Estudo sobre Apocalipse 7:4-8

Estudo sobre Apocalipse 7:4-8

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Apocalipse 7:4-8

Então, ouvi o número dos que foram selados. Diversas vezes ocorre no âmbito de uma visão uma audição explicativa (Ap 1.17; 6.6). Aquilo que é visto também deve ser entendido corretamente. No presente caso, uma voz, cuja origem exata não é mencionada, dirige a atenção de João das perguntas sobre a forma de execução do selamento – que permanece inteiramente destituído de aspectos concretos – para o círculo das pessoas seladas.

Seu número é declarado por meio de uma revelação expressa. Ele não pode ser obtido pela simples contagem. Assim, não há nenhum conflito com a multidão incontável do v. 9. Ambos os grupos são contáveis para Deus e incontáveis para os seres humanos. O cap. 13 traz mais um exemplo sobre um número assim, objeto de uma revelação. Lá encontramos no v. 18 um número que não pode ser matematicamente apurado: ao invés de seu valor de contagem deve-se buscar seu valor metafórico.

De acordo com Ap 13.17; 15.2 há uma coincidência entre o número e o nome. Nesta visão do selo a voz anuncia no mesmo sentido um número, citando além disto igualmente um nome.

Já por meio destes nexos delineia-se o caminho para a interpretação dos cento e quarenta e quatro mil. Uma revelação sempre pressupõe um mistério essencial. Por isto, o anúncio poderia ser descrito da seguinte maneira: “Ouvi o mistério dos selados”. Ninguém deveria esperar que depois disto aconteceria uma descrição da quantidade numérica dos selados, em lugar de uma definição da sua natureza: cento e quarenta e quatro mil, de todas as tribos dos filhos de Israel.

Embora falte no AT o número cento e quarenta e quatro mil, ele traz em si uma conotação do AT por meio de sua composição expressa nos v. 5-8, ou seja, por seu vínculo com as doze tribos de Israel. Nesta expressão o doze constitui o número básico, sendo assim a base da igreja dos selados formada pelo povo das doze tribos do AT. Cento e quarenta e quatro é o quadrado de doze, no que se manifesta a condição ideal de povo de Deus completo (pelo acréscimo dos gentios cristãos?). O quadrado, por sua vez, é multiplicado por mil, sendo que mil é considerado como expressão de grande quantidade (Jó 9.3; Sl 84.10; Is 60.22; Ap 5.11; etc.). Desta maneira forma-se a maior multiplicação possível. Com base nesta expressão numérica não é correto pensar no selamento de uma seleção cristã (nota 319). A igreja inteira, desde que realmente seja igreja, é selada. “Jamais perecerão, e ninguém as arrebatará da minha mão. Aquilo que meu Pai me deu é maior do que tudo; e da mão do Pai ninguém pode arrebatar” (Jo 10.28,29). “Protegi-os, e nenhum deles se perdeu” (Jo 17.12).

A ideia da magnitude do povo de Deus é desenvolvida no v. 9, enquanto que a noção de inteireza é mostrada aqui nos v. 5-8.

No primeiro cristianismo Israel constituía um nome de honra da igreja formada de judeus e gentios. Seus membros são filhos de Abraão (Gl 3.29), a verdadeira circuncisão (Fp 3.3), os verdadeiros judeus (Rm 2.29; Ap 2.9; 3.9), o Israel de Deus (Gl 6.16; Rm 9.6-8; 11.26; 1Co 10.18), a nova Jerusalém (Ap 21.12,14) e “meu povo” (Ap 18.4; 21.3).320

Uma parcela das referências arroladas, porém, permite detectar como esta autocompreensão das igrejas do cristianismo primitivo era controvertida e atacada. Isto já ficou claro na interpretação do candelabro de ouro em Ap 1.20. Lá, como também aqui e também já em Paulo, esta compreensão do povo de Deus é tida como um mistério que não se desvenda ou que se oculta novamente sem revelação. Desde Ap 1.5,6 o presente livro repetidamente traz irrupções espirituais desta certeza. Em Ap 14.1-5 João vê mais uma vez os cento e quarenta e quatro mil, obtendo novamente a certeza: “(eles) foram comprados da terra…, dentre os homens (não apenas dentre os judeus!), primícias para Deus e para o Cordeiro”.

Os v. 5-8 contêm o inventário do verdadeiro Israel, do verdadeiro povo das doze tribos (cf. Tg 1.1), na mais minuciosa solenidade: da tribo de Judá foram selados doze mil; da tribo de Rúben, doze mil; da tribo de Gade, doze mil; da tribo de Aser, doze mil; da tribo de Naftali, doze mil; da tribo de Manassés, doze mil; da tribo de Simeão, doze mil; da tribo de Levi, doze mil; da tribo de Issacar, doze mil; da tribo de Zebulom, doze mil; da tribo de José, doze mil; da tribo de Benjamim foram selados doze mil. A ideia fundamental desta exposição é a integridade não mutilada como Deus a vê, enquanto os próprios cristãos experimentam a sua dispersão, o que acontece peculiarmente nos anunciados tempos de perseguição. Contudo, Deus não perde nenhum dos que confiam nele. Ele mantém uma listagem precisa, assemelhando-se a um pastor que não se consola com as noventa e nove ovelhas restantes quando percebe a falta de uma. Como em Mt 10.30, ser contado portanto significa: não temais!

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Apocalipse 7:3