Por que o nome de Saulo mudou para Paulo?

Há uma ideia muito repetida — e quase sempre mal compreendida — de que “Saulo virou Paulo” como se tivesse ocorrido uma troca oficial de nome, no estilo “Abrão virou Abraão”. Só que, quando se segue o rastro do próprio texto bíblico, a história fica mais nítida: o que aparece em Atos não é uma “renomeação” formal, mas a transição do uso de um nome para o outro, conforme a narrativa avança e conforme o cenário missionário muda. O centro da resposta, portanto, não é uma lenda piedosa nem um segredo escondido, mas a forma como Lucas conta a história e como o próprio apóstolo se apresenta em suas cartas.

Neste artigo você vai entender:

  • Onde “Saulo” aparece pela primeira vez e em que contexto;

  • Quando Atos passa a usar “Paulo” e o que está acontecendo naquele momento;

  • O que a Bíblia diz (e o que ela não diz) sobre “mudança de nome”;

  • Por que isso faz sentido no mundo judeu e greco-romano do século I.

  • Outros exemplos e significados sobre mudança de nome na Bíblia.

1) Saulo e Paulo eram duas pessoas? Não: é o mesmo homem, visto por dois nomes

No livro de Atos, o primeiro registro do futuro apóstolo aparece ligado ao martírio de Estêvão: ele é apresentado como “um jovem chamado Saulo” (Atos 7:58). A partir daí, Lucas continua usando “Saulo” em episódios que descrevem sua perseguição à igreja e sua trajetória antes do grande chamado (Atos 8–9).

O ponto decisivo é que Atos não sugere que “Saulo” fosse um nome falso nem que “Paulo” fosse um apelido improvisado tardiamente; ao contrário, o texto marca explicitamente que se trata do mesmo indivíduo que também era conhecido por outro nome. É justamente por isso que a pergunta bíblica correta não é “quando ele trocou de nome?”, mas “quando a narrativa passa a preferir um nome em vez do outro — e por quê?”

2) Quando Atos passa a usar “Paulo”? A virada acontece no início da missão aos gentios

Em Atos 13, durante a missão em Chipre, o texto introduz uma frase-chave que funciona como dobradiça: Lucas identifica Saulo como alguém “também chamado Paulo” e, a partir dali, a narrativa passa a chamá-lo predominantemente de “Paulo”.

Isso ocorre no mesmo bloco narrativo em que aparece um personagem romano relevante (Sérgio Paulo) e em que o conflito missionário se intensifica (Paulo confronta Elimas/Barjesus). O dado bíblico seguro é: a mudança de uso do nome, em Atos, coincide com a passagem para uma fase mais abertamente voltada ao mundo greco-romano e à expansão entre os gentios. O texto, porém, não afirma em palavras diretas a motivação psicológica ou administrativa dessa preferência; ele apenas a registra como fato narrativo.

3) Jesus “mudou o nome” de Saulo no caminho de Damasco? Atos não diz isso

Muita gente imagina que o novo nome teria sido dado na conversão. Só que, em Atos, mesmo depois do encontro com Cristo, o personagem continua sendo “Saulo” por um bom trecho. Além disso, quando Cristo o chama na experiência dramática do caminho, o vocativo preservado é “Saulo” (Atos 9; e também no relato posterior diante de autoridades).

No relato do encontro no caminho, o vocativo preservado é explicitamente “Saul/Saulo”, repetido duas vezes, como fórmula de chamado direto e solene. Em Atos 9:4 lê-se: (Gr.: Σαοὺλ Σαούλ, τί με διώκεις; Saoul Saoul, ti me diōkeis? — “Saulo, Saulo, por que me persegues?”). A própria construção — o nome duplicado no vocativo — é a moldura literária do “chamado” (não um detalhe decorativo), porque coloca a identidade do interpelado no centro do ato de fala: Cristo não o convoca por um “nome novo”, mas o encontra e o fere com luz usando o nome pelo qual ele era conhecido na história que vinha até ali.

