” expresso em dativo: chara (“alegria”), substantivo, dativo, feminino, singular, funciona como complemento de modo/esfera (“com alegria / em alegria”), e essa alegria recebe dois qualificadores que concordam rigorosamente com ela no mesmo caso, gênero e número: aneklalētō (“indizível”), adjetivo, dativo, feminino, singular, e dedoxasmenē (“glorificada”), particípio perfeito, voz passiva, dativo, feminino, singular, aqui com função adjetival (estado resultante, “marcada pela glória”); a coordenação kai (“e”) liga os dois qualificadores como atributos do mesmo chara (“alegria”).

Entre os dois núcleos verbais, a frase costura a transição com uma cadeia participial que mantém o mesmo sujeito (“vós”) e o mesmo referente (“ele”): eis (“para / em direção a”) é preposição que rege acusativo e introduz novamente hon (“a quem”), agora como complemento direcional do ato de crer; logo aparecem arti (“agora”) como advérbio temporal e (“não”) como partícula negativa que, nesta construção, se prende ao particípio e não ao indicativo; por isso horōntes (“vendo”) é particípio presente, voz ativa, nominativo, masculino, plural, negado por (“não”), descrevendo a experiência atual de “não ver”; sobre esse mesmo sujeito pousa pisteuontes (“crendo”), particípio presente, voz ativa, nominativo, masculino, plural, que funciona como dependência imediata do verbo finito agalliasthe (“exultais”), isto é, a exultação é apresentada como ato concomitante e sustentado pelo crer, e a conjunção de (“porém / mas”) marca o giro retórico: não vendo, mas crendo, exultais.

A sequência do versículo abre com hon (“a quem”) que funciona como objeto direto do verbo finito agapate (“amais”) no presente (aspecto imperfectivo: ação caracterizada como atual/habitual), com sujeito elíptico “vós”; o relativo é retomado imediatamente por ouk (“não”) que nega o particípio circunstancial idontes (“tendo visto”), particípio aoristo (aspecto perfectivo: o “ver” tomado como evento inteiro) concordando com o sujeito implícito de agapate (“amais”) e funcionando como particípio concessivo/circunstancial: “a quem, não tendo visto, amais”, em que o “não ver” é a circunstância formalmente marcada (particípio nominativo concordante) que enquadra o ato verbal principal.

A segunda unidade começa com eis (“para; em direção a; em”), preposição que rege acusativo e aqui introduz o alvo/objeto de referência do crer (valor semântico direcional/objetivo: movimento de confiança “para/em” alguém), governando novamente hon (“a quem”), dependente de eis por regência preposicional; em seguida, arti (“agora”) fixa o tempo do enunciado, e (“não”), partícula negativa usada com formas não-finitas, nega o particípio horōntes (“vendo”), particípio presente (aspecto imperfectivo: processo contemporâneo) que concorda com o sujeito implícito e estabelece a circunstância atual “não vendo agora”. A virada adversativa é marcada por pisteuontes (“crendo”), igualmente concordante com o sujeito elíptico, seguido de de (“mas; porém”), conjunção coordenativa pós-positiva que contrapõe “não ver” a “crer”, e tudo isso desemboca no segundo verbo finito agalliasthe (“exultais”), com sujeito elíptico “vós”; a esfera/modo dessa exultação é expressa por chara (“alegria”), funcionando como dativo de modo/esfera (“com/em alegria”), e essa “alegria” é qualificada por dois determinantes coordenados que concordam com ela no mesmo caso, gênero e número: aneklalētō (“indizível; inexprimível”) e kai (“e”) ligando dedoxasmenē (“glorificada”), particípio perfeito (aspecto de estado resultante) com função atributiva sobre chara (“alegria”); assim, a cadeia formal fecha-se sem genitivos a decidir: o relativo hon (“a quem”) depende de cada verbo por função (objeto de agapate; termo regido por eis ligado ao domínio do crer), os particípios nominativos (idontes “tendo visto”, horōntes “vendo”, pisteuontes “crendo”) dependem do sujeito elíptico por concordância e servem como molduras circunstanciais, e o dativo chara (“alegria”) com seus qualificadores (aneklalētō “indizível” e dedoxasmenē “glorificada”) depende de agalliasthe (“exultais”) como expressão formal do modo/esfera da exultação.

O texto grego organiza o pensamento com duas molduras participiais que abraçam dois verbos finitos: idontes (“tendo visto”, particípio aoristo ativo, masculino, plural) nega a experiência passada da visão, enquanto agapate (“amais”, presente, ativo, indicativo, 2ª pessoa plural) afirma um amor atual e contínuo; por isso KJV e ASV preservam bem a “costura” formal ao manterem a forma participial (“Whom having not seen, ye love” / “whom not having seen ye love”), o que em português pode ser vertido sem violência como “A quem, não tendo visto, amais”. Já ESV e NET preferem explicitar em inglês o valor concessivo implícito no encaixe (“Though you have not seen him, you love him” / “You have not seen him, but you love him”), que eu colocaria ao lado como “Embora vocês não o tenham visto, vocês o amam” / “Vocês não o viram, mas o amam”, sacrificando a forma participial para ganhar transparência lógica ao leitor moderno.

No segundo membro, eis (“para/direção a”, preposição que rege acusativo) + hon (“a quem”, pronome relativo no acusativo masculino singular) produz uma orientação afetiva e fiduciária (“para quem / em quem”), e o grego volta a negar a visão no presente com horōntes (“vendo”, particípio presente ativo, masculino, plural) ao lado de arti (“agora”), enquanto mantém a fé como atitude concomitante em pisteuontes (“crendo”, particípio presente ativo, masculino, plural) antes de chegar ao núcleo jubiloso agalliasthe (“exultais”, presente, médio/deponente, indicativo, 2ª pessoa plural). É por isso que KJV/ASV soam quase como um diagrama do original (“in whom, though now ye see him not, yet believing...”), e YLT fica ainda mais “colado” ao empilhar os particípios (“now not seeing and believing...”). Já ESV e NET reordenam para fluidez (“Though you do not now see him, you believe in him” / “though you do not see him now you believe in him”), explicitando o paralelismo “não ver agora → crer” com uma sintaxe inglesa mais natural, mas menos “visível” em seus encaixes.

Quando o grego enfim despeja o conteúdo emocional, ele faz isso com charā (“alegria”, dativo feminino singular) como o “campo” no qual a exultação acontece, qualificada por dois predicativos coordenados: aneklalētō (“indizível/inexprimível”, dativo feminino singular) e dedoxasmenē (“glorificada/cheia de glória”, particípio perfeito passivo, dativo feminino singular). Aqui as versões se distribuem por como “pintam” dedoxasmenē: KJV e ASV preferem a imagem de plenitude (“joy unspeakable and full of glory”), ESV verte de modo muito explícito (“inexpressible and filled with glory”), NET dá um passo para o adjetival (“indescribable and glorious joy”), e YLT mantém a cor participial (“joy unspeakable and glorified”), que chega mais perto da forma perfeita passiva do grego sem precisar paráfrase. Entre as versões em português que consegui fixar ipsis litteris nesta rodada, a NTLH escolhe explicar o efeito semântico de aneklalētō (“...uma alegria tão grande e gloriosa, que as palavras não podem descrever.”), enquanto a ARC guarda a arquitetura mais antiga e próxima do encadeamento (“...vos alegrais com gozo inefável e glorioso”).

Em 1 Pedro 1:8, o apóstolo está tratando da experiência cristã da fé que, ao contrário do que seria esperado, não depende da visão direta e física de Cristo, mas se sustenta no crer sem ver. Aqui, o verbo agapate (“amais”) e o particípio pisteuontes (“crendo”) são colocados em oposição ao fato de que o cristão não viu fisicamente Jesus, mas ainda assim exulta em charā (“alegria”). O “não ver (no presente ou no passado) é uma condição de fé que não diminui o amor nem a alegria, ao contrário: ela a expande para uma alegria “indizível” (aneklalētō), algo que transcende a capacidade humana de expressar com palavras. O efeito é um amor não condicionado pela experiência visual direta, mas marcado pela confiança no Cristo revelado.

O tema do “não ver” e da fé sem a necessidade de evidência visível tem uma forte base no Antigo Testamento, especialmente no livro de Habacuque. Em Habacuque 2:4, a famosa frase “o justo viverá pela fé aparece, e é com ela que o profeta transmite que, embora o povo de Israel não consiga perceber imediatamente a justiça divina ou sua intervenção direta, ele deve viver pela confiança em Deus. Em um contexto de crise e dúvida, a fé é o fio condutor, não a visão imediata. Essa relação entre fé não vista e confiança em Deus já estava em formação no Antigo Testamento e é totalmente revisitada no Novo Testamento.

Além disso, em Isaías 40:5, o profeta fala sobre o momento em que “a glória do Senhor será revelada e toda a carne verá”. Essa promessa aponta para um momento futuro de revelação, mas no presente, o povo de Deus não vê diretamente essa glória. A fé, portanto, é a chave para viver a promessa sem uma visão imediata, refletindo diretamente a situação em que os cristãos se encontram no tempo de Pedro.

O Evangelho de João também faz esse contraste entre o ver físico e a fé invisível em várias passagens. João 20:29, em que Jesus diz a Tomé: “Porque me viste, creste? Bem-aventurados os que não viram e creram”, ressoa diretamente com o tema de 1 Pedro 1:8. Jesus declara abertamente que a verdadeira bem-aventurança reside em crer sem ver, algo que Pedro está sublinhando em sua epístola, onde a fé é mais preciosa do que a visão física, justamente porque ela antecipa a revelação futura.

Em 2 Coríntios 4:18, Paulo também fala sobre ver não as coisas que se vêem, mas as coisas que não se veem, pois as visíveis são passageiras, e as invisíveis, eternas. O contraste entre visível e invisível, entre físico e espiritual, percorre toda a teologia paulina, refletindo a centralidade da fé como o meio para alcançar aquilo que não pode ser visto com os olhos humanos, mas apenas com a visão do coração (cf. Efésios 1:18).

Além disso, o apóstolo Paulo em Romanos 5:2-5 também aborda o tema da alegria em meio à tribulação, que refina a fé e leva à esperança, uma dinâmica que se reflete diretamente em 1 Pedro 1:6-7. A fé de Pedro é aquilo que leva os cristãos a se alegrarem mesmo sem ver a Cristo, mas com a certeza de que a glória de Cristo será revelada no tempo devido.

Esse versículo exorta os cristãos a entenderem que, mesmo em tempos de aflição e sem uma percepção direta do Cristo visível, a fé cristã continua sendo vibrante e viva. A alegria indizível (aneklalētō), então, não é apenas uma emoção passageira, mas é um reflexo da certeza que vem de saber que a salvação em Cristo está garantida. A experiência cristã é profundamente espiritual e não limitada pela visão física.

A palavra glorificada (dedoxasmenē) também traz uma implicação teológica importante. Essa é a glória que, enquanto ainda não visível, será revelada na segunda vinda de Cristo. A salvação, que é descrita com essas qualidades de alegria e glória, também faz parte do processo de transformação do crente, e é uma transformação tanto agora como no futuro. O cristão exulta e já experimenta algo da glória futura em seu estado presente, porque já se identifica com Cristo, mesmo sem vê-Lo fisicamente.

1 Pedro 1:8 nos leva a ver que a fé cristã é uma experiência vibrante e vivida, baseada não no ver, mas no crer, sustentada pela certeza do amor de Cristo e da revelação que virá. Como foi dito no Antigo Testamento, a glória futura já começa a ser experimentada na vida do crente de uma maneira visível em sua alegria, e a realização plena se dará na revelação de Cristo. Isso é o que o crente vive e experimenta agora, sem uma visão física, mas com uma certeza espiritual.

1 Pedro 1:9

Alcançando o fim da vossa fé: a salvação de (vossas) almas. (Gr.: komizomenoi to telos tēs pisteōs hymōn sōtērian psychōn — Tradução literal: “recebendo como resultado da vossa fé a salvação de almas”.) Aqui o fio etimológico começa no substantivo telos (“fim”, “meta”, “resultado”), cuja história semântica se prende ao campo de teleō (“levar a termo”, “consumar”), como se “fim” fosse menos um ponto de parada e mais um ato de completar, de fazer chegar ao inteiro. A mesma respiração lexical atravessa sōtērian (“salvação”), termo que, no grego, nasce como nome de um “resgate” efetivo, não como ideia abstrata; e se fecha em psychōn (“almas”), palavra que, já na tradição antiga, circula no eixo “vida/sopro/ser vivente”, antes de ganhar a densidade interior com que a literatura posterior muitas vezes a reveste.

1 Pedro 1:9, na forma em que chega até nós, não ergue um verbo finito novo, mas se deixa levar como uma vela presa ao vento do período anterior: komizomenoi (“alcançando/recebendo”) é particípio no tempo presente (aspecto imperfectivo), voz média/passiva, nominativo, masculino, plural, concordando com o “vós” implícito do contexto e funcionando como ação concomitante (“enquanto recebestes/recebeis”), e por isso ele governa, como seu complemento direto, to telos (“o fim/resultado”), substantivo no acusativo, neutro, singular, com o artigo definindo-o como alvo do “receber”. Esse telos (“fim/resultado”) é imediatamente especificado por tēs pisteōs (“da fé”), substantivo no genitivo, feminino, singular, em leitura de genitivo de relação/especificação (“o fim que pertence à fé; o fim que a fé tem como seu resultado”), e hymōn (“de vós”), pronome pessoal no genitivo, plural, prende-se a pisteōs (“fé”) como genitivo possessivo, estreitando o foco: não é “a fé” em tese, mas “a fé de vós”. A frase então re-nomeia o que esse “fim/resultado” é, em linguagem que soa como martelo selando a bigorna: sōtērian (“salvação”), substantivo no acusativo, feminino, singular, entra como aposto explicativo de telos (“fim/resultado”), isto é, não um segundo objeto ao lado do primeiro, mas o próprio conteúdo do “fim” recebido; e psychōn (“de almas”), substantivo no genitivo, feminino, plural, amarra-se a sōtērian (“salvação”) como genitivo de conteúdo/objeto (“salvação que tem por referente as almas/vidas”), fechando a unidade com um genitivo curto, duro, essencial.)

Este versículo começa sem verbo finito expresso, e por isso a frase se organiza como construção participial dependente do período anterior: komizomenoi (“alcançando/recebendo”) é verbo em forma de particípio, e por concordância nominal marca que o sujeito é o mesmo “vós” já dado no contexto; a partir desse particípio, o complemento direto se abre com to (“o”) que substantiva e delimita o alvo, seguido de telos (“fim/meta/resultado”), funcionando como objeto de komizomenoi (“alcançando/recebendo”). Esse telos (“fim/meta/resultado”) recebe um encadeamento genitival que o especifica formalmente por caso: tēs (“da”) introduz pisteōs (“fé”), aqui mais naturalmente como genitivo de relação/especificação (“o fim que pertence à fé / o fim característico da fé”), e imediatamente hymōn (“de vós”), depende de pisteōs (“fé”) como genitivo possessivo (“a fé de vós”), estreitando o referente. Em seguida, a sequência no acusativo retoma telos (“fim/meta/resultado”) por aposição e explicação: sōtērian (“salvação”) não inaugura um novo objeto independente, mas reidentifica o conteúdo do “fim” recebido (“o fim... isto é, salvação”); por fim, psychōn (“de almas/vidas”) depende de sōtērian (“salvação”) como genitivo objetivo (“salvação que tem por objeto/âmbito as almas/vidas”), o que se reconhece pelo encaixe sem artigo e pela naturalidade semântica “salvação de X” como relação de alvo do ato salvífico.

No versículo 9, o grego amarra a ideia com o particípio komizomenoi (“recebendo/obtendo”) governando o objeto to telos (“fim/resultado/meta”) da pisteōs (“fé”): por isso KJV e ASV preservam a imagem mais “neutra” e literal, “receiving the end of your faith, even the salvation of your souls” (PT: “recebendo o fim da vossa fé, isto é, a salvação das vossas almas”), enquanto a YLT ecoa o mesmo eixo (“receiving the end of your faith—salvation of souls”). A ESV desloca telos (“fim/resultado/meta”) para o vocabulário de “resultado” — “obtaining the outcome of your faith, the salvation of your souls” (PT: “obtendo o resultado da vossa fé, a salvação das vossas almas”) — e a NET explicita o valor teleológico possível de telos (“meta”) com “attaining the goal of your faith—the salvation of your souls” (PT: “alcançando o alvo da vossa fé — a salvação das vossas almas”), evitando que “fim” seja lido como simples cessação em vez de “término como finalidade”. Esse mesmo ponto aparece com nitidez nas versões em português: a ARC conserva “fim” (“alcançando o fim da vossa fé, a salvação da alma”), enquanto ARA e NVI-PT preferem “alvo” (“alcançando o alvo da vossa fé.../da sua fé...”), e a NVT expande o sentido parafrasticamente (“recebendo aquilo para o que sua fé foi planejada: sua salvação”), ao passo que a NTLH (linha BLH/“Linguagem de Hoje”) já interpreta telos (“resultado/meta”) como “resultado” (“estão recebendo a sua salvação, que é o resultado da fé que possuem”).

Ao dizer “alcançando o fim da vossa fé, a salvação das almas” (quando o texto fala de telos (“fim/meta/resultado”), Paulo não aponta para um “término” que apaga a caminhada, mas para o ponto em que a caminhada revela o que sempre carregou como alvo; por isso o “fim” é dito em aposição como sōtēria (“salvação”), isto é, o desfecho real da fé é a própria salvação, não um prêmio externo a ela, e isso se encaixa na tensão já acesa pouco antes: uma salvação “prestes a revelar-se” no tempo devido (1 Pedro 1:5) e uma fé provada que será encontrada para honra na revelação de Jesus Cristo (1 Pedro 1:7). Quando Pedro nomeia essa salvação como “de psychōn (“almas/vidas”)”, a linguagem não estreita o ser humano ao invisível como se o corpo fosse descartável; ao contrário, “alma/vida” funciona como núcleo pessoal, o eu inteiro diante de Deus, e por isso o Novo Testamento fala de “salvar a alma” como salvar a pessoa em sua realidade mais profunda (Tiago 1:21; Hebreus 10:39), enquanto o Antigo Testamento já acostuma o leitor a pensar a salvação como livramento e restauração que alcança a vida toda, não apenas um fragmento dela (Salmos 62:1–2; Salmos 103:1–4; Isaías 43:11). A fé, então, não é um substituto da visão, mas o modo pelo qual, no presente, a vida se agarra à promessa futura; e é por isso que a fórmula “o justo viverá pela fé” (Habacuque 2:4) reaparece no coração apostólico como eixo de existência (Romanos 1:17; Gálatas 3:11), até que a fé, que hoje vê “de longe”, seja finalmente convertida em plena fruição quando Cristo for manifesto (1 Pedro 1:8; 1 João 3:2).

1 Pedro 1:10

A respeito da qual salvação, os profetas investigaram e perscrutaram, os que profetizaram acerca da graça (destinada) a vós. (Gr.: peri hēs sōtērias exezētēsan kai exēraunēsan prophētai hoi peri tēs eis hymas charitos prophēteusantes — Tradução literal: “acerca da qual salvação investigaram e perscrutaram profetas, os que profetizaram acerca da graça para vós”.) A etimologia, aqui, se move como um gesto duplo: exezētēsan (“investigaram”) deixa ver o verbo-base zēteō (“buscar”) reforçado por ek/ex (“para fora”, muitas vezes intensivo), como se a busca fosse puxada “para fora” do óbvio; e exēraunēsan (“perscrutaram”) ecoa eraunaō (“examinar, sondar”), com o mesmo ek/ex acentuando o movimento de cavar, de rastrear até o fundo. O nome prophētai (“profetas”) carrega, na própria forma, a direção de voz pública (pro- + família de phēmi, “dizer”), e charitos (“graça”) permanece como palavra de favor/doação que não se compra — algo que vem “para vós” (eis hymas), não de “dentro de vós”.

1 Pedro 1:10 abre com uma dobra preposicional que retoma a palavra final do verso anterior como se a tomasse pela mão: peri (“a respeito de”), preposição que rege genitivo e marca tema/referência, governa hēs sōtērias (“da qual salvação”), em que hēs (“da qual”) é pronome relativo no genitivo, feminino, singular, puxando o antecedente “salvação” do verso 9, e sōtērias (“salvação”) é substantivo no genitivo, feminino, singular, formando com o relativo uma unidade temática: “acerca de qual salvação”. Sobre esse tema, erguem-se dois verbos finitos em paralelo que não competem, mas se reforçam: exezētēsan (“buscaram/investigaram”) e exēraunēsan (“perscrutaram/examinaram cuidadosamente”) são ambos verbo no tempo aoristo (aspecto perfectivo), modo indicativo, voz ativa, terceira pessoa do plural, descrevendo um movimento inteiro, fechado, como ato completo de inquirição; e o sujeito expresso desse duplo gesto é prophētai (“profetas”), substantivo no nominativo, masculino, plural, que aparece depois dos verbos com a força de quem entra em cena já em ação. Esse sujeito é imediatamente requalificado por uma expansão nominal que funciona como aposto explicativo: hoi (“os”), artigo no nominativo, masculino, plural, introduz uma oração participial substantivada que identifica quais profetas estão em vista, e ela se prende por peri (“a respeito de”), novamente com regência de genitivo, a tēs ... charitos (“da graça”), onde charitos (“graça”) é substantivo no genitivo, feminino, singular, definido por artigo; dentro dessa mesma expressão, eis hymas (“para vós”) traz eis (“para”), preposição que rege acusativo e exprime direção/destino, governando hymas (“vós”), pronome no acusativo, plural, e assim qualifica a “graça” como voltada para os destinatários. Por fim, a identificação dos profetas é selada por prophēteusantes (“tendo profetizado”), particípio no tempo aoristo (aspecto perfectivo), voz ativa, nominativo, masculino, plural, concordando com prophētai (“profetas”) e funcionando como atributo verbal: são “os profetas” precisamente enquanto aqueles que, em ato completo, “profetizaram” sobre essa “graça para vós”; morfologicamente, o particípio não cria um novo sujeito nem inaugura um novo eixo verbal, mas encosta sua ação terminada no corpo do substantivo, como um selo colado ao nome.

Sua estrutura sintática retoma o último substantivo temático do verso anterior por uma moldura preposicional de referência: peri (“a respeito de”) é preposição que rege genitivo e tem valor semântico temático (“sobre; acerca de”), governa hēs (“da qual”) pronome cuja forma é exigida pela regência de peri; em seguida, sōtērias (“salvação”) aparece no mesmo caso e funciona em aposição explicativa ao relativo (“acerca da qual — salvação”), de modo que a própria coincidência formal de caso (genitivo) é a marca que permite o encaixe aposto. A predicação agora é finita e dupla: exezētēsan (“buscaram/inquiriram”) é verbo no aoristo (aspecto perfectivo: ação tomada como um todo completo) coordenado por kai (“e”) a exēraunēsan (“perscrutaram/investigaram minuciosamente”); o sujeito de ambos, apesar da ordem inversa, é prophētai (“profetas”) marca a função sintática de sujeito. Esse sujeito é imediatamente especificado por uma expansão atributiva substantivada: hoi (“os”) introduz e substantiva a caracterização seguinte como “os que...”, e essa caracterização traz novo eixo preposicional: peri (“a respeito de”) governa tēs (“da”) artigo que delimita charitos (“graça/favor”) substantivo que dentro desse sintagma a direção do favor é marcada por eis (“para; em direção a”) que aqui tem valor semântico de direção/destinatário (“para”), governando hymas (“vós”), de modo que eis hymas (“para vós”) se encaixa como dependência de charitos (“graça”), qualificando “a graça” como orientada aos destinatários; por fim, prophēteusantes (“tendo profetizado/profetizando”) concorda com prophētai (“profetas”) e depende de hoi (“os”) como predicação participial substantivada (“os que profetizaram”), o que fecha a cadeia: “profetas — os que profetizaram acerca da graça para vós”.

No versículo 10, o encaixe grego é duplo e cumulativo: “a respeito” — peri (“acerca de”) — de “qual” salvação, os profetas exezētēsan (“buscaram diligentemente”) e exēraunēsan (“esquadrinharam/investigaram”), dois verbos que empilham esforço e minúcia; por isso KJV mantém o paralelismo clássico (“enquired and searched diligently”), e ASV segue no mesmo trilho (“sought and searched diligently”). A ESV preserva a duplicidade, mas distribui o peso como investigação cuidadosa (“searched and inquired carefully”), e a NET faz o mesmo com um par mais “analítico” (“searched and investigated carefully”), deixando o leitor sentir que não se trata de curiosidade vaga, mas de exame metódico. A diferença mais sensível entre as traduções, porém, nasce do sintagma peri tēs eis hymas charitos (“acerca da graça para vós”): o eis (“para”) carrega direção/alcance, e por isso KJV fala em “the grace that should come unto you” e NET em “the grace that would come to you”, enquanto ESV formula “the grace that was to be yours”, todas mantendo a graça como algo voltado aos destinatários. Em português, a ARA acompanha bem esse vetor com “graça a vós outros destinada”, mas a ARC, ao dizer “graça que vos foi dada”, tende a puxar o foco para um dom já plenamente entregue, o que pode reduzir a tensão do “para vós” como direção profética; já a NVI-PT harmoniza a ideia com “graça destinada a vocês”, a NVT amplia em chave explicativa (“queriam saber mais a respeito desta salvação... da graça preparada para vocês”), e a NTLH traduz o movimento com linguagem direta (“salvação que Deus ia dar a vocês... perguntaram e procuraram saber com muito cuidado”), preservando o gesto de busca insistente que os dois verbos gregos carregam.

Quando no v. 10, Paulo fala “a respeito da qual salvação buscavam e investigavam os profetas que profetizaram acerca da graça para convosco” (a expressão peri hēs sōtērias (“acerca da qual salvação”) faz da salvação do verso anterior o tema de uma longa memória: não é invenção tardia, mas realidade que, no Antigo Testamento, já era perseguida como luz ainda velada. O duplo verbo — exezētēsan (“buscaram diligentemente”) e exēraunēsan (“perscrutaram/investigaram minuciosamente”) — descreve não um olhar distraído, mas um trabalho de escavação, como quem revolve o solo porque sabe que há ouro; e isso combina com o retrato bíblico de profetas que recebem palavras verdadeiras, mas nem sempre recebem, ao mesmo tempo, o mapa completo do tempo e do modo, como Daniel confessando que ouviu, mas não entendeu plenamente (Daniel 12:8–9). O alvo dessa busca é “a graça” — charis (“graça/favor”) — “para vós”, de modo que a comunidade cristã é apresentada como herdeira de uma intenção divina anunciada antes, e o Novo Testamento ecoa esse mesmo espanto quando Jesus diz que muitos profetas desejaram ver o que os discípulos veem e não viram (Lucas 10:24) e quando os evangelhos e os apóstolos leem a Lei, os Profetas e os Salmos como um tecido que apontava para Cristo (Lucas 24:27; Lucas 24:44; Romanos 1:2). Hermeneuticamente, isso impede duas reduções: impede tratar os profetas como meros comentaristas do seu próprio tempo, porque a sua palavra ultrapassa o seu horizonte e mira “graça para vós”; e impede tratar a graça como um acidente do Novo Testamento, porque ela já era anunciada, buscada e sondada na voz profética, como promessa que amadureceria na história até chegar ao seu cumprimento em Jesus Cristo (Isaías 53:4–6; Isaías 55:1–3). Assim, a fé que “alcança o fim” no verso 9 não é fé sem raízes: é fé alimentada por uma linha longa de promessa, e a salvação experimentada no presente como esperança é a mesma salvação que os profetas pressentiram e perseguiram como quem ouve passos no escuro e sabe, com certeza, que a manhã vem (1 Pedro 1:5; 1 Pedro 1:13; Hebreus 11:13).

1 Pedro 1:11

...investigando para qual tempo o Espírito de Cristo, que estava neles, indicava, ao testificar de antemão os sofrimentos destinados a Cristo e as glórias depois destas coisas... (Gr.: eraunōntes eis tina ē poion kairon edēlou to en autois pneuma Christou promartyromenon ta eis Christon pathēmata kai tas meta tauta doxas — Tradução literal: “investigando para qual tempo indicava o Espírito de Cristo que estava neles, testificando antecipadamente os sofrimentos para Cristo e as glórias depois destas coisas”. Na etimologia, o eixo da frase começa no gesto de “investigar”: eraunaō carrega a ideia de vasculhar, sondar, perscrutar, e o próprio verbo é apresentado pelos léxicos como “buscar com diligência” (o que casa com o tom de pesquisa cuidadosa, não de curiosidade superficial). Esse verbo tem história anterior ao uso cristão: o repertório do Perseus/Scaife lista ocorrências do lema eraunaō em Homero (Ilíada e Odisseia), o que aponta para um vocabulário de “sondagem” já corrente no grego arcaico. O verbo eraunōntes carrega a ideia de uma busca ativa e contínua, um esforço em examinar, investigar algo em detalhes, que no contexto, refere-se à busca por entender a revelação da salvação. A raiz de eraunaō remonta ao grego clássico, onde já aparece com esse sentido de “sondar” ou “investigar” minuciosamente, como em várias passagens homéricas (por exemplo, em Ilíada, ἐραυνῶντες no sentido de “investigar a fundo” Hom. Il. 1.92), com um uso técnico de verificação, o que reforça a ideia de que os profetas estavam tentando entender profundamente o mistério da salvação.

A expressão de alvo temporal, kairon (“tempo”, “ocasião”), não é mero “relógio”: etimologicamente e semanticamente, kairos costuma designar o “tempo marcado”, o ponto oportuno, aquilo que tem recorte qualitativo (um “momento certo”, não apenas duração), e por isso o par tina... ē poion kairon (“para qual... ou que tipo de tempo”) não pergunta por curiosidade cronológica, mas pela forma do tempo em que o anúncio se cumpre. Já dēloō (“indicar”, “tornar claro”) nasce do adjetivo dēlos (“manifesto”, “claro”), de modo que a imagem é quase visual: o Espírito não “se manifesta” aqui como epifania, mas “deixa claro”, “sinaliza”, “aponta” o contorno do cumprimento. E pneuma (“espírito”) vem do campo do “sopro”/“vento”, ligado a pneō (“soprar”), de modo que a palavra traz consigo uma fisicalidade antiga: o invisível que, contudo, move e se faz sentir pelos efeitos. Quando esse pneuma é qualificado como Christou (“de Cristo”), o genitivo dá a marca identitária: não é “espírito” genérico, mas o sopro que pertence a Cristo e carrega sua direção.

O verbo composto promartyreomai (“testificar de antemão”) é etimologicamente transparente: pro- (“antes”) + martyreō (“dar testemunho”), e por trás dele está martys (“testemunha”), linguagem de foro e de praça pública, em que “testemunhar” não é fantasiar, mas depor. O objeto desse testemunho é duplo e costurado pela mesma lógica: pathēmata (“sofrimentos”) deriva de paschō (“sofrer”, “padecer”) com o sufixo nominal de resultado -ma, formando “aquilo que se sofre”, “os padecimentos” como realidade concreta, não abstração. Em paralelo, doxa (“glória”, aqui no plural doxas) vem de dokeō (“parecer”, “opinar”, “considerar”): no grego clássico, a palavra gravita com frequência em torno de “opinião”/“reputação”, mas no grego bíblico ela é puxada para a gravidade de “glória”, especialmente pela tradição tradutória (LXX/uso judaico) que reconfigura o termo para dizer esplendor e honra divina; por isso o plural “glórias” comunica desdobramentos e culminações, não um único brilho instantâneo.

