Estudo sobre Apocalipse 16:4-7

Apocalipse 16:4-7

O terceiro despejo acerta os rios e as fontes das águas e relembra o primeiro flagelo egípcio e o terceiro flagelo das trombetas. Atinge-se, pois, mais uma área essencial para a vida, a água potável. De acordo com Ap 14.7, os humanos não queriam reconhecer o Criador das fontes das águas, embora quisessem beber delas. Depois de longo tempo de paciência com essas estranhas pessoas Deus agora fornece uma resposta severa. De novo a água não somente se colore (como no v. 3), mas adoece e se decompõe.

Por terríveis que sejam os castigos, resplandece neles a correta justiça de Deus. Dos lábios de duas testemunhas ressoam louvores que incutem isso como certo. Justamente o anjo, responsável pela água,758 exclama no estilo do Sl 119.137; Dt 32.4: Tu és justo! A partir das circunstâncias momentâneas, na verdade pode-se acusá-lo de dureza exagerada. Nós humanos nos deixamos governar de forma indigna pelo momento e sentenciamos sem base histórica e também sem memória. Deus, porém, julga e age a partir da amplitude da história. Ele é um Deus que é e que era. Houve a história de sua paciência e a história da contestação humana. Quem se opuser a esta história apenas uma vez, seja anjo seja humano, cairá de joelhos: Ó Santo,759 tu és justo.


Por meio de uma fundamentação central declara-se: porquanto derramaram sangue de santos e de profetas. “Santos” constitui a designação básica dos cristãos (cf. o comentário a Ap 8.3) que costuma ser completada no Ap com “profetas”, “testemunhas” ou “servos” (Ap 11.18; 17.6; 18.20,24), que evidentemente são termos de conteúdo coincidente. Várias vezes as passagens referidas também mencionam o êxtase sanguinário dos perseguidores. Esses sanguinários recebem, portanto, o sangue, porém não da forma como o desejavam, mas para que se apavorem e vomitem. Também sangue lhes tens dado a beber; são dignos disso. Como o derramamento de sangue não deve ser tomado literalmente, assim tampouco esse beber do sangue em grandes quantidades. Contudo, apercebemo-nos do sentido dessas metáforas chocantes. Algo que o ser humano pensava poder realizar sem problemas, a saber, eliminar pessoas incômodas, agora, sob a ira de Deus, lhe escapa do controle. Para seu horror, encontra-se banhado de sangue e deitado entre cadáveres (cf. outra vez a nota 293).

Como segunda testemunha, João “ouve o altar falando” (tradução do autor). Com certeza ele representa as vozes dos mártires que, conforme Ap 6.9, ressoam ao pé do altar. Afinal, nada os preocupava tanto como o tema da justiça divina (cf. também Ap 14.18). Dessa forma estão em harmonia a voz do anjo e a dos cristãos. Também em Ap 1.7 e 22.20 o “sim” [= certamente] constitui uma confirmação expressa por parte da igreja. “A igreja agraciada diz sim para os caminhos de Cristo!” Ela não descobre nenhuma contradição entre os juízos de Deus e sua divindade, assim como ela lhe foi manifesta em Jesus Cristo, mas unicamente concordância: ó Senhor Deus, Todo-Poderoso (“ó Senhor, Deus, Todo-Poderoso” [tradução do autor]). Ouve-se um prelúdio ao novo cântico (Ap 15.3): verdadeiros e justos são os teus juízos.




Notas:
758. Cf. Ap 7.1: anjo dos ventos; Ap 14.18: anjo do fogo.

759. No grego consta novamente hósios, como em Ap 15.4; quanto à tradução, cf. naquele texto.

293. Por isto a língua hebraica pode expressar pecado e castigo com a mesma palavra; p. ex., Gn 4.13 pode ser traduzido por: “Meu castigo é pesado demais” ou também: “Meu pecado é grande demais”. Quanto à unidade de pecado e castigo, cf. também Ap 2.22; 16.3-6; 18.6,7; 2Ts 1.6; 2.10; Os 4.6; Pv 26.27; 28.10; 29.6,23.