Estudo sobre Filipenses 3:21

Estudo sobre Filipenses 3:21


Aguardamos a Jesus “como Redentor”. Com nosso linguajar demasiado habitual e demasiado edificante já não imaginamos como era atual, retirada da esfera histórico-política, a linguagem do NT. Aqui consta o termo soter. Conhecemos sua tradução como “Salvador”. Essa tradução transformou-se em uma palavra pequena demais, meramente sentimental e devota. Um mundo abalado pelo terror das guerras civis, pela dilapidação de todas as formas de vida anteriores, por distúrbios desesperados ansiava pelo soter, pelo “Redentor”. Em meio aos horrores sangrentos que se abateram sobre o mundo romano após o assassinato de César, o poeta Virgílio levantou sua voz profética: a guinada dos tempos está próxima. Encaminham-se para o fim a era do ferro e seus horrores. Porque já está raiando a hora culminante da história mundial. Já vem chegando o divino rei salvador, que a humanidade esperou desde o tempo dos faraós. Ele finalmente cumprirá as promessas que não silenciavam no meio do povo romano desde os dias da vidente romana Sibila. Ele expurgará as injúrias do passado e libertará os países do medo incessante. Ele fundará um reino mundial de paz e inaugurará a era áurea, para a bênção de uma humanidade renovada. “Já amadurece o tempo; desce da suprema trajetória de glória, grande filho de Zeus”, exclama o poeta profético em vista do rei-deus vindouro. “Veja aí como o orbe terrestre, cambaleando sob seu próprio peso, como países, vastidões oceânicas e profundezas celestes, veja, como todos eles exultam diante da nova era mundial” (E. Stauffer, Christus und die Caesaren).

Quando Otaviano se tornou vitorioso e pôs fim à guerra civil, quando a paz e segurança tornaram a vigorar e reformas externas e internas se consolidaram no império, de fato um mundo inteiro respirou aliviado, vendo estas “profecias” poéticas cumpridas nesse primeiro “César” romano. Em Antioquia, p. ex., foi cunhada uma moeda: “Em uma única moeda ela reúne a figura do deus celestial que concede a vitória e a de Zeus, que se tornou humano: o vitorioso Augusto, festejado pelos respectivos dizeres como o “digno de adoração”, o “filho de deus”, sebastos theou hyios [augusto filho de deus] (E. Stauffer, op. cit.). Imperadores posteriores, porém, detinham oficialmente o título Sotér, “Salvador”. Precisamos lembrar vivamente desse anseio e desse pensamento da época se quisermos compreender o que ressoava involuntariamente nos ouvidos dos destinatários da presente carta quando Paulo escreveu “Como Sotér aguardamos ardentemente ao Senhor Jesus Cristo.” Imediatamente tiveram a compreensão correta: aguardamos aquele que já conhecemos como nosso Redentor pessoal, Jesus, para ser também aquele que verdadeiramente colocará o mundo em ordem, o soberano de uma era mundial realmente nova! Para a jovem igreja daquela época desde o princípio Jesus não era apenas um personagem edificante para a “alma” individual na intimidade abscôndita. Seu olhar é realista. Considera a profunda perversão da vida e do mundo em geral. Já se passara o breve período áureo de Augusto, já chegara a profunda decepção com Tibério; sim, personagens imperiais como Calígula e Nero escarnecem sangrentamente do grande título Sotér. Mais uma vez ficou evidente que pessoas – mesmo aquelas tão grandes e bem-intencionadas como César Augusto – não conseguem renovar a humanidade nem trazer a transformação do mundo. Com tanto maior certeza e alegria os cristãos declaram: “Aguardamos o Senhor Jesus como Redentor do mundo.” Ele é o verdadeiro Sotér, pois possui o “poder eficaz” que nenhum ser humano possui nem pode possuir, o “poder eficaz que o capacita a submeter a si também o universo”. Em grego, “poder eficaz” significa enérgeia. O derivado dessa palavra é conhecido de todos nós. Um homem como César Augusto certamente possuía uma grande “energia”. Contudo, ainda assim era pequena demais para realmente ajudar o mundo. Para tanto é necessária a “energia” capaz de “anular” Satanás, pecado, “poderes e potestades” e a morte, além de “transformar” profundamente a configuração do mundo. No entanto, nenhum ser humano e nenhum movimento histórico humano possuem esse poder. Unicamente Javé-Jesus o possui. Sua vitória foi conquistada já no Calvário, uma vitória que significa uma transformação mundial muito diferente da vitória de César Augusto em Áctio. Essa vitória de Jesus não apenas levará à salvação de algumas almas do mundo, mas ela subjugará e renovará todo o universo!

Será que a igreja da atualidade finalmente romperá a estreiteza, o medíocre individualismo sem amor e o perigoso espiritualismo, dos quais se tornou refém por meio da repetida helenização do cristianismo, retornando ao teor pleno, à amplitude e magnitude da mensagem bíblica? Porventura ela tomará posição diante das mudanças de nosso tempo conturbado, não como um grupo de pessoas que se refugia do mundo dentro do cálido recinto de uma interioridade oculta e edificante, mas como a igreja do Kyrios Jesus, que declara em todas as mudanças históricas: somos muito mais radicais, muito mais revolucionários que vocês, o Redentor e Consumador da humanidade que aguardamos é Jesus, cujo poder eficaz o capacita para submeter a si também o universo e renovar o mundo pela base, de uma maneira que ninguém de vocês saberia fazer!?

