2019/09/18

Estudo sobre João 9

Estudo sobre João 9


O homem cego de nascença (9.1-41)
Nessa seção, há uma ilustração perfeita do fato de que o que Jesus faz é inseparável do que ele diz. A nota cronológica seguinte ocorre em 10.22. Ali, o trecho segue de perto o cap. 9. Assim, possivelmente as controvérsias no cap. 8 devam ser consideradas resumos das discussões ocorridas entre a festa das cabanas e a da dedicação, v. 2. quem pecou, este homem ou seus pais...?: Eles pressupõem a antiga explicação do sofrimento tão severamente questionada por Jó. Além disso, a sugestão de que o homem pode ter sido culpado ele mesmo parece se fundamentar na especulação judaica com respeito à transmissão de culpa, ou algo parecido trazido do judaísmo rabínico, em que é sugerido, por exemplo, no Midrash Rabbah de Dt 31.14, que uma mulher grávida que peca faz seu filho não nascido também pecar (cf. N. P Williams, Ideas of the Fali and Original Sin, 1927, p. 98). Jesus rejeita qualquer noção de que haja uma conexão causal direta entre a cegueira do homem e algum pecado, mas isto aconteceu para que a obra de Deus se manifestasse na vida dele: A atitude não é ver no sofrimento uma razão para imputar culpa, mas uma ocasião para a revelação da glória de Deus da forma em que é tratada. [Há ainda outra formulação possível por meio da alteração da pontuação: ”Não foi que esse homem pecou, nem os seus pais. Mas para que a obra de Deus pudesse ser vista nele, eu preciso fazer a obra daquele que me enviou enquanto é dia”.) 
v. 5. Enquanto estou no mundo, sou a luz do mundo: Enquanto Jesus permanecer, fazendo a obra para a qual foi enviado, continua havendo a revelação inequívoca do caráter de Deus. v. 7. Vá lavar-se no tanque de Siloé (atual Silwan): Cf. Is 8.6. Esse tanque fica na extremidade sul do túnel de Ezequias na fonte da Virgem, no extremo sul do vale do Tiropeão. João explica o seu sentido, sem dúvida reconhecendo um significado à luz de Jesus como enviado de Deus. v. 14. Era sábado o dia em que Jesus havia misturado terra com saliva: Aqui está a razão principal por que os fariseus rejeitaram o sinal. As regras da Mishná para a cura e o uso de saliva no sábado eram complicadas; mas Jesus tinha feito barro e, assim, havia trabalhado. Por isso, eles afirmam triunfantemente que ele não é de Deus (v. 16), ao violar abertamente o sábado, v. 17. Ele é um profeta: Não há significado teológico nessa declaração. O homem simplesmente percebeu que Jesus possuía poderes extraordinários. v. 18. Os judeus não acreditaram: Ou toda a história é invenção, dizem eles, ou então o homem confundiu o dia em que recebeu sua vista. Seus pais estão confusos também e, ainda, tinham medo dos judeus (v. 22). Tinham medo de ser excomungados. Isso poderia ocorrer em dois sentidos. O menos severo, que está em mente aqui, incluía separação dos privilégios da sinagoga por um período de até trinta dias, embora a frequência nas atividades da sinagoga fosse exigida como medida disciplinar. Isso poderia ser executado na prática por qualquer pessoa — até por uma mulher. A forma mais severa incluía açoites e exclusão de todo contato social, exceto na família, embora raramente fosse posta em prática. Nos dias de Jesus, o banimento severo só podia ser executado pelo Sinédrio, mas, na época em que João escreveu, sinagogas locais estavam autorizadas a executar ambas as formas — e o fizeram contra os cristãos. v. 24. Para a glória de Deus: Uma expressão coloquial que significa “fale a verdade” (cf. Js 7.19). Sabemos que esse homem épecador. E aqui que eles pronunciam a sua própria sentença (cf. 3.18). v. 25. Uma coisa sei: Obstinadamente o homem se recusa a ser coagido a abrir mão dos fatos em si. Eles podem saber a teologia deles, mas ele conhece sua cura. No final das contas, qual é mais aceitável? A restauração da vista não resolveu todos os seus problemas, mas sua nova vida é inquestionável. Assim, o exame cruzado a que o submetem não o abala.
v. 27. Acaso vocês [entre todo o povo] também querem ser discípulos dele?: Não, realmente eles não querem, v. 28. Nós somos discípulos de Moisés!: O insulto contra o homem como “discípulo de Jesus” e eles mesmos como os que eram adeptos da lei prefigura a divisão inevitável que ocorreria entre cristãos e judeus na época inicial do NT. v. 33. Se esse homem não fosse de Deus, não poderia fazer coisa alguma: Agora o homem chega ao clímax da sua fé. Jesus, ele crê, deve ser o enviado de Deus. E a rejeição por parte dos fariseus de um sinal tão declarado o surpreende grandemente. v. 34. Você nasceu cheio de pecado: A insinuação deles quanto ao legado moral do homem e sua ira diante da resistência dele levam-nos a expulsá-lo, e em princípio a expulsar o Salvador com ele. v. 35. Você crê no Filho do homem?: [Alguns manuscritos, seguidos por algumas versões, trazem “Filho de Deus” aqui.] Barrett, provavelmente, está certo ao dizer que, até então, a fé que o homem tinha era imperfeita. Talvez a pergunta devesse ser formulada assim: “Você crê no Filho do homem, não crê?”. À luz do cap. 10, podemos ver Jesus, o Pastor, tomando conta (v. 35) de uma ovelha expulsa recentemente do aprisco do legalismo judaico. 
v. 37. Você já o tem visto: O significado fundamental é que o homem, com a vista restaurada, tinha visto o Filho do homem sem perceber quem ele era. Em outros trechos desse evangelho, ver o Filho do homem está reservado para o futuro (cf. Mc 14.62). Mas, pelos olhos da fé, a visão futura que o homem tem do Senhor pode ser desfrutada aqui e agora. v. 39. Fu vim [...] para julgamento, a fim de que [...] os que vêem se tornem cegos: Cf. Is 29.18; 35.5; 42.7,18. Aqui há uma alternância entre a visão física e a espiritual. Jesus está mais interessado na segunda, embora o homem recém-curado tenha recebido ambas. Aqueles judeus que haviam rejeitado Jesus tinham se tornado obstinadamente cegos para a verdade (12.40; cf. Is 6.9, 10). Jesus tinha vindo para dar vista espiritual àqueles que sabiam que estavam cegos, mas também para corrigir o defeito daqueles que estavam satisfeitos com a “visão” que já possuíam, para que agora pudessem avançar sobre uma nova base de fé. v. 41. Os fariseus entendem que Jesus está falando de visão espiritual e tomam a sua posição com base no seu conhecimento das Escrituras. Jesus lhes mostra agora que o pecado deles está, não obstante, no fato de possuírem a verdade sem a compreenderem, enquanto a ignorância que vem da cegueira é ensinável. E o fato de insistirem em que conseguem “enxergar” torna o pecado deles proposital.

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