Interpretação de Apocalipse 14, 15 e 16

Interpretação do Livro de Apocalipse





Apocalipse 14

V. Os Juízos das Sete Taças. 14:1 – 16:21.
Assim como há os capítulos introdutórios que precedem os juízos apresentados pela abertura dos sete selos e pelo tocar das sete trombetas, aqui também, precedendo a última série dos juízos, temos um capítulo introdutório.

14:1-5. O capítulo começa com uma cena no monte Sião, o qual sem dúvida representa o céu – única referência a Sião no Apocalipse. Somos apresentados a um grande grupo de 144.000, com características que os destaca de maneira fora do comum: 1) nas suas testas trazem os nomes do Cordeiro e do Pai – o que acontecerá com todos os redimidos por toda a eternidade (22:4); 2) só eles são capazes de compreender o novo cântico cantado diante do trono pelos harpistas; 3) não se contaminaram com mulheres, pois são virgens – uma declaração mais tarde examinada neste estudo; 4) seguem o Cordeiro por toda parte; 5) são as primícias de Deus; 6) são irrepreensíveis. Sem dúvida é um grupo selecionado de santos de Deus, dos quais nada mais sabemos.
O único verdadeiro problema aqui encontra-se no versículo 4. Muitos têm insistido que deve ser entendido literalmente, como afirma Govett, o qual dedica cinco páginas ao versículo. Em nenhum lugar das Escrituras a virgindade, ou o celibato, é mencionado como sinônimo de santidade, ou como se tornasse alguém particularmente apto para o serviço divino. A família é uma instituição divina desde o começo das Escrituras. Portanto, isto deve ter significado simbólico, semelhante ao uso que Paulo faz desses termos em II Co. 11:2, 3. O casamento não é desonroso (Hb. 13:4).
6,7. Temos agora uma descrição de três mensagens sucessivas por três diferentes anjos. O primeiro tem um evangelho eterno, proclamado a todos os habitantes da terra, consistindo da seguinte advertência: Temei a Deus e dai-lhe glória; porque é chegada a hora do seu juízo; e adorai aquele que fez o céu, etc. Concordo plenamente com Swete que esta proclamação "não contém referência à esperança cristã; a base do apelo é teísmo puro. É um apelo à consciência do paganismo inculto, incapaz ainda de compreender qualquer outra coisa". Não há aqui nenhuma indicação de que esta mensagem fosse aceita ou de que, através dela, alguém fosse redimido.
8-13. O segundo anjo anuncia a queda da Babilônia, a qual é detalhadamente descrita nos capítulos 17 e 18. O terceiro anjo pronuncia um juízo sobre todos aqueles que adoraram a besta e a sua imagem, com uma declaração antecipatória sobre o castigo eterno daqueles que usam o sinal da besta. Um século atrás os Adventistas do Sétimo Dia apegaram-se a estes versículos como cumprimento de suas convicções particulares em relação à igreja. Eles consideraram o primitivo movimento Milerita como uma advertência à igreja de que ela era a Babilônia. Por isso, os crentes deviam sair da cristandade organizada – e a mensagem do terceiro anjo se lhe seguiria imediatamente. Os adventistas insistem que esta é uma promessa de que nos últimos dias só serão aceitos por Deus aqueles que guardam os mandamentos de Deus e a fé em Jesus (v. 12), e que isto é "um chamado a que os homens honrem o verdadeiro sábado de Deus, o sétimo dia do Decálogo" (Francis D. Nichol: The Midnight Cry, pág. 462). Por que eles particularizam o mandamento referente ao sétimo dia, nem sequer levemente aludido aqui, e não incorporam neste esquema os outros nove do Decálogo, eu não sei.
14-20. O capítulo conclui com duas cenas que só podem acontecer no fim dos tempos. A primeira (vs. 14-16) representa uma colheita de almas e ao que parece um ajuntamento dos redimidos, ao qual nosso Senhor se refere em Mt. 13:30, 39; 24:30, 31. Tem havido alguma discordância sobre estas duas cenas, mas parece-me que a segunda, que é uma vindima e não uma colheita, deve descrever o ajuntamento dos incrédulos e ímpios da terra. São parágrafos antecipatórios. Govett resume esta passagem corretamente ao dizer, "A semente da Mulher fornece a Colheita, enquanto a semente do Dragão fornece a Vindima". Veja também Joel 3:13.