O trecho grego de 1 Pedro 1:11 inicia com o particípio eraunōntes (“procurando investigar” ou “pesquisando”), que é um particípio no tempo presente, voz ativa, nominativo, plural, masculino, concordando com o sujeito implícito prophētai (“profetas”), que já foi identificado no versículo anterior. O verbo eraunōntes (“investigando”) funciona como particípio circunstancial (adverbial), concordando por caso e número com um sujeito plural elíptico do período maior, e introduzindo a ação de “investigar” como moldura imediata do conteúdo que segue. A expressão eis tina (“para qual”) usa a preposição eis (“para”), que rege o acusativo e indica direção ou objetivo, este termo) abre um sintagma preposicional interrogativo que serve como complemento temático da investigação: tina (“qual”) e poion (“que tipo de”) são ambos dependentes de kairon (“tempo”) do qual são adjuntos adnominais por concordância formal (mesmo caso, gênero e número). A partícula ē (“ou”) coordena os dois interrogativos em alternativa (“qual... ou que tipo de...”), mantendo um único núcleo nominal (kairon) como termo regido por eis. Aqui, a ligação sintática decisiva é: eis → (rege acus.) tina/poion kairon; e tina → (concorda e qualifica) kairon; poion → (concorda e qualifica) kairon; ē → (coordena) tina; poion. No caso, ela está ligando o verbo de investigação eraunōntes a tina (“qual”), que é um pronome no acusativo, singular, de gênero neutro, funcionando como objeto direto da busca, mas indicando um indeterminado alvo, ou seja, um foco temporal (“qual tempo”). Já a expressão ē poion (“ou que tipo de”) faz uma inversão da pergunta para especificar mais detalhadamente o “tempo” desejado. O uso de ē e poion sugere uma busca não apenas por uma resposta afirmativa, mas por uma descrição qualitativa do tempo, visando algo mais específico no entendimento.

Aqui, o núcleo finito da oração é edēlou (“indicava, mostrava”), verbo no imperfeito, modo indicativo, voz ativa, terceira pessoa do singular, descrevendo uma indicação em curso no passado, não um “ponto” isolado. O sujeito desse edēlou é o sintagma articular to (“o”) + en (“em”) + autois (“neles”) + pneuma (“espírito”) + Christou (“de Cristo”). O verbo “indicava” no versículo apresenta a indicação como ação em curso no passado do quadro narrativo, e ele governa (i) um sujeito nominativo expresso e (ii) o alvo interrogativo “apontado” por eis + acusativo. O sujeito de edēlou é o sintagma nominal articular iniciado por to (“o”), artigo em nominativo, neutro, singular, que determina o núcleo pneuma (“espírito”), substantivo em nominativo, neutro, singular: formalmente, to → (determina) pneuma por concordância de caso/gênero/número. Entre o artigo e o núcleo, aparece en (“em”), preposição que rege dativo, seguido de autois (“eles”), pronome em dativo, plural: essa sequência en autois (“neles”) depende de pneuma como adjunto adnominal em posição atributiva (por estar encaixada entre artigo e substantivo), delimitando o “espírito” como o que está “em” (esfera interna/localização) “eles”; a ligação formal é: en → (rege dat.) autois; e en autois → (modifica) pneuma por encaixe atributivo dentro do sintagma articular.

O artigo to (“o”) funciona como artigo definido, neutro, singular, nominativo (formalmente idêntico ao acusativo, mas aqui determinado pela função de sujeito); en (“em”) rege dativo e marca esfera/localidade; autois (“neles”) é pronome pessoal/demonstrativo, dativo, plural, funcionando como objeto de en; pneuma (“espírito”) é substantivo, neutro, singular, nominativo, núcleo do sujeito; Christou (“de Cristo”) é genitivo, masculino, singular, ligado a pneuma como genitivo de relação/pertencimento (o “Espírito” caracterizado como “de Cristo”, não um segundo sujeito).

Sobre esse sujeito recai o particípio atributivo promartyromenon (“testemunhando de antemão”), verbo em particípio presente, voz média/passiva, neutro, singular, nominativo, concordando com pneuma e qualificando-o como aquele que “pré-testemunha”; esse particípio governa dois objetos coordenados. O primeiro é ta (“os/as”) + eis (“para / em direção a”) + Christon (“Cristo”) + pathēmata (“sofrimentos”): ta (“os/as”) é artigo definido, neutro, plural, acusativo, substantivando o bloco; eis (“para / em direção a”) rege acusativo e aqui dá a ideia de referência/direção do conteúdo (“voltado para Cristo”); Christon (“Cristo”) é acusativo, masculino, singular, objeto de eis; pathēmata (“sofrimentos”) é substantivo, neutro, plural, acusativo, núcleo do objeto (“os sofrimentos referentes a Cristo”). Christou é dependente de pneuma (“espírito”) como genitivo de relação/pertencimento (não partitivo, porque não “divide” um todo, mas identifica de quem é o “espírito”; não objetivo, porque não é alvo de uma ação nominal, mas vínculo identificador): o encaixe mostra que o genitivo limita o sentido do núcleo (pneuma) por especificação de referência (“espírito de Cristo”), e a marca formal é o caso genitivo sem preposição imediatamente associado ao substantivo-cabeça.

O verbo promartyromenon (“testemunhando de antemão”) é particípio, presente, voz média/passiva, nominativo, neutro, singular, dependente de pneuma por concordância completa (mesmo caso/gênero/número), funcionando como particípio atributivo (qualifica o “espírito” como o que está “testemunhando previamente”), e por isso carrega seus próprios complementos acusativos. O primeiro complemento é o sintagma ta (“os”) + pathēmata (“sofrimentos”): ta é artigo em acusativo, neutro, plural, determinando pathēmata, substantivo em acusativo, neutro, plural, e todo o grupo depende de promartyromenon como objeto direto (marca formal: acusativo). Dentro desse objeto, eis (“para”) rege o acusativo Christon (“Cristo”), formando eis Christon (“para Cristo”), que depende de pathēmata como adjunto adnominal, especificando a referência/direção desses “sofrimentos” (“sofrimentos voltados para Cristo”, no sentido de pertença temática). A conjunção kai (“e”) coordena um segundo objeto direto: tas (“as”), artigo em acusativo, feminino, plural, determina doxas (“glórias”), substantivo em acusativo, feminino, plural; e meta (“depois de”), preposição que rege acusativo, toma tauta (“estas coisas”), pronome demonstrativo em acusativo, neutro, plural, formando meta tauta (“depois destas coisas”), que depende de doxas como adjunto adnominal temporal (marca formal: meta → rege acus.; valor semântico: sequência “após”).

O segundo objeto, coordenado por kai (“e”), é tas (“as”) + meta (“depois de”) + tauta (“estas coisas”) + doxas (“glórias”): tas (“as”) é artigo definido, feminino, plural, acusativo; doxas (“glórias”) é substantivo, feminino, plural, acusativo, núcleo; meta (“depois de”) rege acusativo e exprime sequência temporal; tauta (“estas coisas”) é pronome demonstrativo, neutro, plural, acusativo, objeto de meta, delimitando “as glórias” como posteriores “a estas coisas”. Por fim, o particípio inicial eraunōntes (“investigando, perscrutando”) é particípio presente, voz ativa, masculino, plural, nominativo, e se encaixa como ação circunstancial do sujeito humano implícito pelo contexto imediato (prophētai no versículo anterior), introduzindo o alvo da investigação por eis tina ē poion kairon: tina (“que/qual”) é pronome interrogativo, acusativo, singular, objeto de eis; ē (“ou”) coordena alternativa; poion (“qual”) é adjetivo interrogativo, acusativo, masculino, singular, concordando com kairon (“tempo”), substantivo masculino, singular, acusativo, também regido por eis.

Em 1 Pedro 1:11, o encaixe grego é regido pelo horizonte da investigação, e o primeiro ponto de variação nas versões nasce do segmento eis (“para”) + acusativo, em eis tina (“para quem”) ē (“ou”) poion kairon (“que tipo de tempo/ocasião”): a ESV escolhe “inquiring what person or time” (port.: “inquirindo que pessoa ou tempo”), fazendo tina (“para quem”) soar como “pessoa”; a NET é semelhante, com “They probed into what person or time” (port.: “eles sondavam que pessoa ou tempo”). Já a KJV preserva a forma mais “temporal” e idiomática, “Searching what, or what manner of time” (port.: “investigando que tempo, ou que espécie de tempo”), e a ASV mantém praticamente o mesmo desenho, com “searching what time or what manner of time” (port.: “investigando que tempo ou que tipo de tempo”) a YLT, mais literalista na costura, verte “searching in regard to what, or what manner of time” (port.: “investigando a respeito de quê, ou que tipo de tempo”) .

Em português, a NVI opta por explicitar poion (“que tipo”) como “circunstâncias”: “procurando saber o tempo e as circunstâncias”; a ARA amplia com precisão quase jurídica: “investigando, atentamente, qual a ocasião ou quais as circunstâncias oportunas”; a ARC conserva a duplicação temporal (“tempo... ocasião de tempo”): “indagando que tempo ou que ocasião de tempo”; a NVT acompanha de perto: “Buscavam descobrir a que tempo ou ocasião”; e a NTLH parafraseia o mesmo núcleo com clareza narrativa: “procuraram saber em que tempo e como essa salvação ia acontecer”. No segundo nó, quase todas convergem no sintagma “Espírito de Cristo” como sujeito/instância indicadora: “the Spirit of Christ in them” (ESV; port.: “o Espírito de Cristo neles”), “the Spirit of Christ within them” (NET; port.: “o Espírito de Cristo dentro deles”), e, em português, “o Espírito de Cristo, que neles estava” (NVI) / “que estava neles” (ARC).

No terceiro nó, aparece a diferença de tom entre “predizer/testemunhar previamente”: a KJV usa “testified beforehand” (port.: “testemunhou de antemão”), enquanto a ESV prefere “predicted” (port.: “predisse”); em português, a ARA ecoa o registro de testemunho: “ao dar de antemão testemunho”, ao passo que NVI e NVT ficam com “predisse/predizer”. Por fim, onde o grego mantém a dupla realidade “sofrimentos” e “glórias” como duas margens do mesmo rio, as versões variam no modo de nomear o depois: a ESV diz “the subsequent glories” (port.: “as glórias subsequentes”), a NET “the glories to follow” (port.: “as glórias que seguiriam”), e a NVI explicita a sequência como relação com os sofrimentos: “as glórias que se seguiriam a esses sofrimentos”.

1 Pedro 1:11 investiga, atentamente, qual a ocasião ou quais as circunstâncias oportunas, indicadas pelo Espírito de Cristo, que neles estava, ao dar de antemão testemunho sobre os sofrimentos referentes a Cristo e sobre as glórias que os seguiriam. O movimento do versículo é o de uma busca que se inclina sobre o tempo como quem se debruça sobre um mapa: os profetas não aparecem como curiosos de calendário, mas como servos que, tendo recebido um rastro real, procuram discernir “qual a ocasião” e “quais as circunstâncias oportunas” que esse rastro apontava. A investigação nasce porque a própria profecia anuncia um roteiro paradoxal — primeiro “sofrimentos referentes a Cristo”, depois “glórias” — e esse roteiro não é um tema isolado: Pedro o coloca na mesma corrente em que se pode ouvir, mais adiante no Novo Testamento, que “mas Deus, assim, cumpriu o que dantes anunciara por boca de todos os profetas: que o seu Cristo havia de padecer” (Atos 3:18). O texto, assim, obriga a ler a história da salvação com duas margens inseparáveis: o padecer e o entrar na glória, como o próprio Cristo formula quando expõe as Escrituras: “Porventura, não convinha que o Cristo padecesse e entrasse na sua glória? E, começando por Moisés, discorrendo por todos os Profetas, expunha-lhes o que a seu respeito constava em todas as Escrituras.” (Lucas 24:26–27).

O ponto mais denso da hermenêutica aqui está na origem e no agente dessa indicação: não se trata apenas de “palavras antigas”, mas de uma voz interna que “indicava” e “dava de antemão testemunho”. Ao dizer “Espírito de Cristo”, Pedro não está oferecendo um ornamento devoto; ele está afirmando uma continuidade de fôlego entre a profecia e o evangelho, como quando se declara que “E, se alguém não tem o Espírito de Cristo, esse tal não é dele.” (Romanos 8:9). Nessa linha, a profecia não é fruto de vontade humana isolada, mas o desaguar de um impulso divino: “Porque nunca jamais qualquer profecia foi dada por vontade humana; entretanto, homens santos falaram da parte de Deus, movidos pelo Espírito Santo.” (2 Pedro 1:21). Isso ilumina o “investigando” de 1 Pedro 1:11 como reverência diante de um conteúdo que ultrapassa o profeta: há clareza real sobre o eixo — sofrimentos e glórias — e há, ao mesmo tempo, um véu sobre o “quando” e o “como”, de modo que a própria Escritura se apresenta como promessa em marcha, não como cronologia domesticada. Esse mesmo capítulo de Pedro ancora essa marcha num horizonte maior quando fala do Cristo como “conhecido, com efeito, antes da fundação do mundo, porém manifestado no fim dos tempos, por amor de vós” (1 Pedro 1:20) e acrescenta que Deus “o ressuscitou dentre os mortos e lhe deu glória” (1 Pedro 1:21). Aqui, a leitura cristã do Antigo Testamento não é colagem arbitrária: ela se funda na unidade do agir divino, em que a promessa antiga e a manifestação “no fim dos tempos” pertencem ao mesmo desígnio.

O par “sofrimentos” e “glórias” ganha carne quando se observa como o Antigo Testamento já coloca lado a lado ferida e exaltação, sem pedir licença ao nosso gosto por finais rápidos. Em Isaías, a figura do Servo é descrita no rasgo da dor: “Mas ele foi traspassado pelas nossas transgressões e moído pelas nossas iniquidades” (Isaías 53:5). Nos Salmos, a cena se adensa em imagens concretas de exposição e desamparo: “traspassaram-me as mãos e os pés... Repartem entre si as minhas vestes e sobre a minha túnica deitam sortes.” (Salmos 22:16–18). E, no mesmo bloco profético do Servo, a exaltação não é um apêndice tímido, mas uma elevação declarada: “Eis que o meu Servo procederá com prudência; será exaltado e elevado e será mui sublime.” (Isaías 52:13). Quando o Novo Testamento lê esse arco, ele o reconhece como lei do caminho messiânico: “humilhou-se a si mesmo, tornando-se obediente até a morte, e morte de cruz. Pelo que também Deus o exaltou” (Filipenses 2:8–9). Hebreus insiste na mesma curva, unindo “sofrimento da morte” e coroação: “por causa do sofrimento da morte, foi coroado de glória e de honra” (Hebreus 2:9), e, logo adiante, descreve a lógica pela qual Deus conduz “muitos filhos” ao mesmo destino: “conduzindo muitos filhos à glória, aperfeiçoasse, por meio de sofrimentos, o Autor da salvação deles.” (Hebreus 2:10). Em 1 Pedro 1:11, portanto, “glórias” não é uma abstração luminosa; é o outro lado necessário do padecer, a vindicação divina que dá sentido ao escândalo da cruz sem o apagar.

Se o Espírito apontava, nas Escrituras, um Messias que atravessa sofrimentos rumo às glórias, então a comunidade cristã aprende a interpretar seu próprio sofrimento não como desmentido de Deus, mas como participação no caminho do Cristo, sem romantização e sem desespero. Paulo formula essa correspondência com precisão severa: “se é certo que com ele padecemos, para que também com ele sejamos glorificados.” (Romanos 8:17). O próprio Pedro, na mesma carta, transforma isso em exortação de alegria que não nega a dor, mas a enquadra na promessa: “alegrai-vos na medida em que sois coparticipantes dos sofrimentos de Cristo, para que também, na revelação de sua glória, vos alegreis exultando.” (1 Pedro 4:13). E, quando mais tarde ele se apresenta como pastor, ele não separa os dois polos: “testemunha dos sofrimentos de Cristo, e participante da glória que se há de revelar” (1 Pedro 5:1). O v. 11 não apenas explica como os profetas liam o futuro; ele ensina como a igreja lê o presente: a Escritura anuncia um Cristo cujo caminho passa pela noite e amanhece em glória, e essa mesma estrutura se torna lente para discernir esperança no meio das provações, porque o Deus que “dantes anunciara” também é o Deus que “cumpriu” (Atos 3:18), e o que ele cumpre não é só um evento, mas um padrão de redenção que atravessa toda a Bíblia.

1 Pedro 1:12

Aos quais foi revelado que não para si mesmos, mas para vós, eles ministravam essas coisas que agora vos foram anunciadas por meio daqueles que vos evangelizaram, no Espírito Santo enviado do céu; coisas em que os anjos anseiam inclinar-se para olhar. (Gr.: hois apekaluphthē hoti ouch heautois, hymin de diēkonoun auta ha nyn anēnggelē hymin dia tōn euangelisamenōn hymas en pneumati hagiō apostalenti ap’ ouranou, eis ha epithymousin angeloi parakypsai — Tradução literal: “aos quais foi revelado que não a si mesmos, mas a vós, estavam servindo essas coisas que agora vos foram anunciadas por meio dos que vos evangelizaram, em Espírito Santo enviado do céu, para as quais anjos desejam inclinar-se para olhar.”) No centro do enunciado está apekalyphthē (“foi revelado”), forma que repousa no verbo apokalyptō (“revelar”, “desvelar”) e conserva, pela própria composição, a imagem concreta de retirar uma cobertura: o prefixo apo (“de, para longe, removendo”) acoplado a kalyptō (“cobrir, ocultar”) faz com que “revelação” seja, em sua história verbal, um “tirar o véu” antes de ser um termo abstrato de informação. Quando o texto diz que os antigos serviam algo que não era “para si”, ele usa diēkonoun (“serviam, ministravam”), forma ligada ao verbo diakoneō (“servir, ministrar”), que carrega na sua história semântica a cor de serviço prestado com as mãos — assistência, provisão, cuidado efetivo — e não mero “falar” ou “opinar”; a ideia nasce num chão de tarefas, e por isso “ministração” aqui não é um título, mas um movimento de serviço.

A notícia que chegou “agora” é dita por anēnggelē (“foi anunciada”), forma do verbo anaggellō (“anunciar, relatar, comunicar”), cujo próprio corpo verbal se aproxima do universo de angelos (“mensageiro”): há um “levar mensagem” embutido no vocabulário, como se o anúncio tivesse pernas e boca. Esse mesmo campo se intensifica em euangelisamenōn (“tendo evangelizado”, “tendo anunciado boas-novas”), porque euangelizomai (“evangelizar”) é formado por eu (“bom”) + a família de angel- (“mensagem/mensageiro”), de modo que o “evangelho” nasce, etimologicamente, como “boa notícia” antes de ser um rótulo técnico. E essa história não fica confinada ao Novo Testamento: na tradição grega da LXX, a linguagem de “boas-novas” aparece de modo emblemático em Isaías 52:7, onde o interlinear registra a forma verbal ligada a esse mesmo núcleo de “boa notícia” no contexto do anúncio de paz e reinado.

A moldura espiritual do anúncio é marcada por pneumati (“Espírito”) em unidade com hagiō (“santo”): pneuma (“espírito, sopro”) traz na sua história a sensação física de vento e respiração — aquilo que se percebe, mas não se segura — e hagios (“santo”) carrega o valor de separação/consagração, de modo que a expressão não descreve apenas “um agente”, mas uma qualidade de procedência: um sopro que vem “apartado” para Deus. Essa procedência se torna quase visível em apostalenti (“tendo sido enviado”), de apostellō (“enviar”), cujo prefixo apo (“para fora, para longe”) sugere uma comissão que parte de uma origem e atravessa distância, e em ouranou (“céu”), ouranos (“céu”), cuja história lexical aponta para o “alto” como espaço de céu/abóbada e, por extensão, morada divina. E aqui a “história” não é só dicionário: em Homero, por exemplo, o termo aparece no próprio tecido do verso; em Ilíada 12.338 lê-se “οὐρανὸν ἷκε”, recorte em que ouranon (“céu”) mantém o sentido de altura/cúpula, e a forma verbal “chega” dá ao céu uma concretude espacial (“alcançou o céu”).

O desejo dos seres celestes é expresso por epithymousin (“desejam intensamente”), de epithymeō (“desejar, cobiçar”), verbo em que o prefixo epi (“sobre”) adensa a força de thymos (“ânimo, impulso interior”) na história da palavra, como um coração que se inclina “sobre” algo e o quer; e esse inclinar-se ganha gesto corporal em parakypsai (“inclinar-se para olhar”), de parakyptō (“inclinar-se, curvar-se para espiar/olhar atentamente”), em que para (“ao lado, junto de”) sugere o movimento de chegar perto, pela borda, e curvar o corpo para ver melhor. Também aqui o vocábulo de “mensageiro” tem história para além do Novo Testamento: em Homero, em Ilíada 2.26, encontra-se o recorte “πρός με σὺ νῦν ἄγγελός ...”, onde “ἄγγελός” nomeia o “mensageiro” em registro épico; isto preserva o núcleo semântico antigo de angelos (“mensageiro”) que, no uso bíblico, se especializa frequentemente como “anjo”.

A primeira palavra grega, hois (“aos quais”), é um pronome relativo, dativo, masculino, plural, funciona como dativo de destinatário e se prende diretamente ao verbo finito apekalyphthē (“foi revelado”), verbo, aoristo, indicativo, passivo, terceira pessoa singular, cuja forma passiva pede um termo que receba a revelação (o dativo do pronome relativo) e abre espaço para o conteúdo revelado como enunciado dependente; esse conteúdo é introduzido por hoti (“que”), conjunção que marca uma oração subordinada substantiva de conteúdo, dependente de apekalyphthē (“foi revelado”) como aquilo que foi dado a conhecer. A negação entra por ouch (“não”), advérbio de negação que recai sobre a predicação que segue e, por encaixe imediato, antecipa a exclusão do beneficiário “para si”; essa exclusão é formalizada por heautois (“a si mesmos”), pronome reflexivo, dativo, masculino, plural, funcionando como dativo de interesse (beneficiário) dependente do verbo de serviço que virá, e é contrastada por hymin (“a vós”), pronome pessoal, dativo, segunda pessoa plural, que ocupa o mesmo lugar sintático de beneficiário; a partícula de (“mas/porém”) é a marca formal dessa coordenação adversativa mínima, costurando o par dativo “não... mas...”, ambos dependentes do mesmo núcleo verbal. O núcleo dessa oração de conteúdo é diēkonoun (“serviam/minist(r)avam”), verbo, imperfeito, indicativo, ativo, terceira pessoa plural, cujo imperfeito dá à ação um perfil durativo no passado (não um ponto isolado, mas uma linha de ministério prolongado), e que toma como complementos (i) os dativos já postos (heautois / hymin) como dativos de destinatário/benefício e (ii) um objeto direto no acusativo, expresso por auta (“estas coisas”), pronome, acusativo, neutro, plural, que depende de diēkonoun como seu complemento direto.

A partir de auta (“estas coisas”), o texto encaixa uma oração relativa por meio de ha (“as quais”), pronome relativo, neutro, plural, que retoma o antecedente (auta) pela marca formal da relativização e funciona como termo nuclear da oração dependente; o advérbio nyn (“agora”) modifica o predicado seguinte situando-o no “presente narrativo” do anúncio cristão. O verbo dessa relativa é anēngelē (“foi anunciado”), verbo, aoristo, indicativo, passivo, terceira pessoa singular, cuja passividade pede (i) um destinatário, dado por hymin (“a vós”), dativo, segunda pessoa plural, dependente de anēngelē como dativo de destinatário, e (ii) um meio/agente intermediário, introduzido por dia (“por meio de”), preposição que, no encaixe imediato, rege o genitivo (confirmado pelo artigo seguinte em genitivo) e cuja semântica é a do “canal” pelo qual o anúncio passa. Esse complemento preposicionado é dia (“por meio de”) + tōn (“dos”), artigo, genitivo, masculino, plural, que substantiva o particípio subsequente e marca formalmente que todo o sintagma genitivo é o objeto da preposição; por isso, aqui o genitivo não é adnominal, mas “genitivo regido por preposição”, e sua leitura sintática provável é a de mediação/agência instrumental (“através de X”), exatamente porque se encaixa como expansão do passivo “foi anunciado” (quem fez chegar o anúncio). O particípio é euangelisamenōn (“tendo anunciado as boas-novas”), verbo em forma de particípio, aoristo, médio, genitivo, masculino, plural, dependente do artigo tōn (“dos”) para funcionar como substantivo (“os que evangelizaram”); aoristo, aqui, perfila o ato de proclamar como evento tomado em bloco (a proclamação como ação completa), e a voz média, pela própria forma, apresenta o predicado como ação do sujeito com envolvimento próprio; esse particípio, por sua vez, governa hymas (“a vós”), pronome pessoal, acusativo, segunda pessoa plural, como seu objeto direto (“evangelizar a vós”).

O modo como esse evangelho foi proclamado é anexado por um sintagma preposicionado que se liga, por proximidade e sentido, ao particípio substantivado (euangelisamenōn, “os que evangelizaram”): en (“em”), preposição que rege dativo e cujo valor semântico, na gramática dos casos, é o de esfera/posição de “repouso em/na” (e, por extensão, o domínio em que uma ação se dá); seu objeto é pneumati (“Espírito”), substantivo, dativo, neutro, singular, e recebe qualificação por hagiō (“santo”), adjetivo, dativo, neutro, singular, concordando formalmente com pneumati pelo caso, gênero e número. A esse mesmo substantivo em dativo se prende um particípio atributivo: apostalenti (“tendo sido enviado”), particípio, aoristo, passivo, dativo, neutro, singular, que concorda com pneumati (“Espírito”) e explica-o como “o Espírito enviado”; o aoristo particípio dá o envio como fato completo anterior/lógico ao anúncio, e a voz passiva insinua um agente implícito (Deus como enviador) sem o enunciar aqui. Esse particípio é expandido por ap’ (“de”), preposição que rege genitivo e cujo valor semântico é origem/ponto de partida (“a partir de”), tendo por objeto ouranou (“céu”), substantivo, genitivo, masculino, singular; o genitivo, aqui, é novamente “regido por preposição”, e sua leitura sintática é de fonte (não de posse), porque o encaixe formal é “enviado de onde?”. Por fim, o período fecha com um segundo encaixe relativo-preposicionado: eis (“para/para dentro de”), preposição que rege acusativo e cujo valor semântico básico é direção/meta (movimento “em direção a/para dentro de”), introduzindo ha (“as quais”), pronome relativo, acusativo, neutro, plural; esse sintagma funciona como complemento do infinitivo seguinte, delimitando o “objeto” para o qual o olhar se inclina (“olhar para dentro de quais coisas”).

O verbo finito que governa essa moldura é epithymousin (“desejam”), verbo, presente, indicativo, ativo, terceira pessoa plural, cujo presente dá à frase o pulso do desejo contínuo (não um ímpeto momentâneo, mas uma aspiração em curso); seu sujeito explícito é angeloi (“anjos”), substantivo, nominativo, masculino, plural, e o conteúdo do desejo vem em forma não finita: parakypsai (“inclinar-se para olhar/olhar atentamente”), verbo em infinitivo, aoristo, ativo, que funciona como complemento de epithymousin (“desejam”) e, por ser aoristo, perfila o ato de “espiar/inclinar-se” como alvo inteiro e pontual do desejo (a ação tomada como um todo, visada como meta).

No primeiro nó em que as traduções se separam do grego, a questão é o destinatário do serviço: o texto grego traz “não para si mesmos, mas para vós”, visível na sequência “ὑμῖν δὲ” em testemunhos gregos exibidos em edições/visualizadores (por exemplo, na página de texto grego do versículo). É por isso que ASV verte “not unto themselves, but unto you” (“não para si mesmos, mas para vós”). ESV segue o mesmo rumo: “serving not themselves but you” (“servindo não a si mesmos, mas a vós”). NET também: “not serving themselves but you” (“não servindo a si mesmos, mas a vós”). Em português, NVI faz o mesmo com clareza: “não para si mesmos, mas para vocês”. ARA alinha-se a esse “vós”: “não para si mesmos, mas para vós outros”. Já KJV desloca esse ponto precisamente: “not unto themselves, but unto us” (“não para si mesmos, mas para nós”). YLT acompanha essa mesma leitura: “not to themselves, but to us” (“não para si mesmos, mas para nós”). ARC também preserva “nós”: “não para si mesmos, mas para nós”. Aqui, a divergência não é apenas de estilo: ela muda o alcance do contraste (se o “beneficiário” do ministério é diretamente “vós” ou “nós”), e por isso vale ser mantida à vista, como uma diferença real de tradição textual refletida na tradução.

No segundo nó — o modo como o conteúdo chega “agora” — as versões convergem no essencial (“anunciado / relatado / dito”), mas divergem no timbre. KJV diz “the things, which are now reported unto you” (“as coisas que agora vos são relatadas”). ASV prefere “now have been announced unto you” (“agora foram anunciadas a vós”). ESV segue com “have now been announced to you” (“agora foram anunciadas a vós”). NET opta por “have now been told you” (“agora vos foram ditas”). Em português, ARA mantém a cadência mais formal: “vos foram anunciadas”. NVI, num passo mais explicativo, amarra a frase com “quando falaram” e usa “agora lhes são anunciadas” (“agora lhes são anunciadas”). NTLH reconta o segmento com perífrase (“as verdades que vocês têm ouvido agora”), e isso já é uma escolha interpretativa de reexpressão, não só de troca lexical. NVT também reestrutura: “essas boas-novas lhes foram anunciadas”. Em todas, porém, permanece a mesma “ponte” sintática: aquilo que antes era servido pelos profetas chega agora ao leitor como anúncio mediado “por meio” de proclamadores.

No terceiro nó — o meio e o horizonte celeste — as escolhas variam entre literalidade e ênfase. KJV: “with the Holy Ghost sent down from heaven” (“com o Espírito Santo enviado do céu”, com a nuance de “sent down”). ASV: “by the Holy Spirit sent forth from heaven” (“pelo Espírito Santo enviado do céu”, com “sent forth”). ESV: “by the Holy Spirit sent from heaven” (“pelo Espírito Santo enviado do céu”). NET iguala: “by the Holy Spirit sent from heaven” (“pelo Espírito Santo enviado do céu”). NVI: “pelo Espírito Santo enviado dos céus”. ARA: “pelo Espírito Santo enviado do céu”. ARC: “pelo Espírito Santo enviado do céu”. NVT acrescenta uma intensificação ausente no grego: “pelo poder do Espírito Santo enviado do céu” (“pelo poder do Espírito Santo...”). NTLH faz o mesmo: “pelo poder do Espírito Santo, mandado do céu”. E, no fecho, onde o grego aponta para o gesto de “inclinar-se para olhar”, KJV/ASV fixam “the angels desire to look into” (“os anjos desejam investigar / perscrutar”). ESV condensa com beleza dura: “angels long to look” (“anjos anseiam olhar”). NET: “Even angels long to look into these things” (“até os anjos anseiam examinar estas coisas”).YLT, ao escolher “messengers do desire to bend looking” (“mensageiros desejam curvar-se para olhar”), deixa mais aparente o movimento corporal embutido no verbo final. Em português, ARA verte com precisão densa: “anjos anelam perscrutar”. NVI/NVT suaviza para “anseiam observar”. ARC: “desejam bem atentar”. NTLH, porém, desloca o foco do olhar para a compreensão: “anjos gostariam de entender” (“gostariam de entender”), que é uma convergência de sentido (curiosidade reverente) com mudança de imagem (do “olhar para dentro” ao “entender”).

