2016/11/28

Romanos 7 — Comentário Evangélico

Romanos 7 — Comentário Evangélico

Romanos 7 — Comentário Evangélico





Romanos 7  

Esse capítulo, embora seja importan­te, é muito mal interpretado. Mui­tos estudiosos não entendem por que Paulo, no capítulo 6, lida com a vitória e, no 7, discute a derrota. Eles acham que ele deveria falar da grande bênção do capítulo 8 logo após a vitória do capítulo 6; contu­do, o autor, inspirado por Deus, sa­bia mais. Esse capítulo trata de uma questão crucial na vida cristã: o re­lacionamento do crente com a Lei de Deus. O capítulo 6 explica que os crentes estão mortos para o peca­do porque se identificam com Cristo em sua morte e em sua ressurreição. Ele responde à pergunta: “Permane­ceremos no pecado?” (6:1). No en­tanto, em 6:15, Paulo faz outra per­gunta: “Elavemos de pecar porque não estamos debaixo da lei?”. O capítulo 7 responde a essa pergunta e explica que estamos mortos para a Lei da mesma forma que também morremos para o pecado (7:4).
Em 6:14, o que Paulo quer di­zer com “Não estamos debaixo da lei, e sim da graça”? Estar “debaixo da lei” quer dizer que temos de fa­zer algo para Deus, e “debaixo da graça”, que o Senhor faz algo para nós. Muitos cristãos não percebem que é impossível ter santidade pelo próprio esforço e se sobrecarregam com regras e regulamentações reli­giosas e com boas decisões. É muito triste ver cristãos viverem “debaixo da lei” e lutarem, por meio do es­forço pessoal, para tentar agradar a Deus quando a nova posição que têm em Cristo e o novo poder no Es­pírito (8:3-4) possibilitam-lhes vitó­ria e usufruto de bênção pela graça. No capítulo 7, Paulo explica isso ao fornecer uma série de “duetos”.
I.    Dois maridos (7:1-6)
O relacionamento matrimonial ilus­tra nossa relação com a Lei. (Te­nha em mente que Paulo refere-se a qualquer tipo de legislação que o crente usa para controlar o pecado ou conseguir santidade quando fala de “lei”, não apenas à mosaica.) Os dois maridos são a Lei e o Senhor Jesus Cristo.
A mulher, quando se casa, está presa ao marido até que este mor­ra. Depois disso, ela está livre para casar-se de novo. Antes de conhecer a Cristo, estamos presos à Lei e con­denados por ela. No entanto, nós morremos em Cristo quando somos salvos; não é a Lei que “morre”. “Casamos” com Jesus Cristo, não somos mais “casados” com um sis­tema de regulamentos; a Lei não nos controla mais. Leia diversas vezes o versículo 4 e absorva sua magnífica mensagem. Temos um novo relacio­namento maravilhoso por intermé­dio de Cristo, e nele nosso antigo “marido” não nos controla mais. A Lei realçava o pecado de nossa velha natureza, e isso, quando es­távamos perdidos, frutificava para a morte (v. 5). Agora estamos libertos da Lei e servimos a Cristo “em novi­dade de espírito e não na caducida­de da letra” (v. 6).
O versículo 6 não sugere que o cristão não tem obrigação de obede­cer a Deus. Na verdade, agora nos­sa obrigação de obediência é maior, pois conhecemos a Cristo e perten­cemos à família do Senhor. Agora, as exigências são mais severas que as da Lei mosaica. Por exemplo, o Ser­mão do Monte vai além das atitudes exteriores e lida com as interiores. A Lei mosaica condena os assassinos; Jesus equipara o ódio ao assassi­nato. Todavia, Romanos 7:6 ensina que temos uma motivação diferente para a obediência: não obedecemos de forma mecânica a um conjunto de regras; em vez disso, com amor no coração, obedecemos ao Espírito de Deus que cumpre a justiça da Lei em nós (8:4). Um pianista iniciante toca algumas “notas com perfeição”, mas não capta o espírito da canção da forma que um músico talentoso o faz. Obedecemos a Deus, como a noiva amorosa agrada a seu noivo, e não como o servo que teme a seu senhor.
II.    Duas descobertas (7:7-14)
Resta saber por que Deus deu a Lei, se ela não podia produzir san­tidade? O que ele tinha em mente?
Bem, Paulo fez duas descobertas que respondem a essa pergunta: (1) A Lei, em si mesma, é espiritual, mas (2) o crente é carnal, vendido para o pecado. Esse orgulhoso fari­seu deve ter se sentido humilhado em descobrir que sua natureza era material e incapaz de obedecer à lei de Deus! A Lei revela o pecado (v.
