2016/10/08

Números 27 — Análise Bíblica

Números 27 — Análise Bíblica

Números 27 — Análise Bíblica


Números 27

Nm 27:1-11 As filhas de Zelofeade
Como muitas sociedades africanas, a sociedade israelita da Antiguidade era predominantemente patriarcal, de modo que questões de terra, herança e poder diziam respeito ao âmbito masculino. No entanto, a situação se tomava problemática quando uma família não tinha nenhum filho do sexo masculino, como no caso da família de um homem chamado Zelofeade, da tribo de Manassés.
As sociedades patriarcais preservam sua história se lembrando da linhagem e dos nomes dos homens. Assim, Zelofeade é identificado segundo seus ancestrais do sexo masculino como filho de Héfer, filho de Gileade, filho de Ma-quir, filho de Manassés (27:1a). E suas filhas também são descritas como pertencentes às famílias de Manassés, filho de José (27:16). Não se faz menção do nome de sua mãe, que, possivelmente, era alvo de opróbrio por não ter gerado herdeiros do sexo masculino. Ainda assim, tinha motivos para se orgulhar de suas filhas, pois eram mulheres fortes e corajosas que reconheceram a injustiça e se opuseram a ela de uma forma que levou seus nomes a serem registrados nas Escrituras junto com os homens. O autor cita o nome de todas as filhas: Macia, Noa, Hogla, Milca e Tirza (27:1c; cf. tb. 36:11; Js 17:3). No entanto, o fato de seus nomes também aparecerem nos dados do censo (26:33) indica que foram mencionados visando os interesses de uma sociedade patriarcal. Outros homens poderiam ter o mesmo problema de Zelofeade e morrer sem deixar herdeiros do sexo masculino. Era preciso saber a destinação de sua herança.
As cinco filhas vieram à tenda da congregação e apresentaram-se diante de Moisés e dos anciãos da comunidade (27:ld-2). O termo hebraico traduzido por “vieram” também significa “aproximaram-se”, sugerindo que as mulheres agiram com determinação. Também mostra a coragem das cinco irmãs de apresentar sua causa diante das autoridades numa cultura em que as mulheres deviam se sujeitar aos costumes. Quantas mulheres africanas estão preparadas para ir além das expressões de insatisfação e tomar a iniciativa de abordar o pastor ou conselho da igreja para expressar a necessidade de uma mudança na situação presente?
Talvez essas mulheres tenham encontrado coragem em sua solidariedade. A fim de mudar um sistema no qual eram vistas com preconceito, deviam saber trabalhar juntas. Vemos exemplos semelhantes daquilo que pode ser realizado pelo trabalho solidário de mulheres em outras passagens do AT: as parteiras das hebreias no Egito (Ex 1:15-21); a mãe e a irmã de Moisés (Êx 2:1-4); Noemi e Rute (livro de Rute); Débora e Jael (Jz 4:14-21); e a filha de Jefté (Jz 11:37-39).
Contudo, as cinco filhas também podem ter sido encorajadas por seu conhecimento acerca de tudo o que havia sucedido aos israelitas. Sabiam que os líderes estavam planejando a divisão da terra, e, até então, nenhuma lei havia sido definida para tratar da situação delas como representantes de uma família sem filhos do sexo masculino. Acima de tudo, estavam cientes do relacionamento do Senhor com Israel e sabiam que esse relacionamento abrangia tanto os homens quanto as mulheres da comunidade; assim, sua família também tinha o direito de participar da dádiva divina de uma nova terra. Sabiam que até mesmo os descendentes de pecadores como Corá receberíam uma parte da terra, pois a linhagem desse rebelde não foi extinta (26:11), e estavam certas de que seu pai não havia sido como Corá (27:3). Não havia morrido em decorrência do castigo por um pecado específico, mas apenas por fazer parte da geração mais velha que não poderia entrar na terra prometida.
As filhas de Zelofeade protestaram a Moisés que seria injusto sua família ser obrigada a abrir mão do direito a terras pelo simples fato da ausência de um filho do sexo masculino (27:3-4). Ao insistir em que somente filhos dó sexo masculino poderíam herdar a terra, a lei estaria ignorando a necessidade de mulheres e crianças e fragilizando esses membros da comunidade. Se não tivessem nenhum meio de se sustentar, as viúvas e filhas solteiras acabariam na miséria e, talvez, até na escravidão e prostituição. Não é raro vermos isso acontecer na África, onde as viúvas são expulsas da terra do marido quando os irmãos deste tomam posse da propriedade.
Moisés ouviu as irmãs e apresentou sua causa ao Senhor (27:5). Deus lhe disse que as mulheres estavam com a razão (27:6-7a). Essa decisão e a legislação acerca do Jubileu (Lv 25:8-54) mostram que Deus prioriza a distribuição uniforme dos recursos econômicos, levando as regras tradicionais a serem modificadas para garantir o bem-estar de indivíduos e famílias do seu povo. Assim, ele determinou que Moisés devia dar às filhas de Zelofeade possessão de herança entre os irmãos de seu pai e farás passar a elas a herança de seu pai (27:7b). A maneira pela qual essa decisão é expressada deixa claro que Deus não está apenas fazendo um favor a essas mulheres, mas instituindo uma lei a ser aplicada para garantir a justiça para as mulheres nos casos que envolvessem a posse de terras e herança. Também são definidas prescrições para os casos em que a linha de sucessão para a herança não é clara (27:8-lla). No entanto, as prescrições registradas aqui não são a última palavra a esse respeito, pois outras leis que afetariam as filhas de Zelofeade são apresentadas no capítulo 36.
0 caso apresentado pelas filhas de Zelofeade como uma questão familiar se tomou uma estipulação divina visando benefício de todos e para todas as gerações (27:116), restituindo o status legal das mulheres com respeito à herança e promovendo o bem de toda a comunidade.
A igreja na África precisa usar esse episódio para aprender sobre seu papel como defensora das leis que se harmonizam com os ensinamentos cristãos. Também deve chamar a atenção para as leis que contradizem a mensagem do evangelho, como é o caso da herança das viúvas (cf. artigo sobre esse assunto) e as leis que só permitem a homens herdar terras. Existem argumentos bíblicos e sociais para corroborar uma revisão das leis tradicionais a fim de adequá-las a uma sociedade em transformação. Nosso contexto está mudando a cada dia, e não é sábio simplesmente aplicar regras antigas a uma nova comunidade. A igreja deve buscar a orientação de Deus para tratar de questões que afetam a sociedade e procurar fornecer diretrizes apropriadas para mudanças que promoverão a justiça dentro da comunidade.
27:12-23 Josué é nomeado sucessor de Moisés
O Senhor advertiu Moisés de que o tempo de sua morte estava se aproximando. Deus permitiria que o líder de Israel visse a terra prometida de longe, mas ele não poderia entrar em Canaã (27:12-14). Em vez de discutir com Deus, Moisés expressou sua preocupação acerca de um sucessor (27:15-17). Como todo bom líder cristão, não desejava deixar o povo como ovelhas que não têm pastor (27:17).

Assim, Deus o instruiu a nomear Josué como sucessor (27:18-21). Josué havia sido treinado para essa tarefa, pois era, de longa data, o assistente de Moisés (11:28), e ele e Calebe eram os únicos membros da geração mais velha que entrariam na terra prometida (14:36-38). Em vez de se apegar ao poder, Moisés tomou as providências para transferir a autoridade a Josué publicamente (27:22-23). Nenhum líder é insubstituível.

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