Só então, passada a amarra formal, a frase neste versículo se abre como uma ponte de duas margens: de um lado, “a revelação” recebida pelos antigos destinatários do pronome relativo e, de outro, “o anúncio” que chega agora aos leitores, não como eco humano autônomo, mas como palavra conduzida “por meio” de mensageiros e “na esfera” do Espírito. A alternância entre diēkonoun (“serviam”, imperfeito durativo) e anēngelē (“foi anunciado”, aoristo pontual) cria uma cadência: um ministério longo que desemboca num ato de proclamação que irrompe “agora”, e isso se harmoniza com a tensão bíblica entre promessa e cumprimento, na qual aquilo que foi “servido” em sombra é “anunciado” em clareza; por isso, ao ler este versículo ao lado de Lucas 24:26–27 e Atos 3:18, a relação entre sofrimento previsto e cumprimento proclamado ganha um eixo: a história não avança por improviso, mas por desvelamento progressivo. A nota “não a si mesmos, mas a vós” também conversa com Daniel 12:8–9, onde o profeta recebe limites quanto ao horizonte imediato do entendimento, sugerindo que a própria profecia, embora verdadeira, pode ser entregue para além do alcance pleno do profeta; aqui, essa “além-medida” é marcada gramaticalmente pelos dois dativos em contraste. E a cláusula final, ao colocar os angeloi (“anjos”) como sujeitos de um desejo presente de “olhar para dentro” das “coisas”, soa em uníssono com Efésios 3:10, onde a economia de Deus na história é contemplada por realidades celestes: o evangelho não é apenas boa notícia para a terra, mas também teatro de sabedoria divina diante do céu. Por fim, se o leitor comparar tradições textuais, notará que algumas linhas de tradução refletem um “nós” onde outras trazem “vós”; esse ponto costuma aparecer quando se muda a base textual (por exemplo, entre tradições do texto crítico e leituras do texto bizantino), e vale ser observado porque altera o alcance do contraste “não... mas...”, sem desfazer o nervo do período: a revelação e o anúncio permanecem estruturados como dom que transborda do passado para o presente.

No comentário de Ellicott a 1 Pedro 1:12, o primeiro movimento é uma leitura interna do próprio encadeamento de 1 Pedro 1:11–12: assim como 1 Pedro 1:11 “expande e expõe” as palavras “indagaram e pesquisaram”, a primeira parte de 1 Pedro 1:12 “expande” a ideia de que os profetas “profetizaram acerca da graça reservada” para os destinatários. O ponto hermenêutico, aqui, é delicado e decisivo: a “revelação” mencionada não seria, para Ellicott, uma resposta extraordinária enviada por Deus como prêmio a uma reflexão laboriosa dos profetas; ao contrário, é precisamente o conteúdo revelado — a percepção de que havia um sentido ulterior nas suas próprias palavras — que gerou a perplexidade e, portanto, a busca. A revelação, segundo ele, teve limites exatos e quase austeros: foi-lhes mostrado que falavam para o benefício de um tempo futuro, “e nada mais”; e é nesse “nada mais” que ele enxerga um teste espiritual profundo, um “ensaio de fé”, uma “decepção sublime”, à maneira do quadro de Hebreus 11:40, onde a promessa permanece orientada a um cumprimento que ultrapassa a experiência imediata.

Em seguida, Ellicott desloca a atenção para uma questão textual e, ao mesmo tempo, para um traço de estilo epistolar: “a nós” seria, para ele, uma leitura inferior, enquanto “a vocês” seria preferível. A razão não é apenas crítica, mas também literária: ele observa como 1 Pedro evita, no “melhor texto”, a primeira pessoa do plural (“nós”, “nos”, “nosso”) justamente onde ela poderia aparecer com naturalidade, e contrasta isso com o hábito paulino de inserir simpatia, nivelando-se com os destinatários. Pedro, nessa caracterização, fala com um tipo de autoridade pastoral mais “elevada”, “de cima”, e ele quantifica essa raridade em quatro ocorrências onde o apóstolo se associa explicitamente aos irmãos (1 Pedro 1:3; 1 Pedro 2:24; 1 Pedro 3:18; 1 Pedro 4:17), relativizando duas delas: 1 Pedro 2:24 por ser citação, e 1 Pedro 3:18 por leitura “muito duvidosa”. A mesma tendência, diz ele, pode ser percebida em Atos 15:7, onde a leitura correta seria “fez escolha entre vocês”. Tudo isso funciona como moldura para um ponto pastoral implícito: a carta pretende formar segurança e perseverança em leitores sob pressão, e o “vocês” reforça que o foco é a graça destinada ao auditório, não uma reflexão genérica em que o autor se dilui no grupo.

Quando o comentário chega ao pronome “as quais” (“as coisas”), Ellicott insiste numa escolha de pontuação e referência: o original teria apenas “elas”, o que permitiria um corte mais forte, e ele supõe que esse pronome retoma “os sofrimentos reservados para o Messias e as glórias depois”. A pergunta que ele levanta é quase pedagógica: em que sentido os profetas “ministraram” a alguém — a si mesmos ou a vocês — esses “sofrimentos e glórias”? E sua resposta explora a imagem social contida no verbo: “ministrar” é servir como um servo que traz ao seu senhor o que ele precisa, frequentemente usado para servir uma refeição (João 12:2). Assim, os profetas teriam “servido” à igreja, isto é, apresentado, disponibilizado, colocado à mesa do povo de Deus o material do conforto, do estudo e do consolo, e por isso ele convida o paralelo de 1 Pedro 4:10. Mas, ao mesmo tempo, ele impõe um cuidado interpretativo sobre a negação “não para si, mas para vocês”: isso não significa que os profetas não receberam consolo algum de suas próprias profecias, como sugere João 8:56; o “não” aqui deve ser ouvido como em Mateus 9:13 (“misericórdia e não sacrifício”), uma negação que não apaga totalmente o primeiro termo, mas estabelece prioridade e finalidade principal.

A frase “as quais agora vos foram anunciadas” recebe, então, um refinamento temporal e qualitativo: Ellicott prefere algo como “foram declaradas abertamente”, e insiste que o tempo verbal indica contraste com “os dias dos profetas”, e que a declaração agora é “em todos os detalhes”, contra o modo “tênue e vago” em que antes eram percebidas. Ele justifica essa força recorrendo ao valor de um verbo grego composto e aponta lugares em que tal nuance se evidencia: João 4:25; Atos 19:18; Atos 20:20; Atos 20:27. Aqui, o comentário amarra duas épocas numa só história: o mesmo conteúdo (sofrimentos e glórias) existia na fala profética, mas o evangelho o torna manifesto com clareza pública, como se o que antes era sombra e contorno agora fosse narrativa aberta e inteligível.

A expressão “por aqueles que vos pregaram” também é estreitada: Ellicott prefere “por meio daqueles que pregaram”, e a diferença serve para restringir o referente aos primeiros portadores do evangelho “àquelas partes”, não a todos os pregadores ao longo do tempo até a redação da carta. Esse detalhe, para ele, é “bem digno de nota” porque sugere que Pedro não se inclui entre os fundadores locais, e ele arrisca um cenário eclesiológico: talvez metade das igrejas destinatárias olhasse para Paulo como fundador; e, então, 1 Pedro apareceria como o “apóstolo-rocha” selando com autoridade o ensino do “colega mais jovem”, em gesto semelhante ao que ele entende ocorrer “na Segunda Epístola” em 1 Pedro 3:15 (como o comentário o registra). Daí ele infere uma tensão pastoral: esses cristãos judeus estariam começando a reagir ao ensino evangélico de Paulo; por isso, o “apóstolo da Circuncisão” seria chamado a reforçar o que o “apóstolo da Incircuncisão” ensinou. Ele vê um eco posterior desse tipo de revolta em Apocalipse 2:9 e Apocalipse 3:9, e usa o quadro para contestar a “teoria de Tübingen” sobre divergência irreconciliável entre Pedro e Paulo, observando com ironia que a escola rejeitaria a epístola por tornar os apóstolos “harmoniosos demais”. Dentro do comentário, a finalidade desse bloco é clara: garantir ao leitor que o evangelho recebido não é facção apostólica, mas testemunho convergente.

Quando Ellicott comenta o trecho “com o Espírito Santo enviado do céu”, ele faz duas coisas ao mesmo tempo: marca um contraste com a atuação mais limitada do Espírito “nos profetas” (1 Pedro 1:11), e amplia a frase para ensinar sobre o caráter do envio. O tempo do particípio “enviado”, ele sugere, permitiria ler “enviado de uma vez por todas”, “enviado num momento”, e daí ele convoca um dado pastoral: alguns destinatários muito provavelmente teriam sido testemunhas do “envio” no dia de Pentecostes. Por isso, quando Pedro fala do evangelho “pelo Espírito enviado do céu”, ele está reivindicando para a pregação desses mensageiros (Paulo e talvez Silas, como ele conjetura) o mesmo tipo de inspiração de que o próprio Pedro foi dotado naquele evento, e o comentário ancora a analogia com a reivindicação posterior de inspiração para o “escrever” em 2 Pedro 3:15. O efeito retórico é reforçar a confiança: não se trata apenas de conteúdo verdadeiro, mas de proclamação soprada pela mesma doação do alto.

O comentário culmina no contraste mais ousado: não apenas os profetas, mas também os anjos desejam “inclinar-se” para ver essas coisas. Ellicott observa que a expressão “as quais coisas” é gramaticalmente paralela à anterior e poderia remeter aos “sofrimentos do Messias e as glórias depois”, mas ele julga que a lógica exige retornar ao começo de 1 Pedro 1:10, como se o argumento fosse: se profetas, tendo tais mistérios nos lábios, não captaram plenamente os detalhes que vocês captam, então pensem nos anjos — não “os anjos” em geral, mas anjos como classe — que estiveram presentes e ativos nos detalhes da história, com referência a Mateus 1:20; Mateus 4:11; Mateus 28:2; Lucas 1:26; Lucas 2:9; Lucas 22:43; João 1:51; e ainda com o eco de 1 Timóteo 3:16 (“foi visto por anjos”), e mesmo assim “cobiçam” trocar de lugar com vocês para contemplar o mistério. Ele explica o verbo com uma imagem corporal: não é um olhar casual, mas “inclinar-se para ver”, como alguém que se posiciona ao lado e se dobra para enxergar dentro, como em João 20:5 e João 20:11, e também em Lucas 24:12 (com a observação de que esse versículo não está no melhor texto); e, no uso metafórico, aponta Tiago 1:25.

A intenção, para ele, é estabelecer uma superioridade paradoxal do crente humano na posição de compreensão: não porque o mistério da união das naturezas em Cristo seja obscuro aos anjos, mas porque eles não podem compreender plenamente a natureza humana “carne e sangue” com tentações, dores e necessidade de Salvador; por isso ele invoca a lógica de Hebreus 2:16; Hebreus 2:18; Hebreus 4:15, onde a entrada do Filho na carne é condição de “entrar” nas enfermidades. E ele amplia o horizonte com a ideia de que a tragédia da história humana não é apenas para benefício dos atores, mas como lição para espíritos não caídos, citando 1 Coríntios 4:9; Efésios 3:10; 1 Timóteo 3:16, e ainda faz um desvio cultural — a pintura de Francia e a ausência de luto nos rostos angelicais — para sustentar a tese psicológica que ele propõe. O fechamento, com a lembrança de cânticos de Charles Wesley e a possível sugestão simbólica dos querubins sobre o propiciatório em Êxodo 25:20, mas com a ressalva de que Pedro não necessariamente pensava conscientemente nesse símbolo, deixa a impressão final do comentário: o evangelho eleva os destinatários a um lugar de privilégio hermenêutico e existencial, onde aquilo que profetas só viram em promessa e anjos só podem admirar de fora é agora apresentado, anunciado e compreendido “por vocês” dentro da própria condição humana redimida.

1 Pedro 1:13

Portanto, cingindo os lombos do vosso entendimento, sendo sóbrios, esperai inteiramente na graça que vos foi dada pela revelação de Jesus Cristo,... (Gr.: dio anazōsamenoi tas osphyas tēs dianoias hymōn nēphontes teleiōs elpisate epi tēn pheromenēn hymin charin en apokalypsei Iēsou Christou — Tradução literal: “Por isso, tendo cingido os lombos do vosso entendimento, sendo sóbrios, ponde plenamente a esperança na graça que vos está sendo trazida na revelação de Jesus Cristo.”) Em dio (“por isso”), a própria forma já carrega a “dobradiça” lógica: é composto, “através do qual” → “por causa do qual” → “portanto”, e a passagem do sentido relacional para o conclusivo é exatamente o caminho semântico que a conjunção percorre quando deixa de apontar para um “meio” e passa a selar uma inferência no discurso.

O verbo anazōsamenoi (“tendo cingido”), a força histórica nasce do gesto corporal: ana (“para cima/de novo”) + o verbo de “cingir com cinto”, com o imaginário de recolher a túnica e prender o corpo para prontidão; a palavra carrega, por herança cultural, a cena de preparação, não só a ideia abstrata. O eco da mesma imagem em grego bíblico fica visível quando a Septuaginta descreve a mulher valorosa: “ἀναζωσαμένη ... τὴν ὀσφὺν” (“tendo cingido ... o lombo”), onde o verbo veste o corpo com vigor e prontidão. Em osphyas (“lombos”), o termo designa o quadril/parte lombar e, por extensão antiga, a região associada à força vital e à potência geradora; por isso ele serve tanto para o ato literal de “cingir” quanto para a metáfora de “prontidão interior”. Em osphys o uso médico antigo preserva o sentido corporal nu e direto, e isso ajuda a entender por que “cingir os lombos” nasce como imagem concreta antes de virar metáfora moral. Num texto médico grego (Epidemias de Hipócrates), aparece: ὀσφύος ὀδύνη; isto é, osphyos odynē (“dor no lombo / dor lombar”). A forma composta anazōsamenē (“tendo cingido”) ocorre na LXX em Provérbios 31:17, com o mesmo prefixo intensivo/ascensional e a mesma imagem de prontidão: anazōsamenē (“tendo cingido”) aparece ali com o campo semântico de preparo vigoroso para ação.

Em dianoias (“mente”), a história da palavra está na sua composição: “pensamento que atravessa/penetra”, pois ela se forma de elementos associados a “através” e ao campo do “pensar/perceber”, e daí o valor de faculdade interior — não só “intelecto”, mas também “disposição” e “modo de pensar”. O uso clássico, registrado em léxicos históricos, mostra a palavra funcionando como “intenção/linha mental” em frases como “τοῦ ὑπαπιέναι τὴν διάνοιαν ἔχειν” (citação de Tucídides 5.9, relaciona a algo como “ter a mente inclinada a recuar”), onde “διάνοια” é o “centro de decisão” do sujeito, e não mero processamento frio de dados. A palavra também tem lastro trágico e filosófico como “disposição interior” ou “intenção”, não apenas “mente” em sentido anatômico. A própria documentação cita Ésquilo: ὤλοντ’ ἀσεβεῖ διανοίᾳ; isto é, ōlont’ asebei dianoia (“pereceram por um pensamento ímpio / por intenção ímpia”) (Aesch. Seven 831). A palavra interiorizada dianoia também é atestada na LXX como sede de percepção e discernimento, como em Deuteronômio 29:3, onde o dom de compreender é expresso com dianoian (“mente”) em construção de finalidade cognitiva: kai (“e”) dianoian (“mente”) gnōnai (“para conhecer”). O mesmo livro de Êxodo oferece uma ponte verbal com o particípio de pherō (“trazer, levar”): em Êxodo 35:25, a disposição interior aparece ligada ao ato de “trazer” ofertas, e o texto usa (“pela”) dianoia (“mente”) com o verbo de transporte: pherousa (“trazendo”). Essa família lexical sustenta o valor de pheromenēn (“que está sendo trazida”) em 1 Pedro 1:13 como graça em movimento, chegando ao destinatário, e não apenas como dádiva passada.

Em nēphontes (“sendo sóbrios”), a etimologia preserva o sentido concreto de “abster-se de vinho”, e daí o seu deslizamento para “estar vigilante, com o espírito recolhido e lúcido”; e é relevante que a tradição lexicográfica registre esse verbo como corrente desde Theognis, Sophocles, Xenophon, antes de receber o uso moral no Novo Testamento, o que mostra que a palavra traz para o texto um lastro antigo de sobriedade como condição de lucidez. Originado-se de nēphō (“ser sóbrio; estar lúcido”), a tradição pré-cristã já articula a sobriedade como eixo de lucidez. No trecho preservado por Ateneu (citando Teógnis), lê-se: οὔτε τι νήφων εἴμ’ οὔτε λίαν μεθύων; isto é, oute ti nēphōn eim oute lian methyōn (“não estou nem sóbrio, nem demasiadamente embriagado”). Ainda no mesmo veio, Ateneu registra um verso atribuído a Sófocles, onde a sobriedade vira disciplina de vigília: νήφειν ἐν φυλακῇ χρὴ τὸν εὖ φρονοῦντ’; isto é, nēphein en phylakē chrē ton eu phronount (“é preciso manter-se sóbrio na guarda, quem tem bom juízo”).

O advérbios teleiōs (“plenamente”) nasce do campo de teleios (“completo”), e o núcleo histórico está em telos (a ideia de “fim”, “meta”, “acabamento”): “plenamente” não é só “muito”, mas “até a completude”, “sem sobra”, “sem vacilação” — como o próprio uso lexicográfico explicita ao ligar o advérbio à noção de completamento. Há uso clássico que conserva o valor adverbial de completude, de obra levada ao acabamento. Um recorte preserva a forma: τελείως ἐξειργασμένον; isto é, teleiōs exeirgasmenon (“trabalhado / executado completamente”). (Dionísio, De Compositione Verborum, p.p. 5) O advérbio teleiōs também aparece na Septuaginta em contextos de totalidade/inteireza do agir, como em Judite 11:6, com teleiōs (“plenamente”) qualificando a realização de um feito, e em 2 Macabeus 12:42, com teleiōs (“completamente”) qualificando o apagamento de culpa no pedido de misericórdia. Já apokalypsei (“revelação”) nasce como “desvelamento”: prefixo de afastamento + o verbo de “cobrir/velar”, de modo que o sentido histórico é “tirar o véu”, “pôr a descoberto”, e por isso ela pode significar tanto a ação de revelar quanto o evento em que algo antes oculto se torna manifesto.

No bloco inicial, o grego concentra a imagem no particípio aoristo anazōsamenoi (“tendo cingido”), que governa o seu objeto direto tas osphyas (“os lombos”) e, por genitivo, especifica o “lugar” metafórico dessa ação em tēs dianoias (“da mente”). É justamente essa metáfora que KJV/ASV/YLT preservam de modo praticamente idêntico: KJV diz “gird up the loins of your mind” (“cingi os lombos da vossa mente”), ASV diz “girding up the loins of your mind” (“cingindo os lombos da vossa mente”) e YLT diz “having girded up the loins of your mind” (“tendo cingido os lombos da vossa mente”). Em contraste, ESV/NET preferem “desmetaforizar” o hebraísmo e converter a figura em instrução direta: ESV diz “preparing your minds for action” (“preparando vossas mentes para a ação”) e NET diz “get your minds ready for action” (“deixai vossas mentes prontas para a ação”).

Na sequência, a sobriedade e a esperança aparecem como eixo: o particípio presente nēphontes (“sendo sóbrios”) funciona como moldura modal do imperativo aoristo elpisate (“esperai”), e é aqui que as versões oscilam entre “tom” e “totalidade”. KJV mantém a cadência mais antiga: “be sober” (“sede sóbrios”) e “hope to the end” (“esperai até o fim”). ESV/NET explicitam uma nuance mental: ESV traz “being sober-minded” (“sendo sóbrios na mente”) e NET traz “being fully sober” (“sendo plenamente sóbrios”), enquanto YLT cristaliza o advérbio teleiōs (“plenamente”) na própria escolha verbal: “hope perfectly” (“esperai perfeitamente”). ASV fica no meio-termo com “be sober and set your hope perfectly” (“sede sóbrios e colocai vossa esperança perfeitamente”).

Quando o grego amarra o alvo dessa esperança em epi tēn ... charin (“sobre a ... graça”), as traduções revelam duas tensões: (1) se a graça está “a caminho” (particípio pheromenēn → “sendo trazida”) ou simplesmente “será dada/recebida”; (2) se o tempo é marcado “na revelação” (en apokalypsei) ou “quando ... for revelado”. Em português, ARA e ARC conservam a estrutura clássica de “cingir” e “sobriedade”, mas divergem no tratamento da metáfora e do particípio: ARA diz “cingindo o vosso entendimento” (“entendimento” sem “lombos”) e mantém a nuance processual do grego em “na graça que vos está sendo trazida”; ARC preserva explicitamente “os lombos do vosso entendimento”, mas troca a ideia de “ser trazida” por “na graça que se vos ofereceu”. Já NVI-PT/NVT/NTLH traduzem a metáfora por prontidão prática: NVI-PT diz “estejam com a mente preparada, prontos para agir; estejam alertas” e ancora o desfecho em “na graça que lhes será dada quando Jesus Cristo for revelado”; NVT diz “preparem sua mente para a ação e exercitem o autocontrole” e usa “na graça que receberão quando Jesus Cristo for revelado”; NTLH segue o mesmo rumo, mas verte charis (“graça”) por “bênção”: “estejam prontos para agir... ponham toda a sua esperança na bênção que será dada a vocês quando Jesus Cristo for revelado”.

O “portanto” que inicia o v. 13 não cai do céu como adorno retórico, mas se prende ao chão do capítulo: a comunidade é nomeada como “aos eleitos de Deus, peregrinos dispersos” (1 Pedro 1:1), isto é, gente em trânsito, com a casa tremendo sob o vento do mundo, e justamente por isso sustentada por uma esperança que não é improviso psicológico, mas fruto da regeneração: “ele nos regenerou para uma esperança viva” (1 Pedro 1:3), voltada para um futuro real: “a salvação prestes a ser revelada no último tempo” (1 Pedro 1:5) e para um dia nomeado com precisão: “quando Jesus Cristo for revelado” (1 Pedro 1:7). A imagem de “cingir os lombos” funciona como ponte teológica entre o Antigo e o Novo Testamento: na noite do Êxodo, comer com “os vossos lombos cingidos” (Êxodo 12:11) era viver como quem já está de pé, com o futuro entrando pela porta, e essa prontidão ritual vira, em Pedro, prontidão do entendimento; não se trata de acelerar a mente, mas de não deixá-la solta, esvoaçando em pânicos e fantasias, como tecido sem cinto. A mesma gravidade aparece quando Deus convoca Jó: “Agora cinge os teus lombos como homem; e perguntar-te-ei, e, tu, responde-me” (Jó 38:3) → a mente cingida é mente responsável, capaz de responder, e não apenas reagir.

A sobriedade, aqui, não é só abstinência, mas vigília moral e escatológica: “estar alerta” é manter o coração acordado na presença de um futuro que vem. Por isso a carta, no mesmo movimento em que manda esperar, manda também não adormecer na velha forma de vida: “não se deixem amoldar pelos maus desejos de outrora” (1 Pedro 1:14), pois a esperança cristã não é fuga do mundo, mas uma forma de caminhar dentro dele sem ser moldado por ele. Essa articulação já estava no Novo Testamento como linguagem de dia e noite: “não durmamos como os demais, mas estejamos atentos e sejamos sóbrios” (1 Tessalonicenses 5:6) e, logo adiante, a sobriedade é vestida como armadura onde a esperança ocupa lugar de proteção: “sejamos sóbrios, vestindo a couraça da fé e do amor e o capacete da esperança da salvação” (1 Tessalonicenses 5:8). Pedro, então, não está inventando um moralismo; ele está dizendo que a esperança tem musculatura e que a mente precisa de cinto porque a história está em marcha para uma revelação. A mesma lógica reaparece quando Paulo diz: “Chegou a hora de vocês despertarem do sono” e “deixemos de lado as obras das trevas e revistamo-nos da armadura da luz” (Romanos 13:11–12) → é a mesma gramática do tempo: a luz se aproxima, portanto a vida se organiza agora como quem já a vê chegando.

A esperança mandada por Pedro é “total” porque o objeto é “graça” e porque essa graça é descrita como algo que vem ao encontro do crente “na revelação de Jesus Cristo”: a fé, por isso, não se encurva apenas para trás, como memória da ressurreição, mas também para diante, como expectativa do desvelamento final do Senhor que ressuscitou. E é exatamente aqui que a hermenêutica bíblica amarra Antigo e Novo Testamento num só nervo: o chamado à santidade que se segue imediatamente no capítulo não é um apêndice ético, mas a forma concreta que a esperança assume quando entra no corpo. Pedro cita a Escritura e faz dela fundamento do presente: “Sejam santos porque eu sou santo” (1 Pedro 1:16), e essa frase ecoa a voz do Antigo Testamento: “consagrem-se e sejam santos, porque eu sou santo” (Levítico 11:44). Assim, a mente cingida e a esperança plena não são técnicas de autoaperfeiçoamento; são a resposta coerente de um povo separado para Deus, que vive como estrangeiro no mundo e, justamente por isso, aprende a viver como cidadão do dia que vem. Essa esperança, longe de relaxar a ética, a purifica: “Todo aquele que nele tem esta esperança purifica-se a si mesmo” (1 João 3:3) porque sabe que “quando ele se manifestar, seremos semelhantes a ele” (1 João 3:2) → a expectativa do encontro com Cristo trabalha o presente por dentro, como fogo que reorganiza o ouro. E quando o texto manda cingir, ele não manda apenas resistir, mas também servir: “Estejam prontos para servir” (Lucas 12:35), e essa prontidão do serviço encontra, no Novo Testamento, a mesma imagem de cintura firme: “mantenham-se firmes, cingindo-se com o cinto da verdade” (Efésios 6:14) → mente cingida, vida cingida, verdade cingida, tudo preso ao eixo do Cristo que será revelado, para que a esperança não se dissolva em sentimento, mas se torne forma de vida.

1 Pedro 1:14

...como filhos obedientes, não vos conformeis com os desejos que antes tínheis na vossa ignorância (Gr.: hōs tekna hypakoēs mē syschēmatizomenoi tais proteron en tē agnoiā hymōn epithymiais — Tradução literal: “como filhos de obediência, não vos conformando às paixões de outrora na vossa ignorância”.) A imagem inicial nasce do vocábulo tekna (“filhos”) que remete ao campo de “gerar/produzir”, vinculando-o ao verbo tiktō (“gerar”), de modo que “filho” não é só um título social, mas uma existência “proveniente de” alguém, marcada pela origem. A qualificação vem de hypakoē (“obediência”), termo que deriva de hypakouō (“obedecer”), e que o próprio verbete explica como ouvir de maneira responsiva, com a ideia de estar “sob” uma voz/autoridade; a família lexical é explicitada como intensificação do simples “ouvir” (akouō [“ouvir”]) com o matiz de “sob” (hypo [“sob”]). Em seguida, a exortação negativa se ancora em syschēmatizomenoi (“conformando-se”), cuja formação descreve como composição de syn (“com”, “junto”) e um derivado de schēma (“forma/aparência”), isto é, “assumir uma forma semelhante”, moldar-se por um padrão exterior. O advérbio proteron (“antes”, “outrora”) é explicado como forma adverbial do comparativo “anterior”, servindo para fincar a memória no “tempo de trás”, como quem aponta uma casa antiga e diz: “ali eu morava”. E o solo escuro desse “antes” é nomeado por agnoia (“ignorância”), que de agnoeō (“não saber”, “ser ignorante”), descrevendo a “qualidade” da ignorância, não apenas um lapso momentâneo. Por fim, o impulso interior é dito epithymiais (“desejos”, “paixões”), substantivo que remete a epithumeō (“desejar intensamente”) e que, em sua análise de formação, associa a epi (“sobre”, “com foco em”) e thymos (“ímpeto”, “desejo ardente”), sugerindo desejo como força concentrada, que se fixa “sobre” um objeto.

O termo hōs (“como”) introduz uma comparação que qualifica o sujeito implícito do encadeamento iniciado no versículo anterior, de modo que a frase não cria um novo sujeito, mas descreve “como” os destinatários devem ser entendidos no ato de obedecer; por isso tekna (“filhos”) está no nominativo, neutro, plural, funcionando como nominativo de endereço (valor vocativo na forma nominativa), e recebe sua determinação por hypakoēs (“obediência”), substantivo no genitivo, feminino, singular, cujo encaixe favorece a leitura de genitivo de qualidade/descrição (“filhos caracterizados por obediência”, não “filhos pertencentes à obediência” como posse concreta, mas filhos cuja identidade é marcada por esse traço). Em seguida, (“não”) nega, não um verbo finito (inexistente no versículo), mas o particípio syschēmatizomenoi (“conformando-vos”), verbo no presente, particípio, voz média/passiva, nominativo, masculino, plural, concordando não com tekna (“filhos”, neutro), mas com o sujeito tácito “vós” (masculino plural, por convenção de concordância com um auditório misto), e por isso toda a oração se estrutura como qualificação participial dependente do imperativo do contexto, com elipse do verbo finito no próprio versículo: não é uma sentença independente, é uma descrição do modo de viver que acompanha a exortação principal.

O particípio syschēmatizomenoi (“conformando-vos”) rege seu termo-alvo em dativo: tais (“às”) é artigo no dativo, feminino, plural, determinando epithymiais (“cobiças”), substantivo no dativo, feminino, plural, e esse dativo se explica como dativo de padrão/referência (“conformar-se a”, “tomar a forma de”), de modo semelhante ao uso com dativo em outras passagens do Novo Testamento. O modificador temporal proteron (“antes”) entra em posição atributiva entre artigo e substantivo, funcionando como “de outrora”, isto é, qualificando epithymiais (“cobiças”) como anteriores ao novo estado do sujeito. A circunstância em que tais desejos pertenciam é expressa por en (“em”), preposição que rege dativo e aqui marca esfera/circunstância temporal (“no âmbito”, “no tempo marcado por”): (“a”) é artigo no dativo, feminino, singular, determinando agnoiā (“ignorância”), substantivo no dativo, feminino, singular, e hymōn (“de vós”) é pronome no genitivo, segunda pessoa do plural, funcionando como genitivo de posse/referência (“a ignorância que vos caracterizava”), porque se encaixa diretamente como determinante nominal de agnoiā (“ignorância”), não como agente nem como partitivo.

O ponto de partida do NA28, “como filhos da obediência”, nasce de um genitivo que pode ser vertido com a cor mais “nominal” (tekna hypakoēs [“filhos da obediência”]) ou com a cor mais “adjetival” (tekna... hypakoēs (“filhos obedientes”)); por isso a ARA mantém “Como filhos da obediência”, enquanto ARC/NVI preferem “Como filhos obedientes”, e a NVT reverte a ideia em exortação direta (“Sejam filhos obedientes”); a NTLH explicita o referente (“Sejam obedientes a Deus”). No segundo eixo, o particípio de conformação (syschēmatizomenoi [“sendo moldados/conformados”]) é puxado, nas inglesas, para o campo do “molde” e do “traje” moral: KJV/ASV/YLT conservam o verbo “fashioning” (“modelando-se”) com o complemento “former lusts/desires... in (the time of) your ignorance” (“desejos anteriores... na (época da) ignorância”); a ESV troca a imagem para “be conformed” (“ser conformado”) e ainda concentra a ignorância no adjetivo (“former ignorance”); a NET faz a mesma travessia semântica, mas com tom volitivo (“do not comply with the evil urges... in your ignorance” → “não cedam aos impulsos maus... na sua ignorância”). Em português, o leque acompanha essa oscilação: ARC guarda “não vos conformando” e “concupiscências”; ARA prefere “não vos amoldeis” e “paixões”; NVI fala de “não se deixem moldar” e qualifica “maus desejos”; NVT e NTLH deslocam para um retrato narrativo do “antigo modo de viver” dominado por desejos.

A expressão tekna (“filhos”) com hypakoēs (“obediência”) não descreve apenas um comportamento esperado, mas uma identidade recebida: a obediência não é uma máscara que se põe por fora, mas a marca da filiação, em contraste direto com a linguagem do Novo Testamento que conhece também os “filhos da desobediência” (Efésios 2:2; Colossenses 3:6), de modo que Pedro nomeia o povo pela casa a que pertence antes de corrigir seus passos. O particípio syschēmatizomenoi (“conformando-vos”) acende uma imagem de molde e forma externa: é o risco de deixar que o mundo antigo derrame novamente sua forma sobre a vida nova, como quem volta a vestir o traje de um tempo que já foi julgado e superado, e nesse ponto o verso conversa com a advertência paulina de não se “conformar” com o presente século (Romanos 12:2), porque a pressão do ambiente não pede licença, apenas imprime.

