2016/10/18

Apocalipse 1 — Comentário Bíblico Online

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Apocalipse 1 — Comentário Bíblico Online


 


Apocalipse 1 

O primeiro capítulo de Apocalipse forma uma introdução do livro. Ele é composto por um breve parágrafo em que é apresentado o título e propósito da sua composição (vv. 1-3), seguido por uma saudação (vv. 4-8) e a visão de Cristo (vv. 9-20).
A. O SOBRESCRITO, 1.1-3
1. A Fonte da Revelação (1.1)
As três primeiras palavras do livro de Apocalipse são: Apocalypsis lesou Christou. Este é obviamente o título do livro. É por isso que não encontramos nenhum artigo defi­nido. Assim, traduzimos o título: Revelação de Jesus Cristo.
Na língua portuguesa, esse livro é predominantemente denominado de “Apocalipse”. Isso ocorre porque a palavra grega para revelação é apocalypsis. Vem do verbo apocalypto, “descobrir” ou “revelar”. Na Septuaginta e no Novo Testamento, ele é usado no sentido especial de uma revelação divina. Um bom exemplo do Antigo Testamento grego é Amós 3.7: “Certamente o Senhor Jeová não fará coisa alguma, sem ter revelado o seu segredo aos seus servos, os profetas”. No Novo Testamento, Paulo usa o substantivo 13 vezes. Por exemplo, ele fala da “revelação do mistério” (Rm 16.25). Ele recebeu seu evangelho “pela revelação de Jesus Cristo” (Gl 1.12). O termo também é usado para a Segunda Vinda em 1 Coríntios 1.7 (“manifestação”; “vinda” na KJV) 2Tes 1.7, bem como em 1 Pedro 1.7, 13; 4.13. Vincent escreve: “A Revelação aqui é o revelar dos mistérios divinos”.
Mas, qual é o significado do complemento de Jesus Cristo? Alguns estudiosos en­tendem que esse é um genitivo objetivo; isto é, Jesus Cristo está sendo revelado. Um certo apoio para esse ponto de vista é encontrado no fato de que temos uma visão de Cristo nesse primeiro capítulo. Mas isso não descreve apropriadamente os conteúdos do livro como um todo.
Em segundo lugar, ele pode ser tratado como um genitivo de posse; isto é, a revela­ção pertence a Jesus Cristo. Isso é apoiado pela frase a qual Deus lhe deu. Mas isso era para o propósito da sua transmissão a João.
Um terceiro ponto de vista é que esse é um genitivo subjetivo; isto é, Jesus Cristo dá a revelação. Isso parece fazer mais sentido. Lenski diz: “O genitivo é subjetivo: Jesus Cristo fez essa Revelação”.2 Phillips realça o ponto ao traduzir assim a sentença: “Essa é a Revelação de Jesus Cristo”. No entanto, é melhor deixar de fora o verbo da expressão, como ocorre no grego, e transformá-la no título do livro.
A fonte da revelação foi Deus — a qual Deus lhe deu. Swete comenta: “O Pai é o supremo Revelador [...] o filho é o agente por meio de quem a revelação passa aos homens”? Isso está em conformidade com o ensinamento do Evangelho de João 3.35; 5.20­-26; 7.16; 8.28 etc.).
O propósito de Deus ao dar essa revelação a Jesus era que ele pudesse mostrar aos seus servos as coisas que brevemente devem acontecer. A palavra para servos é doulois, que significa “escravos”. Mas Simcox emite uma nota de advertência para aque­les que interpretam esse termo no sentido moderno ocidental. Ele diz: “No Oriente (Lc 15.17) os servos que foram comprados por um preço estavam acima dos assalariados”.4 Em Atos e nas epístolas, o termo é frequentemente aplicado aos cristãos.
A palavra devem (dei) é extremamente significativa. Charles escreve: “O dei denota não a consumação rápida das coisas, mas o cumprimento absolutamente certo do propósito divino”.5
Um outro termo importante é brevemente (en tachei). Charles comenta: “Que esse cumprimento ocorreria 'logo' [...] sempre foi a expectativa de toda profecia viva e apocalíptica”? A. T. Robertson observa: “É um termo relativo a ser julgado à luz de 2 Pedro 3.8, de acordo com o relógio de Deus, não o nosso”.7 A mesma frase ocorre em Lucas 18.8. Simcox diz: “Essas últimas passagens sugerem que o objetivo dessas palavras é assegurar-nos da prontidão prática de Deus para cumprir suas promessas, em vez de definir qualquer limite de tempo para o seu cumprimento real”? No calendário de Deus, esses eventos são marcados de maneira definida, mas não nos cabe interpretar esse calendário (cf. At 1.7). No entanto, tudo será cumprido brevemente — “logo”, ou “em breve”. Moffatt comenta: “Esse é o ponto crítico do livro [...] A nota-chave de Apocalipse é a certeza alegre de que da parte de Deus não há relutância ou atraso; seu povo não precisa esperar ansiosamente agora”.9 Newell faz a seguinte sugestão útil: “Brevemen­te' não só significa iminência, mas também rapidez na execução, depois da ação iniciada”.'
A sentença seguinte também é importante: pelo seu anjo as enviou e as notifi­cou a João, seu servo. O verbo notificou é semaino. Ele vem de sema (semeion), “um sinal”. Assim, esse verbo significa “dar um sinal, representar, indicar”,11 ou “fazer conhe­cido, relatar, comunicar”.12 Lange diz o seguinte: “Esemanen é uma modificação de deixai [mostrou], indicativo dos sinais empregados, a representação simbólica”.' Bengel obser­va: “a LXX usa semainein para expressar um grande sinal de uma grande coisa: Ezequiel 33.3”» O verbo é encontrado somente aqui em Apocalipse. Vincent escreve: “A palavra é apropriada para o caráter simbólico da revelação, como em João 12.33, em que Cristo prediz o modo da sua morte por meio de uma figura”.15
É com base nessa derivação etimológica que muitos mestres da Bíblia têm escolhido dar a notificou o significado de “sinalizou”; isto é, o material desse livro é apresentado em sinais e símbolos. Alguns comentaristas mais recentes têm contestado essa explica­ção. J. B. Smith, por exemplo, diz: “O uso da palavra em outros textos (Jo 12.33; 18.32; 21.19; At 11.28; 25.27) não permite esse significado. Em cada caso, o sentido deve ser indicado pela palavra e não pelo símbolo”.16 Parece, no entanto, que a ideia tem algum mérito, embora não deva ser superenfatizada. No léxico de Liddell-Scott-Jones, o primei‑
ro significado dado é: “mostrar por um sinal, indicar, apontar”.' Também é mencionado que quando o verbo é usado “absolutamente” (i.e., sem um objeto) ele significa “dar sinais”. É dessa forma que o termo é usado aqui. Depois de descrever o significado original da palavra, McDowell observa: “O autor infere que a mensagem que ele recebeu é dada aos seus leitores por meio de sinais e símbolos. A atenção a esse fato deveria poupar-nos de um literalismo crasso ao interpretar a mensagem do livro”.18
A revelação foi notificada pelo seu anjo. Provavelmente, a melhor coisa é pegar essa forma singular de maneira genérica. Ela se aplicaria, portanto, “a todos os anjos individuais que nas diferentes visões têm o ofício de fazer declarações significativas”.19 Esses anjos (ou anjo) são mencionados em Ap 17.1, 7, 15; 19.9; 21.9; 22.1, 6. O significado literal de anjo (angelos) é “mensageiro”. Tanto no Antigo quanto no Novo Testamento encontramos Deus usando anjos como mensageiros para comunicar sua revelação aos homens.
