2016/06/29

Estudo sobre Hebreus 1

Estudo sobre Hebreus 1

Estudo sobre Hebreus 1 

Índice: Hebreus 1 Hebreus 2 Hebreus 3 Hebreus 4 Hebreus 5 Hebreus 6 Hebreus 7 Hebreus 8 Hebreus 9 Hebreus 10 Hebreus 11 Hebreus 12 Hebreus 13

I. A REVELAÇÃO FINAL DE DEUS (1.1-14)
1) Prólogo (1.1-4)
Os primeiros quatro versículos de Hebreus constituem uma majestosa oração gramatical no grego, que de forma apropriada serve para anunciar o grande tema do autor: a transcendência de Cristo como revelador e redentor. Sua beleza e equilíbrio são provas suficientes de que não houve uma introdução epistolar original que agora estaria perdida.
A carta começa de tal forma que contrasta fortemente a revelação anterior com a nova revelação. Ao afirmar que Deus falou muitas vezes e de várias maneiras (v. 1), o autor indica que não somente era o AT diversificado, completo e inspirado, mas também que lhe faltou o caráter decisivo e final, que em nenhum momento do passado e por meio de nenhuma pessoa, profeta ou salmista, nem por meio deles todos juntos, Deus revelou completamente a sua vontade; enquanto por meio da expressão nestes últimos dias falou-nos (o verbo traz a ideia de “de uma vez por todas”), ele destaca a completude e perfeição dessa revelação que agora veio nesse estágio final do plano de Deus para a redenção (cf. Is 2.2; Dn 10.14). E há boas razões para fazer esse contraste entre as duas revelações como o autor deixa claro em seguida: a revelação antiga veio por meio dos (lit. ”nos”) profetas, mas a nova por meio do (“no”) Filho (v. 1,2). No primeiro caso, os profetas eram meras ferramentas humanas da revelação, nada mais; no segundo, alguém que é ele mesmo o Filho de Deus, possuindo sua natureza, é o meio pelo qual essa mensagem vem. Assim a superioridade da revelação de Deus em Cristo não se deve meramente ao fato de que veio por último ao final de uma era, mas ao “caráter transcendente da pessoa, da posição, do status e da autoridade daquele por quem e em quem ela veio” (Manson, op. cit., p. 89). Duas coisas devem ser observadas nesses comentários iniciais. Em primeiro lugar, o autor sublinha a unidade e a continuidade das duas revelações, que em essência não são duas, mas uma só que culmina em Cristo. O mesmo Deus fala nestes últimos dias assim como falou Há muito tempo. E, em segundo lugar, ele sugere que sempre que Deus se revela ao homem é principalmente por meio do homem que ele faz isso. ”Nos profetas” e “no Filho” são expressões que reforçam o princípio de que Deus transmite sua verdade por meio da personalidade humana.
No entanto, não é somente por meio de alguém que é filho entre muitos que Deus oferece sua revelação definitiva. A expressão por meio do Filho (v. 2), portanto, de forma inadequada transmite a intenção do autor nesse ponto. E verdade que no grego falta o artigo definido (e o pronome possessivo que a NIV em inglês acrescenta), mas essa omissão se deve ou à exigência rítmica da frase ou ao desejo do autor de destacar a qualidade dessa palavra definitiva do Filho. O contexto exige que seja traduzida por “seu Filho”, “um que é Filho” (B. F. Westcott, The Epistle to the Hebrews, 1889, p. 7), ou “o Filho”, pois ele deve ser considerado um Filho “incomparável e singular”. Que esse é o caso é demonstrado pelas diversas expressões que seguem imediatamente. Elas descrevem o Filho como (a) autor e alvo da criação, no fato de que ele é herdeiro de todas as coisas e a causa eficiente da sua criação, e como (b) ele mesmo sendo divino, no fato de que 0 Filho é o resplendor da glória de Deus e a expressão exata do seu ser (v. 3).
