2016/07/01

Estudo sobre Gálatas 1

Estudo sobre Gálatas 1

Estudo sobre Gálatas 1



I. INTRODUÇÃO (1.1-5)
v. 1,2a. Do profundo mistério da Divindade, a Palavra havia falado. Essa era a certeza que havia fascinado e inspirado a alma de Saulo de Tarso. Nesse prodígio, havia ainda outro: o conhecimento de que ele mesmo era um instrumento da palavra divina. Em Jesus, Deus havia aparecido; a ressurreição havia estabelecido esse fato além de qualquer dúvida. Agora Saulo de Tarso era o servo-escravo e embaixador comissionado do Senhor Jesus Cristo: Paulo, apóstolo, por designação direta de Deus.
Havia homens que não entendiam dessa forma. Eles também professavam o nome de Cristo — mas para eles a mensagem que Paulo pregava era uma traição das antigas veredas de Deus. Criados na tradição das antigas alianças e fascinados pela lei judaica, como o caminho de vida designado por Deus, eles não estavam conseguindo se adaptar facilmente à idéia de que essas coisas teriam de ser deixadas de lado. Além disso, eles podiam reivindicar orgulhosamente a autoridade, mesmo que não estritamente confirmada, das credenciais de Jerusalém, da igreja dos apóstolos e de Tiago, o irmão do Senhor. Para eles, Paulo era simplesmente alguém que surgiu do nada em Antioquia da Síria, e eles não hesitaram em destacar isso.
Assim, Paulo se esforça, ao abrir a sua carta, em afirmar a base da sua autoridade. Os seus oponentes reivindicavam a autoridade de homens de expressão? A autoridade dele não precisava desse tipo de mediação, mas vinha diretamente do Deus que havia falado decisivamente em Cristo, ressuscitando-o dos mortos. Mas, mesmo entre os homens, ele não estava sozinho. Com ele estavam os devotos companheiros que os gálatas conheciam.
[Observação: da parte de e por meio de são preposições que sugerem respectivamente a fonte original e a fonte intermediária de autoridade.]
v. 2b. A resposta a essa questão foi discutida na introdução; este comentário considera as igrejas como aquelas organizadas por Paulo no sul da Galácia, na sua primeira viagem missionária (At 13 e 14).
v. 3-5. Ao desafiar a autoridade de Paulo, os mestres judeus tinham um motivo dissimulado: desacreditar o evangelho que ele pregava. Assim, na sua saudação, Paulo reafirma os elementos essenciais do evangelho. Foi um auto-sacrifício pelos nossos pecados e um passo proposital da vontade de Deus;
um ato voluntário da graça divina, inquestionável por parte do homem. Acrescentar qualquer outra exigência a ele seria uma presunção irreverente e ímpia. Para destacar isso, a transcendência de Deus é sublinhada. A vontade daquele cuja glória se estende pelas eras das eras (para todo o sempre) entrou em ação para nos libertar desta presente era perversa. O livramento era o ato de Deus em que ele tinha prazer; um livramento, por assim dizer, para ele mesmo (acerca do significado do uso da voz média v. Vine, Expository Dictionary of NT Words, “Deliver” 8). Se Cristo se entregou a si mesmo, como ousaríamos acrescentar mais alguma exigência?
Não podemos negligenciar a importância desse trecho nesse estágio tão primitivo do ensino cristão. O nome do Senhor Jesus Cristo já é usado em equivalência ao de Deus nosso Par, um fato ainda mais espantoso em face do sentimento intenso dos judeus que envolvia toda a questão principal dessa carta. Além disso, o auto-sacrifício dele é por nossos pecados: o propósito redentor da morte de Cristo já é estabelecido como base do evangelho nessa formulação tão antiga. Aqui, então, temos os elementos mais precoces e essenciais da pregação cristã.

