Hebreus 5: Significado, Devocional e Exegese
Hebreus 5
Hebreus 5 inaugura formalmente a seção doutrinal sobre o sacerdócio de Cristo, tema central e distintivo desta epístola. Após afirmar, ao final do capítulo 4, que temos um “grande sumo sacerdote que penetrou os céus” (4:14), o autor volta-se para definir o que é o sacerdócio segundo a perspectiva veterotestamentária e, com isso, introduz a figura de Melquisedeque como paradigma. O capítulo possui uma arquitetura teológica clara: primeiro apresenta os requisitos e funções do sacerdócio humano (vv. 1–4), depois mostra como Cristo os cumpre de maneira única e superior (vv. 5–10). Contudo, a partir do versículo 11, o tom muda radicalmente: o autor interrompe sua exposição para repreender os destinatários pela sua lentidão em compreender e por sua imaturidade espiritual. Assim, Hebreus 5 é tanto teológico quanto pastoral, sistemático e exortativo. Ele prepara o caminho para o desenvolvimento profundo de Hebreus 7, onde a figura de Melquisedeque será retomada, mas antecipa sua singularidade já aqui: Cristo foi chamado por Deus, aprendeu pela obediência e foi constituído autor de salvação eterna. O mistério do Filho encarnado, que sofre, ora, aprende e intercede, é o coração deste capítulo.
I. Estrutura e Estilo Literário
Hebreus 5 divide-se em duas seções distintas, com contrastes marcantes de estilo. A primeira (vv. 1–10) apresenta um estilo deliberadamente expositivo e ordenado, característico da tradição paraenética sapiencial. O autor define o papel do sumo sacerdote em termos gerais: ele é escolhido dentre os homens, representa-os diante de Deus, oferece dons e sacrifícios pelos pecados, compadece-se dos ignorantes e é chamado por Deus, não se apropriando do ofício por si mesmo. A construção é simétrica e cumulativa. Os versículos 5–10 aplicam essa tipologia a Cristo, com uso intensivo da Escritura: o Salmo 2:7 (“Tu és meu Filho…”) e o Salmo 110:4 (“Tu és sacerdote para sempre segundo a ordem de Melquisedeque”) formam uma inclusio messiânica. O estilo torna-se mais denso nos versículos 7–8, que contêm uma das descrições mais singulares da humanidade de Jesus: Ele ora, clama, teme, aprende, obedece. Os verbos aparecem em formas enfáticas e os substantivos em registros solenes.
A segunda seção (vv. 11–14) introduz um discurso de repreensão. O estilo torna-se direto, incisivo e retoricamente interrogativo. A expressão “περὶ οὗ πολὺς ἡμῖν ὁ λόγος” [perì hoû polùs hēmîn ho lógos, “sobre o qual temos muito a dizer”] marca uma mudança abrupta. A acusação de imaturidade (vv. 12–13) usa a metáfora do leite e do alimento sólido, típica da parenese paulina (cf. 1 Coríntios 3:1–2), e culmina na definição da maturidade espiritual como discernimento entre o bem e o mal. O estilo nesta segunda parte é pedagógico, admonitório, direto, e antecipa a severa advertência que será retomada em Hebreus 6.
II. Hebraísmos no Texto Grego
O capítulo 5 de Hebreus continua a exibir traços característicos do pensamento hebraico por trás da linguagem grega. A definição do sumo sacerdote no versículo 1 — “πᾶς γὰρ ἀρχιερεὺς ἐξ ἀνθρώπων λαμβανόμενος” [pâs gàr archieréus ex anthrṓpōn lambanómenos, “todo sumo sacerdote tomado dentre os homens”] — reflete diretamente a linguagem cultual de Levítico 8–Levítico 9, especialmente o hebraico לָקַח מִבְּנֵי יִשְׂרָאֵל [lāqaḥ mibbenê Yisrāʾēl, “tomado dos filhos de Israel”]. A forma passiva grega (λαμβανόμενος) imita o hebraico niphal (forma passiva simples), típico da linguagem sacerdotal.
A expressão “καθίσταται ὑπὲρ ἀνθρώπων τὰ πρὸς τὸν θεόν” [kathístatai hypèr anthrṓpōn tà pròs tòn theón, “é constituído em favor dos homens nas coisas pertencentes a Deus”] equivale à fórmula hebraica מְשָׁרֵת אֶת־הָעָם לִפְנֵי יְהוָה [mĕšārēt ʾet-hāʿām liphnê YHWH, “servo do povo diante do Senhor”]. Esse paralelismo entre a função representativa e a mediação cultual é típico da teologia levítica.
No versículo 5, a citação “σὺ εἶ ὁ υἱός μου, ἐγὼ σήμερον γεγέννηκά σε” [sù eî ho huiòs mou, egṑ sḗmeron gegennēká se, “Tu és meu Filho, hoje te gerei”] retoma o Salmo 2:7 — “בְּנִי אַתָּה אֲנִי הַיּוֹם יְלִדְתִּיךָ” [benî attāh, ʾănî hayyôm yĕlidtîkā], com estrutura sintática hebraica conservada no grego da LXX. O paralelismo sintético entre os dois membros da frase é preservado pelo autor, respeitando a cadência poética do original.
O versículo 7 contém uma formulação profundamente semítica: “μετὰ κραυγῆς ἰσχυρᾶς καὶ δακρύων” [metà kraugês iskhyrâs kaì dakrýōn, “com grande clamor e lágrimas”] ecoa os lamentos dos Salmos (cf. Salmo 22:1; 69:3), bem como a oração de Jeremias e Ezequiel. A ideia de Jesus “sendo ouvido por causa do seu temor” — εἰσακουσθεὶς ἀπὸ τῆς εὐλαβείας [eisakoustheìs apò tês eulabeías] — traduz o hebraico נַעֲנָה מִפְּנֵי יִרְאָתוֹ [naʿănāh mippnê yirʾātô, “foi ouvido por causa do seu temor”], indicando reverência obediente em contexto cultual. O verbo ἔμαθεν [émathen, “aprendeu”] seguido de ὑπακοήν [hypakoḗn, “obediência”] (v. 8) forma uma construção paralela às fórmulas sapiencial-sacerdotais do hebraico, como em Isaías 50:4–5.
III. Versículo-Chave
Hebreus 5:8
Embora fosse Filho, aprendeu a obediência pelas coisas que sofreu.
Este versículo é um ponto culminante da cristologia encarnacional de Hebreus. O paradoxo teológico — o Filho eterno aprendendo — é o cerne da kenosis: Jesus, sendo ontologicamente Filho, entrou na escola do sofrimento para tornar-se funcionalmente obediente. A estrutura do versículo reproduz o paralelismo hebraico: antítese (ser Filho / sofrer) e síntese (aprender obediência). Trata-se de um versículo de alta densidade doutrinária e espiritual, que introduz o escândalo teológico da cruz como via de aprendizado messiânico. É por meio dessa obediência sofrida que Ele se torna “autor da salvação eterna” (v. 9).
IV. Intertextualidade com o Antigo e o Novo Testamento
Hebreus 5 está saturado de alusões e citações diretas do Antigo Testamento. A imagem do sacerdote tomado “dentre os homens” ecoa Êxodo 28–Êxodos 29 e Levítico 8–9, que descrevem a consagração de Arão e seus filhos. A ideia de “compadecer-se dos ignorantes” (v. 2) remete a Números 15:22–29, onde se distingue entre pecados por ignorância (בִּשְׁגָגָה [bishgāgāh]) e pecados deliberados, sendo os primeiros passíveis de expiação. A citação do Salmo 2:7, já usada em Hebreus 1, reaparece aqui para estabelecer a filiação divina de Cristo como base do seu chamado sacerdotal. Mas é o Salmo 110:4 — “Tu és sacerdote para sempre segundo a ordem de Melquisedeque” — que domina o desenvolvimento posterior. A menção a Melquisedeque prepara a exegese extensa do capítulo 7.
A oração de Cristo “com forte clamor e lágrimas” (v. 7) ecoa o Salmo 22:1 e os Evangelhos Sinópticos, especialmente a cena do Getsêmani (Mateus 26:36–46; Marcos 14:32–42; Lucas 22:44). A ideia de “aprendizado pela obediência” dialoga com Filipenses 2:8 (“humilhou-se, sendo obediente até a morte”) e Romanos 5:19 (“pela obediência de um só, muitos se tornarão justos”). A metáfora do leite e do alimento sólido (vv. 12–14) está presente em 1 Coríntios 3:1–2, mas é aqui usada em um contexto mais severo: não como uma fase natural do crescimento, mas como regressão por negligência. O “discernimento entre o bem e o mal” (v. 14) evoca a maturidade de Salomão em 1 Reis 3:9 e o ideal da sabedoria em Isaías 7:15.
V. Lição Teológica Geral
Hebreus 5 ensina que o sacerdócio de Cristo é real, encarnado, obediente e eterno. Diferente dos sacerdotes levíticos, Cristo não apenas representa os homens diante de Deus, mas partilha integralmente de sua condição, inclusive a dor, a angústia e a necessidade de aprender. O Filho eterno tornou-se servo sofredor, e sua obediência se deu na carne, por meio do sofrimento. O sacerdócio cristão é, portanto, ao mesmo tempo transcendente e empático. Ele não é construído por linhagem, mas por chamado divino. Teologicamente, o capítulo afirma que salvação não é apenas um ato pontual, mas um processo que passa pela identificação, intercessão e santificação. Ao mesmo tempo, Hebreus 5 adverte que há uma responsabilidade humana na compreensão dessa verdade: quem não cresce na fé permanece preso ao “leite”, incapaz de discernir o peso da vocação recebida. A salvação eterna é obra de um Sumo Sacerdote que sofreu, obedeceu e intercede — mas é também caminho para ser trilhado com maturidade espiritual.
VI. Comentário de Hebreus 5
Hebreus 5 expõe, primeiro, as qualificações do sumo sacerdote terreno: ele é tomado “dentre os homens” para representar o povo “nas coisas referentes a Deus”, oferecendo “dons e sacrifícios pelos pecados”; por compartilhar fraquezas, trata com mansidão os ignorantes e desviados, mas por isso mesmo deve sacrificar “por si e pelo povo”, e ninguém assume essa honra sem chamado divino, como Arão (Hebreus 5:1-4; Levítico 4–5; 16; Números 16; Êxodo 28–29). Em contraste e consumação, Cristo não se glorificou a si mesmo, mas foi constituído pelo Pai: “Tu és meu Filho” (Salmo 2:7; Hebreus 5:5) e “Tu és sacerdote para sempre, segundo a ordem de Melquisedeque” — um sacerdócio real, eterno e superior (Salmo 110:4; Gênesis 14:18-20; Hebreus 5:6; 7:1-10). Nos “dias de sua carne”, Ele ofereceu orações e súplicas “com forte clamor e lágrimas” ao que o podia salvar “da” morte, e foi ouvido por causa da sua piedosa submissão — ou seja, o Pai o salvou pela ressurreição e o exaltou (Hebreus 5:7; Mateus 26:36-46; Atos 2:24). Embora Filho, “aprendeu” a obediência pelas coisas que padeceu — aprendizado experiencial que o qualificou para o ofício — e, “aperfeiçoado” (plenamente habilitado), tornou-se a causa de “salvação eterna” para todos os que lhe obedecem (Hebreus 5:8-9; Filipenses 2:8-9; Hebreus 10:14). Assim, foi nomeado por Deus sumo sacerdote segundo Melquisedeque, capaz de salvar totalmente e interceder eficazmente (Hebreus 5:10; 7:16,25; 9:11-12). Por fim, o autor repreende a comunidade por imaturidade: tornaram-se “tardios em ouvir”, quando já deviam ser mestres; precisam novamente dos “princípios elementares”, vivendo de “leite” em vez de “alimento sólido” (Hebreus 5:11-12; 6:1-2; 1 Coríntios 3:1-3). O sólido é para “adultos” que, pelo uso constante da Palavra, têm os sentidos exercitados para discernir o bem e o mal — a maturidade prática que guarda da deriva e sustenta a perseverança (Hebreus 5:13-14; 4:12; Filipenses 1:9-10).
A. As Qualificações de um Sumo Sacerdote Terrestre (Hebreus 5:1-4)
Hebreus 5:1 Porquanto, todo sumo sacerdote, sendo escolhido dentre os homens, é designado para representá-los em questões relacionadas com Deus, (O termo “sumo sacerdote” traduz archiereus; “dentre os homens” indica solidariedade: o mediador precisa compartilhar a condição humana para representar o povo perante Deus [Hebreus 2:17; Êxodo 28:1]. “É designado” reflete a ideia de kathistatai (“é instituído/constituído”), linguagem oficial de investidura sacerdotal [Levítico 8–9]. “Representá-los em questões relacionadas com Deus” corresponde à função mediadora: atuar hyper anthrōpōn (“em favor dos homens”) ta pros ton theon (“nas coisas de Deus”), isto é, acesso ao sagrado, manutenção do culto, intercessão e expiação [Êxodo 28:29-30; Números 16:46-48]. O pano de fundo é o sacerdócio aarônico, estabelecido por Deus para administrar a aliança no tabernáculo [Êxodo 29:38-46].) ...a favor da humanidade, a fim de oferecer tanto dons quanto sacrifícios pelos pecados. (“Dons” traduz dōra — ofertas não sangrentas como oblações e primícias [Levítico 2; Números 18:12] —; “sacrifícios” traduz thysiai — ofertas sangrentas, especialmente “pelos pecados” (hyper hamartiōn), abrangendo ofertas pelo pecado (ḥaṭṭā’t) e pela culpa (’āšām) [Levítico 4–5]. O ápice é o Dia da Expiação, quando o sumo sacerdote faz propiciação por si e pelo povo [Levítico 16; Hebreus 9:7]. Assim, o sacerdote terrestre é, por definição, um “ofertante” qualificado, atuando em favor do povo para lidar com o pecado e manter a comunhão do povo com Deus [Hebreus 8:3].)
Hebreus 5:2 Ele é capaz de compadecer-se dos que não têm conhecimento e se desviam, (A expressão “capaz de compadecer-se” traduz metriopathein — “tratar com mansidão/medida”, nem condescendência fria nem dureza impiedosa. O objeto são os agnoousin kai planōmenois — os “ignorantes” e “os que se desviam”: pecados de ignorância e desvio, para os quais a Torá previa sacrifícios e perdão [Números 15:27-29; Levítico 5:17-19]. Há distinção na Lei entre pecado “inadvertido” e o “de mão levantada” (alta rebeldia), este sem expiação cultual [Números 15:30-31]. O ponto do autor: o sacerdote deve saber lidar pastoralmente com fraquezas reais, orientando e restaurando [Gálatas 6:1].) ...considerando que ele mesmo está rodeado de fraquezas. (Perikeitai astheneian — “está cercado/revestido de fraqueza”): não apenas fragilidade física, mas vulnerabilidade moral; o sumo sacerdote terreno é pecador e mortal [Levítico 16:6; Hebreus 7:28]. Essa consciência o torna paciente com os outros e humilde diante de Deus [Salmo 103:13-14].)
Hebreus 5:3 E, por esse motivo, deve oferecer sacrifícios pelos pecados, (Causa explícita: por estar “cercado de fraqueza”, o sacerdote “deve” — opheilei — oferecer sacrifícios; é obrigação cultual e moral. O rito mostra que ele não está acima do povo, mas debaixo da mesma necessidade de expiação [Hebreus 9:7].) ...tanto do povo como em seu próprio favor. (A Torá exige que o sumo sacerdote ofereça primeiro “por si” e depois “pelo povo”: Arão faz expiação por si e por sua casa, depois pelo povo [Levítico 9:7; 16:6, 11, 15-17]. Essa dupla direção (por si e pelo povo) sublinha a limitação do sacerdócio terrestre e prepara o contraste com Cristo, que não precisou oferecer por si mesmo, pois é “santo, inocente, imaculado” [Hebreus 7:26-27].)
