Provérbios 5 — Análise Bíblica

Provérbios 5

5:1-23 Na passagem de 2:16-19, vimos uma advertência sucinta acerca da adúltera e da esposa inconstante. Aqui, a advertência é explicada. Trata-se de um assunto ao qual o mestre voltará repetidamente (6:20-35; 7:1-27; 9:13-18).

5:1-6 Como na advertência anterior, em 5:1 o sábio exorta os ouvintes a atentar para sua sabedoria e inclinar os ouvidos para sua inteligência. Em 5:2, o sábio justifica seu conselho: Para que conserves a discrição, e os teus lábios guardem o conhecimento. O motivo de enfatizar os lábios fica claro quando o mestre descreve a mulher adúltera (5:3-6). Trata-se de uma figura sedutora, com lábios que destilam favos de mel e palavras [...] mais suaves do que o azeite (5:3). A doçura e suavidade de suas palavras podem enganar aqueles cujos lábios não são guardados pelo conhecimento. Mas o fim dela é amargoso como o absinto, agudo, como a espada de dois gumes (5:4). As palavras “o fim” são cruciais. Quem não se prepara com a sabedoria só percebe a armadilha quando é tarde demais. Além de suas palavras que mutilam como a violência de uma espada de dois gumes, os seus pés descem à morte; os seus passos conduzem-na ao inferno (5:5). Os termos “morte” e “inferno” podem ser considerados sinônimos. Nesse caso, ambos representam destruição. Uma vez que os pés da mulher adúltera conduzem à morte, não é de surpreender que ela não pondere a vereda da vida (5:6), pois, se o fizesse, mudaria seu modo de viver. Falta-lhe, contudo, a percepção de que anda errante nos seus caminhos. Uma tradução mais adequada seria: “Seus caminhos são instáveis”.

5:7-14 Depois das preliminares habituais (5:7), o mestre adverte: Afasta o teu caminho da mulher adúltera e não te aproximes da porta da sua casa (5:8). Nada mais lógico do que instruir os jovens a manter-se afastados do caminho da adúltera que conduz à morte. A essência da admoestação encontra-se nas orações iniciadas com para que (5:9-10) e nas palavras atribuídas ao discípulo arrependido. A primeira consequência de não dar ouvidos à advertência é o desperdício de sua honra e de seus anos. Outra tradução possível é: “Para que você não entregue aos outros o seu vigor nem a sua vida a algum homem cruel” (NVI), uma referência à força da juventude. Era nessa fase que o jovem construía sua reputação e carreira (como diríamos hoje em dia), ou iniciava qualquer outra atividade à qual dedicava seus anos de maior vigor. Caso desperdiçasse esses anos, os estranhos se fartariam dos seus bens, e seu trabalho enriqueceria a casa alheia (5:10). Ross comenta: “O preço da infidelidade pode ser alto; tudo aquilo pelo qual o indivíduo trabalha — status, poder, prosperidade — pode perder-se em razão das exigências insaciáveis da mulher ou do clamor da comunidade por restituição” (EBC). Antes das palavras do discípulo arrependido, o mestre fornece o motivo das advertências anteriores: [Para que não] gemas no fim da tua vida, quando se consumirem a tua carne e o teu corpo (5:11). “Desprovido de tudo o que sustenta a vida, tanto da autoestima quanto dos bens materiais, não lhe resta outra coisa a fazer senão lamentar, literalmente ‘gemer’ ou ‘rosnar’ como uma fera mortalmente ferida cuja carne e corpo foram consumidos” (CC). Na sequência, temos as palavras repletas de remorso do discípulo: Como aborreci o ensino! E desprezou o meu coração a disciplina! E não escutei a voz dos que me ensinavam, nem a meus mestres inclinei os ouvidos! Quase me achei em todo mal que sucedeu no meio da assembleia e da congregação (5:12-14). Hubbard comenta: “O mestre emprega uma técnica poderosa: põe uma série de expressões sombrias de arrependimento nos lábios de seu aprendiz, lábios que deveriam ter guardado a sabedoria (5:2). Quando o discípulo atenta para a instrução, é tarde demais” (CC). Com essa impressionante imagem, o mestre grava na mente e no coração dos aprendizes a importância de dar ouvidos hoje para evitar humilhação pública “no meio da assembleia e da congregação”. A que se refere essa expressão? Em geral, os termos “assembleia” e “congregação” estão associados a Israel como povo de Deus (Êx 12:3, RA; Dt 31:30, NVI). A ligação se toma ainda mais próxima quando lembramos como a lei de Moisés trata do adultério: “Se um homem for achado deitado com uma mulher que tem marido, então, ambos morrerão, o homem que se deitou com a mulher e a mulher; assim, eliminarás o mal de Israel” (Dt 22:22). O homem arrependido reconhece que foi um elemento nocivo no meio de seu povo.

5:15-20 Depois da longa advertência sobre o perigo de se tornar vítima da sedução da mulher adúltera, o mestre elogia o casamento com fervor. Em vez de se envolver com relacionamentos promíscuos, o jovem deve satisfazer seus desejos sexuais no contexto do matrimônio. O sábio instrui: Bebe a água da tua própria cisterna e das correntes do teu poço (5:15). Enquanto a adúltera destilava mel que se tomava amargo quando provado, a esposa aparece como uma cisterna e um poço que constituem fontes contínuas e abundantes de água refrescante. Em seguida, o autor aplica a imagem da água ao homem: Derramar-se-iam por fora as tuas fontes, e, pelas praças, os ribeiros de águas? (5:16). A pergunta retórica dá a entender que o homem não deve desperdiçar seu vigor e potência sexual em relacionamentos promíscuos. Antes, sejam para ti somente e não para os estranhos contigo (5:17). Na sequência, o mestre faz uma oração na qual expressa o tipo de relacionamento conjugal que almeja para seu filho: Seja bendito o teu manancial, e alegra-te com a mulher da tua mocidade (5:18). Retrata a esposa como uma corça de amores e gazela graciosa antes de pôr de lado a imagem e descrever uma pessoa real: Saciem-te os seus seios em todo o tempo; e embriaga-te sempre com as suas carícias (5:19). A frase de erotismo poético descreve a beleza e bem-aventurança do amor no contexto do casamento. Não é de admirar que o mestre pergunte ao seu “filho”: Por que desperdiçar o vigor sexual, “que deveria ser reservado para a mulher com a qual ele se comprometeu e os filhos que ela lhe dará” (CC), com a mulher devassa, chamada aqui de estranha pois é esposa de outro homem (5:20)?

5:21-23 O discurso termina com o destino infeliz do homem perverso. Todos os atos de um homem, até mesmo aqueles praticados supostamente em mais absoluto segredo, estão perante os olhos do Senhor, e ele considera todas as suas veredas (5:21). Daí, o julgamento: Quanto ao perverso, as suas iniquidades o prenderão, e com as cordas do seu pecado será detido. Ele morrerá pela falta de disciplina, e, pela sua muita loucura, perdido, cambaleia (5:22-23). Como diz Hubbard, o resultado de ser “cativado” pela adúltera (5:20, RC), em vez de ser “embriagado” pelo amor da esposa, (5:19) é “fatal” (CC).

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