Eclesiastes 9 — Análise Bíblica

Análise Bíblica de Eclesiastes 9





Eclesiastes 9

Embora possamos sentir-nos encorajados com o fato de que os justos, e os sábios, e os seus feitos estão nas mãos de Deus, ainda assim permanecemos ignorantes a respeito do que nos aguarda no futuro, se amor ou ódio, prosperidade ou adversidade (9:1; cf. 9:6). Apenas uma coisa é certa, tão certa que o Pregador repete duas vezes: Tudo sucede igualmente a todos (9:2) e a todos sucede o mesmo (9:3). Não há nenhuma distinção entre o justo e o perverso, o bom, o puro e o impuro, o que sacrifica e o que não sacrifica — todos são alcançados por esse “destino comum”. O Pregador caracteriza tal destino como o mal que há em tudo quanto se faz debaixo do sol (9:3) e o identifica como sendo a morte. Assim como Deus “faz nascer o seu sol sobre maus e bons e vir chuvas sobre justos e injustos” (Mt 5:45), assim também ele submete todos a esse destino. De uma perspectiva puramente terrena, a morte é a pior coisa que pode acontecer a uma pessoa (9:4-6). Aqueles que conservam uma cosmovisão africana tradicional concordarão com isso. Mas ficarão chocados com a declara­ção em 9:5-6. Em vez de se juntarem aos ancestrais (“os mortos que vivem”) na morte e continuarem a fazer parte da comunidade, os mortos não têm mais nenhuma participação na vida que deixaram — mesmo a sua memória jaz no esquecimento (9:5). Além disso, amor, ódio e inveja para eles já pereceram; para sempre não têm eles parte em coisa alguma do que se faz debaixo do sol (9:6). É importante notar que o Pregador não está negando que haja vida após a morte; mais exatamente, ele está afirmando que a morte põe fim a todo relacionamento com o mundo presente. Mesmo com esse prospecto escuro de morte pairando sobre eles, aqueles que agradam a Deus são encorajados a ir e comer seu pão com alegria, e beber gostosamente o seu vinho, pois Deus já de antemão se agrada das suas obras (9:7-9). O Pregador lhes diz: Goza a vida com a mulher que amas, todos os dias de tua vida fugaz, os quais Deus te deu debaixo do sol (9:9). A vida terrena, tanto dos perversos quanto dos justos, é “como neblina que aparece por instante e logo se dissipa” (Tg 4:14). A razão pela qual deveriam gozar a vida é porque esta é a tua porção nesta vida pelo trabalho com que te afadigaste debaixo do sol. Como afirmou Zuck, os mistérios mais desconcertantes da morte “não deveriam impedir ninguém de gozar a vida com um constante senso de favor divino”. O Pregador não apenas aconselha seus discípulos a apreciar as dádivas de Deus em meio às perplexidades da vida, mas também os encoraja a se engajar em suas ocupações terrenas com todo o zelo e concentração (9:10; 11:6). Contra o pano de fundo da inevitabilidade da morte, ele lhes diz: Tudo quanto te vier à mão para fazer, faze-o conforme as tuas forças (9:10). Pode haver frustrações e desapontamentos, pois esse é o modo em que algumas vezes as coisas acontecem nesta vida “debaixo do sol”. O prêmio pode não ser necessariamente dos ligeiros, ou a vitória, dos valentes (9:11a). Nem tampouco dos sábios, o pão, nem ainda dos prudentes a riqueza, nem dos inteligentes, o favor (9:11b). Em vez disso, como diz o sábio, tudo depende do tempo e do acaso (cf. 3:1-8). Preocupado com o mal que aguarda a todos, ele acrescenta: Como os peixes que se apanham com a rede traiçoeira e como os passarinhos que se prendem com o laço, assim se enredam também os filhos dos homens no tempo da calamidade, quando cai de repente sobre eles (9:12). Essas podem ser catástrofes naturais ou fabricadas pelo homem — por exemplo, a tomada de reféns em nossos dias e a consequente perda de vidas. Mesmo a possibilidade de ocultar-se de morte iminente não deveria ser capaz de quebrar a concentração no cumprimento da vocação de cada um. A vantagem da sabedoria sobre a estultícia é ilustrada pelo exemplo do homem pobre, porém sábio, que livrou uma pequem cidade do ataque de um grande rei (9:13-16). Uma vez mais, entretanto, o lado escuro da vida “debaixo do sol” triunfa, pois, apesar do que ele havia feito, a sabedoria do pobre é desprezada, e as suas palavras não são ouvidas (9:16).

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