2016/06/27

Interpretação de Tiago 1

Interpretação de Tiago 1

Interpretação de Tiago 1 

I. Saudação. 1:1.
Tiago chama-se simplesmente de servo de Deus, e do Senhor Jesus Cristo. Seus leitores são as doze tubos que se encontram na Dispersão, uma designação simbólica para a igreja cristã considerada como o Novo Israel, com seus membros espalhados pelo mundo, em um ambiente estranho e hostil. Assim Tiago não tem em mente uma simples congregação mas a igreja toda espalhada pelo mundo mediterrâneo. Sua saudação (kairein) é a saudação típica encontrada nas cartas gregas e a mesma que foi usada na cana enviada da igreja de Jerusalém que Tiago presidia (Atos 15:23).
II. Provações. 1:2-8.
2. Tiago freqüentemente (pelo menos dezesseis vezes) dirigiu-se aos seus leitores chamando-os de irmãos. Ele e seus leitores sentiam-se ligados por uma lealdade comum a Jesus Cristo. Sua primeira palavra é de encorajamento – tende por motivo de toda a alegria .o passardes por várias provações. Uma tradução melhor seria, quando vos enfrentardes com ribas provações. A palavra peirasmos (“provação”) tem dois significados. Aqui significa “adversidades externas”, quando nos versículos 13, 14 ela significa “impulso intimo para o mal”, “tentação”.
3. O cristão deve se alegrar na provação e não por causa da provação. Havia uma grande necessidade nos tempos primitivos da igreja receber o ensinamento ao longo destas linhas, por causa das sucessivas ondas de perseguição. O fruto da perseguição é a perseverança (hypomone), ou melhor, resistência. James Moffatt (The General Epistles, pág. 9) chama-o de “o poder para suportar a vida”.
4. Esta resistência deve ter liberdade de ação (ação completa). É um processo que se desenvolve na vida do cristão, sendo a perfeição o seu alvo (teleios traduz-se melhor por maturidade). O escritor deveria ter em mente as palavras de nosso Senhor registradas em Mt. 5:48.
5-8. Parece haver uma ligação entre este parágrafo e o precedente. Tiago falava sobre o propósito da provação. Ele antecipa que alguns dos seus leitores dirão que não conseguem descobrir qualquer propósito divino em suas dificuldades. Neste caso, diz ele, devem pedir a Deus que lhes dê sabedoria, isto é, visão prática da vida (não conhecimento teórico), e Deus atenderá tal pedido liberalmente, (generosamente), e não os censurará nem os reprovará. Há, entretanto, uma condição estabelecida. O pedido deve ser feito com fé, em nada duvidando. O homem que vai a Deus com o seu pedido deve estar certo de que quer o que pede. Trago compara um homem que duvida com a onda do mar, impelida e agitada pelo vento. Tal homem “não pode esperar nada de Deus” (Phillips). Ele é um homem de ânimo dobre, isto é, um homem de fidelidade dividida. Ele faz reservas mentais sobre a oração em si mesma e sobre o que pede de Deus.
III. Pobreza e Riqueza. 1: 9-11.
9. Este parágrafo brota do comentário que Tiago faz sobre a provação. A pobreza é uma adversidade externa. O cristão pobre deve se regozijar em seu novo estado em Jesus Cristo. Este relacionamento deu-lhe verdadeira riqueza. Ele é um herdeiro de Deus e um co-herdeiro com Jesus Cristo!
10,11. Um cristão rico, por outro lado, deve se regozijar “porque em Cristo foi rebaixado a um nível onde 'os enganos das riquezas' (Mc. 4:19) e a ansiedade de amontoá-las e retê-las já não está mais em primeiro lugar e nem mesmo é alvo de considerações relevantes” (R.V.G. Tasker, The General Epistle of James, pág. 43). Mais ainda, as riquezas são temporárias. São como a relva verde e suas flores, que logo amarelecem sob o calor do sol da Palestina. Kauson (ardente calor) foi aqui usado simplesmente falando do calor do sol e não do siroco, o quente vento do deserto que sopra através da Palestina vindo do leste (cons. J.Schneider, TWNT, III, 644).