O dativo epithymiais (“desejos”, “cobiças”) como termo de referência desse “conformar-se” mostra que a batalha não começa no ato visível, mas no apetite interno, e o advérbio proteron (“antes”) prende esses apetites ao passado, como coisa de outrora, como sombra que insiste em chamar o nome do peregrino; por isso a carta, que já descreveu a esperança como orientada para a “revelação de Jesus Cristo” (1 Pedro 1:13), agora exige que essa esperança governe também o subterrâneo das inclinações. A locução en tē agnoiā hymōn (“em vossa ignorância”) não é desculpa, é diagnóstico: a ignorância aqui não é falta de dados, é vida sem luz, parentesco com o que o Novo Testamento chama de obscurecimento do entendimento (Efésios 4:18) e de tempos de ignorância que Deus não perpetua, mas convoca ao arrependimento (Atos 17:30); assim, “não vos conformeis” não é moralismo, é libertação do velho regime do coração. Hermeneuticamente, o verso ensina que a obediência cristã não nasce de um esforço nu, mas de uma nova filiação que reordena desejos: quem foi gerado para uma “esperança viva” (1 Pedro 1:3) não pode continuar deixando que desejos mortos governem o leme da vontade, porque a santidade que virá no versículo seguinte não é um ornamento de poucos momentos, mas um novo modo de respirar no mundo inteiro, como Israel que, na noite do Êxodo, teve de aprender a viver com prontidão e separação (Êxodo 12:11), agora transpostas do corpo para o interior.

1 Pedro 1:15

...mas, assim como é santo aquele que vos chamou, sede vós também santos em toda a vossa maneira de viver (Gr.: alla kata ton kalesanta hymas hagion kai autoi hagioi en pasē anastrophē genēthēte — Tradução literal: “mas, segundo o Santo que vos chamou, também vós tornai-vos santos em toda a vossa conduta”.) O centro verbal está em kalesanta (“que chamou”), particípio de kaleō (“chamar”) se aproxima de uma base cognata de keleuō (“ordenar”), de modo que “chamar” preserva o timbre de uma voz que convoca e, ao mesmo tempo, comanda. A santidade aparece duas vezes como eco que retorna: hagion (“santo”) e hagioi (“santos”) têm vínculo com hagos (“algo tremendo/terrível”, no sentido de causar reverência) e, na tradição lexical ali reunida, a noção de “diferença”, “separação” do comum, como marca de consagração. O âmbito dessa santidade não é abstrato: ela habita a anastrophē (“conduta”, “maneira de viver”), substantivo deriva de anastrephō (“conduzir-se”) e explica, pela composição, como movimento de “volta” (com ana [“para cima”, “de novo”] e strephō [“virar”]), isto é, um viver que se “vira” por dentro e se mostra por fora como nova direção. E a meta do imperativo final é expressa por genēthēte (“tornai-vos”), forma do verbo ginomai (“tornar-se”, “vir a ser”), que descreve como verbo de “vir-a-ser”, ligado ao campo de “gerar” (raiz gen-), destacando mudança de estado, não mera rotulação: santidade, aqui, é tornar-se de fato, como quem atravessa um umbral e já não é o mesmo ao pisar do outro lado.

O termo alla (“mas”) opera como conjunção adversativa, contrapondo o padrão antigo negado ao novo padrão afirmado, e esse padrão é introduzido por kata (“segundo”), preposição que rege acusativo e aqui carrega valor normativo (“conforme o padrão”, “de acordo com”): ton (“o”) é artigo no acusativo, masculino, singular, substantivando o particípio kalesanta (“que chamou”), verbo no aoristo, particípio, voz ativa, acusativo, masculino, singular, cujo acusativo não é objeto direto de um verbo, mas objeto da preposição kata (“segundo”), formando a expressão “segundo o que chamou”. O particípio kalesanta (“que chamou”) recebe complemento direto em acusativo por hymas (“a vós”), pronome pessoal no acusativo, segunda pessoa do plural, explicitando quem é o alvo do chamado; e o qualificativo hagion (“santo”) está no acusativo, masculino, singular, concordando com o conjunto ton kalesanta (“o que chamou”), funcionando como predicativo/aposto adjetival do referente (“o Santo que chamou”).

A coordenação kai (“e”) soma a segunda parte da exortação, na qual autoi (“vós mesmos”) é pronome intensivo no nominativo, masculino, plural, retomando o sujeito implícito “vós” e destacando-o por contraste com o “Santo que chama”; hagioi (“santos”) é adjetivo no nominativo, masculino, plural, e opera como predicativo do sujeito com o verbo finito genēthēte (“tornai-vos”), forma verbal no aoristo, imperativo, voz média (uso deponente com sentido ativo: “vir a ser”), segunda pessoa do plural, cuja força aspectual típica do imperativo aoristo aponta para a entrada decisiva num estado (“passai a ser”, “tornai-vos de fato”), em vez de apenas descrever uma continuidade indefinida. O âmbito dessa santidade é marcado por en (“em”), preposição que rege dativo e aqui indica esfera (“no âmbito de”): pasē (“toda”) é adjetivo no dativo, feminino, singular, qualificando anastrophē (“conduta”), substantivo no dativo, feminino, singular, de modo que a santidade exigida não é localizada em um rito isolado, mas distribuída pela totalidade do “modo de viver” em que o sujeito se move.

Aqui a divergência mais teologicamente sensível está no verbo do genēthēte (“tornai-vos / vinde a ser”), que permite ouvir a santidade como “tornar-se” (processo) e não apenas como “ser” (estado). Por isso a ARA verte com o peso do devir: “tornai-vos santos”; em inglês, YLT e NET também preferem “become holy” (“tornem-se santos”), enquanto KJV/ASV/ESV mantêm “be... holy” (“sede/sejam santos”), fazendo o imperativo soar mais imediato, como lâmina que cai. No complemento de extensão (en pasē anastrophē [“em toda conduta/modo de vida”]), o português mostra um arco de escolhas: ARC diz “em toda a vossa maneira de viver”; ARA, “em todo o vosso procedimento”; NVI/NTLH coincidem em “em tudo o que fizerem”; NVT quase coincide, com “em tudo que fizerem”. E no modo da comparação, o NA28 não diz simplesmente “sejam santos porque Deus é santo” (isso virá no versículo 16), mas ancora o imperativo na vocação: “segundo/como aquele que vos chamou”; daí ESV (“as he who called you is holy...” → “como aquele que os chamou é santo...”) e ARA (“segundo é santo aquele que vos chamou...”) preservarem o encaixe “conforme o chamador”, ao passo que NTLH reordena para leitura mais direta (“assim como Deus, que os chamou, é santo”).

O centro interpretativo está em kata (“segundo”), porque a santidade não é medida pelo humor do coração nem pelo padrão social da dispersão, mas pelo próprio Deus como norma viva; e esse Deus é definido pela ação de chamar, kalesanta (“que chamou”), de modo que a exigência não é um peso lançado sobre estranhos, mas a forma coerente de uma vocação que cria pertencimento e identidade, como se o chamado já tivesse traçado o contorno da nova vida antes de ordenar seus passos. É por isso que a frase ecoa diretamente o Antigo Testamento: “sejam santos, porque eu sou santo” não é um ideal genérico de pureza, mas a lógica de aliança em que o povo carrega na conduta o caráter daquele que o separou para si (Levítico 19:2), e a carta, logo adiante, explicita que se trata de um princípio “escrito” antes de ser sentido (1 Pedro 1:16), como se Pedro dissesse que a ética cristã nasce da mesma fonte que fez Israel ouvir no Sinai que seria “nação santa” (Êxodo 19:6), agora reaparecendo no Novo Testamento como “nação santa” e “povo exclusivo” chamado “das trevas para a sua maravilhosa luz” (1 Pedro 2:9), isto é, santidade como resposta pública a um chamado que arrancou o povo de um domínio para outro.

Michaels lê a expressão alla kata ton kalesanta hymas hagion (“mas segundo o Santo que vos chamou”) como uma peça decisiva na passagem, porque ali “o Santo” não funciona como adjetivo disperso, mas como designação teológica carregada de memória bíblica. (MICHAELS, 1 Peter (WBC), 1988, pp. 58-59) Ao notar que BGD (10) registra 1 João 2:20 como o único lugar do Novo Testamento em que ho hagios (“o Santo”) poderia ser título de Deus Pai (e ainda assim com ressalva), ele desloca o peso do argumento para o uso veterotestamentário consagrado: “o Santo” e, com especial densidade, “o Santo de Israel”, ho hagios tou Israēl (“o Santo de Israel”), são nomes de Deus correntes na Septuaginta, e por isso ecoam naturalmente no ouvido judaico-cristão: Salmos 70 [71]:22; Salmos 77 [78]:41; Salmos 88 [89]:19 [18]; Isaías 1:4; 5:16; 12:6; 14:27; 17:7; 29:23; 30:12, 15; 31:1; 41:20; 45:11; 55:5. O ponto, então, não é inventar um título novo, mas acionar um título antigo e reconhecível; e, em seguida, qualificá-lo por meio do particípio kalesanta (“que chamou”), isto é, “o Santo” aparece como “o Santo que chamou vocês”.

Esse qualificativo é o lugar em que o comentário aperta o nó: em outros contextos, Pedro trata ho kalesas (“aquele que chamou”) como substantivo, quase como um título em si, em 1 Pedro 2:9; 5:10 (cf. 2 Pedro 1:3), e Michaels observa que isso converge com o uso paulino em Gálatas 1:6; 5:8; Romanos 9:12. Seria tentador, portanto, ler aqui algo como “o chamador é santo”, fazendo de hagion (“santo”) um predicativo (“ele é santo”) e não um título (“o Santo”). Mas ele insiste que o texto não permite essa manobra por causa da escolha de kata (“segundo”) em vez de uma conjunção comparativa como kathōs (“assim como”): a preposição kata (“segundo”) faz a frase soar como norma e padrão, não como simples comparação retórica, e isso torna praticamente impossível tratar hagion (“santo”) como se estivesse apenas predicando uma qualidade separada. Daí o movimento fino do versículo: em vez de antecipar a forma exata da citação do versículo seguinte, Pedro introduz ho hagios (“o Santo”) como título, e deixa a citação — “Sede santos, porque eu sou santo” — explicitar o que esse título exige.

A função teológica de kalesanta (“que chamou”) aparece, então, como a ponte que obriga gentios cristãos a tomarem a santidade do Deus de Israel como medida de conduta. A razão não é cultural, nem estética, nem uma “espiritualidade” genérica: é identitária. Eles foram “chamados” por um Deus santo, e por isso pertencem a “aquele que chamou vocês das trevas para a sua maravilhosa luz” (1 Pedro 2:9; cf. 1 Pedro 5:10), sendo o “chamado” também retomado em 1 Pedro 2:21; 3:9. O efeito do raciocínio é colocar gentios diante do Deus de Israel não apenas com os privilégios de acesso, mas com o mesmo peso de responsabilidade moral: o título ho hagios (“o Santo”) não é ornamento litúrgico, é aliança em forma de nome; e o particípio kalesanta (“que chamou”) diz por que esse nome se torna, para eles, um espelho inevitável: se o Deus que chama é santo, o povo chamado deve refletir essa santidade.

A forma verbal genēthēte (“tornai-vos”) carrega um peso de passagem real: não é convite a uma etiqueta religiosa, mas ordem para entrar efetivamente num estado novo, e o alcance dessa ordem é total, porque en (“em”) + dativo delimita a esfera inteira da vida: “em toda” (pasē [“toda”]) a anastrophē (“conduta”), isto é, a santidade não fica restrita a culto, mas invade o cotidiano, o modo de viver que a própria carta volta a nomear como “vossa conduta” diante dos povos e também como “vossa antiga maneira de viver” da qual se foi resgatado, como se o texto costurasse o passado, o presente e o testemunho numa só linha. Hermeneuticamente, isso alinha 1 Pedro com o restante do Novo Testamento: Deus não chama “para impureza”, mas “em santidade” (1 Tessalonicenses 4:7), e a santidade não é luxo para poucos, mas condição inseparável de ver o Senhor (Hebreus 12:14); assim, a santidade pedida aqui não concorre com a graça anunciada no versículo 13, mas é o seu fruto inevitável, porque o chamado que separa também conforma, e essa conformação é, em última instância, ser moldado à imagem do Filho (Romanos 8:29) e escolhido “para ser santo” diante de Deus (Efésios 1:4), de modo que a “conduta” santa se torna o idioma visível de uma esperança invisível, especialmente para quem vive como peregrino e estrangeiro em meio à pressão do mundo.

1 Pedro 1:16

...porque está escrito: “Sereis santos, porque eu sou santo. (Gr.: dioti — Tradução literal: “porque está escrito”; gegraptai; hagioi esesthe, hoti egō hagios — Tradução literal: “Santos sereis, porque eu sou santo”.) A frase se abre com dioti (“porque”), partícula que, na tradição do grego bíblico, costuma amarrar uma razão escrita no tecido anterior e, aqui, empurra a voz para a autoridade do texto: gegraptai (“está escrito”), forma perfeita de graphō (“escrever”), cuja própria ideia lexical é a de registrar por inscrição, deixando no papel o que não se pretende efêmero. O conteúdo do que “está escrito” se concentra em hagios (“santo”) e no futuro de eimi (“ser/estar”) em esesthe (“sereis”), de modo que a santidade não aparece como adorno opcional, mas como destino verbal: “sereis”. E é exatamente aqui que a história da palavra encontra sua memória litúrgica na LXX, onde a mesma cadência aparece como mandamento-identidade; em Levítico 11:44 (LXX) lê-se “ἅγιοι ἔσεσθε, ὅτι ἅγιός εἰμι ἐγώ” (transliteração: hagioi esesthe, hoti hagios eimi egō; “santos sereis, porque santo sou eu”), e em Levítico 19:2 (LXX) reaparece “ἅγιοι ἔσεσθε, ὅτι ἅγιός εἰμι ἐγὼ κύριος ὁ θεὸς ὑμῶν” (transliteração: hagioi esesthe, hoti hagios eimi egō kyrios ho theos hymōn; “santos sereis, porque santo sou eu, o Senhor vosso Deus”).

A expressão dioti (“porque”) funciona como conjunção causal que introduz a razão do imperativo precedente, amarrando o argumento ao fundamento escritural; gegraptai (“está escrito”) é verbo no perfeito, indicativo, voz passiva, terceira pessoa do singular, empregado de modo impessoal (“foi escrito e permanece escrito”), e por isso rege por elipse um sujeito genérico (“isto”) e abre o conteúdo citado como objeto oracional do “está escrito”. Dentro da citação, hagioi (“santos”) é adjetivo no nominativo, masculino, plural, em função predicativa, e se liga a esesthe (“sereis”), verbo no futuro, indicativo, voz média (forma de eimi [“ser”]), segunda pessoa do plural, que aqui carrega valor injuntivo-profético (“havereis de ser”, “sereis chamados a ser”), fazendo de hagioi (“santos”) o predicativo do sujeito implícito “vós”. A segunda cláusula é introduzida por hoti (“porque”), conjunção causal que fornece o fundamento da exigência anterior; egō (“eu”) é pronome pessoal no nominativo, primeira pessoa do singular, funcionando como sujeito explícito; hagios (“santo”) é adjetivo no nominativo, masculino, singular, em função predicativa; e, como não há verbo finito nessa microcláusula, a predicação é nominal com cópula elíptica, isto é, entende-se eimi (“sou”) omitido, de modo que o sentido formal é “porque eu [sou] santo”, com hagios (“santo”) como predicativo do sujeito egō (“eu”).

A construção impessoal em gegraptai (“está escrito”) não serve para “decorar” o discurso com autoridade, mas para fixar a exigência no registro do que permanece válido: o perfeito faz do escrito um presente permanente, e por isso a santidade não aparece como impulso momentâneo, mas como norma contínua. A forma injuntiva do futuro em esesthe (“sereis”) dá à santidade o peso de vocação que se abre adiante, e a cláusula causal com hoti (“porque”) desloca o fundamento do comportamento para o ser de Deus: a identidade divina expressa em egō (“eu”) + hagios (“santo”) sustenta o imperativo humano, como se a frase dissesse que a ética nasce do caráter daquele que chama, não do capricho do chamado.

No grego do NA28, a costura começa com dioti (“porque/pois”) introduzindo a fórmula escritural gegraptai (“está escrito”), e aqui as versões convergem no núcleo, mas divergem no timbre causal: a KJV abre com “Because it is written” (“Porque está escrito”), mantendo a causalidade explícita; a ESV prefere “since it is written” (“visto que está escrito”), trocando “porque” por um “já que” argumentativo; a NET verte “for it is written” (“pois está escrito”), que é igualmente causal, mas com cadência mais inferencial. No português, ARA/ARC mantêm o molde tradicional (“porque escrito está” / “porquanto escrito está”) e a NVI dá a forma direta “Pois está escrito”, todas acompanhando bem a função de dioti (“porque/pois”) + gegraptai (“está escrito”), embora com escolhas diferentes de registro; já NVT/NTLH deslocam a ênfase para a voz do texto (“Pois as Escrituras dizem...”) e, sem negar gegraptai (“está escrito”), trocam a forma “está escrito” por um equivalente comunicativo (“dizem”), o que aproxima o leitor da ideia de autoridade proclamada, mas se afasta do valor formal do perfeito passivo.

O ponto em que as versões mais claramente “convergem ou diferem” do grego não é o vocabulário “santo”, mas a forma verbal implícita na citação: hagioi (“santos”) com esesthe (“sereis”) é futuro (forma de enunciado normativo), e isso aparece com maior transparência onde se lê “You shall be holy” (“Vocês serão santos”), como na NET e, por outro caminho, na ASV (“Ye shall be holy” → “Vós sereis santos”); já KJV/NIV preferem o imperativo (“Be ye holy” → “Sede santos”; “Be holy” → “Sejam santos”), que interpreta o futuro como mandamento direto, sem reproduzir a forma do futuro em português/inglês. A YLT torna explícita a nuance dinâmica, lendo “become ye holy” (“tornai-vos santos”), que não é uma mera troca estilística: é uma maneira de “desdobrar” esesthe (“sereis”) como processo de tornar-se, e não só como estado a ser exibido. Na segunda metade, hoti (“porque/pois”) + egō (“eu”) + hagios (“santo”) aparece como fundamento (“porque eu sou santo”), e aqui as versões oscilam entre “for” e “because” (ESV tende a “for”; NET explicita “because”), diferença pequena em inglês, mas que corresponde a duas maneiras de tornar audível o hoti (“porque”) do grego.

1 Pedro 1:17

E, se invocais como Pai aquele que, sem acepção de pessoas, julga segundo a obra de cada um, conduzi-vos com temor durante o tempo da vossa peregrinação. (Gr.: kai ei patera epikaleisthe ton aprosōpolēmptōs krinonta kata to hekastou ergon, en phobō ton tēs paroikias hymōn chronon anastraphēte — Tradução literal: “E, se invocais como Pai aquele que julga imparcialmente segundo a obra de cada um, conduzi-vos em temor o tempo da vossa peregrinação”.) O verbo que dá o tom de invocação é epikaleisthe (“invocais”), forma de epikaleō (“chamar sobre”, “invocar”), cuja imagem é a de pôr um nome “sobre” alguém e, por extensão, apelar a esse nome como refúgio; a LXX conserva essa respiração antiga quando narra que os homens “começaram a invocar o nome do Senhor” em Gênesis 4:26 (LXX) e quando promete que “todo o que invocar o nome do Senhor será salvo” em Joel 2:32 (LXX 3:5). A imparcialidade, expressa por aprosōpolēmptōs (“sem acepção de pessoas”), é um termo cuja transparência morfológica se percebe mesmo sem dissecação: o núcleo semântico remete ao “rosto” e ao “tomar” (a ideia de “tomar o rosto” como critério), e a LXX dá corpo a esse pano de fundo ao negar que Deus “admire rosto” em Deuteronômio 10:17 (LXX), onde aparece “οὐ θαυμάσει πρόσωπον” (transliteração: ou thaumasei prosōpon; “não admirará rosto”, isto é, não favorecerá por aparência). A expressão do tempo como “peregrinação” se ancora em paroikia (“peregrinação/estadia como estrangeiro”), termo que carrega a sensação de morada provisória, de vida em terra alheia; a LXX o faz soar na consciência bíblica quando Jacó descreve seus “anos de peregrinação” em Gênesis 47:9 (LXX), e quando o salmista confessa “estrangeiro sou eu na terra” em Salmos 118:19 (LXX 119:19), com a mesma família de palavras que constrói o sentimento de exílio espiritual. Por fim, o imperativo anastraphēte (“conduzi-vos”, “vivei”, “comportai-vos”) vem de anastrephō (“voltar-se”, “mover-se”, e, por extensão, “conduzir-se”), palavra cuja história bíblica abraça tanto retornos concretos quanto o modo de vida, e cuja presença na LXX é ampla o bastante para sustentar a noção de “caminhar” como conduta que se vê, se pesa e se julga.

1 Pedro 1:17: kai (“e”) coordena esta sentença com o que precede, adicionando uma consequência prática; ei (“se”) introduz uma prótase condicional; patera (“pai”) é substantivo no acusativo, masculino, singular, e funciona como complemento direto de epikaleisthe (“invocais”), verbo no presente, indicativo, voz média (deponente com sentido ativo), segunda pessoa do plural, cujo presente descreve uma prática habitual (“vós invocais”), enquanto a voz média enfatiza a ação que recai na esfera do sujeito (invocar como recurso e pertença). O conteúdo específico do “pai” é delimitado por ton (“o”), artigo no acusativo, masculino, singular, que substantiva e determina o particípio krinonta (“julgando”), verbo no presente, particípio, voz ativa, acusativo, masculino, singular, concordando com ton (“o”) e funcionando como aposto explicativo de patera (“pai”), isto é, “o Pai, a saber, aquele que julga”; aprosōpolēmptōs (“imparcialmente”) é advérbio que modifica krinonta (“julgando”), qualificando o modo do julgamento. A norma desse julgamento é introduzida por kata (“segundo”), preposição que rege acusativo e aqui tem valor de padrão/medida (“de acordo com”); to (“o”) é artigo no acusativo, neutro, singular, determinando ergon (“obra”), substantivo no acusativo, neutro, singular, que é o núcleo do sintagma preposicional; hekastou (“de cada um”) é pronome/adjetivo substantivado no genitivo, masculino (ou neutro), singular, dependente de ergon (“obra”) e melhor lido como genitivo de relação/pertencimento (“a obra pertencente a cada um”), porque se encaixa como determinante do substantivo de ação, individualizando-o sem exigir outra relação sintática na frase.

O texto grego NA28 abre com kai (“e”) + ei (“se”), isto é, uma condição retórica: “e, se...”. KJV/ASV preservam a porta condicional (“And if ye call...” → “E, se chamais/invocais...”); ESV segue a mesma linha (“And if you call on him as Father” → “E, se vocês o invocam como Pai”), mantendo ei (“se”) e tornando explícito o referente (“on him”) que o grego deixa subentendido; a NET, com uma reconfiguração mais formal, diz “And if you address as Father the one...” (“E, se vocês se dirigem como Pai àquele...”), que cola de perto na estrutura com artigo e particípio do grego (ton... krinonta), mas troca “invocar” por “dirigir-se”, uma escolha semântica plausível para epikaleisthe (“invocais/chamais sobre”) . Em contraste, a NIV muda o “se” para um pressuposto (“Since you call...” → “Uma vez que vocês chamam...”), que não traduz ei (“se”) literalmente, mas interpreta a condição como fato assumido pelo autor; isso é uma divergência consciente de encaixe lógico, não mero estilo. No português, ARA/ARC/NVI preservam a partícula (“Ora/E, se invocais...”) e, portanto, ficam mais próximas da forma condicional de ei (“se”), enquanto NTLH faz uma leitura mais livre e catequética, repondo o cenário (“Vocês chamam Deus de Pai...”), o que guia o leitor, mas já não espelha a arquitetura condicional do grego .

No miolo de 1 Pedro 1:17, o grego qualifica o Pai com o advérbio aprosōpolēmptōs (“sem acepção de pessoas/imparcialmente”) e o particípio krinonta (“julgando/que julga”), formando um retrato: “o que julga imparcialmente”. KJV fixa a expressão tradicional “without respect of persons” (“sem acepção de pessoas”), que se aproxima muito bem de aprosōpolēmptōs (“sem acepção de pessoas”) ; ESV/NET convergem em “impartially” (“imparcialmente”), que é quase um decalque semântico do advérbio ; NIV verte por “does not show favoritism” (“não mostra favoritismo”), que traduz a ideia, mas troca o advérbio por uma perífrase verbal, afastando-se do desenho morfológico do grego. Em português, ARA/ARC mantêm “sem acepção de pessoas”, NVI prefere “de forma imparcial” e NTLH igualmente explicita a imparcialidade — convergências diferentes para a mesma peça aprosōpolēmptōs (“sem acepção de pessoas/imparcialmente”) . Em seguida, kata (“segundo”) + acusativo em kata to hekastou ergon (“segundo a obra de cada um”) é um padrão de medida; KJV diz “according to every man's work” (“segundo a obra de cada homem”), e ARA/ARC/NVI preservam o distributivo (“segundo a obra de cada um”), acompanhando de perto a lógica de hekastou (“de cada um”) com ergon (“obra”) no singular distributivo .

Na cauda do versículo, o grego manda viver sob uma atmosfera: en phobō (“em temor”) governa o imperativo anastraphēte (“conduzi-vos/portai-vos”), e o objeto temporal vem em bloco: ton... chronon (“o tempo”) com o genitivo tēs paroikias (“da peregrinação/estadia como estrangeiro”) e o possessivo hymōn (“de vós”). Aqui as versões se separam em duas decisões. A primeira é como verter paroikia (“peregrinação/estadia como estrangeiro”): KJV/ASV preferem “sojourning” (“peregrinação/estadia temporária”), ESV intensifica com “exile” (“exílio”), NIV escolhe “foreigners here” (“estrangeiros aqui”), e NET explicita “temporary residence” (“residência temporária”) — quatro ângulos para o mesmo núcleo, indo do mais lexical ao mais interpretativo. A segunda decisão é como representar anastraphēte (“conduzi-vos/portai-vos”): KJV diz “pass the time” (“passai o tempo”), realçando a duração; ESV/NET/NIV trazem “conduct yourselves / live out” (“conduzam-se / vivam”), realçando o modo de vida; ARA/ARC ficam com “conduzi-vos” e NTLH com “portem-se”, todas convergindo no sentido ético do imperativo, mas com aproximações diferentes do verbo de “conduta” no grego.

A obra Anchor Bible Commentary quando comenta a expressão grega kai ei patera epikaleisthe (“e visto que invocais um Pai”), analisa que a partícula ei (“já que”, “visto que”), aqui como em outras passagens (2:3; 4:14, 17, 18), não introduz uma hipótese (“se”), mas parte de uma realidade dada, que funciona como premissa para a exortação subsequente (v. 17b); quanto ao caráter tradicional de v. 17a. (ELLICCOT, 1 Peter 1 (ABC), 2000, p. 364) O movimento de Jesus, a exemplo de Israel e, de modo geral, dos antigos, pensava e invocava Deus como “pai” (patera — “pai”) em sintonia com a visão de mundo patriarcal de uma cultura dominada por homens e estruturada por padrões patriarcais (Schrenk, Patér”, TDNT, 1967, vol. 5, pp. 945-1022; Hamerton-Kelly, God the Father: Theology and Patriarchy in the Teaching of Jesus, 1979; Reese, The Principal Model of God in the New Testament. BTB 8:126-31.; Krentz 1989). Quando aplicada a Deus, essa metáfora trazia consigo a ideia de Deus como aquele que gera, isto é, que traz à existência os seus “filhos” humanos (Isaías 45:9–10; 64:8; 2 Samuel 7:14; Salmos 2:7; 89:26), bem como sua autoridade sobre eles (Deuteronômio 14:1), sua afeição, proteção e cuidado paternos (Salmos 103:13; Isaías 63:16; Jeremias 3:19; Oseias 11:1) e sua função como “pai dos órfãos” (Ps 68:5). Jesus, de modo característico, pensava Yahweh (“SENHOR”) como “pai” (Mateus 6:1–18, 25–34; 10:33; 18:10–14; 23:9; Marcos 14:36 par.; Lucas 10:21; João 5:18; cf. 19:7), e seus seguidores o concebiam como o Filho particularmente favorecido de Deus (Marcos 1:11 par.; 9:7 par.; Romanos 1:3–4; 8), aquele que deu a conhecer o Pai (John 1:18; 14:9). Jesus ensinou seus discípulos a orar a Deus como “pai” (abba — “pai”; patēr — “pai”; Matt 6:9; Luke 11:1), e essa prática continuou após sua morte (Romanos 8:15; Gálatas 4:6; 1 Pedro 1:17). A oração israelita do Kaddish e a Shemoneh Esreh ilustram a invocação semelhante de Deus como pai dentro de Israel. É, portanto, provável que o verbo epikaleisthe (“invocais”), que incorpora a preposição epi (“sobre”), expresse a ideia de “invocar” Deus Pai em oração (como na oração “Pai nosso” [Mateus 6:9; cf. Lucas 11:2; veja também Atos 2:21; Romanos 10:13]) mais do que simplesmente “chamar” Deus de “pai” (em contraste com a variante kaleite — “chamais”); embora, na prática, ambas as ações se encaixem. A metáfora de Deus como “pai” retoma 1:2–3, corresponde à imagem dos destinatários como “filhos obedientes” (1:14) e aprofunda a metáfora da comunidade crente como “casa” ou “família” de Deus.

A apódose imperatival vem após a prótase: en (“em”) é preposição que rege dativo e aqui marca esfera/modo (“no âmbito de”, “com”); phobō (“temor”) é substantivo no dativo, masculino, singular, e funciona como complemento da preposição, definindo o modo em que a ação principal deve ocorrer. O objeto interno de “conduzir-se” é expresso por ton (“o”), artigo no acusativo, masculino, singular, determinando chronon (“tempo”), substantivo no acusativo, masculino, singular, que funciona como acusativo de extensão/duração (“o tempo” como período a ser atravessado); esse chronon (“tempo”) é especificado por tēs (“da”), artigo no genitivo, feminino, singular, determinando paroikias (“peregrinação”, “estadia como estrangeiro”), substantivo no genitivo, feminino, singular, que se liga a chronon (“tempo”) como genitivo de especificação/qualificação (“o tempo caracterizado como peregrinação”, “o tempo da condição de forasteiro”); hymōn (“de vós”) é pronome pessoal no genitivo, segunda pessoa do plural, dependente de paroikias (“peregrinação”) e lido como genitivo de pertencimento (“a vossa peregrinação”). O verbo principal é anastraphēte (“conduzi-vos”, “vivei”, “comportai-vos”), aoristo, imperativo, voz passiva na forma (com uso deponente de sentido ativo), segunda pessoa do plural, cujo aoristo imperativo imprime a ideia de orientação decisiva do comportamento (“assumi esta postura de vida”, “passai a conduzir-vos assim”), e cuja posição final recolhe todos os adjuntos anteriores: a condição (ei [“se”]), o referente invocado (patera [“pai”] + ton krinonta [“aquele que julga”]), o padrão do julgamento (kata [“segundo”] + to ... ergon [“a obra”]), o modo de vida (en [“em”] + phobō [“temor”]) e o horizonte temporal (ton ... chronon [“o tempo”]).

