2019/10/16

Teologia de Rute 1

Teologia de Rute 1

Teologia de Rute 1

Por David W. Smith

Índice: Rute 1 Rute 2 Rute 3 Rute 4


O relato é familiar para a maioria dos leitores da Bíblia. Noemi, seu marido e seus dois filhos emigraram de Belém para Moabe para escapar da fome durante a era dos Juízes (1.1,2). Chegando lá, seu marido e filhos morreram (1.3-5). Noemi é deixada com duas noras moabitas, Rute e Orfa. Sem filhos e magoada, ela ouve falar de tempos melhores em Judá, decide retornar ao lar e tenta devolver as outras mulheres aos seus lares paternos em Moabe (1.6-13). Orfa parte, mas Rute compromete-se a ficar com Noemi (1.14-18). As duas mulheres retomam, e Noemi expressa amargura diante da sua situação (1.19-22). O principal problema que o enredo tem que resolver é como essas mulheres desprovidas de maridos e filhos irão sobreviver no antigo Israel. Num exame mais cuidadoso, observa-se que diversos princípios teológicos ajudam a formar a ação. Primeiro, 1.1-5 não atribui qualquer ação ao Senhor, mas 1.6 afirma que Noemi decide retornar a Belém porque houve dizer que Deus veio em auxílio do povo e deu-lhe alimentos. O comentário do narrador considera que os leitores reconhecem a soberania de Deus sobre todos esses eventos. As manifestações de Deus no AT podem ocorrer ou para a bênção ou para a punição. Em 1.6, Deus abençoa, mas Noemi, Rute e Orfa aprendem que nem sempre a vida traz acontecimentos agradáveis. Segundo, ao acreditar que Deus dá a benção, bem como a leva embora, Noemi pede a Yahweh para abençoar as mulheres mais jovens com novos maridos e lares. 

Assim elas estarão seguras. Willem S. Prinsloo observa que Noemi baseia sua oração na bondade que as mulheres demonstram a ela e aos homens falecidos, uma idéia que reaparece regularmente na história. A expectativa de Noemi é que o Senhor abençoe o crente, e uma boa parte no livro de Rute questiona se tal fé é bem fundamentada. Terceiro, ao comprometer-se com Noemi, a moabita Rute também se compromete com Israel e com Yahweh (1.16,17). Ela converte-se ao pacto de fé como Raabe (Js 2.8-14), Naamã (2Rs 5-1-18) e os ninivitas de  Jonas o fizeram anteriormente no cânon. Israel está aberto para os que renegam outros deuses, queiram oferecer sacrifícios a Yahweh (v. Lv 22.25) e desejem orar no templo (v. lRs 8.41-43). Embora a adoração no templo não fosse permitida na era dos juízes, os outros princípios são verdadeiros. A fé monoteísta não é propriedade exclusiva de Israel ou qualquer outra nação, e Israel deve permanecer receptível aos que escolhem abraçar as crenças da aliança divina. A seriedade de Rute é marcada por seu juramento em nome de Yahweh, um voto considerado por ela, em 1.17, como seguro, permanente e perigoso de se quebrar. Em quarto lugar, Noemi atribui seu dilema ao Senhor em 1.20,21. Ela diz às mulheres de Belém para chamá-la Mara (“amarga”) em vez de Noemi (“agradável”) por causa da maneira como Deus a tratou. Embora ela não saiba, porém, Yahweh já havia concedido misericórdia à sua perda pelo compromisso de Rute com ela. Sua ajuda chegou. O mesmo ocorre com Rute, devido à solução de Deus para seu presente e futuro estar estreitamente relacionado a Noemi e Yahweh. Cada uma delas é um canal de graça divina para a outra, embora a afirmação desse fato signifique uma antecipação da história. A declaração em 1.20,21 é ao menos tão orientada para a soberania de Deus quanto em 1.6. Noemi certamente acredita que Yahweh é o Senhor acima da aflição e libertação. Tudo o que acontece no final das contas deve derivar do caráter de Deus.

Síntese canônica: sofrimento e retidão

Noemi pertence a uma longa linhagem de figuras canônicas que sofrem sem nenhuma culpa própria. O grupo inclui, para nomear alguns, José, Josué, Ana, Davi, Jeremias, Ezequiel, muitos salmistas e Jó. A eles se reunirão mais tarde Ester, Daniel e outros. Como Jó e os lamentosos salmistas, Noemi não fica calada em sua aflição. Ela sente-se abandonada, apesar de crer na bondade de Deus (1.6). Assim, como escreve Campbell, “visto dessa perspectiva, [sua argumentação sobre Deus em 1.20,21] é em sentido muito genuíno uma declaração profunda de fé”. A fé de Noemi inclui a dor explícita, sabendo que o Deus uno que concede misericórdia à terra (1.6) pode também conceder-lhe misericórdia. Como Jó (Jó 3—37), entretanto, ela ainda não sabe o que resultará de suas crenças.   


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