domingo, 13 de fevereiro de 2011

HEBREUS, CARTA, ESTUDO BIBLICO, TEOLOGIA
Na primeira leitura de Hb já percebemos que na maneira como o apóstolo cita o AT, bem como na forma de sua interpretação, evidencia-se um entendimento bem definido da Escritura. Pelo que se percebe, o autor sabia que com essa forma mantinha a consonância com os apóstolos e as comunidades do NT. Em decorrência, podemos depreender de Hb algumas linhas básicas importantes da interpretação da Escritura do AT, que também se destacam claramente em outros textos do NT.

1. Na época da redação de nossa carta não havia apenas uma, mas numerosas tradições dos escritos hebraicos do AT, as quais gozavam de igual conceito, entre outras uma tradição palestina, uma samaritana e uma judaico-egípcia. Entre elas ocorriam certas diferenças e divergências do texto, que, no entanto, não se contradiziam. Na tradução para o idioma grego ocorriam às vezes mudanças de sentido. Não obstante, os livros do AT permanecem para o apóstolo autoridade intocável na forma fixada por escrito, tanto no texto hebraico quanto no grego. Na Escritura do AT ele ouve Deus falando sem mediações.

2. Todo o AT é entendido como um livro cristológico-messiânico, sem que com isso fossem espiritualizados ou até dissolvidos o sentido histórico original das palavras para Israel e a importância das promessas terrenas para o fim dos tempos. O AT é interpretado na perspectiva de um conhecimento genuíno de Cristo e serve à fundamentação da grandeza e glória de Cristo e de sua comunidade. O apóstolo já vê traçado previamente no AT o caminho da comunidade de Jesus Cristo na história da salvação, à semelhança de Paulo em 1Co 10.1-13. Nas palavras da Escritura ele encontra descritas a pessoa de Cristo, seu sacerdócio e seu sacrifício. Em Hb 3,4 ele ouve do texto da LXX como Jesus, o “Apóstolo e Sumo Sacerdote”, exorta o povo de Deus do NT para que não rejeite a promessa única e definitiva da salvação. A partir dessa perspectiva, torna-se compreensível que entendimentos da comunidade fiel do NT também sejam projetados no AT ali onde originalmente não podem ser reconhecidos. Assim, p. ex., cita-se em Hb 2.6-8 uma palavra do Sl 8.5-7. Quando o texto hebraico fala do “homem”, ainda não consta nada acerca do Messias ou do “Filho do Homem” no sentido do NT. O fato de que o Sl 8 é uma palavra que já aponta para Jesus Cristo e que alcançou nele seu cumprimento, constitui uma descoberta do NT, que é introduzida naquele texto. Contudo, essa visão tornou-se legítima para a interpretação do AT no âmbito da comunidade de Jesus. Algo similar observamos na comparação de Hb 10.5-7 com o Sl 40.7-9. Desse modo o apóstolo desvela para cada geração de novo a riqueza do testemunho de Cristo no AT.

3. Em geral as palavras do AT são dissociadas de seu contexto original, sem que com isso, porém, se rompa a unidade da revelação. Jamais uma palavra de Deus é lançada contra outra, ou mesmo uma eliminada por outra. Em citações do AT até pode acontecer que no NT sejam trocadas algumas palavras isoladas, sem que com isso fosse destruído o sentido teológico. Ao lermos os escritos do NT ficamos continuamente surpresos pelo fato de como palavras isoladas, que no AT não tinham nenhuma espécie de conexão, são colocadas diretamente lado a lado e interpretadas com significados iguais.

4. Incessantemente deparamo-nos com a circunstância de que determinados detalhes não são mencionados na Escritura. O AT, por exemplo, delineia muitos acontecimentos apenas com traços esparsos, ou pessoas são descritas apenas com poucos aspectos de seu caráter. Omite-se muito do que ainda nos interessaria. Esta falta de dados leva a uma importante conclusão para a exegese do NT. Uma indicação clara disso é a argumentação teológica em Hb 7.1-3. No relato do AT acerca de Melquisedeque em Gn 14.18-21 não nos é dito nada acerca da origem e da história subseqüente de Melquisedeque depois do encontro com Abraão. Não somos informados acerca de sua origem e nascimento, bem como de sua morte. Disso o apóstolo extrai entendimento de que Melquisedeque “não teve princípio de dias, nem fim de existência”. Quando pergunta, em Hb 1.13: “Ora, a qual dos anjos jamais disse: Assenta-te à minha direita…?” ele quer sugerir com isso: nos escritos do AT não é dito em lugar algum que Deus possa ter dito essa palavra a um anjo – logo nunca o fez! Algo análogo ocorre com as afirmações em Hb 1.5 e 2.16. Com essa forma de argumentação o NT segue um princípio do raciocínio rabínico: o que não está escrito na Torá, não existe no mundo.

