2015/11/10

Interpretação de João 13

Interpretação de João 13
A. O Lava-Pés. 13:1-17.
Dos Sinóticos ficamos sabendo como Jesus enviou dois dos Seus discípulos para prepararem o cenáculo para a festa e como planejou comungar com eles (Lc. 22:7-13).
1. Ora, antes da festa da Páscoa. Surgem as perguntas. A refeição no cenáculo foi uma refeição de confraternização, ou foi realmente a Páscoa? Em duas outras passagens João parece dizer que a Páscoa não tinha ainda chegado (13:29; 18:28). Os Sinóticos tornam claro que Jesus e os discípulos comeram a Páscoa. Esta disposição em João pode representar um protesto contra a observância oficial dos judeus neste dia, tendo por base um calendário diferente, de acordo com a prática da seita Qumran (Matthew Black, "The Arrest and Trial of Jesus and the Date of the Last Supper", no New Testament Essays: Studies in Memory of T. W. Manson, ed. por A.J.B. Higgins, págs. 19-33). Outra possibilidade é que as referências em João 13:29 e 18:28 feitas à Páscoa no futuro devem ser explicadas como referências à Festa dos Pães Asmos, a qual às vezes era chamada de Páscoa (Lc. 22:1). Ela começava imediatamente após a Páscoa e durava uma semana. Mesmo assim, a refeição aqui mencionada parece ter se realizado antes da Páscoa, quer fosse ou não a devida observância da festa anual. Hora. Considerada aqui não do ponto de vista do sofrimento mas de vindicação e retorno ao Pai (cons. 19:30; Lc. 23:46).
Amou-os até ao fim. Ou, no fim (à conclusão dos dias da preparação e antecipação). Esta expressão (eis telos) também pode significar "ao máximo" (cons. I Tes. 2:16).
2.   Durante a ceia. Outra tradução, largamente adotada atualmente, diz, enquanto a ceia se realizava. A atitude de Jesus de lavar os pés dos discípulos se encaixaria melhor do que depois. O amor de Jesus faz agudo contraste com o ódio de Satanás e Judas.
3.  Possuindo o conhecimento de Sua autoridade, Sua origem divina e Sua volta certa ao Pai, Jesus não fugiu à humilde tarefa. Este é o caráter do espírito da Encarnação.
4, 5. O material necessário para o lava-pés estava ali (cons. (Lc. 22:10), mas não havia servo (Jesus solicitara completo isolamento). Um dos discípulos poderia ter-se oferecido para fazê-lo, mas todos eram orgulhosos demais. A esta altura estavam discutindo qual deles seria o maior (Lc. 22: 24).
6.    Não se pode determinar se Cristo aproximou-se de Pedro em primeiro lugar. O que está claro é o sentimento de indignidade de Pedro para aceitar que o Senhor executasse tal serviço para ele. Os pronomes tu e mim são enfáticos. Corajosamente o discípulo declarou o que pensava.
7.    Na resposta de Jesus há uma ênfase parecida sobre o eu e tu (sabes). Agora... depois. Nenhuma referência ao Céu ou aos acontecimentos da noite, mas à iluminação do Espírito mais tarde.
8.   Mais impressionado com a injustiça da situação do que com o seu significado oculto, Pedro insistiu em que Jesus não lhe lavasse os pés. Mas a réplica do Senhor elevou o ato da condição de simples serviço servil para uma de significado espiritual. Não ser lavado por Cristo é estar impuro, é não ter parte com Ele. 

