2016/10/08

Números 1 — Análise Bíblica

Números 1 — Análise Bíblica

Números 1 — Análise Bíblica



Números 1

Nm 1:1—10:10 Os preparativos para deixar o Sinai
Essa seção é dividida em duas partes principais: os capítulos 1 a 4 tratam da ordem para realizar o censo e organizar a comunidade, enquanto os capítulos 5 a 10 tratam de ordens relacionadas à pureza do povo. A seção toda, na qual Deus ordena que o povo siga regras específicas, descreve atividades de preparação para entrar na terra prometida. As regras não constituem um fim em si mesmas; antes, a ênfase é sobre a importância de atentar para a voz de Deus — uma atenção que se toma, posteriormente, o enfoque teológico fundamental. No deserto, o povo de Israel poderá viver em obediência à palavra de Deus ou se mostrar desobediente. Em outras palavras, as regras deixam clara desde o início a natureza do relacionamento entre Deus e o povo a caminho da terra prometida. Essa relação havia sido confirmada e elevada a um novo patamar pelo estabelecimento da aliança (Ex 19—24). Os israelitas devem progredir não apenas em sua jornada rumo à terra prometida, mas também nesse relacionamento com Deus. Sua marcha, que envolve a escolha entre obedecer a Deus ou seguir os seus próprios desejos, não é um movimento caótico e sem rumo; antes, é realizado de maneira ordenada em direção a um alvo definido.
Nm 1:1—4:49 A organização da comunidade
O livro de Números se inicia com o relato do censo realizado no ano depois do êxodo, enquanto o povo se encontrava acampado no deserto do Sinai. Esse censo ajudaria a transformar a multidão desordenada de ex-escravos num povo unificado e organizado.
A contagem metódica de todo o Israel (1:54) é seguida de instruções para preparar o arraial sagrado para a marcha a ser realizada em breve. As instruções também tratam do posicionamento das tribos ao redor da tenda da congregação e da ordem na qual devem marchar (2:1-34). Em seguida, são fornecidas instruções acerca dos levitas e sobre seu posicionamento ao redor da tenda da congregação. 0 autor também registra o número, as responsabilidades e o papel dos levitas como substitutos dos primogênitos israelitas do sexo masculino (3:1-51). A conclusão traz detalhes sobre o número e os deveres específicos dos membros da tribo de Levi que serviam na tenda da congregação (4:1-49).
1:1-54 O censo de todo o Israel
Por meio de sua palavra, Deus criou o universo (Gn 1; Sl 33:6) e formou a humanidade (Gn 1:26-27) e, por meio dessa mesma palavra, deu ordens a Moisés e à comunidade (Êx 19:3-6). Assim, o livro de Números informa logo no início: Falou o Senhor a Moisés (1:1a). Ao começar com a palavra do Senhor a Moisés, o autor enfatiza o papel fundamental de Moisés nos relatos sobre o período no deserto. Ele é o profeta que recebe e transmite aos israelitas instruções do Senhor, exercendo igualmente a função de mediador entre Deus e o povo. No entanto, como os detalhes do censo mostram, Moisés não insiste em ser o único líder de Israel. Ele aprendeu a lição ensinada por seu sogro, Jetro, em Êxodo 18 e reconhece sua necessidade de ajuda. Sabendo que Deus designa tarefas diferentes para cada pessoa, Moisés pede a ajuda dos chefes das tribos para realizar o censo. Mais adiante nesse mesmo livro, ele transfere prontamente para os levitas todas as incumbências relacionadas ao culto público. Sua disposição de permitir a outros ocupar posições de grande influência é um desafio para os padrões africanos de liderança.
A sensação de ordem transmitida por essa seção sobre os preparativos para deixar o Sinai é reforçada pelos detalhes fornecidos pelo narrador do lugar onde Deus falou com Moisés (no deserto do Sinai) e também da ocasião (no segundo ano após a saída dos filhos de Israel do Egito, no primeiro dia, do segundo mês) (1:16).
Deus ordena a Moisés: Levantai o censo de toda a congregação dos filhos de Israel (1:2), mas, na verdade, o censo abrange apenas os homens da idade de vinte anos para cima (1:36). Como a maioria das sociedades africanas, a sociedade israelita antiga era extremamente patriarcal, concentrando o poder político, militar e econômico nas mãos dos homens.