Nesse caso, a revelação foi enviada a João, seu servo. Duesterdieck comenta: “O vidente se autodenomina servo de Jesus Cristo quanto ao seu serviço profético. O acrés­cimo do seu próprio nome contém, de acordo com o costume profético antigo, uma atesta­ção da profecia”.'
2. O Conteúdo da Revelação (1.2)
João testificou da palavra de Deus, e do testemunho de Jesus Cristo, e de tudo o que tem visto. As palavras gregas para testificou e testemunho vêm da mesma raiz. O The Twentieth Century New Testament [Novo Testamento do Século Vinte] preserva essa conexão ao traduzir o versículo da seguinte forma: “o qual testificou da Mensagem de Deus, e do testemunho acerca de Jesus Cristo, não omitindo nada daquilo que viu”.
A raiz grega comum é martyr. Rist observa que a combinação aqui “pode envolver um jogo de palavras que não é reproduzível na tradução inglesa, porque a palavra `testemunho' também pode significar 'martírio', enquanto 'testificou' vem de um verbo que pode significar 'tornar-se um mártir'. Há uma conexão próxima, porque aqueles que testificavam e davam testemunho eram candidatos ao martírio nos dias de perseguição”.21 É por isso que a palavra grega martyros, “testemunha”, finalmente veio a significar “mártir”.
Testificou está no aoristo. Esse é um bom exemplo de um aoristo epistolar. João está testificando enquanto escreve, mas do ponto de vista dos seus leitores estaria no tempo passado. Assim, o aoristo epistolar seria melhor traduzido como um presente con­tínuo no português.
Da palavra de Deus, e do testemunho de Jesus são definidos por Charles como significando “a revelação dada por Deus e testificada por Cristo (genitivo subjetivo)”.22 Semelhantemente, Swete apresenta esta identificação: “A revelação concedida por Deus e atestada por Cristo”.”
E de tudo o que tem visto. Não existe a conjunção e nos melhores textos gregos, assim, a maioria dos comentaristas toma essa frase como estando em aposição com a palavra de Deus e o testemunho de Jesus. Swete diz: “Essa palavra e testemunho alcançaram a João em uma visão”.” Goodspeed traduz essa passagem da seguinte for­ma: “Que testifica de acordo com o que viu — a mensagem de Deus e o testemunho de Jesus Cristo”.
3. A Bênção dos Receptores (1.3)
João pronuncia uma tríplice bênção a três grupos. A primeira é: aquele que lê. O contexto indica claramente que a referência é a alguém que lê o livro a outros — os que ouvem. Isso justifica a tradução da RSV, que traz: “aquele que lê em voz alta”. “Não é a pessoa particular [...] mas [...] a pessoa que lê em voz alta na congregação”.' Esse era inicialmente um leitor leigo, mas, mais tarde, um obreiro da igreja.
Ao chamar aquilo que ele estava escrevendo de as palavras desta profecia, João deliberadamente colocou o livro de Apocalipse no mesmo nível dos livros proféticos do Antigo Testamento. Ele repete isso em 22.7, 10, 18.
Mas, o ouvinte também deve ser um praticante — e guardam as coisas que nela estão escritas. O verbo grego temo “é constantemente usado para 'guardar' a Lei, os Mandamentos [...] em todo o NT; mas é mais comum em todos os escritos de João”.”
Essa é a primeira das sete bem-aventuranças no livro de Apocalipse (cf. 14.13; 16.15; 19.9; 20.6; 22.7, 14). Um estudo dessas “bem-aventuranças” seria proveitoso tanto para os obreiros como para os leigos.
Uma frase final é: porque o tempo está próximo. A palavra para tempo não é chronos — tempo no sentido de duração. A palavra aqui é kairos — “tempo que produz seus diversos nascimentos”.' Arndt e Gingrich definem a palavra assim: “o tempo certo, apropriado, favorável [...] tempo definido e estabelecido [...] um dos principais termos escatológicos, ho kairos, o tempo de crise, os últimos tempos” .28 Lange traduz esse termo aqui por: “o tempo de decisão”. Weymouth traz: “Porque o tempo do seu cumprimento está agora próximo”.
Mais uma vez, João ressalta a iminência daquilo que irá acontecer (cf. “brevemen­te”, v. 1). Niles observa: “Uma qualidade do apocalipse bem como da profecia é a pré-condensação da visão que estabelece como iminente aquilo que com certeza vai aconte­cer”.' De Cristo ele diz: “Ele está vindo e virá. Na verdade, é nessa fusão do presente contínuo com o futuro certo que se encontra a clareza da escatologia bíblica”.'
R. H. Charles chamou a atenção para o fato de se encontrar nesses três primei­ros versículos de Apocalipse três elementos, cada um consistindo em três partes. Com relação à 1) fonte da Revelação, ela era de Deus, por meio de Cristo, e comunicada por João aos seus ouvintes. 2) Os conteúdos da revelação são especifi­cados como a palavra de Deus, a verdade atestada por Cristo, reunido naquilo que João viu. 3) A bênção era tríplice — ao leitor público, aos ouvintes e especialmente aos praticantes.”
B. A SAUDAÇÃO, 1.4-8
Os três primeiros versículos formam um sobrescrito para o livro, quase como um título ampliado como encontramos nos títulos de livros escritos há duzentos ou trezen­tos anos. Mas esse parágrafo constitui uma saudação, indicando o caráter epistolar do livro de Apocalipse. Charles diz: “Todo o livro, a partir de 1.4 até o seu final é, na verdade, uma epístola”.'
1. A Saudação (1.4,5a)
Diferentemente do costume atual de colocar o nome do remetente somente no final de uma carta, todas as cartas daquele período seguiam o costume sensível de apresentar o nome do autor logo no início. Assim, o leitor saberia imediatamente quem estava escre­vendo para ele.
Dessa forma, a parte principal do livro de Apocalipse começa com João. Esse prova­velmente era João, filho de Zebedeu, o apóstolo que escreveu o quarto Evangelho e as três epístolas que levam o seu nome (veja Int., “Autoria”). Como respeitável patriarca da Igreja ele não tinha necessidade de identificar-se mais detalhadamente.