Paulo ressalta mais um aspecto que rompe toda a falsa “intimidade” também no campo da esperança pessoal pelo futuro. O que Jesus fará contigo e comigo? Paulo não responde: ele nos acolherá para sempre nos céus. Ele responde: “o qual transformará o nosso corpo de humilhação, para ser igual ao corpo da sua glória.” O corpo realmente está em jogo! O corpo não é, como pensava o idealista grego (e como defende até hoje o cristão mediano!), o “cárcere da alma”, nulo e maligno. O corpo é criação de Deus. O ser humano foi projetado desde sempre como a unidade viva de espírito, alma e corpo. Com toda a certeza Paulo também não ignorava o que levou os gregos a cunhar a expressão “cárcere” da alma. Agora, caído no pecado, nosso corpo é um “corpo de humildade”, talvez até mesmo “corpo da humilhação”. Como é humilhante para o ser humano, quanto mais consciente e ardentemente ele vive, depender constantemente das necessidades do corpo! Essas necessidades na verdade são também as que constantemente nos levam a “buscar as coisas terrenas”. Com que rapidez o corpo se cansa quando deve estar a serviço de Deus pela oração, vigilância e atuação! Quantas vezes ele constitui o pesado empecilho quando o espírito pretende se elevar para amar devidamente a Deus e aos irmãos! Ele nos acorrenta ao espaço e ao tempo. E quanta aflição ele traz em vista de sua fragilidade e destrutibilidade! De fato um “corpo de humildade”, que não combina com a nova vida que o Espírito de Deus criou dentro de nossos corações. Por isso a existência atual do cristão é um dilema: “Se, porém, Cristo está em vós, o corpo, na verdade, está morto por causa do pecado, mas o espírito é vida, por causa da justiça” (Rm 8.10). Por isso nós redimidos também aguardamos “a redenção de nosso corpo” (Rm 8.23). O Senhor que retorna há de realizar a transformação desse corpo. A “redenção” é entendida de forma tão real que ela nos abarca integralmente, que vale justamente também para nosso corpo.[61] Nosso “estar em Cristo”, nossa união com Jesus é tão séria que também nosso corpo, o órgão imprescindível para a verdadeira vida, precisa ter a mesma configuração do corpo de Cristo. Na ressurreição da sepultura, porém, é o corpo humano de Jesus que se tornou um “corpo de glória”. “Glória” = doxa é uma das palavras fundamentais da Bíblia. Em algumas situações pode ter apenas o significado de “honra”. Contudo até mesmo nesse caso ainda transparece o sentido essencial: doxa é o halo de luz e “glória”, próprio de Deus e do eterno mundo divino. Por isso a manifestação física de Jesus, vista pessoalmente por Paulo às portas de Damasco quando já estava em vias de perder a visão, era luz radiante, força perene, milagrosamente independente de espaço e tempo. Também nós receberemos tal “corpo de sua glória” em lugar do “corpo desta humildade” – que vida plena, que serviço incansável para Deus, que inefável alegria haverá então! É ali, e não no estágio intermediário de aconchego não físico junto de Cristo (Fp 1.23), que reside o alvo da esperança de Paulo, o alvo da esperança do cristão. É a partir daí que ele aquilata a vida. É a partir daí que toda busca por coisas terrenas se torna traição de nosso glorioso destino, toda a “glória” almejada na terra de fato se torna “vergonha”, é a partir daí que a vida cristã passa a ser “correr rumo ao alvo para o prêmio da vitória da vocação celestial de Deus em Cristo Jesus”.

Debaixo dessa premissa Paulo sintetiza mais uma vez sua exortação: “Portanto, meus irmãos, amados e mui saudosos, minha alegria e coroa, deste modo permanecei firmes no Senhor, amados!” Nada indica que – como Lohmeyer presume como fundamental para sua interpretação da carta – tenha havido uma considerável dissidência diante da pressão da perseguição em Filipos, e da mesma forma nada indica que uma doutrina falsa já tinha penetrado na igreja. Paulo não precisa falar “com lágrimas” a respeito dos filipenses. Eles são sua “alegria”. Assim como ele mesmo corre rumo ao prêmio da vitória em sua vida cristã, assim também seu serviço apostólico é uma “corrida” que não deve ser “em vão” (Fp 2.16), mas render-lhe a coroa da vitória no dia do Cristo. Essa “coroa”, no entanto, é a própria igreja, que “coroa” sua obra e seu sofrimento. Esse dia glorioso ainda não chegou, a igreja ainda corre riscos. Os “cães” já latem em torno dela, os “muitos” são capazes de detê-la na bela corrida, como fizeram com os gálatas no passado (Gl 5.7). Os “antagonistas” acossam a igreja com gravidade ameaçadora. Por isso Paulo retoma o “estai firmes!” de Fp 1.27, conclamando aos filipenses: “Desse modo permanecei firmes no Senhor!” Contudo procede assim com amor afetuoso e caloroso, chamando os destinatários duas vezes de “amados” nesta breve frase, expressando mais uma vez o desejo pelo reencontro pessoal (Fp 1.8). Olhando para Paulo, não precisamos deixar que a nossa época, que despreza os sentimentos, nos impeça de mostrar a calorosa cordialidade de nosso amor!


Notas
61. A esse respeito, cf. o que K. Heim afirma acerca da natureza do poder e da vontade que pressionam para a “corporeidade” e atingem o alvo somente na corporificação plena. “Toda luta séria por poder neste mundo é, portanto, uma luta entre corpos, nos quais uma vontade visa tomar forma e se impor diante de outros poderes que também tentam tomar forma… Se Deus deve ter a última palavra nos eventos mundiais, sua vontade precisa tomar corpo. Precisa se plasmar como um personagem perfeito do qual foram removidas todas as barreiras que ainda impedem o pleno desenvolvimento desta manifestação física no mundo atual em decorrência da alienação de Deus e da trágica lei da repressão mútua” (K. Heim, Jesus der Weltvollender, 3ª ed., p. 178 e 180).