Essa observação não fica isolada no primeiro relato; ela reaparece quando Paulo narra o acontecimento diante de autoridades, e justamente ali Lucas acrescenta um dado decisivo: a voz foi ouvida “na língua hebraica”, e ainda assim o chamado preservado continua sendo “Saulo”. Em Atos 26:14 o texto diz: (Gr.: ... φωνὴν λέγουσαν πρὸς με τῇ Ἑβραΐδι διαλέκτῳ· Σαοὺλ Σαούλ, τί με διώκεις; ... phōnēn legousan pros me tē Hebraidi dialektō: Saoul Saoul, ti me diōkeis? — “... uma voz dizendo-me, na língua hebraica: Saulo, Saulo, por que me persegues?”). A passagem insiste em duas coisas ao mesmo tempo: o idioma do chamado e o nome do chamado; e, no próprio tecido do grego, “Saoul” não aparece como “nome antigo abandonado”, mas como o nome que Cristo usa quando o detém.

Além disso, Atos faz questão de manter “Saulo” como designação narrativa mesmo depois do encontro com Cristo. Ainda em Atos 9, após a queda e a cegueira, Lucas escreve: (Gr.: ἠγέρθη δὲ Σαῦλος... ēgerthē de Saulos... — “Levantou-se, porém, Saulo...”), e, quando o Senhor envia Ananias, ordena que ele procure “Saulo” pelo nome: (Gr.: ... ζήτησον ... Σαῦλον ὀνόματι Ταρσέα ... zētēson ... Saoulon onomati Tarsea — “... procura ... Saulo, chamado Tarseu”). E quando Ananias finalmente o encontra, a saudação registrada é: (Gr.: Σαοὺλ ἀδελφέ Saoul adelphe — “Saulo, irmão”). Ou seja: o próprio Senhor, o mensageiro e o narrador continuam a operar com “Saulo” no pós-encontro imediato; isso torna difícil sustentar, a partir do próprio texto, a ideia de que a conversão foi acompanhada de uma “renomeação” formal e instantânea.

Por que Paulo mudou o nome de Saulo para Paulo?

O ponto em que “Paulo” entra em cena vem mais tarde e, de novo, a forma grega é determinante: Atos 13:9 não diz “Saulo passou a chamar-se Paulo” como ato pontual; diz que ele é “Saulo, o qual também [é] Paulo”. O texto: (Gr.: Σαῦλος δέ, ὁ καὶ Παῦλος... Saulos de, ho kai Paulos... — “Saulo, porém, o qual também [é chamado] Paulo...”); a construção ὁ καὶ (“o qual também”) soa, no fluxo normal da narrativa de Atos, como marca de dupla designação (um nome e seu correlato), não como cerimônia de rebatismo nominal. É por isso que a leitura mais segura, estritamente ancorada em Atos, é esta: Lucas mostra um personagem conhecido como “Saulo” e, em dado momento, informa ao leitor que esse mesmo personagem também é conhecido como “Paulo”.

Se você volta ao relato de Atos 22, a mesma linha se confirma: o vocativo preservado no discurso é novamente “Saulo”, mesmo já estando o narrador em contexto de defesa pública. O texto: (Gr.: Σαοὺλ Σαούλ, τί με διώκεις; Saoul Saoul, ti me diōkeis? — “Saulo, Saulo, por que me persegues?”). Assim, as três versões do encontro (Atos 9; Atos 22; Atos 26) funcionam como três ângulos do mesmo cristal, e em todos eles o nome que ecoa no momento do choque é “Saulo”, não “Paulo”; e, paralelamente, o próprio livro deixa “Saulo” continuar existindo na superfície narrativa até a nota editorial de Atos 13:9.

Se houvesse, no texto, uma “cerimônia” de renomeação — com anúncio explícito do tipo “de agora em diante serás chamado...” — seria exatamente aí que esperaríamos encontrá-la. Mas Atos não a apresenta. O que Atos faz é outra coisa: mostra uma vida reorientada, uma missão redefinida, um homem que passa da violência religiosa à proclamação de Jesus — e só mais tarde passa a ser chamado narrativamente pelo nome mais útil no ambiente romano.

4) Então por que “Paulo”?

Aqui vale uma regra de honestidade bíblica: quando a Escritura não explica a causa, a gente não tem o direito de transformar suposições em certezas. Mesmo assim, o texto oferece elementos que tornam algumas leituras mais plausíveis que outras.