O livro é dirigido às sete igrejas que estão na Ásia. No Novo Testamento o termo Ásia não significa o continente, mas a província romana da Ásia, situada no lado ociden­tal da Ásia Menor (veja mapa 1). Ela tinha sido formada em torno de 130 a.C., com a adição da Frigia em 116 a.C.
Por que sete igrejas? Havia igrejas cristãs em diversas outras cidades da Ásia, como Colossos e Hierápolis (Cl 1.2; 4.13), Trôade (At 20.5), Magnésia e Trales, às quais Inácio escreveu em torno de 115 d.C. Foi sugerido que Trôade foi omitida por causa da sua distân­cia das sete igrejas. Por outro lado, as cidades de Hierápolis e Colossos ficavam muito próximas de Laodiceia, e Magnésia e Trales, de Éfeso, por isso não foram mencionadas.
Mas uma explicação melhor é que sete era o número da perfeição. O autor de Apocalipse usa esse número como estrutura básica para o seu livro. Aqui esse número significa santidade e perfeição. Erdman escreve: “As sete igrejas endereçadas foram, portanto, representativas de toda a Igreja em todo o mundo e em todas as épocas. Assim, João está dirigindo o livro inteiro à Igreja Universal”' O Cânon Muratoriano (final do segundo século) já exprimia: “E João também no Apocalipse, embora escrevesse às sete igrejas, no entanto, fala a todos”?'
Graça e paz seja convosco é a mesma fórmula encontrada no início das epístolas paulinas e nas duas de Pedro. (Em 1 e 2 Timóteo, bem como em 2 João, a palavra “mise­ricórdia” é acrescentada. Essas palavras altamente significativas são discutidas nos co­mentários no início de diversas epístolas paulinas. Plummer observa que a combinação desses dois termos “une elementos gregos e hebraicos, e dá aos dois um profundo signifi­cado cristão”?'
Graça e paz vêm primeiro da parte daquele que é, e que era, e que há de vir. Isso refere-se primeiramente ao Pai, como o Eterno. Lenski comenta que “'Aquele que É' significa: 'Aquele que É de eternidade em eternidade' [...] 'e Aquele que Era' significa: `Aquele que era antes do tempo e da origem do mundo' [...] 'e Aquele que está vindo' quando o tempo já não mais existir, quando Ele vier para o julgamento final”?' Ele acres­centa: “'Aquele que está vindo' é altamente messiânico”.”
Simcox segue Alford ao argumentar que toda a expressão aqui é “uma paráfrase do `nome Inefável' revelado a Moisés” em Êxodo 3.14 (i.e., Jeová ou Yahweh) e talvez tam­bém “uma paráfrase da explicação do Nome dado a ele: 'EU SOU O QUE SOU'“.38 O Targum palestino de Deuteronômio 27.39 traz: “Eis que sou Aquele que Sou, que Era e que Será”. Essa identificação parece razoável, embora devêssemos considerar o ponto de vista de Lenski em relação ao Messias.
A terceira frase aqui não é que há de vir, mas, literalmente, “Aquele que está vindo”. Swete sugere que essa última tradução era talvez a preferida “porque prenuncia já no início o propósito do livro, que deve revelar as intervenções de Deus na história humana”.”
A gramática grega aqui é irregular. Literalmente significa o seguinte: “da parte dele...” Moffatt chama isso de “violação gramatical estranha e deliberada [...] para proteger a imutabilidade e inteireza do nome divino da declinação”.” Semelhantemente, Charles escreve: “Temos aqui um título de Deus expresso em termos de tempo. O Vidente violou deliberadamente as regras de gramática para preservar o nome divino inviolado de uma mudança que teria de sofrer se fosse declinado”»
Em segundo lugar, graça e paz vem dos sete Espíritos que estão diante do seu trono. Embora um certo número de comentaristas recentes interpretem essa frase como uma referência a seres angelicais, parece mais certo adotar o ponto de vista mais comum de que essa é uma designação simbólica para o Espírito Santo. Alford diz: “Os sete espíritos indicam a plenitude e a universalidade do agir do Espírito Santo de Deus, da mesma manei­ra que as sete igrejas tipificam e indicam a igreja em geral”» Swete concorda com essa posição.' Plummer acredita que a expressão significa: “O Espírito Santo, sétuplo em suas operações”, e acrescenta: “O número sete mais uma vez simboliza universalidade, plenitude e perfeição — essa unidade no meio da diversidade que marca a obra do Espírito e a esfera da Igreja”» Essa interpretação é fortemente apoiada por 5.6, que se refere a Zacarias 4.10.
O sétuplo Espírito está diante do seu trono. Lenski conclui sua discussão desse versículo ao dizer: “Assim, devemos unir todas essas expressões; esses 'sete' pontos no que tange à comissão do Espírito de agir do trono e tornar Deus e o homem um”»
Em terceiro lugar, graça e paz vêm de Jesus Cristo (5). Ele é retratado por três figuras. Primeiramente, Ele é a testemunha fiel.' Fiel significa “digno de confiança”. Duesterdieck não limita esse testemunho ao ministério terreno de Cristo. Em vez disso, Ele é “aquele por meio de quem cada revelação divina ocorre, que comunica predições não só para os profetas em geral, como no momento para o autor de Apocalipse, mas também testifica da verdade ao censurar, admoestar e confortar as igrejas”»
A palavra grega para testemunha mais tarde veio a significar “mártir”. Dessa for­ma, nossa palavra mártir é derivada dela (gen., martyros). Moffatt comenta: “Jesus não [é] meramente a testemunha confiável de Deus, mas o mártir fiel: um aspecto da sua carreira que naturalmente se sobressaiu nos 'tempos da matança' “48 (cf. 2.10). Somente aqui e em 3.14 Jesus é chamado de testemunha.
Ele também é o primogênito dos mortos. O termo primogênito era um título messiânico.' Jesus é agora o príncipe (governante) dos reis da terra. Charles enten­de que a ideia predominante de primogênito aqui é a soberania. Ele traduz essas três cláusulas da seguinte forma: “a verdadeira testemunha de Deus, o soberano dos mortos, o governante dos vivos”.50 Swete diz: “A ressurreição trazia consigo um senhorio em po­tencial sobre toda a humanidade [...] O Senhor conquistou com a sua morte o que oTentador havia lhe oferecido como a recompensa pelo pecado [...] Ele ressuscitou e ascen­deu aos céus para receber o império universal”.51 Ele também observa que o título triplo — testemunha, primogênito, governante — “responde ao propósito triplo de Apocalipse, que é ao mesmo tempo um testemunho divino, uma revelação do Senhor ressurreto e uma profecia dos assuntos da história”.52
Esses três versículos retratam a Trindade — Pai, Filho e Espírito Santo. “O aspecto da Trindade aparece em todo o livro de Apocalipse”.'
