2019/09/02

Estudo sobre Ezequiel 16

Estudo sobre Ezequiel 16

Estudo sobre Ezequiel 16




Ezequiel 16

V ALEGORIA E EVENTO (16.1—19.14)
1) A noiva infiel (16.1-63)
A delinquência de Jerusalém é agora retratada em uma alegoria poderosa e, aliás, revoltante. A cidade é comparada a uma menina bebê exposta no nascimento sem o mínimo de atenção. Javé se compadeceu dela, adotou-a e a criou e, quando se tornou núbil, fez dela sua noiva, enfeitando-a com ornamentos e roupas de rainha. Mas, em vez de mostrar gratidão e fidelidade, ela se voltou para a prostituição e cometeu fornicação com estranhos — egípcios, assírios e caldeus — seduzindo-os e até mesmo subornando-os a se tornarem seus amantes (v. 1-34). Na vida real, uma mulher dessas não escaparia do castigo reservado para uma adúltera: exposição e apedrejamento públicos (v. 35-43a). As irmãs de Jerusalém, Samaria e Sodoma, tinham se comportado de forma vergonhosa e haviam sido castigadas por isso; mas, em comparação com a sua conduta ultrajante, a das irmãs parecia realmente inocente. Tanto mais certo e esmagador seria o seu castigo (v. 43b-52). No entanto, para Jerusalém, como para Samaria e Sodoma, havia esperança de restauração final. Javé em sua graça lembraria da sua aliança com ela e iria restabelecê-la perpetuamente, embora ela tivesse violado o seu juramento a ele (v. 53-63).
A imagem da aliança de Javé com o seu povo em termos de laços de casamento aparece em Os 2.4,5 e Jr 2.2 (cf. também Is 50.1; 54.6,7; 62.4,5). O precedente de Oseias em particular parece ter influenciado Ezequiel: lá, como aqui, a apostasia e idolatria por parte do povo de Javé são estigmatizadas como fornicação e adultério (cf. Jr 2.20 —3.5). A analogia era tanto mais adequada em virtude do papel que a prostituição ritual tinha em grande parte dos cultos de fertilidade.
v. 2. confronte Jerusalém com suas práticas detestáveis: essa linguagem não sugere a presença do profeta em Jerusalém nessa época mais do que a linguagem dos oráculos contra Tiro (26.2ss) ou Egito (29.1ss) sugere a sua presença nesses lugares, v. 3. seu pai era um amorreu e sua mãe uma hitita\ mas os judeus acusavam o samaritanos de serem de raça mista! Jerusalém era uma cidade cananeia até o reinado de Davi, e, visto que os seus habitantes não foram expulsos nem destruídos, ela manteve muito da sua natureza não-israelita. Os amorreus (cf. Js 10.5) e os hititas (cf. 2Sm 23.39) podem representar os elementos semitas e não-semitas na sua população nativa dos jebuseus. v. 4. cortado: melhor seria “preso”, cf. a NEB. Esfregar uma criança recém-nascida com sal depois de lavá-la e antes de enrolá-la com panos, assim se acreditava — e ainda se acredita —, era algo que a fortalecia.
v. 6. Viva! o TM continua (v. 7): “Eu a fiz multiplicar-se...” (assim a RV); a NVI traz Eu a fiz crescer (lit. “Eu lhe dei”, possivelmente ”Eu vou fazer você...”). Talvez seria melhor ler: “Viva, cresça; eu vou fazer você como uma planta do campo”, v. 7. a mais linda das jóias: lit. “ornamento dos ornamentos”, i.e., a beleza completa da feminilidade, v. 8. Fiz um juramento e estabeleci uma aliança com vocêa aliança do Sinai é tratada como contrato de casamento de Javé. v. 10. Pus-lhe um vestido bordado: essa talvez seja a referência bíblica mais antiga à seda (heb. meshi), produzida pelo bicho-da-seda das folhas da amoreira branca importada do Extremo Oriente, v. 15. Mas você [...] uma prostituta: uma referência a alianças estrangeiras, v. 17. Você [...] fez para Sl mesma ídolos em forma de homem: uma referência aos rituais religiosos estrangeiros que tinham de ser acomodados como parte das alianças estrangeiras, v. 20. você ainda pegou seus filhos e filhas: acerca de sacrifícios de crianças, cf. 2Rs 16.3; 21.6; Jr 7.31; v. tb. Ez 20.25,26,31; 23.37,39. v. 22. Em todas as suas práticas detestáveis: lit. “com” todas as suas abominações, i.e., além delas, ela ainda era culpada de esquecimento ingrato (cf. NEB). v. 24. altares (ARC: “abóbada”; BJ: “colinas”): NEB: “leito, divã”, santuários elevados: heb. ramah, NEB: “assento elevado”.