Hebreus 5:4 Ninguém, portanto, toma essa honra para si mesmo, (“Honra” traduz timē: o ofício é um privilégio conferido, não uma carreira autoatribuída. Usurpar o sagrado traz juízo: pense em Corá, Datã e Abirão, que ambicionaram o sacerdócio e foram julgados [Números 16]; em Saul, que sacrificou sem autorização e perdeu o reino [1 Samuel 13:8-14]; e em Uzias, que tentou queimar incenso e foi ferido com lepra [2 Crônicas 26:16-21].) ...senão quando convocado por Deus, como aconteceu com Arão. (A legitimação é “chamado” — kaleitai hypo tou theou. Arão foi escolhido por nome, revestido, ungido e consagrado por ordem explícita de Deus [Êxodo 28:1; 29:4-9; Números 17:5]. O princípio é teológico: só Deus institui quem O representa “nas coisas de Deus” [Hebreus 5:1; Números 18:7]. Essa regra pavimenta a transição do argumento: assim como Arão não se investiu a si mesmo, também Cristo não se glorificou para ser sumo sacerdote, mas foi constituído por Deus com juramento, segundo a ordem de Melquisedeque [Hebreus 5:5-6; Salmo 2:7; Salmo 110:4].)
B. O Sacerdócio Superior e Único de Cristo (Hebreus 5:5-10)
Hebreus 5:5 Desse mesmo modo, Cristo não buscou para si próprio a glória de se tornar sumo sacerdote, (O grego afirma: Christos ouch heauton edoxasen genēthēnai archierea — “Cristo não se glorificou a si mesmo para tornar-se sumo sacerdote”. Em Hebreus, dois critérios definem o verdadeiro sacerdote: solidariedade com os homens e chamado divino [Hebreus 5:1-4]. Cristo cumpre ambos, mas especialmente o segundo: Sua investidura sacerdotal é ato soberano do Pai, não autoexaltação. Isso harmoniza com Seu próprio testemunho: “Se eu me glorifico a mim mesmo, a minha glória nada é; quem me glorifica é meu Pai” [João 8:54; João 5:41, 44]. A linha de raciocínio retoma o princípio aarônico — “ninguém toma para si esta honra” [Hebreus 5:4] — e o aplica a fortiori ao Filho.) ...mas foi Deus quem lhe declarou: “Tu és meu Filho; Eu hoje te gerei”. (Citação de [Salmo 2:7]. No contexto canônico, esse oráculo de entronização identifica o Messias como Filho em sentido único, estabelecido por Deus para reinar. Hebreus já usou esse texto para afirmar a filiação divina e a exaltação do Filho [Hebreus 1:5]. Aqui, o mesmo oráculo funciona como fundamento jurídico da Sua investidura sacerdotal: o que é entronizado como Filho é o mesmo que é constituído Sacerdote. A expressão “hoje” não implica começo ontológico do Filho, mas a manifestação pública de sua filiação no âmbito histórico — ressurreição/exaltação — pela qual é declarado com poder Filho de Deus [Atos 13:33; Romanos 1:4].)
Hebreus 5:6 E revela em outra passagem: “Tu és sacerdote para todo o sempre, conforme a ordem de Melquisedeque”. (Citação de [Salmo 110:4]. O juramento divino — “jurou o Senhor e não se arrependerá” [Salmo 110:4] — institui um sacerdócio perpétuo e não-levítico. “Ordem” traduz taxis — “arranjo, ordem institucional”; aponta para um padrão diferente do de Arão. Melquisedeque surge em [Gênesis 14:18-20] como “rei de Salém” e “sacerdote do Deus Altíssimo”, cujo nome significa “rei de justiça” e cujo título é “rei de paz” [Hebreus 7:2]. Sem genealogia sacerdotal registrada, recebe dízimos de Abraão e o abençoa; logo, é superior a Abraão e, portanto, ao sacerdócio levítico que viria “nos lombos” de Abraão [Hebreus 7:4-10]. Assim, o Filho é Sacerdote real (rei e sacerdote), eterno (juramento divino) e superior (segundo Melquisedeque), inaugurando uma aliança melhor [Hebreus 7:11-22; 8:6].)
Hebreus 5:7 Durante seus dias de vida na terra, Jesus ofereceu orações e súplicas, em clamor e com lágrimas, àquele que o podia salvar da morte, (Literalmente “nos dias da sua carne” — en tais hēmerais tēs sarkos autou — sublinhando Sua verdadeira humanidade [João 1:14; Hebreus 2:14-17]. “Orações e súplicas, com forte clamor e lágrimas” evoca Getsemani e a paixão: “Minha alma está profundamente triste…”; “se possível, passe de mim este cálice…” [Mateus 26:36-46; Marcos 14:32-42; Lucas 22:39-46]. “Aquele que podia salvar da morte” — ek thanatou — não implica ser poupado de morrer, mas ser liberto para fora da morte: é a ressurreição como resposta do Pai [Salmo 16:10; Atos 2:24, 27]. Vemos seus “clamores e lágrimas” também diante do túmulo de Lázaro [João 11:33-35] e no brado da cruz [Mateus 27:46].) ...tendo sido ouvido por causa da sua reverente submissão. (Eisakoustheis apo tēs eulabeias — “foi ouvido por causa de sua eulabeia”, isto é, temor piedoso/reverência obediente. O Pai ouviu o Filho: não para removê-lo do caminho da cruz, mas para salvá-lo da morte pela ressurreição e exaltá-lo [Hebreus 2:9; Filipenses 2:8-9; Salmo 22:24]. A “escuta” divina confirma que a via do sofrimento obediente era a vontade do Pai para nossa salvação [Isaías 53:10-12].)
Hebreus 5:8 Mesmo considerando o fato de ele ser o Filho de Deus, (O grego: kaiper ōn huios — “embora sendo Filho”. O status filial não o isenta do caminho da obediência; ao contrário, define-o: o verdadeiro Filho faz a vontade do Pai [João 4:34; João 5:19; João 6:38]. Por contraste, Adão e Israel — “filhos” em sentido representativo — fracassaram [Oseias 11:1; Êxodo 4:22; Romanos 5:19]; Cristo, o Filho, cumpre perfeitamente.) ...aprendeu a obediência por intermédio das aflições que padeceu; (emathen aph’ hōn epathen — “aprendeu… a partir do que sofreu”. Não sugere que antes fosse desobediente, mas que aprendeu por experiência o que significa obedecer até o fim sob máxima pressão. Na encarnação, o Filho cresceu em experiência humana — “crescia em sabedoria… e graça” [Lucas 2:52] — e, na paixão, consumou a obediência perfeita [Filipenses 2:8; Hebreus 12:2-3]. Esse aprendizado o qualifica a ser nosso Sumo Sacerdote compassivo [Hebreus 2:17-18; 4:15].)
Hebreus 5:9 e, uma vez aperfeiçoado, (teleiōtheis — “tendo sido tornado plenamente qualificado/completo”). Em Hebreus, teleioō frequentemente tem sentido cultual: tornar apto para o ofício/santuário [Hebreus 2:10; 7:28; 10:14]. Pela obediência até a morte, Cristo foi consagrado como o Sacerdote perfeito que oferece o sacrifício perfeito — Ele mesmo [Hebreus 9:14; 10:10-14].) ...tornou-se a fonte de salvação eterna para todos quantos lhe obedecem, (O termo é aitios — “causa/fonte” — da “salvação eterna” (sōtērias aiōniou), em contraste com as provisões temporais/provisórias do culto levítico [Hebreus 9:9-12]. “Para todos os que lhe obedecem” (tois hypakouousin autō): em Hebreus, crer e obedecer são inseparáveis; incredulidade e desobediência também [Hebreus 3:18-19; 4:2]. Essa obediência é a “obediência da fé” [Romanos 1:5], que se manifesta em perseverança e submissão a Cristo [João 3:36; Tiago 2:22; Hebreus 10:36-39].)
Hebreus 5:10 tendo sido nomeado por Deus sumo sacerdote, (prosagoreutheis hypo tou theou archiereus — “sendo designado/nomeado por Deus sumo sacerdote”. A nomeação divina cumpre a regra do v. 4 e cumpre as promessas juramentadas do Salmo 110 [Salmo 110:4; Hebreus 7:20-22].) ...segundo a ordem de Melquisedeque. (Reafirma-se a origem e a qualidade do seu sacerdócio: não pela genealogia levítica, mas por “poder de vida indestrutível” [Hebreus 7:16]. Como Melquisedeque, Cristo une realeza e sacerdócio, justiça e paz [Gênesis 14:18-20; Hebreus 7:1-3]. Seu sacerdócio é único, eterno e eficaz: Ele entrou de uma vez por todas no santuário com Seu próprio sangue, obtendo redenção eterna [Hebreus 9:11-12], e “pode salvar totalmente os que por Ele se chegam a Deus, vivendo sempre para interceder por eles” [Hebreus 7:25].)
C. O Repreensão à Imaturidade Espiritual (Hebreus 5:11-14)
Hebreus 5:11 Quanto a isso, temos muito que ensinar, (O “isso” retoma o tema aberto em [Hebreus 5:5-10] — a investidura do Filho segundo o juramento do [Salmo 110:4], “sacerdote para sempre, segundo a ordem de Melquisedeque”. O autor afirma: há “muito” (polys) a desenvolver sobre Melquisedeque e o sacerdócio celestial de Cristo — assunto que ele, de fato, aprofundará em [Hebreus 7:1-28] e aplicará em [Hebreus 8:1–10:18]. O ponto: a cristologia-sacerdotal é extensa e vital para a perseverança.) ...assunto difícil de explicar, (O termo é dusermēneutos — “árduo de interpretar/explicar”. A dificuldade não está no texto em si como se fosse esotérico, mas no ouvinte; entretanto, o conteúdo exige leitura canônica (Gênesis 14; Salmo 110), noção de tipologia e de aliança — ferramentas que pedem maturidade [Lucas 24:27; 2 Coríntios 3:14-16].) ...especialmente porque vos tornastes indolentes para aprender. (Literalmente: “vos tornastes (gegonenate) nōthroi de ouvir” — nōthroi = lentos, pesados, negligentes [Hebreus 5:11; 6:12]. Não é incapacidade nativa, é regressão culpável: “vos tornastes”. A mesma advertência já vinha soando: “não endureçais o coração… hoje, se ouvirdes a sua voz” [Hebreus 3:7-15]. Quando o coração se embrutece, a audição espiritual embota [Zacarias 7:11-12; Mateus 13:15].)
Hebreus 5:12 Apesar de que, a essa altura, já devêsseis ser mestres, (“Pelo tempo” — eles tinham história de fé suficiente para ensinar. No NT, maturidade se mede por capacidade de transmitir fielmente o evangelho [Mateus 28:19-20; 2 Timóteo 2:2; Tito 2:3-4]. A falta de avanço não é neutra; torna a comunidade vulnerável [Efésios 4:14-15].) ...ainda estais precisando de que alguém vos instrua mais uma vez quanto aos princípios elementares da Palavra de Deus. (gr.: ta stoicheia tēs archēs tōn logiōn tou theou = “os ABCs (elementos) do início dos oráculos de Deus”. Logia são as Escrituras como palavra oracular [Romanos 3:2]. O autor diz: vocês precisam voltar ao bê-á-bá — arrependimento, fé, fundamentos de Cristo e vida eclesial — que ele listará em [Hebreus 6:1-2].) Voltastes a necessitar de leite, (Metáfora pedagógica: “leite” é nutrição básica — boa e necessária para “recém-nascidos” [1 Pedro 2:2] —, mas inadequada para quem já deveria ser adulto. A mesma crítica Paulo faz aos coríntios, presos a ciúmes e carnalidade [1 Coríntios 3:1-3].) ...quando já devíeis estar recebendo alimento sólido! (“Alimento sólido” (stereā trophē) é doutrina substancial e seu uso prático (por ex., Cristo-Sacerdote, aliança superior, perseverança sob disciplina) [Hebreus 7–10; 12:1-11]. Em termos pastorais: permanecer só no “básico” impede discernimento e resistência em tempos de prova [Colossenses 2:6-7].)
Hebreus 5:13 Ora, quem precisa alimentar-se de leite ainda é criança, (A palavra é nēpios — imaturo. A infantilização aqui não é de idade, mas de estabilidade e discernimento; o NT chama a sair da infantilidade que oscila “ao sabor de todo vento de doutrina” [Efésios 4:14-15; 1 Coríntios 14:20].) ...e não tem experiência no ensino da justiça. (Literal: “inexperiente na palavra da justiça” — logos dikaiosynēs. Duas leituras complementares: (1) objetivamente, a doutrina que revela a justiça de Deus no evangelho e gera vida justa [Romanos 1:16-17; Romanos 6:17-18]; (2) subjetivamente, a prática dessa palavra que treina a viver retamente [2 Timóteo 3:16-17; Hebreus 12:11]. Em ambos os sentidos, o imaturo não sabe aplicar o evangelho às situações concretas; conhece slogans, mas não caminha em justiça [Tiago 1:22-25].)
Hebreus 5:14 No entanto, o alimento sólido é para os adultos, (gr.: teleiōn = “maduros/completos”. Em Hebreus, maturidade não é esoterismo; é fidelidade perseverante que se alimenta de Cristo (Sua pessoa e obra) e sabe suportar provações [Hebreus 6:1; 10:36-39; 12:1-3].) ...os quais, pelo exercício constante da fé, (Literal: “os que, por causa do uso (dia tēn hexin), tiveram os sentidos (aisthetēria) treinados (gegymnasmena)”. É ginástica espiritual: uso constante da Palavra em obediência, oração, culto e comunhão, que afina percepção [Hebreus 4:12; Atos 2:42; Colossenses 3:16].) ...tornaram-se capazes de discernir tanto o bem quanto o mal. (gr.: pros diakrisin kalou te kai kakou — “para discernimento do bem e do mal”. Ecoa a sabedoria madura de 1 Reis 3:9 (Salomão pedindo discernimento), e o alvo da formação bíblica: “aprovar as coisas excelentes” [Filipenses 1:9-10; Romanos 12:2]. É o oposto da geração do deserto que “erra no coração” [Hebreus 3:10]. O adulto na fé não é crédulo; ele discern[e] enganos e caminhos, e escolhe o bem (prática de santidade) [Isaías 5:20; 1 Tessalonicenses 5:21-22].)
VII. Devocional de Hebreus 5
A. Nosso Sumo Sacerdote divinamente designado (Hebreus 5:1–10)
O argumento do Espírito neste parágrafo é simples e solene: se o sacerdote tem de tratar com os homens, precisa ser homem; se tem de tratar com Deus, precisa ser chamado por Deus. “Todo sumo sacerdote, sendo tomado dentre os homens, é constituído nas coisas concernentes a Deus a favor dos homens” (Hebreus 5:1). Aqui estão as duas exigências que a consciência sente e a Escritura confirma: solidariedade verdadeira com a nossa condição e autoridade verdadeira diante de Deus. E não é essa exatamente a nossa necessidade? Há entre nós quem não se reconheça sujeito à ignorância e ao desvio? Quem não confesse oscilações, cegueiras, recaídas? Todos nós, sempre e mais uma vez, precisamos do sacerdócio de Jesus.
O texto começa lembrando o que era necessariamente verdade no sistema aarônico. O sacerdote, “capaz de compadecer-se ternamente dos ignorantes e dos que erram”, oferecia “tanto por si mesmo como também pelo povo” (Hebreus 5:2–3). Ele podia tratar com brandura porque também estava envolto em fraqueza. Por isso mesmo a Lei exigia expiação por ele antes que ousasse aproximar-se por outros: “se o sacerdote ungido pecar…” (Levítico 4:3). O culto de Israel, no seu ápice, proclamava esta mensagem: mesmo o melhor dos homens não pode aproximar-se de Deus sem sangue — e, primeiro, precisa lidar com a própria culpa. Além disso, “ninguém toma para si essa honra, senão quando chamado por Deus, como o foi Arão” (Hebreus 5:4). Não há sacerdócio por ambição ou autopromoção; há vocação.