2. A Doxologia (1.5b-6)
A contemplação de João em relação a Cristo como o Senhor Ressurreto que reina sobre tudo o faz irromper em uma explosão espontânea de louvor. Isso também é uma característica comum nas epístolas de Paulo. Almas devotas sempre responderam com louvor à bondade e grandeza do nosso Senhor.
Àquele que nos ama (5) deveria iniciar um novo versículo. O verbo também está no particípio presente.
Em vez de lavou, os melhores e mais antigos manuscritos gregos trazem “libertou”. As duas formas são similares na soletração e praticamente iguais em pronúncia (lousanti [...] lusanti) e dessa forma era muito fácil serem confundidas, especialmente se o escriba estivesse copiando por meio do ditado. A tradução correta dessas duas frases é: “Àquele que nos ama, e, pelo seu sangue, nos libertou dos nossos pecados” (ARA). A primeira frase ressalta o amor duradouro do Redentor; a segunda, sua obra de redenção concluí­da. Seu sangue era o preço que Ele pagou para nos libertar da escravidão do pecado. Esse é o ensino uniforme do Novo Testamento.
Qual é o resultado dessa redenção? Ele nos fez reis e sacerdotes para Deus e seu Pai (6). O grego traz: “E Ele nos fez um reino, sacerdotes ao seu Deus e Pai”. Sacer­dotes está em aposição a reino. Isso evidentemente reflete Êxodo 19.6: “E vós me sereis reino sacerdotal”. Isso também se assemelha com a frase encontrada em 1 Pedro 2.9: “o sacerdócio real”. Charles comenta: “Nosso texto então significa que Cristo nos fez um reino, em que cada membro é um sacerdote para Deus”.54 Isso não só é um grande privi­légio, mas também envolve uma imensa responsabilidade. Erdman escreve: “Uma vez que somos sacerdotes deveríamos estar oferecendo continuamente sacrifícios de louvor, de abnegação e de um ministério amoroso, derramando nossas vidas em intercessão e em serviço compassivo ao nosso próximo”.'
A doxologia termina numa forma quase tipicamente paulina: a ele, glória e poder para todo o sempre. Amém. Essa é a primeira de três doxologias a Cristo no Apocalipse (cf. 5.13; 7.10). Uma doxologia semelhante ocorre em 2 Pedro 3.18. As doxologias nas epístolas paulinas referem-se quase sempre a Deus, o Pai. Moffatt observa: A adoração de Cristo, que ressoa nessa doxologia [...] é um dos aspectos mais impressionantes do livro.56 Plummer chama a nossa atenção para um fato interessante. Ele diz: “As doxologias de São João aumentam em volume à medida que ele progride — dupla aqui, tripla em 4.11, quádrupla em 5.13 e sétupla em 7.12”.57
Tem sido sugerido que 1 Crônicas 29.11 — “Tua é, SENHOR, a magnificência, e o poder, e a honra, e a vitória, e a majestade” — seja a fonte da maioria das doxologias posteriores. Uma vez que Jesus é chamado de “Senhor” no Novo Testamento, Ele se torna, com o Pai, o objeto dessa adoração.
A expressão para todo sempre é literalmente “pelos séculos dos séculos”; isto é, “eternamente” (Phillips). Essa expressão ocorre mais 12 vezes em Apocalipse.'
Evidentemente, o hábito de colocar Amém no fim da oração ou louvor começou mui­to cedo. Swete diz: “A palavra Amém ocorre no final de quase todas as doxologias do NT”.59 Essa palavra significa “Assim seja!” ou “Verdadeiramente!”
3.    A Profecia (1.7)
Esse versículo é “uma reminiscência e adaptação” de Daniel 7.13 e Zacarias 12.10- 14. Eis que vem com as nuvens é da passagem de Daniel: “e eis que vinha nas nuvens do céu um como o Filho do Homem”. Essa vinda nas nuvens é mencionada mais seis vezes no Novo Testamento (Mt 24.30; 26.64; Mc 13.26; 14.62; Lc 21.27; Ap 14.14). A linguagem aqui reflete Marcos 14.62: “e vereis o Filho do Homem [...] vindo sobre as nuvens do céu”.
O restante desse versículo é tirado em grande parte de Zacarias 12.10. Quando Cris­to vier em julgamento, todo olho o verá. Estarão incluídos os mesmos que o traspas­saram. Aqui se refere claramente ao traspassar do “lado de Jesus” na cruz (Jo 19.34). Essa mesma passagem de Zacarias é citada nessa conexão (Jo 19.37). O fato do traspas­sar ser mencionado somente no Evangelho de João, e que a ordem de palavras aqui e em João 19.37 concordem de maneira impressionante' fornece um apoio considerável para a autoria em comum do quarto Evangelho e de Apocalipse.
Mas essa predição de julgamento não deveria ficar restrita à nação judaica. Plummer escreve: “A referência aqui é a todos aqueles que 'crucificam o Filho de Deus novamente', não meramente aos judeus”.' João acrescenta: e todas as tribos da terra se lamenta­rão sobre ele. Essa é “uma livre adaptação do hebraico em Zacarias 12.12”.'
A combinação dessas passagens de Daniel e Zacarias já tinha sido feita no discurso do monte das Oliveiras (Mt 24.30). Simcox declara: “Esse versículo, como também se pode dizer de todo o livro, é fundamentado principalmente na própria profecia do Senhor registrada em Mateus 24, e em segundo lugar, nas profecias do Antigo Testamento às quais Ele ali se refere e que resume”.”
Simcox acrescenta essa observação útil na relação com a passagem do AT: “Mas enquanto as palavras aqui são tiradas de Zacarias, o pensamento é mais propriamente de Mateus 24.64: 'aqueles que o traspassaram' são vistos não como olhando para Ele com fé e pranteando por Ele em penitência, mas em vê-lo como Alguém em quem não creram e, por isso, estão pranteando em desespero”.”
No grego, Sim! Amém é nai, amen. Charles observa: “Temos aqui formas gregas e hebraicas de confirmação lado a lado”.” A mesma associação é encontrada em 2 Coríntios 1.20. Em 3.14, Jesus é nomeado de “o Amém”. Charles comenta: “Aqui Cristo é repre­sentado como o Amém divino personalizado, o avalista em pessoa acerca da verdade declarada por Ele”.”

4.    A Proclamação (1.8)
Esse versículo parece ser independente, não estando relacionado com o que o precede ou o segue. João tem falado, mas agora uma nova personagem faz uma declaração divina.
Mas quem é essa nova personagem que fala? Swete escreve: “A abertura solene do livro alcança seu clímax aqui com palavras atribuídas ao Pai Eterno e Todo-poderoso”.' Muitos comentaristas recentes concordam com isso.