5. De uma mesma palavra do AT podem ser obtidas conclusões teológicas diversas, que se complementam mutuamente, mas não se contradizem. Em outras palavras, uma mesma palavra do AT pode ser referida para fundamentar diferentes afirmações no NT. O Sl 110.1 “Assenta-te à minha direita…” é interpretado como profecia sobre o Cristo, que se cumpriu na sua ascensão (Mc 16.19). Em Hb 1.3,13 essa mesma palavra do AT serve para fundamentar a filiação divina de Jesus. Em Hb 5.1 (cf. Hb 4.14) a mesma palavra é indício do sumo sacerdócio do Filho de Deus, que serve em Hb 10.12,13 (cf. 1Co 15.25-27) para justificar pelo AT a vitória final de Jesus e a consumação do mundo.

6. O autor de Hb utiliza, como os demais escritores do NT, as formas de interpretação da leitura alegórica e da tipologia. Ambas as formas são legítimas para a proclamação da comunidade do NT. A interpretação alegórica desvela, num evento histórico ou numa pessoa, um mistério divino, cujo significado espiritual pode “ser captado unicamente a partir do todo da revelação”. No próprio acontecimento (ou também no objeto, p. ex., o tabernáculo) esse mistério não precisa ser expresso de imediato. Importante é que todos os traços individuais possuem um sentido figurado. A tipologia, em contraposição, enfoca complexos mais longos da história, nos quais o evento da história da salvação no passado adquire importância modelar para o presente ou o futuro da igreja. Alegoria e tipologia não anulam o sentido original da palavra, o “significado gramatical” de um relato do AT. Enquanto, porém, a tipologia observa a correlação entre pessoas e acontecimentos nos parâmetros do transcurso histórico, a leitura alegórica tenta encontrar um sentido mais profundo no próprio relato. Assim o autor de Hb aplicou, p. ex., à cortina do tabernáculo, que separava o santuário do lugar santíssimo, a interpretação alegórica: vê nela um indício da linha divisória invisível que separa nosso mundo terreno da glória de Deus, assim como por outro lado considera que a cortina alude ao caminho de Jesus em sua corporalidade terrena (veja exposição sobre Hb 6.19 e 10.20). Em geral encontramos no NT apenas explicações alegóricas isoladas no contexto de interpretações tipológicas (especialmente 1Co 10.4 no trecho de 1Co 10.1-13). Deparamo-nos, p. ex., em Hb 3, com uma inegável interpretação tipológica do AT, enquanto em Hb 7, na explicação da misteriosa pessoa de Melquisedeque, o apóstolo faz uso da leitura alegórica.

7. Quando corremos os olhos sobre o material reunido, ficamos admirados com a grande liberdade espiritual com que os escritores do NT – assim como o autor de Hb – explicam a Escritura, sem caírem numa especulação cheia de fantasias. Eles estão protegidos contra esses escorregões porque sua interpretação da Escritura sempre refere-se a Cristo, o centro de toda a revelação, e porque se submetem à autoridade da palavra da Escritura que lhes foi transmitida. Na contemplação do AT, assim como a verificamos em Hb, não se trata de uma exegese científica na perspectiva histórico-crítica, mas da mensagem de um apóstolo conduzido pelo Espírito de Deus. “O autor de Hb é um carismático. Ele lê o AT luz da nova ordem da salvação e reconhece já na imagem sombreada da antiga lei a realidade celestial trazida por Cristo. Na parábola do AT ele decifra as indicações ocultas do tempo de salvação atual (Hb 9.9) Temos de crer nele quando escreve que Moisés preferiu os sofrimentos do povo de Deus aos tesouros do Egito e se decidiu pela desonra de Cristo (Hb 11.24,25), ou quando nos assegura que o próprio Cristo fala aos cristãos no Sl 95 (Hb 3.7-11)”.

Intencionalmente discorremos com mais vagar sobre a compreensão e interpretação da Escritura em Hb, porque temos a convicção de que a atitude dos apóstolos diante da palavra da Escritura também é norma para a comunidade de Jesus na atualidade. Desta maneira, podemos seguir seus trilhos na nossa interpretação. Quando os apóstolos interpretam a palavra do AT, ela é revelação compromissava para a comunidade de Jesus Cristo de todas as gerações. Existe uma justificativa espiritual para aplicar, sob a direção do Espírito Santo, a maneira e o método da interpretação apostólica da Escritura ainda hoje, e com certeza ela é aplicada repetidamente – muitas vezes de modo inconsciente – na pregação e na cura de almas. Contudo, não possuímos a autoridade apostólica de elevar o nosso entendimento e a nossa interpretação, na forma e no resultado, como autoridade para os demais.



Fonte: Carta aos Hebreus, Comentário Bíblico Esperança

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