É precisamente nesses dois pontos — humanidade solidária e designação divina — que Cristo aparece como o cumprimento perfeito. “Assim também Cristo não se glorificou a si mesmo para se tornar sumo sacerdote” (Hebreus 5:5). Ele é constituído por Deus, e o autor prova isso citando duas Escrituras que sustentam, como duas colunas, a nossa fé. A primeira: “Tu és meu Filho; hoje te gerei” (Salmo 2:7). O “hoje” que em Hebreus 5:5 é evocado encontra seu eco neotestamentário na ressurreição e exaltação do Senhor: Ele foi “declarado Filho de Deus com poder… pela ressurreição dentre os mortos” (Romanos 1:4), e Paulo aplica expressamente o Salmo 2:7 à ressurreição em Atos 13:33. A segunda coluna: “Tu és sacerdote para sempre segundo a ordem de Melquisedeque” (Salmo 110:4; Hebreus 5:6). Não é a ordem de Arão — temporária, hereditária, sujeita a sucessão e pecado —, mas a ordem real e perene de Melquisedeque: sacerdócio vitalício, anterior e superior ao levítico (cf. Hebreus 7).
Quando, então, começa a atuação sacerdotal de Cristo em nosso favor? O texto sugere um ritmo santo: primeiro, Ele cumpre até o fim Sua obra mediadora; depois, entra com essa obra consumada na presença de Deus como nosso Sumo Sacerdote. Daí que o seu serviço sacerdotal, no sentido celeste de intercessão e ministração, principia após a conclusão do sacrifício único na cruz: “tendo obtido eterna redenção, entrou de uma vez por todas no Santo dos Santos” (Hebreus 9:12); “temos tal sumo sacerdote, que se assentou à destra do trono da Majestade nos céus” (Hebreus 8:1). Ele ofereceu-se como vítima no Calvário e, tendo dito “Está consumado” (João 19:30), apresentou esse sangue nos céus por nós; agora vive sempre para interceder (Hebreus 7:25).
Hebreus 5:7 recolhe a hora mais escura dos “dias da sua carne”: “tendo ele, nos dias da sua carne, oferecido, com forte clamor e lágrimas, orações e súplicas a quem o podia salvar da morte, e tendo sido ouvido por causa da sua piedade…”. Onde vemos isso com igual densidade senão em Getsêmani? “A minha alma está profundamente triste até a morte” (Mateus 26:38). “Pai, se é possível, passe de mim este cálice; todavia, não seja como eu quero, mas como tu queres” (Mateus 26:39). Lucas registra a ajuda celeste e a intensidade da angústia: “apareceu-lhe um anjo do céu que o fortalecia… e o seu suor tornou-se como gotas de sangue” (Lucas 22:43–44). Ali, sob pressão tal que o corpo parecia não suportar, Ele orou ao Pai que podia salvá-lo da morte — e foi ouvido. Como? Não pelo afastamento do cálice, mas pelo livramento através da morte na ressurreição. O Getsêmani prepara o Calvário; o Calvário prepara o Trono. Ele foi ouvido “por causa da sua piedade” — a reverente submissão do Filho. E é exatamente isso que o versículo 8 declara: “embora sendo Filho, aprendeu a obediência pelas coisas que sofreu”. Não que fosse antes desobediente — Deus nos livre de tal pensamento —, mas que, na Sua humanidade verdadeira, experimentou o que a obediência custa quando o obedecer implica sofrer até ao fim. Ele conheceu por vivência aquilo que, como Deus, conhecia por onisciência: a obediência em carne e sangue, até à morte (Filipenses 2:8).
“E, tendo sido aperfeiçoado, tornou-se o Autor da eterna salvação para todos os que lhe obedecem” (Hebreus 5:9). “Aperfeiçoado” aqui — como em Hebreus — não significa correção de falha moral, mas consagração completa ao ofício, qualificação plena pelo caminho do sofrimento. Ele foi “aperfeiçoado” como nosso Representante e Sacerdote ao atravessar toda a via dolorosa da obediência; e, agora, é a fonte, o “Autor”, da eterna salvação. Notemos a palavra “eterna”: em contraste com expiações repetidas, culpa recorrente e sacerdotes que morrem (Hebreus 7:23–27; 10:1–14), Ele oferece redenção final e permanente. Para quem? “Para todos os que lhe obedecem.” A Escritura fala com a mesma boca da obediência da fé (Romanos 1:5) e da fé que obedece (João 3:36). Crer é render-se; render-se é crer. A fé que o recebe como Sacerdote e Cordeiro é a fé que se curva ao Seu senhorio.
O parágrafo termina como começou, com a certeza da designação divina: “tendo sido por Deus nomeado sumo sacerdote segundo a ordem de Melquisedeque” (Hebreus 5:10). O Pai O constituiu; o Filho consumou; o Espírito aplica. Tudo aqui é do céu — e, no entanto, tudo é para nós. Porque Ele é homem, pode compadecer-se; porque Ele é Deus e foi chamado por Deus, pode salvar. Ao contrário dos sacerdotes de Arão, Ele não precisa oferecer por Si mesmo — “santo, inocente, imaculado, separado dos pecadores” (Hebreus 7:26) —, e por isso pode oferecer a Si mesmo por nós: “com uma só oferta aperfeiçoou para sempre os que estão sendo santificados” (Hebreus 10:14).
Que significa isso pastoralmente? Significa que não há pecado tão forte, nem necessidade tão intrincada, que Ele não possa enfrentar. Se o seu problema é culpa, Ele é o Sacrifício perfeito que fala melhor do que o sangue de Abel (Hebreus 12:24). Se é fraqueza, Ele é o Sacerdote que sabe, por experiência, “socorrer os que são tentados” (Hebreus 2:18; 4:15). Se é medo, Ele é o Ressuscitado, declarado Filho com poder (Romanos 1:4), que entrou nos céus por você (Hebreus 9:24). Se é vagar e ignorância, Ele é aquele que “com brandura pode compadecer-se dos ignorantes e dos que se desviam” (Hebreus 5:2), mas que não nos deixa na ignorância nem no desvio: toma-nos pela mão e nos conduz ao Trono da Graça, onde há “misericórdia e graça para socorro em ocasião oportuna” (Hebreus 4:16).
E, então, o chamado é claro. Traga tudo a este Sumo Sacerdote. Não tente ser o seu próprio sacerdote; não construa seu próprio altar; não invente o seu próprio sangue. Olhe para Aquele que foi constituído por Deus, que cumpriu toda justiça por você, que sofreu até aprender, em nossa carne, tudo o que a obediência exige, e que agora vive para interceder. Entre no descanso da obra consumada e caminhe na obediência da fé. “A Ele, que pode guardar-vos de tropeçar e apresentar-vos com exultação, imaculados diante da Sua glória… seja glória” (Judas 24–25). Nós precisamos do sacerdócio de Jesus, não uma vez, mas sempre — e Ele é suficiente, sempre.
B. “Avancemos para a maturidade” (Hebreus 5:11–14)
O escritor aos Hebreus abre o coração: “Temos muitas coisas que dizer, e difíceis de explicar, porquanto vos tornastes tardios em ouvir” (Hebreus 5:11). Não é falta de assunto no púlpito; é falta de apetite no banco. O mestre precisa ajustar o passo aos discípulos, e quanto perdemos porque somos alunos inábeis! Ele queria nos levar, no capítulo 7, aos cumes do sacerdócio segundo Melquisedeque; mas precisa descer primeiro ao vale da nossa lentidão espiritual para reacender o desejo, corrigir o ouvido, estimular o paladar. A imagem que se segue é tão simples quanto penetrante: “depois de tanto tempo, já devíeis ser mestres… ainda necessitais de leite… e vos haveis feito tais que precisais de leite, e não de alimento sólido” (Hebreus 5:12).
Leite não é veneno; é providência de Deus para recém-nascidos — “desejai ardentemente, como crianças recém-nascidas, o leite espiritual não falsificado, para que por ele cresçais para a salvação” (1 Pedro 2:2). Mas há um erro mortal: permanecer criança quando já se devia estar correndo. O autor define o problema: “todo aquele que se alimenta de leite é inexperiente na palavra da justiça, porque é criança; mas o alimento sólido é para os adultos, para aqueles que, pela prática, têm as suas faculdades exercitadas para discernir tanto o bem como o mal” (Hebreus 5:13–14). Aqui estão os dois pilares da verdadeira maturidade: alimentação e exercício. Crescemos comendo e praticando. Sem alimento direto da Palavra, definhamos; sem exercício na obediência, atrofiamos.
O autor descreve com sobriedade um fenômeno comum: há crentes que não conseguem nutrição espiritual diretamente da Palavra de Deus; vivem do que outros digeriram e repassaram em sermões, resumos e livros. “Leite é alimento que já passou pela digestão de outro”, dizia um antigo. Deus, em Sua bondade, nos dá mestres; mas mestres não são moedores de ração para sempre. A ordem é clara: busquem conhecimento de primeira mão das coisas de Deus. “Sede como os bereanos” (Atos 17:11): Bíblia aberta, mente atenta, coração humilde. “Não se aparte da tua boca o Livro desta Lei; antes, medita nele dia e noite” (Josué 1:8). “Antes, o seu prazer está na lei do Senhor… e nela medita de dia e de noite” (Salmo 1:2). A fé que apenas consome ecos, sem buscar a voz, enfraquece; a que mastiga a Palavra e a aplica, robustece.
E como se pratica? “Pela prática têm os sentidos exercitados” (Hebreus 5:14). A Bíblia não é só para a estante; é para o chão da vida. Discernimento não vem por osmose, vem por uso. Obedecemos na segunda-feira o que ouvimos no domingo; buscamos reconciliação onde a carne quer revanche; dizemos a verdade onde o medo sugere silêncio; negamos a nós mesmos onde o mundo manda “seguir o coração”. À medida que usamos a Palavra, o Espírito afina nossas faculdades: vemos o bem onde antes só víamos custo; detectamos o mal onde antes só víamos moda. É assim que passamos do leite ao sólido: comendo mais e exercitando mais.
Por isso, quando o parágrafo seguinte começa com “Deixando os princípios elementares… avancemos para a maturidade” (Hebreus 6:1), não é desdém do fundamento, é o uso correto dele. Um construtor “deixa” a base não porque a despreza, mas porque a honra; ele nunca está “tanto sobre o fundamento” como quando está bem acima dele — cada andar é um tributo à solidez de baixo. Quais são esses princípios? O autor os elenca: “o arrependimento de obras mortas e a fé em Deus” (Hebreus 6:1) — eis o primeiro e o segundo; depois, “a doutrina dos batismos (washings) e da imposição de mãos, da ressurreição dos mortos e do juízo eterno” (Hebreus 6:2) — o terceiro e o quarto e além. Muitos notam que “batismos” e “imposição de mãos” ecoam práticas do judaísmo (purificações rituais, consagrações) e funcionaram, historicamente, como equivalentes judaicos daqueles dois primeiros princípios: sinalizavam arrependimento e fé no Deus vivo. O ponto do autor é pastoral: não fiquem para sempre no nível de catecúmenos; ergam vida santa sobre o arrependimento e a fé; avancem para a “teleiotes”, a maturidade.
E ele acrescenta um esclarecimento sério que impede tanto a presunção quanto o desespero. Ao falar do perigo de estagnar e retroceder, lança mão de uma expressão que a R.V. (margem) registra em Hebreus 6:6 (a sua nota dizia “Heb_5:6”, mas a passagem é 6:6): para a palavra “seeing”, a margem traz “the while” — “enquanto estão crucificando de novo o Filho de Deus e expondo-o à ignomínia” (isto é, enquanto persistem nesse estado), não podem ser “renovados para arrependimento”. Não se trata de falha do céu; trata-se de teimosia da terra. O próprio contexto usa a parábola do solo: “a terra que bebe a chuva… e produz… recebe bênção; mas, a que produz espinhos e abrolhos… está próxima da maldição” (Hebreus 6:7–8). A chuva cai; o problema não é o céu. O problema é o chão duro. “Tanto tempo chovendo sobre a sua vida — o que está brotando?” Eis a pergunta que a Palavra nos faz.
Voltemos, então, à urgência de 5:11–14. O que enfraquece o ouvido e infantiliza o paladar? Uma mistura de comodismo e terceirização espiritual. Comodismo, porque é mais fácil beber leite do que mastigar carne. Terceirização, porque é mais fácil viver da digestão alheia do que buscar Deus face a face. Mas Deus nos chama a algo melhor: Cristo, o nosso Sumo Sacerdote (Hebreus 4:14–16; 5:1–10), já abriu o caminho; o Trono da Graça está aberto; o Espírito foi derramado. Por que ficar na soleira quando a sala está posta? Por que adiar a obediência quando a Palavra já falou?
“Avancemos para a maturidade.” Como? Comece pelos joelhos e pela mesa. Peça ao Espírito fome de Palavra; abra as Escrituras diariamente; mastigue o texto, rumine a verdade, ore o que leu. Em seguida, obedeça depressa na primeira oportunidade concreta: reconcilie-se com quem o feriu; diga não ao pecado “que tenazmente nos assedia” (Hebreus 12:1); confesse Cristo onde antes você se calava. E quando vier o sofrimento — e virá —, lembre-se de que foi assim que o nosso Senhor “aprendeu a obediência pelas coisas que sofreu” (Hebreus 5:8). A escola da maturidade tem duas salas: a Escritura e a provação. Numa, ouvimos; na outra, exercitamos. Em ambas, a graça basta.
Talvez você diga: “Mas tenho vivido de leite anos a fio. Há esperança para mim?” A resposta de Hebreus não é um chicote, é um chamado: há mesa posta. O mesmo Deus que denuncia a nossa infância prolongada promete: “Isto faremos, se Deus o permitir” (Hebreus 6:3). E Ele se agrada de permitir. A chuva ainda cai. O Trono ainda acolhe. A Palavra ainda ilumina. “Hoje, se ouvirdes a sua voz, não endureçais o coração” (Hebreus 3:15). Avance. Não desdenhe o fundamento; construa sobre ele. Não abandone o leite; prossiga até a carne. Não culpe o céu; quebre o solo duro do coração diante de Deus. E, “pela prática”, verá seus sentidos exercitados, seu paladar afinando, seu passo firmando — até que, sem perceber, você já não precisa que lhe deem sempre a colher: estará servindo outros, “porque, pelo tempo decorrido, já devia ser mestre” (Hebreus 5:12). Essa é a marca da maturidade: não só se alimenta bem; alimenta bem. E tudo para glória d’Aquele que nos chama do berçário para a plenitude.
VIII. Concordância Bíblica Comentada
Hebreus 5:1 define o ofício sacerdotal com precisão de bisturi: “Pois todo sumo sacerdote, dentre os homens, sendo tomado, é constituído em favor dos homens nas coisas referentes a Deus, para oferecer dádivas e sacrifícios pelos pecados.” Com essa linha mestra diante de nós, cada uma das suas referências ilumina um ponto particular dessa definição — e todas, juntas, mostram como a economia levítica preparou o caminho para o sacerdócio perfeito de Cristo que a própria carta expõe.
Quando Hebreus 10:11 retrata o sacerdote “de pé, dia após dia, ministrando e oferecendo muitas vezes os mesmos sacrifícios”, o narrador está descrevendo exatamente o que Hebreus 5:1 enuncia de modo programático: o sacerdote está ali para prospherē dōra te kai thysias (“oferecer dádivas e sacrifícios”). A rotina diária e repetitiva de 10:11 é a ilustração histórica da cláusula final de 5:1; e, ao mesmo tempo, denuncia a limitação do sistema antigo, preparando o leitor para a obra única do Sumo Sacerdote eterno.
A consagração de Arão e de seus filhos em Êxodo 28:1–14 mostra o início dessa “tomada dentre os homens” que 5:1 pressupõe. Deus toma do meio de Israel um homem e sua casa, veste-o com glória e beleza, e põe sobre o seu peito os nomes das tribos. É a figura viva de ex anthrōpōn lambanomenos (“dentre os homens, sendo tomado”): o sacerdote não cai do céu pronto; ele é erguido do povo, para representar o povo. O rito de Êxodo 29:1–37 dá corpo à palavra “constituído”: óleo, sangue, imposição de mãos, lavagem — tudo para expressar kathistatai (“é constituído”) em ofício. E esse ser “constituído” tem um conteúdo: aproximar-se do altar, pôr as mãos sobre a cabeça do animal, “oferecer” no altar. É a coreografia visível de hina prospherē (“para oferecer”) em Hebreus 5:1. Levítico 8:2 retoma a ordem: “toma Arão… as vestes… o óleo… o novilho…”, dando o cenário completo da ordenação: Deus separa, consagra e entrega um homem à função de lidar com ta pros ton theon (“as coisas referentes a Deus”), em favor de outros homens.