Apocalipse 15

15:1-4. O capítulo 15 continua cheio de material introdutório e uma cena do céu. Apresenta um dos grandes hinos do livro, cantado desta vez, ao que parece, por aqueles que triunfaram sobre as forças do mal nos últimos dias, que foram os vencedores da besta, da sua imagem e do número do seu nome (v. 2). Este é chamado de cântico de Moisés, servo de Deus, e . . . do Cordeiro (v. 3; sobre os antecedentes veja Êx. 14:31; 15; Nm. 12:7; Dt. 32). "O cântico pelo qual Moisés celebrou o livramento do Egito está sendo agora renovado e recebe o seu final perfeito quando o povo de Deus está finalmente libertado pelo Cordeiro" (Lee). O cântico é um mosaico de material extraído de Êxodo, Salmos (86:9; 111:2; 145:17), e de Isaías (2:2-4; 66:23, etc.).
5-8. João diz que viu no céu o santuário do tabernáculo do testemunho . . . no céu (v. 5). Esta é a última vez que a palavra aparece traduzida para santuário neste livro (cons. 11:19). Desse santíssimo lugar saíram cinco anjos, com as sete pragas que estão para serem derramadas sobre a terra, taças ... cheias da cólera de Deus (v. 7). Exatamente antes desta série ter início, somos informados de que o santuário está cheio de fumaça, procedente da glória de Deus e do seu poder (v. 8), o que nos faz lembrar a inacessibilidade divina no Sinai (Êx. 19:21), e a visão de Isaías (6:4,5).
John Albert Bengel, o grande exegeta do século passado, comentou esta passagem: "Quando Deus derrama Sua fúria seria bom que até mesmo aqueles que estão em paz com Ele se afastem um pouco, em atitude de profunda reverência até que pouco a pouco o céu se desanuvie novamente" (Introduction to the Exposition of the Apocalypse, in loco).

