Estudo sobre Filipenses 4:8-9

Filipenses 4:8-9


Será que a frase seguinte ainda faz parte do presente trecho? Paulo arrola aqui uma série de expressões que provêm da ética grega. Por um lado seu objetivo é dizer: esbocei para vocês o quadro do cristão, esse atleta inabalável que corre para o grande alvo, esse ser humano repleto de alegria e paz, de santa despreocupação e oração confiante; por outro lado, nessa atitude não precisamos passar totalmente ao largo daquilo que é valorizado pelos esforços mais nobres do mundo. Não, pensem também nisso! O “finalmente” [quanto ao mais] geralmente introduz de fato algo novo. E a exortação de “ocupar o pensamento” com essas coisas poderia nos parecer relativamente contida. No entanto, não devemos esquecer que, muito antes de Paulo, já a tradução grega do AT usava todas essas palavras da ética greco-humanista. Portanto, elas não tinham para Paulo uma conotação tão puramente “mundana” e “grega”. Mas sobretudo o v. 9 se refere novamente ao que o v. 8 expôs aos leitores, e Paulo assegura enfaticamente, usando conceitos cumulativos, que os filipenses teriam “aprendido e recebido, ouvido e visto” essa atitude do próprio Paulo.

Por isso precisamos levantar seriamente a pergunta: como, afinal, a “santificação” cristã se relaciona com a “ética” humanista? Prevalece que não devemos localizar a guinada total da vida de “conversão e renascimento” primeiramente na esfera moral. Ela se processa na profundeza realmente decisiva de nossa existência, em nosso relacionamento com Deus, e é reconhecida de forma muito mais segura e inequívoca no grito “Aba, Pai!” do que em qualquer “melhora”. A transformação existencial foi claramente descrita por Paulo no cap. 3. No entanto o próprio Jesus já estabelecera uma ligação mais estreita entre a segunda tábua do Decálogo e a primeira. O novo relacionamento com Deus leva necessariamente a um novo relacionamento com as pessoas, e não para um relacionamento de cunho intelectual genérico, mas para um dia-a-dia muito concreto. Então o julgamento moral das pessoas se defronta com aquilo que também é “bom” perante Deus. Não deixa de ser admirável que o ser humano moral sempre saiba muito bem como deveria ser o comportamento ético do outro! Sem dúvida existe aquela degeneração e desgaste sobre a qual Paulo escreve aos romanos: “Conhecem a justiça de Deus, de que são passíveis de morte os que tais coisas praticam, e não somente as fazem, mas também aprovam os que assim procedem” (Rm 1.32). No entanto certamente há necessidade de um longo processo de apodrecimento até que esse ponto seja atingido. O coração das pessoas se mantém muito tenazmente agarrado a uma valorização bem diferente das coisas, sob visões de mundo variáveis. Não cabe ao cristão passar elegantemente de largo desde já. Também ele precisa ponderar muito bem o que os seres humanos valorizam e preferem como “virtude”. Desde o Iluminismo a palavra “virtude” traz para nós uma incômoda conotação moralista. O termo grego designa a “aptidão”, evidentemente não em referência às coisas, mas no sentido ético. Tão logo vemos as diversas “virtudes” diante de nós, como coragem, justiça, retidão, bondade, etc., desaparece o sentimento constrangedor da autocomplacência e distanciamento da vida que tão facilmente ligamos com “virtude”, “virtuoso”. 


É essencialmente inerente à vida do cristão que sua palavra e conduta sejam retos e verdadeiros, que evitem tudo o que é superficial e leviano, que sirvam à justiça e pureza, que alegrem os outros e sejam convidativos. A palavra possui muitos sentidos porque abarca tudo o que deve ser “considerado bom”. Também a bela tradução de Lutero “de belo som” pode ser correta. Desde o começo a instrução e o exemplo de Paulo mostraram aos filipenses um cristianismo que levava essas coisas a sério. Por mais intensamente que ele desenvolvesse a visão bíblica de futuro diante de cada igreja, por mais radicalmente que rejeitasse a “justiça própria” e visse unicamente em Cristo “a vida”, ele nunca ensinou um cristianismo que se colocasse acima dos fundamentos do convívio humano. Não queria “santos” que, na expectativa do futuro, negligenciavam as tarefas simples do presente, que no amor a Jesus perdessem o amor às pessoas e que em sua suposta grandeza desprezassem o que até mesmo o ser humano caído valoriza como belo e bom. Talvez C. Blumhardt (pai) seja um exemplo daquilo que Paulo queria dizer no presente trecho. Esse homem, que como nenhum outro em sua época de fato aguardava a irrupção da grande ajuda divina e convivia quase que naturalmente com milagres, curas e orações atendidas, apresentava ao mesmo tempo aquela humanidade singela e nobre que lhe abria o acesso a tantos corações. Não se trata de reduzir a “santificação” cristã a uma moral humana, conhecida também por não-cristãos corretos. Mas a verdade é que justamente a partir de sua santificação profunda e de sua grande esperança bíblica a pessoa considere e experimente tudo o que o ser humano costuma valorizar, e com razão, como “virtude”. Quando realizado por força própria pelo ser humano separado de Deus, isso é evidentemente apenas “carne”. Não esquecemos o que aprendemos anteriormente com base em Fp 3.2ss. No entanto, assim como Paulo via a natureza mortífera da lei com clareza penetrante e apesar disso não “suspendeu” a lei com seu evangelho “livre da lei”, mas a “erigiu” (Rm 3.31), assim o “ser em Cristo” e o “serviço de Deus no Espírito”, apesar de contrariar ao máximo toda “justiça baseada na lei”, cumprem justamente também aquilo que toda moral humana a rigor deseja e almeja.