A sentença “é constituído” reaparece, quase ipsis litteris, em Hebreus 8:3: “todo sumo sacerdote é constituído (kathistatai) para oferecer (prospherein) dons e sacrifícios.” É como se 8:3 fosse o espelho de 5:1, usando o mesmo vocabulário para reforçar o mesmo ponto. A carta quer fixar no leitor a dupla ideia: nomeação divina (não autoatribuição) e finalidade cultual (não mera administração).
A frase “em favor dos homens” se esclarece quando o próprio Cristo é apresentado, em Hebreus 2:17, como quem “em tudo se fez semelhante aos irmãos, para ser sumo sacerdote misericordioso e fiel… para fazer propiciação pelos pecados do povo”. É o coração do “em favor” de 5:1: o sacerdote existe para cuidar do povo diante de Deus. Em Números 16:46–48, Arão corre com o incensário entre os vivos e os mortos, e “fez expiação pelo povo”, e a praga cessou: ali, com fumaça e lágrimas, se enxerga o sentido visceral de hyper anthrōpōn… ta pros ton theon (“em favor dos homens, nas coisas de Deus”). Números 18:1–3, por sua vez, fixa o estatuto: Arão e seus filhos “levarão a iniquidade do santuário” e “do seu sacerdócio” — o sacerdote carrega, representativamente, a carga do povo; a função é vicária, exatamente como Hebreus 5:1 afirma.
Quando a cláusula de 5:1 diz “para oferecer dádivas e sacrifícios”, ela tem dois braços: “dádivas” (ofertas de gratidão/celebração) e “sacrifícios” (especialmente pelo pecado). Hebreus 8:3, de novo, repete a fórmula para martelar essa dupla finalidade; Hebreus 9:9, comentando o sistema antigo, fala de “ofertas e sacrifícios que, quanto à consciência, não podem aperfeiçoar o que presta culto” — ou seja, 5:1 indica o que era a função; 9:9 revela o que essa função não conseguia realizar plenamente. Hebreus 10:11, já citado, reforça o “oferecer… muitas vezes”; e Hebreus 11:4 remonta aos primórdios: “Pela fé Abel ofereceu a Deus sacrifício superior” — a gramática do culto (prospherō, “oferecer”) é mais antiga que o Sinai; o que o Sinai fez foi institucionalizar e regular aquilo que a fé já intuía. Em Levítico 9:7, Arão ouve: “Aproxima-te do altar e oferece a tua oferta pelo pecado e o teu holocausto, e faze expiação por ti e pelo povo” — é Hebreus 5:1 em ação: sacerdote, altar, “em favor dos homens”, “oferecer dádivas e sacrifícios”. E os versículos 15–21 do mesmo capítulo formalizam a sequência para o povo: oferta pelo pecado, holocausto, oferta de manjares, sacrifício pacífico, “conforme ordenara o Senhor”. O “para oferecer” de 5:1 se desdobra em liturgia completa — e tudo isso apontando para a necessidade de um Sacerdote maior.
A tradição “de fundo” confirma a estrutura. Êxodo 40:15 fala de “sacerdócio perpétuo” nas gerações: a instituição não era casual; era uma economia inteira construída para expressar ta pros ton theon (“as coisas referentes a Deus”) em favor do povo. Levítico 6:20 prescreve a “oferta diária” dos sacerdotes — uma dádiva (lado “dōra”) que complementa os sacrifícios (lado “thysiai”) —, outra vez ecoando Hebreus 5:1. Neemias 12:30 mostra sacerdotes e levitas se purificando e purificando o povo: o sacerdote não apenas oferece; ele prepara o povo para as “coisas de Deus”. Romanos 15:17 usa, deliberadamente, a mesma linguagem de Hebreus ao descrever o ministério de Paulo: “Tenho, pois, motivo de gloriar-me em Cristo Jesus nas coisas que dizem respeito a Deus” — en Christō Iēsou ta pros ton theon (“em Cristo Jesus as coisas referentes a Deus”); é o mesmo giro verbal de Hebreus 5:1, aplicado ao ministério apostólico em chave sacerdotal. Hebreus 3:1, por seu lado, convoca: “considerai o Apóstolo e Sumo Sacerdote da nossa confissão, Jesus” — Ele é o termo final de tudo o que 5:1 descreve. E Hebreus 7:28 fecha o contraste: “a lei constitui (kathistēsin) sumos sacerdotes com fraqueza, mas a palavra do juramento, posterior à lei, constitui o Filho, aperfeiçoado para sempre” — é a palavra “constituído” de 5:1 (kathistatai) aplicada, agora, ao Cristo, com a diferença decisiva: não com fraqueza, mas “para sempre”.
Volte, então, à frase de Hebreus e veja como as peças se encaixam. Pas… archiereus (“todo sumo sacerdote”) — a instituição é universal no âmbito da aliança; ex anthrōpōn lambanomenos (“dentre os homens, sendo tomado”) — o representante sai do povo que representa; hyper anthrōpōn kathistatai (“é constituído em favor dos homens”) — sua função é vicária e pastoral; ta pros ton theon (“as coisas referentes a Deus”) — sua esfera é o acesso, a mediação, a reconciliação; hina prospherē dōra te kai thysias hyper hamartiōn (“para oferecer dádivas e sacrifícios pelos pecados”) — seu ato é cultual e expiatório. Êxodo, Levítico e Números mostram esse arranjo acontecendo no tempo; Hebreus 8–10 refletem sobre suas limitações e apontam para a consumação; as demais passagens — de Abel a Paulo — exibem os contornos espirituais do mesmo desenho. E quando a carta, adiante, apresenta Jesus como o Sumo Sacerdote que é santo e se compadece, que entra não com sangue alheio, mas com o seu próprio, e que, por isso, aperfeiçoa o que nenhum outro pôde, entendemos que Hebreus 5:1 não é um manual frio: é o mapa que conduz ao Cristo vivo, nosso Representante “dentre os homens”, “em favor dos homens”, por quem, enfim, temos acesso “às coisas referentes a Deus”.
Hebreus 5:2 descreve o tom de voz e o toque de mão do sacerdócio: “capaz de tratar com mansidão os ignorantes e os que se desviam, visto que ele mesmo também está rodeado de fraqueza”. É essa tríade — compaixão medida, alvo pastoral e consciência das próprias fraquezas — que as suas referências acendem uma a uma.
Quando a carta já havia dito: “no que Ele mesmo sofreu, sendo tentado, pode socorrer os que são tentados” (Hebreus 2:18), ela preparou o chão de metriopathein: quem passou pelo fogo sabe “suportar com medida”. E quando afirma: “temos um Sumo Sacerdote que pode compadecer-se das nossas fraquezas, tendo sido tentado em tudo, sem pecado” (Hebreus 4:15), está explicando por que 5:2 não fala de dureza, mas de mansidão: compaixão sem cumplicidade com o erro. Assim, metriopathein (“tratar com mansidão”) não é relativizar o pecado; é lidar com ele como quem o conhece por dentro — e venceu.
A nota marginal “ou, suportar razoavelmente” ajuda a sentir o peso de metriopathein: é suportar “com medida”, sem estourar, sem esmagar “cana trilhada”, sem apagar “pavio que fumega”, e sem confundir mansidão com frouxidão. O sacerdote bíblico, diz Hebreus, não é um juiz glaciar nem um cúmplice sentimental: é alguém que sabe graduar a mão e a palavra porque sabe o que é ser fraco.
“Os ignorantes” vêm à frente: a Torá prevê “pecados por ignorância” e estabelece caminho de expiação (Números 15:22–29). Hebreus 5:2 está de mãos dadas com esse capítulo: há gente que erra sem plena luz; para esses, Deus proviu sangue e sacerdote que trata com mansidão. Paulo, ao lembrar seu passado — “eu o fiz na ignorância, na incredulidade” (1 Timóteo 1:13) —, é um caso de escola: o perseguidor, iluminado, torna-se apóstolo; se houvesse apenas o tribunal, ele teria sido esmagado; houve metriopathein — “suportar com medida” — de Cristo e, depois, da igreja.
“Os que se desviam” — planōmenoi — pedem pastoreio. O autor mais adiante manda “endireitar os trilhos” para os pés do irmão manco (Hebreus 12:13): isso é metriopathein em ação — não ignorar o desvio, mas aplainar o caminho para que ele não caia. O bezerro de ouro mostra o desvio em estampa: “depressa se desviaram do caminho” (Êxodo 32:8). Juízes 2:17 resume uma geração: “se desviaram depressa da vereda dos seus pais”. Isaías 30:11 põe nos lábios do povo o pedido cínico: “desviai-nos do caminho”; nessas horas, um sacerdote que só sabe bradar perde o rebanho; o sacerdote de Hebreus 5:2 aguenta e corrige — firme sem ser bruto.
O fundamento de tal mansidão está no reconhecimento: “ele mesmo está rodeado de fraqueza” — perikeitai astheneian. Hebreus 7:28 lembra que os sacerdotes levíticos foram constituídos “com fraqueza”; por isso precisavam oferecer por si. A própria história de Arão denuncia e consola: “Faze-nos deuses” — pedem —, e Arão cede (Êxodo 32:2–5); quando Moisés o interpela, ele vacila: “lançaram o ouro no fogo e saiu este bezerro” (Êxodo 32:21–24). Trata-se de fraqueza real, não teórica. Em Números 12:1–9, Miriam e Arão falam contra Moisés — a casa sacerdotal exposta a vaidades; em Números 20:10–12, até Moisés e Arão falham em Meribá — falam rispidamente, ferem a rocha: perikeitai astheneian. O Novo Testamento mostra como Jesus lida com essa fraqueza nos seus: “Eu roguei por ti, para que a tua fé não desfaleça; e tu, quando te converteres, fortalece os teus irmãos” (Lucas 22:32). Aqui está o espírito de Hebreus 5:2: o Mestre reconhece a fraqueza de Pedro, sustenta-o, e transforma-o em coluna para sustentar outros. Paulo, no mesmo tom, “se gloria nas fraquezas” (2 Coríntios 11:30; 12:5) e ouve: “minha graça te basta… o meu poder se aperfeiçoa na fraqueza” (2 Coríntios 12:9–10). Até seu ministério nasceu “por fraqueza da carne” (Gálatas 4:13). Quem aprendeu a viver assim saberá metriopathein (“tratar com mansidão”) com ignorantes e errantes.
O pano de fundo “recíproco” confirma tudo. Levítico 4:2 abre com “se alguém pecar por erro” — a própria categoria de agnoousin (“os ignorantes”); Levítico 16:6 manda Arão oferecer “por si” — porque o sacerdote levítico, perikeitai astheneian (“rodeado de fraqueza”), precisa de sangue por si antes de oficiar pelo povo. Ezequiel 45:20 manda “expiar o que erra sem saber” — mais uma vez, o alvo de 5:2. Nos Evangelhos, os fariseus perguntam com desdém: “Por que o teu Mestre come com publicanos e pecadores?” (Mateus 9:11); a resposta de Jesus (nos versículos seguintes) é o coração do nosso texto: médico não foge do doente. Ele “moveu-se de íntima compaixão” perante as multidões desgarradas (Mateus 9:36), “compadeceu-se deles” e curou (Mateus 14:14), disse: “Tenho compaixão desta gente” (Marcos 8:2). Metriopathein tem esse rosto: presença paciente, mão estendida, palavra que trata. Até no tribunal pagão surge a expressão: “se é questão de palavras e nomes… vós mesmos o suportareis” (Atos 18:14, ecoando a ideia de “levar com paciência”). Paulo traduz a dinâmica em chave pneumatológica: “o Espírito nos assiste em nossas fraquezas” (Romanos 8:26) — synantilambanetai (“toma junto, ajuda carregando”): a ajuda do Espírito modela o ministério de um sacerdote que ajuda carregando. O apóstolo pede: “suportai-me um pouco” (2 Coríntios 11:1) — a mesma ética de paciência mútua que ele manda à igreja: “admoestai os insubmissos, consolem os desanimados, amparem os fracos, sejam pacientes para com todos” (1 Tessalonicenses 5:14). E Hebreus 2:17 já havia dado o título a Cristo: “sumo sacerdote misericordioso” — eleēmōn archiereus (“sacerdote cheio de misericórdia”): é dele que aprendemos a metriopathein.
Ponha tudo de volta sobre o versículo. O sacerdote “capaz de tratar com mansidão” — metriopathein dynamenos (“sendo capaz de suportar com medida”) — aprende esse compasso no próprio Cristo, que “pode socorrer” (Hebreus 2:18) e “pode compadecer-se” (Hebreus 4:15). Os “ignorantes” — agnoousin — têm lei e evangelho previstos para eles (Números 15; 1 Timóteo 1:13). Os “errantes” — planōmenois — precisam de trilhos aplainados, não de pontes queimadas (Hebreus 12:13; Êxodo 32:8; Juízes 2:17; Isaías 30:11). E o “rodeado de fraqueza” — perikeitai astheneian — sabe estender a mão porque conhece o peso que ela carrega (Hebreus 7:28; Êxodo 32; Números 12; Números 20; Lucas 22:32; 2 Coríntios 11–12; Gálatas 4:13). Por isso o sacerdócio segundo Cristo não humilha quem caiu, nem aplaude o erro; levanta quem caiu, corrige quem erra, e carrega junto — exatamente como o nosso Sumo Sacerdote fez e faz.
Hebreus 5:3–4 põe o holofote no miolo do sacerdócio bíblico. Primeiro, diz: “e por causa disto, ele deve — opheilei (“tem obrigação; convém-lhe”) — oferecer — prospherein (“apresentar no altar”) — pelos pecados — peri hamartiōn (“em favor de pecados”) — assim por si mesmo como também pelo povo — kath’ heauton hōsper kai peri tou laou (“por si mesmo, do mesmo modo também pelo povo”)” (Hebreus 5:3). Em seguida, fecha a porta da ambição religiosa: “e ninguém toma — lambanei (“arrebata; assume para si”) — para si mesmo a honra — tēn timēn (“o prestígio/ofício”) —, mas sendo chamado por Deus — allà kaloumenos hypo tou theou (“mas sendo convocado por Deus”) —, como também Arão” (Hebreus 5:4). O sacerdócio não é autopromoção; é encargo de Deus. E, enquanto dura a antiga aliança, esse encargo exigia um homem que, conhecendo a própria fragilidade, entrasse com sangue por si e pelo povo.
É exatamente isso que a carta repisará adiante: em Hebreus 7:27, o autor lembra que os antigos sacerdotes “ofereciam primeiro por seus próprios pecados, depois pelos do povo”, ao passo que Cristo o fez uma vez para sempre; a frase do 5:3 (“por si e pelo povo”) é o molde histórico que Cristo supera. E em Hebreus 9:7, o Dia da Expiação aparece em close: “no segundo tabernáculo, só o sumo sacerdote, uma vez por ano, não sem sangue, que ele oferece por si e pelos pecados de ignorância — agnoēmata (“faltas por ignorância”) — do povo”. O “por si… e pelo povo” de 5:3 não é uma ideia abstrata: é Yom Kippur em andamento.
A Torá já havia gravado isso a fogo. Em Êxodo 29:12–19, na consagração, o sangue é posto nos chifres do altar, derramado ao seu pé, e os animais são ofertados conforme a ordem do Senhor: é a coreografia concreta de prospherein (“oferecer”). Levítico 4:3–12 prevê o caso de o sacerdote pecar: “trará ao Senhor um novilho pelo pecado”; o sangue é levado, o altar é aspergido; o sacerdote, que intercede pelo povo, precisa de expiação por si — a própria definição de Hebreus 5:3. Em Levítico 8:14–21, na ordenação, o novilho pelo pecado e o holocausto são oferecidos antes do serviço: quem vai lidar com ta pros ton theon (“as coisas referentes a Deus”) começa confessando que precisa de sangue. Em Levítico 9:7, Arão ouve claramente: “oferece a tua oferta pelo pecado por ti e o teu holocausto, e faz expiação por ti e pelo povo; depois oferece a oferta do povo…” — é a frase de Hebreus 5:3 dramatizada à vista de todos. No grande rito de Levítico 16:6, o sumo sacerdote oferece o novilho por si e pela sua casa; só depois (Levítico 16:15) entra com o sangue do bode pelos pecados do povo: a ordem importa, e Hebreus está de olho nessa ordem quando diz kath’ heauton hōsper kai peri tou laou (“por si… assim também pelo povo”).
