Estudo sobre Filipenses 2:25-29

Estudo sobre Filipenses 2:25-29


Epafrodito é quem leva a carta aos filipenses. Os filipenses o haviam enviado pessoalmente até Paulo em Roma, a fim de entregar ao apóstolo preso um donativo de amor. Pelo fato de Paulo designá-lo “vosso servo das minhas necessidades” e justificar seu retorno para Filipos de forma tão exaustiva evidencia-se que ele tinha a incumbência de permanecer junto de Paulo em seu serviço pessoal. É interessante que aqui palavras que mais tarde adquirem um conteúdo bem definido ainda sejam usadas de forma bem singela. Pelo fato de Epafrodito ter sido enviado e incumbido pelos filipenses Paulo o chama de “apóstolo”; e, como deve “servir” às necessidades de Paulo, ele é chamado “leitourgos (“liturgo”) de minha necessidade”.

A circunstância de Epafrodito retornar imediatamente a Filipos poderia surpreender a igreja e dar ocasião a acusações abertas ou veladas. Será que também esse encarregado que eles haviam enviado fazia parte daqueles para os quais Roma e a proximidade de Paulo se tornavam perigosas demais e que por essa razão abandonavam o prisioneiro em sua grave dificuldade? Será que Paulo também escreveria sobre Epafrodito como fez sobre Demas: “Epafrodito me abandonou porque ama a sua vida nesta era, e viajou para Filipos”? Não, diz Paulo, eu mesmo “considerei necessário enviá-lo a vocês”. Por quê? A justificativa reúne uma observação humana muito singela das coisas com o firme olhar para Deus, dizendo tudo de maneira tão amável e delicada que somente os filipenses e o próprio Paulo tiram vantagens nesse retorno, e não Epafrodito.

Epafrodito havia adoecido em Roma. Os filipenses souberam disso e ficaram preocupados. Nosso mau costume humano, porém, talvez levasse posteriormente a comentários em Filipos: provavelmente não foi tão grave assim! Por isso Paulo atesta expressamente: “Com efeito, adoeceu mortalmente.” Que sofrimento novo, além de todo o restante, essa grave doença trazia para Paulo! Por isso Paulo considerou a recuperação de Epafrodito como uma misericórdia até mesmo para com ele mesmo. Entretanto fala de modo bem simples da enfermidade e convalescença. Poderíamos acusar Paulo de considerável incoerência. Para si mesmo considerava a morte como “lucro” (Fp 1.21), há poucos instantes solicitara aos filipenses que se “alegrassem” com sua eventual morte pela mão de um algoz (Fp 2.18), mas no caso de Epafrodito a morte teria sido uma imensa dor para ele! Essa “incoerência”, porém, apenas revela que nas questões de fé as coisas não seguem um esquema dogmático, mas são concretas e vivas. Mesmo diante dos filipenses Paulo demonstrou que alegria de fé seria quando ele fosse absolvido e comparecesse novamente junto deles. Se Epafrodito tivesse morrido Paulo provavelmente também teria expressado alegria por essa morte no serviço de Jesus, sem sentir a menor contradição em si mesmo. É essa a “liberdade do ser cristão”, que ele pode convalescer e viver com alegria bem como partir e morrer com alegria. Da mesma maneira parece que Paulo não considerava a doença grave de um irmão como falha na vida de fé. Mesmo no círculo mais próximo do apóstolo, mesmo no caso de um “cooperador e companheiro de lutas”, como Epafrodito é honrosamente chamado, pode surgir a mais penosa enfermidade. Ser restaurado constituiu uma dádiva de Deus. Contudo não há qualquer palavra a respeito de “cura pela fé”, falta qualquer conotação de triunfo, insinuando que Epafrodito tenha sido arrancado da morte com persistentes orações e audácia de fé. Mas Paulo não deseja aproveitar-se pessoalmente durante mais tempo do serviço daquele cuja saúde fora restabelecida. Compreende o anseio de Epafrodito de rever neste momento as pessoas em casa que souberam de sua enfermidade. Epafrodito estava “aflito porque ouvistes que adoeceu”. Para a “aflição” de seu colaborador Paulo utiliza um termo forte que encontramos no NT apenas ainda em Mt 26.37, em relação à “angústia” do Senhor no Getsêmani. Não temos como entender por que Epafrodito se afligia tanto com o fato de que em Filipos todos souberam que ele adoecera. De qualquer maneira os filipenses devem vivenciar muito em breve a alegria de saudá-lo novamente. O próprio Paulo ficará livre de uma preocupação se souber que está novamente são e salvo em Filipos.


Por isso os filipenses devem “acolhê-lo no Senhor com toda a alegria”. Ainda que seu envio para casa tenha acontecido em consideração a singelas circunstâncias humanas, o agir do próprio Deus não deixava de pairar sobre elas. Deus havia permitido que esse homem adoecesse gravemente em Roma e que, na sequência, recuperasse a saúde. Isso significou um claro direcionamento para Paulo. É o que também os filipenses podem perceber, recebendo-o “no Senhor” com alegria. “No Senhor” não era um enfeite belo e edificante, mas tratava-se da inclinação sincera e alegre perante Jesus, que havia atravessado os planos e as instruções dos filipenses e conduzido Epafrodito para casa muito antes do que esperavam. Portanto, não se admite nenhuma censura velada, misturada à recepção daquele que retorna.

Nesta oportunidade Paulo exorta aqui da mesma forma como em outras cartas a igrejas: “Honrai sempre a homens como esse”. Na igreja daquele tempo não havia “cargos” com “direitos e deveres”, que assegurassem ao encarregado a honra e o reconhecimento. Voluntariamente certas pessoas assumiam os serviços necessários. Paulo dá grande valor para a necessidade de a igreja reconhecer e valorizar isto plenamente. Conhece a tendência de nosso coração maligno de considerar nossos próprios esforços extremamente relevantes, mas passar facilmente por cima daquilo que outros realizam. Por isso ele volta a destacar o que Epafrodito fez. Quando pessoas na igreja criticarem sua volta precoce, elas terão de se conscientizar de que, apesar de toda a solicitude por Paulo, todos eles permaneceram em casa em Filipos, e que assim ainda “faltava” o mais importante para que o amor dos filipenses de fato chegasse até Paulo. Epafrodito completou esse elemento faltante ao levar as dádivas dos filipenses até Paulo e se dispôs a prestar-lhe serviço pessoal. Nisso “colocou em risco a vida” e “por causa da obra de Cristo chegou às portas da morte”. Paulo, portanto, ensina os filipenses e também a nós a reconhecer com afetuosa justiça a realização e o empenho de colaboradores, até mesmo quando seu agir não corresponde aos nossos pensamentos e planos.

Uma nota idiomática: Paulo escreveu “Tanto mais me apressei em mandá-lo”. Na Antiguidade, ao contrário de hoje, o autor de cartas se transporta ao momento em que o receptor lê a carta. Por isso usa verbos no passado para fatos que no momento da escrita ainda são presente ou futuro, mas na leitura já serão parte do passado.