Apocalipse 16

16:1, 2. Estamos agora prontos a examinar as sete taças da ira de Deus.
A primeira, comparável à sexta praga do Egito, resultou no tormento dos homens que tinham o sinal da besta com úlceras malignas e perniciosas, não especificamente identificada.
Quando a segunda taça foi derramada (cons. com a primeira praga do Egito), o mar toma a aparência de sangue como de um morto, e toda a vida que há nele morre (v. 3). Weidner dirige a atenção para a semelhança e diferença entre esta praga e a da segunda trombeta (8:8, 9): "Os juízos de Deus vão se tornando cada vez mais terríveis conforme a maldade aumenta e o fim se aproxima".
4-11. A terceira taça da ira também afeta os rios e as fontes das águas, levando o anjo das águas a reconhecer a justiça e a santidade de Deus, e a justificação de tais terríveis manifestações da justiça divina (vs. 5,6).
A quarta taça, envolvendo o sol, aumenta de algum modo a intensidade do calor que a terra recebe do sol; e os homens foram queimados com ele, o que resultou em blasfêmias contra Deus (vs. 8, 9).
A quinta taça da ira é semelhante ao juízo da quarta trombeta e à nona praga do Egito, em sua manifestação de trevas, exceto que nesta ocasião é o reino da besta que é coberto pelas trevas (vs. 10, 11). Deus está agora começando a atingir o trono do Seu grande inimigo, que tem sido a causa vital do engano dos homens, seus crimes horríveis e o seu ódio contra Deus.
12-16. No derramamento da sexta taça sobre o rio Eufrates, João vê os reis que vêm do lado do nascimento do sol impelidos, como foram, pelo poder satânico a que marchassem para o Armagedom (v. 16), para a peleja do grande dia do Deus Todo-poderoso (v. 14).
Este é o único lugar em que o Armagedom é nominalmente mencionado no livro do Apocalipse. A batalha propriamente dita é descrita na última parte do capítulo 19. Moorehead escreveu, antes mesmo da Primeira Grande Guerra e o despertamento atual da Ásia, que "as grandes hordas da Ásia serão envolvidas na batalha decisiva e esmagadora do grande dia de Deus". O Extremo Oriente tem tido profundo significado para a civilização Ocidental apenas neste último século, e o mesmo acontece com o Oriente Próximo desde o término das Cruzadas. Que enorme diferença entre a poderosa China de hoje, em seu regime comunista e ateu, e o império comparavelmente fraco que conhecemos no começo deste século!
O secamento do rio Eufrates (v. 12), preparando caminho para a chegada destes exércitos do Oriente, pode ser tomado simbolicamente ou não; mas certamente não pode se referir ao enfraquecimento do Império Otomano, nem ao rio Mississipi, como pretendem alguns.
Hengstenberg comentou acertadamente: "O Eufrates foi mencionado aqui, apenas no que se refere ao impedimento que representa para a marcha do poder ímpio do mundo na direção da Terra Santa".
Esses reis não são judeus vindo à Palestina em busca de bênçãos mas reis pagãos vindo a Megido para a batalha.
Esta passagem abrange uma das mais terríveis declarações da Bíblia, isto é, que espíritos imundos (v. 13), espíritos de demônios operando milagres, irão ao encontro dos reis do mundo inteiro, com o fim de ajuntá-los para a peleja (v. 14). Isto pode significar nada mais que no final dos tempos os governantes da terra serão endemoninhados. E somos quase compelidos a crer, pelos acontecimentos dos últimos quarenta anos, que alguns governantes já têm sido possuídos por demônios.
17-21. Embora o sétimo selo não venha logo após a abertura do sexto, e o tocar da sétima trombeta ficasse adiada por algum tempo, neste capítulo o derramamento da sétima taça segue-se imediatamente ao derramamento da sexta. Aqui a ira de Deus está dirigida contra o ar, e a declaração do juízo se segue, como os outros, por relâmpagos, e vozes, e trovões, e ocorreu grande terremoto (vs. 18, 19). Não posso deixar de pensar que o ar aqui tem o mesmo significado que na frase de Paulo referindo-se ao "príncipe das potestades do ar" (Ef. 2:2). (Para discussão mais detalhada do assunto, veja meu livro, This Atomic Age and the Word of God, pág. 222-248). Os distúrbios nos ares culminam com a queda de grandes pedras de gelo (Ap. 16:21), pesando cerca de um talento cada (vinte e seis ou quarenta e quatro quilos); e outra vez os homens blasfemaram contra Deus.
A declaração de que nesta ocasião caíram as cidades das nações (v. 19), ou, como alguns traduzem, as cidades dos gentios, pode ser, como Weidner sugere, uma inferência a Mq. 5:10-15. Duas outras cidades foram citadas aqui, Babilônia e a grande cidade, sendo esta última, de acordo com Milligan, Simcox, Weidner e muitos outros, a própria Jerusalém.
Alguns comentadores têm defendido que estas três sucessivas séries setenárias de três juízos são a recapitulação dos mesmos eventos. Isto é, as trombetas recapitulam o que os selos anteriormente apresentaram, mas com maior intensidade; e as taças recapitulam os mesmos acontecimentos, caracterizando-os com ainda maior severidade. Eu não tenho conseguido aceitar esta opinião. O motivo é que a seqüência de cada série é completamente diferente, e só isto, ao que parece, torna o conceito da recapitulação impossível.
No quadro abaixo apresento a seqüência das séries dos juízos, usando o juízo das taças por guia. Abaixo da linha, sob as trombetas e os selos, encontram-se os fenômenos que não aparecem nos juízos das taças. Nenhum esforço foi feito para colocar os itens abaixo da linha em alguma ordem cronológica, nem mesmo o de fazer um paralelo entre os selos e as trombetas; antes, foram colocados em posições opostas para economizar espaço.

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