Até as notas “espelhadas” do Antigo Testamento cantam a mesma música. Em Levítico 9:2, o chamado: “toma um bezerro por ti, para oferta pelo pecado”; em Levítico 9:15, a sequência: “ofereceu a oferta do povo” — primeiro por si, depois pelo povo. Neemias 12:30, séculos depois, mantém o padrão: “os sacerdotes e os levitas se purificaram, e purificaram o povo” — a lógica de Hebreus 5:3 em linguagem pós-exílica. E 1 Tessalonicenses 5:14, já no horizonte eclesial, manda “amparar os fracos e ser paciente para com todos”: o pastor cristão, sem entrar no Santo dos Santos com sangue animal, continua a aprender com o antigo sacerdote a começar por si (arrependimento, purificação) para então servir o povo — é o espírito do “por si e pelo povo”.
Se Hebreus 5:3 fixa o conteúdo do ofício (“oferecer por si e pelo povo”), Hebreus 5:4 fixa a origem: ninguém se faz sacerdote; Deus é quem chama — kaloumenos (“convocado, chamado”). Êxodo 28:1 narra o berço de Arão: “toma a Arão… para que me ministre no ofício sacerdotal”; Levítico 8:2 repete: “toma Arão… e traze… para a consagração”. Números 3:3 dirá que os filhos de Arão foram “ungidos sacerdotes”: a unção, não a ambição, é a porta. Números 16 é o grande juízo contra a autoexaltação: Corá e seus aliados querem a glória do altar sem o chamado. Moisés responde (Números 16:5): “o Senhor fará saber quem é seu e o fará chegar a si”; manda (Números 16:7): “o Senhor escolherá o que é dele”. E acusa (Números 16:10): “buscais também o sacerdócio?” — a pergunta que corta a raiz da usurpação. O desfecho é terrível (Números 16:35): fogo do Senhor consome os usurpadores; e (Números 16:40) fica memorial “para que nenhum estranho… se chegue para acender incenso diante do Senhor”: sacerdócio não se toma, se recebe. Quando a praga cai (Números 16:46–48), Arão corre “no meio” com incenso e “põe-se entre os mortos e os vivos”, e a praga cessa: o Deus que chama mostra, ao mesmo tempo, quem não pode — e quem deve — estar “no meio”. Em Números 17:3–11, o Senhor manda pôr varas no tabernáculo; só a de Arão floresce e frutifica: é o sacramento do chamado — kaloumenos hypo tou theou (“convocado por Deus”) — em linguagem de amendoeira. Em Números 18:1–5, Deus dá o estatuto: Arão e seus filhos “levarão a iniquidade do santuário” e “de seu sacerdócio”; “guardareis o vosso sacerdócio” — é encargo recebido, dever vigiado, não plataforma pessoal.
A história não para no Pentateuco. Em 1 Crônicas 23:13, Arão é “separado para santificar o santo dos santos, queimar incenso, ministrar e abençoar”; de novo, separado por Deus, para as “coisas referentes a Deus”. 2 Crônicas 26:18 trava o ímpeto do rei Uzias que quis queimar incenso: “não te pertence… mas aos sacerdotes, filhos de Arão, que são consagrados”; até um rei, se não tem chamado sacerdotal, não entra — Hebreus 5:4 paira sobre a cena como um cartaz: “ninguém toma para si a honra”. No Evangelho, João 3:27 põe nos lábios do Batista a teologia do chamado: “o homem não pode receber coisa alguma, se do céu não lhe for dada”; é o versículo de Hebreus 5:4 em sentença de sabedoria espiritual: se vem do céu, é dom; se vem do homem, é usurpação.
Êxodo 28:41 ordena: “os ungirás, e os consagrarás, e os santificarás, para que me ministrem no sacerdócio” — Deus veste os seus; o homem não se veste de si. Êxodo 29:9 fixa: “o sacerdócio lhes será por estatuto perpétuo” — é instituição divina, não cargo rotativo por vontade humana. Êxodo 36:2 mostra que até os artesãos do tabernáculo são “chamados por nome” e movidos em coração; muito mais o sacerdote. Números 18:7 sela: “o serviço do sacerdócio te dou por dádiva” — a palavra “dou” desmonta toda pretensão de autopossessão. Juízes 17:5 é o contraexemplo: Mica “consagra” seu próprio filho como sacerdote doméstico; o livro mostra o desastre de inventar sacerdócio. Esdras 7:5 relembra a linhagem sacerdotal que legitima o ofício: não basta “querer”, é preciso ser chamado e posto. Jesus mesmo o diz, em outro registro: “vim em nome de meu Pai” (João 5:43); “se eu me glorifico a mim mesmo, a minha glória nada é” (João 8:54). E denuncia: “quem não entra pela porta… mas sobe por outra parte, esse é ladrão e salteador” (João 10:1); a “porta” do sacerdócio é o chamado — kaloumenos hypo tou theou. Em Atos 13:2, o Espírito Santo chama: “separai para mim Barnabé e Saulo para a obra”; em Romanos 1:1, Paulo se apresenta “chamado para apóstolo”, “separado para o evangelho de Deus”: a gramática do ministério apostólico (chamado, separado) é a mesma de Hebreus 5:4. E Hebreus 7:5 recorda que os filhos de Levi “têm mandamento para tomar… dízimos” — mandamento, não autodeterminação: o direito vem do chamado.
Volte agora à dobra entre 5:3 e 5:4 e veja como tudo se encaixa. O sacerdote “deve” — opheilei (tradução: “tem obrigação”) — “oferecer” — prospherein (“apresentar no altar”) — “por si e pelo povo” — kath’ heauton… kai peri tou laou —, e isso não porque seja moralmente superior, mas precisamente porque não é: ele entra confessando e intercedendo. E esse homem não se escolhe: “ninguém toma para si a honra” — ouch heautōi tis lambanei tēn timēn (“ninguém arrebanha para si a dignidade”) —, “mas sendo chamado por Deus” — allà kaloumenos hypo tou theou (tradução: “mas convocado por Deus”) — “como Arão”. A lei, os ritos, as histórias de queda e correção, os juízos contra a usurpação, o florescer da vara, a contenção do rei, o memorial dos incensários queimados — tudo isso, de Êxodo a Crônicas — foi Deus ensinando Israel a reconhecer duas verdades simples e tremendas: o sacerdote entra por nós; e o sacerdote entra a chamado. A carta aos Hebreus só precisará dar o último passo: mostrar que, quando veio o Filho, Ele não entrou com sangue alheio, não precisou oferecer por si, não tomou para si a honra — antes, “foi chamado” (5:5), “jurado” (7:20–21) e “aperfeiçoado para sempre” (7:28). E é por isso que, quando nos aproximamos de Deus por Ele, sabemos que não há teatro, nem impostura, nem presunção: há chamado e há sangue, há obediência e há oferta — tudo aquilo que a Escritura inteira preparou, agora cumprido em quem é, ao mesmo tempo, Sacerdote e Sacrifício.
Hebreus 5:5–6 mostra, em duas pancadas, que o sacerdócio de Cristo não nasce de ambição, mas de filiação e juramento divinos. Primeiro, 5:5: “Assim também o Cristo não se glorificou a si mesmo para se tornar sumo sacerdote, mas Aquele que lhe disse: ‘Tu és meu Filho; eu, hoje, te gerei’.” O versículo 6 completa: “como também diz noutro lugar: ‘Tu és sacerdote para sempre, segundo a ordem de Melquisedeque’.” Duas declarações, portanto: o Filho não se autopromove; o Pai o entroniza e o consagra por palavra juramentada.
É exatamente isso que Jesus havia afirmado na sua pregação. “Quem fala por si mesmo busca a própria glória; quem busca a glória de quem o enviou, esse é verdadeiro” (João 7:18). E ainda: “Se eu me glorifico a mim mesmo, a minha glória nada é; quem me glorifica é meu Pai” (João 8:54). É a tradução viva de ouk heauton edoxasen (“não se glorificou a si mesmo”): o Cristo rejeita o atalho da autoexaltação; ele recebe do Pai. Isso também é a sabedoria do Batista: “O homem não pode receber coisa alguma se do céu não lhe for dada” (João 3:27). Hebreus 5:5 põe essa regra no coração do sacerdócio: quem faz o sacerdote é Deus; quem dá a glória é Deus.
A frase do Salmo 2:7 — “Tu és meu Filho; eu, hoje, te gerei” — é o fundamento da nomeação. Quando Hebreus 1:5 já a tinha citado, a intenção era mostrar a superioridade filial do Filho sobre os anjos; aqui, em 5:5, a mesma citação explica de onde vem o seu sacerdócio: do ser Filho. O Huios mou ei su (“Tu és meu Filho”) não é só título; é a origem do seu ofício. Por isso, ao desenvolver a história do Messias, a Escritura aponta para sua filiação desde sempre: “E tu, Belém… de ti me sairá o que há de reinar em Israel, e suas saídas são desde os tempos antigos, desde os dias da eternidade” (Miqueias 5:2). O Filho que é “dado” e “enviado” — “Deus amou o mundo de tal maneira que deu o seu Filho unigênito” (João 3:16); “Deus enviou o seu próprio Filho” (Romanos 8:3) — é o mesmo a quem o Pai diz: egō sēmeron gegennēka se (“eu, hoje, te gerei”). Esse “hoje”, interpretado apostolicamente, se cumpre na exaltação: “Deus cumpriu… ressuscitando a Jesus; como também está escrito…: Tu és meu Filho; hoje te gerei” (Atos 13:33). Não que Cristo tenha começado a ser Filho ali, mas que ali — na ressurreição/entronização — o Pai publica e instala o Filho como Rei-Sacerdote. É o mesmo eixo de Romanos 1:4: “declarado Filho de Deus com poder… pela ressurreição dentre os mortos.” O Filho eterno, encarnado e obediente, foi glorificado pelo Pai — edoxasen (“glorificou”) — e, nessa glória, feito conhecido como nosso Sumo Sacerdote.
É também por isso que o Novo Testamento recusa qualquer sugestão de auto-investidura. Jesus diz: “Eu vim em nome de meu Pai” (João 5:43). E quando “tendo-se humilhado… até à morte de cruz” (Filipenses 2:8), o Pai o exalta e dá-lhe “o nome que está acima de todo nome”; Hebreus 5:5 descreve essa exaltação com a linguagem sacerdotal: não se glorificou a si; o Pai o chamou e nomeou. A própria carta dirá dois versos depois: Ele foi “designado por Deus sumo sacerdote” (Hebreus 5:10) e mais adiante contrastará: “a lei constitui com fraqueza homens como sumos sacerdotes, mas a palavra do juramento… constitui o Filho, aperfeiçoado para sempre” (Hebreus 7:28). E quando chegarmos a Hebreus 9:11, veremos a mesma lógica aplicada à obra: “Cristo, tendo vindo como sumo sacerdote dos bens vindouros…” — não veio por si, veio do Pai e para nós.
O versículo 6 costura a outra metade da veste: o Filho é sacerdote não aarônico, mas “segundo a ordem de Melquisedeque”. O texto que Hebreus cita — Salmo 110:4 — é um juramento divino: “Tu és sacerdote para sempre, segundo a ordem de Melquisedeque.” Aqui cada palavra pesa. Su hiereus ei (“Tu és sacerdote”) é declaração soberana; eis ton aiōna (“para sempre”) é duração indestrutível do ofício; kata tēn taxin (“segundo a ordem”) indica um padrão diferente do levítico; Melchisedek aponta para um personagem que antecede a lei e a ultrapassa. Gênesis 14:18–19 apresenta-o: “Melquisedeque, rei de Salém e sacerdote do Deus Altíssimo, trouxe pão e vinho… e abençoou Abrão.” A bênção sobe, o dízimo desce, e a Escritura guarda essa figura para um dia explicar Cristo. Quando Hebreus retoma o fio: “sem pai, sem mãe, sem genealogia… permanecendo sacerdote para sempre” (Hebreus 7:3), não está dizendo que Melquisedeque não teve pais, mas que a narrativa, propositadamente, não registra sucessão levítica para ele, transformando-o em tipo de um sacerdócio perene. “Ali testifica-se que vive” (Hebreus 7:8): o “para sempre” do Salmo 110:4 ecoa nessa vitalidade. E porque o sacerdócio levítico não pôde levar à perfeição, “era necessário que se levantasse outro sacerdote” (Hebreus 7:11), não segundo Arão, mas segundo Melquisedeque — exatamente o que 5:6 proclama.
Se juntarmos as duas citações — Salmo 2:7 e Salmo 110:4 —, vemos o Cristo Filho entronizado e o Cristo Sacerdote eterno convergindo na mesma Pessoa. O Filho tem autoridade de ofertar-se: “ninguém tira a minha vida; eu tenho autoridade para dá-la e autoridade para torná-la a tomar” (João 10:18). Essa liberdade soberana explica como Ele é, ao mesmo tempo, vítima e sacerdote: oferece-se a si mesmo no altar da cruz, e o Pai ratifica com a ressurreição o sacerdócio “para sempre” (Romanos 1:4). É também por isso que a glória do Filho explode na hora certa: “Agora foi glorificado o Filho do Homem, e Deus foi glorificado nele” (João 13:31). A cruz é o momento em que o Salmo 2 e o Salmo 110 se beijam: o Rei entronizado é o Sacerdote juramentado.
Toda a moldura “recíproca” confirma essa linha. Êxodo 29:9 estabelece o “sacerdócio” como estatuto — Deus é quem dá ofício —; Isaías 55:5 canta o Messias chamando nações — o Filho atrai porque o Pai o constituiu; João 1:14 diz que o “Filho unigênito” (o “Filho único”, monogenēs) “armou sua tenda entre nós” — é a filiação que legitima o envio; João 5:43 volta à temática do nome do Pai; Romanos 1:4, já citado, fixa a filiação com poder pela ressurreição; Filipenses 2:8 lembra que a exaltação é resposta do Pai à obediência do Filho. E a própria carta à frente repetirá: “chamado por Deus sumo sacerdote segundo a ordem de Melquisedeque” (Hebreus 5:10); “onde Jesus entrou por nós… feito sumo sacerdote para sempre segundo a ordem de Melquisedeque” (Hebreus 6:20); “Tu és sacerdote para sempre…” (Hebreus 7:17, 21). A história de Abraão e Melquisedeque (Gênesis 14:18–19) permanece como matriz: um sacerdócio real, anterior à lei, que abençoa e recebe homenagem do patriarca — é esse theorema que Deus cumpre em Cristo.
Em suma, Hebreus 5:5–6 afirma que Jesus não se fez sacerdote por conta própria (ouk heauton edoxasen — “não se glorificou a si mesmo”); o Pai o entroniza como Filho (Huios mou ei su… egō sēmeron gegennēka se — “Tu és meu Filho; eu, hoje, te gerei”) e o consagra como Sacerdote eterno (Su hiereus ei eis ton aiōna kata tēn taxin Melchisedek — “Tu és sacerdote para sempre segundo a ordem de Melquisedeque”). Assim, a nossa fé repousa não em carisma humano, mas em decreto divino; não em sucessão carnal, mas em juramento do Altíssimo; não em glória buscada, mas em glória dada. O Filho, obediente e exaltado, é o nosso Rei-Sacerdote — para sempre.
Hebreus 5:7 abre uma janela íntima para o coração do Messias: “nos dias da sua carne” ele ofereceu ao Pai “orações e súplicas, com grande clamor e lágrimas, àquele que podia salvá-lo para fora da morte; e foi ouvido por causa da sua piedade reverente”. Cada parte da frase encontra eco no tecido bíblico.