II. O MOTIVO DA CARTA (1.6-9)
Algo do ensino que foi levado à Galácia pelos mestres judaizantes pode ser apreendido com base em referências posteriores na carta. Esse ensino aceitava a missão de Messias de Jesus, mas acrescentava mais uma exigência à da fé em Cristo: a aceitação da obediência aos preceitos judaicos, particularmente como está simbolizada na circuncisão e no cumprimento da lei ética e cerimonial (At 15.1; G1 3.2,10; 4.10,21; 5.2; 6.12,13).
Para Paulo, também era axiomático e evidente que a fé em Cristo exercia um efeito radical sobre a conduta (5.19-24). Mas o lugar que os judaizantes davam à lei não era, para ele, somente uma diferença de ênfase. Isso pervertia a sua mensagem, era outro evangelho, era um evangelho diferente daquele que lhes pregamor, era uma anulação (metastrepsai, v. 7) do evangelho.
As razões desse antagonismo são elaboradas em detalhes nessa carta. O novo ensino era retrógrado, a volta à servidão (5.1; v. At 15.10). Por detrás de tudo isso, estava uma razão ainda mais profunda. Render-se aos judaizantes seria reduzir o caminho de Cristo a simplesmente mais uma das seitas briguentas judaicas e, inevitavelmente, sufocar no nascimento a mensagem universal de Cristo. O próprio Paulo deve ter percebido isso; mas era uma visão muito adiante dos horizontes dos bitolados sectários de Jerusalém, preocupados como estavam com as minúcias da observância da lei e com o temor da única perseguição que a igreja tinha experimentado (6.12). O apóstolo mantém o seu conselho, mas a compreensão arde na paixão de suas palavras. Se alguma vez houve uma questão em que Paulo teve de apressar o passo, mas com cautela, foi essa, e ser insuficientemente radical era derrotar os propósitos de Deus, seria abandonar aquele que os chamou.
[Observações: 1) amaldiçoado: anathema.
2)  v, 6,7. outro evangelho que [...] não é o evangelho: há diferentes pontos de vista acerca do sentido aqui, que estão refletidos nas diferentes versões. Estaria Paulo sugerindo que a mensagem dos judaizantes não era evangelho algum? ou que não era uma mensagem diferente mas uma perversão da verdadeira mensagem? A diferença surge de pontos de vista contrários acerca do significado das palavras gregas heteros e allos defendidos, e.g., por Lightfoot e Ramsay. (A NVI opta pela primeira opção.)
3)  v. 8. ainda que nós: a própria autoridade divina de Paulo é válida somente se a sua mensagem permanecer autêntica. Cf. Pedro (G1 2.11).
4) Observe a mudança de uma possibilidade remota, ainda que nós [pregássemos] um evangelho... (v. 8), para uma contingência muito presente: Se alguém lhes anuncia um evangelho... (v. 9).]