A palavra “esplendor” traduz o termo grego apaugasma, que também tem um significado ativo, “que irradia” (cf. tb. Sabedoria 7.24ss, em que essa palavra é usada com os significados combinados de “refletir” e ”irradiar”. O autor de Hebreus, sem dúvida, tinha conhecimento desse trecho). Por meio dessa palavra, o autor mostra a origem divina do Filho, sua semelhança com o Pai e ao mesmo tempo sua independência pessoal (Cf. Spicq, Comm. v. II, p. 7) — ele reflete ou irradia “a Glória”. [Observação: “de Deus” não está no texto grego. Visto que “a Glória” era associada particularmente a Deus na LXX, a expressão tornou-se substituta para se referir a Deus (cf. 2Pe 1.17). Talvez seja usada dessa forma aqui — “o Filho reflete (irradia) Deus”]. A construção a expressão exata do seu ser não acrescenta nenhuma ideia nova, mas amplia a anterior, definindo mais o relacionamento que existe entre o Filho e o Pai. Ele é a “exata representação do ser real de Deus”, e todas as características essenciais de Deus estão claramente focalizadas nele; quem viu o Filho viu o Pai também (cf. Jo 14.9). Isso, em conjunto com a declaração anterior, contém uma das reivindicações mais fortes da divindade de Cristo encontradas no NT (cf. tb. Jo 1.1-3; Cl 1.15). É fortalecida pela afirmação de que ele está sustentando todas as coisas por sua palavra poderosa (v. 3). Não se deve retratar, no entanto, o Filho como Atlas [filho de Júpiter, na mitologia romana. O equivalente ao filho de Zeus, na mitologia grega. N. do T.] que sustenta de forma estática o peso do mundo sobre os seus ombros, pois a palavra “sustentar” (lit. “carregar”, gr. pherein) contém não somente a ideia de “apoio”, mas também a de “movimento em direção a”. Assim, o Filho é descrito como alguém que mantém “o Todo” e o carrega e leva adiante para o seu alvo final.
Na última parte do v. 3, há uma breve referência à ideia que na verdade constitui o tema principal da carta: o sacerdote que fez a purificação dos pecados. O autor de Hebreus entende que o serviço sacerdotal é a atividade essencial do Filho e a verdadeira razão da sua vinda à terra. Isso se reflete até na forma do verbo que ele usa para descrever sua obra, embora a tradução obscureça isso. Quando ele fala acerca do início das eras (dos éons; gr. tous aiônas; NVI: universo; ARC: “mundo”), ele diz que o Filho as fez (gr. epoiêsen). Quando ele trata do tema da purificação dos pecados, emprega o mesmo verbo, mas lhe dá uma forma diferente — uma forma que sugere maior interesse ou envolvimento na ação por parte do sujeito (poiêsamenos). Essa ideia é refletida corretamente na tradução da ARC: “havendo feito por si mesmo a purificação dos nossos pecados”.
Junto com os temas básicos da redenção e da ressurreição, o da exaltação de Cristo à direita de Deus era um elemento essencial na pregação e no ensino apostólicos (At 2.34; Ef 1.20; Ap 3.21). Quando o autor de Hebreus afirma que o Filho se assentou à direita da Majestade nas alturas (v. 3), mostra que concorda com essa ênfase tradicional. Mas ao mesmo tempo ele usa essa afirmação para destacar o caráter definitivo da obra do Filho (cf. comentário de 10.12), e para mostrar que o Filho é ao mesmo o Messias prometido. [Observação: Essa expressão concernente à exaltação do Filho à direita de Deus é uma citação tomada de um salmo messiânico (SI 110).]
E possível que o v. 4 tenha sido causado por adoração de anjos por parte dos destinatários, mas não necessariamente. No AT como também em muitos livros apócrifos os anjos desempenham um papel muito importante. Eram vistos como criaturas muito próximas de Deus (Is 6.2ss), possivelmente até chamados de “filhos de Deus” (cf. Gn 6.2 com Jó 1.6; 2.1. Cf. tb. E. L. Sukenik, The Dead Sea Scrolls of the Hebrew University, pl. 53, fragmento 2,1.3). Eles eram também considerados mediadores da lei (At 7.53; G1 3.19; Hb 2.2). De qualquer forma, como o autor destaca, o Filho é superior aos anjos porque, bem à parte da sua “natureza eterna”, no seu papel humano ele obteve por meio da experiência (esse é o significado da expressão tornando-se) o que já era seu por personalidade — um nome [...] superior ao deles (cf. Fp 2.5-11).