Mas Plummer discorda. Ele diz o seguinte acerca das frases usadas aqui: “Atribuí-las ao Pai rouba as palavras da sua adequação especial nesse contexto, em que formam o prelúdio para 'a Revelação de Jesus Cristo' como Deus e como o 'Governante dos reis da terra'“.' Ele sente que João está aqui ressaltando a divindade de Jesus, e encontra uma progressão nisto: Alfa e o Ômega (1.8), “o Primeiro e o Último” (1.17; 2.8), “Alfa e o Omega, o Princípio e o Fim” (21.6), “Alfa e o Omega, o Primeiro e o Derradeiro” (22.13).
J. B. Smith chama a atenção para o fato de os pais da Igreja Primitiva aplicarem esse versículo a Cristo. Ele cita integralmente de Hipólito e Orígenes e documenta as citações.' Essa parece a melhor posição.
Alfa e o Ômega são a primeira e a última letra do alfabeto grego. Provavelmente, elas são usadas “como nos provérbios rabínicos a primeira e última letra do alfabeto
hebraico, simbolizando 'o princípio e o fim'“.' No entanto, as palavras explanatórias, o Princípio e o Fim, não são genuínas, embora o sejam em 22.13. Acerca de Alfa e o Ômega, Swete escreve: “A frase é entendida como não expressando somente eternidade, mas infinidade, a vida ilimitada que compreende tudo e transcende tudo”.”
O Senhor é “o Senhor Deus” no melhor texto grego. Todo-poderoso (pantokrator) ocorre somente mais uma vez no Novo Testamento (1 Co 6.18), mas é encontrado nove vezes no Apocalipse.
Lenski diz o seguinte acerca do propósito de João ao escrever os versículos 7 e 8: “De forma dramática ele expressa o resumo do tema de todo o livro; de todas as revelações que teve (v. 7) e no versículo 8 anexa a própria assinatura de Cristo”.”

C. O FILHO DO HOMEM, 1.9-20
1. O Cenário da Visão (1.9-11)
Antes que João pudesse receber uma apresentação prévia do que ocorreria no futu­ro, ele precisa ver o próprio Cristo. O cenário da visão era o apóstolo na ilha de Patmos (veja mapa 1) em espírito, no dia do Senhor (10). O assunto da visão era o Filho do Homem, parado no meio da sua Igreja.
O autor apresenta-se como Eu, João (9). A. R. Fausset chama nossa atenção para os paralelos em Daniel 7.28; 9.2; 10.2 e comenta: “[Essa é] uma das muitas semelhanças entre os videntes apocalípticos do Antigo e do Novo Testamento. Nenhum outro autor das Escrituras usa essa frase”.”
João se descreve como vosso irmão, ou companheiro cristão, e companheiro na aflição, e no Reino, e na paciência de Jesus Cristo. Isso é mais corretamente tradu­zido da seguinte forma: “companheiro participante [synkoinonos] na tribulação e reino e perseverança que estão em Jesus” (NASB). A palavra paciência é um termo passivo demais para o grego hypomone, que significa “persistência e constância”.
Acerca da frase na aflição, Bengel faz a seguinte observação convincente: “Esse livro tem um grande apreço pelos fiéis na aflição”.” O livro de Apocalipse foi escrito em uma época de grande tribulação para os cristãos, e ele se torna muito significativo em tempos como esses.
João estava na ilha de Patmos. Essa era uma pequena ilha com cerca de 16 quilômetros de comprimento de norte a sul e não mais do que 10 quilômetros de largura, situada a cerca de 60 quilômetros a sudoeste de Mileto (veja mapa 1). Ela é consti­tuída de montes vulcânicos rochosos.
A apóstolo estava lá por causa da palavra de Deus e pelo testemunho de Je­sus Cristo. Isso não significa que ele tinha ido à ilha para pregar o evangelho. Uma paráfrase correta seria: “porque eu havia pregado a palavra de Deus e dei meu testemunho de Jesus” (NEB). As pequenas ilhas do mar Egeu eram usadas pelos romanos como lugares de reclusão, para os quais eram banidos os prisioneiros políticos. Uma compara­ção entre 6.9 e 10.4 mostra que no livro de Apocalipse palavra de Deus e testemunho são usados em conexão com a perseguição dos cristãos. Falando da opressão por Domiciano (95 d.C.), Eusébio escreve: “Nessa perseguição, de acordo com a tradição, o apóstolo e evangelista João, que ainda estava vivo, em consequência do seu testemunho da palavra divina, foi condenado a morar na ilha de Patmos”.76 Ele também diz: “Mas, depois que Domiciano tinha reinado quinze anos, e Nerva chegou ao governo, o senado romano decretou que [...] aqueles que tinham sido expulsos injustamente deveriam retornar aos seus lares e ter seus bens restaurados [...] Foi então que o apóstolo João retornou do exílio e voltou a morar em Éfeso, de acordo com uma tradição antiga da igreja”.'
Parece que tempos de tribulação frequentemente preparam o terreno para a revela­ção de Deus ao homem. Plummer observa: “Foi no exílio que Jacó viu Deus em Betel; foi no exílio que Moisés viu Deus na sarça ardente; foi no exílio que Elias ouviu 'uma voz mansa e delicada'; foi no exílio que Ezequiel viu a glória do Senhor junto ao rio Quebar; foi no exílio que Daniel viu o “ancião de dias”.78
João declara que quando recebeu a visão, estava em espírito (10). O que isso signi­fica? Os tradutores têm interpretado essa frase de diversas formas: “em transe” (NT 20th Century), “inspirado pelo Espírito” (Weymouth), “arrebatado no Espírito” (Moffatt), “possuído pelo Espírito” (Berk.), “no poder do Espírito” (C. B. Williams), “alcançado pelo Espírito” (NEB). Os comentaristas diferem muito na tradução. Lange explica a frase como significando o seguinte: “transportado para fora da consciência ordinária de cada dia e colocado na condição de êxtase profético”.' Simcox traz: “Foi levado a um estado de arrebatamento espiritual”.” Charles diz que egenomen en pneumati (lit.: “tornei-me no espírito”) “não significa nada mais do que o vidente cair em transe”.” Lenski escreve: “A frase significa 'em espírito', e não deveríamos escrevê-la com letra maiúscula como que se referindo ao Espírito Santo. Esse é o pneuma de João”.' Ele acredita tratar-se de um êxtase milagroso, “um estado causado diretamente por Deus”.' Nós preferimos a inter­pretação de Swete que entende que toda a frase “denota a exaltação de um profeta debai­xo da inspiração”' (do Espírito).
Essa experiência imponente veio a João no dia do Senhor. Alguns entendem que isso significa “o dia do Senhor”, uma frase profética comum no Antigo e Novo Testa­mento. Eles acreditam que o vidente foi transportado em espírito para o tempo da Segunda Vinda.
