2016/10/08

Números 28 — Análise Bíblica

Números 28 — Análise Bíblica

Números 28 — Análise Bíblica


Números 28

28:1—29:40 Ofertas e festas
Depois do censo da nova geração (26:1-51), das instruções para a divisão da terra (26:52—27:11) e da escolha do sucessor de Moisés (27:12-23), seria de esperar que o autor mostrasse o povo avançando em direção à terra ou, pelo menos, tratando de estratégias para a conquista. Mas não é isso que vemos na sequência. 0 autor prossegue tratando de questões relacionadas à adoração; mais especificamente, a leis relacionadas às ofertas. Não há dúvida de que ele considerava essencial lembrar os membros da nova geração dessas leis, caso seu entusiasmo diante da perspectiva de finalmente entrar na terra os distraísse do elemento mais fundamental de seu relacionamento com Deus: a adoração. Israel era uma comunidade de adoradores cujo cerne era a prática vitalícia da comunhão, na qual se lembravam de que Deus havia tirado seu povo da escravidão, estabelecido uma aliança com ele e lhe concedido a dádiva da terra. Assim, as leis acerca das ofertas são repetidas, pois, mesmo depois de ocupar a terra, os israelitas deviam continuar a ser uma comunidade de adoradores.
28:1-15 Ofertas regulares
Em primeiro lugar, o autor trata das ofertas diárias a serem apresentadas pela manhã e no final da tarde (28:1-8). Duas vezes por dia, os sacerdotes deviam oferecer um holocausto (um cordeiro), uma oferta de manjares e uma libação. O procedimento e os elementos eram os mesmos para o culto da manhã e da tarde.
Calendário das festas no Pentateuco
Levítico
Números
Deuteronômio
Lv 23
Nm 28:9—29:40
Dt 16:1-17    
(seis festas)
(sete festas)
(três festas)
Sábado (Lv 23:1-3)
Sábado (28:9-10)


Lua Nova (28:11-15)

Pães Asmos /
Pães Asmos
Páscoa
Páscoa (23:4-8)
(28:16-25)
(16:1-8)
Festa das Semanas
Fesia das Semanas
Festa das Semanas
(23:5-22)
(28:26-31)
(16:9-12)
Tabemáculos
Tabemáculos
Tabemáculos
(23:33-43)
(29:12-40)
(16:13-17)
Trombetas
Trombetas

(23:23-25)
(29:1-6)

Dia da Expiação
Dia da Expiação

(23:26-32)
(29:7-11)

O segundo tipo de oferta descrito é o sacrifício de dois cordeiros de 1 ano de idade, a ser realizado a cada sábado, além das ofertas diárias (28:9-10). Esses cordeiros deviam ser sem defeito, isto é, sem mancha ou deformidade. Deus deve receber o melhor de tudo que ele dá a seu povo. Séculos depois, Jesus, aquele que não pecou e, portanto, não possuía nenhum defeito moral, se tomaria o “Cordeiro de Deus, que tira o pecado do mundo” por meio de sua morte na cruz (Jo 1:29).
A oferta apresentada no sábado também era acompanhada de uma libação e uma oferta de manjares com o dobro de farinha das ofertas diárias.
O terceiro tipo de oferta descrito era apresentado uma vez por mês, na lua nova. Essa oferta não aparece em Levítico 23, mas é mencionada em outras passagens do AT (cf. Am 8:5; 2Rs 4:23; Is 66:23; Ez 46:1-8). Como os sábados, as luas novas eram ocasiões solenes no calendário judaico. Provavelmente, eram observadas para celebrar a criação do tempo por Deus e sua providência ao estabelecer as estações para regular a vida humana. Os festivais também serviam como uma espécie de calendário, ajudando o povo a marcar o tempo e, desse modo, as atividades associadas à colheita, as festas e outras ocasiões.
A oferta apresentada na lua nova era bem maior do que as ofertas diárias e semanais (28:11-14). Também era diferente, pois incluía o sacrifício de um bode como oferta pelo pecado (28:15). Uma oferta de lua nova ligeiramente modificada é prescrita em Ezequiel 46:6.