2) Provas das declarações no prólogo (1.5-14)
De forma típica desse autor, apela-se ao AT agora para dar validade às declarações que fez. Para ele, o AT é inspirado por Deus e tem autoridade completa. Suas declarações são finais, não são necessários mais argumentos. Para ele, também, há um significado mais profundo no AT do que o histórico. É o significado cristológico. O Filho, que é o Cristo, é a chave que abre os verdadeiros tesouros das antigas Escrituras. Assim, ele se sente livre, na verdade compelido, a aplicar a Cristo a linguagem exaltada do AT, embora originariamente ela tenha se referido a outro. Por meio desse método exegético, é fácil a tarefa de estabelecer a validade das suas declarações acerca de Cristo.
Ele começa a demonstrar a sua declaração acerca da superioridade de Cristo em relação aos anjos com uma citação do salmo 2: Tu és meu Filho; eu hoje te gerei (v. 5). Historicamente, essas palavras podem ter sido cantadas a um monarca israelita no dia da sua coroação (cf. H. H. Rowley, ed., The Old Testament and Modern Study, 1951, p. 167). Mais tarde, porém, foram interpretadas de forma messiânica (cf. At 4.25,26; 13.33). E nesse sentido cristológico que o autor de Hebreus as usa para estabelecer o fato de que o Filho foi sempre o Filho (a expressão Tu és descreve um relacionamento essencial e contínuo com o Pai), mas que ele mesmo assim herdou esse título de Filho em algum momento na história (o hoje te gerei sugerindo um “tempo quando”. Cf. Lc 3.22; 9.35; Rm 1.4 acerca de possibilidades de quando isso ocorreu), e que ele é infinitamente superior aos anjos, Pois a qual dos anjos Deus alguma vez disse algo assim (v. 5)?
O autor continua amontoando provas ao acrescentar uma citação de 2Sm 7.14: “Eu serei seu Pai” (v. 5). Essas palavras foram dirigidas originariamente por Deus a Davi e diziam respeito a seu filho. Mas se alguma vez essas palavras foram verdadeiras em relação a Salomão, então são insuperavelmente verdadeiras acerca de Cristo. Aliás, para o autor de Hebreus elas encontram seu cumprimento definitivo nele. Essa passagem nunca foi aplicada de forma messiânica na literatura rabínica, mas agora há evidências dos rolos do mar Morto de que algumas comunidades judaicas o interpretavam dessa forma. O autor de Hebreus, no entanto, nunca se refere a Cristo como o Filho de Davi.
Ele continua sua demonstração ao combinar SI 97.7 com a leitura da Septuaginta de Dt 32.43. [Lembramos que a Septuaginta (LXX) é a tradução grega do AT hebraico, e em Dt 32.43 traz uma leitura mais longa do que a encontrada no texto massorético hebraico. Visto que não está no hebraico, não está nas versões baseadas nele, como em geral são as versões em português. Agora, no entanto, pela primeira vez há apoio para a leitura mais longa num texto hebraico pré-massorético encontrado na comunidade do mar Morto, em Cunrã (cf. F. M. Cross, The Ancient Library of Qumran, 1958, p. 182-3).] Sua combinação desses dois trechos resulta na ordem de que Todos os anjos de Deus o adorem (v. 6). A coisa interessante acerca dessa exortação é que tanto no salmo quanto no texto de Deuteronômio o “o” e o “dele” são referências ao próprio Deus. Mas, visto que o autor já deixou clara a comunhão de natureza que existe entre o Pai e o Filho, ele não tem receio algum de aplicar ao Primogênito o que foi dito originariamente acerca do Pai. A expressão “primogênito” é um termo técnico que quando aplicado aqui a Cristo pode significar que para o autor de Hebreus Cristo é anterior a toda a criação e soberano sobre ela (cf. o comentário de Lightfoot em Cl 1.15), ou pode significar que ele simplesmente queria dizer com isso o relacionamento de Cristo com os homens que também são chamados de “filhos de Deus” (2.10; cf. tb. Rm 8.29).
