2019/09/06

Provérbios 1 — Análise Bíblica

Provérbios 1 —  Análise Bíblica

Provérbios 1 —  Análise Bíblica





Provérbios 1
1:1 Título e autor 

O título é sugerido pela apresentação do livro: Provérbios de Salomão, filho de Davi, o rei de Israel (1:1). É importante definir o significado do termo “provérbio”. Nos dias de hoje, entende-se que um provérbio é um ditado de sabedoria expresso em poucas palavras. Ao ler Provérbios, contudo, observamos que o termo possuía um significado bem mais abrangente para os israelitas da Antiguidade. A palavra hebraica usada no original quer dizer “uma comparação”, como, por exemplo, 11:22 e 12:4. Aos poucos, no entanto, seu significado se ampliou para incluir máximas ou observações como as que encontramos nos capítulos 10 a 22, sermões como os do capítulo 5, ditos jocosos como o de Ezequiel 18:2 e até mesmo revelações doutrinárias (Sl 49:4). A introdução indica a autoria de Salomão, mas os títulos de várias seções mostram claramente que o rei não foi a única fonte de conteúdo do livro. Alguns provérbios são atribuídos aos “sábios”, a Agur e a outros indivíduos. Apenas 10:1 a 22:16 e os capítulos 25 a 29 são atribuídos especificamente a Salomão. Alguns estudiosos argumentam, portanto, que a menção do nome do rei em 1:1 é um acréscimo posterior ou uma indicação antecipada dessas seções. Não há motivo, contudo, para duvidar das tradições judaica e cristã segundo as quais Salomão foi o homem mais sábio de toda a história da humanidade (IRs 3:4-28; 4:29-34) e teve uma contribuição importante na forma atual de Provérbios.

1:2-6 Propósito
Depois de apresentar o nome do livro, o autor explica seu propósito por meio de uma seqüência de infinitivos precedidos de “para”. Os benefícios proporcionados pelo estudo de Provérbios são a aquisição de sabedoria e ensino, bem como a compreensão de palavras de inteligência (1:2), a instrução para um bom proceder no qual se pratica a justiça, o juízo e a equidade (1:3). Os ditos sábios também ensinam prudência, conhecimento e bom siso aos simples e aos jovens (1:4). A sucessão de verbos que fornecem os motivos para estudar o livro é interrompida em 1:5 por uma observação parentética de que os jovens não serão os únicos a se beneficiai” com esse estudo. Em 1:6, o autor volta à relação de motivos e fala da necessidade de entender provérbios e parábolas, as palavras e enigmas dos sábios, ou seja, as formas literárias empregadas pelos mestres para transmitir sabedoria. Hubbard comenta acerca desses versículos: “A palavra predominante [...] é ‘sabedoria’, e os oito ou mais substantivos usados para explicá-la visam mostrar que a despensa da sabedoria é repleta de provisões” (CC). Kidner segue uma linha semelhante, ao dizer: “Provérbios se inicia com a decomposição do resplendor da sabedoria [...] no arco-íris das cores que a constituem” (TOT). Todas as classes de pessoas são convidadas a receber o ensino da sabedoria. Dentre os beneficiários, encontramos o sábio (1:5), que é exortado a ouvir e crescer em conhecimento. Aliás, o sábio é propenso a receber mais sabedoria e se tornar mais sensato do que os escarnecedores e perversos (9:7-9). Até mesmo reis e príncipes são convidados a se valer daquilo que a sabedoria tem para oferecer (8:15-16). Convém observar, porém, que os primeiros capítulos de Provérbios são dirigidos especificamente aos simples (ou inexperientes) e aos jovens (1:4), os dois grupos mais necessitados devido às tentações com as quais se deparam ao tomar decisões formativas para seu caráter.

1:7 Lema 
Depois de apresentar o título da obra e dar aos leitores os motivos para estudá-la, o autor apresenta um lema que, na verdade, expressa a temática de Provérbios como um todo. A RA segue corretamente o texto hebraico e apresenta o versículo como um parágrafo separado entre a introdução e o início da primeira divisão principal do livro. Para enfatizar sua importância, o tema é repetido posteriormente com pequenas variações no final da “Reflexão sobre a sabedoria” (9:10) e no final do livro propriamente dito (31:30). O versículo 7 resume as características das duas categorias de pessoas retratadas em Provérbios, a saber, os sábios e os loucos. Os sábios ficam implícitos na primeira parte do versículo acerca do que constitui o princípio do saber. Na segunda parte, os loucos são descritos como indivíduos que desprezam a sabedoria e o ensino (ou “disciplina”, NVI, e “instrução”, RC). O mesmo dito aparece com pequenas variações em Jó 28:28 e Salmos 111:10. A expressão temor do Senhor ocorre com frequência ao longo de Provérbios (cf., p. ex., 8:13; 10:27; 14:26-27; 15:16,33; 16:6; 19:23; 23:17 e, de forma modificada, 14:2; 24:21). Evidentemente, nesse caso “temor” não significa medo de algo desconhecido ou misterioso, nem pavor da ira de Deus. Antes, refere-se à submissão reverente e humilde à vontade revelada de Javé, acompanhada de adoração ao Senhor. “Apesar de incluir a adoração, ,não se atém a ela. Irradia da adoração e devoção para nossa conduta diária que considera cada minuto um momento pertencente ao Senhor, cada relacionamento uma oportunidade concedida pelo Senhor, cada dever uma ordem do Senhor e cada bên­ção uma dádiva do Senhor” (CC). O significado da expressão “o princípio do saber” é controverso. Para alguns intérpretes, refere-se ao primeiro passo da sabedoria, o ponto de partida para obter mais sabedoria. É mais provável, contudo, que indique o temor do Senhor como elemento fundamental e parte principal da sabedoria. 