A Escritura apresenta Paulo circulando com naturalidade em ambientes gentílicos, lidando com autoridades romanas, viajando por províncias e cidades do mundo greco-romano. E Atos registra que ele possuía cidadania romana (o que, por si só, mostra como sua vida estava conectada ao universo político-jurídico de Roma). Atos 13:9 não narra uma “conversão com troca de nome”; ele registra uma equivalência de designação, na fórmula “Saulo, ho kai (“também chamado”) Paulo”, isto é, um duplo modo de referência ao mesmo agente. A discussão acadêmica sobre o que essa marca redacional faz (e o que ela não faz) é tratada diretamente por David H. Wenkel, justamente em torno de identidade narrativa e do estatuto do “nome” em Atos 13:9.

Nesse cenário de dupla cidadania, é perfeitamente coerente que um judeu da diáspora pudesse ser conhecido por um nome judaico (“Saulo”) e também por um nome de circulação mais ampla no mundo latino/greco-romano (“Paulo”). Isso é uma inferência histórica a partir do padrão do texto — não uma afirmação explícita do texto. Margaret H. Williams estuda o uso de “nomes alternativos” por judeus da diáspora no mundo greco-romano, fornecendo a moldura social para compreender por que a coexistência de nomes (sem que isso implique ‘mudança religiosa’ automática) é historicamente plausível. (MARGARET, The Use of Alternative Names by Diaspora Jews in Graeco-Roman Antiquity. 2007, pp. 307-327) Esse enquadramento também ajuda a “vacinar” o raciocínio contra um atalho comum: assumir que todo duplo nome é sinal de conversão; G. H. R. Horsley mostra, em perspectiva comparativa do Mediterrâneo antigo, que “mudança de nome” pode funcionar como marcador de conversão em certos contextos — mas justamente por isso é preciso cuidado para não impor esse esquema a Atos 13:9 quando o texto está mais perto de uma equivalência nominal do que de um rito de renomeação. (WEISS, ‘There Was a Man in Israel – Bar-Kosibah Was His Name!’, 2014, pp. 99–115)

O dado bíblico mais forte, contudo, é ainda mais simples: nas cartas, o apóstolo se apresenta como “Paulo” logo nas aberturas, sem qualquer explicação ou nota de transição, como se fosse o nome esperado pelos destinatários (por exemplo, Romanos 1:1). Isso combina com o retrato de Atos após o capítulo 13: uma figura que, na esfera pública da missão, é reconhecida como Paulo.

5) Sérgio Paulo tem a ver com o “Paulo”?

É comum ouvir: “Ele mudou de nome por causa de Sérgio Paulo.” O problema é que Atos não diz isso. O que Atos mostra é que a transição para o uso de “Paulo” acontece exatamente no episódio em que Sérgio Paulo aparece e em que a missão ganha um tom mais frontal diante de autoridades e oposição espiritual (Atos 13).

No artigo intitulado “Paul’s Improper Name”, de autoria de T. J. Leary, publicado originalmente na revista New Testament Studies em julho de 1992, o autor começa revisando teorias comuns, rejeitando a ideia de que Paulo teria adotado seu nome em homenagem ao procônsul Sérgio Paulo, considerando isso apenas uma coincidência narrativa. Ele explica que, como cidadão romano de nascimento, Paulo provavelmente possuía três nomes (tria nomina), sendo “Paulo” o seu cognomen. Na tradição da época, muitos judeus mantinham um nome hebraico para uso interno na comunidade e um nome greco-romano para interações externas. (LEARY, ibid., 1992;38(3), pp. 467-469)

Portanto, o máximo que se pode afirmar sem extrapolar pelo texto é: Lucas conecta, no mesmo quadro narrativo, (1) o encontro com uma autoridade romana e (2) o início do uso predominante de “Paulo”. Qualquer explicação causal direta (“foi por causa dele”, i.e., Sério Paulo) vai além do que o texto declara.

A. Motivos e Significados

No artigo acima supracitado, a tese central de Leary foca no significado da palavra grega σαῦλος (saulos) no mundo helenístico. Embora tenha origem hebraica, o termo grego era usado para descrever o caminhar lascivo, rebolante ou afetado típico de prostitutas. O autor argumenta que Paulo era extremamente sensível aos significados e trocadilhos linguísticos, como demonstram seus escritos em Filemom e Filipenses. Assim, como principal missionário para os gentios, Paulo teria percebido que manter um nome que soasse como “prostituta” ou “vulgar” aos ouvidos gregos seria um obstáculo para o sucesso de seu ministério.