III. A AUTORIDADE DE PAULO E DO EVANGELHO QUE ELE PREGAVA (SEÇÃO PRINCIPALMENTE BIOGRÁFICA) (1.10—2.21)
1.10. A VA (cf. ARC e ACF) traduz a primeira pergunta literalmente: “Porque, persuado eu agora a homens ou a Deus?”. Pela simples incongruência de outra resposta, essa pergunta exige a resposta “a homens”; mas percebe-se que isso não se encaixa no contexto, e a maioria das traduções segue o exemplo da RSV (em português, a ARA) ao traduzir a palavra grega peithõ (persuadir) por “procurar o favor de” ou alguma expressão semelhante (v. At 12.20). A pergunta, então, é paralela à que segue: estou tentando agradar a homens? O versículo todo lança luz, mesmo que de passagem, sobre a acusação de que Paulo estava diluindo a sua mensagem para seduzir pessoas — exatamente a mesma acusação que ele faz mais tarde aos seus oponentes (6.12). Essa tradução de peithõ é correta e bem documentada.
Contudo, a tradução na VA (ARC e ACF, em português) talvez expresse uma ambigüidade intencional no original. Paulo, criado e formado como fariseu zeloso, havia se curvado diante do ato irrefutável de Deus. Qual era a argumentação dos seus oponentes? Confrontados com o ato irrefutável de Deus, eles estavam praticamente insistindo em que Deus poderia agir da forma deles, e de nenhuma outra. Assim, talvez Paulo esteja perguntando: Estaria ele, como os seus oponentes, tentando persuadir Deus a se curvar às suas idéias, ou aos homens para que se curvem diante das idéias de Deus? A resposta óbvia é a sugerida pela VA: “aos homens”. A tradução da maioria das versões, sem dúvida, exige a resposta: “a Deus”. V. 2Co 5.11; cf. At 17.4. Um enfático “não” serviria a essa interpretação. Paulo, o perseguidor, tinha se curvado agora diante do ato irresistível de Deus. Observe também o ainda na segunda parte do versículo.
[Observação: o gr. coloca um artigo (“o”) antes de “Deus”, mas não antes de “homens”. Com base nisso, Lightfoot chama a atenção para uma construção semelhante em 4.31 “não somos filhos da [sem artigo definido no gr.] escrava”, i.e., de qualquer escrava, mas da [com artigo definido no gr.] livre”, i.e., da única esposa legítima), sugerindo um sentido semelhante em 1.10.]
v. 11-17. Paulo agora começa a primeira parte da sua argumentação, e a desenvolve até o final do cap. 2. Ela está relacionada à base de sua própria autoridade, e por isso à base da sua mensagem. Ele começa por demonstrar a sua dependência direta de Deus com respeito ao evangelho que pregava, uma forma de tratar a questão que exige dele que evite ambas as pontas de um dilema. Por um lado, precisa mostrar que o seu ensino não estava fundamentado em nenhuma agência humana; por outro, que não era nenhuma idiossincrasia, mas havia sido reconhecido e validado por seus colegas apóstolos.
A sua conversão era a primeira evidência, e a mais reveladora, a seu favor. Agora ele pode oferecer a única explanação convincente daquela inversão dramática de todo o curso da sua vida: uma revelação (apokalypsis) de Jesus Cristo. Ele destaca que não ocorreu influência humana no estágio delicado logo após essa revelação: não consulta pessoa alguma, diz ele; em vez disso, retirou-se (para um lugar deserto?) na Arábia. Essa informação é acrescentada ao que sabemos com base em At 9. Não sabemos o tempo exato que ele esteve na Arábia, pois os três anos do v. 18 incluem a atividade considerável em Damasco, acerca da qual nos informa At 9.
Qual foi a revelação pela qual Paulo recebeu o evangelho (v. 12)? A outra revelação, do v. 16, estava centrada na experiência dramática na estrada de Damasco (v. observação 2), mas o crescimento na compreensão do evangelho não era necessariamente de uma natureza sobrenatural. A preocupação de Paulo é evitar a alegação de mera especulação humana. A argumentação cuidadosa e detalhada dessa carta é evidência suficiente de que a fonte da revelação estava nas reflexões de Paulo acerca do AT. Podemos citar alguns dos trechos que foram mais importantes nessa formação: a história de Abraão, Habacuque e a última parte de Isaías evidentemente foram proeminentes. Por trás das suas convicções, e confirmando-as, estava a consciência do governo e da ação de Deus na formação da sua vida (v. 15; cf. Jr 1.5 e Is 49.1).
[Observações: 1) Cf. o v. 12 com ICo 11.23; Ef 3.2-12; Cl 1.25-29. Contraste com ICo 15.3 e cf. G1 1.18. Não há contradição. Cf. Cullmann The Early Church, 1956, art. ”The Tradition”, p. 59ss).
v. 16. revelar o seu Filho em mim (en emoi): outras versões preferem “por mim” (i.e., por meio do ensino de Paulo; como Lightfoot), ou “no meu caso” (i.e., em distinção de outros; como Hogg e Vine), ou “para mim” (RSV).]
v. 18-24. A visita a Jerusalém mencionada aqui também está registrada em At 9.23-30. Com base nesse texto, vemos que a apresentação de Paulo a Pedro não foi facilmente realizada antes que Barnabé se tornasse amigo dele. Paulo acrescenta a seguinte informação àquilo que concluímos do texto de Atos.
1) Em Jerusalém, os “apóstolos” a quem Barnabé o apresentou (At 9.27) eram somente dois em número (Tiago, embora não fosse um dos Doze, satisfazia as exigências do apostolado) (v. 19).
2) Paulo indica que o encontro e a consulta (,historêsai) com Pedro foi um propósito definido da sua visita a Jerusalém; um propósito por parte do discípulo de Gamaliel que reconhece publicamente a capacidade intelectual e espiritual do pescador Galileu (v. 18).
3) Embora Paulo andasse “com liberdade em Jerusalém” entre eles (At 9.28), não tinha conseguido visitar as igrejas da Judéia ainda (v. 22).
4) Alguns alegam uma discrepância entre os quinze dias do v. 18 e o período evidentemente mais longo sugerido por Atos; mas o primeiro período refere-se explicitamente somente à duração da estada de Paulo com Pedro.
Em 2Co 11.32, Paulo nos conta que a sua fuga de Damasco ocorreu enquanto a cidade era governada por um governador apontado por Aretas, rei dos nabateus. Na cronologia discutida anteriormente, a data da fuga de Paulo teria sido 35 ou 36 d.C. (precisamos levar em consideração a forma inclusiva de cálculo do tempo). Acerca dos problemas relacionados a isso, veja no NBD os artigos ”Aretas”, “Cronologia do NT” e “Paulo”.
Atos também se refere ao retiro de Paulo na Síria e na Cilicia, com a informação mais específica de que Paulo retornou a Tarso, sua cidade natal (At 9.29,30). Os nomes Síria e Cilicia são os de uma divisão política romana combinada, e isso não significa necessariamente que Paulo tenha visitado a Síria propriamente dita, embora isso seja possível. Compare também At 22.17-21, em que ficamos sabendo que a urgência dos companheiros de Paulo foi confirmada por uma visão.
Paulo então desaparece do relato de Atos por um período de aproximadamente quinze anos, até que Barnabé o leva de Tarso, na Cilicia, para Antioquia, na Síria (At 11.25,26). Que esses não foram anos de inatividade, fica claro pelas referências nas outras cartas. Muitas das experiências que Paulo descreve em 2Co 11.23-27 podem ser datadas nesse período, incluindo as visões diretas de Deus de 2Co 12.2-4. A evangelização que Paulo empreendeu da sua região natal durante esse período, claramente sugerida em G1 2.2, também explicaria o fato de ele ter evitado a Cilicia na sua primeira viagem missionária, em que os missionários viajaram ao continente via Chipre, a ilha natal de Barnabé.
O zelo de Paulo em declarar a exatidão do seu relato (v. 20) indica quanto esses fatos eram importantes para a sua argumentação. Ele ainda está destacando o fato de ter ficado isolado de influência, a não ser da de Pedro e Tiago. A unidade com esses dois líderes, sugerida tacitamente por esse relato, poderia, por outro lado, acrescentar força à sua argumentação.
[Observação: v. 23. a fé. o uso de “fé” como sinônimo de evangelho certamente está em concordância com toda a exposição contida nessa carta. Cf. Lightfoot in loco.]



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