7)    , pois as coisas que ela condena aparecem em nossa vida quando a lemos. A Lei desperta o pecado (v
8)    , e este se agita em nossa nature­za. A Lei engana e mata o pecador (vv. 9-11) ao fazê-lo perceber que é muito fraco para satisfazer o padrão de Deus. A Lei revela a malignidade do pecado (v. 13), principalmente em nossas atitudes malignas, e não apenas em nossas ações exteriores. O crente não consegue se tornar santo pela Lei, porque nossa nature­za é tão pecaminosa que não pode ser controlada nem transformada pela Lei; não porque a Lei de Deus não seja santa ou boa. Que dia ma­ravilhoso na vida do cristão quando ele descobre que “a velha natureza não conhece nenhuma lei, e que a nova não precisa da lei”.
III.     Dois princípios (7:15-25)
Paulo concluiu que há dois princí­pios (ou “leis”) que operam na vida do crente após sua experiência frus­trante com a Lei: (1) a lei do pecado e da morte e (2) a lei do Espírito da vida, em Cristo (veja 8:2). Portanto, ele lida com a presença das duas naturezas nos filhos de Deus. A sal­vação não quer dizer que o Senhor muda ou purifica a velha natureza. Hoje, a velha natureza do crente é tão perversa e opõe-se ao Espírito como no dia em que ele foi salvo! A salvação significa que o Senhor dá uma nova natureza ao crente e cru­cifica a velha. Agora, o cristão anseia pela santidade, embora ainda tenha capacidade para pecar. A dinâmica para o pecado ainda está lá, mas não o desejo por ele.
A lei do pecado e da morte é apenas a velha natureza em operação; dessa forma, o mal está pre­sente quando o crente quer fazer o bem. O mal macula mesmo as “coisas boas” que fazemos! (Veja o v. 21.) Nesse ponto, vemos a dife­rença entre a vitória do capítulo 6 e a do 7: no capítulo 6, o crente vence as coisas ruins da carne, isto é, deixa de fazer o mal de forma deliberada; mas, no 7, ele triunfa sobre as “coisas boas” que a carne faria em obediência à Lei. Deus não aceita a carne, pois não há nada de bom nela. “A carne para nada apro­veita” (Jo 6:63). Apesar de o Senhor afirmar com clareza: “O pendor da carne [velha natureza] [...] não está sujeito à lei de Deus, nem mesmo pode estar” (8:7), muitos cristãos es­tabelecem leis para sua vida e ten­tam disciplinar a carne em obediên­cia a elas.
A lei do Espírito da vida, em Je­sus Cristo, neutraliza a lei do peca­do e da morte. Crescemos em san­tidade e no servir a Deus de forma aceitável ao entregar-nos ao Espírito do Senhor que habita em nós, e não ao submeter-nos a leis exteriores. O capítulo 8, principalmente nos pri­meiros dezessete versículos, elabo­ra essa lei (ou princípio). Não po­demos cumprir a justiça da Lei por conta própria, mas o Espírito, por intermédio de seu poder, faz isso em nós (8:3-4).
Qual a aplicação prática de tudo isso? Não se espera que em nossa nova posição diante de Deus, de mortos para a Lei, obedeçamos a ele por esforço próprio. O Se­nhor não nos escraviza sob a “Lei cristã”, à qual devemos obedecer a fim de ser santos. Ao contrário, ele nos dá seu Espírito Santo que nos capacita a satisfazer as exi­gências de santidade de Deus. O cristão pode conseguir a vitória do capítulo 6 e não ser mais escravo da carne, porém a vida cristã exi­ge mais coisas. Não devemos fru­tificar para Deus? Sem dúvida que sim! Todavia, descobrimos como somos falhos no minuto em que começamos a fazer obras por con­ta própria, e, infelizmente, muitos cristãos bem-intencionados param nesse ponto e se transformam em desventuras espirituais. Deveria­mos, antes, aceitar as verdades de Romanos 7: de que, na verdade, somos falhos; de que a Lei é boa, mas nós somos carnais, e, assim, permitir que o Espírito opere a vontade de Deus em nossa vida. Que o Senhor permita que reco­nheçamos a morte para o pecado (cap. 6) e para a Lei (cap. 7) a fim de que, pelo Espírito, possamos desfrutar a abençoada liberdade de ser filhos de Deus e o glorifiquemos com uma vida santa.

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