1:8—9:18 Reflexões sobre a sabedoria 
Essas reflexões acerca da sabedoria constituem a primeira grande divisão de Provérbios e estabelecem o tom da instrução do restante do livro. Enquanto as outras seções trazem ditos curtos e independentes, encontramos aqui alguns discursos mais longos. Ao compreendê-los, os leitores terão mais facilidade em se situar e entender os ditos individuais em 10:1 a 22:16. 0 texto de 1:8 a 9:18 pode ser dividido em dez exposições ou discursos (TOT):1) Advertência acerca de companheiros perversos (1:8-19); 2) apelo fervoroso da Sabedoria (1:20-33); 3) frutos da sabedoria (2:1-22); 4) bênçãos da obediência e devoção (3:1-35); 5) compromisso vitalício (4:1-27); 6) advertência acerca do adultério e louvor ao casamento (5:1-23); 7) ciladas para os incautos (6:1-35); 8) lição prática sobre os perigos do adultério (7:1-27); 9) excelência da sabedoria e seu papel na criação (8:1-36); 10) banquetes rivais (9:1-18). Todas as lições são dirigidas ao filho meu, termo usado em quinze ocasiões (1:8,10,15; 2:1; 3:1,11,21; 4:10,20; 5:1,20; 6:1,3,20; 7:1; cf. tb. 8:4) e repetido mais vezes nessa seção do que em qualquer outra parte de Provérbios. A preocupação com os simples e os jovens indicada na introdução ao comentário motiva “os detalhes vividos, o zelo paterno e a insistência em encarar o resultado final” (TOT). Se o filho é o aprendiz, quem é o mestre? Por vezes, a admoestação ao filho parece vir de seus próprios pais (p. ex., em 1:8). Em outras ocasiões, um mestre sábio transmite a instrução. Em três discursos, o texto indica de forma clara que o ensino é proveniente da sabedoria personificada (1:20-33; 8:1-36; 9:1-12). Podemos perguntar, porém, se o relacionamento pai/filho se restringe apenas ao nível humano. Temos a impressão de que a verdadeira fonte das instruções transcende o âmbito humano. Provérbios 3:11 parece indicar que o ensino não vem apenas dos pais ou sábios, nem mesmo da sabedoria personificada, mas do próprio Javé.

1:8-19 Advertência acerca de companheiros perversos 
No primeiro discurso, os pais exortam o filho: Ouve o ensino de teu pai e não deixes a instrução de tua mãe (1:8). O termo “ensino” também pode ser traduzido por “disciplina” tanto aqui quanto na declaração do propósito dos provérbios (cf. 1:2). Nestes versículos, é associado ao pai, enquanto “instrução”, uma tradução do termo hebraico para “lei”, é associado à mãe. A menção de pai e mãe aqui (e em 6:20) é um tributo ao importante papel das mães na família israelita, algo incomum nas culturas do antigo Oriente Médio. O motivo pelo qual o filho deve dar ouvidos é fornecido em 1:9: Os ensinamentos serão diadema de graça para a tua cabeça e colares, para o teu pescoço. A imagem lembra ao filho a beleza e o prazer de ser obediente aos pais em seu contexto imediato e, de modo mais amplo, de ser obediente ao Senhor. Trata-se de um princípio praticamente desconhecido nos dias de hoje, nos quais toda geração se sente obrigada a repudiar as crenças de seus pais. Os pais sabem muito bem que seus filhos serão influenciados por outras pessoas. Fazem, portanto, uma advertência específica que contrasta nitidamente com as palavras anteriores (1:10-19). Tudo indica que o contexto social é urbano e que as influências vêm de membros de uma gangue. Procuram convencer o rapaz a se tomar parte do seu grupo (1:10), a se envolver com suas atividades (1:11,14a) e desfrutar de parte dos despojos (1:13-14) a serem obtidos por meio de emboscadas preparadas para inocentes (1:11) e ao tragá-los vivos, como o abismo, e inteiros, como os que descem à cova (1:12). Esse tipo de pressão de colegas justifica o comentário de que “a insensatez não é apenas um problema individual, mas também social” (CC). Por mais empolgantes que sejam os convites e por mais sedutoras que sejam as promessas, a consequência de acompanhar os malfeitores é nada menos que a morte. Os pais não se contentam em proibir a amizade com esse grupo (não o consintas, 1:10; não te ponhas a caminho com eles; guarda das suas veredas os pés, 1:15), mas também revelam de forma categórica o destino final desses pecadores. Eles são dominados de tal modo pela cobiça que nada os detém (1:16). São tão tolos quanto pássaros que se deixam apanhar pela rede que viram ser estendida, ou mais tolos ainda, pois o pássaro atento evita a rede (1:17). “Encontram-se tão cegados pelo mal que não reconhecem a armadilha” (EBC). Em que consiste a armadilha? Na intenção de emboscar para derramar sangue inocente (1:11), quando, na verdade, emboscam contra o seu próprio sangue (1:18). Dizem: Espreitemos [...] os inocentes (1:11), mas sua própria vida espreitam (1:18). Provérbios 26:27 mostra a mesma realidade: “Quem abre uma cova nela cairá”. Por fim, os pais advertem: Tal é a sorte de todo ganancioso; e este espírito de ganância tira a vida de quem o possui (1:19).