Mas o grego aqui descarta essa interpretação. Do Senhor é um adjetivo, não a expressão comum do genitivo “do Senhor”. Essa expressão ocorre somente mais uma vez no Novo Testamento (1 Co 11.20 — “a Ceia do Senhor”). Ela significa “pertencer ao Se­nhor” ou “consagrado ao Senhor”.
O adjetivo é encontrado diversas vezes nas inscrições e nos papiros do Egito e Ásia Menor, em que significa “imperial”.' O exemplo mais antigo conhecido do uso dessa palavra está em uma inscrição de seis de julho de 68 d.C. Aqui são encontradas as ex­pressões “as finanças imperiais” e “tesouro imperial”. Deissmann também observa que desde 30 a.C. até o tempo de Trajano (98-117 d.C.) um certo dia de cada mês era observa‑
do como hemera Sebaste, em memória do nascimento de Augusto, e sugere que “o título distinto 'dia do Senhor' [kyriake hernera] pode ter estado conectado com sentimentos conscientes de protesto contra o culto ao imperador, ou seja, o 'dia de Augusto”.” Pode ser que os cristãos tenham adotado o nome dia do Senhor em comemoração à ressurrei­ção de Jesus no primeiro dia da semana. No grego moderno, o domingo é chamado de kyriake. Dessa passagem no Apocalipse, Charles diz: “Aqui 'dia do Senhor' tornou-se uma designação técnica do domingo”.'
Não é difícil reconstruir o cenário. No exílio em Patmos, João foi impedido de se reunir com os santos no domingo. Olhando para o mar aberto, ele indubitavelmente pensava nos cristãos em Éfeso reunidos para adorar. Ele bem pode ter estado meditando na ressurreição. Moffatt sugere: “Com a sua mente absorvida no pensamento do Jesus exaltado e abastecida com conceitos de Daniel e Ezequiel, o profeta teve o seguinte êxta­se no qual os pensamentos de Jesus e da igreja, já presentes na sua mente, são unidos em uma visão”.”
T. F. Torrance une as afirmações dos versículos 9 e 10 — Eu, João [...] estava na ilha chamada Patmos e fui arrebatado em espírito, no dia do Senhor. Ele então faz esta observação: “Nessas duas sentenças autobiográficas vemos logo de início a situ­ação dupla da qual esse livro nasceu. Por um lado, há o destino duro e cruel do tempo, mas, por outro, há o Espírito do Deus Todo-poderoso”.'
Assim, preparado no coração e na mente para a revelação, João ouviu atrás de si uma grande voz (cf. Ez 3.12). O som veio tão alto e claro como o soar de uma trombeta.
Que dizia (11) equivale a aspas. Aquele que falava era evidentemente Jesus (cf. vv. 12-13). As palavras “Eu sou o Alfa e o Ômega, o Princípio e o Fim, e” não estão nos manuscritos mais antigos. O mesmo é verdade para que estão na Ásia (cf. v. 4). João recebe a ordem de escrever em um livro o que vê. A palavra grega é biblion, origem da nossa palavra “Bíblia”. Ela se refere ao rolo de papiro, para ser distinguido de pergami­nhos mais caros que eram feitos de peles de animais (cf. 2 Tm 4.13). O rolo de Apocalipse teria cerca de cinco metros de comprimento.'
O rolo escrito deveria ser enviado para as sete igrejas (cf. v. 4). Essas igrejas são agora designadas pelo nome. As distâncias entre essas cidades são calculadas por Charles: “Esmirna ficava a cerca de 65 quilômetros ao norte de Éfeso, Pérgamo a 65 quilômetros ao norte de Esmirna, Tiatira a 72 quilômetros a sudeste de Pérgamo, Sardes a 48 quilômetros ao sul de Tiatira, Filadélfia a 48 quilômetros a sudeste de Sardes e Laodiceia a 65 quilômetros a sudeste da Filadélfia”.” Bowman escreve: “Uma olhada no mapa da província romana da Ásia [veja mapa 1] mostra as sete igrejas organizadas na forma de um castiçal de sete braços do Templo de Herodes — números 1 e 7, 2 e 6, 3 e 5 formando pares de lados opostos com o número 4 no topo”.”
Sir William Ramsay, uma das maiores autoridades da história primitiva da Ásia Menor, insiste de forma acertada que deve ter havido um motivo para a seleção dessas sete igrejas em particular. O primeiro motivo era o sistema de estradas. Ele nota que “todas as Sete Cidades ficam na grande estrada circular que unia a parte mais populosa, rica e influente da província, a região centro-ocidental”.” Ele finalmente chega à seguinte conclusão: “A hipótese inevitavelmente sugere que os sete grupos de igrejas, em que a província havia sido dividida antes que o Apocalipse tinha sido composto, eram sete distritos postais, cada um tendo como centro ou ponto de origem uma das sete cidades”.” Isso é apenas uma teoria, mas ela parece interessante.

2. O Tema da Visão (1.12-20)
João se virou “para identificar a voz de quem estava falando” (NEB) com ele. E virei-me (12) — melhor traduzido por “tendo me virado” — vi sete castiçais de ouro — ou “candelabros” ou “lustres”. Isso é diferente do que o castiçal de sete braços com sete lâmpadas de Zacarias 4.2. No meio dos castiçais de ouro havia um semelhante ao Filho do Homem (13). Visto que o grego não tem o artigo definido antes de Filho, muitos tradutores modernos trazem literalmente: “um filho do homem”. Plummer con­corda com essa tradução e comenta: “O Messias glorificado ainda apresenta essa forma humana, da maneira como o discípulo amado o havia conhecido antes da sua ascensão”.95 Swete observa: “O Cristo glorificado é humano, mas transfigurado”.” Semelhantemente, Lange escreve que semelhante (homoios)”é também em parte indicativo da visão apos­tólica de que a personalidade humana de Cristo, em sua glorificação, é vestida com o esplendor de majestade divina”.”
A forma mais satisfatória de tratar a frase um semelhante ao Filho do Homem parece aquela que Simcox apresenta. Ele diz: “A ausência do artigo aqui não prova que não se tenha em mente o nosso Senhor, mas que o título foi tirado diretamente do grego em Daniel 7.13, em que as duas palavras também estão sem o artigo [...] as palavras em si não significam mais do que 'eu vi uma figura humana', mas as suas associações deixariam claro a todos os leitores do livro de Daniel que foi um Ser sobre-humano em forma humana; e para um cristão dos dias de João, como para os do tempo atual, Quem esse Ser era.”
Os sete castiçais (candelabros) são mais tarde identificados como simbolizando “as sete igrejas” (v. 20). Assim, aqui a figura é de Cristo parado no meio de sua Igreja.
