2019/08/29

Apocalipse 9 — Comentário Literário da Bíblia

Apocalipse 9 — Comentário Literário da Bíblia

Apocalipse 9 — Comentário Literário da Bíblia





Apocalipse 9

9:1 — O “abismo” na LXX está sempre relacionado com as águas, sejam águas caóticas — o “oceano primevo” do relato da criação (Gn 1.2; SI 103.6 [104.6 TP]) — , as águas do mar (Is 63.13) ou as “águas subterrâneas” (Ez 31.15). Mas, pelo fato de poderem ser simbolicamente associadas com as forças do mal, na época do NT falava-se do abismo de maneira mais ampla, como lugar de punição e/ou confinamento dos espíritos malignos (em adição ao Apocalipse, v. Lc 8.31; lE n 10.4-14; 18.11-16; 19.1; 21.7; 54.1-6; 88.1-3; 90.23-26; Jh 5.6-14; 2Pe 2.4; cf. 4Ed 7.36; Or Mn 3). Sem dúvida, é o que está em vista aqui.

9.2 — Densa fumaça surge do abismo quando o anjo o abre. A fumaça escurece tanto o Sol quanto o ar. A passagem de Êxodo 10.15 está incluída em parte, pois ali se menciona um enxame de gafanhotos tão grande “a ponto de escurecer a terra”. Observe também o tema da escuridão no relato da praga de gafanhotos, em Joel 2.2,10.

9.4 — Os gafanhotos de Êxodo 10.15 destruíram “a terra. E comeram todas as plantas da terra e todo fruto das árvores [...]; não restou nada verde, nem árvore nem planta do campo” (assim Sl 105.33-35). Em contraste com os gafanhotos de Êxodo, esses receberam ordem “para que não causassem dano à vegetação da terra, nem à plantação ou a árvore alguma”. Eles deveriam causar danos apenas aos incrédulos “que não tivessem o selo de Deus na testa”. Assim como as pragas não prejudicaram os israelitas, mas apenas os egípcios (Êx 8.22-24; 9.4-7,26; 10.21-23), assim os cristãos verdadeiros serão protegidos (espiritualmente [cf. Ap 7]) da quinta praga. Deuteronômio 28 prevê que “nos dias futuros” (Dt 4.30) Israel sofrerá as pragas do Egito (28.27,60), inclusive a dos gafanhotos (28.38- 39,42), por causa da idolatria (e.g., 28.14; 29.22-27; 30.17; 31.16-20). Essa futura aflição inclui “praga” (28.61) de “loucura” e “confusão da mente. Apalparás ao meio-dia como o cego apalpa na escuridão” (28.28,29); “enlouquecerás” (28.34); haverá “coração angustiado [...] e alma cheia de ansiedade” (28.65); a vida deles “estará como que suspensa”, e terão "pavor [...] no coração” (28.66,67). Apocalipse 9.6 também explica de maneira psicológica o tormento de 9.5. Aqui, como em toda a Escritura, a dor extrema muitas vezes provoca o desejo de morrer, para fugir do tormento (v., e.g., lR s 19.1- 4; Jó 3; 6.8,9; 7.15,16; Jr 8.3; 20.14-18; Jn 4.3,8; Lc 23.27-30). A cena de 9.7-9 apoia-se em Joel 1 e 2, em que uma praga de gafanhotos devasta a terra de Israel (cf. Jr 51.27). Em Joel 2, o juízo dos gafanhotos é introduzido e encerrado com a frase “tocai a trombeta” (2.1,15) e segue o padrão da praga de gafanhotos de Êxodo 10 (observe as claras alusões em J1 1.2; 2.2 [ = Êx 10.6,14]; 1.3 [= Êx 10.2]; 2.9 [ = Êx 10.6]; 2.27 [ = Êx 10.2; cf. 8.22]). Portanto, é natural que Joel tenha sido usado para complementar a descrição do episódio dos gafanhotos de Êxodo ao qual já se fez alusão em 9.3-5. A afirmação de que os gafanhotos tinham “dentes como os de leão” baseia-se em Joel 1.6: os gafanhotos eram como “uma nação”, cujos “dentes são dentes de leão”. O judaísmo antigo comparava os dentes dos gafanhotos que atormentaram o Egito aos dentes dos leões (v. Ginzberg 1967, 2:345).