“Nos dias da sua carne” — en tais hēmerais tēs sarkos autou — é a própria encarnação descendo ao chão. Hebreus já dissera que o Filho “participou de sangue e carne” (Hebreus 2:14), e o Novo Testamento inteiro canta o mesmo: “o Verbo se fez carne” — ho logos sarx egeneto (João 1:14, “se tornou carne”); “Deus enviou o seu Filho em semelhança de carne do pecado” — en homoiōmati sarkos hamartias (Romanos 8:3, “em semelhança de carne do pecado”); “nascido de mulher, nascido sob a lei” (Gálatas 4:4); “manifestado na carne” — ephanerōthē en sarki (1 Timóteo 3:16, “manifestado na carne”). E toda confissão apostólica séria insiste: negar que Jesus “veio em carne” é romper com o Evangelho (1 João 4:3; 2 João 1:7). É nesse chão — não num êxtase desencarnado — que 5:7 coloca a vida de oração do Cristo.
Quando o autor escreve que ele ofereceu (prosenenkas) “orações e súplicas”, empurra nossa imaginação para os Salmos de lamento e para o Getsêmani. O Salmo 22:1–21, o 69:1 e o 88:1 colocam, em primeira pessoa, o grito do justo afogado — o mesmo “oferecer com clamor” que Hebreus recolhe em linguagem cultual. No Getsêmani, “prostrou-se com o rosto em terra” (Mateus 26:36–44; Marcos 14:32–39) e orou até o suor virar sangue (Lucas 22:42–44): eis deēseis kai hikētarias (“orações e súplicas”) derramadas como oferta. Note que o verbo de 5:7 — prosenenkas (“oferecer”) — é o mesmo campo de prospherein de Levítico: a oração do Cristo é culto; ele põe no altar do Pai o clamor como quem oferta (Levítico 2:2; 4:4–14). E quando levanta os olhos e diz “Pai, é chegada a hora” (João 17:1), o Sumo Sacerdote entrega ao Pai a oblação da sua vontade.
“Com grande clamor e lágrimas” — meta kraugēs ischyras kai dakryōn — a Escritura nos deixa ouvir e ver. O “clamor forte” aparece na cruz: “Deus meu, Deus meu, por que me desamparaste?” (Mateus 27:46; Marcos 15:34) e o “bradou grande” ao expirar (Mateus 27:50; Marcos 15:37) não são gestos teatrais, são o kraugē ischyra de 5:7. As lágrimas são o selo da sua humanidade compassiva: o Servo é “varão de dores” (Isaías 53:3) que, ao ver o fruto da sua aflição, “ficará satisfeito” (Isaías 53:11); e, na tumba de Lázaro, “Jesus chorou” (João 11:35). Hebreus chama isso de eulabeia: não pânico, mas temor reverente que ora até o fim.
Esse clamor tem endereço: “ao que podia salvá-lo para fora da morte” — pros ton dynamenon sōzein auton ek thanatou. No Getsêmani, ele confessa essa onipotência: “Abba, Pai, tudo te é possível; passa de mim este cálice… não o que eu quero, mas o que tu queres” (Marcos 14:36). E quando Pedro puxa a espada, Jesus lembra: “pensas que não posso rogar ao Pai, e ele me mandará mais de doze legiões de anjos?” (Mateus 26:52–53). O Pai podia livrá-lo da morte impedindo a cruz; mas o Pai quis livrá-lo para fora da morte através da cruz. Por isso Hebreus 5:7 diz ek thanatou (“para fora da morte”): o ouvido do Pai se manifestou na ressurreição. Toda Bíblia confirma. “O Deus da paz tornou a trazer dentre os mortos o grande Pastor das ovelhas” (Hebreus 13:20); o Salmo 22, que começou com abandono, chega ao “salva-me… responde-me” (Salmo 22:21) e “não desprezou a aflição do aflito” (22:24); o Salmo 40:1–3 narra o “tirar do poço de perdição”, pôr os pés sobre a rocha, pôr “um cântico novo” na boca: é 5:7 contado em poesia. O Salmo 69:13–16 implora “no tempo favorável”; Isaías 49:8 responde: “no tempo aceitável te ouvi”. Jesus diz junto ao túmulo: “eu sabia que sempre me ouves” (João 11:42); e, na véspera da paixão, entrega seu culto: “eu te glorifiquei na terra… glorifica-me” (João 17:4–5). Ele foi, portanto, eisakoustheis (“ouvido”) — não poupado do cálice, mas sustentado para bebê-lo e levantado “para fora da morte” no domingo.
“Por causa da sua piedade” — apo tēs eulabeias — isto é, por sua devoção reverente. A palavra não descreve pavor, mas o acatamento amante que treme, adora e obedece. É o “sirvamos a Deus com reverência e santo temor” — meta eulabeias (Hebreus 12:28, “com reverência”). No Getsêmani, ele “começou a entristecer-se e a angustiar-se” (Mateus 26:37–38; Marcos 14:33–34), “ajoelhando-se” e dizendo: “faça-se a tua vontade” (Lucas 22:42–44, até suar sangue); já no átrio do templo do mundo, diz: “agora está turbada a minha alma… Pai, glorifica o teu nome” (João 12:27–28). Essa eulabeia — reverência obediente — foi ouvida com ressurreição e glória.
Todas as “recíprocas” espalhadas pela Escritura fazem coro. A promessa do Éden (Gênesis 3:15) diz que a semente da mulher esmagaria a serpente — 5:7 mostra como: oração obediente que atravessa a morte. Jacó luta e diz: “não te deixarei ir se me não abençoares” (Gênesis 32:24, 26): é a obstinação santificada que vemos em “orações e súplicas”. O incenso no santuário (Êxodo 37:29; Levítico 2:16; 16:18) ensinou Israel a ver oração como aroma que sobe — exatamente o que Hebreus 5:7 chama de prosenenkas (“oferecido”). Ana “amargurada de alma, orou” (1 Samuel 1:10); Davi lembra: “na minha angústia invoquei o Senhor, do seu templo ele ouviu a minha voz” (2 Samuel 22:7). Ezequias “chorou muitíssimo” (2 Reis 20:3) e foi ouvido; Ester “suplicou com lágrimas” (Ester 8:3) e houve livramento; Jó “derramou as lágrimas” diante de Deus (Jó 16:20). Os Salmos dão linguagem a esse clamor: “o Senhor ouviu” (Salmo 6:8; 20:1; 31:22; 34:4; 39:12; 40:11; 55:4, 17; 59:16; 66:19; 69:3; 77:2; 86:7; 91:15; 102:1; 109:26; 116:3; 120:1; 130:1; 142:2), e Jeremias vê um povo que “vem com choro” (Jeremias 31:9). Até o culto aponta para um Rei-Sacerdote que adora (Ezequiel 46:2). Os profetas lembram: Jacó “chorou e suplicou” (Oséias 12:4); Jonas, do peixe, “clamou” e foi ouvido (Jonas 2:2). Nos Evangelhos, Jesus vive isso: retira-se “de madrugada para orar” (Marcos 1:35); o pai do menino clama “ajuda-me” com lágrimas (Marcos 9:24); o cego insiste aos gritos (Marcos 10:48); o Filho “cai por terra” e ora (Marcos 14:35); passa noites em oração (Lucas 6:12), sobe ao monte para orar (Lucas 9:28), ensina os discípulos a orar (Lucas 11:1); no Getsêmani, “em agonia, orava mais intensamente” (Lucas 22:44). Em Betânia, ele “comoveu-se profundamente” (João 11:33) e chorou; caminha para a cruz “para que o mundo saiba que amo o Pai” (João 14:31). A igreja aprendeu esse compasso: “oravam… à meia-noite” (Atos 16:25); “perseverai na oração” (Romanos 12:12); “roguei três vezes” (2 Coríntios 12:8), e Deus mostrou poder na fraqueza (2 Coríntios 13:4); “sinto dores de parto” por vocês (Gálatas 4:19); “orando em todo tempo” (Efésios 6:18); “grande combate” — agōna — em oração (Colossenses 2:1); Epafras “lutra em orações” (Colossenses 4:12); “padecestes… como as igrejas de Deus” (1 Tessalonicenses 2:14); e Hebreus volta a dizer: porque ele sofreu sendo tentado, pode socorrer (Hebreus 2:18) e pode salvar completamente os que por ele se chegam a Deus (Hebreus 7:25). Até Noé, diz o autor, foi movido por “temor piedoso” — eulabeitheis (Hebreus 11:7, “cheio de reverência”); e Tiago conclui: “está alguém sofrendo? ore” (Tiago 5:13).
Assim, Hebreus 5:7 não é nota de rodapé devocional; é o nervo do sacerdócio do Filho. Encarnado (hēmerais tēs sarkos, “dias da carne”), ele oferece (prosenenkas, “ofereceu”) orações e súplicas (deēseis… hikētarias), com clamor e lágrimas (kraugē ischyra… dakrya), ao Pai que pode (dynamenos) salvar para fora da morte (sōzein ek thanatou), e é ouvido (eisakoustheis) “por causa da sua eulabeia” (sua piedade reverente). O Pai o ouviu — não poupando-o do cálice, mas erguendo-o da morte —, e por isso todo clamor da Igreja tem chão firme: o nosso Sumo Sacerdote já abriu, com lágrimas e obediência, o caminho da oração que termina em Páscoa.
Hebreus 5:8 põe em frase curtíssima a lógica inteira da encarnação: “ainda que sendo Filho, aprendeu a obediência pelas coisas que sofreu”. O ponto não é que o Filho tivesse falta de santidade — Ele é o Santo; é que, ao assumir nossa carne, Ele percorreu historicamente um caminho de obediência provada, para que a sua filiação eterna aparecesse na nossa história como fidelidade concreta até o fim.
“Ainda que sendo Filho” — kaiper ōn huios — amarra o versículo ao que a carta já proclamou: “Tu és meu Filho; eu, hoje, te gerei” (Hebreus 1:5), “do Filho diz: ‘o teu trono, ó Deus, é para todo o sempre’” (Hebreus 1:8), e “Cristo, como Filho, sobre a sua casa” (Hebreus 3:6). O Filho é Filho por natureza, não por promoção; por isso, o que vem em seguida assombra: esse mesmo Filho aprendeu — emathen (“aprendeu”) — a obediência no tempo, na carne, na dor. A filiação não diminui a escola; dá sentido a ela. O Pai, que “falou-nos pelo Filho” (Hebreus 1:2), agora nos mostra o Filho falando de volta pela obediência perfeita.
Como foi essa aprendizagem? A Escritura responde: “Corpo me preparaste… Eis-me aqui… para fazer, ó Deus, a tua vontade” (Hebreus 10:5–9). A vontade do Pai torna-se o DNA da caminhada do Messias. Já estava esboçado no Cântico do Servo: “o Senhor Deus me abriu o ouvido; eu não me rebelei” (Isaías 50:5), “dei as costas aos que me feriam… não escondi o rosto” (Isaías 50:6). É a obediência que não recua diante do custo. Por isso, ao iniciar seu ministério, Jesus diz a João: “convém cumprirmos toda a justiça” (Mateus 3:15); é o Filho entrando na fila dos penitentes, não porque precisasse de perdão, mas porque decidiu obedecer junto com os irmãos. Daí em diante, tudo nele é vontade do Pai: “meu alimento é fazer a vontade daquele que me enviou” (João 4:34); “desci do céu não para fazer a minha vontade, mas a vontade daquele que me enviou” (João 6:38); “permaneço no seu amor porque guardo os seus mandamentos” (João 15:10). A linha culmina na kenose: “humilhou-se a si mesmo, tornando-se obediente — hypēkoos (“obediente”) — até à morte, e morte de cruz” (Filipenses 2:8). Aqui, Hebreus 5:8 encontra a sua luz mais forte: tēn hypakoēn… aph’ hōn epathen (“a obediência… a partir do que sofreu”): a cruz é a aula derradeira.
Essa obediência do Filho não é um capricho isolado; ela cumpre a gramática de toda a revelação. Noé “fez tudo conforme o Senhor ordenara” (Gênesis 7:5): a obediência como resposta amorosa já era o caminho do justo. Os ritos de consagração (Levítico 8:23) e purificação do santuário (Levítico 16:18) treinavam Israel na obediência concreta, passo a passo. O Salmo 2:7 lembrava o título que sustenta o caminho: “Tu és meu Filho” — é como Filho que Ele obedece. Ezequiel 46:2 imaginava o Príncipe adorando segundo a ordem do Senhor: obediência é culto. Quando Jesus explica sua missão, usa o verbo vir como sinônimo de obedecer: “o Filho do Homem veio para servir e dar a sua vida” (Mateus 20:28; Marcos 10:45). No Getsêmani, Ele dobra a vontade humana à vontade do Pai: “seja feita a tua vontade” (Mateus 26:42; Marcos 14:36). E declara a razão de cada gesto: “aquele que me enviou está comigo… faço sempre o que lhe agrada” (João 8:29). Até o lavar os pés (João 13:14) é aula de obediência que se torna serviço; e, marchando para a cruz, Ele diz: “para que o mundo saiba que amo o Pai, assim faço” (João 14:31). A obediência é o modo visível do amor de Filho.
“A partir do que sofreu” — aph’ hōn epathen — não romantiza a dor; mostra o que Deus faz com ela. As lágrimas de Jesus em Betânia (João 11:33) e os “fortes clamores” da sua oração (que Hebreus destacará em 5:7) dizem que a escola da obediência tem chão áspero. Mas é precisamente nesse chão que o Pai leva o Filho à meta: “convinha… que aperfeiçoasse — teleiōsai (“conduzisse à plenitude/consagração”) — pelos sofrimentos o Autor da salvação deles” (Hebreus 2:10). O mesmo juramento que o constitui sacerdote “aperfeiçoado para sempre” (Hebreus 7:28) passa pelo fogo dessa obediência. A dor não fez o Filho mais santo — Ele já o é —; fez a santidade tornar-se história, culto, sangue derramado por amor.
Tudo, enfim, converge para esta confissão: kaiper ōn huios (“ainda que sendo Filho”) — filiação eterna; emathen (“aprendeu”) — caminho temporal; tēn hypakoēn (“a obediência”) — conteúdo da vida; aph’ hōn epathen (“a partir do que sofreu”) — método de Deus para que a obediência do Filho nos alcance. É por isso que Ele pôde dizer “não o que eu quero, mas o que tu queres” e “veio para servir”; é por isso que pôde “fazer sempre o que agrada ao Pai”; é por isso que, no fim, “consumado” (João 19:30) não é suspiro de rendição, mas selo de quem aprendeu a obediência até o último passo — e, por tê-la aprendido assim, tornou-se o nosso Sumo Sacerdote obediente, cuja obediência salva.
Hebreus 5:9 condensa a história da encarnação em quatro martelos: “e, tendo sido aperfeiçoado, tornou-se autor de salvação eterna para todos os que lhe obedecem”. Cada termo é uma porta para as Escrituras que você listou.
O “tendo sido aperfeiçoado” (teleiōtheis, “consagrado/levado à plena qualificação sacerdotal”) não fala de falta moral em Cristo, mas da sua consagração histórica pelo caminho da obediência sofredora. É exatamente o que já ouvimos: “convinha que… aperfeiçoasse — teleiōsai (tradução: “levasse à plenitude/consagração”) — pelos sofrimentos o Autor da salvação deles” (Hebreus 2:10). O “aprimorar” do Filho passa pela cruz e o habilita, como Sumo Sacerdote, a operar a nossa redenção. Por isso a carta dirá mais tarde que os santos da antiga aliança “sem nós não fossem aperfeiçoados” — teleiōthōsin (Hebreus 11:40, tradução: “consagrados/consumados”) —, porque a obra do Messias é o fecho da história deles também. Muito antes, Daniel olhou para a mesma consumação e a descreveu como o pacote messiânico: “dar fim à transgressão, dar fim aos pecados, expiar a iniquidade, trazer justiça eterna” (Daniel 9:24). Isso é “teleiōtheis” em linguagem profética: a missão chega ao seu termo. O próprio Jesus sinalizou o compasso: “hoje e amanhã expulso demônios e faço curas; e no terceiro dia sou consumado” — teleioumai (Lucas 13:32, tradução: “sou aperfeiçoado/consumado”). E, no Calvário, quando tudo que o Pai lhe deu a fazer chegou ao fim, o grito foi uma palavra da mesma família: tetelestai (João 19:30, tradução: “está consumado/levado a termo”). “Teleiōtheis” em Hebreus 5:9 é, portanto, a assinatura pascal sobre a obediência do Servo.
