2019/10/16

Teologia de Lamentações 1

Teologia de Lamentações 1

Teologia de Lamentações 1

Por David W. Smith



Lamentações 1 anuncia o tom e o formato do livro. Esse poderoso poema acróstico’ declara que a cidade de Jerusalém está desolada (1.1). Seus amigos a abandonaram (1.2,3), suas estradas e portões estão desertos (1.4) e os inimigos subverteram seu governo (1.5,6). A queda da cidade dificilmente poderia ser mais completa ou espetacular (1.9). Por que tal devastação aconteceu à cidade eleita? O Senhor afligiu o povo por causa de seus pecados contra a autoridade divina (1.5,8,9,14,18-22). A quebra da aliança resultou na perda da terra e do santuário (1.10). Assim, Lamentações 1 é um canto fúnebre à cidade. O capítulo inclui os elementos básicos encontrados em outros lamentos públicos no cânon. O povo se dirige ao Senhor (1.9), expressa a calamidade trazida pelos seus inimigos (1.10-16), confessa que Deus trouxe a desgraça (1.12-15), admite seu pecado (1.18-21) e clama por libertação (1.22).1 Sua aflição é sincera porque há a percepção de que a aflição não precisava ter acontecido e porque se reconhece que os israelitas traíram os mandamentos do Senhor. Eles percebem que Deus os aflige, compreendem que o Deus que os protegeu do mal abandonou seu papel de protetor devido à desobediência do povo. Em outras palavras, suas feridas são exclusivamente sua culpa. Deus não os afligiu e abandonou sem motivo.

Síntese canônica: a destruição de Jerusalém e a teologia de Sião

A passagem em análise reabre as questões do castigo merecido e da teologia de Sião. Norman K. Gottwald afirma que parte da aflição de Jerusalém provém do temor do povo de que a cidade pudesse cair logo após as reformas de Josias em 622 a.C. (2Rs 22.3—23.25). O povo de Israel se sente especialmente abandonado por Deus porque havia cumprido o que Deus determinou. Portanto, a tensão principal do livro está “entre a fé deuteronômica e a adversidade histórica”.2 A conclusão de Gottwald poderia ser válida se a cidade fosse assolado durante os anos posteriores a Josias (c. 622-609 a.C.), ou mesmo se o livro lamentasse a morte intempestiva de Josias, mas não é o caso. Os livros de Reis, Jeremias, Ezequiel e os Doze já mencionaram o retorno de Israel ao comportamento pré-reforma. Os salmos 89 e 104— 106, entre outros, também testemunharam o contínuo rompimento da aliança no país. E incorreto acreditar que a reforma tenha necessariamente durado mais de trinta anos, especialmente à luz da evidência textual contrária. Apesar da dificuldade geral de sua abordagem, Gottwald levanta a questão dos sofredores justos, a qual merece mais atenção. 

Como um todo, a nação faz jus ao julgamento, mas indivíduos seletos talvez não mereçam sofrer com o ímpio. Pelos padrões canônicos, o povo escolheu a punição em vez da benção. Lamentações 1.5,14 e 18-21 concordam com Levítico 26 e Deuteronômio 27 e 28. Todos esses textos afirmam que o persistente rompimento da aliança deve levar à derrota e perda da terra. Lamentações 1 compartilha a visão da história encontrada em 2Reis 17—25, Jeremias 34—39 e Ezequiel 33.23-29. Cada uma das passagens considera o fim de Jerusalém como uma devastação divinamente causada, que já não podia ser adiada. Bertil Albrektson acredita que a teoria de Gottwald para a chave da teologia de Lamentações erra o alvo. O crítico acredita que, se há uma tensão entre fé e história, ela repousa na “tradição teológica da inviolabilidade de Sião que fica numa insuportável contradição com a severa realidade histórica após a queda de Jerusalém”.3 Albrektson observa diversas partes em que o texto utiliza a fraseologia de Deuteronômio 28 para negar a imagem de Sião nos salmos 46, 48 e 76 e em Isaías 29.4 Ele conclui então que o povo encontrou significado na terrível perda da supostamente inconquistável Sião, somente por considerá-la uma derrota divinamente designada.5 Simplesmente não se supunha que Jerusalém pudesse cair porque é a cidade de Deus, assim sua derrocada deve ter sido causada pelo Senhor. É verdade que o povo pode ter acreditado que sua capital era inconquistável. 

Os sermões no templo feitos por Jeremias (Jr 7 e 26) poderiam levar a essa conclusão, Ezequiel retrata a nação como geralmente despreocupada com a uma profanação do templo (Ez 8.1-18) e Sofonias descreve a crença dos pecadores de que Deus nada fará a respeito das suas atividades (Sf 1.12). Se eles assim pensavam, não entenderam corretamente o modo como a Jerusalém de Judá foi transformada em Sião, a cidade inviolável de Deus nas passagens anteriores. Sião é onde Deus está presente entre os santos (SI 48.9-14; 76.7-12). Sião é governada por Deus por intermédio de homens como Ezequias (Is 37.22-35), não por desonestos como Jeoaquim ou de moral vacilante como Zedequias. No final das contas, como Isaías 65 e 66 indica, Sião será o lugar onde Deus regerá sobre um novo céu e uma nova terra livre de todas as pessoas más. Tanto na história quanto além da história, Sião é o lugar onde um Deus santo habita entre pessoas santas. Lamentações reconhece, como Ezequiel 10.1-22, que, quando Deus abandona a cidade, a falta da glória divina significa que Jerusalém não é mais Sião. E apenas outro lugar que os babilônios devem destruir para governar o mundo antigo.


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