2016/10/08

Números 19 — Análise Bíblica

Números 19 — Análise Bíblica

Números 19 — Análise Bíblica




Números 19

Nm 19:1-22 A purificação depois do contato com os mortos 
Os capítulos anteriores de Números descrevem várias mortes no meio do povo de Israel (cf. Nm 11:33; 14:37; 14:45; 16:33-35,49). Com tantos corpos espalhados pelo arraial, era grande a probabilidade de alguém tocar um cadáver acidental ou intencionalmente, um contato considerado uma ameaça grave à santidade da comunidade de Israel. A impureza resultante desse contato pode ser um dos motivos pelos quais o povo teve medo de se aproximar da tenda da congregação (17:13). Assim, Deus proveu um ritual para purificar as pessoas que tivessem sido contaminadas e permitir que se aproximassem da tenda da congregação sem temer a morte.
O ritual de purificação é descrito em detalhes (19:1-22) e consiste na imolacão e holocausto de uma novilha vermelha (19:2). A cor vermelha é extremamente significativa nesse ritual. 0 sangue vermelho do animal devia ser aspergido e queimado (19:4-5), e, junto com ele, devia ser queimado estofo carmesim (19:66). É possível que essa ênfase sobre a cor vermelha tenha o propósito de enfatizar a importância do sangue na purificação dos indivíduos cerimonialmente impuros. Outros agentes de purificação, o pau de cedro e o hissopo, também deviam ser queimados com o sacrifício (19:6a). E, por ocasião dessa oferta, os sacerdotes e seus assistentes deviam se purificar (19:7-10).
No final, cinzas da novilha e dos elementos que haviam sido queimados com ela deviam ser misturadas com água para fazer a água purificadora (19:13,17,21) que podia, então, ser aspergida por uma pessoa cerimonialmente pura sobre o indivíduo e os objetos impuros (19:18), usando um maço de hissopo (cf. tb. Sl 51:7). 0 hissopo era um arbusto semelhante à manjerona, usado no contexto bíblico para aspergir água ou sangue em cerimônias de expiação e purificação (cf. tb. Sl 51.7).
Quando seguidos à risca, os procedimentos para obter a pureza ritual eram eficazes e visavam garantir a segurança e santidade do povo. 0 povo que adora o Deus santo também deve ser santo (Lv 19:2).
0 autor de Hebreus se refere a essa purificação cerimonial quando fala da purificação da consciência dos cristãos da contaminação dos pecados e dos rituais inúteis, mostrando que Deus estabeleceu um modo melhor de realizá-la: “Portanto, se o sangue de bodes e de touros e a cinza de uma novilha, aspergidos sobre os contaminados, os santificam, quanto à purificação da carne, muito mais o sangue de Cristo, que, pelo Espírito eterno, a si mesmo se ofereceu sem mácula a Deus, purificará a nossa consciência de obras mortas, para servirmos ao Deus vivo!” (Hb 9:13-14).

O SACERDÓCIO NA BÍBLIA
A prática de oferecer sacrifícios vem de longa data (Gn 4:3-4; 8:20). Como chefes de família, todos os patriarcas ofereciam sacrifícios (gn 12:7-8; 3:14; 15:9; 26:25; 35:3,7), e um tipo de sacerdócio parece ter se desenvolvido antes da entrega da lei no Sinai (Êx 19:22,24). Em Êxodo 19:6, Israel é descrito como um reino de sacerdotes (cf. tb. Is 61:6). Isso significa que, teoricamente, todos os membros dessa nação, tanto homens quanto mulheres, faziam parte desse sacerdócio.