IV. Provação e Tentação. 1:12-18.
12. A recompensa para a fiel firmeza nas provações foi declarada em termos do presente e do futuro. O homem que se mantém firme é verdadeiramente feliz agora; mas também receberá a coroa da vida, a qual o Senhor prometeu aos que o amam. O genitivo (da vida) está em aposição à coroa. A coroa consiste em vida, um dom para todos aqueles que amam a Deus. Tasker (op. cit., pág. 45) comenta incisivamente que embora nem a nossa fé nem o nosso amor ganhe para nós a vida eterna, é entretanto “um axioma bíblico que Deus tenha abundantes bênçãos reservadas para aqueles que O amam, que guardam os Seus mandamentos e que O servem fielmente a qualquer custo. (cons. Mt. 19:28; I Co. 2:9)”.
13. Agora Tiago faz a transição para as provações internas, isto é, as tentações. A palavra tentação (E.R.C.) (v. 12) carrega a idéia de seduzir ao pecado. Tiago provavelmente tinha em mente a doutrina judia do Yetzer ha ra', “impulso do mal”. Alguns judeus arrazoavam que tendo Deus criado tudo, devia também ter criado o impulso do mal. E considerando que é o impulso do mal que tenta o homem ao pecado, em última análise é Deus, que o criou, o responsável pelo mal. Tiago aqui refuta a idéia. Deus não pode ser tentado pelo mal, e ele mesmo a ninguém tenta.
14. Em vez de acusar Deus pelo mal, o homem deve assumir a responsabilidade pessoal dos seus pecados. É a sua própria cobiça que o atrai e seduz. Estas são, no seu sentido primário, palavras usadas na caça e na pesca que foram empregadas aqui metaforicamente.
15. Quando o desejo do mal se levanta na mente, não pára aí. A cobiça dá à luz o pecado, e o pecado produz a morte. “A morte é assim o produto amadurecido ou terminado do pecado” (Moffatt, op. cit., pág. 19). A morte aqui é a morte espiritual em contraste com a vida que Deus dá àqueles que o amam (1:12).
16,17. O ponto que o escritor quer explicar é que Deus, em vez de ser a fonte da tentação, como alguns estavam defendendo, é a fonte de todo o bem na experiência dos homens. Tiago estava especialmente desejoso de que seus leitores o percebessem, e por isso dirigiu-se-lhes com ternura, meus amados irmãos. Pai das luzes é uma referência à atividade criadora de Deus. Um título desses concedido a Deus não era desconhecido ao pensamento judeu (cons. SBK, III, 752). Embora haja consideráveis dúvidas quanto à tradução correta da última parte do versículo 17, o significado é bastante claro: Deus é inteiramente consistente; Ele não muda.
18. Aqui o escritor chega ao clímax de sua refutação à idéia de que Deus é o autor da tentação. Ele já demonstrou que tal acusação é contrária à natureza de Deus (1:13) e à Sua consistente bondade (1:17). Agora ele apela para a experiência que seus leitores tem no Evangelho. J. B. Mayor (The Epistle of St. James, pág. 62) expõe habilmente o ponto alto deste versículo: “No que se refere a Deus nos tentando para o mal, Sua vontade é a causa de nossa regeneração”. Esses cristãos primitivos foram chamados de primícias porque foram a garantia de muitos outros que viriam.
V. Recepção da Palavra. 1:19-25.
19. Há uma conexão possível entre este parágrafo e o precedente. A forte admoestação para que todo o homem, pois, seja pronto para ouvir, tardio para falar, tardio para se irar pode ser uma referência à acusação que os leitores tinham feito contra Deus. Ou talvez seja simplesmente uma declaração generalizada sobre o ouvir e falar.
20. Quando um cristão dá evasão à ira, fica incapaz de agir com justiça; e além disso, ele não deixa lugar, ou pelo menos atrapalha, à vindicação da justiça divina no mundo.