Esse é um pensamento tremendamente confortante. Mas, também encontramos um desafio nesse quadro. Se as igrejas são lâmpadas, elas deveriam iluminar as trevas des­se mundo. Moffatt escreve: “A função das igrejas é personificar e expressar a luz da presença divina sobre a terra [...] seu dever é manter a luz queimando e brilhando, se não a razão da sua existência desaparece (2.5)”.”
Agora vem a descrição detalhada do Filho do Homem glorificado. O primeiro item é: vestido até aos pés de uma veste comprida. Com a exceção de vestido [...] de (particípio passivo perfeito) toda a cláusula é uma palavra no grego, podere. Ela é, na verdade, um adjetivo, encontrado somente aqui e significando “alcançando até os pés”. A palavra é usada em Êxodo (LXX) para vestimentas sacerdotais. Moffatt diz que esse termo, “uma veste que alcança até os pés, era um símbolo oriental expressando dignida­de”?' A próxima cláusula, e cingido pelo peito com um cinto de ouro, é mais bem traduzido por: “e com um cinturão de ouro ao redor do peito” (Weymouth). Esse era “mais um símbolo de uma posição elevada, geralmente reservada a sacerdotes judeus, embora os persas frequentemente se dirigissem aos seus deuses como 'cingidos com cinturão elevado' “1°1 Ao unir essas duas sentenças, temos uma figura de dignidade sacerdotal e real. Para nenhum outro essa combinação é tão apropriada quanto para o nosso Senhor.
O terceiro item é: sua cabeça e cabelos eram brancos como lã branca, como a neve (14). Swete observa: “Expositores antigos encontram no cabelo branco como neve um símbolo da preexistência eterna do Filho”.' Plummer escreve: “Esse branco como neve é parcialmente o brilho da glória celestial, parcialmente a majestade da cabeça branca”.' Mas vários comentaristas chamam a atenção ao fato de que cabelo branco é um sinal de decadência quando associado com idade. Assim, Lenski conclui: “Achamos que essa passa­gem com o símbolo do cabelo que é branco como neve e lã tem a intenção de representar Jesus como sendo coroado com santidade”.' Há um paralelo próximo em Daniel 7.9 (LXX).
O quarto ponto na descrição do Cristo glorificado é que os olhos eram como chama de fogo (phlox pyros). Essa é uma alusão evidente a Daniel 10.6 — “e os seus olhos, como tochas de fogo” — uma metáfora comum na literatura latina e grega. J. B.
Smith sugere que esse aspecto simboliza “onisciência e escrutínio”.1” Swete acrescen­ta: “O brilho penetrante [...] que reluzia com inteligência vivaz, e quando necessário surgia com ira justa, foi percebido por aqueles que estavam com o nosso Senhor nos dias da sua carne [...] e encontra sua aposição, como o vidente agora percebe, na vida após a ressurreição e a ascensão”.'
O quinto item é: e os seus pés, semelhantes a latão reluzente, como se tivesse sido refinado numa fornalha (15). Novamente encontramos um paralelo em Daniel
10.6 — “e os seus braços e os seus pés, como cor de bronze polido” (cf. Ez 1.4, 7, 27; 8.2). A palavra grega para latão reluzente (“bronze polido”, ARA) é incerta quanto ao seu significado etimológico. Mas, o sentido parece esse apresentado nas nossas versões em português. O simbolismo sugerido por Swete é: “Pés de latão representam força e estabi­lidade”.' Refinado também pode ser traduzido por “incandescente” ou “ardente”. Nas Escrituras, latão parece tipificar julgamento.
Um sexto aspecto é: e a sua voz, como a voz de muitas águas. Em Daniel 10.6 lemos: “e a voz das suas palavras, como a voz de uma multidão”. Mas os ouvidos de João estavam repletos com o bramido das ondas do mar Egeu batendo contra a ilha rochosa de Patmos. Assim, ele usa essa imagem para descrever a voz. Ao fazê-lo, no entanto, ele estava fazendo eco a Ezequiel 43.2 — “a sua voz era como a voz de muitas águas”.
O Filho do Homem tinha na sua destra sete estrelas (16). O significado disso é dado no versículo 20. E da sua boca saía uma aguda espada de dois fios. Essa era originariamente “uma espada grande, longa e pesada, quase da altura de um homem, que é manejada com as duas mãos, uma arma dos trácios”.'“ Mas na Septuaginta ela é aparentemente usada de forma sinônima à palavra mais conhecida para uma espada comum. Lenski acrescenta: “Onde lemos 'dois fios' o grego traz 'duas bocas', os dois gu­mes mordendo, devorando como duas bocas. A palavra 'aguda' é acrescentada. Ela era afiada a tal ponto que pudesse cortar profundamente”.”
A linguagem dessa sentença parece refletir Isaías 11.4: “e ferirá a terra com a vara de sua boca”; e Isaías 49.2: “E fez a minha boca como uma espada aguda”. Charles comenta: “A espada que procede da boca do Filho de Deus é simplesmente um símbolo da sua autoridade judiciar.' Retratos literais disso na arte religiosa e diagramas proféti­cos mostram-se ridículos e beiram o sacrilégio. Eles deveriam nos advertir contra repre­sentações visuais de figuras simbólicas no Apocalipse.
O último item da descrição é o seguinte: e o seu rosto era como o sol, quando na sua força resplandece. Esse é um eco óbvio da transfiguração (Mt 17.2).
Depois de observar os diversos empréstimos do livro de Daniel, Kiddle faz este co­mentário: “Embora uma parte do quadro de João não seja original, ele transmite uma concepção do Messias que é única, porque Cristo é dotado de um esplendor e autoridade que até então somente tinham sido atribuídos a Deus”.111 Essa é uma das ênfases inequí­vocas do Novo Testamento.
O efeito da visão foi esmagador: caí a seus pés como morto (17). Daniel experi­mentou uma reação muito parecida em sua visão (Dn 10.8-9). Palavras semelhantes são usadas em Josué 5.14 e Ezequiel 1.28; 3.23; 43.3. Erdman comenta: “Cada visão da pure­za, majestade e poder divino inspira admiração e reverência”.1
No entanto, esse Cristo severo do julgamento também era o Cristo compassivo. Por­que ele pôs sobre João a sua destra (cf. Dn 10.10; Mt 17.1) e disse: Não temas (cf. Dn 10.12). Eu sou o Primeiro e o Último é usado para referir-se a Deus em Isaías 44.6. Mas aqui essa frase se refere claramente a Cristo, e ressalta a sua divindade, como é o caso em 2.8 e 22.13.