O sacerdócio no Antigo Testamento
Uma vez que não era prático uma nação inteira oficiar os ritos sacrificiais, os levitas foram escolhidos para representar o povo (Nm 18:21-23), talvez como recompensa por seu zelo em servir ao Senhor (Êx 32:25-29). Quando os israelitas estavam no deserto, os levitas acampavam ao redor do tabernáculo. Assim, guardavam o santuário e, ao mesmo tempo, protegiam os outros israelitas da ira de um Deus santo (Nm 1:53; 8:19),
Os sacerdotes eram escolhidos dentre os levitas e esperava-se que fossem modelos da santidade exigida de todo o povo da aliança, pois Deus é santo (Êx 19:6; Lv 19:2). As prescrições acerca da vida dos sacerdotes simbolizavam a santidade e pureza necessárias para servir a Deus (Lv 21:1-9). Sua consagração incluía um rito de purificação (Êx 29; Lv 8), suas vestes eram feitas de linho fino (Êx 39:27-29), e eles próprios não podiam ter nenhum defeito físico (Lv 21:16-23). O sumo sacerdote estava sujeito a um número ainda maior de restrições, entre elas a permissão de se casar apenas com uma virgem (Lv 21:10-15).
As vestes e o turbante do sacerdote eram semelhantes aos trajes de um rei (Êx 39; Is 62:3). Sempre que ele entrava no Santo dos Santos, levava consigo, simbolicamente, toda a congregação de Israel, pois em seu peitoral havia pedras inscritas com os nomes de todas as tribos de Israel.
Além de oferecer sacrifícios, os sacerdotes abençoavam o povo (Nm 6:22-27) e o convocavam para assembléias (Nm 10:8-10; 31:60). Também tinham responsabilidades judiciais (Dt 1 7:8-9; 29:5; 20 19:8-11; Ez 44:24) e financeiras (Ed 8:33-34) e participavam dos preparativos para batalhas (Dt 20:1-4; Js 6:8; 1 Sm 4:3-4).
Apesar de a lei definir que apenas os levitas deviam ser sacerdotes, algumas funções sacerdotais também foram exercidas por membros de outras tribos, como o efraimita em juizes 17:5 ; os filhos de Davi, da tribo de Judá (2Sm 8:18; NVI); e Ira, da tribo de Manassés (2Sm 20:26). No entanto, a preferência era por sacerdotes levitas (Jz 1 7:5-1 3).

Desenvolvimento político
Uma mudança importante no sacerdócio ocorreu quando Salomão colocou Zadoque no lugar de Abiatar como sacerdote em Jerusalém (1 Rs 2:26-27). Essa nomeação marcou o fim de uma linhagem sacerdotal (cf. predito em 1 Sm 2:30-31) e o início do controle político do sacerdócio. Outra mudança se deu quando o rei Josias centralizou o culto no templo em Jerusalém (2Cr 34), tornando desnecessário o serviço dos sacerdotes levitas de outros santuários fora de Jerusalém.
No período pós-exílico, o sumo sacerdote se tornou uma figura extremamente poderosa, e homens inescru-pulosos procuraram ocupar esse cargo. Foi o caso de jason (174 a.C.), nomeado sumo sacerdote depois de prometer a Antíoco IV que promoveria a cultura helênica.
O sacerdócio judaico dos Evangelhos e do livro de Atos era aarônico (Lc 1:5). Jesus aceitou sua legitimidade e, depois de curar leprosos, os enviou aos sacerdotes para que estes confirmassem a cura (Mc 1:44). Apesar dos sacerdotes — especialmente os saduceus (um grupo de sacerdotes que não aceitavam a doutrina da ressurreição) — terem sido opositores ferrenhos de Cristo, muitos acabaram se convertendo ao cristianismo (Atos 6:7).