A mudança de nome em Atos 13:9 é estratégica: ocorre no exato momento em que Paulo assume seu papel como líder missionário e inicia um contato mais frequente com o mundo greco-romano. Antes desse ponto, o uso do nome “Saulo” por Lucas não era problemático, pois o apóstolo atuava majoritariamente entre judeus ou cristãos de origem judaica, onde o nome hebraico era apropriado. No entanto, ao avançar para as missões entre os gentios e interações com autoridades romanas, o nome “Paulo” tornou-se decididamente mais apto e necessário.

Já o artigo científico intitulado “Small Change: Saul to Paul, Again”, da autoria de Sean M. McDonough, publicado no Journal of Biblical Literature em 2006 aborda a transição do nome de Saulo para Paulo em Atos 13:9. McDonough começa por enumerar as teorias mais comuns para esta mudança: as conotações negativas da palavra grega saulos, a intenção de honrar o procônsul Sérgio Paulo ou a necessidade de adoptar um nome gentílico para a missão entre os gentios. No entanto, o autor propõe que a explicação mais satisfatória reside numa pista interna no próprio capítulo 13 de Atos, especificamente no discurso de Paulo em Antioquia da Pisídia.

A tese central foca-se no fato de Paulo mencionar explicitamente Saulo, filho de Quis (o rei Saulo do Antigo Testamento), durante a sua recitação da história de Israel. McDonough sublinha que esta é a única vez em todo o Novo Testamento que o rei Saulo é mencionado, e considera invulgar que tal ocorra precisamente após a mudança de nome do apóstolo no versículo 9. O autor estabelece duas ligações fundamentais: primeiro, o rei Saulo foi o principal perseguidor de Davi, o antepassado do Messias, o que tornava o nome “Saulo” inadequado para quem agora pregava o descendente de Davi.

A segunda ligação, e a mais distintiva, envolve um contraste de estatura e significado etimológico. O nome “Paulo” (Paulus) em latim significa literalmente “pequeno” ou “pouco”. Em contrapartida, o rei Saulo era célebre pela sua estatura física imponente, enquanto Davi era introduzido no Antigo Testamento como “o pequeno” (ho mikros). Assim, McDonough sugere que a mudança de nome ilustra a transformação do apóstolo: de um “homem grande” e orgulhoso que perseguia a igreja para um humilde servo da descendência messiânica do “pequeno” Davi. O autor conclui que, embora não exclua outras razões históricas, esta perspectiva oferece uma interpretação literária rica e coerente dentro do próprio texto de Atos. (McDONOUGH, ibid., 125 (2): pp. 390–391)

6) O que, afinal, a “mudança de Saulo para Paulo” ensina espiritualmente?

Há uma beleza discreta nessa passagem de nomes — não como mágica nominal, mas como sinal de missão. “Saulo” é o homem que aparece no coração da história judaica inicial da igreja, no conflito com Estêvão e na perseguição. “Paulo” é o mesmo homem quando a história se abre como estrada larga para os gentios, províncias, portos, tribunais, sinagogas e praças.

O evangelho não muda só o interior; ele muda também o alcance. Em Atos, não é apenas um pecador que se arrepende: é um instrumento que é deslocado — da mão que fere para a mão que edifica; da voz que ameaça para a voz que anuncia Cristo. E, quando a missão muda de horizonte, o nome que a narrativa escolhe também muda, como se dissesse: o mesmo homem, agora atravessando outros mundos.

7) Outros personagens que mudam de nome na Bíblia

Na Bíblia, “nome” não é só etiqueta: muitas vezes funciona como um instrumento narrativo para marcar viradas de enredo, mudança de status e redefinição pública de identidade. Por isso, quando um personagem é renomeado, o narrador frequentemente está acendendo uma lâmpada literária: “algo decisivo aconteceu; a história agora lê este personagem de outro modo”. Esse uso do nome como técnica narrativa (e não apenas como dado biográfico) é observado com frequência em estudos literários da Bíblia, que mostram como a escolha, repetição e reinterpretação de nomes ajudam a costurar temas como promessa, chamado, conflito e pertença ao povo de Deus. (STERNBERG, MEIR. The Poetics of Biblical Narrative, 1985)

Um primeiro grande conjunto é o das renomeações “teofânicas”, em que Deus muda o nome justamente no contexto de aliança, promessa e missão. O caso de Abraão é o paradigma: a mudança de “Abrão” para “Abraão” em Gênesis 17 aparece amarrada ao pacto e ao futuro coletivo (“pai de uma multidão”), e a narrativa faz o próprio ato de nomear funcionar como performativo: não descreve só uma esperança; ela a “instala” no personagem. A mesma cena inclui Sarai → Sara (Gênesis 17:15), sinalizando que a promessa não é apenas patriarcal no sentido social, mas envolve também a matriarca na lógica do futuro de Israel. Estudos recentes tratam essas alterações como parte do desenho literário de Gênesis, no qual a mudança de nome sela uma nova fase da história dos ancestrais e reconfigura como o leitor deve entender o papel daquele casal na promessa (WASSERMAN; BLOCH. Let your name be...’, 2025, pp. 306-319).