“Ele se tornou” — egeneto — “autor/causa” — aitios — desloca nosso olhar do processo para o resultado: a sua obediência consumada produz um novo estado de coisas. Hebreus voltará a chamá-lo de “autor e consumador” — archēgos kai teleiōtēs (Hebreus 12:2, tradução: “iniciador e aperfeiçoador”) — da fé; aqui, ele é o aitios (“causa eficaz”) da salvação. O Saltério já ensinava que “nosso Deus é Deus de salvação” e que Ele “carrega” as nossas cargas (Salmos 68:18–20); quando o Cristo “sobe às alturas” e “recebe dons” para os homens, manifesta-se como fonte que derrama vida. Isaías convoca o mundo inteiro: “olhai para mim e sede salvos, todos os confins da terra” (Isaías 45:22), e anuncia o Servo que seria “salvação até aos confins da terra” (Isaías 49:6). Em Atos, Pedro o chama de “Príncipe/Autor da vida” — archēgon tēs zōēs (Atos 3:15, tradução: “iniciador/originador da vida”), e a igreja proclama a exclusividade dessa fonte: “em nenhum outro há salvação” (Atos 4:12). É isso que aitios (“autor/causa”) diz: a salvação tem dono, e seu nome é Jesus.
“Salvação eterna” — sōtērias aiōniou — nomeia a qualidade do que ele dá: não provisório, não cíclico, mas de horizonte sem pôr-do-sol. Hebreus já nos falara da “grande salvação” (Hebreus 2:3), cuja grandeza inclui precisamente o adjetivo que aqui aparece: “eterna redenção” — lutrōsis aiōnia (Hebreus 9:12) e “herança eterna” — klēronomia aiōnios (Hebreus 9:15). O Antigo Testamento punha essa eternidade em linguagem de memória que não morre: “teu nome será lembrado em todas as gerações” (Salmos 45:17), porque o Rei-Messias não passa; e pedíamos, com Davi, um lavar que não fosse de superfície, mas de verdade no íntimo e de alegria restaurada (Salmos 51:6, 8) — sinais de uma obra que dura. O Novo Testamento põe as sílabas exatas: Deus nos concedeu “consolação eterna” — paraklēsis aiōnia (2 Tessalonicenses 2:16), e Paulo suporta tudo “por causa dos eleitos, para que alcancem a salvação… com glória eterna” (2 Timóteo 2:10). João aponta diretamente para a fonte dessa eternidade: “o seu Filho Jesus Cristo… é a vida eterna” (1 João 5:20); e Judas nos ensina a esperar “a misericórdia de nosso Senhor Jesus Cristo para a vida eterna” (Judas 1:21). Quando Hebreus 5:9 diz sōtērias aiōniou (“salvação eterna”), está nomeando a qualidade do dom que o Filho consumado agora causa.
Resta a última dobra — decisiva e muitas vezes esquecida —: “para todos os que lhe obedecem” — pasin tois hypakouousin autō (tradução: “para todos os que estão obedecendo a ele”). A mesma carta mostrou Abraão como paradigma: “pela fé, obedeceu” (Hebreus 11:8). Os profetas já ligavam ouvir e viver: “quem dentre vós teme o Senhor, obedeça à voz do seu Servo” (Isaías 50:10); “inclinai os ouvidos e vinde a mim; ouvi, e a vossa alma viverá; e vos farei aliança eterna” (Isaías 55:3). Zacarias amarra o cumprimento à obediência: “isto sucederá se diligentemente ouvirdes a voz do Senhor” (Zacarias 6:15). Jesus encerra o Sermão do Monte com uma parábola que é comentário perfeito de hypakouousin: quem ouve e pratica é casa sobre a rocha (Mateus 7:24–27). No Tabor, o Pai não deixa dúvidas: “este é o meu Filho amado… a ele ouvi” (Mateus 17:5). A igreja primitiva sabe que a obediência é dom e sinal: “o Espírito Santo, que Deus deu aos que lhe obedecem” (Atos 5:32). Paulo chama sua missão de “obediência da fé” — hypakoē pisteōs (Romanos 1:5, tradução: “obediência que brota da fé”). E denuncia o avesso: “ira… sobre os que não obedecem à verdade” (Romanos 2:8); “não obedeceram ao evangelho” (Romanos 10:16); “não ousarei falar senão do que Cristo operou por meu intermédio, para a obediência dos gentios” (Romanos 15:18). Ele descreve a conversão como êxodo interior: “obedecestes de coração à forma de doutrina” (Romanos 6:17). Em guerra de pensamentos, a meta é “levar cativo todo pensamento à obediência de Cristo” (2 Coríntios 10:5). E a mesma justiça de Deus “se revela contra os que não obedecem ao evangelho” (2 Tessalonicenses 1:8), enquanto Pedro descreve a santificação assim: “purificando as vossas almas pela obediência à verdade” (1 Pedro 1:22). “Tois hypakouousin” não é um adendo moralista; é o modo bíblico de dizer fé viva: quem crê, obedece; quem obedece, mostra que crê.
Agora, volte à sentença inteira e veja como tudo se junta sem costura aparente: o Filho, teleiōtheis (tradução: “consumado/consagrado”), egeneto (tradução: “se tornou”) aitios (tradução: “autor/causa”) sōtērias aiōniou (tradução: “de salvação eterna”) pasin tois hypakouousin autō (tradução: “para todos os que lhe obedecem”). Hebreus 2:10, Hebreus 11:40, Daniel 9:24, Lucas 13:32 e João 19:30 mostram como ele foi “aperfeiçoado/consumado” na história; Hebreus 12:2, Salmos 68:18–20, Isaías 45:22, Isaías 49:6, Atos 3:15 e Atos 4:12 mostram quem ele é agora — a causa e fonte única da salvação; Hebreus 2:3; Hebreus 9:12, 15; Salmos 45:17; Salmos 51:6, 8; 2 Tessalonicenses 2:16; 2 Timóteo 2:10; 1 João 5:20; Judas 1:21 definem a qualidade eterna desse dom; e Hebreus 11:8; Isaías 50:10; Isaías 55:3; Zacarias 6:15; Mateus 7:24–27; Mateus 17:5; Atos 5:32; Romanos 1:5; Romanos 2:8; Romanos 6:17; Romanos 10:16; Romanos 15:18; 2 Coríntios 10:5; 2 Tessalonicenses 1:8; 1 Pedro 1:22 descrevem o público dessa obra: os que obedecem ao Filho. É uma linha só, do berço ao trono: o Cristo consumado é o Cristo que salva para sempre — e o caminho de entrada nessa eternidade tem um nome antigo e sempre novo: obediência de fé.
Hebreus 5:10 fecha a ideia iniciada em 5:5–6 e prepara a virada exortativa de 5:11. O autor afirma que Cristo foi “designado por Deus sumo sacerdote segundo a ordem de Melquisedeque”. Cada termo pesa. Prosagoreutheis indica “ser chamado oficialmente, investido por nome”; não há autopromoção aqui, mas ato soberano de Deus, o mesmo ponto martelado logo acima: “o Cristo não se glorificou a si mesmo para se tornar sumo sacerdote” (Hebreus 5:5), e “tu és sacerdote para sempre segundo a ordem de Melquisedeque” (Hebreus 5:6). A palavra taxin (“ordem, arranjo, padrão”) aponta que o sacerdócio de Jesus não segue o molde aarônico, mas aquele pré-levítico, real-sacerdotal, que aparece em Melquisedeque. É por isso que, adiante, o autor repetirá que Jesus “entrou por nós… sumo sacerdote para sempre segundo a ordem de Melquisedeque” (Hebreus 6:20), e discutirá longamente que, “se a perfeição fosse pelo sacerdócio levítico… que necessidade haveria de outro sacerdote segundo a ordem de Melquisedeque?” (Hebreus 7:11), pois “tu és sacerdote para sempre” (Hebreus 7:17) não combina com uma linhagem que se interrompe pela morte.
Esse “segundo a ordem de Melquisedeque” nos leva de volta a Gênesis: Melquisedeque, “rei de Salém” e “sacerdote do Deus Altíssimo”, sai ao encontro de Abraão, abençoa-o e recebe dele o dízimo (Gênesis 14:18–19). Ali está, em embrião, um sacerdócio que abençoa (função de mediação), que não depende de genealogia levítica, e que se veste de realeza. Quando o Sinai estabelece: “o sacerdócio lhes será por estatuto perpétuo” (Êxodo 29:9), fixa-se a forma aarônica para a antiga aliança; mas Hebreus diz que Deus, ao designar o Filho — prosagoreutheis hypo tou theou (“nomeado por Deus”) —, não o colocou sob Arão, e sim sob o padrão mais antigo e mais alto de Melquisedeque. Por isso, todo o capítulo 7 desenvolverá o contraste e a superioridade: o Filho possui um sacerdócio indestrutível e juramentado.
E é justamente aqui que o autor sente a necessidade de frear e cuidar dos leitores. Por isso vem Hebreus 5:11: “sobre isso (peri hou, ‘a respeito disto’ — isto é, do sacerdócio ‘segundo Melquisedeque’), temos muito a dizer — polys hēmin ho logos (‘há muito discurso em nós’) — e difícil de explicar — dysērmenēutos legein (‘árduo de interpretar/explicar’) —, visto que vos tornastes — epei… gegonate (‘porque vos fizestes/viestes a ser’) — tardios na audição — nōthroi tais akoais (‘pesados/lentos para ouvir’).” A expressão nōthroi descreve uma mente preguiçosa, um ouvido sem apetite; akoē não é só o órgão, é o ato de ouvir com fé. O problema não está no assunto (embora seja profundo), mas na disposição de quem escuta.
A própria Escritura nomeia essa dificuldade. Jesus diz: “ainda tenho muito que vos dizer, mas não o podeis suportar agora” (João 16:12) — é o espelho de polys… ho logos (“muito a dizer”) e dysērmenēutos (“difícil [de suportar/explicar]”) não por obscuridade intrínseca, mas por imaturidade do ouvinte. Pedro, comentando as cartas de Paulo, admite que nelas “há algumas coisas difíceis de entender” (2 Pedro 3:16) — não para desanimar, mas para exortar a não torcê-las. E o próprio Jesus, ao longo do ministério, esbarrou constantemente na lentidão dos seus: “insensatos e tardos de coração para crer” (Lucas 24:25); “tendo olhos, não vedes? e, tendo ouvidos, não ouvis?” (Marcos 8:17–18, 21). É a radiografia de nōthroi tais akoais (“lentos para ouvir”).
Os profetas já haviam diagnosticado o mesmo: “engorda o coração deste povo, e pesados sejam os seus ouvidos” (Isaías 6:10), texto que Jesus aplica para explicar por que muitos ouvem e não entendem (Mateus 13:15) e que Paulo cita ao ver a resistência dos judeus ao evangelho (Atos 28:27). Em João 6, quando o discurso do Pão da Vida sobe de tom, muitos dizem: “dura é esta palavra; quem a pode ouvir?” (João 6:60). A reação não é intelectual apenas; é do coração. Nicodemos tropeça quando Jesus fala das “coisas terrenas” e pergunta como crerão nas “celestiais” (João 3:12). Em Corinto, Paulo reconhece limites: “dei-vos leite e não alimento sólido, porque ainda não podíeis” (1 Coríntios 3:2). Tudo isso prepara o sermão de Hebreus: o tema Melquisedeque é alimento sólido, mas os leitores andam de ouvido pesado.
Como sair desse atoleiro? A Bíblia aponta caminhos que dialogam com Hebreus 5:11. A rainha de Sabá veio a Salomão “com dificuldades [enigmas]” para prová-lo (1 Reis 10:1): há assuntos difíceis que exigem aproximação reverente e perguntas honestas, não desistência apressada. Jesus “sabia o que estava para fazer” ao testar Filipe (João 6:6): às vezes, Deus prova nossa audição para curá-la. E Jesus mesmo estabelece um ritmo pedagógico: “tinha muitas coisas a dizer” (João 8:26), mas deu na medida que os discípulos suportavam — não para mantê-los no raso, mas para puxá-los adiante. A resposta apostólica combina duas ordens: “aplica-te a apresentar-te a Deus aprovado, que maneja bem a palavra da verdade” (2 Timóteo 2:15) e “não vos torneis indolentes” — a mesma palavra do nosso versículo, nōthroi — “mas imitadores dos que, pela fé e paciência, herdam as promessas” (Hebreus 6:12). O perigo contrário é descrito por Paulo: “sempre aprendendo e nunca chegando ao conhecimento da verdade” (2 Timóteo 3:7); muita exposição, pouca assimilação — ouvido pesado.
Tudo isso volta a iluminar Hebreus 5:10–11. Se Jesus foi prosagoreutheis hypo tou theou archiereus kata tēn taxin Melchisedek (“designado por Deus sumo sacerdote segundo a ordem de Melquisedeque”), há um oceano de implicações sobre acesso, intercessão, juramento divino e permanência do sacerdócio que o autor quer nos ensinar. Ele tem polys… ho logos (“muito a dizer”), mas é dysērmenēutos (“árduo de explicar”) a ouvidos nōthroi (“lentos”). A solução não é simplificar a Cristo até caber na nossa preguiça; é curar a nossa audição: pedir ao Espírito um coração que ouve e obedece, acolher a palavra mesmo quando “dura”, sair do leite para o alimento sólido. Quando essa cura acontece, o tema “Melquisedeque” deixa de ser obstáculo e vira evangelho: o Filho, Rei e Sacerdote, investido por Deus, vive para sempre para interceder por nós — e nós, com ouvidos despertos, entramos com confiança onde Ele já entrou.
Hebreus 5:12 soa como um diagnóstico pastoral e, ao mesmo tempo, como um chamado amoroso à maturidade: “e, pelo tempo decorrido, já devíeis ser mestres; contudo necessitais de alguém que vos torne a ensinar os rudimentos dos oráculos de Deus; e vos haveis feito tais que necessitais de leite, e não de alimento sólido.” O autor não desiste dos leitores; ele os lembra de quem deveriam ser, mostra onde regrediram e abre a porta para avançarem.
“Pelo tempo, devíeis ser mestres” pesa como a frase de um pai que conhece a idade espiritual dos filhos. Já Jó intuía essa regra: “a multidão de anos deveria ensinar sabedoria” (Jó 32:7). Jesus encontra, tantas vezes, o mesmo atraso: “Ó geração incrédula, até quando vos sofrerei?” (Mateus 17:17; Marcos 9:19). O apóstolo, porém, mostra o que deveriam ser: uma comunidade capaz de admoestar uns aos outros, “cheios de conhecimento” (Romanos 15:14), “não meninos no entendimento” (1 Coríntios 14:20), antes “aprovando as coisas excelentes” (Filipenses 1:10). E é isso que didaskaloi (tradução: “mestres”) pede: não uma elite clerical, mas um povo que aprendeu a Palavra a ponto de ensinar. Esdras é modelo: “aplicou o coração para buscar a lei do Senhor, cumpri-la e ensinar” (Esdras 7:10). O salmista convoca: “Vinde, filhos, eu vos ensinarei o temor do Senhor” (Salmos 34:11). Paulo, prático, diz que prefere “cinco palavras com o entendimento, para instruir outros” (1 Coríntios 14:19), e manda: “a palavra de Cristo habite ricamente em vós, ensinando-vos e aconselhando-vos uns aos outros” (Colossenses 3:16). Até a pedagogia doméstica conta: mulheres mais velhas ensinando as mais novas (Tito 2:3–4). Tudo isso explica por que, “pelo tempo”, opheilontes (tradução: “devedores/obrigados”) “devíeis ser mestres”.