9. A alternativa de ser separado de Cristo era muito pior para Pedro do que a vergonha de ser servido dessa maneira por seu superior. Eis porque a impulsiva inclusão de mãos e cabeça. Todas as outras partes estavam incluídas, é claro. Pedro não queria que nada ficasse excluído de ser lavado.
10, 11. Pedro precisava saber que a virtude do lavar não era quantitativa, pois O ato era simbólico da purificação interior. Banhou (de louô) indica um banho completo.
Lavar... pés. Aqui a palavra é niptô, apropriada para a lavagem de porções individuais do corpo, tal como na narrativa anterior. A lavagem da regeneração torna uma pessoa limpa à vista de Deus. Isto está simbolizado no batismo cristão, que só se administra uma única vez. Purificação posterior das manchas de impureza não substitui a purificação inicial mas só tem significado à luz dela (cons. I Jo. 1:9).
Estais limpos, mas não todos. A referência é a Judas. Jesus sabia o que havia no seu coração e quais eram seus planos (cons. 6:70, 71). Com referência a limpos, veja 15:3. Judas não era um homem regenerado.
12. Compreendei o que vos fiz? O lado divino do ato já foi explicado em termos de purificação, mas o lado humano precisava ser apresentado – o ato como símbolo do que os discípulos tinham de fazer uns pelos outros.
13, 14. Se o seu superior, que era Senhor e Mestre (professor), estava pronto a realizar esta tarefa para eles, é claro que deviam fazê-lo uns pelos outros. Humildade não é abnegação essencialmente, mas desinteresse próprio em serviço dos outros.
15. O exemplo. Isto exclui qualquer pensamento de que o lava- pés seja uma ordenança. As Escrituras silenciam sobre a prática, salvo na qualidade de um serviço ministrado por causa do amor na questão da hospitalidade (I Tm. 5:10).

B. O Anúncio da Traição, 13:18-30.
Judas estivera na mente do Senhor mesmo durante o lava- pés (vs. 10, 11) . Agora já não era mais possível esconder a revelação de que haveria uma traição. Com grande sabedoria Jesus logrou que Judas soubesse que Ele estava cônscio de suas intenções e que o excluía de Sua companhia. Assim ele forneceu o tipo de atmosfera adequada para continuar com Seus ensinamentos.
18.  Não falo a respeito de todos vós. Judas não poderia lucrar com o exemplo dado no lava-pés.
Eu conheço aqueles que escolhi – inclusive Judas. As Escrituras já tinham declarado de antemão a traição deste homem (Sl. 41:9). O versículo não foi citado todo, pois a primeira metade não era aplicável.
19.   Qualquer tentação da parte dos outros discípulos para duvidar da sabedoria de Jesus na escolha de Judas foi assim prevenida, pois Cristo não foi tomado de surpresa. Depois da Paixão, esses homens poderiam olhar para trás e crer no seu Senhor mais firmemente do que nunca.
20.   Judas não continuaria como representante de Cristo, mas esses homens sim. Eles levavam o nome e a autoridade do Salvador. Aqueles que reagissem favoravelmente estariam reagindo ao próprio Cristo. Este princípio tem base no próprio relacionamento de Jesus com o Pai.
21.    Agora Jesus revelava a causa do estado perturbado de seu coração. Um traidor estava entre eles – um dentre vós.
22.   A perplexidade sobre a identidade do traidor tomou conta do círculo apostólico. Judas desempenhou bem o seu papel. Estava fora de suspeitas.
23.  O "discípulo amado" ocupava um lugar imediatamente ao lado de Jesus à mesa. Ele podia reclinar-se no seio do Salvador por causa da posição usada.
24.  Ansioso em saber quem era o traidor, Pedro, longe demais para perguntar o nome a Jesus, acenou para João fazer a pergunta.
25, 26. Em resposta à pergunta cochichada por João, Jesus identificou o traidor, não pelo nome, mas indicando que era aquele a quem passaria o bocado molhado, um pedaço dado como sinal de favor especial e unidade. Deu-o a Judas. Iscariotes provavelmente significa "homem de Querite", uma cidade da Judéia.
27.  Aceitar o bocado sem aceitar o amor suplicante que vinha junto significa que Judas estava endurecendo seu coração para fazer o que estava determinado a fazer – trair o Senhor. Fora descoberto e indignou-se. Desse momento em diante Satanás o controlou inteiramente. Faze-o depressa. Mais esforços em dissuadir Judas eram inúteis.
28.    Nenhum... percebeu. Parece que Judas estava assentado do lado de Jesus, do lado oposto de João. A palavra de ordem despedindo Judas não foi ligada à traição nas mentes dos outros.
29.   Sabendo que Judas era o tesoureiro, imaginaram que estivesse sendo enviado a fazer alguma compra para a festa ou de algo a ser distribuído entre os pobres (Ne. 8:10).
30.      E era noite. Numa obra tão sensível ao simbolismo e significado oculto como este Evangelho, estas palavras devem ter significado especial. Descrevem imediatamente a condição de trevas de Judas por se entregar ao ódio de Jesus e também a aproximação da hora quando os poderes das trevas engoliriam o Salvador.

