Estudo sobre Apocalipse 3:3

Apocalipse 3:3

O terceiro imperativo recorda esses primórdios da igreja: Lembra-te, pois, do que tens recebido e ouvido (“Lembra-te, pois, de como recebeste e ouviste” [tradução do autor]). Do mesmo modo como Éfeso (cf. Ap 2.5), ela deve retomar o seu começo esquecido. O surgimento da igreja em Sardes é trazido à memória por meio de expressões que várias vezes descrevem o despertar para Cristo no NT. No centro estava a pregação missionária. Pessoas tornavam-se recebedoras e ouvintes. A solicitação de “lembrá-lo” inclui que Deus mantém de pé a sua palavra. Ele oferece tudo pela segunda vez (cf. o comentário a Ap 2.5). Contudo, quem recebe e ouve precisa tornar-se alguém que guarda; e guarda-o. Não existe igreja viva sem essa preservação (cf. Ap 3.10).

Estranhamente o quinto imperativo a Sardes: e arrepende-te, ocorre em último lugar. Talvez a comparação com a mensagem do livro de Ezequiel também explique essa sequência. Ezequiel fala com muita frequência do arrependimento, nada menos de sete vezes tanto no cap. 18 quanto no 33. Todas as vezes, a ênfase está em afastar-se e largar o pecado. Sob essa premissa, faz sentido que o conceito esteja no final, na medida em que a nova reflexão, compreensão e preservação do evangelho traga suas consequências: distanciamento da contaminação gentílica, cf. v. 4.

A palavra de advertência reveste-se da imagem do assalto do ladrão, já conhecida de Is 49.9; Jl 2.9, que retorna no NT em Lucas, Paulo, Pedro e João. Se não vigiares, virei como ladrão (na noite). O ladrão vem como inimigo. Cristo, um assaltante! O ponto de comparação reside na total falta de expectativa da parte dos assaltados. E não conhecerás de modo algum em que hora virei contra ti. A figura não deve ser forçada no sentido de que uma igreja arrependida e alerta seria informada da hora. Contudo a vinda do Senhor perde o caráter de assalto para a igreja vigilante (cf. 1Ts 5.3,4). Em Ap 16.15 as correlações mostram-se de modo muito palpável (cf. o comentário correspondente). Aqui a ênfase está na ignorância fatal para o povo de Deus. Entre os cristãos de Laodiceia era a falta de reconhecimento sobre si próprios (Ap 3.17), na igreja em Sardes é a falta de conhecimento de Cristo, que antecede àquele. Os gentios podem ser desculpáveis por carência de conhecimento, já os cristãos são onerados por essa carência. “O meu povo está sendo destruído, porque lhe falta o conhecimento” (Os 4.6). Afinal, ignorância não é em todos os casos o mesmo que ignorância, assim como tampouco dormir é o mesmo que dormir. A sonolência da igreja é igual a dormir em serviço (Ap 3.2), motivo pelo qual traz consequências tão graves.