O segundo exemplo clássico do mesmo tipo é Jacó → Israel. Em Gênesis 32:28, a renomeação vem depois de um conflito noturno decisivo, e o texto oferece uma explicação narrativa para o novo nome (“porque lutaste...”), de modo que o nome passa a carregar o “resumo dramático” do encontro. Em Gênesis 35:10, a reafirmação do nome aparece como confirmação, o que muitos intérpretes entendem como uma estratégia redacional: o narrador não quer que a mudança seja lida como episódio isolado, mas como novo “título” de identidade que acompanha a história dali em diante. Leituras acadêmicas tratam essa duplicidade (mudança em 32 e reafirmação em 35) como recurso literário para ligar experiência pessoal, destino familiar e identidade nacional (Israel como pessoa e como povo).

Ainda dentro da Torá, há renomeações associadas a liderança e destino comunitário, mesmo quando o texto é mais breve. Em Números 13:16, Moisés altera “Oséias” para “Josué”, e a tradição interpretativa costuma ler isso como gesto narrativo de preparação: o personagem que conduzirá o povo recebe um nome que, no próprio horizonte bíblico, se conecta ao tema de “salvação/libertação” (especialmente porque o livro de Josué será estruturado como continuação da história iniciada no Êxodo).

Um segundo grande conjunto é o das renomeações feitas por autoridades humanas, e aqui o motivo teológico costuma se inverter: em vez de “aliança e promessa”, o nome passa a ser “poder e assimilação”. O caso mais evidente é Daniel 1:7, onde oficiais babilônicos atribuem nomes novos a Daniel e seus companheiros. Em leituras históricas e literárias, a troca de nome é um ato político: marcar pertencimento ao império e rebatizar identidades para caberem no “arquivo” do dominador. Muitos estudos observam que, justamente por isso, o texto bíblico pode explorar a tensão entre o rótulo imperial e a fidelidade religiosa do grupo, fazendo do nome um campo simbólico de disputa.

O livro de Ester oferece um caso aparentado, mas com textura própria: Ester 2:7 apresenta a personagem com dupla denominação (Hadassa/Ester), e a própria narrativa se move num mundo de corte persa onde identidades circulam por mais de uma língua e mais de uma “pátria”. Em estudos de Ester, esse duplo nome costuma ser lido tanto como dado diaspórico (gente que vive entre mundos) quanto como recurso narrativo: a história precisa que a personagem seja, ao mesmo tempo, reconhecível como judia e operacionalmente “legível” no palácio. Assim, o nome se torna uma espécie de dobradiça literária entre pertença comunitária e sobrevivência política.

No Novo Testamento, há um terceiro tipo: não tanto “mudança formal de nome”, mas nomeação-símbolo, cognome ou “nome de missão”, que opera teologicamente como confissão pública. O exemplo central é Simão ser chamado Pedro (João 1:42; Mateus 16:18). Aqui a narrativa explicitamente faz um jogo de palavras entre Petros (“Pedro”) e petra (“rocha”), isto é, o nome não é neutro: ele carrega uma metáfora e projeta um papel. A literatura acadêmica debate camadas linguísticas (grego/aramaico) e função eclesial do trocadilho, mas o ponto narratológico é claro: a história associa identidade e vocação, transformando um nome em “programa” de personagem. (BLOCKMUEHL, Simon Peter’s Names in Jewish Sources, 55, 2004, pp. 58-80)

Ainda em Atos, “José, chamado Barnabé” (Atos 4:36) mostra como um novo nome pode ser, na prática, uma espécie de reconhecimento comunitário. Em vez de um rito de aliança (como em Gênesis) ou de um decreto imperial (como em Daniel), o que se vê é a comunidade interpretando um sujeito por sua função e reputação. Narrativamente, isso ajuda Lucas a fixar rapidamente o perfil do personagem (um “tipo” de pessoa e de ação) e a integrá-lo à economia do enredo sem longas apresentações. Estudos sobre Atos observam que tais cognomes atuam como atalhos literários que também carregam juízos de valor (o nome “interpreta” o personagem). (ZUCKER, The JPS Bible Commentary – Esther)

