2010/01/05

Introdução Geral ao Livro de Apocalipse

APOCALIPSE, LIVRO, GERAL, INTRODUÇÃO
I. AUTORIA

O autor do Apocalipse designa-se simplesmente João. Embora residente na Ásia Menor (ou, antes, Ásia proconsular), ele era claramente um cristão hebreu como a linguagem e o estilo do livro revelam, e assumiu posição de influência entre as igrejas dessa região. Era natural, em vista da forte tradição de que João, o filho de Zebedeu, emigrou para Éfeso, que os escritores cristãos identificassem João, o apóstolo, com o vidente que escreveu o Apocalipse. O motivo mais ponderável para essa conclusão é, talvez, o fato que o profeta simplesmente se chama “João”, como se não houvesse nenhum outro líder cristão nessa região com quem ele pudesse ser confundido. As muitas afinidades notáveis de pensamento e redação entre o Evangelho e o Apocalipse, quanto aos pormenores, também reclamam o reconhecimento de alguma ligação na autoria dos dois livros.

Por outro lado, a apresentação geral do pensamento e, ainda mais, do estilo e redação do Apocalipse divergem tão largamente do Evangelho, que uma autoria comum se torna problemática. O problema é ainda mais complicado pela opinião vigorosamente debatida por C. C. Torrey, de que o Apocalipse foi escrito em aramaico; desta forma, o grego incomum do livro se explica como sendo uma tradução muito literal. Se outro autor fez essa tradução, o argumento, quanto à diferença de estilo entre o Apocalipse e o Evangelho, cairia por terra ou, pelo menos, perderia sua principal força, porque ninguém pode assegurar que o quarto evangelista escreveu grego clássico.

Em vez de fazer arbitrária decisão sobre tão complicada matéria, é mais prudente admitir que não estamos atualmente em condições de afirmar ou negar que o profeta era o apóstolo do mesmo nome (ver The New Bible Handbook, I. V. F., págs. 408 e segs.). Contudo, a autoria deste livro é de mínima importância em relação ao seu conteúdo; isto não prejudica, de nenhum modo, a interpretação do texto. Em todo caso, o livro pretende ser a "Revelação de Jesus Cristo que Deus lhe deu... e que Ele, enviando por intermédio do seu anjo, notificou a seu servo João" (1). O livro ganha o seu valor pela sua origem, não pela identificação do seu autor humano. O conteúdo do livro é consistente com essa origem divina.

II. DATA

Recentes escritores sobre o Apocalipse se inclinam à aceitação da tradição dos primeiros cristãos de que foi escrito pelos fins do reinado de Domiciano, i. e., cerca de 96 A. D. O livro reflete os princípios de uma crise de perseguição prestes a rebentar com toda a fúria sobre os cristãos da Ásia e, finalmente, sobre a igreja em toda a parte. João, um eminente líder cristão, já havia sido exilado, fato que parece indicar a determinação oficial de erradicar a Igreja, com raiz e ramos. Parece eminente o decreto obrigando o culto do Imperador. Isto concorda perfeitamente com as condições existentes na Ásia Menor durante a perseguição instigada no reinado de Domiciano.

Por outro lado, deve ser mencionado o fato que vários mestres de notabilidade preferem data mais recuada, ou no reinado de Nero (Lightfoot, Westcott, Hort), ou no outro reinado de Galba, 68 A. D. (assim Torrey). A opinião é baseada numa interpretação literal de Ap 11.1-2 e Ap 17.9-11. Sopesando as evidências, parece mais provável a data domiciana, entretanto, não podemos insistir nela.

III. INTERPRETAÇÃO

Geralmente, os vários tipos de exposição do Apocalipse limitam-se a quatro. A concepção preterista vê as profecias como inteiramente relacionadas aos dias de João, sem nenhuma referência a épocas futuras. A interpretação histórica contempla as visões como a predição da história desde o tempo do escritor até o fim do mundo. A explicação futurista coloca a relevância das visões inteiramente no fim da época, afastando-as grandemente do tempo do profeta. A explanação poética considera ilegítimos todos os sistemas de interpretação rígidos. Segundo ela, o profeta simplesmente descreve, à maneira dos seus predicados de artista, o triunfo certo de Deus sobre todos os poderes do mal.

Autores liberais francamente endossam a escola preterista e repudiam os elementos de predição no livro; muitos, contudo, aceitam como válidos os princípios do governo moral de Deus, que se revelam no fundamento do ensino profético. Geralmente, os reformadores adotam o ponto de vista histórico. Identificam o poder coativo com a Roma papal. Rigidamente interpretado, este conceito parece ser contrário à analogia de todas as outras profecias da Bíblia. A exposição futurista era a dos primeiros séculos da Igreja e goza de grande aceitação hoje entre os evangélicos. Em sua forma popular, contudo, está sujeita a sérias objeções, visto que o pano de fundo histórico do livro é quase inteiramente negligenciado. Na verdade, vulgarmente consta que João escreveu o Apocalipse, não para a sua própria época, mas para a Igreja do tempo final. Daí os seus proponentes fazem com que o livro preste informações e idéias tais como as de que o profeta jamais cogitou. Exageros desta espécie levam muitos leitores a avaliar o livro somente do ponto de vista estético, negando tivesse relação com uma situação específica qualquer.

Os símbolos, não obstante, significam alguma coisa. João foi mais do que poeta, apresentando em imagens indefinidas o triunfo de Deus sobre o mal. Ele escreveu para as igrejas a seus cuidados com uma situação prática em mira, a saber, o prospecto da adoração popular de César tornar-se em seus dias obrigatória para os cristãos. Ninguém que diz “Jesus é Senhor” pode também confessar “César é Senhor”, esta última exigência ameaçou a própria existência de toda a Igreja de Deus. Com lúcida compreensão dos princípios envolvidos, João percebeu nitidamente o que seria a consumação lógica das tendências já em operação, a saber, a humanidade dividida para a obediência de Cristo ou do anticristo. No esboço da época de João, portanto, e nas cores do seu delineamento, ele descreveu a última grande crise do mundo, não meramente porque, de um ponto de vista psicológico, ele não pudesse fazer outra coisa, mas por causa da real correspondência entre a sua crise e a dos últimos dias. Como a Igreja era, então, alvo de uma devastadora perseguição de Roma, assim deveria nos últimos dias encontrar-se violentamente perseguida pelo poder mundial prevalescente. A vitória dessa grande luta será o advento de Cristo em glória, e com Ele o estabelecimento do reino de Deus em poder. João claramente contemplou o fim como próximo (Ap 1.1-3), mas esta "antecipada perspectiva" não invalida as suas predições mais do que o fizeram aquelas dos profetas do Velho Testamento e de nosso Senhor, por ser isto característico de toda a profecia.

A exposição seguinte, então, procura interpretar as visões do livro como os leitores devem ter feito a quem elas foram primeiro endereçadas, reconhecendo, não obstante, que o seu próprio cumprimento aguarda o dia que não é conhecido nem de homem nem de anjo, mas que está ainda sob a divina autoridade (At 1.6).

Cf. Título do Livro de Apocalipse
Cf. Teologia do Livro de Apocalipse
Cf. Introdução Geral ao Livro de Apocalipse
Cf. Fundo Histórico do Livro de Apocalipse


Fonte: O Novo Comentário da Bíblica, de F. Davidson.

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