O termo ramah na alegoria corresponde a bamah (cf. 20.29) na realidade; assim como aquele era usado para prostituição pública, este era usado para idolatria pública, v. 26. os egípcios-, cf. Is 18.lss; 31.1-3; Jr 2.18,36; 37.5ss acerca da tentação recorrente e fatal de confiar no Egito. O Egito usava regularmente Judá e outros Estados menores do sudoeste da Ásia como fantoches nos seus avanços contra os poderes da Mesopotâmia e, com igual frequência, os abandonava (cf. 29.6,7; Is 36.6). Aqui deve haver uma alusão especial às lisonjas egípcias que exatamente nessa época estavam levando Zedequias a quebrar o seu juramento (cf. 17.15), assim como tinham levado o rei Oseias do Reino do Norte a fazer a mesma coisa em época anterior (2Rs 17.4). v. 27. as filhas dos filisteus, i.e., as cinco cidades dos filisteus. Os filisteus eram pagãos e não-semitas, mas até eles ficaram chocados com a conduta lasciva de Jerusalém. A referência talvez seja à invasão de Judá por parte de Senaqueribe em 701 a.C. (2Rs 18.13ss; Is 36.1ss); ele afirma ter dado algumas cidades de Judá a Asdode, Ecrom e Gate. v. 28. os assírios, como quando Acaz enviou uma delegação a Tiglate-Pileser III em 734 a.C. (cf. Is 7.17; 8.5-9). v. 29. Babilônia (heb. ”Caldeia”): como quando Ezequias orquestrou planos contra a Assíria com Meroda-que-Baladã (2Rs 20.12-19; Is 39.1-8). v. 30. descarada, “imperiosa” (ARC, ACF) está mais próximo do sentido original (“mando-na”, talvez), v. 33. você dá presentes a todos os seus amantes-, na verdade, os “presentes” enviados aos aliados estrangeiros por meio dos tributos, mas na alegoria a prostituta é retratada como alguém que de forma absurda contrata os seus amantes, em vez de ser contratada por eles (v. 34).
v. 36. Assim diz o Soberano, o Senhor...: o castigo da esposa que se tornou prostituta é formulado de forma mais concisa em Os 2.3; aqui ele é elaborado, e a cada aspecto da sua infidelidade corresponde um aspecto do castigo (acerca da morte por apedrejamento, cf. Dt 22.21).
v. 44. Tal mãe, tal filha: Jerusalém é uma filha digna daqueles antigos habitantes de Canaã a quem a terra “vomitou” por causa das suas abominações (Lv 18.25,28). v. 46. Sua irmã mais velha era Samaria [...] sua irmã mais nova [...] era Sodoma: a conduta de Samaria, embora suficientemente culpável para que sofresse o desastre, era menos culpável do que a conduta de Jerusalém (cf. 23.4,11; Jr 3.6-11). Parece estranho tratar Sodoma como irmã de Jerusalém e Samaria, mas ela compartilhava os mesmos ancestrais cana-neus, sendo “mais nova” no sentido de “menor”. Acerca de uma comparação favorável de Sodoma com cidades de Israel, cf. Mt 10.15; 11.23,24. v. 47. Você não apenas andou...: com uma formulação superior, a NEB traduz assim: “Você não se comportou da mesma forma que elas, cometendo as mesmas abominações?” v. 51. Samaria não cometeu a metade dos pecados que você cometeu: cf. a representação alegórica de Samaria e Jerusalém como Oolá e Oolibá em 23.1-49.
v. 53. eu restaurarei a sorte [...] e a sua sorte junto com elas: até mesmo para Jerusalém haveria restauração, assim como para Samaria e Sodoma, quando a vergonha diante do seu estado desgraçado representado de forma alegórica nos v. 35-43a a levaria ao arrependimento. v. 56. Você nem mencionaria o nome de sua irmã Sodoma...: de fato, uma situação deplorável, em que a antes não mencionável Sodoma foi desbancada como o exemplo de maldade pela cidade de Deus, e isso nos lábios dos pagãos, os filisteus e edomitas!
v. 60. eu me lembrarei da aliança que fiz com você nos dias da sua infância: no início da peregrinação pelo deserto (cf. Ex 24.3-8; Jr 2.2, 3). com você estabelecerei uma aliança eterna: cf. 11.19,20 (em que a palavra “aliança” não é usada); 2Sm 23.5; Is 55.3. n. 61. Eu as darei a você como filhas: Jerusalém vai recuperar a sua condição de cidade-mãe do povo de Deus (cf. Gl 4.26). não porém com base em minha aliança com você: mas por meio de um novo ato divino de pura graça. v. 62,63. você saberá que eu sou o Senhor [...] quando eu fizer propiciação em seu favor por tudo o que você tem feito: porque Deus é “rico em misericórdia” (Ef 2.4; cf. SL 130.7,8; Mq 7.18-20).

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