A prova final da superioridade de Cristo sobre os anjos vem de SI 104.4. Ao descrever os anjos como ventos e clarões reluzentes (v. 7), o autor chama atenção para sua “mutabilidade, materialidade e transitoriedade” (Westcott, Comm., p. 25), em contraste com as qualidades permanentes do Filho cujo trono subsiste para todo o sempre (v. 8). Em 2Esdras 8.21,22, se mostra por meio do paralelismo sinônimo que a interpretação da natureza dos anjos é correta: “Diante de quem as hostes angelicais estão com tremor: e diante de cuja ordem são transformados em ventos e fogo”.
O segundo conjunto de citações foi designado para fundamentar a afirmação do autor acerca do Filho como resplendor e marca da divindade (v. 8,9). Ele começa com uma citação do salmo 45 afirmando que as palavras desse salmo eram uma referência ao Filho: “O teu trono, ó Deus, subsiste para todo o sempre” (v. 8). Historicamente, é provável que esse salmo tenha sido escrito para o casamento de um rei israelita e cantado numa cerimônia dessas. Como era comum, o rei, em virtude de seu relacionamento íntimo com Deus como seu representante na terra, em certas ocasiões era transformado em recipiente na terra de atributos hiperbólicos como ’Elohim, “Deus” (cf. SI 82.6 com Jo 10.34; cf. tb. Rowley, op. cit., p. 167-8). O que era verdadeiro acerca do monarca hebreu antigo somente em virtude de seu ofício, o autor de Hebreus considera totalmente verdadeiro acerca de Cristo em virtude de sua natureza. A primeira parte dessa citação é ambígua no grego, de modo que alguns tradutores estão propensos a traduzi-la por “Deus é o teu trono” (cf. nota textual da RSV), mas está claro tanto com base no contexto de SI 45 como no de Hb 1 que o que se tem em mente aqui é o vocativo de saudação — “O teu trono, 6 Deus”. Há a mesma ambiguidade de construção no v. 9, de modo que a expressão Deus, o teu Deus [...] ungindo-te também pode ser traduzida por “Deus, o teu Deus, te ungiu” (cf. a tradução de Aquila do salmo hebraico; assim tb. a NEB). Essa unção ocorreu originariamente como recompensa pela equidade e justiça (v. 9). Visto que o autor de Hebreus agora aplica esse salmo a Cristo e porque ele entende que a vida de Cristo foi um período de “provação moral” (2.18; 5.8 etc.), é muito provável que ele identifique a unção de Cristo com sua exaltação — uma recompensa, sem dúvida, pelo cumprimento bem-sucedido da sua missão na terra (cf. 2.9). dentre os teus companheiros (v. 9) significa dentre todos os que receberam a unção real antes e desde então.
Finalmente, o autor estabelece a verdade de sua afirmação concernente à atividade criadora do Filho por meio de uma citação longa de SI 102.25-27 (v. 10-13). Originariamente, esse texto expunha o poder criador de Deus — “No princípio, Senhor, firmaste os fundamentos da terra, e os céus são obras das tuas mãos (v. 10), e suas qualidades eternas em contraste com as características transitórias da criação — “Eles [os céus] perecerão, mas tu permanecerás” (v. 11). Agora, no entanto, isso é aplicado ao Filho. O autor achou que era fácil fazer essa aplicação, porque na LXX, que ele usa continuamente, havia a inserção da palavra “Senhor” no texto — “Tu, Senhor, firmaste os fundamentos da terra...” — que não aparece no texto hebraico. “Senhor”, sem dúvida, foi o título que a era apostólica mais usou com referência a Jesus Cristo.
O autor leva ao clímax sua cadeia de citações do AT ao se referir novamente ao salmo 110 (cf. 1.3). Com isso, ele descreve Deus como entrando no conflito para enfrentar os inimigos do seu Ungido: “Senta-te [...] até que eu faça dos teus inimigos um estrado para os teus pés” (v. 13). Essa citação não tem a intenção de mostrar que o Filho é impotente e incapaz de travar suas próprias batalhas, mas, sim, de tornar clara a identidade de vontade que existe entre o Pai e o Filho, e o respeito que o Pai tem pelo Filho (Spicq, Comm. v. II, p. 2). Nunca se pôde dizer isso acerca de anjos, pois eles são meros espíritos ministradores enviados para servir aqueles que hão de herdar a salvação (v. 14). Com essa menção de “salvação”, o autor conclui a sua discussão concernente às dimensões cósmicas do Filho e avança para um novo tópico — o papel de Jesus na redenção no plano dos eventos históricos.


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