A condição ei (“se”) não questiona a realidade da invocação, mas a toma como dado e a transforma em critério de coerência: invocar como patera (“pai”) implica reconhecer que esse Pai é também ton ... krinonta (“aquele que julga”), e o particípio presente mantém o julgamento como atributo constante, qualificado por aprosōpolēmptōs (“imparcialmente”) para excluir qualquer segurança baseada em status. O padrão kata (“segundo”) + to ... ergon (“a obra”) não descreve um Deus arbitrário, mas um Deus que avalia segundo o que se manifesta em obras reais, individualizadas por hekastou (“de cada um”). E então o imperativo anastraphēte (“conduzi-vos”) recolhe tudo num só eixo: a vida inteira, medida por chronon (“tempo”) e qualificada por tēs paroikias (“da peregrinação”), deve ser vivida en phobō (“em temor”), não como pânico, mas como reverência lúcida diante de um Pai que é simultaneamente acolhimento e tribunal, ternura e justiça, e cuja imparcialidade impede que a peregrinação seja tratada como intervalo sem peso.

Nesse sentido, na cláusula inteira, “que julga imparcialmente segundo as obras de cada um” (ton aprosōpolēmptōs krinonta kata to hekastou ergon — “ao que julga sem acepção de pessoas segundo a obra de cada um”), percebemos que a autoridade paterna inclui o direito e o dever de julgar e disciplinar a conduta dos membros da família. A figura de Deus como juiz é um lugar-comum bíblico e retorna em 1 Pedro (2:23; 4:5, 6, 17; cf. 2:12). O advérbio aprosōpolēmptōs (“imparcialmente”) ocorre apenas aqui no Novo Testamento (cf. 1 Clem. 1:3; Barn. 4:12), mas a noção de imparcialidade divina no juízo (aprosōpolēmpsia — literalmente, “não considerar o rosto”), que desloca o foco da aparência ou do status para a conduta, também é recorrente no ensino israelita e cristão. Nas ocorrências do Novo Testamento, essa imparcialidade costuma aparecer vinculada ao favor sem parcialidade concedido por Deus a gentios e a Israel, servindo assim de legitimação para a missão aos gentios — ponto que, segundo Atos, o apóstolo Pedro também defende (10:1–11:18). Aqui, porém, a menção ao juízo imparcial de Deus “segundo as obras de cada um” (ergon — “obra”, singular usado coletivamente para “conduta”, como em 1 Cor 3:13; Gal 6:4; Rev 20:12–13; 22:12; cf. 2:12 [plural erga — “obras”]) elimina qualquer expectativa de favoritismo paterno e prepara o terreno para v. 17b. A ideia de julgamento conforme as obras é tradicional (Prov 24:12; Ps 18:25; 28:4; 62:13; Jer 16:18; Sir 17:23; 35:22; 4 Ezra 7:35; Rom 2:1–11; 1 Cor 3:13; 2 Cor 5:10; Jas 2:14–26; Rev 2:23; 20:12). A linha de pensamento remete ao destaque que Jesus dá às ações morais como critério de avaliação (Matt 5:21–7:28; 12:33–37; 25:31–46).

A tradução expressa anastraphēte (“conduzam-se”) e en phobō (“com reverência”), que, no grego, aparecem como verbo e modificador, mas são posicionados, por ênfase, respectivamente no final e no início desta cláusula. Sobre o verbo e o substantivo correlato anastrophē (“conduta”). O substantivo phobos (“temor”, “reverência”) e o verbo phobeō (“temer”, “reverenciar”) podem designar o sentimento de “medo” em sentido negativo, ou, como aqui e em geral quando o referente é Deus ou divindades, o sentido positivo de “assombro” e “reverência” diante do numinoso (cf. Balz and Wanke 1974). Na Bíblia, phobos e phobeō frequentemente nomeiam a reação elementar de assombro–temor–reverência, “temor e tremor”, diante de manifestações da santidade, majestade, misericórdia e poder de Deus e de suas ações terríveis (phoberos — “terrível”, “assombroso”) (Ps 65[66]:3–7; 88:6–8 Lxx; 89:5–7 MT; 98[99]:3; 110[111]:9; 144[145]:6; Luke 1:12; 7:16; Acts 2:43; Phil 2:12). O temor reverente a Deus também funciona como motivo para guardar seus mandamentos (Exod 20:20; 2 Kgdms 23:3; 2 Chr 19:9; 2 Esd [Nee] 5:9, 25; Ps 2:1; 33[34]:11; Prov 8:13; 2 Cor 7:1, 15) e como princípio da sabedoria (Ps 110[111]:10; Prov 1:7), distinguindo o fiel dos gentios ignorantes (Rom 3:18). O contexto costuma decidir o valor do termo: 1 Pedro 2:17 exorta claramente a “reverenciar Deus” (em contraste com “honrar” o imperador e todas as pessoas), e os contextos de 1:17; 2:18; 3:2 (phobos + anastrophē); 3:16 (syneidēsin — “consciência”, aqui no sentido de “conhecimento sólido” [de Deus e da vontade de Deus]) indicam reverência a Deus como motivo de conduta. Já em 3:6 e 3:14 (ambas alusões ao Antigo Testamento), phobeō aponta para “medo” de seres humanos, o que não convém aos crentes que fazem o bem e reverenciam apenas a Deus.

O chronos (“tempo”) no versículo, em sentido durativo, contrasta com kairos (“tempo oportuno”, “momento crítico”), termo que marca um ponto decisivo (1:5, 11; 4:17; 5:6). Aqui e em 4:2 (“o tempo restante na carne”), chronos descreve o período que ainda resta da vida dos destinatários; em 4:3 (“o tempo passado”), refere-se ao período anterior à conversão. Quando entramos na cláusula “da residência de vocês como estrangeiros” (tēs paroikias hymōn — lit.: “da vossa residência como estrangeiros”), sabemos que esta expressão é decisiva para descrever a situação social presente — e de estranhamento — em que se encontram os destinatários. O substantivo paroikia (“residência como estrangeiros”, “residência alheia”), com seus termos correlatos paroikoi (“residentes estrangeiros”, 2:11) e parepidēmoi (“forasteiros”, 1:1; 2:11), realça a condição precária dos crentes como estrangeiros e “de fora” no tecido social da Ásia Menor. Paroikia aparece apenas mais uma vez no Novo Testamento (Acts 13:17), quando Paulo lembra israelitas e “tementes a Deus” de Antioquia da Pisídia de que “o Deus deste povo Israel escolheu nossos pais e engrandeceu este povo durante sua residência como estrangeiros na terra do Egito e, com braço erguido, os tirou de lá”. Ali o termo descreve a situação política e social dos antepassados de Israel, deslocados (de Canaã) e vivendo no Egito antes do êxodo (Gen 46:1—Exod 12:28). Essa narrativa veterotestamentária detalha a mudança drástica de status sob nova liderança política, a escravização e o trabalho forçado, a hostilidade egípcia e o anseio de liberdade e retorno a Canaã — traços de vulnerabilidade, exploração e animosidade típicos da existência de Israel entre estrangeiros como “residentes alheios”.

Na LXX, paroikia também se usa para a permanência de Israel como estrangeiro no Egito (Wis 19:10; cf. T. Levi 11:2), bem como para antepassados ainda mais antigos na Mesopotâmia (Jdt 5:9) e para sucessores posteriores na Babilônia (Lam 2:22; 1 Esd 5:7; 2 Esd 8:35), e mais tarde no Egito sob domínio ptolomaico (Sir Prologue 23; 3 Mace 6:36; 7:19; cf. também Lot em Sodoma, Sir 16:8). Apenas uma vez o termo traduz o hebraico gōlâ (“exílio”, 2 Esd 8:35), que, em geral, aparece por outros vocábulos: aichmalōsia (12x), apoikesia (6x), apoikia (15x), apoikismos (2x) e metoikesia (4x). Em alguns contextos, paroikia descreve circunstâncias adversas de estrangeiros em geral (Ps 33:5; 118[119]:54; 119[120]:5; Hab 3:16; Sir 41:5; 44:6). Termos do grupo paroik- também surgem de modo proeminente em recitais da história de Israel (Deut 26:5–9; 1 Chr 16:8–36; Pss 104[105], 105[106]; Jdt 5:5–21).

Em T. Levi 11:2, Levi explica que, estando em Canaã, teve um filho a quem chamou “Gersam”, “porque estávamos numa terra de residência alheia” (paroikia — “residência alheia”); a explicação do nome no hebraico liga ger (“estrangeiro”) a paroikos (“residente estrangeiro”) e Sam (“ali”), paralelamente ao que se vê em Exod 2:22. O uso em Pss. Sol. 17:19 é especialmente instrutivo, pois ali o termo descreve uma comunidade de judeus vivendo como estrangeiros na Diáspora, situação próxima à que se pressupõe para os destinatários de 1 Pedro.

3 Macabeus 7:19 oferece um paralelo ainda mais próximo tanto do sentido de paroikia em 1 Pet 1:17 quanto da expressão em que o termo aparece. Segundo 3 Macabeus, judeus “residindo como estrangeiros” (paroikia, 6:36) no Egito no reinado de Ptolomeu Filopátor (ca. 217 a.C.) foram reunidos como suspeitos de traição e ameaçados de execução. Seu sacerdote Eleazar orou por livramento divino desses “estranhos em terra estranha” (3:3). O rei, após intervenção celestial, recuou e os judeus foram poupados; em ação de graças, prometeram observar aqueles dias como dias de alegria “durante o tempo de sua residência como estrangeiros” (ton tēs paroikias autōn chronon — “o tempo da residência estrangeira deles”; cf. a expressão virtualmente idêntica em 1 Pet 1:17b). Em época posterior, Epifânio (Pan. 25.190.15) usa construção semelhante ao falar dos “filhos de Israel na terra do Egito... onde ocorreu o tempo de sua residência como estrangeiros”. A precariedade política e social desses judeus da Diáspora e sua vulnerabilidade à hostilidade social oferecem, por analogia, um quadro para a paroikia dos cristãos na Ásia Menor sob circunstâncias igualmente hostis.

Em Salmos 118[119], o salmista recorda aflições variadas vividas por alguém que era “residente estrangeiro na terra” (paroikos... en tēi gēi — “estrangeiro... na terra”, v. 19) e buscou a proteção de Deus “no lugar da minha residência estrangeira” (paroikias — “residência estrangeira”, v. 54). No uso grego do período, paroikia descrevia a condição de “viver como estrangeiro (paroikos) por um período prolongado num lugar que não era a pátria”. Paroikoi e parepidēmoi são forasteiros que moram literalmente “ao lado” (par-) de outros, sem relação de sangue, vínculos étnicos, religião, história ou cultura com a casa (oikos, oikia) e a pátria desses outros.

As traduções bíblicas que recorrem a termos como “peregrinação”, “estadia”, “sojourning”, “pilgrimage”, “stay” muitas vezes obscurecem o sentido e as implicações sociais do termo ao pressupor e atribuir-lhe um significado “espiritual” (uma “peregrinação” ou “exílio” espiritual na terra), sobretudo quando acrescentam, sem base no texto grego, expressões como “aqui na terra” (NEB; TEV; Phillips; Beare: “earthly”). Essas opções assumem, sem justificativa, que paroikia e paroikos (2:11) descrevem uma “peregrinação” ou um “exílio” temporários “na terra”, em contraste com uma morada futura “no céu”. Esse contraste cosmológico, porém, não é fornecido por paroikia em si, nem pelo seu uso bíblico, nem pelo contexto de 1 Pedro.

No conjunto, paroikia, como seus correlatos paroikos e paroikeō (“residir como estrangeiro”), não significa “exílio” (para isso, veja apoikia em Jer 36[29]:4; 37[30]:3; metoikesia em Matt 1:11, 12, 17; cf. Acts 7:4, 43), nem “peregrinação” (na terra). O termo aponta, antes, para a situação social precária do povo de Deus vivendo entre estrangeiros em diferentes etapas de sua história, e é isso que carrega também aqui em 1 Pet 1:17 (Elliott 1981/1990, 37–49; para outra leitura, veja Michaels 1988, 62). O grupo messiânico encontra-se numa condição de paroikia semelhante à experimentada por Israel e seus antepassados desde os primórdios. Reconhecendo a precariedade social dos destinatários e o sofrimento que atravessam, o objetivo é encorajá-los, ainda assim, a confiar plenamente na proteção de Deus e a conduzir-se com reverência segundo sua vontade, porque, no Cristo sofredor e vindicado, têm tanto um exemplo quanto alguém que os fortalece.

O emprego de paroikia para descrever a “residência como estrangeiros” dos cristãos neste mundo aparece pela primeira vez num escrito do século II d.C., 2 Clem. 5:1: “Abandonemos nossa residência estrangeira neste mundo (paroikian tou kosmou touto — ‘residência estrangeira deste mundo’), e não temamos sair deste mundo... nossa visita (hē epidēmia — ‘visita’) neste mundo na carne é pequena e dura pouco, mas a promessa de Cristo é grande e maravilhosa, e nos traz descanso no reino que há de vir e na vida eterna” (5:1, 5). Esse uso de paroikia com o contraste dualista entre “este mundo” e o “reino por vir” (5:5; cf. 6:39; 8:1, 3, 6; 12:1, 60) distancia-se da linguagem e da perspectiva de 1 Pedro e ilustra um desenvolvimento de pensamento em linha platônico-helenística (cf., de modo semelhante, Philo, Conf. 80; CIG 9474; IG 14 [Sic. It.] 531.7). Também posterior ao tempo de 1 Pedro, o verbo paroikeō foi usado em fórmulas epistolares do tipo “a igreja... que reside como estrangeira em...” (1 Clement inscr.; Polycarp, To the Philippians inscr.; Martyrdom of Polycarp inscr.; Dionysius of Corinth em Eusebius, Hist. eccl. 4.23.5, 6) e, num desenvolvimento análogo, paroikia (de onde vem “paróquia”) passou a designar uma comunidade cristã organizada geograficamente — diocese, província, paróquia (Eusebius, Hist. eccl. 1.1.1, etc.; veja PGL s.v. para outras referências patrísticas e Holtz 1971 sobre a história de paroikia/parish).

Por isso, paroikia é melhor entendida aqui, como na LXX, como designação da situação social efetiva dos destinatários: “residência estrangeira”, “residir como estrangeiros”, em terra e entre gente que não lhes pertence. Nessa condição, ficam expostos — como Israel em suas diversas experiências de residência em solo alheio — a suspeita, hostilidade e sofrimento, o que sempre recai sobre estrangeiros em terra estranha. Vivendo entre nativos hostis, ignorantes de suas origens, famílias e história, e suspeitosos quanto aos seus compromissos e conduta (2:12, 15; 3:1–4, 9, 13–17; 4:2–5, 14–16), são, ainda assim, exortados a não se moldarem aos padrões sociais vigentes, mas a serem santos como Deus é santo e a se conduzirem com reverência diante daquele que os chamou e os regenerou como filhos de sua família. Não se desenha aqui um contraste cosmológico entre residir como estrangeiro “na terra” e uma casa futura “no céu”; a oposição é temporal, distinguindo o presente santo do passado não santo na vida dos crentes (1:14–16; cf. 2:10). Essa distinção temporal, como em 4:2–4, também realça as diferenças sociais e religiosas que separam os crentes de seus vizinhos incrédulos.

Os vv. 18–21 apresentam uma série de orações subordinadas que descrevem fatos “conhecidos” pelos destinatários e, por isso, funcionam como motivação para o imperativo anterior sobre conduta santa e reverente (vv. 14–16, 17). O v. 21c (“a esperança de vocês”), assim como o v. 20c e o v. 21a, aplica esses fatos diretamente aos leitores (“vocês”) e, junto com v. 13 (“esperança”), compõe a metade final da inclusão que emoldura vv. 13–21. Aqui, como também em 2:21–25 e 3:18–22, as exortações sobre a conduta cristã (1:13–17; 2:18–20; 3:13–17) recebem fundamentação e motivação cristológicas.

1 Pedro 1:18

...sabendo que não com coisas perecíveis, como prata ou ouro, fostes resgatados da vossa vã conduta herdada de vossos pais (Gr.: eidotes hoti ou phthartois, argyriō ē chrysio, elutrōthēte ek tēs mataias hymōn anastrophēs patropardotou — “sabendo que não com coisas perecíveis, com prata ou ouro, fostes resgatados de vossa vã conduta herdada de vossos pais”. A imagem de phthartos (“perecível”) respira a ideia de matéria que se desfaz, como aquilo que, por natureza, está sujeito a corrupção e dissolução; e a LXX dá a essa mesma palavra um rosto litúrgico quando, ao regular o sacrifício, marca o defeituoso como impróprio: “φθαρτά ἐστιν” (phtharta estin — “é perecível/defeituoso, portanto impróprio”) em Levítico 22:20. Dentro desse contraste, “prata” e “ouro” funcionam como símbolos máximos do valor humano, mas ainda confinados ao mundo do que passa; a LXX, ao lamentar a queda de Sião, põe “χρυσίον” e “ἀργύριον” lado a lado para sublinhar que até o brilho mais alto pode escurecer: “Πῶς ἀμαυρωθήσεται χρυσίον, ἀλλοιωθήσεται τὸ ἀργύριον τὸ ἀγαθόν;” (pōs amaurōthēsetai chrysion, alloiōthēsetai to argyrion to agathon — “como escurecerá o ouro, como se alterará a prata boa?”) em Lamentações 4:1 . É nesse palco que lytroō (“resgatar”) entra como verbo de libertação por preço efetivo, linguagem de resgate que não é mero consolo moral, mas ato de transferência real de posse, “soltar mediante resgate”, trazendo de volta ao legítimo dono . E quando a frase chama a vida antiga de mataios (“vão, sem proveito”), ela não acusa apenas o “erro” como ideia, mas uma vacuidade prática, um caminho sem chão e sem finalidade — “aimless”, “groundless”, vazio de substância ; por isso, o resgate aqui não mira um objeto externo, mas o eixo inteiro da “conduta”, a vida herdada e repetida como tradição não examinada, até que o resgate a interrompa e a reoriente.

Em 1 Pedro 1:18, eidotes (“sabendo”) é particípio, perfeito, voz ativa, nominativo, masculino, plural, e se prende ao sujeito implícito “vós” (o mesmo “vós” codificado no verbo de segunda pessoa do plural), funcionando como particípio circunstancial que dá o pano de fundo cognitivo (“estando em estado de saber”, “tendo por conhecimento assentado”); ele introduz, por meio de hoti (“que”), uma oração de conteúdo (o que se sabe). Dentro dessa oração, ou (“não”) nega o modo/instrumento do resgate e governa semanticamente o bloco instrumental que segue, expresso por dativos sem preposição: phthartois (“perecíveis”) é adjetivo, dativo, neutro, plural, usado de modo substantivado (“com [coisas] perecíveis”), e em seguida aparecem argyriō (“prata”) e chrysīō (“ouro”), ambos substantivos no dativo, neutro, singular, coordenados pela disjunção ē (“ou”), em aposição explicativa ao dativo substantivado anterior, de modo que “perecíveis” é especificado concretamente por “prata ou ouro”; formalmente, a marca sintática aqui é o próprio caso dativo, que opera como dativo de meio/instrumento (“não com...”, isto é, não por meio de tais ‘preços’).

O predicado verbal finito é elutrōthēte (“fostes resgatados”), verbo no aoristo, indicativo, voz passiva, segunda pessoa do plural: o aoristo recolhe o ato de resgate como evento inteiro e pontual na linha narrativa (o fato do resgate como dado consumado), e a voz passiva coloca “vós” como pacientes da ação, deixando o agente implícito (o Resgatador) fora da superfície da frase, mas presente pela própria semântica do verbo. A seguir, ek (“de”) é preposição que rege genitivo e tem valor de origem/separação (“para fora de”, “arrancando de dentro de”), ligando-se ao seu complemento genitivo: tēs (“da”) é artigo, genitivo, feminino, singular, que determina o núcleo anastrophēs (“conduta”, “maneira de viver”), substantivo no genitivo, feminino, singular, e todo esse sintagma genitivo é governado por ek (“de”), funcionando como complemento de origem do resgate (“de onde fostes arrancados”).

Dentro desse mesmo bloco, mataias (“vã”, “fútil”) é adjetivo no genitivo, feminino, singular, em posição atributiva concordando com anastrophēs (“conduta”) e qualificando-a; hymōn (“de vós”) é pronome pessoal no genitivo, segunda pessoa do plural, e a leitura sintática mais provável é genitivo de pertencimento em dependência direta de anastrophēs (“a vossa conduta”), porque é esse substantivo que pede naturalmente o possuidor, e porque o adjetivo seguinte já supre a qualificação de origem tradicional; por fim, patropardotou (“transmitida pelos pais”, “herdada dos pais”) é adjetivo no genitivo, feminino, singular, também atributivo de anastrophēs (“conduta”), e seu encaixe explica “como” essa conduta se tornou “vossa”: não por criação autônoma, mas por recepção tradicional, como um caminho recebido antes de ser escolhido.

Concluída essa amarração formal, a exegese nasce do próprio relevo dos casos: a frase põe, de um lado, o instrumento negado (dativos de meio: phthartois (“perecíveis”), concretizados por argyriō (“prata”) e chrysīō (“ouro”)), e, de outro, o ponto de extração (preposição ek (“de”) + genitivo, definindo a antiga “conduta” como lugar de onde o resgate remove), de modo que o resgate não é descrito como troca simbólica, mas como libertação efetiva de um “modo de vida” inteiro; e o particípio perfeito eidotes (“sabendo”) coloca isso como conhecimento estabilizado, não como hipótese devocional, como quem diz: a ética que seguirá depende de um fato já estabelecido na consciência.

No v. 18, o particípio aoristo ativo nominativo plural eidotes (“sabendo”) abre a construção como fundamento lógico do imperativo anterior, e é por isso que as versões oscilam entre manter o “sabendo” mais próximo do grego e convertê-lo numa oração causal explícita. A KJV verte “forasmuch as ye know” (“visto que sabeis”), preservando o valor causal que o particípio assume no encaixe sintático, ao passo que a ESV mantém o contorno participial em “knowing that” (“sabendo que”); já a NIV, escolhendo a mesma leitura causal, explicita: “For you know that” (“pois vocês sabem que”) , e a NET faz idêntico movimento com “You know that” (“vocês sabem que”) . A seguir, o bloco instrumental em dativo plural (ou phthartois ... argyriō ē chrysīō) (“não com [coisas] perecíveis ... com prata ou ouro”) é onde se vê convergência bem visível com o grego: ESV/NIV coincidem ipsis litteris em “perishable things such as silver or gold” (“coisas perecíveis como prata ou ouro”); a NET mantém o mesmo valor (“not by perishable things like silver or gold” — “não por coisas perecíveis como prata ou ouro”) ; enquanto KJV/ASV preferem o par tradicional “corruptible” para phthartois, com a KJV: “not redeemed with corruptible things, as silver and gold” (“não resgatados com coisas corruptíveis, como prata e ouro”) e a ASV: “not with corruptible things, with silver or gold” (“não com coisas corruptíveis, com prata ou ouro”).

O verbo finito aoristo passivo elutrōthēte (“fostes resgatados”) é outro ponto de divergência controlada: a ESV escolhe “ransomed” (“resgatados mediante resgate”), ecoando o campo semântico de λύτρον, e o faz já na espinha dorsal da frase: “you were ransomed” (“vocês foram resgatados”); a NET acompanha com “you were ransomed” (“vocês foram resgatados”) ; a NIV e a KJV preferem “redeemed” (“remidos/resgatados”), o que permanece compatível com o passivo do grego, mas com coloração teológica mais estabelecida no inglês bíblico. Quando o grego passa ao complemento de separação com ἐκ (ek tēs mataias hymōn anastrophēs patropardotou) (“da vã maneira de viver de vocês, herdada dos pais/antepassados”), as versões expõem, quase como costuras visíveis, a decisão sobre mataias anastrophēs (“modo de vida vazio/vão”) e sobre o adjetivo composto patropardotou (“transmitido pelos pais”). A KJV conserva a leitura histórica de “conversation” (conduta) e explicita a transmissão: “from your vain conversation received by tradition from your fathers” (“da vossa vã conduta recebida por tradição de vossos pais”); a ESV reverte “conversation” para o eixo comportamental moderno e ancora patropardotou em herança: “from the futile ways inherited from your forefathers” (“dos caminhos fúteis herdados de vossos antepassados”); NIV/NET convergem no mesmo rumo, com “empty way of life ... handed down to you from your ancestors” (“modo de vida vazio ... transmitido por vossos antepassados”) .

Entre as versões em português, a ARC mostra aderência quase termo-a-termo ao desenho do grego ao manter “maneira de viver” para anastrophē e “por tradição” para o valor de patropardotou: “da vossa vã maneira de viver que, por tradição, recebestes dos vossos pais”; a NVI-PT prefere “transmitida”, que corresponde muito bem ao composto “entregue/transmitido” do adjetivo: “da sua maneira vazia de viver que lhes foi transmitida por seus antepassados”; a ARA fica no mesmo trilho de “vã maneira de viver” e “por tradição” (com dicção clássica); a NVT reexpressa o mesmo conteúdo sem abandonar os pilares semânticos, dizendo: “da vida vazia que levavam, transmitida de geração em geração por seus antepassados”; e a NTLH faz a equivalência comunicativa preservando o contraste entre “vida vazia” e o preço do resgate.

1 Pedro 1:18 amarra a identidade cristã ao vocabulário do resgate: elytrōthēte (“fostes resgatados”) não deixa espaço para uma “melhora” por dentro das mesmas algemas, mas descreve um ato de libertação efetiva, como o Êxodo descreve o braço de Deus que “resgata” um povo de dentro de uma casa de servidão, não com pagamento humano, mas com intervenção soberana: Êxodo 6:6; Deuteronômio 7:8; Êxodo 15:13. A negação de “prata” e “ouro” não é apenas retórica contra riqueza; ela retoma o ensino antigo de que há cativeiros que o metal não alcança, porque a vida não é moeda: Salmos 49:7–8, e a própria lógica profética de “resgatar sem dinheiro” quando o problema é mais profundo que economia: Isaías 52:3. Por isso Pedro chama o passado de “vã maneira de viver”, como se dissesse que não era só pecado pontual, mas um trilho inteiro — e ele o qualifica como herdado, “tradicional”, lembrando que há tradições que não conservam a luz, apenas perpetuam o vazio: Jeremias 2:5; Isaías 29:13. No Novo Testamento esse mesmo contraste reaparece quando a tradição humana pode ser tão pesada que chega a contrariar o mandamento de Deus: Mateus 15:3–9; e quando o velho modo de vida é descrito como caminho escurecido e autocentrado, do qual é preciso ser arrancado: Efésios 4:17–19. Assim, o versículo define o resgate como deslocamento radical: não se trata de trocar “hábitos”, mas de ser transferido de uma herança sem vida para uma pertença nova, como ecoa a linguagem apostólica de ter sido “comprado por preço” e, portanto, não mais pertencer ao antigo senhorio: 1 Coríntios 6:20.

1 Pedro 1:19

...mas com o precioso sangue, como de um cordeiro sem defeito e sem mácula, de Cristo (Gr.: alla timiō haimati hōs amnou amōmou kai aspilou Christou — “mas com sangue precioso, como de cordeiro sem defeito e sem mácula, de Cristo”. O adjetivo timios (“precioso”) carrega a densidade do que tem peso e honra, aquilo cujo valor não é apenas econômico, mas reconhecido como digno e raro ; e a LXX o utiliza para nomear, em contraste com a ruína, o que era estimado como tesouro vivo: “υἱοὶ Σειὼν οἱ τίμιοι” (huioi Seiōn hoi timioi — “os filhos de Sião, os preciosos”) em Lamentações 4:2 . Quando o texto diz “sangue”, ele acende uma memória cultual antiga: na Páscoa, a LXX faz o livramento passar pelo “αἷμα”, aplicado e visto como sinal — “καὶ λήμψονται ἀπὸ τοῦ αἵματος” (kai lēmpsontai apo tou haimatos — “e tomarão do sangue”) em Êxodo 12:7, e depois “βάψαντες ἀπὸ τοῦ αἵματος” (bapsantes apo tou haimatos — “tendo mergulhado no sangue”) em Êxodo 12:22 ; assim, o “sangue precioso” não é metáfora decorativa, mas linguagem que se ancora no drama do êxodo e do culto. A expressão “como de cordeiro” toma forma com amnos (“cordeiro”), vocábulo de sacrifício e substituição , e a LXX o põe, com nitidez, no retrato do Servo sofredor: “ὡς ἀμνὸς ἐναντίον τοῦ κείροντος ἄφωνος” (hōs amnos enantion tou keirontos aphōnos — “como cordeiro diante do que o tosquia, silencioso”) em Isaías 53:7. A qualificação “sem defeito” é dita por amōmos (“sem mancha/sem defeito”), termo que nasce como negação do “defeito” e se tornou padrão de integridade requerida ao ofertar ; e a LXX o fixa justamente no lugar do sacrifício aceitável: “ἄμωμον ἔσται” (amōmon estai — “será sem defeito”) em Levítico 22:19 .

Em 1 Pedro 1:19, alla (“mas”) é conjunção adversativa que contrasta diretamente com o bloco instrumental negado do verso anterior, e o que ela introduz não traz verbo finito novo: há elipse verbal, porque o predicado elutrōthēte (“fostes resgatados”) permanece em vigor por retomada tácita; por isso, o verso 19 é formalmente um complemento contrastivo de meio (“não com X..., mas com Y...”), e seu motor sintático está na coordenação adversativa, não numa nova oração autônoma. O meio afirmado aparece novamente em dativo: timiō (“precioso”) é adjetivo no dativo, neutro, singular, concordando com haimati (“sangue”), substantivo no dativo, neutro, singular, formando um dativo de meio/instrumento (“com sangue precioso”), em paralelo estrito aos dativos do verso 18; essa simetria de caso é a marca formal do contraste. Em seguida, hōs (“como”) é advérbio comparativo que introduz uma qualificação por semelhança do “sangue precioso”, e a comparação é construída com genitivo: amnou (“de cordeiro”) é substantivo no genitivo, masculino, singular, e funciona como complemento da comparação (implicitamente: “como [sangue] de cordeiro”); amōmou (“sem defeito”) e aspilou (“sem mácula”) são adjetivos no genitivo, masculino, singular, ambos atributivos de amnou (“cordeiro”), qualificando a figura do cordeiro por integridade total.

Por fim, Christou (“de Cristo”) é substantivo no genitivo, masculino, singular, e aqui a leitura sintática mais provável é genitivo de pertencimento/origem ligado ao núcleo semântico do verso, haimati (“sangue”): não é um “sangue” qualquer, mas “sangue de Cristo”; essa leitura se impõe pelo encaixe: o bloco hōs (“como”) + amnou (“de cordeiro”) + adjetivos descreve a qualidade tipológica do sangue (comparação), enquanto Christou (“de Cristo”) identifica o possuidor/origem do sangue (determinação), sem necessidade de forçar Christou (“de Cristo”) como dependente imediato de amnou (“de cordeiro”), embora o sentido teológico permita essa identificação por via de equivalência. Concluída a amarração formal, a exegese flui do paralelismo dativo: o texto sela que o “preço” do resgate não pertence ao domínio do perecível, mas ao domínio do “precioso”, e escolhe como instrumento não metal, mas haimati (“sangue”), isto é, vida entregue até a morte; e, ao dizer “como de cordeiro” e ao empilhar as qualificações amōmou (“sem defeito”) e aspilou (“sem mácula”), ele não acrescenta ornamentação, mas fixa a natureza do resgate como sacrifício íntegro, sem fissura, sem mancha, cuja eficácia não se mede por brilho material, e sim por pureza perfeita.