E o que vive (18) ou “e Aquele que vive” (kai ho zon) — um título divino, aplicado a Deus tanto no Antigo como no Novo Testamento. Essa frase deveria ser conectada com o que precede ou com o que segue, [e] fui morto (kai egenomen necros)? Charles entende que se refere à segunda opção. Ele une os dois itens em uma linha poética: “E Aquele que vive e estava morto”. Então diz: “Os comentaristas mais recentes conectam kai ho zon com as palavras precedentes. Mas em cada exemplo, quer em Isaías quer no Apocalipse, a frase 'eu sou o Primeiro e o Último' é completa em si mesma, e a frase kai ho zon simplesmente enfraqueceria a plenitude da afirmação feita nessas palavras. Por outro lado, quando conectadas a kai egenomen necros, elas são cheias de significado no con­traste entre a vida eterna que Ele possui e a condição da morte física à qual se submeteu por amor do homem”.1
Aquele que estava morto agora pode dizer: eis aqui estou vivo para todo o sem­pre. Em outras palavras, Ele é o Eterno. A palavra Amém não é encontrada nos melho­res manuscritos gregos e deveria ser omitida.
Há mais uma afirmação: E tenho as chaves da morte e do inferno. Talvez fosse melhor transliterar hades, em vez de traduzir por inferno (cf. NVI — “E tenho as chaves da morte e do Hades”).
Uma vez que tem havido muita discussão acerca desse termo, seria proveitoso estu­dar um pouco melhor o seu significado. No pensamento grego, Hades era primeiramente o nome do deus do submundo. Mais tarde tornou-se sinônimo do submundo em si, como o lugar dos espíritos dos mortos. Na Septuaginta, Hades é a tradução da palavra hebraica Sheol, o reino dos mortos.
Josefo, o historiador judeu do primeiro século, revela o pensamento confuso do juda­ísmo nos dias de Jesus acerca desse assunto. Ele declara que os fariseus entendiam que as almas dos justos e dos ímpios ficavam no Hades.”' Mas, embora sendo ele próprio um fariseu, escreve que a alma do obediente “obtém um lugar santíssimo no céu [...] enquan­to a alma daquele que agiu perversamente é recebida no lugar mais sombrio no Hades”.1
Poderia parecer que o termo Geena, nos ensinamentos de Jesus (cf. Mt 5.22), de­vesse ser identificado com o “lago de fogo” de Apocalipse 19.20; 20.10, 14-15. Mas a morte e o Hades são lançados no lago de fogo (20.14). Assim, obviamente o lugar do castigo eterno é Geena, não Hades. J. Jeremias escreve: “Em todo o NT, Hades serve somente como um propósito interino. O Hades recebe as almas após a morte e os entre­ga novamente na ressurreição (Ap 20.13)”.116 Charles diz o seguinte acerca desse termo em Apocalipse: “De acordo com nosso autor, Hades é a habitação intermediária somen­te dos ímpios ou injustos”.'
As chaves significam autoridade. Jesus possui plena autoridade sobre o domínio da morte e do Hades.
R. H. Charles apresenta uma observação apropriada acerca do versículo 18: “Esse versículo descreve o triplo conceito de Cristo em João: a vida eterna permanente que Ele tinha independentemente do mundo; sua humilhação a ponto de morrer fisicamente e sua ressurreição para uma vida não somente eterna em si mas para uma autoridade universal sobre a vida e a morte”.'
Charles Simeon nota que nos versículos 17-18, Jesus faz uma afirmação tríplice de ser: 1) o Deus eterno; 2) o Salvador vivo; 3) o Soberano universal.
João já havia recebido a ordem de escrever em um rolo “o que vês” (v. 11). Agora a ordem é repetida e feita de forma mais explícita: Escreveu' as coisas que tens visto, e as que são, e as que depois destas hão de acontecer (19).
Erdman rejeita fortemente a “concepção popular” de que esse versículo nos fornece um esboço triplo do livro de Apocalipse.' Mas nós preferimos seguir Charles quando escreve: “Essas palavras resumem, grosso modo, o conteúdo do livro. Ha eides [as coisas que tens visto] é a visão do Filho de Deus que tinha acabado de ser mostrada ao viden­te; ha eisin [as que são] refere-se diretamente à condição atual da Igreja, mostrada nos capítulos 2 e 3, e indiretamente ao mundo em geral; he mellei ginesthai meta tauta [as que depois destas hão de acontecer] diz respeito às visões a partir do capítulo 4, que, com a exceção de algumas seções que se referem ao passado e ao presente, tratam do futuro”.' Esse é o esboço adotado neste comentário.
O primeiro capítulo termina com uma explanação do mistério das sete estrelas [...] e dos sete castiçais. Acerca dessa expressão significativa Erdman escreve: “ 'Mis­tério' é no uso do Novo Testamento, verdade ou realidade divinamente revelada”.' Swete diz que mistério é “o significado interno de uma visão simbólica”.'
João é informado de que as sete estrelas representam os anjos das sete igrejas. Uma vez que a palavra grega angelos significa “mensageiro” e é claramente usada para mensageiros humanos em Lucas 7.24; 9.52 e Tiago 2.25, muitos acreditam que a referên­cia aqui seja aos mensageiros que seriam enviados com as cartas às sete igrejas — talvez delegados que vieram daqueles lugares para visitar João — ou mais simplesmente, os “pastores” das igrejas. Essa ideia é contestada, visto que nas mais de 60 vezes que a palavra angelos é usada nesse livro dissociada da conexão com as igrejas, ela sempre se refere a seres sobre-humanos. Swete conclui: “Há, portanto, uma forte conjectura de que os angeloi ton ecclesion são 'anjos' no sentido que a palavra tem em outras partes do livro”.124 Charles concorda plenamente.' Swete também não concorda em identificá-los como “anjos guardiões” das igrejas. Ele finalmente chega a uma conclusão: “Consequen­temente, a única interpretação que sobra é a que entende que esses anjos são duplicatas ou contrapartes celestiais das sete Igrejas, que, assim, vêm a ser identificadas com as próprias Igrejas”.126 Provavelmente, mais aceitável é o ponto de vista de Erdman de que “anjo” é “o espírito predominante” na igreja, “uma personificação do caráter, tempera­mento e conduta da igreja”.127
Parece que um ponto de vista melhor formulado é o de Alfred Plummer. Ele escreve: “A identificação do anjo de cada igreja com a própria Igreja é mostrada de uma maneira marcante pelo fato de, embora cada epístola ser dirigida ao anjo, ainda assim, a estrofe recorrente seja: “ouça o que o Espírito diz às igrejas”, não “aos anjos das igrejas”. O anjo e a Igreja são os mesmos sob diferentes aspectos: um no seu caráter espiritual personifi­cado; o outro, na congregação dos crentes que coletivamente possuem esse caráter.'
Mas nos perguntamos se essa interpretação deixa espaço adequado para a distinção entre as estrelas e os castiçais. Este comentarista é relutante em desistir da visão popu­lar de que os anjos são os pastores das igrejas — um pensamento grandemente confortador: eles são guardados nas próprias mãos de Cristo.

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