Vale notar um padrão transversal que muitos autores destacam: a Bíblia pode associar renomeação a “passagem de fase” (início de vocação, reconfiguração de pertença, ou reinterpretação pública de identidade), mas a direção teológica depende de quem nomeia. Quando o nome vem de Deus, o enredo frequentemente o amarra a promessa, eleição e missão; quando o nome vem do império, o enredo frequentemente o amarra a domínio, catalogação e pressão assimiladora; quando vem da comunidade, o enredo frequentemente o amarra a reconhecimento de caráter e função. Essa tipologia (aliança → império → comunidade) ajuda a ler por que “mudanças de nome” aparecem em lugares tão diferentes e, ainda assim, com força semelhante: elas reorganizam a memória do leitor sobre quem a pessoa é e para que existe dentro da história.

8) Perguntas frequentes

“Então Paulo nunca se chamou Saulo?”
R.: Chamou-se, sim: Atos o apresenta repetidamente como “Saulo” antes de Atos 13, começando em Atos 7:58.

“Ele mudou de nome no dia da conversão?”
R.: Atos não descreve isso; após o encontro no caminho, ele ainda é chamado de Saulo por um período, e a transição para “Paulo” ocorre mais tarde, em Atos 13.

“A Bíblia diz por que Lucas passou a usar ‘Paulo’?”
R.: A Bíblia registra o fato (Saulo também era chamado Paulo) e mostra a mudança no fluxo narrativo, mas não fornece uma explicação direta do motivo.

“Nas cartas ele se chama como?”
R.: Ele se apresenta como “Paulo” nas aberturas de suas cartas (por exemplo, Romanos 1:1).

Bibliografia

BOCKMUEHL, Markus. Simon Peter’s Names in Jewish Sources. Journal of Jewish Studies, v. 55, n. 1, p. 58–80, 2004. DOI: 10.18647/2523/JJS-2004.
LEARY, T. J. Paul’s Improper Name. New Testament Studies, v. 38, n. 3, p. 467–469, 1992. DOI: 10.1017/S0028688500021858.
MCDONOUGH, Sean M. Small Change: Saul to Paul, Again. Journal of Biblical Literature, v. 125, n. 2, p. 390–391, 2006.
SMIT, Peter-Ben; CREANGĂ, Ovidiu; VAN KLINKEN, Adriaan. The Reception of the Bible in the Construction of Masculinities in Jewish and Christian Con/Texts. Journal of the Bible and its Reception, v. 2, n. 2, p. 135–143, 2015. DOI: 10.1515/jbr-2015-0011.
STERNBERG, Meir. The Poetics of Biblical Narrative: Ideological Literature and the Drama of Reading. Bloomington: Indiana University Press, 1985.
WASSERMAN, N.; BLOCH, Y. ‘Let your name be...’: The change of the names of Israel’s ancestors in light of the Atra-ḫasīs myth. Journal for the Study of the Old Testament, v. 49, n. 3, p. 306–319, 2025. DOI: 10.1177/03090892241304413.
WEISS, Haim. ‘There Was a Man in Israel – Bar-Kosibah Was His Name!’ Jewish Studies Quarterly, v. 21, n. 2, p. 99–115, 2014.
WILLIAMS, Margaret. The Use of Alternative Names by Diaspora Jews in Graeco-Roman Antiquity. Journal for the Study of Judaism, v. 38, n. 3, p. 307–327, 2007. DOI: 10.1163/157006307X213500.
ZUCKER, David J. The JPS Bible Commentary – Esther. Comentário de Adele Berlin. Philadelphia, PA: Jewish Publication Society, 2001. Women in Judaism: A Multidisciplinary E-Journal, v. 9, n. 1, 2012.

Cite este artigo:

GALVÃO, Eduardo. Por que o nome de Saulo mudou para Paulo? Biblioteca Bíblica. [S. l.], 18 dez. 2025. Disponível em: [Cole o link sem colchetes]. Acesso em: [Coloque a data que você acessou este estudo, com dia, mês abreviado, e ano].

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