28:1629:40 Festas especiais
A diferença entre as ofertas de lua nova em Números e Ezequiel e o fato do Pentateuco apresentar três calendários de festas (cf. Lv 23; Nm 28:9—29:40; Dt 16:1-7) pode gerar dúvidas quanto ao modo de explicar esses calendários. Para entender essas discrepâncias, é preciso lembrar que o culto em Israel assumiu formas ligeiramente modificadas em diferentes períodos históricos. Quando o culto era centralizado no templo em Jerusalém, por exemplo, esperava-se que todos os homens se dirigissem a esse santuário três vezes por ano, para a Festa dos Pães Asmos, a Festa das Semanas e a Festa dos Tabernáculos (Dt 16:16). A menção de apenas três festas específicas neste caso não significa que eram as únicas ocasiões de adoração ao Senhor. É possível que outras ofertas e festas fossem observadas nos lares ou em outros locais de culto, como foi o caso quando os israelitas se encontravam no deserto, quando estavam espalhados pelos territórios entregues a cada tribo depois da conquista e também durante o exílio. Nesses períodos em que não havia templo, o povo comemorava as festas do calendário religioso em suas próprias comunidades.
Assim, a forma exata do culto dependia das circunstâncias históricas de Israel como nação. Devemos lembrar que o modo de adorarmos e respondermos à operação de Deus em nossa vida também pode variar a fim de atender às necessidades de nosso contexto específico. O cristianismo se espalhou rapidamente na África, mas o continente ainda se encontra repleto de dificuldades sociais, econômicas e políticas. Diante dessa realidade, devemos reconhecer o potencial restaurador e transformador da adoração. Uma comunidade de adoradores precisa encontrar formas apropriadas de culto para atender às suas necessidades, mantendo-se atenta, também, às necessidades ao seu redor e demonstrando a disposição de interagir profeticamente com as diversas estruturas sociopolíticas que perpetuam as crises. Como povo que se reúne para adorar, vivemos a realidade de Deus, revelado em Jesus Cristo. Em outras palavras, a graça de Deus em nosso culto promoverá cura, tratará do sofrimento e trará reconciliação.
O culto em Israel celebrava os atos salvadores de Deus êm diferentes períodos históricos por meio de grandes festas religiosas que lembravam esses atos. A seguir, uma lista das festas prescritas pelos três calendários do Pentateuco: seis festas são prescritas em Levítico, sete em Números e três em Deuteronômio.
A orientação de Deus acerca desses sacrifícios e festas é bastante detalhada, pois ele desejava que suas prescrições fossem seguidas à risca como forma de exaltar sua honra e glória. Cada festa lembrava os israelitas de coisas específicas que Deus havia feito por eles.
Como cristãos, também devemos honrar a Deus e lhe dar graças por suas muitas bênçãos em nossa vida. Não temos mais instruções detalhadas quanto à forma de culto, mas ainda é dever da igreja de Cristo ensinar aos fiéis a importância de ser uma comunidade grata, de modo que suas ações de graças sejam sinceras. Não podemos esquecer de dar o devido valor à salvação concedida por Deus.
28:16-25 A Páscoa. A Páscoa devia ser observada no décimo quarto dia do mês de abibe (o primeiro mês, correspondente a março-abril em nosso calendário) (28:16). Essa comemoração era combinada com a Festa dos Pães Asmos, que começava um dia depois da Páscoa (28:17). Nessa festa, os israelitas deviam comer pão sem fermento durante sete dias para lembrar que haviam deixado o Egito com tanta pressa que não haviam tido tempo de assar pães fermentados (cf. Êx 12:39—13:16).
No primeiro e último dias da festa, o povo devia cessar todo trabalho habitual e atender à santa convocação (28:18,25). Em todos os dias da festa, devia-se acrescentar à oferta regular diária uma oferta especial de ação de graças pela salvação do povo da escravidão; essa oferta devia consistir em dois novilhos, um carneiro e sete cordeiros de um ano [...] sem defeito e também uma oferta de manjares (28:19-21,23). Além disso, devia-se apresentar um bode, para oferta pelo pecado, para fazer expiação por vós (28:22). Esses sacrifícios na forma de holocausto que produziam aroma agradável ao Senhor eram acompanhados de uma li-bação (28:24).