O sacerdócio de Cristo
Aos poucos, os cristãos se separaram dos rituais judaicos, como mostram o discurso de Estêvão e a decisão do concilio de Jerusalém (Atos 7:44-53; 15:28-29). Especialmente depois da destruição do templo pelos romanos em 70 d.C., os cristãos enfatizaram a tradição profética do AT em detrimento da tradição sacerdotal (Mt 9:1 3).
A rejeição do sacerdócio judaico pela igreja não representou um abandono do conceito de sacerdócio. Antes, este foi considerado consumado na pessoa e ministério de Jesus Cristo. O autor de Hebreus representa Jesus Cristo como o grande Sumo Sacerdote, pois seu sacerdócio segue o modelo do sacerdócio de Melquisedeque, uma figura que aparece nas Escrituras sem nenhum antecedente (Hb 7:11-28). Enquanto todos os sacerdotes comuns morriam, Jesus é imortal, e seu sacerdócio foi estabelecido de uma vez por todas. Ao contrário dos sacerdotes aarônicos, Jesus não tem pecado (Hb 4:15). Os sacrifícios dos sacerdotes do AT precisavam ser repetidos, pois não eram verdadeiramente eficazes. Por meio do sacrifício único de si mesmo, Jesus cobriu os pecados de seu povo para sempre (Hb 10:1 -18).
A nova aliança
Além disso, Jesus deu início a uma nova aliança (Hb 8:1-13). Sob a antiga aliança, os sacerdotes tratavam da contaminação externa oferecendo animais como sacrifícios que não podiam remover o pecado. Sob a nova aliança, Jesus é o sacrifício sem defeito que elimina a barreira entre Deus e seu povo. O sumo sacerdote aarônico ministrava num santuário terreno, onde era preciso transpor um véu para ter acesso à presença divina. Sob a nova aliança, Jesus exerce seu sacerdócio no santuário celestial, onde não há separação entre Deus e os adoradores (Hb 9:1-28; cf. tb. Mt 27:51). Assim, o autor de Hebreus conclui que o sacerdócio de Jesus substituiu o sacerdócio aarônico.
Todos os outros escritores do NT também usam termos associados aos sacrifícios para descrever a obra de Jesus, e sua missão é retratada como o pagamento de um resgate (Mc 10:45). As palavras usadas na instituição da ceia do Senhor são de cunho sacrificial (Mac 14:22-25). Jesus é descrito repetidamente como Cordeiro de Deus (Jo 1:29; 1Co 5:7; 1 Pe 1:19) cujo sangue nos purifica do pecado (Rm 8:3; 1 Jo 1:7; 2:2; 4:10; 1 Pe 2:24; 3:18; Ap 1:5; 7:14). Cristo se santificou como um sacerdote era santificado (Jo 17:19) e intercede por nós como sacerdote (1 Jo 2:1).

O sacerdócio de todos os cristãos
Cristo é nosso Sumo Sacerdote e, no batismo, o indivíduo se torna parte de Cristo e do seu corpo, a comunidade cristã. Nesse corpo, todos os membros são considerados sacerdotes (Ap 1:6; 5:10; 20:6; cp. Êx 19:6) que representam Deus para o mundo (1 Pe 2:9). Não há divisão ou casta sacerdotal; antes, cada membro tem responsabilidades individuais e coletivas de servir a Deus e aos outros.
De modo semelhante aos sacerdotes do AT, os cristãos oferecem sacrifícios individualmente e em comunidade.
A Bíblia diz que o ato espiritual de culto dos cristãos consiste em oferecer seu corpo “como sacrifício vivo, santo e agradável a Deus” (Rm 12:1). Assim, não há distinção entre a adoração e a vida cristã. Aliás, o corpo dos cristãos faz parte do próprio Cristo e é templo do Espírito Santo (ICo 6:15,19). Se a vida cristã é um tipo de sacrifício, segue-se que os atos de caridade realizados pelo cristão também são sacrifícios (Hb 13:16), e as ofertas materiais são “como aroma suave, como sacrifício aceitável e aprazível a Deus” (Fp 4:1 8).
Outros sacrifícios oferecidos pelos cristãos são o louvor, a confissão do nome de Deus (Hb 13:15) e as orações (Ap 8:3-4) e podem ser realizados individualmente ou em comunidade. No entanto, a fim de celebrar a ceia do Senhor, é preciso haver uma comunidade que ofereça a Deus com gratidão os frutos do seu trabalho, como os israelitas faziam (Dt 26:1-10). Entre esses “frutos”, estão as pessoas convertidas por intermédio do ministério evangelístico dos cristãos (Rm 15:16; Cl 1:18; Ap 14:4).
Fica claro que o sacerdócio cristão é de natureza coletiva e inclui homens e mulheres. Os pais da igreja primitiva limitaram o sacerdócio aos ministros ordenados da igreja. No entanto, a Bíblia mostra que o sacerdócio é uma responsabilidade a ser exercida por todos os cristãos individual e coletivamente com outros membros do Corpo de Cristo.

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