Mas o texto constata um retrocesso: “necessitais de que alguém vos torne a ensinar”. É duro ouvir “de novo” — palin chreian echete (tradução: “tendes de novo necessidade”) —, mas é terapêutico. A Bíblia sabe que, às vezes, é preciso repetir a cartilha: “a quem ensinarei a ciência?… preceito sobre preceito, regra sobre regra, um pouco aqui, um pouco ali” (Isaías 28:9–10); e quando o coração se embrutece, a mesma cartilha vira tropeço (Isaías 28:13). Paulo não tem vergonha de dizer as mesmas coisas “porque isso é segurança” (Filipenses 3:1). A meta, porém, não é ficar na base, e sim partir para a maturidade: “deixemos os rudimentos da doutrina de Cristo” (Hebreus 6:1). O autor de Hebreus não despreza o “ABC”; ele denuncia ficar preso ao “ABC”.
Quais são esses “rudimentos”? O versículo chama de ta stoicheia tēs archēs (tradução: “os elementos/ABC do princípio”), ligados aos “oráculos de Deus” — ta logia tou theou (tradução: “os oráculos de Deus”). “Oráculos” aqui não é palavreado místico; é a fala fiel de Deus confiada ao seu povo. Moisés recebeu no deserto “os oráculos vivos” para nos dar (Atos 7:38). Israel recebeu uma distinção objetiva: “lhes foram confiados os oráculos de Deus” (Romanos 3:2). Quando falamos, diz Pedro, devemos falar “como oráculos de Deus” (1 Pedro 4:11): não com leveza, mas com a gravidade de quem reproduz o que Deus disse. Até um traidor, como Aitofel, mostra o peso cultural disso: seu conselho era tido “como se fosse consultar a palavra de Deus” (2 Samuel 16:23) — quanto mais a própria Palavra! Se os “oráculos” foram confiados, como é que agora “necessitais que vos tornem a ensinar” o elementar do que já tinham? Aqui o texto ferve: o problema não é falta de informação, é perda de fome, é cansaço em ouvir.
Daí a metáfora que fere e cura: “leite” e “alimento sólido”. “Vos tornastes” — gegonate (tradução: “vos fizestes/vos tornastes”) — gente que precisa de galaktos (tradução: “leite”), não de stereas trophēs (tradução: “comida sólida”). Leite, por si, não é um mal; é dom de Deus. Deus chama: “vinde, comprai leite sem dinheiro” (Isaías 55:1). O recém-nascido deve “desejar, como crianças, o leite espiritual puro” — to logikon adolon gala (tradução: “o leite racional/da Palavra sem dolo”) — “para que por ele cresçais” (1 Pedro 2:2). Paulo mesmo disse aos coríntios: “dei-vos leite, não alimento sólido” — mas por quê? “Porque ainda sois carnais” (1 Coríntios 3:1–3). O leite é bom no início; é ruim quando vira estação eterna. O versículo seguinte (Hebreus 5:13) vai declarar que quem só toma leite é “inexperiente na palavra da justiça”; e a mesma carta exigirá que saíamos da infância para o crescimento. A imagem conversa com outro retrato da igreja: Cristo deu “pastores e mestres” para que “não sejamos mais meninos” agitados por doutrinas (Efésios 4:11, 14). O alvo do pastorado é o desmame bem-feito.
Tudo isso se explica por um ponto cego, antigo como o pecado: ouvidos pesados. Os profetas descreveram: “engrossa o coração deste povo, torna pesados os seus ouvidos” (Isaías 6:10). Jesus aplicou a geração do seu tempo: “o coração deste povo está endurecido, de ouvidos ouviram pesadamente” (Mateus 13:15). Aos discípulos, perguntou: “ainda não entendeis? ainda tendes o coração endurecido? tendo olhos, não vedes? e tendo ouvidos, não ouvis?” (Marcos 8:17–18, 21). No caminho de Emaús, Ele disse: “insensatos e tardos de coração para crer” (Lucas 24:25). Muitas vezes, os próprios discípulos confessam: “não sabemos” (João 14:5; 16:18). O resultado dessa surdez é conhecido: “dura é esta palavra; quem a pode ouvir?” (João 6:60). Hebreus, alguns versos antes, já diagnosticara: “lentos para ouvir” — nōthroi tais akoais (tradução: “preguiçosos/pesados no ouvir”, Hebreus 5:11). O remédio? Voltar a ouvir os “oráculos” e praticá-los, até que o ouvido se afine e a mão se fortaleça.
E o que significa, na prática, “devíeis ser mestres”? Significa acolher o encargo de ensinar e pastorear de acordo com o coração de Deus: “vos darei pastores segundo o meu coração, que vos apascentem com conhecimento e inteligência” (Jeremias 3:15); “não ensinará cada um a seu próximo…, porque todos me conhecerão” (Jeremias 31:34) — a meta da nova aliança é conhecimento interior, não infantilização. Os “sábios” “brilharão como o resplendor do firmamento, e os que a muitos ensinam a justiça, como as estrelas” (Daniel 12:3). O anjo pergunta a Zacarias: “Não sabes?” (Zacarias 4:13), como quem desperta o aluno que cochila na aula. Jesus repete: “ainda estais vós também sem entendimento?” (Mateus 15:16; Marcos 7:18). Paulo chama a igreja a acordar: “despertai para a justiça… alguns não têm conhecimento de Deus; para vossa vergonha o digo” (1 Coríntios 15:34). Ao mesmo tempo, põe diante dela a vocação: “fostes feitos aptos para admoestar uns aos outros” (Romanos 15:14). E lembra: ninguém deve ser posto como líder sendo “neófito” (1 Timóteo 3:6) — experiência confirma o princípio de Hebreus 5:12: tempo deveria produzir maturidade.
Roboão “era jovem e tenro de coração e não pôde resistir” (2 Crônicas 13:7): imaturidade abre portas a “homens vãos”. O salmista confessa: “tornei-me mais prudente do que os meus mestres, porque os teus testemunhos são a minha meditação” (Salmos 119:99): maturidade vem de ruminar os oráculos (logia) de Deus, não de colecionar slogans. E, no fim, a própria estrutura da igreja existe para isso: “pastores e mestres” (Efésios 4:11) a fim de que não permaneçamos “meninos” (Efésios 4:14), mas avancemos do leite ao sólido.
Voltemos, então, à sentença de Hebreus com o coração exposto: opheilontes (tradução: “devedores/obrigados”) — pelo tempo; didaskaloi (tradução: “mestres”) — vocação comunitária; ta stoicheia tēs archēs (tradução: “os elementos/ABC do princípio”) — base necessária, mas não morada; ta logia tou theou (tradução: “os oráculos de Deus”) — Palavra confiada para ser guardada, vivida e ensinada; galaktos e stereas trophēs (tradução: “leite” e “alimento sólido”) — o caminho do recém-nascido ao adulto. Jesus já havia suspirado sobre a nossa lentidão; os apóstolos já nos chamaram à maturidade; os profetas já denunciaram o ouvido pesado. Hebreus 5:12 apenas junta as vozes: voltem ao ABC para seguir adiante; bebam o leite para desmamar; ouçam os oráculos para ensinar; cresçam — porque, pelo tempo, a igreja deve ser um povo de mestres, não de eternos bebês.
Hebreus 5:13 põe o dedo numa ferida espiritual muito específica: “todo o que se alimenta de leite é inexperiente na palavra da justiça, porque é criança.” O termo-chave aqui é apeiros (tradução: “sem experiência, destreinado”): não se trata de alguém sem informação, mas sem prática. A “palavra da justiça” — logos dikaiosynēs (tradução: “mensagem que conforma ao padrão de Deus”) — não foi ainda ruminada até virar discernimento e musculatura. É por isso que o Saltério suspira: “os meus olhos desfalecem pela tua salvação e pela tua palavra justa” (Salmos 119:123): maturidade bíblica tem fome de um logos que endireita o interior. Paulo, em Romanos, desenvolve esse horizonte: a “justiça de Deus se revela de fé em fé” (Romanos 1:17) e a sua “ira se revela” contra toda injustiça (Romanos 1:18); Moisés descreveu a justiça “da Lei” (Romanos 10:5), enquanto o apóstolo expõe a justiça “da fé” (Romanos 10:6): sem mastigar esse logos que justifica e transforma, a alma permanece apeiros — debutante. Por isso ele dirá a Timóteo que “toda Escritura é soprada por Deus e útil… para a justiça” (2 Timóteo 3:16): é exatamente o que Hebreus chama de logos dikaiosynēs.
Mas o problema não é só doutrinário; é também postural. Isaías ri do coração que quer permanecer na creche eterna: “a quem ele ensinará o conhecimento? e a quem fará entender a mensagem?… preceito sobre preceito… um pouco aqui, um pouco ali” (Isaías 28:9–10). Jesus abençoa a humildade que recebe (Mateus 11:25) e diz que quem não receber o Reino “como criança” (Marcos 10:15) — paidion (tradução: “pequenino, dependente”) — não entra. Repare: dependência humilde não é o mesmo que nēpios (“infantil”), pois Paulo lembra que, quando virou homem, “deixou as coisas de menino” (1 Coríntios 13:11) e exorta: “não sejais meninos no entendimento” (1 Coríntios 14:20). Maturidade, na carta aos Efésios, é o oposto de ser “menino levado por todo vento de doutrina” (Efésios 4:14). Pedro, sim, manda “desejar, como meninos, o leite racional” (1 Pedro 2:2), mas para crescer — não para estacionar. É aqui que a diagnose de Hebreus 5:13 cola em nossa pele: quem só mama, mesmo ouvindo sermões e lendo textos, continua apeiros — “sem experiência” — no logos dikaiosynēs.
Esse retrato, curiosamente, tem ecos até nos bastidores bíblicos. “Jefté fugiu… à terra de Tobe, e juntaram-se a ele homens vãos” (Juízes 11:3): gente leve, instável, imagem viva de Efésios 4:14 — massa de manobra por falta de raiz. Eliseu despede Naamã com “vai em paz” (2 Reis 5:19): recém-nascido na fé, ele precisará de leite antes de qualquer ousadia — um lembrete pastoral de que desmame requer tempo. E quando Paulo alerta que não se ponha um “neófito” (1 Timóteo 3:6) no presbitério, está aplicando Hebreus 5:13 à liderança: quem ainda é nēpios (“criança”), apeiros (“sem experiência”), não deve carregar peso de adulto. Em suma: o “leite” tem seu lugar; o perigo é confundir berçário com destino.
O verso 14 completa a imagem com um convite robusto: “o alimento sólido é para os maduros, os quais, por causa do hábito, têm os sentidos exercitados para a discernir tanto o bem como o mal.” O grego é música e martelo ao mesmo tempo: tōn de teleiōn estin hē sterea trophē (“o alimento sólido é dos maduros/perfeitos”), tōn dia tēn hexin ta aisthētēria gegymnasmena echontōn (“dos que, por causa do hábito/prática — hexis —, têm os sentidos — aisthētēria — treinados — gegymnasmena”), pros diakrisin kalou te kai kakou (“para discernimento — diakrisis — do bem e do mal*). Teleiōn (tradução: “maduros, formados”) não quer dizer impecáveis, e sim plenos, treinados. É o “sede perfeitos” de Jesus (Mateus 5:48), o “falamos sabedoria entre os maduros” (1 Coríntios 2:6), o alvo de Efésios 4:13 (“varão perfeito”), o espírito de Filipenses 3:15 (“todos quantos somos maduros tenhamos este sentir”) e de Tiago 3:2 (“o que não tropeça no falar é perfeito”), todos dançando com o teleios de Hebreus.
Como se chega aí? O texto responde com três palavras. Primeiro, hábito — hexis (tradução: “disposição adquirida, hábito forjado”): maturidade não é lampejo, é ritmo. Segundo, sentidos — aisthētēria (tradução: “faculdades de percepção”): a Bíblia fala do paladar espiritual — “o ouvido prova as palavras como o paladar prova a comida” (Jó 12:11; 34:3; cf. 6:30), “quão doces são as tuas palavras ao meu paladar” (Salmos 119:103), “teu nome é unguento derramado” e “teu fruto é doce ao meu paladar” (Cantares 1:3; 2:3). Fala também da visão interior: “se o teu olho for simples, todo o teu corpo será luminoso” (Mateus 6:22–23), e Paulo ora para que os “olhos do coração” sejam iluminados (Efésios 1:18). Hebreus 5:14 chama essas faculdades de aisthētēria — Deus as treina nos santos. Terceiro, exercício — gegymnasmena (tradução: “exercitados, treinados com esforço”): a vida cristã é ginásio; “o exercício corporal para pouco é proveitoso”, mas “exercita-te na piedade” (1 Timóteo 4:7); a disciplina do Pai “exercita” para dar “fruto pacífico de justiça” (Hebreus 12:11).
E para quê tudo isso? Para discernir — diakrisis (tradução: “separar, decidir, provar”) — “o bem e o mal”. A Bíblia inteira honra essa capacidade. Desde o Éden, a serpente tentou usurpar essa distinção (Gênesis 3:5), mas Deus a restitui ao sábio: “dá, pois, ao teu servo um coração compreensivo para discernir entre o bem e o mal” (1 Reis 3:9, 11); a mulher de Tecoa reconhece em Davi um “ouvido para ouvir o bom e o mau” (2 Samuel 14:17). Isaías diz que o Menino messiânico “comerá coalhada e mel até que saiba rejeitar o mal e escolher o bem” (Isaías 7:15) — imagem de formação gustativa, como a de Hebreus 5:14. Paulo chama a igreja a provar e distinguir: receber “o débil na fé, não para contendas de opiniões” (Romanos 14:1, diakriseis subentendida), “que o vosso amor aumente… para aprovar as coisas excelentes” (Filipenses 1:9–10), “examinai tudo, retende o que é bom” (1 Tessalonicenses 5:21). Ele contrasta o “psíquico” que “não acolhe as coisas do Espírito… e não pode discerni-las” (1 Coríntios 2:14) com o “espiritual” que “discerni tudo” (1 Coríntios 2:15). E lembra que quem come e bebe “sem discernir o corpo” come e bebe juízo (1 Coríntios 11:29): sem diakrisis, até mesa vira tropeço.
As reverberações “de fundo” só reforçam o quadro. Davi velho confessa: “posso eu discernir o que como e bebo?” (2 Samuel 19:35) — perder o paladar é perder parte da vida; espiritualmente, é o alerta de Hebreus 5:13. Salomão escreve para “entender provérbios e enigmas” (Provérbios 1:6): diakrisis é parte da sabedoria. O Pregador fala de “grande experiência” (Eclesiastes 1:16) e de que o sábio “discernirá o tempo e o modo” (Eclesiastes 8:5): maturidade percebe ritmos de Deus. O Messias “não julgará pelos olhos” (Isaías 11:3): aisthētēria treinados não se deixam enganar por aparência. Jeremias aprende a “separar o precioso do vil” (Jeremias 15:19): é diakrisis pura. Jesus promete que, se o olho for simples, o corpo inteiro será “luminoso” (Lucas 11:36): sentidos luzidios. Paulo diz que “aprovas as coisas melhores” (Romanos 2:18). Epafras luta para que sejais “perfeitos e plenamente seguros” (Colossenses 4:12) — teleioi outra vez. E tudo isso converge no treinamento: “exercita-te” (1 Timóteo 4:7); a disciplina “exercita” (Hebreus 12:11). Até Cantares, com sua poesia de aromas (“teu nariz como torre”, Cantares 7:4), educa o olfato espiritual: amar o Noivo é afinar os sentidos.
Junte, então, as duas linhas. Hebreus 5:13 nomeia o risco: apeiros logou dikaiosynēs, nēpios — “sem experiência na palavra da justiça, criança”. Hebreus 5:14 oferece o caminho: sterea trophē tōn teleiōn… dia tēn hexin ta aisthētēria gegymnasmena… pros diakrisin — “alimento sólido dos maduros… por causa do hábito os sentidos exercitados… para discernimento”. A Bíblia toda corrobora: leite para começar, sim; mas hábito, sentidos e discernimento para viver. O Espírito, pela palavra da justiça, treina nosso paladar e nosso olhar, até que saibamos, como gente grande em Cristo, provar e aprovar — e aí, de verdade, comer sólido diante de Deus.
Índice: Hebreus 1 Hebreus 2 Hebreus 3 Hebreus 4 Hebreus 5 Hebreus 6 Hebreus 7 Hebreus 8 Hebreus 9 Hebreus 10 Hebreus 11 Hebreus 12 Hebreus 13
Bibliografia
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