Para a nação de Israel, a Páscoa representava o auge da salvação concedida por Deus. Nesse acontecimento crítico, o poder de Deus rompeu os grilhões da escravidão e libertou seu povo. Por isso, os credos de Israel repetem esse fato com frequência (cf., p. ex., Dt 26:5-10; Js 24:5-13; Ne 9:9-12), e os salmos históricos fazem várias referências a ele. O salmo 136 evidencia sua importância ao chamar o povo para louvar a Deus primeiro como Criador (Sl 136:4-9) e, depois, como Libertador do seu povo (Sl 136:10-22; cf. tb. Sl 77:15-20; 78:10-55; 105:23-45; 136:10-26).
A comemoração cristã da Páscoa normalmente ocorre na mesma época da Páscoa dos judeus e, em certos sentidos, é equivalente a ela. A Páscoa dos judeus lembra o povo de Israel de que Deus interveio na história humana para libertar seu povo, enquanto a Páscoa dos cristãos lembra que Deus irrompeu na história humana de maneira diferente e perfeita para trazer a salvação a toda a humanidade. Jesus se tornou o Cordeiro pascal perfeito, sacrificado por nós. Os judeus foram libertos da escravidão no Egito; os cristãos são libertos da escravidão do pecado. O sacrifício de Cristo cumpriu e consumou os sacrifícios antigos e inadequados repetidos anualmente (cf. Hb 9:23-28). O plano da salvação oferecida por Deus que começou com o chamado de Abraão se realizou na vida e obra de Jesus Cristo, o Filho de Deus.
28:26-31 A Festa das Semanas. A Festa das Semanas era um festival associado à colheita, semelhante àqueles observados em outras culturas da Antiguidade que também ofereciam as primícias da colheita e os primogênitos dos rebanhos como sacrifício de ação de graças a uma divindade. Essa festa é descrita nos três calendários religiosos, mas aparece em cada um deles de forma ligeiramente modificada. Levítico 23:16 afirma que deve ser celebrada cinquenta dias depois da Festa dos Pães Asmos (e, portanto, no mês correspondente a maio-junho em nosso calendário). Levítico também deixa claro que a comemoração deve envolver toda a comunidade. Até os pobres e estrangeiros, que normalmente não realizavam a colheita, poderiam participar, pois os proprietários de terras não deviam ceifar as plantações até os cantos do campo, mas deixar essa parte para os necessitados (Lv 23:22). De acordo com a especificação de Deuteronômio 16:16, essa é uma das festas a ser celebrada no templo, e toda a família, incluindo os servos de ambos os sexos, deve participar. A passagem de Deuteronômio também enfatiza que essa festa deve incluir aqueles que não possuem terras e, portanto, normalmente não teriam o que colher, a saber, os levitas, os estrangeiros, as viúvas e os órfãos (Dt 16:11). Todos devem se reunir para celebrar a colheita e dar graças ao Senhor numa comemoração que transcende barreiras de raça, etnicidade, sexo e classe social.
Em Números, diz-se que o povo não deve trabalhar no dia desse festival, chamado aqui de dia das primícias, no qual os israelitas apresentam oferta nova de manjares ao Senhor (28:26). Todos devem se reunir em santa convocação e, além das ofertas diárias, apresentar um holocausto acompanhado de uma oferta de manjares e uma libação (28:27-31). Para essa ocasião, também é prescrita a oferta de um bode para fazer expiação pelo povo (28:30).
Pelo fato de ser comemorada cinquenta dias depois da Páscoa, a Festa das Semanas foi chamada, posteriormente, de Pentecostes (do termo grego correspondente à palavra “cinquenta”). Essa festa ainda é observada na igreja cristã, mas, em vez de celebrarmos a dádiva divina da colheita, celebramos a dádiva do Espírito Santo. Assim como a festa da colheita dada por Deus devia envolver toda a comunidade, também o Espírito Santo foi derramado sobre todos que estavam presentes na comemoração em Atos 2:1-11, não obstante sua raça ou sexo. Pentecostes marca o aniversário da igreja cristã e celebra a colheita do fruto do Espírito.

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