No v. 19, o contraste ἀλλά (alla) (“mas”) conduz ao instrumento verdadeiro do resgate: dativo singular timiō haimati (“com sangue precioso”), e aqui a convergência é quase total no sintagma “precious blood / precioso sangue”, enquanto a divergência se concentra em duas decisões: (1) como verter o símile ὡς (hōs) (“como”), e (2) a que termo prender o genitivo final Christou (“de Cristo”), já que no grego ele vem após “cordeiro sem defeito e sem mancha”. KJV/YLT mantêm a cadência clássica do símile e preservam a duplicação enfática: KJV: “with the precious blood of Christ, as of a lamb without blemish and without spot” (“com o precioso sangue de Cristo, como de um cordeiro sem defeito e sem mancha”); YLT: “with precious blood, as of a lamb unblemished and unspotted — Christ’s” (“com sangue precioso, como de um cordeiro sem defeito e sem mancha — de Cristo”). A ESV fixa Christou diretamente em “blood”, antecipando-o para tornar inequívoca a leitura “sangue de Cristo”: “with the precious blood of Christ, like that of a lamb without blemish or spot” (“com o precioso sangue de Cristo, como o de um cordeiro sem defeito ou mancha”); a NIV faz algo semelhante, mas troca “spot” por “defect”, comprimindo o binômio grego amōmou kai aspilou (“sem defeito e sem mancha”) numa dupla parcialmente sobreposta: “with the precious blood of Christ, a lamb without blemish or defect” (“com o precioso sangue de Cristo, um cordeiro sem defeito ou imperfeição”) .

A NET, por sua vez, é a que mais deixa aparente a possibilidade sintática de o genitivo final qualificar o “cordeiro”, pois lê: “by precious blood like that of an unblemished and spotless lamb, namely Christ” (“por sangue precioso, como o de um cordeiro sem defeito e sem mancha, isto é, Cristo”) ; e a ASV, mantendo “blood” como cabeça, explicita por paráfrase editorial o que entende ser a relação: “with precious blood, as of a lamb without blemish and without spot, [even the blood of] Christ” (“com sangue precioso, como de um cordeiro sem defeito e sem mancha, [isto é, o sangue de] Cristo”). Em português, a ARC preserva de modo bastante colado ao grego a dupla adjetival (“imaculado e incontaminado”) para amōmou kai aspilou e já prende “de Cristo” ao sangue: “mas com o precioso sangue de Cristo, como de um cordeiro imaculado e incontaminado”; a NVI converge com a ideia, mas escolhe “sem mancha e sem defeito”, que reflete bem o par grego por reversão de ordem: “mas pelo precioso sangue de Cristo, como de um cordeiro sem mancha e sem defeito”; a ARA segue o registro clássico de “precioso sangue” e mantém o símile do cordeiro em forma paralela ao grego; e a NVT deixa bem audível o contraste (“não... mas...”) e a imagem sacrificial, com “o precioso sangue de Cristo, como o de um cordeiro sem defeito e sem mancha”, enquanto a NTLH mantém o mesmo núcleo semântico em dicção mais direta, realçando o preço e a pureza do cordeiro.

No comentário citado, Calvino lê 1 Pedro 1:19 como a afirmação de que, em Cristo, o crente encontra a realidade plena daquilo que a Lei havia apenas esboçado em sombras por meio dos sacrifícios antigos: a imagem do “cordeiro” funciona como uma similitude tipológica, e ele observa que a alusão é “especialmente” ao cordeiro pascal. A partir disso, ele extrai uma tese bem definida sobre a utilidade permanente da leitura da Lei: embora o rito sacrificial esteja abolido, a comparação entre “tipo” e “realidade” ainda serve à fé, porque conduz o leitor a procurar, na obra de Cristo, aquilo que os ritos prefiguravam, em vez de tratar o Antigo Testamento como mero resíduo cerimonial. Nessa linha, ele recorda que Moisés determinou para a Páscoa um cordeiro inteiro/perfeito e “sem defeito”, e acrescenta que a mesma exigência é repetida para os sacrifícios em diversos lugares, mencionando explicitamente Levítico 23:0 e Números 28:0. Quando Pedro aplica esse padrão a Cristo, Calvino entende que o apóstolo está ensinando a adequação do Messias como vítima sacrificial: Cristo foi um sacrifício apropriado e aprovado por Deus justamente por ser perfeito e sem qualquer mancha; e, para Calvino, essa perfeição não é um detalhe ornamental, mas uma condição necessária para que a oferta fosse legítima diante de Deus e pudesse “apaziguar” a sua ira — pois, se houvesse qualquer defeito nele, não poderia ter sido corretamente oferecido a Deus, nem poderia cumprir essa finalidade expiatória.

Quando olhamos 1 Clemente, a expressão “sangue de Cristo” já aparece como centro contemplativo e como argumento pastoral: ele não faz uma miniatura acadêmica do versículo, mas o lê como convite a fixar o olhar onde a graça se derrama, e o “precioso” adquire o tom de valor sagrado, diante de Deus, para o mundo. O texto diz: “Fixemos o olhar no sangue de Cristo e vejamos quão precioso é esse sangue para Deus, o qual, tendo sido derramado para a nossa salvação, colocou a graça do arrependimento diante de todo o mundo.” (CCEL, Ante-Nicene Fathers, Vol. 1, 1 Clement, cap. 7)

Ignácio de Antioquia, ao falar do “sangue de Jesus Cristo”, desloca a ênfase para a experiência da vida que não apodrece: o sangue é “bebida de Deus”, e o adjetivo “incorruptível” funciona como antítese viva ao perecimento que ameaça tudo o que é meramente terreno. Assim, a “preciosa” realidade do sangue não é só preço, mas alimento, comunhão, vida; é como se o “cordeiro” de 1 Pedro 1:19 fosse ouvido também como dom que sustenta a perseverança. Eis a formulação:
“Desejo o pão de Deus, o pão celestial, o pão da vida, que é a carne de Jesus Cristo, o Filho de Deus, que depois se tornou descendente de Davi e Abraão; e desejo a bebida de Deus, isto é, o Seu sangue, que é amor incorruptível e vida eterna.”
(CCEL, Ante-Nicene Fathers, Vol. 1, Ignatius, Epistle to the Romans, cap. 7)
Em Barnabé, a via é explicitamente tipológica: “remissão de pecados”, “santificação” e “sangue” aparecem unidos, e a escrita já costura Isaías 53 ao sofrimento do Senhor, fazendo a imagem do cordeiro ganhar corpo e direção. Aqui, 1 Pedro 1:19 é ouvido com o pano de fundo de uma Escritura que fala do Servo ferido e do animal levado ao matadouro; e o “cordeiro sem defeito” se torna, na audição cristã primitiva, o próprio Cristo que sofre e purifica. O trecho:
“Pois foi para isso que o Senhor suportou, entregando a sua carne à corrupção, para que fôssemos santificados mediante a remissão dos pecados, que se efetua pela aspersão do seu sangue. Porque está escrito a respeito dele, em parte referindo-se a Israel, e em parte a nós; e [a Escritura] diz assim: “Ele foi ferido por causa das nossas transgressões e moído por causa das nossas iniquidades; pelas suas pisaduras fomos sarados. Como ovelha foi levado ao matadouro, e como cordeiro mudo perante o seu tosquiador.””
(CCEL, Ante-Nicene Fathers, Vol. 1, Epistle of Barnabas, cap. 5)
Quando esses testemunhos são postos ao lado de 1 Pedro 1:19, o “sangue precioso” deixa de ser apenas metáfora e passa a ser ouvido como linguagem de culto, de vida e de aliança: precioso diante de Deus e eficaz para o mundo (1 Clemente), incorruptível como amor que alimenta e sustenta (Ignácio), grave como sinal que convoca fé e obediência (Policarpo), purificador como sangue de aspersão ligado ao Servo e ao cordeiro (Barnabé). E, nesse conjunto, o “cordeiro sem defeito e sem mancha” permanece como imagem que une pureza sacrificial e sofrimento substitutivo, não para adornar o texto, mas para amarrar a esperança ao único preço que não perece.

O “mas” do v. 19 é uma porta que se fecha para sempre ao mercado humano e se abre para o altar: se o v. 18 negou o metal, o v. 19 afirma o sangue — e isso recolhe o coração da teologia do Antigo Testamento, onde o sangue é apresentado como vida dada e, por isso, meio de expiação: Levítico 17:11. O “cordeiro” sem defeito e sem mancha faz soar a gramática do sacrifício aceitável, onde a oferta não pode carregar rachadura moral simbolizada por defeito cultual: Levítico 22:19–21; e também faz lembrar a Páscoa, em que o cordeiro sem defeito e o sangue nos umbrais marcam libertação e juízo passando por cima: Êxodo 12:5–13. Quando Pedro aproxima “sangue” e “cordeiro”, ele liga Cristo ao drama pascal e ao sistema sacrificial sem reduzi-lo a metáfora, porque o Novo Testamento identifica explicitamente o Messias como o Cordeiro que tira o pecado: João 1:29, e como a própria Páscoa cumprida: 1 Coríntios 5:7. A expressão “precioso sangue” canta também a lógica da nova aliança em que a purificação não é exterior, mas alcança a consciência, porque o oferecimento é superior e definitivo: Hebreus 9:12–14; Hebreus 9:22; e por isso o perdão é descrito como “redenção... pelo seu sangue”: Efésios 1:7; Colossenses 1:20. A imagem do cordeiro silencioso do Servo sofre ao fundo como sombra profética que agora ganha nome: Isaías 53:7; e o resultado, no testemunho apostólico, é que a comunidade redimida canta não o valor do ouro, mas o valor do sangue que comprou pessoas “de toda tribo, língua, povo e nação”: Apocalipse 5:9.
Significado e Explicação de 1 Pedro 1

1 Pedro 1:20

...conhecido de antemão, na verdade, antes da fundação do mundo, mas manifestado no fim dos tempos por causa de vós (Gr.: proegnōsmenou men pro katabolēs kosmou, phanerōthentos de ep eschatou tōn chronōn di hymas — Tradução literal: “tendo sido conhecido de antemão, de fato, antes da fundação do mundo, mas tendo sido manifestado no fim dos tempos por causa de vós.”) A tessitura etimológica começa em proginōskō (“conhecer de antemão”), cuja forma composta põe diante do verbo o prefixo pro (“antes”), tornando “conhecer” uma espécie de conhecimento antecipado, posto antes do tempo narrado; por isso, no léxico, o campo semântico gravita entre “saber previamente” e “conhecer antes” como ato antecedente, e a própria distribuição do termo no Novo Testamento confirma essa gravidade quando reaparece em lugares como Romanos 8:29 e Romanos 11:2, onde a ideia de anterioridade é indispensável ao enunciado.

A seguir, katabolē (“fundação”, “lançamento”), em seu corpo verbal antigo, traz a imagem concreta de “lançar para baixo” (formação tradicionalmente explicada como kata + ballō), e desse gesto físico nasce a metáfora arquitetônica: aquilo que é “lançado” como base; quando o sintagma se completa em kosmos (“mundo”), a expressão katabolē kosmou (“fundação do mundo”) passa a funcionar como marca temporal absoluta, e o próprio vocabulário do Novo Testamento mostra que esse sintagma é uma fórmula recorrente para localizar o desígnio divino “antes” do tempo histórico (por exemplo, Mateus 25:34; Efésios 1:4). Nesse mesmo eixo, phaneroō (“tornar manifesto”) não nasce de uma ideia de “criar”, mas de “fazer aparecer”, de trazer ao plano visível aquilo que estava velado: o verbo carrega o brilho de “manifestação” como passagem da ocultação para a evidência, e essa história semântica é confirmada tanto pelo uso neotestamentário quanto por sua presença pontual no texto grego da LXX, onde a forma aparece em Jeremias 33:6, justamente no sentido de “revelar/mostrar” (o verbo ali é o mesmo campo de “tornar patente”).

Por fim, eschatos (“último”) dá a chronos (“tempo”) uma borda escatológica: não é apenas “tempo” como duração indistinta, mas “tempo” como série que caminha para seu término; e o fato de chronos estar bem atestado na LXX (por exemplo, Jeremias 30:7) mostra como o vocábulo já servia, no grego bíblico, para nomear “tempo” como ocasião histórica carregada de significado, antes mesmo de receber aqui o qualificativo “último”.

Na estrutura sintática do v. 20, temos proegnōsmenou (“tendo sido conhecido de antemão”) que é particípio, perfeito, voz passiva, genitivo, masculino, singular, e a sua primeira marca formal de encaixe é o genitivo concordante: ele retoma e qualifica o antecedente imediato Christou (“de Cristo”) do versículo anterior, funcionando como particípio atributivo em continuidade nominal; men (“por um lado”, “na verdade”) é partícula correlativa que anuncia um contraste interno e prepara o emparelhamento com de (“por outro lado”, “mas”), de modo que a frase se organiza em dois membros paralelos de mesmo caso; pro (“antes”) é preposição que rege genitivo e aqui tem valor semântico temporal de anterioridade absoluta (“antes de”), e por isso governa katabolēs (“fundação”, “lançamento”) como substantivo no genitivo, feminino, singular; kosmou (“mundo”) é substantivo no genitivo, masculino, singular, dependente de katabolēs (“fundação”), e a leitura sintática mais provável é genitivo de relação com valor objetivo (“fundação do mundo” = fundação cujo ‘objeto’/referente é o mundo), porque o substantivo “fundação” pede naturalmente aquilo que é fundado, e o encaixe com pro (“antes”) exige uma referência temporal global.

Em seguida, phanerōthentos (“tendo sido manifestado”) é particípio, aoristo, voz passiva, genitivo, masculino, singular, e por concordar no mesmo caso, gênero e número com proegnōsmenou (“tendo sido conhecido de antemão”), continua qualificando o mesmo antecedente genitivo (o mesmo referente “de Cristo”), agora como segundo membro contrastivo; de (“mas”, “por outro lado”) é a partícula correlativa que fecha o par men...de e marca a virada do “antes” para o “agora” histórico; ep (“sobre”, “em”) é forma contraída de preposição que rege genitivo nesta construção e tem valor semântico temporal de limite/ocasião (“no”, “por ocasião de”), e por isso governa eschatou (“último”) como adjetivo no genitivo, masculino, singular, usado aqui de modo substantivado (isto é, “no último [tempo]”); tōn (“dos”) é artigo no genitivo, masculino, plural, que determina chronōn (“tempos”), substantivo no genitivo, masculino, plural, e esse genitivo plural se prende a eschatou (“último”) como genitivo de especificação (“último em relação aos tempos”, “último dentre os tempos”), porque o adjetivo substantivado pede um domínio (“dos tempos”) para que o “último” seja semanticamente inteligível; di (“por causa de”, “por meio de”) é preposição contraída que aqui rege acusativo e assume valor semântico de causa/benefício (“por causa de”, “em favor de”), e portanto governa hymas (“vós”) como pronome pessoal no acusativo, segunda pessoa do plural, funcionando como complemento preposicional de finalidade-benefício da manifestação (“manifestado... por causa de vós”). Nota-se que, em todo o versículo 20, não há verbo finito: a predicação é nominal-participial, sustentada por dois particípios passivos em genitivo (proegnōsmenou (“tendo sido conhecido de antemão”), phanerōthentos (“tendo sido manifestado”)), com elipse do verbo de ligação/estrutura principal (o referente é apresentado por qualificação, não por oração independente), o que reforça a dependência sintática do genitivo retomado do contexto.

No v. 20, a exegese emerge do paralelismo men (“por um lado”)...de (“por outro lado”) e do contraste aspectual: o perfeito passivo de proegnōsmenou (“tendo sido conhecido de antemão”) apresenta o “conhecer” como estado anterior já estabelecido e vigente, anteriorizado por pro (“antes”) até o marco totalizante de katabolēs kosmou (“fundação do mundo”), enquanto o aoristo passivo de phanerōthentos (“tendo sido manifestado”) apresenta a manifestação como evento histórico pontual, localizado por ep (“em”) + genitivo no limite escatológico eschatou tōn chronōn (“último dos tempos”) e orientado pastoralmente por di hymas (“por causa de vós”): a anterioridade não é narrada como curiosidade metafísica, mas como fundamento de uma manifestação em benefício concreto dos destinatários.

O primeiro ponto de fricção entre as versões está no particípio proegnōsmenou (“pré-conhecido”): ESV/NET/ASV/YLT preferem a literalidade do “foreknown” (“pré-conhecido”), como em ESV “foreknown” (“pré-conhecido”), enquanto a KJV desloca o campo semântico para decreto, “foreordained” (“preordenado”); em português, a ARA/ARC acompanham melhor o grego ao manter “conhecido” (sem impor “eleição” como verbo principal) — “conhecido, com efeito, antes da fundação do mundo” (ARA) e “foi conhecido, ainda antes da fundação do mundo” (ARC), ao passo que NVI/NVT/NTLH optam por uma leitura interpretativa (“escolhido”), que pode ser teologicamente legítima, mas é menos colada à forma verbal do NA28: “foi escolhido antes da criação do mundo” (NVT) e “Ele foi escolhido por Deus antes da criação do mundo” (NTLH), bem como “conhecido antes da criação do mundo” (NVI, aqui com “conhecido”, não “escolhido”). No sintagma temporal, a convergência é forte em torno de pro katabolēs kosmou (“antes da fundação do mundo”): ARA/ARC preservam “fundação do mundo”, enquanto NVI/NVT/NTLH preferem “criação do mundo”, que comunica o mesmo horizonte, mas já traduz o metáforo “fundar” como ato criacional.

Ainda em 1 Pedro 1:20, o segundo ponto é o particípio phanerōthentos (“tornado manifesto”): ESV retém a cor de “manifestação”, “made manifest” (“feito manifesto”), ao passo que NET tende a “revealed” (“revelado”); em português, a ARA guarda a oposição com elegância (“porém manifestado no fim dos tempos”), a ARC também (“mas manifestado, nestes últimos tempos”), e NVI/NVT/NTLH convergem em “revelado... nestes últimos tempos”, o que é fiel ao fato de que a manifestação tem forma pública e histórica, ainda que “manifestado” se aproxime mais do relevo lexical do grego. Já em ep’ eschatou tōn chronōn (“no fim dos tempos”), ARA fixa “no fim dos tempos”, enquanto NVI/NVT/NTLH/ARC preferem “nestes últimos tempos”; ambos cabem, mas a presença de “nestes” acrescenta um dedo dêitico (o “agora” da comunidade) que não está expresso na forma. Por fim, em di’ hymas (“por causa de vós”), ESV/ARA/ARC soam particularmente aderentes quando dizem “for your sake” (“por amor de vocês/por causa de vós”), enquanto a KJV encurta para “for you” (“por vocês”) e NVI/NVT/NTLH modulam em “em favor de vocês / por causa de vocês / em benefício de vocês”, todas soluções semanticamente corretas, com ligeiras diferenças de ênfase.

John Gill em sua exposição de 1 Pedro 1:20 lê “foi conhecido de antemão / predestinado” como algo muito mais denso do que simples presciência: trata-se de um “conhecimento prévio” de Deus unido a amor e complacência, dirigido a Cristo não apenas “como Filho”, mas especificamente “como Mediador”. Daí ele desdobra a ideia como eleição de Cristo “como cabeça da eleição”, pré-ordenação da sua natureza humana “à graça da união” com a Pessoa divina e pré-nomeação para tarefas salvíficas concretas; nessa linha, ele observa ainda a nota da versão siríaca que acrescenta “para isto”, entendendo o escopo: Cristo foi designado “para isto”, isto é, para ser “o cordeiro” sacrificial, “propiciação” e Redentor pelo seu sangue.

Em seguida, ele ancora a leitura no pano de fundo pascal: a separação do cordeiro da Páscoa “do décimo ao décimo quarto dia” antes do abate funciona como figura do “separar” de Cristo “dentre o povo”, e ele até aproxima essa separação da tipologia de José, “separado de seus irmãos”. O ponto que governa tudo é a eternidade do conselho divino: os decretos e determinações de Deus, “relativos a Cristo ou ao seu povo”, não emergem no tempo como “novas resoluções”; o “esquema” da redenção é eterno, os resgatados foram determinados, e o Redentor foi estabelecido no “conselho e pacto de paz”. Por isso, ele insiste que a salvação por Cristo não é “novidade” reativa ao pecado: um Salvador foi provido “antes” da queda, e o método de recuperação do ser humano foi assentado “antes” da ruína, “sem qualquer consideração por obras e méritos”, mas por graça soberana e amor eterno.

É nesse ponto que Gill convoca apoio judaico para a anterioridade do Messias: ele cita rabinos que contam “o nome do Messias” entre “sete coisas” “criadas antes que o mundo existisse”, apontando como prova (Salmos 72:17), e registra as fontes como (T. Bab. Pesachim, fol. 59. 1. Nedarim, fol. 89. 2.). A função dessa remissão, no fluxo do comentário, é mostrar que até uma tradição judaica reconhece, em alguma medida, a precedência do Messias em relação ao mundo, o que reforça a tese de que a obra redentora estava “traçada na eternidade” e não inaugurada por contingências históricas.

Quando ele passa à cláusula “mas foi manifestado nestes últimos tempos por amor de vós”, a ênfase recai sobre a manifestação histórica: Cristo “existia desde a eternidade”, esteve “no seio do Pai”, esteve “velado” nas sombras da lei cerimonial, e então foi tornado manifesto “na carne” e mais claramente revelado no evangelho. Para precisar “últimos tempos”, ele invoca um princípio exegético judaico: “é uma regra entre os judeus” que, quando se mencionam “os últimos dias”, entende-se “os dias do Messias”, remetendo a Kimchi sobre Isaías 2:2. Por fim, ele nota variantes: “The Alexandrian copy reads, ‘for us’; and the Ethiopic version, ‘for him’”, mas mantém o sentido pastoral do texto: a manifestação é “for you”, isto é, orientada aos eleitos — judeus e gentios — que são descritos na sequência do contexto imediato.

Levando isso para seu contexto histórico, o mundo antigo atribuía grande valor ao que era antigo e, por isso, tenderia a reagir mal a qualquer apelo para abandonar os caminhos herdados dos antepassados, como se vê em 1 Pedro 1:18 (cf. Manetho, Aeg. frg. 1.6; Dionysius of Halicarnassus, Rom. Ant. 1.8.2; Cicero, Verr. 2.4.45.99; 2.4.46.102; Pliny Y., Ep. 8.24.2–3; Suetonius, Aug. 93; Hermogenes, Issues 87.2–9; Menander Rhetor, Treat. 1.2, 354.1–8; 355.2–11; Josephus, Ant. 19.283, 290; Ag. Ap. 1.1–2, 7, 196, 215–18, 227; 2.1, 154–56, 279, 288; Justin, 1 Apol. 44; Tertullian, Apol. 47.14). Aqui, porém, Pedro faz o movimento inverso do apelo às tradições: ele chama a atenção para algo muito mais remoto, mais amplo e mais universal do que qualquer costume antigo. Ao dizer que Cristo era conhecido antes do começo do mundo, a ideia sugerida é que Deus já havia traçado o desígnio da redenção antes mesmo de o pecado entrar em cena (cf. 2 Timóteo 1:9; Apocalipse 13:8).

O verbo empregado para “conhecido antes”, proginōskō (“conhecer de antemão”), pode designar simplesmente conhecimento prévio. Paulo, é verdade, associa esse verbo ao ato divino de escolher o seu povo (Rom. 8:29; 11:2), mas o mesmo termo também se aplica a pessoas que “sabiam antes” certos fatos sem, por isso, causarem os acontecimentos conhecidos ( Acts 26:5; 2 Pet. 3:17; Josephus, Ant. 1.311; 7.57; 13.175; 16.214; J.W. 1.55, 608; 3.484; 4.236; 6.8; Life 106.), embora, em vários desses casos, esse conhecimento tenha vindo por revelação divina (Jdt. 11:19; Wis. 18:6; Josephus, Ant. 2.86; 4.121; 5.358; 6.54, 348; 8.419; J.W. 2.159; for pagan revelation, Josephus, Ant. 18.218; Ag. Ap. 1.204, 256. Cf. the cognate adjective in Philo, Dreams 2.1; Moses 2.190; it applies to a demon in the later T. Sol. 5:12.).

A tradição judaica, por sua vez, elaborou listas de realidades que “existiam” antes da criação, algumas delas existindo apenas no pensamento de Deus (Such as the plan for Moses, in T. Mos. 1:14–15; or for the Messiah, b. Ned. 39b, bar.; b. Pesaḥ. 54a, bar.; Gen. Rab. 1:4. See further discussion and sources in Keener, John, 367–68.). Nesse horizonte, era frequente a convicção de que Deus criou, de modo particular, a Sabedoria ou a Torá antes de tudo, ou desde o princípio (Sir. 1:4; 24:9; L.A.B. 32:7; Sipre Deut. 37.1.3). Em 1 Pedro, fala-se da missão de Cristo como “pré-conhecida”, e não explicitamente como “pré-existente”; ainda assim, o texto pressupõe que Pedro compartilhava convicções cristãs primitivas mais amplas sobre a preexistência real de Cristo (cf. Romanos 8:3; 1 Coríntios 1:24, 30; 8:6; 10:4; Gálatas 4:4; Filipenses 2:6–7; Colossenses 1:15–17; cf. FEE, Pauline Christology: An Exegetical-Theological Study, 2007, pp. 213– 16; Fee, Gordon D. Jesus the Lord according to Paul the Apostle: A Concise Introduction. Grand Rapids: Baker Academic, 2018.38–40), sobretudo porque, neste versículo, ele é “manifestado”, e não “criado” tardiamente.

Também o verbo traduzido por “revelado/manifestado”, phaneroō (“tornar manifesto”), não é o mesmo vocabulário que aparece em 1 Pedro 1:5, 7, 12–13; 4:13; e 5:1, onde, com uma única exceção (1:12), as referências apontam para a vinda futura de Jesus; ainda assim, este verbo também pode carregar esse sentido (5:4). Pedro, aliás, não está isolado ao empregar esse termo para a primeira vinda de Jesus (e.g., 1 Tim. 3:16; 2 Tim. 1:10; Titus 1:3). Do mesmo modo, expressões como “tempo final”, kairos eschatos (“tempo derradeiro”), podem referir-se à vinda futura (neste contexto, em 1 Pet. 1:5), mas Pedro participa da escatologia do “já e ainda não” que marca outros seguidores de Jesus: o Messias prometido já veio e, por isso, chegaram ao fim das eras prometidas, eschatos tōn chronōn (“o término das eras/tempos”), numa provável alusão a profecias do reino (e.g., Dan. 2:21, 28, 37–45; 7:17–18).

Assim, “os últimos dias”, “os últimos tempos” e fórmulas semelhantes pertencem ao léxico bíblico para nomear o período da restauração de Israel, esperança que o judaísmo passou a localizar de maneira decisiva no tempo escatológico (Isa. 2:2; Hosea 3:5; Mic. 4:1; Dan. 2:28, Also 11Q13, 2.4; 1 En. 27:3–4 (after the final judgment); cf. 4Q509 2.19; 2 Bar. 76:5; T. Zeb. 8:2; 9:5. Jewish interpreters would also so understand Deut. 4:30; 31:29; cf. others’ restoration in Jer. 48:47; 49:39. “The last days” or “last generation” is a natural feature of the pesharim (e.g., 1QpHab 1.2; 2.5–6). Cf. also comment in Patte, Hermeneutic, 138). Ao mesmo tempo, essa designação do período final de restauração podia incluir a expectativa de grande sofrimento imediatamente anterior a ela (Jer. 23:20; 30:24; Ezek. 38:16; Dan. 10:14 1Q22, lines 7–8; 4Q169 3.3; 4Q162, 2.1 in its context; 4Q163 frg. 23, col. 2.3–11; 4Q176 frg. 12 + 13, col. 1.9; 4QMMT section C.21–22; T. Dan 5:4; T. Zeb. 9:5; T. Iss. 6:1; cf. Sib. Or. 5:74; Apoc. El. 1:13.), e, em outro registro, os escritores também podiam aplicar a linguagem de “últimos dias” aos “últimos dias” de uma pessoa, isto é, ao momento final da vida (T. Dan 1:1)). Em linhas gerais, portanto, a expressão equivale a dizer: “o período de cumprimento das promessas bíblicas”, “o tempo escatológico”.

Os primeiros cristãos leram esse tempo como o seu próprio presente, em continuidade com os manuscritos de Qumran (E.g., Os Manuscritos do Mar Morto usaram sua interpretação pesher (salmos, etc.) para aplicar grande parte das Escrituras à situação especial dos últimos dias, uma era especial de cumprimento (por exemplo, 4Q162, cols. 1–2; 4Q176 frgs. 12 + 13, col. 1.7–9; 4Q169 4.3; veja também 1 Enoque 108:1); em Atos 2–3, o Pedro de Lucas faz o mesmo, acreditando que o tempo do cumprimento chegou (Atos 3:18–26). O Pedro de 1 Pedro é consistente com esse retrato, assim como grande parte do cristianismo primitivo. The Peter of 1 Peter is consistent with this portrait, though so is most of earliest Christianity). Nesse quadro, o desfecho esperado incluía a exposição da maldade dos líderes de Israel que se haviam acomodado a compromissos indevidos no tempo do fim.

1 Pedro 1:21

...que por ele sois crentes em Deus, que o ressuscitou dentre os mortos e lhe deu glória, para que a vossa fé e esperança estejam em Deus (Gr.: tous di autou pistous eis theon, ton egeiranta auton ek nekrōn kai doxan autō donta, hōste tēn pistin hymōn kai elpida einai eis theon — Tradução literal: “vós, por meio dele, crentes em Deus — naquele que o levantou dentre os mortos e lhe deu glória — de modo que a vossa fé e esperança sejam em Deus.”) A cadeia etimológica aqui se abre com a família de pistis (“fé”) e pistos (“crente”, “fiel”): no seu núcleo, trata-se de um vocabulário de confiança e adesão, e o adjetivo “crentes” é o rosto qualificativo do substantivo “fé”, como se a qualidade (“ser crente”) brotasse do mesmo tronco que nomeia o ato (“fé”). Em seguida, egeirō (“levantar”, “ressuscitar”) conserva a imagem elementar de “erguer do estado de queda/repouso”, e é precisamente por essa concretude que o verbo serve tanto à linguagem comum quanto à teologia da ressurreição; sua ampla pegada na LXX (por exemplo, Gênesis 41:4, onde aparece em contexto narrativo de “erguer/levantar” no tecido do relato) deixa ver como o sentido básico de “pôr em pé / levantar” antecede, e sustenta, o uso pascal no Novo Testamento. Depois, doxa (“glória”) carrega a ideia de “honra, esplendor, reputação” que se torna visível e reconhecível; e quando o texto diz que Deus “deu glória”, o verbo de doação faz a glória aparecer como algo conferido, atribuído, reconhecido publicamente, não como mero atributo abstrato—o léxico registra essa amplitude de “glória” como peso, honra e manifestação. Por fim, elpis (“esperança”) fecha o arco: esperança não é simples desejo, mas expectativa orientada; e o fato de elpis também ser vocabularmente robusta no grego bíblico, com ocorrências na LXX (por exemplo, Deuteronômio 24:15 no conjunto de usos listados no corpus), ajuda a perceber que “esperança” já era palavra de espera e horizonte no grego das Escrituras antes de ser aqui amarrada, com precisão, “em Deus” como seu lugar final.

Em 1 Pedro 1:21, tous (“os”, “aqueles”) é um artigo no acusativo, masculino, plural, e sua função é introduzir um sintagma acusativo em aposição explicativa ao acusativo anterior hymas (“vós”), isto é, “vós... a saber, aqueles...”; di (“por meio de”, “através de”) é preposição que aqui rege genitivo e tem valor semântico instrumental/mediador (“por meio de”), governando autou (“dele”) como pronome no genitivo, masculino, singular, cujo referente mais provável é o mesmo “Cristo” qualificado no verso 20; pistous (“crentes”, “fiéis”) é adjetivo no acusativo, masculino, plural, usado predicativamente com elipse do verbo de ser/estar (subentende-se algo como “sendo”), e por isso descreve “aqueles” (tous (“aqueles”)) como o predicado nominal do aposto (“aqueles [que são] crentes”); eis (“para”, “em direção a”, “em”) é preposição que rege acusativo e aqui tem valor semântico de direção-alvo/objeto de confiança (“para”, no sentido de orientação do ato de crer), governando theon (“Deus”) como substantivo no acusativo, masculino, singular, que funciona como complemento do adjetivo “crentes” (crentes “em Deus”).