C.  O Discurso no Cenáculo. 13:31 - 16:33.
Estas palavras preciosas de Cristo foram pronunciadas à luz de sua iminente partida para o Pai e tinham em vista as condições sob as quais os discípulos do senhor teriam de prosseguir sem sua presença pessoal (16:4). Três linhas principais de ensinamentos discernem-se aqui: 1) ordens referentes à tarefa que estava diante dos discípulos, a qual foi um testemunho frutífero enlaçado e permeado pelo temor; 2) advertências referentes à oposição que teriam de enfrentar do mundo e Satanás; e principalmente 3) uma exposição das provisões divinas com as quais os discípulos seriam sustentados e triunfariam nos dias futuros. De vez em quando os ensinamentos do Senhor eram interrompidos por perguntas, mostrando que os discípulos tinham falta de entendimento em muitos pontos.
31-35. Aviso da partida e ordem para que amassem uns aos outros.
31.    Agora foi glorificado o Filho do homem. Com a saída de Judas, rapidamente se preparava o cenário para aquela série de acontecimentos que glorificariam o Filho e o Pai. Na morte Cristo seria glorificado aos olhos do Pai (cons. I Co. 1:18, 24). O Pai veria na morte na cruz o cumprimento de Seu propósito. Só depois da Ressurreição os discípulos sentiriam a glorificação.
32.  Deus foi glorificado nele. Na ressurreição e exaltação de Jesus e no derramamento do Espírito sobre os discípulos, Deus manifestaria que Aquele que foi obediente até a morte, honrado agora por Sua fidelidade, era Aquele que era um com Ele exatamente como proclamou.
33.  Filhinhos. A terna afeição foi aguçada pela comoção do adeus. Os judeus o buscariam por curiosidade, e os Seus por causa de afeição pessoal ; em ambos os casos, porém, seriam em vão buscá-lO no sentido físico.
34.  Havia algo, entretanto, a que poderiam devotar vantajosamente suas energias.
Novo mandamento... Que vos ameis uns aos outros. Era novo no sentido de que o amor devia ser exercido na direção dos outros não porque pertencessem à mesma nação, mas porque pertenciam a Cristo. E era novo porque devia ser a expressão do amor sem-par de Cristo, o qual os discípulos viram na vida e veriam também na morte.
Como eu vos amei. Era, ao mesmo tempo, o padrão e o poder motivador do amor que devia se manifestar.
35.     Tal amor tinha de inevitavelmente ser um testemunho ao mundo. Perpetuaria a memória de Cristo e apontaria para a continuação de Sua vida, pois essa qualidade de amor só fora vista nEle. Os homens reconhecem a bênção que há em tal amor ainda que eles mesmos não sejam capazes de produzi-lo.
36-38. Pedro recusou-se a aceitar o prospecto da separação. Foi informado de que não poderia seguir a Cristo naquela hora, mas poderia fazê-lo mais tarde (cons. Jo. 21:19). Pronto a segui-lo agora Pedro estava pronto a dar a sua vida pelo seu Senhor. Tal autoconfiança exigia uma repreensão. A pretensa lealdade de Pedro produziria baixa rejeição, três vezes cometida.

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