9.9 — Uma alusão parcial pode ser feita aqui a Jó 39.19-25 (LXX + TM), em que o cavalo de guerra sai a cavalgar assim que “soa a trombeta”, vestido “de terror” e de uma “armadura perfeita”, “pulando como o gafanhoto” (v. Kraft 1974, p. 141-2). Mais uma vez, a expressão “o som de suas [dos gafanhotos] asas era como o de muitas carruagens de cavalos correndo para o combate” é uma alusão a Joel 2.4,5: “Ele tem a aparência de cavalos e corre como cavaleiros. Vão saltando sobre o topo dos montes como o estrondo de carros [...] em posição de combate”.

9.10 — A tradição judaica sustentava que no sheol e no Abadom havia “anjos de destruição”, com autoridade sobre milhares de escorpiões. A picada desses escorpiões era letal (Ginzberg 1967, 1:11-6). No entanto, algumas picadas não matam, apenas atormentam os habitantes do inferno (Ginzberg 1967, 2:312).

9.11 — O nome do anjo que controla o reino dos demônios é Abadom (palavra hebraica que significa “destruição”) e Apoliom (palavra grega que significa “destruidor”). No AT, a “destruição” é às vezes sinônimo de “inferno” (sheol) ou de “morte”, o reino dos mortos (Jó 26.6; 28.22; SI 88.11; Pv 15.11; 27.20).

9.14 — Os quatro anjos (presumivelmente maus) retidos “junto do grande rio Eufrates” evocam a profecia do AT de um inimigo do norte para além do Eufrates que Deus traria para julgar o Israel pecaminoso (cf. Is 7.20; 8.7,8; 14.29- 31; Jr 1.14,15; 4.6-13; 6.1,22; 10.22; 13.20; Ez 38.6,15; 39.2; J1 2.1-11,20-25), bem como as outras nações ímpias ao redor de Israel (Is 14.31; Jr 25.9,26; 46 e 47; 50.41,42; Ez 26.7-11 [do ponto de vista de Israel, o Eufrates corria para o norte e para o leste]). Em ambos os casos, os invasores são caracterizados como um exército aterrorizante sobre cavalos/carros surgindo do norte (Is 5.26-29; Jr 4.6-13; 6.1,22; 46 e 47; 50.41,42; Ez 26.7-11; 38.6,15; 39.2; Hc 1.8,9; cf. Asc. Moís. 3.1; em Am 7.1 LXX, um exército numeroso como um enxame de gafanhotos é retratado como “vindo do leste”) . Os ecos de Jeremias 46 são bastante fortes.

9.7 — No AT, a metáfora “fogo e enxofre, às vezes acompanhada de fumaça”, indica um juízo fatal (Gn 19.24,28; Dt 29.23: 2Sm 22.9; Is 34.9,10; Ez 38.22).

9.19 — A aparência das criaturas da sexta trombeta ecoa a imagem do dragão do mar, o símbolo do mal cósmico (Jó 40 e 41). Isso reforça a identificação dessas criaturas com Satanás e sua obra de engano. A implicação do engano, com a morte espiritual e física, é sugerida pelo fato de que os santos não podem ser afetados por esses flagelos. A essência do selamento dos santos não é a imunidade contra a morte física, e sim a proteção contra o engano, para evitar que a aliança com Deus seja rompida.

9.20 — Apesar das pragas, os ímpios não se arrependem da idolatria, “das obras de suas mãos”. Uma lista de ídolos por tipo de material, comum no AT, é afirmada (cf. Dt 4.28; SI 115.4-7; 135.15-17; Dn 5.4,23). O catálogo de pecados é prefaciado por um resumo da essência espiritual dos ídolos: eles são demoníacos (como se vê em Dt 32.17; SI 95.5 LXX [96.5 TP]; 106.36,37;Jb 11.4; lE n 19.1; 99.6-7; ICo 10.20)

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