21. Despojando-vos de toda impureza. Considerando que a Palavra é uma semente, deve ter um bom solo onde possa se desenvolver. “Acabem, então”, diz Tiago, “com a impureza e toda sorte de males” (Phillips). Acúmulo de maldade talvez seja uma sugestão de que apenas o excesso do mal deve ser abandonado. Entretanto, Tasker considera que acúmulo significa “resto”. “Cada cristão convertido traz consigo para sua nova vida, muita coisa que é inconsistente com ela. Isto tem de ser abandonado, para que possa entregar-se mais completamente à obra positiva da recepção com mansidão a palavra em vós enxertada, E.R.C. (Mais corretamente implantada, E.R.A.) (op. cit., pág. 51). Esta palavra é poderosa para salvar as vossas almas.
22. O Cristianismo é uma religião de ação. Por mais importante que seja o ouvir (cons. 1:19), não se deve parar por aí. O fazer deve seguir-se ao ouvir. Ser apenas ouvinte é uma forma de engano próprio.
23,24. O homem que ouve mas não faz é como uma pessoa que vê o reflexo de seu próprio rosto no espelho. “Ele se vê, é verdade, mas continua fazendo o que fazia sem a menor lembrança do tipo de pessoa que viu no espelho” (Phillips). Os tempos deste versículo são interessantes: contempla (aoristo), se retira (perfeito), esquece (aoristo). “Com o aoristo ele (Tiago) mostra que a impressão foi momentânea, e o esquecimento instantâneo; o imperfeito implica em condição contínua de ausência do espelho” (H. Maynard Smith, The Epistle of St. James, pág. 85).
25. O espelho, que revela as imperfeições do homem exterior, foi colocado agora em contraste com a lei perfeita, a lei da liberdade, que reflete o homem interior. Esta é a primeira referência à lei na epístola (cons. 2:8-12; 4:11). Tiago usa o termo para indicar o lado ético do Cristianismo, o didake, “ensinamentos”. Aqui ele chama a lei de perfeita. Compare Sl. 19:7: “A lei do Senhor é perfeita, e restaura a alma”. Tiago, na qualidade de judeu, escrevendo a judeus, está deliberadamente atribuindo a didake os atributos da lei. Para Tiago ela é perfeita porque Jesus Cristo a tornou perfeita. Lei da liberdade provavelmente significa que é uma lei que se aplica àqueles que têm o status da liberdade, não da lei, mas do pecado e do ego, pela palavra da verdade. O homem que olha para esta lei e adquire o hábito de fazer assim (parameinas) transforma-se em operoso praticante e encontra a verdadeira felicidade (será bem-aventurado no que realizar).
VI. Verdadeira Religião. 1:26, 27.
26. O autor agora vai do “não ouvir mas fazer” mais generalizado, para o “não simplesmente adorar mas fazer” mais específico. A palavra religioso (threskos) significa “dado às observâncias religiosas”. Neste contexto ela se refere à freqüência aos cultos e a outras observâncias religiosas, tais como a oração, esmolas e jejum. Um homem que é escrupuloso nestas observâncias, mas fracassa no controle de sua fala na vida diária engana-se a si mesmo, e a sua religião é vã (Moffatt, fútil).
27. “Esta não é uma definição de religião, mas uma declaração . . , do que é melhor do que os atos de adoração exteriores. Tiago não pretendia reduzir a religião à uma pureza negativa de conduta suplementada por visitas de caridade” (James H. Ropes, The Epistle of St. James, pág. 182). Uma vez que os órfãos e viúvas não tinham assistência na sociedade antiga, eram exemplos típicos daqueles que precisavam de ajuda. Além da caridade amplificada, a manutenção da pureza pessoal é outro meio pelo qual a verdadeira religião se expressa. O mundo aqui e em 4:4 refere-se à sociedade pagã que se opunha, ou pelo menos ignorava, a Deus. 



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