Em seguida, ton (“o”, “aquele”) é artigo no acusativo, masculino, singular, e introduz um bloco atributivo em aposição a theon (“Deus”), especificando qual é este Deus; egeiranta (“tendo levantado”, “tendo ressuscitado”) é particípio, aoristo, voz ativa, acusativo, masculino, singular, concordando com ton (“aquele”) e funcionando como particípio atributivo que qualifica “Deus” (“o Deus que ressuscitou...”); auton (“a ele”) é pronome no acusativo, masculino, singular, funcionando como objeto direto de egeiranta (“tendo ressuscitado”); ek (“de”, “para fora de”) é preposição que rege genitivo e tem valor semântico de separação/origem (“de dentre”), governando nekrōn (“mortos”) como substantivo no genitivo, masculino, plural (“de dentre os mortos”). A coordenação kai (“e”) liga dois particípios atributivos paralelos sob o mesmo artigo ton (“aquele”), e por isso doxan (“glória”) aparece como substantivo no acusativo, feminino, singular, funcionando como objeto direto de donta (“tendo dado”); autō (“a ele”) é pronome no dativo, masculino, singular, com função de dativo de destinatário/beneficiário (“a ele deu”), dependente de donta (“tendo dado”); donta (“tendo dado”) é particípio, aoristo, voz ativa, acusativo, masculino, singular, concordando com ton (“aquele”) e coordenado com egeiranta (“tendo ressuscitado”), de modo que ambos descrevem o mesmo “Deus” como agente de dois atos correlatos.

Por fim, hōste (“de modo que”, “de sorte que”) introduz uma construção de resultado com infinitivo; tēn (“a”) é artigo no acusativo, feminino, singular, determinando pistin (“fé”), substantivo no acusativo, feminino, singular, e hymōn (“de vós”) é pronome no genitivo, segunda pessoa do plural, com leitura sintática de genitivo de pertencimento (“a vossa fé”), estendendo-se por coordenação a elpida (“esperança”), substantivo no acusativo, feminino, singular, ligado por kai (“e”); einai (“ser”, “estar”) é infinitivo, presente, voz ativa, e recebe como sujeito acusativo exatamente tēn pistin... kai elpida (“a fé... e esperança”), segundo o padrão regular de infinitivo com sujeito em acusativo; eis (“para”, “em direção a”, “em”) novamente rege acusativo com valor semântico de alvo/objeto (“em”), governando theon (“Deus”) como acusativo, que aqui funciona como o termo final em que a fé e a esperança se ancoram (“serem em Deus”). Também aqui não há verbo finito: a predicação se organiza por elipse (aposto “aqueles [que são] crentes...”) e por uma oração de resultado em hōste (“de modo que”) + infinitivo einai (“ser/estar”), o que dá ao texto um movimento de encadeamento: o “Deus que ressuscitou e glorificou” é descrito, e disso decorre que a fé e a esperança dos destinatários tenham seu ponto de repouso nele.

No v. 21, a exegese segue o mesmo trilho do encaixe: os destinatários são definidos como tous... pistous eis theon (“aqueles [que são] crentes em Deus”), mas esse crer é explicitamente mediado por di autou (“por meio dele”), e o “Deus” do qual se fala não é abstrato, sendo especificado pelo bloco articular ton egeiranta... kai... donta (“aquele que ressuscitou... e que deu...”); assim, a fé não repousa num vazio, mas no Deus identificado por seus atos sobre auton (“a ele”), isto é, sobre Cristo, e o resultado (hōste (“de modo que”)) não é apenas “crer”, mas que tēn pistin... kai elpida... einai eis theon (“a fé... e a esperança... sejam em Deus”), onde “fé” e “esperança” aparecem como dupla inseparável: a primeira como adesão, a segunda como horizonte, ambas com o mesmo termo final, eis theon (“em Deus”).

Aqui, a divergência nas versões mais instrutiva nasce do adjetivo/acusativo pistous (“crentes/fiéis”): a ESV preserva a estrutura nominal, “are believers in God” (“são crentes em Deus”), o que espelha melhor o encaixe de tous...pistous eis theon (“a vós... crentes em Deus”), enquanto KJV/YLT/NET tendem a verbalizar (“believe / trust”), como KJV “do believe in God” (“creem em Deus”) e NET “you now trust in God” (“agora confiam em Deus”); esse “now” (“agora”) é uma camada interpretativa ausente no grego, e por isso, no critério estrito de aderência formal, pesa contra a literalidade. Em português, NVI/NTLH/ARC/ARA/NVT convergem em “creem / tendes fé / vieram a crer”: são traduções excelentes de sentido, mas menos transparentes quanto ao fato de que o texto descreve a identidade (“crentes”) antes de descrever o ato (“crer”).

Na sequência, há ampla convergência com o grego em ton egeiranta auton ek nekrōn kai doxan autō donta (“o que o ressuscitou dentre os mortos e lhe deu glória”): NVI “que o ressuscitou dentre os mortos e o glorificou”, ARA “o qual o ressuscitou dentre os mortos e lhe deu glória”, NVT “porque ele ressuscitou Cristo dos mortos e lhe deu grande glória”, e NTLH “que o ressuscitou e lhe deu glória”, todos ecoando o mesmo movimento: Deus é o sujeito do levantar e do glorificar. O fecho com hōste... einai eis theon (“de sorte que... estar em Deus”) divide as versões entre resultado mais afirmativo e finalidade mais modal: ESV/NET dizem “so that your faith and hope are in God” (“de modo que a fé e a esperança de vocês estão em Deus”), enquanto a KJV prefere “might be in God” (“possam estar em Deus”); em português, a ARA é muito fina ao manter o tom de consequência teleológica sem virar mero indicativo: “de sorte que a vossa fé e esperança estejam em Deus”, ao passo que a NVI fixa o resultado como estado presente (“estão em Deus”) e a NTLH reforça a imagem de fixação (“estão firmadas em Deus”), leitura interpretativa bela, porém já comentadora do verbo “estar” do grego.

1 Pedro 1:22

Purificando as vossas almas na obediência à verdade, para o amor fraternal sem hipocrisia, amai-vos uns aos outros intensamente, de coração puro (Gr.: tas psychas hymōn hēgnikotes en tē hypakoē tēs alētheias eis philadelphian anupokriton ek katharas kardias allēlous agapēsate ektenōs — Tradução literal: “Tendo purificado as vossas almas na obediência da verdade para amor fraternal sem hipocrisia, amai-vos uns aos outros intensamente, de coração puro”.) O eixo lexical começa em hagnizō (“purificar”), cujo particípio perfeito hēgnikotes (“tendo purificado”) carrega, pela própria história do verbo, a ideia de “tornar puro” em sentido de purificação (inclusive com coloração cultual e moral no uso bíblico), pois deriva do campo de hagnos (“puro”, “casto”) e se estabiliza como linguagem de limpeza que não é meramente externa. Essa purificação se dá “na” esfera de hypakoē (“obediência”), termo cuja formação aponta para “escutar sob” (ouvir de modo submisso e responsivo), fazendo da obediência uma audição que se inclina e se conforma, em vez de simples assentimento intelectual. O complemento alētheia (“verdade”) não é apresentado como abstração: na história do vocábulo, ele se fixa como “verdade” enquanto aquilo que é verdadeiro e confiável, e o genitivo em “obediência da verdade” tende, pelo encaixe, a funcionar como genitivo de referência/objeto (a obediência dirigida à verdade).

O alvo declarado é philadelphia (“amor fraternal”), palavra composta que reúne a afeição de philos (“amigo”, “amado”) ao vínculo de adelphos (“irmão”), descrevendo uma caridade com rosto doméstico: amor que reconhece o outro como do mesmo “lar”. A qualidade desse amor é anupokritos (“sem hipocrisia”), formado pelo prefixo privativo (negação) sobre o campo de hypokrisis (“representação”, “fingimento”), de modo que o termo, em sua história, desmascara o amor teatral e exige um afeto sem máscara. Por isso o imperativo vindo de agapaō (“amar”) não pede apenas calor emocional, mas um amor exercido como decisão e prática, e o advérbio ektenōs (“intensamente”) nasce do imaginário de “estender” (tensionar até o limite), sugerindo um amor que se alonga para além do cômodo. Essa rede lexical aparece noutros pontos do Novo Testamento com a mesma força semântica: Romanos 12:9 condensa a ideia em “hē agapē anupokritos” (“o amor, sem hipocrisia”), e Hebreus 13:1 mantém o termo de fraternidade em “hē philadelphia menetō” (“permaneça o amor fraternal”).

No encadeamento formal, tas (“as”) é artigo, acusativo, feminino, plural, determinando psychas (“almas”), substantivo, acusativo, feminino, plural, e o pronome hymōn (“de vós”), genitivo, segunda pessoa do plural, depende de psychas (“almas”) como genitivo de pertencimento (“as vossas almas”); esse sintagma acusativo inteiro funciona como complemento direto do particípio hēgnikotes (“tendo purificado”), verbo, perfeito, particípio, ativo, nominativo, masculino, plural, cujo nominativo concorda com o sujeito implícito do imperativo que virá e cujo perfeito, pelo seu valor aspectual, apresenta a purificação como ação completada com estado resultante vigente. A preposição en (“em”) rege dativo e aqui marca esfera/meio (“no âmbito de”, “na esfera de”), governando (“a”), artigo, dativo, feminino, singular, que determina hypakoē (“obediência”), substantivo, dativo, feminino, singular; o artigo tēs (“da”), genitivo, feminino, singular, determina alētheias (“verdade”), substantivo, genitivo, feminino, singular, dependente de hypakoē (“obediência”) como genitivo objetivo/de referência (“obediência à verdade”), porque o nome de ação “obediência” pede naturalmente o objeto para o qual se obedece.

Em seguida, eis (“para”) rege acusativo e expressa finalidade/objetivo (“com vistas a”), governando philadelphian (“amor fraternal”), substantivo, acusativo, feminino, singular, e o adjetivo anupokriton (“sem hipocrisia”), adjetivo, acusativo, feminino, singular, concorda atributivamente com philadelphian (“amor fraternal”) e qualifica o alvo dessa finalidade. A preposição ek (“de”) rege genitivo e, neste encaixe, expressa origem/fonte (“procedente de”), governando katharas (“puro”), adjetivo, genitivo, feminino, singular, que concorda com kardias (“coração”), substantivo, genitivo, feminino, singular, formando a expressão de fonte interna (“de coração puro”), na qual o genitivo é simples dependência preposicional (não genitivo “livre”). O pronome recíproco allēlous (“uns aos outros”), acusativo, masculino, plural, funciona como objeto direto do verbo finito agapēsate (“amai”), verbo, aoristo, imperativo, voz ativa, segunda pessoa do plural, cujo aoristo imperativo, pelo seu modo de olhar a ação como um todo, dá ao mandamento um relevo de decisão plena e não meramente de continuidade gradual; por fim, ektenōs (“intensamente”), advérbio, modifica o imperativo como adjunto de modo, adensando a intensidade do amar.

Ainda em 1 Pedro 1:22, a exegese nasce do próprio esqueleto sintático: o particípio perfeito hēgnikotes (“tendo purificado”) não é um adorno, mas a base lógica que antecede e sustenta o imperativo agapēsate (“amai”), de modo que o amar exigido é apresentado como consequência coerente de uma purificação já efetivada; essa purificação é localizada pela esfera en (“em”) + dativo, isto é, ela se dá “na obediência” e, mais precisamente, na obediência cuja referência é alētheia (“verdade”), e o telos é explicitado por eis (“para”) + acusativo: a purificação aponta para philadelphia (“amor fraternal”), qualificado como anupokriton (“sem hipocrisia”), e o amor ordenado deve proceder de ek (“de”) + genitivo, “de coração puro”, evitando que “amor fraternal” vire mera etiqueta social, já que a gramática força a fonte interior como matriz do ato exterior.

As versões comparadas em 1 Pedro 1:22 tem um ponto crítico de convergência/diferença textual: o núcleo “purificação” + “obediência à verdade” + finalidade “amor fraternal sem hipocrisia” culminando no imperativo do amor; e, sobretudo, a ausência no NA28 de uma frase “por meio do Espírito” (presente em tradições textuais refletidas por algumas traduções). Por isso, quando a KJV traz “in obeying the truth through the Spirit” (“na obediência à verdade, por meio do Espírito”), ela converge com uma leitura textual mais longa (não com o NA28), ao passo que ESV/NET/ASV/YLT tendem a alinhar-se melhor ao NA28 ao manter “in obedience to the truth” (“na obediência à verdade”) sem acrescentar o sintagma “through the Spirit” (“por meio do Espírito”). Ainda no nível de escolha lexical, tas psychas (“as almas”) é muitas vezes vertido como “souls” (“almas”), mas algumas versões em português preferem “vida”/“vocês mesmos”, o que pode comunicar bem ao leitor moderno, porém se afasta da equivalência mais direta; e ektenōs (“intensamente/ardentemente”) aparece em inglês como “fervently/earnestly” (“ardentemente/insistentemente”), enquanto em português há oscilações entre “ardentemente”, “sinceramente” e “de todo o coração”, sendo “ardentemente/intensamente” o que mais preserva a força do advérbio.

1 Pedro 1:22, lido à luz do seu próprio encadeamento, faz o amor fraternal nascer não como ornamento moral, mas como fruto inevitável de uma purificação já operante: o texto não começa exigindo afeto e depois procura justificá-lo; ele parte do estado descrito pelo perfeito (“tendo purificado”) e só então impõe o imperativo (“amai”), como se dissesse que a ética cristã é consequência da nova condição, não degrau para alcançá-la. Essa purificação é “na obediência à verdade”, isto é, a verdade não aparece como ideia neutra, mas como palavra que exige submissão; por isso a lógica de João 17:17 (“Santifica-os na verdade; a tua palavra é a verdade”) se encaixa como luva, pois a santificação, ali como aqui, acontece no espaço da verdade recebida obedientemente, e não como auto-higiene espiritual. Quando Pedro dá à purificação um telos explícito (“para amor fraternal sem hipocrisia”), ele impede que “obediência” vire ascetismo individualista: a obediência à verdade desemboca no vínculo do corpo, ecoando o retrato paulino de uma comunidade cuja unidade brota do mesmo “um só Espírito... uma só fé” e se traduz em “suportando-vos uns aos outros em amor” (Efésios 4:2–5). O adjetivo “sem hipocrisia” finca uma estaca contra o amor teatral, e isso se alinha com a exigência apostólica de Romanos 12:9 (“O amor seja sem hipocrisia.”) e com a advertência de que a piedade pode se tornar máscara (2 Timóteo 3:5), de modo que o amor cristão é chamado a ser verdadeiro no mesmo sentido em que a verdade é obedecida: sem duplicidade. O amor ordenado é “intenso”, e esse advérbio não pede apenas frequência, mas elasticidade — um amor que se estende quando o outro pesa; é a mesma fibra que aparece no amor que “cobre multidão de pecados” (1 Pedro 4:8), não como encobrimento cúmplice, mas como perseverança que não transforma cada falha em sentença de exílio. E o “de coração puro” fixa a fonte: não se trata de polidez, mas de interioridade renovada; nisso, Pedro toca o nervo da promessa de um coração transformado (Ezequiel 36:26–27) e do ensino de Jesus de que a fonte do agir humano brota do coração (Mateus 15:18–19), de modo que o amor fraternal verdadeiro é uma obra do coração purificado, não um verniz sobre a mesma raiz.

1 Pedro 1:23

...tendo sido regenerados, não de semente corruptível, mas incorruptível, por meio da palavra de Deus, viva e permanente (Gr.: anagegennēmenoi ouk ek sporas phthartēs all’ aphthartou dia logou zōntos theou kai menontos — Tradução literal: “Tendo sido gerados de novo, não de semente corruptível, mas incorruptível, por meio da palavra viva de Deus e permanente”.) O verbo subjacente é anagennaō (“gerar de novo”), cuja própria composição (prefixo de repetição + verbo de geração) explica o núcleo da imagem: um novo nascimento, uma origem reiniciada; por isso o perfeito passivo anagegennēmenoi (“tendo sido gerados de novo”) descreve um estado presente que procede de um ato anterior. A família verbal reaparece em 1 Pedro 1:3 no particípio aoristo “anagennēsas” (“tendo gerado de novo”), confirmando que, no horizonte da carta, a regeneração é concebida como ato fundador que inaugura uma nova linhagem. A metáfora se afia quando a origem é contrastada: spora (“semente”, “semeadura”) carrega, em sua história lexical, o sentido de “semente” enquanto aquilo que é lançado e de onde procede a geração, sendo termo ligado ao universo do semear; aqui ela é qualificada por phthartos (“corruptível”, “perecível”), adjetivo conectado ao verbo de “corromper/arruinar”, e contraposta a aphthartos (“incorruptível”, “imperecível”), em que a negação prefixal bloqueia a ideia de decomposição. A mediação dessa nova origem vem “por meio de” logos (“palavra”), termo associado ao dizer portador de sentido (não mero som), cuja história semântica o torna apto a designar a palavra que comunica e realiza; e essa palavra é qualificada como zōn (“viva”) e menōn (“permanente”), isto é, portadora de vida e marcada por continuidade que não se desfaz. A convergência com Hebreus 4:12 mostra como o Novo Testamento preserva a mesma coloração: “zōn gar ho logos tou theou” (“pois viva é a palavra de Deus”), onde logos (“palavra”) e zōn (“viva”) se encaixam como atributos da eficácia vital da palavra divina.

O encadeamento formal recomeça com anagegennēmenoi (“tendo sido gerados de novo”), verbo, perfeito, particípio, voz passiva, nominativo, masculino, plural, cujo nominativo novamente concorda com o sujeito implícito do imperativo anterior e cujo perfeito, por seu valor aspectual, descreve um estado presente que procede de um ato anterior, enquanto a voz passiva mantém o agente fora do foco (pressuposto, não nomeado no particípio). A negação ouk (“não”), partícula negativa, abre a primeira origem negada, e ek (“de”) rege genitivo com valor semântico de fonte/origem (“a partir de”), governando sporas (“semente”), substantivo, genitivo, feminino, singular, qualificado por phthartēs (“corruptível”), adjetivo, genitivo, feminino, singular, em concordância atributiva; a conjunção adversativa all’ (“mas”) introduz a fonte contrastiva, e aphthartou (“incorruptível”), adjetivo, genitivo, feminino, singular, funciona aqui por elipse como qualificador substantivado (“[semente] incorruptível”), porque repete o lugar sintático do bloco anterior sem reiterar o substantivo.

A preposição dia (“por meio de”) rege genitivo e, neste encaixe, marca meio/instrumento (“através de”), governando logou (“palavra”), substantivo, genitivo, masculino, singular; zōntos (“viva”), verbo, presente, particípio, voz ativa, genitivo, masculino, singular, concorda com logou (“palavra”) como particípio atributivo (“palavra viva”), e theou (“de Deus”), substantivo, genitivo, masculino, singular, depende de logou (“palavra”) como genitivo de pertencimento/origem (“palavra de Deus”), porque identifica a quem pertence e de onde procede essa “palavra”; a conjunção kai (“e”) coordena um segundo particípio atributivo, menontos (“permanente”), verbo, presente, particípio, voz ativa, genitivo, masculino, singular, também concordante com logou (“palavra”). Não há verbo finito próprio no versículo 23: a predicação permanece participial e se encaixa como fundamento do imperativo do versículo anterior, de modo que a gramática força o leitor a ler a regeneração como base do mandamento de amar.

Ainda em 1 Pedro 1:23, a exegese se impõe pelo contraste das duas fontes introduzidas por ek (“de”): o texto nega que a nova origem proceda de spora phthartē (“semente corruptível”), e afirma, por antítese direta, que ela procede de [spora (“semente”)] aphthartos (“incorruptível”), isto é, uma origem cuja natureza não se dissolve; e essa origem é mediada por dia (“por meio de”) + genitivo, “por meio da palavra”, que é qualificada simultaneamente por dois particípios presentes, “viva” e “permanente”, de modo que a própria forma verbal sustenta o conteúdo: o meio da regeneração não é descrito como algo que apenas aconteceu e passou, mas como realidade que vive e permanece, e é justamente esse lastro — uma nova geração que vem de fonte incorruptível, mediada por palavra viva e permanente — que dá densidade ao imperativo de amor intenso do versículo 22, sem que a exortação fique suspensa no ar.

Ao compararmos as versões bíblicas ergue o contraste sobre “regeneração” (anagegennēmenoi [“tendo sido gerados de novo”]) e a antítese “semente perecível/imperecível” (ek sporas phthartēs / aphthartou — “de semente corruptível / incorruptível”), com o meio instrumental dia logou (“por meio da palavra”) qualificada por dois particípios (zōntos (“viva”) e menontos (“permanente”)). Aqui, ESV/NET/ASV/YLT/KJV convergem amplamente quando mantêm “born again/begotten again/born anew” (“nascidos de novo/gerados de novo”) e preservam a metáfora da “semente” e o meio “pela palavra”; e divergem mais do NA28 quando substituem a metáfora por explicações (“vida que pode ser destruída... vida que durará para sempre”), pois isso já não espelha o eixo spora (“semente”) do texto crítico. Em português, ARA/ARC/NVI frequentemente acompanham de modo mais literal a cadeia “regenerados/nascidos de novo... não de semente... mas... por meio da palavra... viva e permanente”; já NTLH e, em certos trechos, NVT podem optar por paráfrases catequéticas (“como filhos de um Pai imortal...”) que iluminam o sentido, mas deixam para trás o encaixe imagético e lexical de “semente” (spora) e o paralelismo “perecível/imperecível” que o NA28 traz como coluna vertebral do enunciado.

Os destinatários são lembrados de que “nasceram de novo”, não a partir de semente perecível, mas de semente imperecível, mediante a palavra viva e permanente de Deus. A ação de graças já havia apresentado o novo nascimento, anagennaō (“fazer nascer de novo”), como dom que brota da misericórdia de Deus, por meio da ressurreição de Jesus Cristo dentre os mortos, conduzindo a uma esperança viva (1:3). Do mesmo modo, recordara-se que eles foram resgatados de um modo de viver vazio, não por coisas perecíveis, mas pelo sangue precioso de Cristo (1:18–19). Agora, essas linhas se entrelaçam numa mesma tessitura, mantendo firme o contraste entre o que se desfaz e o que permanece.

Quanto ao amor de família, a afeição entre parentes de sangue era considerada virtude relevante no mundo desses leitores (MALINA, The New Testament World: Insights from Cultural Anthropology, 1993, pp. 117–48). A reflexão de Plutarco sobre o amor entre irmãos serve como ilustração desse horizonte: “Now, as regards parents, brotherly love is of such sort that to love one’s brother is forthwith a proof of love for both mother and father; and again, as regards children, for them there is no lesson and example comparable to brotherly love on their father’s part” (Plutarch, De fraterno amore, in Mor. 480F). Aqui, porém, esse amor é ampliado e aplicado de modo mais abrangente (1:22) — como também ocorre em outros lugares — àqueles que pertencem à casa de Deus, isto é, ao seu povo entendido como família (Mark 3:35//Matt. 12:50//Luke 8:21).

Acompanhando o fio do argumento, assim como na parábola do semeador a semente é a palavra, logos (“palavra”), de Deus (Marcos 4:14, Lucas 8:11), tudo o que procede da geração humana é transitório (cf. 1:18), em contraste com o caráter dinâmico e duradouro da palavra de Deus. Essa palavra é apresentada como poder de Deus, introduzindo vida e salvação no mundo por meio da proclamação de Jesus Cristo (João 6:63, 68; 1 Coríntios 1:18; Filipenses 2:16; Hebreus 4:12; cf. 1 João 3:9). A tradução pode oscilar entre “palavra viva de Deus” e “palavra do Deus vivo”. Alguns preferem a segunda, porque “o Deus vivo” aparece no Antigo e no Novo Testamento em contraste com os ídolos mortos do paganismo (Atos 14:15; 1 Tessalonicesses 1:9; Hebreus 9:14). Entretanto, como a idolatria não é o foco aqui, a citação seguinte de Isa. 40:6–8 destaca a permanência da palavra de Deus, e a tradição cristã primitiva descreve a palavra de Deus como viva e permanente (Hebreus 4:12; 1 João 1:1; 2:14); por isso, a primeira opção é preferível (cf. WATSON; CALLAN, First and Second Peter, 2012, pp. 39-40).

1 Pedro 1:23 aprofunda o fundamento do v. 22 ao deslocar a origem do amor para uma origem ontológica: amar assim é possível porque houve um novo nascimento. O texto recusa “semente corruptível” e afirma “incorruptível”, isto é, a vida cristã não é enxerto frágil em tronco apodrecido, mas uma geração cuja fonte não se decompõe; a linguagem coincide com a teologia de João 1:13, onde o nascimento de Deus não se explica por sangue, carne ou vontade humana, mas por ação divina, e com João 3:3–6, onde “nascer de novo” é condição para ver o Reino. A “semente” aponta para linhagem: se a origem é corruptível, o fruto tende à corrupção; se a origem é incorruptível, há um princípio de permanência que sustenta perseverança e santidade, ecoando a lógica de 1 João 3:9, onde a “semente” de Deus explica a ruptura com o pecado como regime. Mas Pedro amarra o meio: essa geração ocorre “por meio da palavra de Deus, viva e permanente”; a palavra não é mero anúncio inicial, mas instrumento vivificante contínuo, convergindo com Tiago 1:18 (“Segundo a sua vontade, ele nos gerou pela palavra da verdade”) e com a doutrina paulina de que a fé nasce do ouvir a palavra de Cristo (Romanos 10:17). Ao qualificá-la como “viva”, ele se aproxima de Hebreus 4:12 (“Porque a palavra de Deus é viva e eficaz”), e ao chamá-la “permanente”, ele prepara a citação que virá logo adiante, onde o contraste entre a erva que seca e a palavra que permanece sustenta a segurança do evangelho (Isaías 40:6–8; 1 Pedro 1:24–25). Teologicamente, isso significa que o amor fraternal do v. 22 não é apenas mandamento: é expressão coerente de uma nova genealogia; quem foi gerado por palavra viva participa de uma vida que não se encerra no “eu”, mas se derrama no “nós”, porque o mesmo novo nascimento cria uma nova família (1 Pedro 2:2; 1 João 5:1). Assim, os dois versículos se fecham como duas margens do mesmo rio: a palavra viva gera, a verdade obedecida purifica, e o resultado inevitável é um amor sem máscara, intenso e de coração purificado, como sinal de que a vida incorruptível já começou a pulsar dentro da comunidade.

1 Pedro 1:24

Porque toda a carne é como a erva, e toda a sua glória como flor de erva; secou a erva, e a flor caiu. (Gr.: dioti pasa sarx hōs chortos kai pasa doxa autēs hōs anthos chortou; exēranthē ho chortos kai to anthos exepesen — Tradução literal: “Porque toda carne [é] como erva, e toda a sua glória como flor de erva; a erva secou e a flor caiu.”) Dentro do verso, a força imagética nasce do atrito entre o que parece sólido e o que se desfaz: sarx (“carne”) nomeia o humano no seu lado mais palpável e, por isso mesmo, vulnerável; é “carne” como matéria viva, mas também como condição que se gasta, e a tradição neotestamentária a usa tanto para o corpo quanto para a fragilidade do homem diante de Deus, como se vê em João 1:14 (“ho logos sarx egeneto” — “o Verbo se fez carne”). A comparação “como erva” acende o termo chortos (“erva”, “capim”), palavra que no grego bíblico aponta para a vegetação que brota e logo perde o viço, e é a mesma que reaparece no ensino de Mateus 6:30, quando a “erva do campo” é vestida por Deus (“ton chorton tou agrou” — “a erva do campo”). A seguir, doxa (“glória”) traz consigo uma história semântica que passa pelo brilho social (reputação, honra) e, no grego bíblico, se adensa como esplendor — aqui, porém, é a “glória dela”, autēs (“dela”), isto é, a ostentação breve do que é “carne”, como se a beleza fosse apenas um clarão curto na borda do tempo. Essa glória se chama anthos (“flor”), que é a face mais delicada do chortos (“erva”) e, por isso, a primeira a denunciar o fim: o verbo xērainō (“secar”) dá ao quadro o gesto do ressecar irreversível, e ekpiptō (“cair”, “despencar”, “desprender-se”) descreve a flor não como colhida, mas como perdida, como algo que se solta do caule por cansaço do mundo. Essa tessitura verbal é herdada do antigo cântico de Isaías 40:6–8 na LXX, onde o mesmo campo lexical (erva, flor, secar, cair) já fazia da linguagem uma ampulheta, e 1 Pedro 1:24 reapresenta essa herança com o mesmo metal e o mesmo brilho breve.

O período do v. 24 abre com dioti (“porque”), conjunção causal que ancora a sentença como fundamentação do que vem imediatamente antes, e em seguida ergue duas predicações nominais paralelas por elipse de cópula: pasa (“toda”), adjetivo, feminino, singular, nominativo, substantivado por concordância, determina sarx (“carne”), substantivo, feminino, singular, nominativo, que funciona como sujeito lógico de um estin (“é”) elíptico; hōs (“como”), partícula comparativa, introduz o predicativo comparativo chortos (“erva”), substantivo, masculino, singular, nominativo, que não é complemento verbal, mas termo de comparação do sujeito (“carne” → “erva”). A coordenação por kai (“e”), conjunção coordenativa, repete a mesma arquitetura: pasa (“toda”), adjetivo, feminino, singular, nominativo, determina doxa (“glória”), substantivo, feminino, singular, nominativo; autēs (“dela”), pronome pessoal, feminino, singular, genitivo, depende de doxa (“glória”) como genitivo de relação/pertencimento (“a glória pertencente a ela”), pois retoma anaforicamente o referente imediato (sarx, “carne”) e qualifica de quem é a “glória”, sem criar um novo núcleo; hōs (“como”) introduz o predicativo comparativo anthos (“flor”), substantivo, neutro, singular, nominativo; chortou (“de erva”), substantivo, masculino, singular, genitivo, depende de anthos (“flor”) como genitivo de especificação (“flor enquanto flor de erva”, isto é, flor que se define por pertencer ao domínio “erva”), porque o encaixe semântico não é partitivo (não é “uma parte da erva”), mas qualificativo (“flor de erva”, não “flor em geral”). O texto então abandona a elipse e introduz duas orações com verbo finito que narram o destino dos termos comparativos: exēranthē (“foi ressecada”), verbo, aoristo, indicativo, passivo, terceira pessoa, singular, tendo como sujeito explícito ho (“o”), artigo, masculino, singular, nominativo + chortos (“erva”), substantivo, masculino, singular, nominativo; o aoristo passivo concentra o evento como fato consumado (“murchou”), e o passivo destaca o resultado sofrido, não o agente. Em paralelismo, kai (“e”) coordena to (“a”), artigo, neutro, singular, nominativo + anthos (“flor”), substantivo, neutro, singular, nominativo, agora como sujeito de exepesen (“caiu”), verbo, aoristo, indicativo, ativo, terceira pessoa, singular; aqui o aoristo ativo igualmente compacta o acontecimento (“caiu”), e o ativo descreve o colapso do próprio sujeito (“a flor caiu”), sem necessidade de agente expresso.