1:20-33 O apelo fervoroso da sabedoria 
Enquanto na passagem anterior os pais se dirigem ao filho, aqui é a sabedoria personificada quem fala. Grita na rua e nas praças, levanta a voz (1:20); do alto dos muros clama, à entrada das portas e nas cidades profere suas palavras (1:21). Enquanto os pais transmitem sabedoria na privacidade do lar, a sabedoria clama em lugares públicos. O autor enfatiza que a sabedoria se posiciona de forma estratégica onde sua mensagem possa ser ouvida com clareza pelo maior número possível de pessoas. A imagem nos lembra os evangelistas de rua na África, que pregam suas mensagens em pontos estratégicos da cidade. E interessante observar que o termo traduzido por Sabedoria em 1:20 é plural no hebraico. Na opinião da maioria dos estudiosos, trata-se de um plural de intensidade que aponta para seu “caráter multifacetado e majestoso” (CC), uma referência à mesma diversidade retratada nos conjuntos de palavras que descrevem a sabedoria na seção introdutória (1:2-6). O conteúdo da mensagem da sabedoria é apresentado em 1:22-23. A pergunta inicial:Até quando [...]?, repetida três vezes em 1:22, sugere que ela espera uma resposta de seus ouvintes há algum tempo. Em 1:23, a sabedoria fala daquilo que acontecerá se seus ouvintes atentarem para sua repreensão. A resposta produzirá um resultado positivo: Eis que derramarei copiosamente para vós outros o meu espírito e vos farei saber as minhas palavras As palavras aqui registradas se destinam aos néscios, escarnecedores e loucos (1:22). Em Provérbios, esse conjunto de palavras descreve os “insensatos”, o oposto dos “sábios”. Apesar de a sabedoria exortá-los a ouvir sua “repreensão”, ao que parece, a pergunta “Até quando?” já foi respondida. Ao rejeitar a repreensão e os conselhos da sabedoria, os néscios, os escarnecedores e os loucos encontram suas devidas conseqüências: Mas, porque clamei, e vós recusastes; porque estendi a mão, e não houve quem atendesse; antes, rejeitastes todo o meu conselho e não quisestes a minha repreensão; também eu me rirei na vossa desventura, e, em vindo o vosso terror, eu zombarei, em vindo o vosso tenor como a tempestade, em vindo a vossa perdição como o redemoinho, quando vos chegar o aperto e a angústia (1:24-27). A sabedoria descreve como os rejeitará: Então, me invocarão, mas eu não responderei; procurar-me-ão, porém não me hão de achar (1:28). A paciência da sabedoria e sua oferta de instrução têm limite, e quem excedê-lo terá de arcar com a consequência descrita nos versículos seguintes: Não quiseram o meu conselho e desprezaram toda a minha repreensão. Portanto, comerão do fruto do seu procedimento e dos seus próprios conselhos se fartarão (1:30-31). Ao descrever o estilo de vida equivocado dos insensatos, a sabedoria repete o tema do livro (1:29; cf. 1:7). O discurso termina com uma declaração resumida dos destinos resultantes de aceitar ou recusar a sabedoria: Os néscios são mortos por seu desvio, e aos loucos a sua impressão de bem-estar os leva à perdição. Mas o que me der ouvidos habitará seguro, tranquilo e sem temor do mal (1:32-33; cf. tb. 2:21-22; 3:33-35; 4:18-19; 8:35-36).

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