Ao que parece, a necessidade de averiguar o poder militar era um motivo comum para a realização desse tipo de censo (cf. tb. Nm 26:4; 2Sm 24:2). Outro motivo era definir a tributação para cobrir os custos de projetos comunitários, como a construção do tabemáculo (cf. Êx 30:11-16; 38:26). Um censo menor de um grupo específico foi usado para fazer a divisão de tarefas na tenda da congregação (4:3). 0 capítulo 26 mostra a realização de outro censo, quarenta anos depois do êxodo, desta vez para contar a nova geração que ocuparia a terra prometida. Posteriormente, Salomão realizou um censo para identificar os homens estrangeiros aptos a trabalhar (2Cron 2:17-18). Esdras também fez uma contagem do povo, provavelmente visando identificar indivíduos para servir como sacerdotes, levitas e afins na comunidade (Ez 2; cf. tb. 8:15).
Como os exemplos anteriores mostram, não era inco-mum realizar censos no período do AT, e nem sempre esse procedimento atraía a ira de Deus, como aconteceu no censo levantado por Davi (2Sm 24; 1Cron 21). Ao que parece, o Senhor se irou com Davi porque o rei havia passado a confiar mais na força humana do que no poder divino. Havia esquecido que era apenas um representante do Senhor na terra, encarregado de realizar os propósitos de Deus.
Nos dias de hoje, os censos do governo ainda nos lembram de nossas responsabilidades para com o Estado como cidadãos e contribuintes, bem como lembra o Estado de suas responsabilidades para conosco. Não há nenhum fundamento bíblico para se objetar à contagem de pessoas com o propósito de definir maneiras de atender mais adequadamente uma comunidade. No entanto, podemos levantar objeções se os resultados de um censo forem usados para propósitos egoístas e benefício pessoal.
A forma em que o censo de Números 1 foi realizado também se encaixa no tema teológico da obediência às instruções de Deus. 0 Senhor designa Arão para ajudar Moisés (1:3a) e acrescenta que os dois líderes devem nomear assistentes: De cada tribo vos assistirá um homem que seja cabeça da casa de seus pais (1:4). Desde o início da marcha, Deus provê líderes para a comunidade. Na travessia do deserto, o futuro do povo dependerá, em parte, da competência desses líderes em exercer seu papel e ouvir atentamente a voz de Deus.
A África enfrenta inúmeros problemas relacionados a lutas por poder. Os líderes africanos devem aguçar os ouvidos para o clamor dos portadores de HIM dos miseráveis e das vítimas de intermináveis guerras civis. Mas, com muita frequência, os líderes procuram apenas manter o poder e usá-lo para realizar suas ambições pessoais. No entanto, são chamados por Deus da mesma forma que ele chamou líderes na sociedade israelita. Deus sabe o nome de cada líder africano, assim como sabia o nome dos líderes das tribos de Israel (1:5-15), chamando-os a ser sensíveis às necessidades do povo.
O nome dos chefes das tribos que devem ajudar na contagem do povo são relacionados numa ordem semelhante à relação dos filhos de Jacó em Gênesis 35:23-26. Esse interesse em genealogias é outro tema teológico que se estende ao longo de toda a Bíblia, refletindo-se até em livros do NT como Mateus e Lucas. Podemos observar um interesse semelhante na tradição africana que dá grande valor aos primeiros chefes dos clãs e à preservação de genealogias. A tradição africana considera o clã de um indivíduo essencial para sua identidade dentro da comunidade, e a maioria dos africanos acredita que é impossível existir sem um clã.
O número de homens em cada tribo é relacionado em 1:17-44. Para uma discussão detalhada desses números, veja a introdução a este comentário. Os totais também podem ser comparados com os resultados do segundo censo para averiguar como cada tribo cresceu ou diminuiu durante os quarenta anos no deserto (cf. a tabela no comentário sobre o cap. 26).
Convém observar que Levi, um dos filhos de Jacó, não é incluído na lista do censo nem na lista em 1:5-15. Os levi-tas não fazem parte da lista porque, como 1:45 nos lembra, a relação se refere aos homens capazes de sair à guerra. Os levitas foram separados para oferecer liderança espiritual e servir na tenda da congregação e não faziam parte do exército (1:47-53). Mais uma vez, Deus provê líderes para o povo nesse momento de preparação para a jornada.
Depois da conclusão do censo, constatou-se que havia 603.550 homens disponíveis para o exército (1:46). Tendo em vista que é o mesmo número fornecido em Êxodo 38:26, é possível que esse censo também tenha sido usado para cobrar os impostos necessários para a construção do tabernáculo (cf. tb. Êx 30:11-16).
O capítulo termina afirmando que os israelitas procederam segundo tudo o que o Senhor ordenara a Moisés (1:54). Mais uma vez, a importância da obediência é apresentada em primeiro plano, como acontecerá ao longo de todo o livro.

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