A cadeia sintática constrói uma antítese por ritmo gramatical: primeiro, duas equações nominais sem verbo expresso (a cópula elíptica faz o leitor “ouvir” uma verdade proverbial, quase sentenciosa), e depois dois aoristos que encerram o veredito da comparação: o que é “carne” se iguala a “erva” e, portanto, “murcha”; o que é “glória” da carne se iguala a “flor” e, portanto, “cai”. Essa alternância (elipse → aoristo) não é ornamento: ela faz a imagem funcionar como argumento, porque o presente humano é dito como definição (“é como”), e o destino humano é dito como fato consumado (“foi ressecada… caiu”). A referência subjacente é Isaías 40:6–8, onde a fragilidade do humano (“toda a carne é erva”) é colocada sob o sopro do tempo e sob a estabilidade da palavra divina; Pedro reinsere essa cadência em sua própria sequência, que já vinha falando de nova geração “não de semente corruptível, mas incorruptível” (1 Pedro 1:23), de modo que “carne/erva” funciona como o polo do perecível, e “palavra” como o polo do imperecível. A sintaxe, portanto, não apenas descreve um cenário: ela separa dois regimes de permanência, o do que se dissolve (carne) e o do que subsiste (palavra), preparando o leitor para entender por que a esperança e a santidade não podem ser penduradas na “glória” do efêmero (cf. Salmos 103:15–16; Tiago 1:10–11).

O grego da NA28 ancora o quadro na universalidade concreta de sarx (“carne”) e na imagem vegetal de chortos (“erva/relva”) e anthos (“flor”), com a glória descrita como “dela” (o genitivo de autēs (“dela”) retomando “carne”): por isso, quando a KJV verte “all flesh is as grass, and all the glory of man as the flower of grass” (“toda carne é como a erva, e toda a glória do homem como a flor da erva”), ela preserva bem “toda carne… como erva”, mas explicita “do homem” onde o grego traz mais nuamente “toda a glória dela”. A ASV se aproxima ainda mais desse “dela” ao dizer “All flesh is as grass, And all the glory thereof as the flower of grass” (“toda carne é como a erva, e toda a glória dela como a flor da erva”), acompanhando mais de perto doxa autēs (“glória dela”). A ESV igualmente mantém essa linha literal: “all flesh is like grass and all its glory like the flower of grass” (“toda carne é como relva/erva, e toda a glória dela como a flor da erva”), ficando muito rente ao encaixe de autēs (“dela”). A NET também conserva “its glory” (“glória dela”) e o paralelismo comparativo (“like… like…”), o que conversa bem com o duplo hōs (“como”) do grego. 

Já a YLT é a que mais “deixa ver” o sabor formal do período, inclusive no ritmo: “all flesh is as grass, and all glory of man as flower of grass; wither did the grass, and the flower of it fell away” (“toda carne é como a erva… a erva secou, e a flor dela caiu”), preservando inclusive o relevo do aoristo em inglês (“wither did… fell away”), onde várias versões preferem o presente gnômico (“withers… falls”). Em português, o contraste mais decisivo, diante de pasa sarx (“toda carne”), está entre versões que mantêm “carne” e as que interpretam como “pessoas/humanidade”: a ARC diz “toda a carne é como a erva” (“carne” fica exposto, sem suavização), enquanto a NVI reinterpreta “toda a humanidade é como a relva”, a NTLH generaliza “todos são como a erva” e a NVT explicita “as pessoas são como a grama”; essas últimas ajudam o leitor moderno, mas se afastam da literalidade de sarx (“carne”) e apagam a aspereza deliberada da imagem bíblica.

A sentença funciona como uma lâmina que separa aparência de substância: sarx (“carne”) não é apenas corpo, mas a condição humana na sua fragilidade histórica, e por isso a comparação com chortos (“erva”) não é mero ornamento poético, mas diagnóstico da temporalidade; o que se impõe aos olhos como doxa (“glória”, isto é, brilho, prestígio, esplendor reputacional) é descrito como anthos (“flor”), precisamente porque a flor é o ápice da erva e, ao mesmo tempo, a sua parte mais breve. O versículo, ao ecoar Isaías 40:6–8, reenquadra a vida do povo em exílio — a grande cena de consolo de Isaías — para dentro da peregrinação cristã: a mesma “voz” que mandava clamar a caducidade humana agora sustenta a ética da esperança e da santidade, porque o evangelho não se apoia na durabilidade do homem, mas na fidelidade de Deus. Assim, o colapso do chortos não é apenas biológico (“murcha”), mas teológico: tudo o que é humano, inclusive sua “glória”, é incapaz de servir de fundamento último; a Escritura faz o leitor sentir o vento que passa sobre a flor e a leva, como no cântico de Salmos 103:15–17, para que a alma aprenda a não fazer morada no que se desfaz.

1 Pedro 1:25

Mas a palavra do Senhor permanece para o século; e esta é a palavra anunciada como boas-novas a vós. (Gr.: to de rhēma kyriou menei eis ton aiōna; touto de estin to rhēma to euangelisthen eis hymas — Tradução literal: “Mas a palavra do Senhor permanece para o século; e esta é a palavra — a evangelizada a vós.”) Se o verso anterior mostra o que o tempo devora, este mostra o que o tempo não mastiga: rhēma (“palavra”, no sentido de dito, enunciado) aponta para a palavra enquanto pronunciamento efetivo, não apenas como ideia abstrata. Ao ser qualificada como kyriou (“do Senhor”), a “palavra” ganha estatuto de autoridade — não é ruído humano, mas fala soberana. O verbo menō (“permanecer”) desenha, na própria forma, uma ideia de continuidade resistente, e aparece como verbo de fixação e constância também em João 15:4 (“meinate en emoi” — “permanecei em mim”). A expressão eis ton aiōna (“para o século”, “para o tempo indefinido”) faz a duração soar como horizonte, porque aiōn (“século”, “era”) é termo de tempo largo, não um minuto contado, mas um “período” que atravessa gerações. Por fim, euangelizō (“anunciar boas-novas”) — aqui na forma passiva euangelisthen (“foi anunciado como boas-novas”) — deixa explícito que essa permanência não fica em abstrato: ela chega como proclamação dirigida, “a vós”, e o termo carrega a marca de anúncio público e jubiloso, como notícia que se espalha por voz e ouvido.

A oração do v. 25 abre com to (“o”), artigo, neutro, singular, nominativo, que substantiva e delimita o núcleo rhēma (“palavra”), substantivo, neutro, singular, nominativo, sujeito de menei (“permanece”), verbo, presente, indicativo, ativo, terceira pessoa, singular; o presente, em contraste com os aoristos do versículo anterior, não descreve um ponto encerrado, mas uma permanência em curso (“segue permanecendo”). De (“porém”), partícula adversativa, marca o contraste formal com o que “murcha” e “cai”. Kyriou (“do Senhor”), substantivo, masculino, singular, genitivo, depende de rhēma (“palavra”) como genitivo de origem/pertencimento: pelo encaixe, a “palavra” é caracterizada como procedente do “Senhor” (não apenas “sobre o Senhor”), e por isso o genitivo é melhor lido como fonte/posse do enunciado. A extensão temporal é expressa por eis (“para”), preposição que rege acusativo, aqui com valor semântico de alcance/duração (“até/para dentro de” um horizonte temporal): ton (“o”), artigo, masculino, singular, acusativo + aiōna (“século/era”), substantivo, masculino, singular, acusativo, formando o adjunto adverbial “para o sempre/para a era”. 

A segunda oração identifica de modo deíctico essa “palavra”: touto (“isto”), pronome demonstrativo, neutro, singular, nominativo, é o sujeito de de (“e/porém”) + estin (“é”), verbo, presente, indicativo, ativo, terceira pessoa, singular, que introduz uma predicação nominal; o predicativo é to (“a”), artigo, neutro, singular, nominativo + rhēma (“palavra”), substantivo, neutro, singular, nominativo, retomando o mesmo núcleo. O segundo artigo to (“a”), artigo, neutro, singular, nominativo, não inicia novo sintagma, mas marca função atributiva: ele prende ao nome o particípio euangelisthen (“evangelizada/anunciada como boa-nova”), particípio, aoristo, passivo, neutro, singular, nominativo, que depende de rhēma (“palavra”) como modificador adjetival (“a palavra, a que foi anunciada”), e o aoristo passivo fixa o ato proclamativo como evento já ocorrido, com foco no resultado recebido. Por fim, eis (“para”), preposição que rege acusativo, tem aqui valor direcional com matiz de destinatário/alcance do anúncio; hymas (“vós”), pronome pessoal, segunda pessoa, plural, acusativo, funciona como termo regido (“para vós”), amarrando sintaticamente o destino da proclamação.

O contraste é selado pela mudança aspectual: onde o aoristo fechou a erva e a flor como eventos já terminados, o presente menei (“permanece”) sustenta a “palavra do Senhor” como continuidade, e eis ton aiōna (“para o sempre”) fixa o horizonte temporal não como metáfora vaga, mas como extensão semântica governada por eis + acusativo. A oração seguinte, com touto… estin… to rhēma, realiza uma identificação quase litúrgica: “isto” (o que acaba de ser citado) “é” a palavra, e essa palavra é precisamente a que “foi anunciada” a vós — o particípio aoristo passivo (euangelisthen) prende o anúncio ao acontecimento histórico da proclamação do evangelho, como em Romanos 10:17 (a fé ligada ao ouvir a palavra) e em Isaías 40:9 (o anúncio das boas-novas, que no pano de fundo profético se associa à chegada do reinado de Deus). Assim, a sintaxe faz duas coisas ao mesmo tempo: fixa a origem (“do Senhor”) e fixa o destino (“para vós”), e entre origem e destino estabelece a ponte da permanência, de modo que o “evangelho” não aparece como discurso passageiro, mas como palavra que atravessa o tempo sem perder substância — uma permanência que contrasta, com precisão quase cortante, com a glória que cai.

O grego prende a permanência no verbo menei (“permanece”) e na expressão eis ton aiōna (“para o século/era”), e insiste em rhēma (“palavra/dito”), não em logos (“palavra/razão/discurso”): por isso, quando a KJV diz “the word of the Lord endureth for ever” (“a palavra do Senhor perdura para sempre”), ela verte bem menei (“permanece”), embora “endureth” (“perdura”) seja uma opção inglesa mais interpretativa do que “remains” (“permanece”). A ASV usa “abideth for ever” (“permanece para sempre”), muito aderente ao valor durativo do presente menei (“permanece”). A ESV, ao dizer “the word of the Lord remains forever” (“a palavra do Senhor permanece para sempre”), fica especialmente transparente ao grego. A NET mantém o mesmo eixo (“endures forever”), igualmente fiel ao sentido, mas com léxico inglês um pouco mais “dinâmico” que “remains”. 

A YLT é a que mais encosta na forma idiomática do grego ao traduzir eis ton aiōna (“para o século/era”) como “to the age”: “the saying of the Lord doth remain — to the age” (“o dito do Senhor permanece — para a era”), o que, embora soe menos natural, é o espelho mais direto do sintagma grego. Na segunda cláusula, o ponto de fidelidade está no particípio euangelisthen (“anunciado como boas-novas”): a KJV diz “this is the word which by the gospel is preached unto you” (“esta é a palavra que, pelo evangelho, é pregada a vós”), inserindo “gospel” como substantivo onde o grego exprime a ação de “evangelizar/anunciar boas-novas”; a ESV torna isso mais visível ao dizer “this word is the good news that was preached to you” (“esta palavra é a boa notícia que vos foi pregada”), e a YLT explicita o verbo de “boas-novas”: “the saying... proclaimed good news to you” (“o dito… proclamado como boas-novas a vós”). Em português, a ARC é particularmente próxima do particípio ao dizer “E esta é a palavra que entre vós foi evangelizada”, mantendo a ideia verbal que o grego carrega; a NVT também preserva bem o núcleo ao ler “essa palavra é a mensagem das boas-novas que lhes foi anunciada”, e a NVI simplifica para “Essa é a palavra que lhes foi anunciada”, enquanto a NTLH parafraseia a mediação (“Esta é a palavra que o evangelho trouxe para vocês”), tornando o enunciado mais explicativo do que o grego exige.

O contraste do v. 25 não é entre “poesia” e “prosa”, mas entre dois regimes de permanência: a glória humana cai (exepesen), enquanto o rhēma (“palavra pronunciada, dito eficaz”) do Senhor “permanece” (menei), verbo de duração contínua que o Novo Testamento emprega para aquilo que não se dissolve no fluxo do tempo. Ao assumir Isaías 40:8 dentro do anúncio cristão, o texto faz uma hermenêutica explícita: a “palavra de nosso Deus” que “permanece eternamente” em Isaías é identificada como o evangelho efetivamente pregado aos destinatários; não se trata de trocar “Escritura” por “pregação”, mas de declarar que a pregação apostólica é a atualização histórica, para “vós”, da palavra profética que já se mostrava indestrutível. Por isso o versículo pode, ao mesmo tempo, fincar raízes no Antigo Testamento e projetar-se no Novo: a palavra que não volta vazia em Isaías 55:10–11 é a mesma que, ao ser recebida, é acolhida “não como palavra de homens, mas... como palavra de Deus” em 1 Tessalonicenses 2:13, e a mesma cuja indestrutibilidade o próprio Cristo sela em Mateus 24:35; nesse entrelaçamento, a fé aprende a distinguir o que passa (carne, glória, flor) e o que fica (o dizer de Deus), e a ética cristã deixa de ser um esforço apoiado em energia humana para tornar-se resposta obediente a uma palavra que permanece e, por permanecer, cria futuro.

IV. Devocional 1 Pedro 1

Este conjunto de meditações nasce do próprio movimento de 1 Pedro 1: primeiro Deus ergue o fundamento — uma esperança viva ancorada na misericórdia e numa herança que não se corrompe — e, em seguida, chama o coração a responder com mente cingida, sobriedade, santidade e amor. O capítulo não permite uma devoção etérea: ele transforma a fé em postura concreta diante da dor, em disciplina do pensamento, em reverência filial, e em vínculos que se tornam visíveis no cotidiano, seja no lar, na igreja ou na vida pública. Por isso, as seções abaixo procuram acompanhar o texto como quem caminha por uma estrada: da identidade de “peregrinos eleitos” até a palavra que permanece, mostrando como a graça se torna caráter e como o evangelho, recebido por anúncio e sustentado pelo Espírito, se traduz em obediência, esperança e amor que atravessam gerações.

A. Peregrinos eleitos: a vida cristã começa com identidade antes de tarefa.

Em 1 Pedro 1, a primeira palavra que molda o coração não é “faça”, mas “quem vocês são”: “eleitos” e “forasteiros”, gente que vive no mundo sem pertencer ao seu centro de gravidade, como quem mora numa cidade e, ao mesmo tempo, carrega outra pátria no peito. Essa dupla identidade impede dois naufrágios espirituais: a assimilação (virar apenas “mais um” no Império) e a fuga (abandonar o chão concreto da história). O capítulo começa, portanto, desenhando um modo de existir: caminhar com a leveza de quem sabe de onde veio e para onde vai, e por isso consegue amar, sofrer e obedecer sem idolatrar nada.

Essa condição de “forasteiro” não significa desamparo, mas pertença: o salmista consegue dizer que habita “com” Deus como estrangeiro, e isso impede que a alma transforme o chão em trono (Salmos 39:12). Ao mesmo tempo, a peregrinação bíblica não autoriza indiferença: mesmo no exílio, o povo é chamado a buscar o bem-estar da cidade onde vive e a orar por ela, para que a fé se torne presença benigna, não fuga amarga (Jeremias 29:7). No Novo Testamento, essa tensão vira música nítida: “a nossa cidadania está nos céus”, e exatamente por isso o crente aprende a viver com lealdades ordenadas, sem vender a consciência ao presente nem abandonar o próximo à própria sorte (Filipenses 3:20). E ele caminha como os antigos que “confessaram que eram estrangeiros e peregrinos na terra”, mostrando que esperança não é evasão, mas direção (Hebreus 11:13).

B. Esperança viva: relação com Deus como origem, não como prêmio.

O impulso devocional do capítulo nasce da iniciativa divina: “misericórdia” que faz “renascer para uma viva esperança” e amarra essa esperança a uma herança que não apodrece, não perde o brilho e não se desfaz com o tempo. Isso reorienta a oração diária: Deus não é o degrau que se sobe quando se melhora, mas o Pai que gera vida quando não havia força, e guarda o peregrino quando ele não consegue guardar a si mesmo. Nessa atmosfera, “paz” deixa de ser anestesia e vira reconciliação real, como fruto de uma justificação que transforma o medo em repouso responsável.

Essa esperança viva não nasce do desempenho, mas do caráter fiel de Deus: o mesmo Senhor cujas misericórdias “se renovam cada manhã” e impedem que a vida seja consumida pelo peso do dia é aquele que, “conforme a sua grande misericórdia”, regenera para uma esperança que respira e aponta para uma herança guardada, não fabricada (Lamentações 3:22–23; 1 Pedro 1:3–4). E quando essa esperança se torna o eixo da oração, a paz deixa de ser um torpor emocional e passa a ser o estado objetivo de reconciliação: “justificados pela fé, temos paz com Deus”, de modo que até as tribulações, sem serem desejadas, podem ser atravessadas como caminho onde perseverança e caráter aprovado amadurecem a esperança, em vez de destruí-la (Romanos 5:1–5).

C. Provações: a dor como oficina onde a fé ganha corpo e peso.

O capítulo não romantiza o sofrimento, mas o interpreta: “tristeza por várias provações” não aparece como sinal de abandono, e sim como fogo que prova a fé, separando o ouro do verniz, para que aquilo que se crê não dependa do clima do dia. A aplicação moral é direta: quando o cristão sofre sem se tornar cínico, ele testemunha que existe uma alegria que não é refém de circunstâncias; e quando sofre sem se tornar violento, ele prova que a esperança não é fantasia, mas disciplina do coração. A mesma lógica aparece quando Tiago descreve a provação como caminho de maturidade, não como capricho do acaso.

A dor, em 1 Pedro 1, é tratada como fogo de ourives: não um incêndio cego que consome sentido, mas uma chama que revela o que é ouro e o que é verniz, porque “o Senhor prova o coração” (Provérbios 17:3) e faz passar o seu povo “pelo fogo”, purificando-o “como se purifica a prata” e provando-o “como se prova o ouro” (Zacarias 13:9). A mesma imagem aparece quando o mensageiro do Senhor é descrito “como o fogo do ourives”, que se assenta para refinar e purificar (Malaquias 3:2–3), e Pedro a aplica pastoralmente às “várias provações” que entristecem por um pouco, “para que a prova da vossa fé... se ache em louvor, e honra, e glória, na revelação de Jesus Cristo” (1 Pedro 1:6–7). Por isso a exortação não é negar a tristeza, mas recusar o desespero: a provação pode ser recebida como campo de maturidade, onde a perseverança cresce até completar o caráter (Tiago 1:2–4), porque o sofrimento presente não tem a última palavra diante da glória que será revelada (Romanos 8:18) e porque a aflição, ainda que pareça pequena e momentânea quando comparada ao fim, “produz... uma glória... eterna” que pesa mais do que ela (2 Coríntios 4:17).

D. Profetas, evangelho e anjos: humildade intelectual e gratidão histórica.

1 Pedro 1 ensina a ler a própria fé como herança recebida: profetas serviram à posteridade, o evangelho foi anunciado “pelo Espírito Santo enviado do céu”, e até “anjos” desejam perscrutar a grandeza dessa obra. Para a devoção, isso produz dois frutos: humildade (a fé não nasce do próprio gênio) e gratidão (a fé chegou por caminhos concretos, por pregadores reais, por história real). Para quem prega, já é um aviso: o centro não é o pregador, mas o evangelho que Deus faz chegar e permanecer.

Há uma pedagogia de Deus no modo como a luz chega: “as coisas encobertas pertencem ao SENHOR”, mas aquilo que Ele revela nos pertence “a nós e a nossos filhos” para obedecer (Deuteronômio 29:29). Por isso, a perplexidade dos profetas não é defeito, é vocação: Daniel ouve e confessa “não entendi”, e recebe como resposta que certas palavras ficam “encerradas e seladas” até o tempo devido (Daniel 12:8–9). Quando Jesus declara que “muitos profetas e justos desejaram ver o que vedes e não viram” (Mateus 13:17), ele ensina que a gratidão cristã nasce do contraste entre promessa e cumprimento: aquilo que foi servido em anúncio agora chega em evangelho, “pelo Espírito Santo enviado do céu”, e justamente por isso “anjos anelam perscrutar” (1 Pedro 1:12). E se os anjos, “valorosos em poder”, obedecem à voz da palavra de Deus (Salmos 103:20) e são “espíritos ministradores, enviados para serviço a favor dos que hão de herdar a salvação” (Hebreus 1:14), então a humildade e a gratidão do crente se tornam inevitáveis: não se trata de possuir a fé como conquista privada, mas de receber a fé como história revelada, conduzida por Deus, entregue por mensageiros reais, e digna de reverência até mesmo para aqueles que contemplam o céu por dentro.

E. Mente cingida, sobriedade e santidade: ética que começa no pensamento e se derrama na conduta.

Quando Pedro manda “cingir” a mente e ser sóbrio, ele está dizendo que o discipulado começa como governo interior: pensamentos soltos geram vida solta; esperança confusa produz obediência intermitente; mas mente preparada sustenta perseverança. A santidade, aqui, não é pose religiosa: é o modo como a esperança vira caráter, e o caráter vira decisões, e as decisões viram testemunho. E quando o capítulo ecoa “sede santos, porque eu sou santo”, ele puxa a raiz veterotestamentária da santidade como pertencimento a Deus, chamando o leitor a uma vida que não negocia o coração com as “paixões” de antes. A sobriedade apostólica, assim, não é empobrecimento de vida, mas lucidez para amar bem, trabalhar bem, e resistir ao autoengano.

Quando Pedro exige que a mente seja “preparada” e “sóbria”, ele está ensinando que a santidade não começa no gesto visível, mas no governo do interior: se o coração é a fonte, então a vigilância espiritual é, antes de tudo, uma guarda de nascentes, “sobre tudo o que se deve guardar, guarda o teu coração” (Provérbios 4:23). A consequência é que a esperança deixa de ser sentimento oscilante e passa a ser direção: uma mente renovada aprende a resistir ao molde do século e a discernir a vontade de Deus (Romanos 12:2), exatamente como 1 Pedro 1:13–16 manda “cingir o entendimento”, ser sóbrio e esperar inteiramente, porque a obediência cristã não é improviso, é lucidez perseverante (1 Pedro 1:13–16). E essa lucidez não tem como padrão o medo, mas o próprio caráter do Senhor: “Santos sereis, porque eu, o SENHOR vosso Deus, sou santo” (Levítico 19:2), de modo que a ética nasce como resposta de amor reverente: não se trata de empobrecer a vida, mas de purificá-la por dentro, para que cada escolha por fora seja coerente com a esperança que Deus acendeu.

F. Temor filial e resgate: a reverência que nasce do preço pago.

O capítulo coloca “temor” ao lado de “Pai” para curar duas distorções: intimidade sem reverência e reverência sem intimidade. A vida diária passa a ser vivida “no temor”, não como pânico, mas como respeito lúcido diante de um Deus que julga com justiça e que, ao mesmo tempo, resgata com amor. O argumento moral é forte: a dignidade do cristão não vem de status social, mas do resgate; e esse resgate não é descrito como barato, pois o texto aponta para o “sangue” de Cristo e para a imagem do cordeiro sem defeito, que naturalmente faz a memória correr para a Páscoa. Assim, a ética cristã no mundo romano (e no mundo de hoje) não é moralismo: é gratidão obediente diante de um preço que não se compra com “prata ou ouro”.

Esse “temor” filial, longe de ser pânico, é a forma como a graça educa a liberdade: é reverência inteligente diante de um Pai que julga com justiça e que, precisamente por isso, não permite que a vida se dissolva em frivolidade, pois “o temor do SENHOR é o princípio do conhecimento” (Provérbios 1:7). Em 1 Pedro 1:17–19, essa reverência é explicitamente amarrada ao resgate: vive-se “com temor” no tempo do exílio porque se sabe que não se foi comprado por coisas perecíveis, “como prata ou ouro”, mas pelo sangue precioso de Cristo, “como de cordeiro sem defeito” (1 Pedro 1:17–19), imagem que faz eco direto ao cordeiro pascal “sem defeito” (Êxodo 12:5). Assim, a moral cristã não nasce do medo de perder aceitação, mas do assombro de ter sido alcançado por um preço santo: o sangue que resgata não apenas muda o destino, ele purifica a consciência e reorienta o serviço, para que a obediência deixe de ser barganha e se torne culto vivido (Hebreus 9:14).

G. Amor fraternal: virtude social que torna visível o invisível.

1 Pedro 1 não deixa o leitor esconder a fé no privado: ele exige que a purificação do coração se prove no amor “de coração, ardentemente”. É aqui que o capítulo toca a vida doméstica e comunitária: amor não é apenas afeto, mas prática; e prática não é apenas palavras, mas ação verificável. Para um bom filho, isso significa obediência que não é servil, mas justa e honrosa; para pais e mães, significa criar sem provocar, formando o coração dos filhos no caminho do Senhor; para todos, significa que o amor cristão vira uma espécie de “política do Reino” dentro das relações comuns, onde a fé se torna legível para quem observa de fora.

Quando 1 Pedro 1 exige “amor fraternal não fingido” e manda amar “de coração… ardentemente”, ele descreve uma espiritualidade que se torna verificável justamente naquilo que não se finge por muito tempo: o trato cotidiano, a paciência, o perdão, a constância do bem (1 Pedro 1:22–23). Essa exigência não cai do céu sem raízes: ela retoma a gramática da aliança em que o próximo não é um obstáculo, mas o campo onde a fidelidade a Deus ganha carne — “amarás o teu próximo como a ti mesmo” não é adereço moral, é mandamento estruturante (Levítico 19:18). E, no Novo Testamento, esse amor deixa de ser apenas virtude interna da comunidade e se torna sinal público, quase um “selo” visível: “nisto todos conhecerão que sois meus discípulos” quando o amor é praticado de modo reconhecível (João 13:34–35). Por isso, também no lar — onde o coração é educado antes de ser exibido — esse amor precisa ser semeado como hábito, pela repetição diária de uma palavra que acompanha a vida “assentado… andando… deitando… levantando”, formando filhos e filhas para um amor que não depende de ocasião, mas de formação (Deuteronômio 6:6–7).

H. Palavra que permanece: formação espiritual e transmissão geracional.

O capítulo fecha com a imagem decisiva: a vida nova acontece “pela palavra de Deus, a qual vive e é permanente”, e isso é ancorado na fragilidade humana (“toda carne é como erva”) em contraste com a permanência da palavra do Senhor. Devocionalmente, isso dá chão ao coração ansioso: pessoas mudam, humores variam, impérios passam, mas a palavra permanece; por isso, a aproximação de Deus não depende de momentos raros de entusiasmo, mas de uma fidelidade cotidiana ao que permanece quando tudo passa. Para quem é genitor, o caminho concreto é claro: a fé se transmite por repetição paciente, conversa contínua, ensino em casa, no trajeto, no cotidiano, como quem planta uma semente que cresce sob o tempo de Deus; e isso se alinha com a vocação de educar a criança no caminho, não por controle, mas por presença e direção.

Quando Pedro descreve o novo nascimento como algo gerado “pela palavra de Deus, viva, e que permanece para sempre” e fecha afirmando que “a palavra do Senhor permanece para sempre” (1 Pedro 1:23–25), ele está colocando o coração do cristão sobre um chão que não afunda: pessoas e épocas murcham, mas a voz de Deus não murcha. E o próprio capítulo deixa ver o pano de fundo: essa confiança é a mesma de Isaías, onde a fragilidade humana é comparada à erva e à flor, enquanto “a palavra de nosso Deus subsiste eternamente” (Isaías 40:6–8), de modo que a fé aprende a respirar não na estabilidade do mundo, mas na estabilidade do Deus que fala. Para quem é pai ou mãe, isso se traduz em liturgia doméstica simples e insistente: a palavra primeiro “no coração” e, depois, conversada e ensinada aos filhos no ritmo real da vida, sentado em casa, andando pelo caminho, ao deitar e ao levantar (Deuteronômio 6:6–7), porque a permanência da palavra pede repetição paciente, não entusiasmos raros. E para quem prega, a mesma permanência corrige a tentação de “inventar” alimento espiritual conforme a pressão do tempo: é a Escritura, inspirada e útil, que forma, corrige e equipa “para toda a boa obra” (2 Timóteo 3:16–17), de maneira que o ministério se torne transmissão fiel do que permanece, não performance do que passa.

I. Para pregadores: fidelidade, coragem e mansidão sob pressão.

Se 1 Pedro 1 lembra que o evangelho foi anunciado “pelo Espírito Santo”, isso não autoriza exibicionismo espiritual; antes, exige fidelidade: pregar “a palavra” com paciência, doutrina e firmeza, mesmo quando o ambiente se torna hostil à verdade. O pregador saudável é, ao mesmo tempo, servo e despenseiro: não inventa o conteúdo, administra o que recebeu; não busca aplauso, busca ser encontrado fiel. E a sobriedade exigida do cristão comum se torna ainda mais urgente no púlpito: esperança firme, mente cingida, e coração livre do desespero e da vaidade.

Para o pregador, 1 Pedro 1:12 lembra que o evangelho não é “propriedade” de quem anuncia, mas mensagem entregue “pelo Espírito Santo enviado do céu” (1 Pedro 1:12), de modo que a autoridade do púlpito não nasce do carisma, e sim da fidelidade ao depósito recebido. Por isso, a medida bíblica do ministério não é aplauso, mas obediência perseverante: “prega a palavra” (2 Timóteo 4:2), e faze-o com prontidão e paciência, porque o conteúdo não é inventado — é administrado — como “servos de Cristo e despenseiros dos mistérios de Deus”, dos quais se requer que sejam achados fiéis (1 Coríntios 4:1–2). O Antigo Testamento dá o mesmo peso: “quem tem a minha palavra, fale-a fielmente” (Jeremias 23:28), e o atalaia é responsabilizado quando se cala diante do perigo moral (Ezequiel 33:7–9), de modo que coragem e mansidão caminham juntas — firmeza no aviso, humildade no tom, e temor de Deus acima do medo de homens.

J. Para cidadania: o peregrino faz o bem sem idolatrar o Estado nem odiar a cidade.

Embora 1 Pedro 1 foque a identidade e a santidade, ele prepara o terreno para a ética pública da epístola: o cristão é forasteiro, mas não é inútil; ele busca a paz da cidade, honra autoridades como ordem providencial, e se submete “por causa do Senhor”, sem perder a consciência de que sua lealdade última é a Deus. Isso forma bons cidadãos justamente porque forma pessoas difíceis de corromper: quem teme a Deus e foi resgatado por preço alto não vende a alma por conveniência, mas também não transforma discordância em violência. A peregrinação, aqui, não é deserção; é presença responsável, pacífica e firme, que trabalha pelo bem comum enquanto espera a herança que não passa.

Na ética pública que a própria epístola desenvolve, a peregrinação cristã não vira hostilidade contra a cidade, mas responsabilidade diante de Deus dentro dela: o exilado bíblico é instruído a buscar o bem-estar do lugar onde vive e a orar por ele, porque sua própria paz se amarra à paz do entorno (Jeremias 29:7). Isso dá conteúdo à cidadania: agir com justiça, amar a misericórdia e caminhar com humildade diante do Senhor (Miquéias 6:8), sustentar a vida pública com intercessão “por reis e por todos os que exercem autoridade” para que haja vida tranquila e piedosa (1 Timóteo 2:1–2), e praticar uma submissão “por causa do Senhor” às autoridades humanas como forma de fazer o bem e silenciar a insensatez, sem confundir liberdade com licença (1 Pedro 2:13–17). Mas essa honra não é idolatria política: Jesus delimita as lealdades — dar a César o que é de César e a Deus o que é de Deus (Mateus 22:21) — e, quando a ordem humana exige a traição do mandamento divino, a consciência apostólica fixa o limite: “É preciso obedecer a Deus antes que aos homens” (Atos 5:29).

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GALVÃO, Eduardo. 1 Pedro 1: Significado, Explicação e Devocional. Biblioteca Bíblica. [S. l.], 4 jun. 2020. Disponível em: [Cole o link sem colchetes]. Acesso em: [Coloque a data que você acessou este estudo, com dia, mês abreviado, e ano].

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